01 dezembro 2011

Faça um 2012 feliz

Quando se é novo o tempo é bondoso e lento. Passa como uma lesma na frente da nossa janela. A idade avança e o tempo passa exato. Nem coelho nem tartaruga. Quando se envelhece o tempo é cruel e muito rápido. Já não sou novo, minha casca sugere mais de cinqüenta carnavais. Para mim, o tempo é um animal em extinção. E me ocorre uma frase de Chico Xavier: “Não podemos voltar para escrever um novo começo. Podemos começar agora para escrever um novo fim”.



Em dezembro, o ano se despede e é hora de olhar o passado recente para avaliar realizações e anotar sonhos visando o futuro.


Sonhe diferente.


Viaje até as nuvens e dê formatos diferentes. Faça dois enormes braços abertos. Reme até a nuvem seguinte. Enrole um canudo e na ponta forme uma rosa, deixe os espinhos e pinte de vermelho. A rosa vai exalar o perfume do amor. Depois sopre as nuvens até fazer um volumoso sorriso. Vá até a nuvem seguinte e faça um escultural coração. Dentro do coração coloque um bumbo para todos ouvirem a bondade.


Sonhe grande, sonhe alto, sonhe colorido. Tenha e viva prazeres não vividos. Externe a alegria.


Suba numa árvore e colha a manga mais lustrosa para o seu amor. Conquiste novos amigos numa pista de dança. Viaje para o interior para comer goiabada cascão. Relembre para a sua mãe a alegria de quando ela te deu o cachorrinho há vinte anos. Coma uma torta de maçã e não olhe para a balança. Tire a televisão da tomada por uma semana e diga para todos que ela está quebrada. Dê um pum dentro do elevador e faça de conta que não foi você. Divirta-se.


O mundo não pode ser levado a sério todos os dias.


Multiplique seu tempo em 2012. Faça tudo o que sempre teve vontade de fazer e nunca fez.


Aproveite o tempo e viva como nunca viveu antes.

25 novembro 2011

Terceiro filho, na terceira idade

Logo cedo tomei conhecimento que a dilatação começou.

Agora recebi um telefonema:

― Está perto. As contrações estão de 20 em 20 minutos. Deve acontecer no final da tarde.

Os meses passaram rápido. Cogitei centenas de nomes. O nome ajuda a moldar a personalidade. Precisa ser marcante, forte e único.

Aguardo ansiosamente outro telefonema para correr até a gráfica ver mais um livro nascer.


O telefonema chegou.


― Alarme falso, doutô. Achamos que só vai acontecer amanhã de manhã.
― Vocês trabalham sábado?
― As máquinas são caras, importadas, tudo digital. Última geração! Não podem ficar ociosas. Trabalham 24 horas por dia.
― E pifaram?
― Não. É que recebemos uma encomenda urgente de um Ministério e precisamos entregar os 500 mil volumes de propaganda ainda hoje.
― Então tá, né.

23 novembro 2011

A humilhação

Por Philip Roth

Escrito em linguagem acessível a qualquer mortal, trata justamente da finitude sem filosofar. A história é sobre um destacado ator sexagenário, que de um momento para o outro perde o talento e a capacidade de interpretar.


O primeiro parágrafo é intenso, provoca a curiosidade e parece ser um resumo da obra:

“Ele perdera a magia. O impulso se esgotara. Ele nunca havia fracassado no teatro, tudo o que fizera sempre fora vigoroso e bem-sucedido, e então aconteceu esta coisa terrível: ele não conseguia representar. Subir ao palco tornou-se uma agonia. Em vez da certeza de que teria um desempenho maravilhoso, sabia que ia fracassar. A coisa aconteceu três vezes seguidas, e na última vez ninguém mostrou interesse, ninguém foi. Ele não conseguia se comunicar com a platéia. Seu talento havia morrido.”

A história ganha vigor quando uma lésbica, 25 anos mais nova, resolve entrar na vida do ator para tentar reverter sua opção sexual. O ator ferve em desejos sexuais saindo do marasmo e depressão em que havia se instalado.

Roth descreve o protagonista de uma forma genial dissecando a aparência física até penetrar nas profundezas da alma. Conduz a história muitas vezes por questionamentos, como na exata metade do livro quando o ator é levado a questionar-se numa avalanche de questões existenciais. O mesmo acontece perto do final do livro, pouco antes do fechamento surpreendente.

A originalidade da história é muito bem escrita pelo escritor que ganhou o Pulitzer em 1998 e o PEN/Faulkner três vezes entre diversas outras premiações de prestígio

13 setembro 2011

O machucado

– Que machucado é esse, von Silva?

– Machucado? Você chama este acidente nuclear de machucado? Você não sentiu a dor que eu senti. Logo após a transfusão de sangue levei 37 pontos externos e ainda 18 internos.

– Nem se percebe toda essa gravidade.

– É por estas e outras que amo minha madame. Ainda pequena, com a mãe, costureira profissional, aprendeu a costurar. Aqui, no antebraço, ela cerziu com pontos invisíveis. Na falta de linha cirúrgica, utilizou-se de delicada seda japonesa e na falta de sedativo aplicou-me um longo e lascivo beijo. Não ficou perfeito?

– Então, conte-me! O que provocou esta hecatombe?

– Estávamos na rua, eu e madame, quando um pivete nos ameaçou com uma barra de ferro exigindo minha carteira e falando gracinhas para a madame. Você sabe, né, eu não levo desaforo para casa.

– O acertaram com uma barra de ferro?

– Não, eu me esquivei e quando me atraquei com o abusado, apareceram mais quatro moleques armados de facas. Pelo bafo percebi que estavam alcoolizados. Briguei e desarmei dois deles.

– Então esse corte é de faca? Como você escapou dos cinco marginais?

– Ninguém me sangrou. Naquele exato momento passava uma mocinha com um pit bull. Eu gritei para ela soltar o cachorro para pegar os assaltantes.

– Muita sorte, hem! O pit bull pegou os bandidos?

– Que nada. Eu gritei. Por isso o idiota do animal correu atrás de mim.

– É muito azar, hem?!

– Corri um bocado. Na minha adolescência fui atleta. Pulei uma cerca e subi numa árvore.

– Este estrago no seu braço, von Silva, foi mordida?

– Nada. Escapei ileso. Aquela fera era um tubarão de quatro pernas. Teria levado o meu braço inteiro. Mas, quando estava num dos galhos, vi uma pipa. Resolvi escalar a árvore até o topo e resgatar o brinquedo de menino. A linha estava endurecida com vidro moído.

– Afinal, este corte foi provocado pelo cerol?

– Nananinanão. Quando menino fui mestre empinador de papagaios. Salvei a pipa e ainda aproveitei para pegar algumas mangas maduras.

