22 julho 2011

Carta a Mercedes Sosa

Querida Mercedes,



São Paulo, 3 de julho de 2008



Descobri que seu aniversário está próximo e quero parabenizá-la. Amo-a. Que suas vozes jamais se calem. A que canta e a que mostra caminhos. Espero que meus votos cheguem a tempo. Graças à Internet não existem mais segredos. Descobri a data do seu nascimento e também seu endereço, mas não o seu e-mail.

O dia 9 de julho e a canção Todo cambia são simbólicos para mim. Falam sobre mudanças. Em 72, no final da adolescência, acompanhando meus pais, troquei Piracicaba por São Paulo. Apesar das mudanças, o cigarro me acompanhou. Foi difícil trocar rotinas por surpresas, caminhos percorridos por ignorados, amigos por desconhecidos. O tempo passou. Acostumei-me ao novo lugar. O destino me formou médico e disse que eu deveria me casar e constituir família. Cumpri à risca. Vivi momentos maravilhosos. Alcancei vitórias fantásticas.

O destino jamais me perguntou se eu era feliz.

O cigarro era meu confidente e companheiro na angústia e na insatisfação. A tristeza cresceu a ponto de a depressão se apossar de mim.

Um dia, guiando na estrada, ouvi Todo cambia. Para mim sempre foi uma melodia forte, com a cadência bem marcada. Jamais havia prestado atenção na letra.

Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo

Aquilo mexeu comigo. Voltei a música diversas vezes. Horas depois voltei à depressão. Pensei em prédios altos, em gás de cozinha, em aquisição de revólver.

Um dia, ainda de manhã, na sala de cirurgia, discuti com o chefe. Um alcoólatra prepotente. Abusando autoridade queria me obrigar a assumir falhas cometidas por ele. Naquela época eu ainda não conhecia o significado de assédio moral. Por muito pouco não houve agressão física. Eu me esquivei.

É óbvio que saí do hospital, perdi o emprego e mergulhei mais fundo na depressão. Dias depois, a esposa me chamou de perdedor e perguntou se eu ficaria em casa, largado, sem reagir. Mastiguei o desaforo por um dia. Pedi a separação de um casamento que já não existia. Na mesma semana, fiz um contrato comigo mesmo. Ficaria um ano sem fumar. Toda vida sem fumar seria demais. Dei outro basta naquilo que não queria.

Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Assim como tudo muda, que eu mudasse não seria estranho.

Foi muito difícil. De um livro de autoajuda selecionei frases. Com medo de engordar, permutei o cigarro por água e cenouras. Caminhei e me exercitei. Nas caminhadas, repetia as frases escolhidas como se fossem mantras. Mudei o olhar do chão para o céu. Caminhei ereto. Troquei carranca por sorriso. Acreditei ser possível um novo começo.

Fiquei sozinho numa casa imensa. Sem mulher. Sem filhos. Sem empregada. Sem máquina de lavar roupa. Poucos móveis. Sem tristeza, com imensa vontade de viver. Precisei aprender a cozinhar, a lavar roupa, a limpar banheiro. Desfiz-me de tranqueiras acumuladas e arrumei armários internos. Reencontrei a minha gaita com a poeira de Piracicaba.

Meu primeiro trabalho foi como corretor de imóveis. Combinei com a ex-esposa a minha parte na corretagem da nossa casa. Finquei faixas nas ruas, criei site, bolei folder e anunciei no jornal. Eu era corretor 24 horas por dia. Enquanto fazia plantão, pintava, retocava e jardinava. Enfeitei com plantas os vazios dos móveis sumidos na separação. Minha meta para venda foi de três meses. Vendi em exatos 90 dias, à vista com preço acima do mercado. Venci. Minha autoestima explodiu.

Corretor vende e compra. Enquanto estava na fase ruim, afirmaram que eu moraria num quartinho escuro, em cima de uma mercearia, cheirando a mofo e com vista para oficina. Visitei mais de 100 imóveis. Com dinheiro na mão, alucinei ao encontrar espaço janelado com sol da manhã e perfume de limpeza. Venci de novo.

 
Passado um ano, renovei meu contrato particular e fiquei outro ano sem fumar. Eu sabia o que não queria, ainda precisava descobrir o que queria. Fui vendedor em uma galeria de arte moderna. Traduzi prospectos e manuais para uma empresa de ar condicionado. Gerenciei uma revenda de automóveis chamando todas as responsabilidades para mim. A empresa saltou no mercado.

Enterrei minha depressão num funeral simbólico, brindando a vida.

Num sábado de folga, fui até o salão de vendas, instalei um microfone, caixa de som e ousei tocar minha gaita. Comecei manso num cantinho. No décimo sábado, fui presenteado pelo dono da concessionária com um palco. Eu me encontrei na música. Tive coragem de tocar em barzinhos. E, como uma espécie de trilha sonora da minha personagem, no auge da noite sempre tocava Todo cambia.

Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Lancei dois discos. Estou finalizando o terceiro com minhas melodias: Tempo é gaita. Ministro oficinas de harmônica. Faço shows Brasil afora. Recebi um convite para tocar no Festival de Montreux. Todo cambia é meu hino.

Mudei atitudes, posturas, relacionamentos. Uma das coisas que aprendi nas minhas mudanças foi justamente externar elogios ou comentários quando antes eu silenciava. No seu aniversário agradeço o presente que você me deu. Obrigado, Mercedes Sosa, você me salvou para a vida.

Com um abraço carinhoso e apertado,

 
Raul da Gaita


Participei de um Desafio de Escritores promovido pelo Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados onde precisávamos escrever uma carta semanalmente. Na última semana a destinatária escolhida foi Mercedes Sosa. Com este texto ganhei o concurso.  

2 comentários:

Valdir Luciano disse...

Deliciei-me com as palavras. Sua escrita é ótima!

E o Blog é muito bonito.

Meus parabéns!

Abraços!

Klotz disse...

Obrigado, Valdir.
É bom receber elogio de alguém que é da área de escrita.
Abraços.

 
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