11 novembro 2008

Carta para Machado



São Paulo, 11 de outubro de 2008
Prezado Machado,

Acabei de finalizar o meu primeiro livro. É um livro de crônicas. Consta que o senhor é reconhecido como um dos primeiros cronistas brasileiros. Isso me dá a liberdade de lhe escrever, sem constrangimentos, uma vez que somos colegas de gênero. Como colega, solicito um favor especial: gostaria que escrevesse uma apresentação para colocar na contracapa do meu livro. Seria de enorme honra e grande privilégio, uma vez que já procurei na livraria e não encontrei nenhum livro onde apresenta algum escritor e a respectiva obra. Serei o único.
Quando o leitor entra na loja disposto a adquirir alguma obra, primeiramente é atraído pela capa ou pelo nome do autor. Embora tenha escolhido um nome polêmico, ainda sou desconhecido, então a capa é fundamental, por isso pedi ao editor para criar a capa com um vermelho forte e colocar a palavra sexo bem grande. Dizem que isso vende muito. Evito imagem, pois a palavra em si atrai homens e também mulheres. Depois que o promitente comprador (eu também conheço palavras pouco usadas) for atraído pelo sexo, irá virar o livro e ler a apresentação. É aí que preciso das suas palavras e sua assinatura.
Entendo que a contracapa é um dos principais itens de persuasão na venda ao leitor. Muito mais importante que as orelhas. O senhor poderá guardar e, no futuro, mostrar orgulhosamente aos seus filhos esse livro. Aparecer no verso de um livro conta mais pontos no currículo que um simples recorte de jornal. Sabia?
Embora eu seja um pouco desentrosado com a turma que lê e adora poemas, sei que Machado de Assis é bem conhecido no meio literário, tanto que, recentemente, o seu aniversário, me contaram, foi notícia em programa de televisão. Procurei pelos títulos dos seus livros entre os mais vendidos numa revista semanal, infelizmente não o encontrei entre os primeiros cronistas. É básico apertar a sua editora e cobrar a assessoria de marketing. Sei lá, precisa aparecer no Jô Soares, no Serginho Groisman ou ser entrevistado pelo Faustão. A salvação é que, de acordo com as minhas pesquisas, no prédio onde moro, descobri que quase todos já ouviram falar do seu nome alguma vez. Isso é o que importa. O senhor é famoso por aqui. Isso não é bacana?
Quando for escrever a apresentação não precisa ser prolixo como nos seus romances, basta uma lauda, só há espaço para uma página e ainda precisa deixar lugar para o código de barras. Para o senhor, deve ser muito difícil fazer um texto enxuto, caso se exceda no tamanho, não se preocupe, pedirei ao editor para enxugar e cortar o supérfluo. Acredito que alguns elogios a meu respeito valorizem a obra e atraiam alguns compradores. Fique à vontade para elogiar. Pode inventar. Abuse. Dizem que tem muita criatividade. Mas, se faltar inspiração, sugiro que escreva que o cronista é de origem humilde, que só aprendeu a escrever aos doze anos de idade. Que o autor ganhava dinheiro lavando carros sob o sol quente e que entre um e outro automóvel escrevia à mão, sentado num caixote de madeira. Diga que me descobriu quando perdi meu caderno no seu possante. As pessoas ficam comovidas e compram. Em relação à minha escrita comente que a complexidade da leitura da obra cumpre um papel essencial e acarreta um processo de reformulação nas teorias literárias. Ou: é fundamental ressaltar o novo modelo estrutural aqui preconizado e que nos obriga à análise dos conceitos de formação de novos leitores. Encontrei essas magníficas frases em um manual que ensina oradores a discursar. A lista de frases é extensa, se precisar, posso transcrevê-las. É só pedir.
O editor disse que é importante ser apresentado por alguém renomado, pois agrega valor à obra. Logo pensei em alguns personagens famosos como o Ayrton Senna, Elvis Presley ou mesmo o Ghandi, já ouviu falar, né? Só depois o editor informou que deveria ser alguém da área das letras. Imediatamente lembrei e sugeri o Morse, aquele do código. Foi rejeitado. O editor parece estar perdido. Toda hora quer uma coisa diferente. Finalmente explicou que o ideal seria alguém famoso da área de letras e com vários livros publicados. Pensei no autor do Dom Quixote, mas eliminei Cervantes porque só escreveu esse livro famoso. Depois, sem dúvidas, escrevi uma carta para William Shakespeare (se pronuncia uíliam) solicitando escrever a contracapa. Quando eu estava a caminho para a agência dos correios, encontrei um amigo que alertou que o tal do William não iria responder a carta por não falar português. Desisti do inglês. Só sobrou seu nome.
Ah, antes de finalizar, gostaria que enviasse também uma foto colorida. Suas fotos sempre são muito sérias, procure uma mais alegre, com um sorriso grande em que apareçam os dentes. E, em vez daquela roupa de casamento prefiro que esteja de bermuda para combinar com o meu livro de crônicas descontraídas.
O lançamento será daqui a três meses, no bar do Tião das Codornas. O lugar é ótimo para vender. É muito movimentado. Se quiser, posso pedir para arrumarem uma mesinha onde poderá vender os seus livros. Se não vender nenhum, ao menos tem a chance de sair de lá com uma namorada.
Por favor, responda logo para não atrasar a edição.