– Por que você está inventando este monte de histórias?

– Você me perguntou o que era esse meu machucado, não foi?

– Sim. E daí?

– Daí, que eu me sentiria muito ridículo se contasse a singela história de que fiz um dodói no trinco da geladeira ao guardar frutas.

01 setembro 2011

Zodíaco



Antes de casar você disse que era de gêmeos.
Pensei que se referisse ao signo, não que amasse os irmãos Mendes.

27 agosto 2011

Contrastes

Os primeiros raios de luz penetravam no restaurante através das tábuas soltas. Várias cadeiras estavam sobre as mesas. Em outras mesas havia cinzeiros cheios e copos vazios. Na frente do balcão, cacos de vidro de garrafa de aguardente refletiam cores de arco-íris numa poça de sangue.

18 agosto 2011

Não se engane


 

A água pinga,

a pinga não água


O monge habita,

hábito não empadrece

o padre coabita

e apodrece o hábito.


Pingo não é letra.

Frigideira, né panela, não.

Mariposa não é borboleta.

mamadeira não é teta.


Frase curta não é verso.

Parágrafo não é estrofe.

Esse é o dilema.

Prosa não é poema.





































14 agosto 2011

Enterro sem elogios
















Após culto pagão


O coveiro desceu o caixão.


Parentes lançaram pétalas.


Colegas sopraram pó.


O filho bastardo rolou uma lágrima.


Os peladeiros baixaram uma camisa do Flamengo.


Os parceiros jogaram cartas.


A turma do boteco acrescentou uma aguardente.


A amante pousou um poema.


A esposa despencou a aliança.


O padre contrariado atirou pesada bíblia.


O coveiro fechou a sepultura.

10 agosto 2011

Em família



Vovó era doce, papai durão e mamãe tenra.

Pensava enquanto chupava o fêmur da irmã.

03 agosto 2011

Mosaico

João morava nos degraus da matriz. Sua camisa de retalhos era tão transparente quanto as janelas da igreja.

27 julho 2011

Casa dos espíritos

Minha vida estava sem sentido. A empregada roubou meu cedê do Raul Seixas. O cachorro roeu minha máquina fotográfica. Fiquei preso no elevador durante cinco horas. Com o síndico. Embriagado! Minha namorada engordou 32 quilos e antes que eu acabasse o relacionamento me abandonou. Sumiu!

Tentei de tudo; alho, sal grosso, pé de pato mangalô três vezes, arruda e guiné para espantar o mau olhado.

A grande mudança ocorreu quando um amigo, sabendo da minha fase agourenta, presenteou-me com uma Casa dos Espíritos. Uma espécie de templo budista, utilizada pelos tailandeses, para ser colocado na entrada e que deve ser bem provida de incenssos, alimentos e objetos para trazer sorte e conforto.

Por morar em apartamento, a instalei no hall dos elevadores do meu andar. Procurando seguir as tradições e o manual de instruções, promovi uma festa de boas vindas. Recheei o telhadinho com uma foto da Juliana Paes, uma nota de dez Euros e um pedaço de frango à passarinho com muito alho. O DJ mandou ver um pagode legal. Foi uma festa para ninguém botar defeito.

No dia seguinte a filha da zelador brincou de casinha no hall. O dinheiro sumiu, a foto estava rasgada. Sobrou apenas uma barbie impregnada com o cheiro do alho.

Mesmo assim, depois de uma semana a minha namorada retornou. Estava linda. Voltou de um spa parecendo top model. Magra, cabelos de salão, roupa mostrando todas as curvas. O problema é que entrou na porta vizinha.

08 julho 2011

O cheiro da carne queimada

Ontem terminei de ler o livro do Zulmar Lopes. Letras miúdas em apenas 104 páginas. Demorei uns 15 dias. Não foi incompetência de leitura, nem má vontade. Foi puro tesão. Sabe aquela transa que, de tão boa, que você não quer ejacular e protela o gozo ao máximo para não findar os prazeres do momento?

Pois foi exatamente isso que aconteceu na leitura do livro. Lia alguns poucos contos e largava em algum ponto da casa. Depois lia mais um conto e abandonava noutro ponto da casa. Assim o livro peregrinou da cozinha ao banheiro do banheiro para o escritório. Dormiu no criado mudo e foi parar debaixo do sofá da sala. E, a cada conto gostado eu virava a orelha marcando o início do conto. Eu sempre faço isso com os livros de histórias curtas ou poemas para facilitar um eventual retorno ao livro. Quando terminei os 23 contos observei o livro com 15 orelhas além das duas que já vieram da gráfica. Um índice de aprovação fantástico. Imagine-se apreciando 18 músicas de um cedê de 23. Percebe o índice de acertos do Zulmar?

Eu já conhecia alguns contos do mestre Zulmar, inclusive deste livro porque frequentamos a comunidade orkutiana Bar do escritor e porque li algumas antologias onde estão algumas das obras premiadas em concursos literários. Tanto conhecia que estava muito curioso e enviei mensagem ao autor:

─ O conto com Dona Ernestina está no livro? ─ É que eu gostei tanto do conto que batizei Ernestina uma personagem de um dos meus contos prediletos.

─ Ernestina abre o livro. ─ Foi a resposta.

Mas e o livro? Porque é tão bom?

Se você acha o pôr de sol divino, o canto do sabiá maravilhoso e que rosas emanam desejos de amor então o livro que você procura é outro. Cheiro de carne queimada não é mimimi. É escrita politicamente incorreta. O autor narra histórias sórdidas colhidas no baú dos sete pecados.

Observe a construção deste personagem do conto A ferro e fogo

“A pergunta que Solange se fazia, Reginaldo Meia-Bunda tinha a resposta. Seu apelido politicamente incorreto resultara de uma poliomielite contraída na infância que atrofiara toda a musculatura da perna esquerda, deixando-o manco. Desprezado pelas mulheres e objeto de chacotas dos homens do bairro, Reginaldo Meia-Bunda pouco tinha de distração além do exercício da maledicência e o prazer pela intriga. Ouvidos apurados, captou notícias aqui e acolá a respeito de uma possível traição da mulher de Waldemar e, como percebera o sumiço do vascaíno Claudinei por aquelas bandas, juntou as peças do quebra-cabeça e, deleitoso por um escarcéu, decidiu encontrar o fugitivo. De fuxico em fuxico, Meia Bunda logo chegou ao paradeiro de Cladinei, morando numa cabeça de porco nas franjas do bairro de Santa Cruz.”

Isso é exemplo para livros que ensinam como montar uma personagem.

Eu gostaria de ter escrito um monte destes contos. Somente um grande autor consegue andar no fio da navalha do erótico, do policialesco, do grotesco sem cair na vulgaridade.

Parabéns, Zulmar. Seu livro é ótimo.

