11 abril 2017

Prezado Sr. J. L. Borges,

Recanto das Emas – DF, 3 de abril de 2017

Estou escrevendo esta carta porque a professora mandou. Disse que se a gente nunca ouviu falar no seu nome, era pra gente pesquisar.
O Borges que eu conheço é o cara do açougue perto de casa. Sei lá se é J. L. Borges, R. M. Borges ou T. T. Borges. Sei que a balança dele é delirante e a carne é fantástica.
Por sorte, a Leninha, maior nerd da turma, na mesma hora falou que já tinha lido seus livros O Zahir e O Aleph. Disse também que tu é o bonzão da literatura argentina.
Ela me deu todas as informações que eu precisava. Incluindo a principal. Tu morreu. Tá morto. E aí está a questão. Eu não levo um lero com o meu cachorro. Acho bizarro trocar ideias com plantinhas. Num falo sozinho. Agora a professora quer que eu escreva prum morto? Eu nem sei escrever argentino. Tá maluca.
Seria maneiro digitar para um morto-vivo como aquele personagem do Machado de Assis, que eu não me lembro o nome.
       Mas não, ela quer que eu escreva para J. L. Borges. Uma carta e não um Whatsapp. No hospital te deram alta celestial. Cê está longe, do outro lado da nuvem.
       Eu tou na bad, precisando de nota. Se eu digitar em vez de escrever posso levar chumbo. Minha letra é feia como um ET. Espero que ela leia e não rabisque antes de levar a carta pessoalmente.
       Hahaha, ela diz que sou maldoso.
       Por via das dúvidas, vou escrever a carta. Mas vou colocar num envelope e colar. Acho que ela num vai poder abrir porque seria violar direitos. Pelo menos entendi que o prof Leandro disse que o sigilo da correspondência é inviolentável. Vai ser comédia.
       Então agora, J. L. Borges, o papo é nós dois.
       A Leninha disse que tu acharia massa saber que ainda falam de você, depois de tanto tempo na cova. Ela disse que você manja dos paranauê fantásticos. Que você saca das coisas dos monstros do bem e dos monstros do mal. Sabe tudo de leão com asa, de mulher com cobra na cabeça, de pássaro de fogo que morre e vive, morre e vive, morre e vive. Isso é demais! Quem sabe tu me ajuda para criar uns mangá da hora. Eu queria um herói que não dá mole. Um cara que aguenta o fogo, porrada e até tranco da namorada.
        Vou fechando por aqui. Eu só precisava escrever uma página.
Se for responder, responda quando eu estiver acordado. Ok?

Assinado: Washyngton



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