06 novembro 2012

Nasce uma constelação




Enquanto me ensaboo, lembro que o tio Alfredo me levou para a escola no meu primeiro dia. Eu me lembro bem, ganhei balas e uma boneca, a Doris.

Eu adorava brincar de ciranda, cavar buracos e construir castelos na areia. Como era bom passar o anel. Minha brincadeira predileta era Corre, cotia, na casa da tia. Corre, cipó, na casa da vó. Lencinho na mão, caiu no chão. Moça bonita do meu coração. Posso jogar? Ninguém vai olhar?

Foi a época mais feliz da minha vida.

O tio me levava e buscava na escola. Ele estava desempregado e à tarde lia histórias para mim. Histórias de cachorros e gatos. Histórias de montanhas e rios. Histórias de príncipes e princesas. O tio latia e miava. Subia nas pedras e nadava. Um dia mostrou como o príncipe beijava a princesa.

Preciso me esfregar bem.

Quando eu fecho a torneira peço para as lembranças irem para o ralo, junto com a água.

Basta eu entrar no chuveiro e eu me recordo quando a minha mãe, pela primeira vez, pintou as minhas unhas de vermelho. Fiquei muito saltitante. Mamãe disse que os homens gostam muito de unhas vermelhas. Que são atraídos pela cor. Que fora assim que conquistara o tio Alfredo.

No dia seguinte, depois da aula o tio contou outra história. História de guerreiro. Pediu que eu segurasse com as minhas mãos a sua espada. Disse que eram as mãos mais lindas que já vira.

Estou tão suja. Passo a esponja nos braços e nas pernas.

Era o tio que fazia o café de manhã. Ele escovava meus cabelos, amarrava uma fita cor-de-rosa, escolhia uma laranja ou banana para a minha lancheira e me deixava na escola. Quase sempre fazia o almoço, sabia que eu gostava de batatas fritas.

Quando a água morna toca as minhas costas, percebo as mãos do tio deslizando em cima de mim. Como estou suja.

Um dia eu falei para minha mãe que o tio trocara de roupa na minha frente. No mesmo dia, o tio bateu em mim pela primeira vez. Ele arrancou a perna da Doris e disse que faria a mesma coisa comigo se eu falasse do nosso segredo para qualquer outra pessoa.

Fiquei muda durante uma semana.

Nunca falei do tio para ninguém.

Abro um pouco mais a torneira de água quente.

O tempo passava e o tio sempre queria fazer aquilo. Todos os dias fazia aquilo. Só depois eu podia brincar ou estudar na casa da Fê. À noite, quando mamãe chegava do trabalho, o tio era um doce.

Eu queria morrer. Eu queria ser uma estrela no céu. Eu tinha medo de apanhar. Eu não sabia como morrer.

Sempre foi assim. Estava suja. Precisava do banho. Ainda preciso do banho, mesmo agora que já me aposentei.

Um dia, eu devia ter 35. Não, 36. O Brasil ganhara a Copa naquele dia. Eu me lembro da manchete no jornal do dia seguinte. Ainda bem que não escreveram nada sobre aquela menininha.

Eu a vi no ônibus. Devia ter sete anos, olhos tristes, uma blusinha branca e unhas com esmalte vermelho. Fiquei chocada. Será que a história se repetia? Desci na mesma parada e segui as duas. Mãe e filha. Reparei bem a casa em que elas entraram. O portão se fechou e eu fiquei do outro lado da rua pelo menos uns 20 minutos pensando em quem estaria fazendo aquilo com a menininha dos olhos tristes.

Voltei no dia seguinte, determinada a ajudá-la. Levei um chocolate com estriquinina na minha bolsa. Confirmando minha suspeita ela surgiu no portão segurando uma boneca sem uma das pernas. Quase vomitei. Lembrei-me do meu pavor por outra surra e que não sabia como fazer para morrer. Dei-lhe o chocolate. Agora ela seria uma estrela.

Quanta sujeira. Não há xampu que lave meu corpo imundo.

Anos depois eu estava na mercearia e observava uma menina com cabelos cacheados presos por uma fita rosa. Por instinto olhei suas mãos e vi unhas de esmalte vermelho. Senti náuseas.

No mesmo dia dei-lhe um chocolate recheado de raticida. Foi a segunda estrela.

Fecho a torneira de água fria. A água está pelando. Quero ferver meu corpo para tirar as impurezas.

Houve outros chocolates. Muitos chocolates. Muitas meninas de unhas vermelhas. Aqui, na minha cidade ou em outras. Nem sei quantos chocolates distribuí. Por piedade, nem sei quantas estrelas fiz nascer.

Eu me lavo e continuo impura.

Estou com ânsias.

Hoje vi minha netinha de unhas vermelhas.

2 comentários:

Francine Figueiredo disse...

Nossa, Klotz, li o texto com a respiração suspensa... Vc saiu da sua "zona de conforto" e foi muito bem sucedido. Excelente texto!

Klotz disse...

Obrigado, Fran. Definitivamente este assunto não é confortável como o bom humor.

 
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