Recomendo a leitura com entusiasmo.

29 junho 2011

Torradinha exibida




Restaurante novo e aconchegante.

Sentei-me próximo da janela.

Toalha e guardanapo de linho.

Recebi gentileza e cardápio.

Enquanto tomava chope gelado e cremoso

virei páginas, salivei opções.

Qual será a especialidade da casa?

Senhor garçom, por favor,

─ Qual é o prato mais solicitado?

─ É o couvert, senhor.

─ Obrigado. Anote um filé com fritas.

20 junho 2011

Desmoralização



A van preta com a caveira do BOPE – Batalhão de Operações Policiais Especiais – estacionou na frente da favela da Rocinha. Desceram quatro policiais fortemente armados. Com cara de poucos amigos, olharam para os dois lados, antes de seguir em frente, quando um flanelinha perguntou se poderia vigiar.

16 junho 2011

Sarau do Caribe


Peço desculpas, hoje estou muito nervoso. Passei uns dias muito malucos e agora venho falar na frente de tanta gente sem ter preparado o meu texto. Eu não trouxe nenhum texto para ler desta vez.

Quando o Marco Antunes, organizador do sarau, me convidou para escrever um texto sobre o Panamá e Porto Rico fiquei muito orgulhoso. Seria a oportunidade de falar sobre a genial construção do famoso canal pelo engenheiro Ferdinand Lesseps o mesmo que construiu o canal de Suez. Eu poderia dizer que 13mil navios ou 4% do comércio marítimo mundial, passam anualmente por ali. E que o Pacífico é 24 centímetros mais alto que o Atlântico.

Sobre Porto Rico eu diria que é a quarta maior ilha do Caribe. Com área equivalente a dois distritos federais. E que a economia é muito dinâmica e diversificada onde se instalaram empresas multinacionais de farmacêutica, eletrônica, têxtil, petroquímica e até biotecnologia.

É o que eu diria, mas o Marco disse que não queria nenhuma aula de geografia ou economia. Ele queria uma história que se passasse na região.

Então, acabei telefonando para o meu amigo Paco Rodrigues, morador de San Juan, para me contar sobre a vida de Porto Rico e, quem sabe, a partir dali fazer uma crônica.

Muito melhor que palavras, ele me convidou para passar uns dias com ele.

Na mesma noite comprei passagem. Faria um vôo com escala em Miami na ida e na volta faria escala na cidade de Panamá. Tudo o que eu queria. Viajei no dia seguinte.

Fiquei em Miami apenas o tempo suficiente para trocar de avião e rumar para Porto Rico.

Encostei a cabeça na poltrona pensando em finalmente descansar da correria. Na revista de bordo li uma ampla reportagem sobre o Triângulo das Bermudas, onde barcos, navios e aviões desaparecem misteriosamente. Foi aí que o avião entrou numa zona de turbulência impressionante. Repentinamente todas as luzes se apagaram e caímos em queda livre no escuro.

O grito dos desesperados amainou e passei a ouvir o som de uma flauta. Fomos pousados suavemente no alto de uma pirâmide. A pirâmide do Sol. Fomos recebidos por um Deus, Quetzalcoatl, uma serpente ricamente emplumada. Disse que estávamos ali para ser sacrificados, oferenda necessária para o Sol nascer todos os dias.

Aleguei que eu não poderia ser sacrificado porque deveria falar do Caribe num sarau em Brasília, terra de muitas pirâmides. De nada adiantou. Aí eu apelei. Disse que eu era um sacerdote e que faria a lua desaparecer naquela noite se não fossemos todos libertados. O eclipse de ontem à noite aconteceu e acabamos homenageados em uma cerimônia com muito chocolate cultivado e produzido pela nação asteca e maia. Fui liberado bem a tempo de comparecer ao sarau e trazer este chocolate, oferecido pelo deus Quetzalcoatl ao organizador.

09 junho 2011

Precisamos falar sobre o Kevin


“Precisamos falar sobre o Kevin” de Lionel Shriver é um fantástico romance ficcional escrito em forma de sucessivas cartas como se fossem capítulos.

Uma mulher americana transcreve ao marido a própria transformação de executiva bem sucedida em mãe de um serial killer. As cartas são uma sucessão muito bem escritas e convincentes de angústias, sofrimentos, sentimento de culpa e inocência, acusações sofridas e punições impostas pela sociedade, lembranças boas e más. O tema, tantas vezes abordado em livros e cinema (Beautiful boy, Bang bang you’re dead, A torre da morte) agora é mostrado do ponto de vista da mãe que se coloca como inocente apesar da condenação implacável da sociedade e mostra como qualquer família pode a qualquer tempo, aparentemente, sem mais nem menos, gerar um filho assassino. Isto é, com verossimilhança e altas doses de ironia a situa e identifica o leitor como pai ou mãe do personagem assassino.

A autora, em linguagem intimista e atual, fala do tipo de crime onde um atirador dispara sobre inocentes em lugares públicos ou escolas parecia e que parecia restrito aos americanos, entretanto provocou vítimas em escolas na Europa e, mais recentemente, também no Brasil. Esperamos que este tipo de crime hediondo, agora universal, fique restrito, pelo menos, à nossa época.

A história é densa e tensa, envolvente e emocionante. Muitas ações e histórias paralelas constroem um romance para ser lido um só fôlego, sem interrupções. Não é à toa que recebeu elogios da crítica internacional e desponta entre os grandes best sellers americanos.

08 junho 2011

Alegria para os cronistas brasilienses


O Crônicas da Cidade vai acolher textos produzidos por cronistas do jornal e por cronistas-leitores. As crônicas devem ter como objeto de inspiração a capital do país, o modo de vida dos brasilienses, os invisíveis viveres cotidianos, as mudanças de humor do céu, os sufocamentos de agosto, os sabores, odores, tremores e dissabores da cidade que tantos amam e que tantos não conseguem entender e vivem de maldizê-la. – CB, Crônica da Cidade, 08/06/2011.



Antes mesmo do jornal ser entregue na minha porta, a serra elétrica da construção vizinha já atazana meu começo de dia. Como vou passar manteiga e tomar o meu o café com um barulho desses?

Todas as quartas-feiras começam assim. Apocalipses cíclicos, zumbidos infernais, tempestades zodiacais.

Há 40 quartas-feiras me proponho a escrever um texto bem-humorado motivado por uma matéria publicada no jornal durante a semana. Deve ter exato número de caracteres e ser publicado no meu blog antes das seis da tarde.