Um abraço do seu colega,

Cid Cheldom

8 comentários:

Klotz disse...

Postei a carta ao Machado no correio e também na Comunidade Orkutiana “Bar do escritor”. Os comentários seguem abaixo:

Muryel - hahahaha... Machadão por dentro dos lances, Elvis e tais.
Bacana o exercício, tem a ver com os temas lançados? pois Larissa também me mostrou um legal dentro da perspectiva.
Bom, Klotz.

Klotz - Sim Muryel. Tem tudo a ver.
Este foi mais um texto produzido para o "Desafio dos escritores" no qual estou participando com a Larissa. Éramos 30 concorrentes, no momento somos apenas 6. Cada semana são eliminados os piores da rodada.
Este é o link: vide em "desafio dos escritores 2"
http://literaturadecamara.sites.uol.com.br/


Juliano Guerra - Esse texto DEVE, obrigatóriamente, vencer a rodada. Não, não conheço os outros textos.
Mas esse é obra-prima.
Tiro o chapéu, Klotz. Comentar qualquer aspecto seria supérfluo, portanto me atenho ao pedido: fique famoso e tome o lugar do bunda mole do Veríssimo.

Juliano Guerra - Eu acentuei "obrigatoriamente", releve.

Cristiano - Huahuahauhauhauhau
Maravilhoso. A parte do "uíliam" foi de matar, muito, muito bom mesmo.
Tô com o Juliano; ainda não vi os outros textos, mas esse merece porque merece o primeiro lugar. E tenho dito.
ficanapaz

Larissa - infelizmente não foi o Klotz que ficou em primeiro, e para aumentar a minha tristeza fiquei em último!

Zeca - Esse aqui foi engatilhado no urtemo sarau de 5a. Mas como se vê, é de 1º.

Zeca - Vou falar uma coisa: esse sitezinho deles tá de lascar, hein. Fico perdido só de olhar.

Larissa - kkkkkk, tudo cor-de-rosa!!!

Juliano Guerra - Esse texto DEVE, obrigatóriamente, vencer a rodada. Não, não conheço os outros textos.
Mas esse é obra-prima.
Tiro o chapéu, Klotz. Comentar qualquer aspecto seria supérfluo, portanto me atenho ao pedido: fique famoso e tome o lugar do bunda mole do Veríssimo.

Juliano Guerra - Eu acentuei "obrigatoriamente", releve.

Klotz disse...