Esta manhã de quarta-feira começou rápida nos ponteiros do relógio. Nada recortei durante a semana. Ainda não escolhi o tema. Preciso encontrar um mote no jornal de hoje. Política? – Não, ninguém se interessa por políticos. Internacional? – Não. Penso que os leitores preferem temas locais. Economia? – Basta de inflação! Tecnologia? Saúde? Ciência? Esportes? – Já falaram tudo sobre o jogo de despedida do Ronaldo, não há nada para acrescentar. – Ai meu deus! – Li mais um caderno e ainda não fui balançado por uma notícia. Cidades? – Gosto do caderno, sinto-me em casa. Cassação da deputada? Caixa de Pandora? Social? Celular para controle de freqüência nas escolas? – Hum, muito interessante. Atropelamentos e greve de ônibus, são notícias ruins, difícil fazer graça. Crônica da cidade? Um blog para os cronistas. – Um blog para os cronistas? Uêba! Tudo o que eu sempre quis!

A serra elétrica parou. O apocalipse montou seu cavalo negro e saiu a galope. O céu se abriu para a motivação para escrever nesta e em várias outras quartas-feiras. Agora basta ajustar o teclado à frente e digitar com entusiasmo.

A cidade ferve de cronistas ansiosos por um lugar nobre para expor escritos e uma voz grita:

– Levante o dedo quem quer escrever no Correio.

Meus dois indicadores apontam para o céu. Lá no alto encontram outras dezenas de mãos frequentadoras de saraus, blogs e oficinas literárias. Todos os escritores são ávidos por leitores.

Só que o tempo do cronista corre mais rápido que o dos outros mortais: precisa entregar o texto antes de terminar o prazo.

Quero entregar logo meu trabalho para ser dos primeiros a ter um texto publicado no blog. Tenho pressa. Baixo meus dedos e os agito sobre o teclado.

Enquanto os dedos dançam no palco das letras, a mente conta e confere o número de letras, espaços e parágrafos previamente estabelecidos pelo editor. O sorriso de realização chega junto com ponto final. A serra elétrica só voltará na outra semana. Um bem-te-vi anuncia a chegada de outro texto.

27 maio 2011

Trocando a roupa de cama

Ela demorou mais tempo passando o ferro no lençol
que o amante passando ferro no lençol.

18 maio 2011

A guerra das águas

A água mineral líder de mercado na França percorre um caminho de 10 anos entre rochas vulcânicas até ficar bem pura. Mas apareceu um forte concorrente: a água dos icebergs. Os mais jovens têm cerca de 10 mil anos. Os pedaços de gelo são derretidos e engarrafados. O produto da concorrência virou moda entre as famílias ricas da Califórnia e o preço faz jus ao público: chega a custar US$10 a garrafa. – CB, Você sabia, 16/05/2011.



A notícia chegou aos ouvidos de Antonio Carlos, um empresário brasileiro prestes a lançar um revolucionário filtro d’água no mercado mundial. O que fazer contra essa concorrência inesperada?

Nem precisou fazer nada.

A guerra foi iniciada pelos franceses que alegaram que a água dos icebergs provavelmente teria restos de urina de animais polares.

Os americanos, que financiam o projeto de exploração do pessoal da Groenlândia, sentiram-se ofendidos nos brios. Reuniram uma tropa de agentes comerciais e foram ao Pentágono pedir permissão para o revide.

Os generais americanos, auto-proclamados defensores da justiça mundial, em primeiro lugar afirmaram que quando se trata de ofensa à soberania americana não é necessária permissão para a retaliação. Em seguida questionaram se a língua estranha dos franceses era árabe. Com a resposta negativa, perguntaram se o território francês ficava no Oriente Médio. Os comerciantes abriram mapas para consulta antes de afirmar categoricamente que não encontraram a França próxima ao Irã, Iraque, Paquistão, Arábia Saudita, Kuwait ou Venezuela. Os generais se entreolharam. Ainda havia uma questão fundamental em aberto. E em caso positivo, apontariam os mísseis na direção da capital do país ainda naquela noite.

- Aquela torre enorme é para a exploração de petróleo?

Se não havia petróleo na questão então a ofensa era menor.

Antonio Carlos acompanhou tudo, bem de pertinho, graças a um agente triplo infiltrado na SIA e no DGSE (Direction Générale de la Sécurité Extérieure), o Serviço Secreto Francês. Sentiu firmeza. Os yankees não jogariam bombas nos galegos, e estes sequer arremessariam suflês nos yankees.

Em vez de combater com pistola d’água. O empresário brasileiro poderia lançar uma ofensiva sem medo. Precisaria encontrar uma forma de detonar com o marketing e a grife das garrafinhas internacionais.

Nem precisou pesquisar muito. O seu filho quando soube como eram as águas dos estrangeiros esboçou cara de nojo e emitiu um sonoro: – Eca! A partir dali as idéias caíram em cascata folheando os jornais da cidade. Encontrou uma campanha pronta para condenar a água filtrada no processo de 10 anos e também a água congelada há 10 mil anos. Colocaria água na fervura dos concorrentes internacionais.

Começaria dizendo que a água vem da Cidade Maravilhosa. Lugar de alegria e carnaval. A palavra Rio tem origem no verbo rir, na felicidade de viver e traz consigo o movimento e a ginga da corrente de água. Por outro lado, diria, nada sutilmente, que quem gosta de água parada é o mosquito da dengue.



Outra pérola que brotou de matéria publicada em jornal. – Correio Braziliense – Sempre às quartas-feiras antes das 18, com tamanho predeterminado um texto, como se fosse uma coluna de jornal.

11 maio 2011

A salvação dos sapos


A súbita extinção do sapo-dourado e do sapo-arlequim da reserva ambiental Monteverde, na Costa Rica, é um dos casos mais bem documentados dos declínios populacionais misteriosos que caracterizam a crise global dos anfíbios. O subsequente desaparecimento de 40% das espécies de anuros (grupo de anfíbios que não possuem cauda) das florestas tropicais porto-riquenhas é um dos casos mais extremos de perda de biodiversidade. – CB Ciência, 10/05/2011.




Conheci o porto-riquenho, Paco Gonzales, ainda adolescente. Ele participou de um programa de intercâmbio e morou seis meses na casa do meu vizinho. Paco era engraçado e conquistador nato. Com o sotaque portunhol dizia que seu pai tinha sido um sapo que, ao ser beijado, se tranformara em príncipe. E que ele era nascido príncipe, e que de acordo com a lenda do seu país, precisava ser beijado por uma princesa para virar rei. Magras, pobres, altas, com ou sem óculos, beijava todas. Transformou-se em rei do bairro.

Já biólogo, retornou ao Brasil, na virada do século, para um congresso. Eu o hospedei durante dez dias. O suficiente para recordar histórias de sapos, rãs e pererecas.

Um dia tive a oportunidade de visitá-lo em San Juan. Fiquei muito bem impressionado com o mar transparente na vista aérea e o moderno aeroporto. No caminho para casa ele me relatou que estava muito preocupado com a morte misteriosa dos anfíbios do arquipélago. Os estudos levavam a crer na diminuição na população de salamandras, cobras-cegas, lagartos e na extinção de sapos, rãs e pererecas. O caso mais grave era com os anuros, anfíbios sem cauda.

Na manhã seguinte visitamos o centro da cidade, declarado Patrimônio Histórico pela Unesco. E à tarde fomos ao laboratório de Paco.

Conforme suas pesquisas e comprovação de imagens observou que os sapos nasciam e se desenvolviam felizes até começarem a frequentar a escola e a sociedade nas lagoas. Ali entravam em contato com outras espécies e assumiam feições tristes. Relatou-me que a transformação era impactante, imediata. De sorridentes passavam a chorões depressivos. E da depressão à morte tudo acontecia muito rápido.

Descobriu que os sapos se envergonhavam pela ausência de uma cauda. Comprovou a tese quando começou a cortar o rabo de lagartos e cobras: todos morriam de vergonha.

Mas Paco era estudioso e perseverante. Analisou centenas de bichinhos, até encontrar uma solução para os infelizes. Agora estava orgulhoso, se aproximava a hora de mostrar ao mundo o resultado do seu trabalho. Apontou-me uma enorme caixa com uma encomenda, antes de abrir, mostrou-me um artigo científico que escrevera especialmente para a revista do Instituto Bitantã. Ele seria o salvador de todas as espécies em extinção. Bastaria colocar as próteses nos bichinhos.

Entusiasmado mostrou rabinhos de cachorro, para demonstrar alegria, rabinhos de canguru, para saltar mais longe, rabinhos de vaca para espantar moscas, rabinhos de chipanzé para subir em árvores.

Em compensação, eu morri de rir.



Todas as quartas-feiras, até as 18h, publico no blog um texto oriundo de matéria publicada no Correio Braziliense. Como numa coluna de jornal, o texto é limitado de 2959 a 2997 caracteres.

*imagem do sapo-arlequim, em extinção

10 maio 2011

Estive em Lisboa e lembrei de você

Luiz Ruffato é um nome consagrado da atual literatura brasileira. Em 14 de agosto de 2007, no auditório do CCBB – Centro Cultural do Banco do Brasil – tive o prazer de ouvi-lo numa palestra. Até hoje só havia lido e gostado de dois dos seus contos. Assumi o compromisso de um dia ler Ruffato. Infelizmente não coloquei prazo. Logo, demorei muito para cumprir com a minha dívida pessoal.

Agora, participando do Grupo de Leitura promovido pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da UnB, surgiu a oportunidade de conhecer Estive em Lisboa e lembrei de você.

O livro foi originado no projeto Amores Expressos, promovido pela Companhia de Letras e bancado por incentivos da Lei Rouanet. Vários autores foram convidados a escrever uma história de amor tendo como cenário uma cidade do Planeta onde seriam hospedados por 30 dias.

Ruffato deveria escrever um romance tendo Lisboa como fundo. E, de fato Serginho, o protagonista propõe casamento a uma prostituta brasileira, Sheila, na capital lusitana. Porém a impressão que eu tive é que o narrador jamais saiu de Cataguases, no interior de Minas, com sua prosa fluente, como se estivesse encadeando causos numa roda de vizinhos na calçada em frente de casa, sob um poste de luz amarela.

O cardápio de falares do interior mineiro ganha novos temperos quando o protagonista atravessa o Atlântico para vivenciar situações de um imigrante sobrevivendo no mundo.

Julgo (quem sou eu para julgar um ícone?) ser um romance de 85 páginas, pouco elaborado para a notória capacidade do autor. Parece que Ruffato procurou se livrar rapidamente do compromisso assumido com a editora.

04 maio 2011

Falta gente e sobra humor em Borá

Borá, no interior de São Paulo, mantém o título de menor município do país em população. Na última década, a cidade recebeu 10 pessoas a mais na lista de habitantes, totalizando os atuais 805. – CB, Censo 2010, 30/04/2011.


 
Hoje é quarta-feira, dia de publicar minha coluna semanal com base em notícia publicada na semana. Eu já havia separado algumas matérias sobre o casamento real britânico e sobre o fim de Osama Bin Laden. Mas o editor entrou na minha sala, com desprezo e cenho fechado, disse que isso era para os jornalistas graúdos. Que eu deveria escrever sobre o Censo 2010. Fiquei felicíssimo. Assunto brasileiro da maior importância.

– Você fará a matéria sobre Borá.

– O Censo descobriu alguma nova tribo indígena?

– Não. É o menos populoso município brasileiro.

– Maravilha. Onde estão as passagens? Viajo quando?

– Deixe de viajar! Você tem duas horas para colocar o texto sobre a minha mesa. – E bateu a porta atrás de mim.

No mesmo instante me conectei na Internet para pesquisar. Descobri que há pelo menos um cidadão bem-humorado na cidade. “Borá é uma cidade localizada a três passos de onde Judas perdeu as botas, o All Star e a virgindade.”

Descobri também que é uma cidade pacífica. Quando os dois times de futebol, o Borá FC e o Borá EC se defrontam, os torcedores gritam o mesmo nome.

O grande evento anual é a escolha da miss e do mister Borá com direito a entrevistas e transmissão ao vivo pela rádio da cidade.

As imagens mostram todas as ruas asfaltadas e uma praça repleta de bancos de concreto com nomes gravados. Dali se pode ver a igreja matriz, imaginar a música vinda do coreto desativado e espiar os casais de namorados na fonte luminosa.

O prédio da prefeitura é identificado em letras garrafais: Paço Municipal. Uma construção assobradada recente, em forma de bolo de casamento, juntando a prefeitura e a câmara municipal. Na fachada superior há uma espaçosa varanda prevendo momentos solenes ou festivos. Dizem que a edificação é um pequeno paço para o homem, um salto para a humanidade.

É curioso saber que o expediente é das 9h às 11h e das 13h às 17h. E que um mesmo prefeito dirigiu a cidade por 14 anos em quatro mandatos diferentes.

As estatísticas apontam que 90% dos habitantes são alfabetizados e que 93% da população, acima dos 13 anos, acessa o Facebook. Curiosamente ninguém nasceu na cidade nos últimos 30 anos. Será que só lêem livros e trocam e-mails? Ou é brincadeira de um gozador cidadão boraense.

O mais surpreendente é que a cidade é extremamente politizada. Todos votam. Idosos, maiores de 17 anos, mulheres, adolescentes, crianças, bebês e até os que ainda irão nascer. Pois apesar da cidade ter apenas 805 habitantes, tinha, já em 2008, 924 eleitores.

Consegui terminar o texto no prazo. O editor sempre exigiu um conto ou crônica. Desta vez, para me testar, exigiu um artigo.