Cristiano - Huahuahauhauhauhau
Maravilhoso. A parte do "uíliam" foi de matar, muito, muito bom mesmo.
Tô com o Juliano; ainda não vi os outros textos, mas esse merece porque merece o primeiro lugar. E tenho dito.
ficanapaz

Larissa - infelizmente não foi o Klotz que ficou em primeiro, e para aumentar a minha tristeza fiquei em último!

Zeca - Esse aqui foi engatilhado no urtemo sarau de 5a. Mas como se vê, é de 1º.

Zeca - Vou falar uma coisa: esse sitezinho deles tá de lascar, hein. Fico perdido só de olhar.

Larissa - kkkkkk, tudo cor-de-rosa!!!

Zulmar - Que beleza de texto. Não sei o que é mais divertido: o certo desdém com que "Cid Cheldom", aspirante a autor de best-sellers, trata o velho Machado ou as dicas de como vencer no mercado editorial sem fazer força.
Parabéns pela "missiva".


Robertón - Prezado Sr. Cheldon
Prolixo é a @#$!
Assis

Xará, bacunuda até o umbigo, por dentro e por fora!

Klotz disse...

Klotz - A carta a Machado é ficcional. Qualquer semelhança com escritores vivos ou mortos é mera coincidência.
Há um escritor (de auto-ajuda) da atualidade que descobriu em quais livrarias a Veja faz a pesquisa para indicar os mais vendidos. Não teve dúvidas: foi até lá, comprou várias centenas dos próprios livros durante algumas semanas. Primeiro apareceu na relação depois escreveram a crítica do livro e aí estourou em vendas. E o homem já está no quinto ou sexto livro com a mesma tática.

Muryel – “Se quiser, posso pedir para arrumarem uma mesinha onde poderá vender os seus livros.”
rs.

Larissa - Diga aí a livraria, quem sabe a gente usa a mesma tática!

Zeca - Auto-ajuda é ter muito dinheiro pra fazer mais dinheiro.


Véio China - Belo texto mestre Klotz.
Sempre textos de qualidade indiscutível.
Uma constante por aqui.
Parabéns!

Jarbas - Grande sacaneada no Machado, hehe.

Barbara Leite - já tava cheio de surpresa, leio quem assina a carta. huahauhauhauhau
Ótimo Mestre!

Sonos -Tivemos a honra de ver o Klots declamar duas vezes essa carta no sarau de quinta! Maravilha!

Klotz disse...

TAmbém recebi o seguinte pedido de Alexandra:

Klotz:
li a sua "Carta", postada lá no Bar do Escritor.
Queria fazer um pedido: poderia postá-la no Blog da Madame, obviamente, citando autoria e link para qualquer uma de suas páginas pessoais?
Às sexta-feiras, publicamos textos de leitores sobre o ofício do escritor. Seu texto é absolutamente genial e creio que inspirará muitos outros.
Por favor, olhe o site e me responda. E, se não quiser, ok... já virei sua fã mesmo!!! www.madamelivro.com

o blog da madame fica na página:

www.madamemelivro.com/page1.php

Obrigada.

Ana Cristina Melo disse...

Olá Roberto!
Gostei muito desse seu texto. Achei muito interessante essa proposta da "Literatura de Câmara". Essa iniciativa é voltada para os funcionários públicos da Câmara ou ao público em geral?
Sou funcionária pública no Rio, e achei a idéia muito boa.

Parabéns pelo primeiro lugar no Prêmio Cataratas. Se ainda não sabia, o resultado está em um dos meus blogs, o FiccaodeGaveta.

Não se esqueça de publicar um belo post sobre a premiação. Pena que não dá para eu ir receber meu certificado de participação (fiquei em sétimo).

Muryel De Zoppa disse...

repassando prapreciação.

Rogers disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rogers Silva disse...

de fato é mto engraçado/irônico.
eis uma grande qualidade num escritor - conseguir fazer o leitor rir, e vc conseguiu com esse texto.

 
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