Do texto pode até não gostar, mas certamente terá interesse em desvendar o mistério que atrai moradores de outros lugares a votar na pequena Borá.

01 maio 2011

O único final feliz para uma história de amor é um acidente – JP Cuenca - crítica

O único final feliz para uma história de amor é um acidente de João Paulo Cuenca, Editora Companhia das Letras, é um romance com altas doses depressivas que demora a fisgar o leitor no anzol. Entretanto, uma vez fisgado, é impossível fugir.

O cenário é em Tóquio, onde um pai, voyer, espiona, invade e oprime abusivamente a vida do filho. Sempre, 24 por dia, câmaras e gravadores registram movimentos, conversas e intimidades. O pai estimula a vida sexual do filho para se aproveitar das imagens. O filho tem conhecimento, mas não consente com as atitudes paternas, como num estupro.

O pai, octogenário, oculta suas ações da sociedade atrás de uma fachada de poeta, líder de tradições literárias.

O autor imprime verossimilhança a fatos impossíveis como uma mulher robô construída especialmente para atender devaneios do velho poeta. O autor convence tão completamente que os delírios sofridos pelo protagonista transformam a opressão e mania de perseguição em imagens que confundem o leitor entre realidade e ficção.

A minha leitura foi muito rápida, merecia volta para reflexões e melhor entendimento das intenções do autor. Por sorte participo de um grupo de leitura* onde destrinchamos o pescador que nos fisgou.



* – Grupo de Leitura do Departamento de Teoria Literária da Universidade de Brasília.

27 abril 2011

Meu convite para o casamento de William e Kate

Nada de extravagância, centenas de famosos ou muitos membros da alta sociedade britânica. O príncipe e a futura princesa Kate Middleton apostaram em uma celebração íntima, mesmo que ela tenha pompas de evento de estado. A Clarence House divulgou a lista com as presenças confirmadas para participar da celebração. O documento lista os nomes de reis, rainhas, diplomatas e membros do governo, mas também revela, sobretudo, a identidade de amigos e pessoas ligadas ao casal. CB – Mundo, 24/04/2011.



Abri a caixa de correspondências e lá estava o envelope com o convite. – Yes! Eu recebi! – Um cartão branco, duro, um pouco menor que uma folha de papel A4, com bordas chanfradas em ouro e letras douradas. Logo abaixo da insígnia da avó de William, a Rainha Elizabeth, estava o meu nome: Mr. Roberto Klotz.

Ah, como esperei por este momento. Eu tinha certeza que Kate não me decepcionaria. É bem verdade que cheguei a duvidar.

Durante os últimos dois meses verifiquei a caixa de correspondência umas quinhentas vezes. Nesta semana eu me cansei de virar a chave e espiar no escaninho: instalei uma poltrona ao lado. – O Santa Ansiedade! – Tudo porque os convites para o casamento do Príncipe William foram distribuídos em fevereiro, estávamos às vésperas do casamento, abril, e o meu não chegava.

Enviei cartas, bilhetes, torpedos, telefonemas, telegramas e tuitadas cobrando o meu convite. O chefe de cerimonial finalmente retornou uma mensagem de desculpas com a informação de que os convites impressos foram insuficientes e que a pressão de autoridades, celebridades e pessoas do mundo inteiro era enorme, mas que o Palácio mandara confeccionar especialmente apenas mais três convites. O meu estaria entre eles.

Voltei a olhar para o convite. Confirmei o meu nome mais uma vez, posso dizer que estou feliz e realizado. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não foi convidado. O Exterminador do Futuro, Arnold Schwarzenegger, não foi convidado. Lady Gaga, que dispensa apresentações, não foi convidada. O bruxo Harry Potter não foi convidado. Eu fui. – Isso não é o máximo?

Leio, um pouco abaixo, que a vestimenta sugerida é o uniforme militar, um fraque ou ainda um terno de negócios.

Isso me assusta um pouco. Jamais usei um traje militar, não tenho fraque e o meu terno é um paletó com uma mancha de gordura na manga esquerda. Talvez eu tenha que cortar as mangas.

No convite ainda há um cartãozinho informando o meu lugar na Abadia de Westminster. Será ao lado da Victoria Beckham. – Nada mau.

Reviro o envelope, procuro e não encontro a passagem de avião nem os vouchers para o hotel, conforme combinado. – Assim não dá. Acho que não querem que eu vá!

Eu já tinha escrito a dedicatória, um livro diferente, de minha autoria, para cada um dos noivos. Embrulhei em papel prateado com uma fita vermelha. Em vez de entregar pessoalmente, colocarei num envelope pardo e postarei no correio. O casal saberá como é doloroso esperar ansiosamente na frente da caixa de correspondência.



Mais um texto, o 38.o sem interrupções, inspirado em matéria publicada no Correio Braziliense da semana. Sempre às 4.as com o mesmo tamanho, o de uma coluna de jornal.

20 abril 2011

O santo das causas impossíveis

Santo Expedito é conhecido por atender às causas urgentes e impossíveis. Conta-se que, quando ele se converteu ao cristianismo, um espírito mau em forma de corvo tentou dissuadi-lo da escolha, mas Expedito não pensou duas vezes e rapidamente matou o pássaro. A agilidade dessa decisão faz os fiéis crerem na ligeireza da solução dos problemas. – CB, Cidades, 20/04/2011.



Ontem, dia de Santo Expedito, fui à igreja. Eu e meio mundo. A igreja estava lotada de pedintes. Todos pedindo solução rápida ou impossível para os problemas.

O santo é das antigas, da época em que não havia computador para organizar a própria agenda e hoje se vê atolado de causas urgentes alheias. Tive pena dele. Pena e um pedido. Queria que ele me ajudasse a escrever o meu texto semanal inspirado em notícia publicada no jornal durante a semana. Era urgente porque o meu prazo terminava às 18 horas e o editor costuma degolar autores que atrasam a matéria por mais que 30 segundos. Fiz questão que o santo soubesse da ameaça que paira sobre a minha cabeça. Apesar da imagem conhecida, Expedito foi decapitado pelos militares romanos a mando do Imperador Diocleciano.

É bem verdade que eu deveria estar atrás do teclado digitando meu texto em vez de imaginar milagres nos bancos da igreja. Mas eu estava lá e me caberia rezar, fazer o meu pedido e aguardar rapidez no atendimento do pedido.

Enquanto aguardava na fila observei que ele usava trajes de legionário romano com uma túnica acima dos joelhos e manta púrpura. Com o pé ele pisava um corvo batizado Ontem. Ele era muito rápido com os fiéis. Santo Expedito não podia anotar nada, em uma das mãos segurava uma palma e na outra um crucifixo batizado Hoje. Registrava mentalmente os pedidos e despachava os necessitados mais rápido que os médicos na consulta do INSS.

Pedi para uma senhora guardar o lugar para mim na fila para dar uma espiada como era o atendimento.

Fui até bem pertinho do santo.

Uma senhora juntou as mãos frente ao peito em forma de oração e implorou um emprego para o filho. O santo captou o desespero da mulher e imediatamente estendeu o caderno de classificados. Acenou com a cabeça chamando o próximo.

Aproximou-se um rapaz bem vestido, jeitão de filhinho de papai. ─ Meu Santo, fazei com que eu seja aprovado no concurso do Senado Federal. ─ Meu querido, basta que tu comeces a estudar. Próximo.

Um senhor de cabelos brancos e olheiras profundas se arrastou silenciosamente até o santo, mostrou a identidade para provar que não era tão velho quanto parecia. Queria viver mais tempo.

─ Qual é o seu problema?

─ Câncer. Ajude-me, por favor.

Na mesma hora o santo devolveu o documento com uma pequena alteração.

─ Agora o senhor é de capricórnio. Próximo.

Minha vez estava chegando. Voltei para o meu lugar na fila até ser atendido.

Expliquei o meu drama de prazos de entrega.

─ Começa a escrever mais cedo e terás tempo para pesquisar e descobrir que o patrono dos jornalistas e escritores é São Francisco de Sales. Próximo.



A matéria foi publicada na quarta. E na mesma quarta, graças a Santo Expedito, postei no meu blog.

13 abril 2011

Viajei com Gagarin

Aos 27 anos, Yuri Gagarin, um jovem russo de origem humilde é lembrado pela rara coragem. Ele foi um dos 19 pilotos que se candidataram ao vôo, em um tempo em que testes humanos num ambiente sem gravidade sequer haviam sido feitos. “Foi um vôo absolutamente heróico. Era uma missão muito difícil, e as pessoas pensavam que só um louco poderia ir para o espaço”, relata à agência Reuters o jornalista científico Vladimir Gubarev, que conheceu Gagarin na juventude. CB – Ciência, 12/04/2011.


12 de abril de 2011 – Há exatos 50 anos Yuri Gagarin foi o primeiro homem a ir para o espaço. Um feito extraordinário. Tão importante quanto Colombo chegar de caravela na América. A ficção se transformava em realidade. O homem comprovou ser capaz de voar mais alto e mais distante que os pássaros. Gagarin voou nos sonhos de todos os homens. Lá do espaço declarou que a Terra era azul. Visitar a Lua passou a ser tangível.

Deixei o jornal de lado uns minutinhos e também viajei no espaço, do tempo.

Eu era menino, não se falava noutra coisa. Gagarin era o herói dos homens. Garrincha e Pelé já driblavam e marcavam gols, mas todos os meus amigos queriam ser cosmonautas. Ninguém viu o lançamento na tevê. Não foi transmitido. Nem a cores nem em preto e branco. Aliás, poucos tinham televisão. O imaginário era muito melhor que qualquer imagem. Descrevíamos detalhadamente a trajetória do herói. Primeiro vestindo a roupa prateada, depois os canudinhos de oxigênio e por cima o capacete. Subia uma escadinha, entrava numa cabine cheia de botões, alavancas e luzes piscantes. Fechava a porta com um barulho surdo e metálico numa combinação de prisão e sarcófago. Já sentado se amarrava a um banco solitário.

Era hora de imitar o coração batendo disparado – tum,tum tum, tum. Aí, todos os amigos gritavam em coro a contagem regressiva: 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 – buuuuum. Gagarin disparava na vertical, rumo ao céu até se perder de vista.

Não se falava em outra coisa. Estava lançada a gagarinmania. Até hoje me lembro de uma charge da revista Cruzeiro onde um peixinho dourado nadava dentro do capacete de aquário.

Tempos idos. Eu morava em São Paulo, em casa não tínhamos telefone, apesar de estarmos na fila de aquisição há sete anos. Também não possuíamos tevê. Meus pais questionavam a novidade. Mas nós, crianças, íamos brincar nas outras casas da rua e nos transformamos em televizinhos e dizíamos que as recém inventadas máquinas de assar frango eram televisão de pobre.

De repente, surgiu o Caravelle, o primeiro avião a jato. Revolucionário com as turbinas coladas na traseira em vez das hélices nas asas. O barulho era enorme, sempre saímos correndo da sala para apontar o avião no céu. Todos, em vez de fazer rápido, passamos a fazer a jato.

Uma flâmula pendurada, em cima da cabeceira da minha cama, lembrava a inauguração de Brasília, um ano antes. As novidades e o heroísmo estavam presentes no dia-a-dia.

Gagarin voltou para a Terra. Mas os tempos de infância não voltam mais.





Novamente me deliciei com uma notícia extraída do jornal e com ela, como todas as quartas-feiras, criei uma história.

11 abril 2011

Cordilheira – Daniel Galera - crítica


Li o livro em três dias, bem a tempo de escrever meus comentários visando a primeira reunião do Grupo de Leitura.

Não entendi a intenção o design da capa.

Ao contrário dos best-sellers americanos, o livro não tem uma estrutura com um roteiro pré-definido. Certamente foi conduzido a partir de uma idéia pré-elaborada, mas levado pela protagonista.

Desconheço outros escritos do autor para comparar, entretanto a linguagem utilizada é convincente ao ser colocada na voz de uma protagonista feminina. A protagonista se envolve em reflexões e revolve sentimentos como uma eterna discussão de relacionamentos, coisa tipicamente feminina.

A ambientação em Buenos Aires foi atendida. O autor descreve cores, cheiros, luzes, paladares e sons convencendo-nos do cenário da história.

Os personagens são convincentes quanto à caracterização e personalidade. Consigo me imaginar conversando com cada um deles numa mesa de bar como se os conhecesse de longa data.

Houve momentos em que me irritei ao ler descrições ou pensamentos super-hiper-mega detalhados. Eu procurava relativizar: trata-se de uma mulher. Mulheres são assim, (ó santo machismo!) e para tentar compreendê-las é necessário ouvi-las.

O título do livro certamente foi inspirado em “Le gustaba mucho mirar la cordillera”. ─ “Me veio à mente Duisa, a esposa daquele pioneiro da Terra do Fogo, trazida para viver nessa região na primeira metade do século anterior, fitando as montanhas numa estância isolada de tudo e de todos, em silêncio permanente, sob a observação secreta e carinhosa do marido que décadas depois lembraria dela exatamente por essa tendência à demorada contemplação da cordilheira. A imagem dessa mulher na minha cabeça sempre trazia uma profunda melancolia, a ponto de me dar um nó na garganta. Eu queria ser como ela”

Muitos já escreveram e desenvolveram romances a partir da questão do envolvimento da realidade do autor com a ficção das suas histórias. A grandeza do livro é que o autor explora ao extremo o drama de todo escritor: onde começa a ficção e onde termina a realidade. De modo que um grupo de escritores subverte a lógica e passa a vivenciar os personagens das suas obras. A protagonista do livro, também escritora, sequer se identificava no próprio livro e passou a questionar-se ligando ficção à realidade após o envolvimento com o grupo. Fernando Pessoa abordou a questão com o famoso verso: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente. Que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente”.

Galera não se cansa de mostrar o que o motivou a escrever Cordilheira. Ainda no começo da história a protagonista fala sobre sua mãe que faleceu no parto. “Minha mãe, um ser fictício que eu não cansava de imaginar e desenvolver”. “Minha mãe foi o meu primeiro personagem.” Passada a metade do livro, Escreve: “Não há como escrever honestamente sobre qualquer coisa que não seja nós mesmos. Um escritor pode tentar maquiar esse fato com todas as suas forças, mas nunca escapará dele.”

Nas últimas páginas está a confirmação da intenção do autor que se utiliza da protagonista escritora para escrever: “Eu a inventei justamente para nunca precisar ser como ela, para exorcizar uma Anita que detestaria me tornar.”

Enfim, apesar do detalhismo nas descrições e aprofundamento das reflexões, gostei da história. O autor conseguiu me surpreender. Recomendo.

09 abril 2011

Pessoas dupla-face

Tenho observado que os meus amigos não são meus amigos. Gosto daqueles que se esforçam para serem meus amigos. Gosto das pessoas que se transformam em gentilezas e amabilidades tentando conquistar o meu sorriso. A máscara que colocam nos aproxima.

Entretanto muitos dos meus conhecidos, desnudados das aparências, se transformam em pessoas repugnantes.

No domingo estive num churrasco maravilhoso. O anfitrião me recebeu na porta. Era um cavalheiro personificado. Picanha ao ponto. Cerveja gelada. Garção para servir. Peguei uma costelinha e enquanto separava a carne do osso observava o dono da casa. A face de bondade personificada que exista era alimentada diariamente pela outra face, a de empresário corruptor. Eu só conhecia uma delas e esta, me agradava.

Meu carro estava na oficina, e na volta para casa, aceitei a carona de uma mulher de metro e meio. Magrinha e frágil. Super meiga. Educada na França. Gentilíssima. Ao contrário do que supus, o carro dela era uma enorme station wagon onde seguramente caberia um batalhão de soldados. Ela não havia consumido uma única gota de álcool, porém quando se sentou ao volante parece que sacou de uma máscara do porta-luvas e dirigiu com a agressividade de um fuzileiro naval no campo de batalha e no sinal vermelho, xingou como um sargento irritado. Francamente, me assustei com a mulher debaixo da outra mulher.

Ainda bem que não demoramos muito a chegar.

O síndico, todo solícito, estava na frente do edifício podando algumas plantas e demonstrando o zelo com o bem comum. Na guarita, o porteiro me entregou uma convocação para uma Assembléia. O primeiro item da pauta era sobre a reeleição do síndico. Um fingidor, um crápula mal educado, egocêntrico que aumentou as taxas do condomínio para reformar o próprio apê enquanto reformava o prédio. Duvido que tenha um vaso em casa.

Já no elevador, pensei: ah, meu amigo leitor, ponha a máscara, elogie esta crônica, chame-a de artigo se quiser, mas elogie. Entretanto se você for sincero e contundente nas críticas, tirarei a minha máscara de bondade e, desejarei que você queime no inferno.

06 abril 2011

Protesto de mulheres brasilienses

Ao começar a reunião com o secretariado, o governador observou mais uma aglomeração na frente do Palácio do Buriti. Apesar do pouco tempo sentado na cabeceira da mesa, já estava vacinado contra greves, protestos e manifestações.

De dentro para fora, o vidro e a vida são azuis. De fora para dentro o vidro e a vida são negros.

A mesa é pequena para acomodar tantos secretários e o governador. A reunião começa e segue a pauta. O governador não consegue se concentrar, nota que os jardins estão apinhados de gente. Bem mais, muito mais, que do que as manifestações cotidianas.

─ Alguém tem idéia de quantos são?

Um dos secretários que estava de costas para a janela respondeu prontamente:

─ Trinta e quatro.

─ Trinta e quatro mil? Acho que são mais.

─ Não, não. Somos apenas 34 secretários.

Incomodado com a resposta alienada, foi até a janela observar melhor o tumulto.

Uma larga avenida separa os manifestantes do palácio. Além do isolamento acústico, o barulho dos ônibus e carros impedem que se ouça, de dentro do gabinete, as palavras de ordem gritadas nos jardins. O megafone também não produz o efeito desejado.

Enquanto mais gente chega de todas as direções, mulheres carregam cartazes com o número 52,19%.

Observa que todas as protestantes são mulheres. Bem vestidas e mal vestidas. De cabelo oxigenado, branco, anelado ou bem cortado. Executivas, universitárias, donas de casa, garis, aposentadas, meninas. Mais mulheres do que caberiam no Maracanã lotado.

Ainda assustado com a quantidade, voltou a questionar:

─ Estou impressionado. Quantas serão?

O mesmo alienado, sem pestanejar, respondeu que são apenas quatro secretárias: Mulher, Comunicação, Educação e Transferência de Renda.

O governador contou até dez para conter a impaciência.

─ Alguém sabe o que significam 52,19%? ─ Olhou para o secretário que respondeu 34 anteriormente, evitando outra bobagem, afirmou. ─ Sei que não é o reajuste que vocês pleiteiam. Não é a inflação, nem o reajuste dos combustíveis. Não é a taxa de desemprego, tampouco a taxa de ocupação nos presídios. Não é a taxa de aprovação dos alunos nas escolas.

O estagiário de jornalismo entrou esbaforido na sala com uma folha de papel: “Agora são 112.267 mulheres, gritando igualdade, reunidas na frente do palácio do Buriti”.

─ Meu filho, você está maluco! Você as contou uma por uma? Nunca vai ser jornalista de verdade. Toda nota deve responder as perguntas básicas: onde? o que? quem? quando? onde? como? e por que?. Eu quero saber por que protestam!

─ Elas imploram por igualdade. Sentem-se desamparadas. Querem mais homens.

─ Não entendi. Há décadas brigam por espaço. Elas sempre reclamam que os homens são maioria em todos os lugares.

─ É que de acordo com o Censo 2010, são 1.337.726 mulheres, o que corresponde a 52,18% dos residentes no DF. De onde calculei que há 112.267 mais mulheres que homens.



Este conto é resultado de um devaneio inspirado na matéria publicada no Correio Braziliense, em 03/04/2011 – “A capital da mulherada”.
 
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