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10 maio 2016

Palestra de autoajuda


Esta semana recebi três comunicações circulares relembrando a palestra com o prestigiado conferencista de renome nacional, o escritor de cinco best sellers, Dr. Tiago Neves de Melo Costa. Mesmo quem nunca ouviu falar em Melo Costa passou a enaltecê-lo após propagandearem a manada de informações.
O RH ressalta que as falas do Dr. Tiago superlotam auditórios. Que é muito importante se inscrever, apesar da gratuidade, e confirmar a presença, tendo em vista que o auditório comporta apenas trezentos felizardos. Que a palestra Melhorando a autoestima está contida na filosofia de valorização dos funcionários públicos. Que é restrita aos funcionários desta repartição. Vetada a presença de parentes.



Há vários dias, a figura do Dr. Melo Costa nos recebe com um sorriso de boas-vindas na entrada do nosso prédio. O tamanho do sorriso quase ultrapassa as margens do enorme banner multicolorido.
No hall dos elevadores, os cartazes informam que o Dr. Melo Costa já realizou mais de duzentas palestras de sucesso e que já vendeu mais de três milhões de livros. Que os seus livros “É mole ganhar dinheiro”, “Tenha amigos no lugar certo”, “Valorize-se e suba na vida”, “O mundo é dos vivos” e “O que o outro quer ouvir” estarão à venda.
Nos corredores e nas rodas de cafezinho o assunto é único: a vinda do idolatrado professor Melo Costa. Repentinamente, todos conhecem alguma tia ou vizinho que melhorara de vida após ler um dos livros dele. Os colegas citam frases selecionadas nos livros de Melo Costa: “Ajuda o teu semelhante a levantar a carga, mas não a levá-la.”, “A sorte ajuda os audazes.”, “As pessoas que vencem neste mundo são as que procuram as circunstâncias de que precisam e, quando não as encontram, as criam.”. Uma catarse coletiva estava em andamento e a palestra seria só à tarde.
Às 11h30, recebi mais uma circular informando que os funcionários que não conseguiram se inscrever teriam uma nova oportunidade dentro de 40 dias, porque o RH encontrou uma brecha na agenda do disputado conferencista.
À tarde, meia hora depois do combinado, o professor se instala atrás do microfone e, com a desenvoltura de um bispo evangélico, cativa a plateia extasiada.
Em resumo, enaltece o trabalho dos funcionários públicos, afirma que todos são eficientes e eficazes. Eles é que levam o País para frente. Se há alguma deficiência nas repartições públicas é culpa dos malfalados políticos que transferem a má imagem aos trabalhadores da burocracia.
Incomodei-me ao perceber que o discurso estava de acordo com o título do livro mais recente: “O que o outro quer ouvir”. Quando ele pronunciou com orgulho a própria sabedoria: “Todos os dias fazemos muitas coisas que não são importantes. Mas é muito importante que as façamos.” Um alarme soou na minha cabeça. Essa frase é de Mahatma Gandhi.
Peguei a agenda e passei a anotar outras frases de efeito até o término do teatro, quando todos aplaudiram entusiasmados.
Evitei o lanche de confraternização após a conferência. Fui para a minha sala checar as anotações. Não fiquei surpreso ao consultar a Internet e confirmar que Melo Costa, sem constrangimentos, se apossara de pensamentos do Dalai Lama, de Shakespeare, Pitágoras, Sófocles, Paulo Coelho.
Em outra pesquisa, descobri que todas as palestras aconteciam em órgãos públicos: secretarias estaduais, prefeituras, estatais, câmaras municipais e até no Senado Federal. Procurei em listas de mais vendidos e nada encontrei. Todos os livros foram adquiridos pelo governo para distribuição nas escolas e bibliotecas públicas. Sem dúvidas, o Dr. Tiago Neves de Melo Costa aplicava na prática o que ensinava nos títulos dos livros. Tendo amigos no lugar certo é mole ganhar dinheiro. Pena que não tenha escrito nenhum livro sobre honestidade e ética.
Em casa, foi difícil adormecer. Três provérbios giravam velozes na minha insônia: "Quem encobre ladrão é ladrão e meio." “Não existe almoço de graça.”; “Ladrão que não é apanhado, passa por homem honrado."
No dia seguinte, mesmo sem ter a quem apontar os fatos na repartição, juntei a documentação. Lacrei anonimamente um envelope pardo. Dirigi-me ao Ministério Público.
Quando entrei, pediram que me identificasse na portaria. Passei a porta giratória e a figura do Dr. Melo Costa me recebeu com um sorriso de boas-vindas estampado num enorme banner multicolorido.
A porta girou novamente para a minha saída. Entrei em parafuso.

08 outubro 2015

Antologia


— Ó, von Silva, o que é antologia?
Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo não faria essa pergunta. Se eu fosse o Raimundo que amava Maria que amava Joaquim, eu também não saberia a resposta. O meu nome é von Silva, não tenho outro de pia.
Se eu estivesse na repartição seria normal esse tipo de pergunta. Estou longe de qualquer dicionário, porque hoje é sábado. Essa Rosa radioativa estúpida e inválida não deveria ter feito esse questionamento.
Perdido, sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos, procuro uma resposta. Desejei me esconder, desejei ir para Minas. Minas não há mais. Quis morrer no mar, mas o mar secou. Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei. Volto para a minha terra que tem palmeiras onde canta o sabiá, que tem cadeiras onde posso sentar e procurar um desmancha-dúvidas.
Meu reino por um dicionário!
Deus, ó Deus, onde estás que não respondes? Preciso urgente de um pai dos burros.
Queixo-me da Rosa, mas a Rosa não fala, simplesmente perguntou o que é antologia.
Para todas as coisas: dicionário. Para que fiquem prontas: paciência. Rosa não tem paciência. Quer resposta. Tem uma pedra no meio do caminho! Cadê o maldito tira-teimas?
Toda pedra no caminho você pode retirar. De repente, não mais que de repente, surge o salvador e consulto o verbete:
“Coleção ou seleção de trechos em prosa e/ou em verso.”
— Obrigado, Aurélio!
Aurélio, garoto esperto, informa também que intertextualidade é a superposição de um texto a outro.
— Mais uma vez, obrigado, Aurélio!





Pesquisa para o texto Antologia
“Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução.” — O gauche — Carlos Drummond de Andrade

“João que amava Tereza, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili.” — Quadrilha — Carlos Drummond de Andrade

“O meu nome é Severino. Não tenho outro de pia.” — Morte e vida severina — João Cabral de Melo Neto

“Porque hoje é sábado.” — O dia da criação — Vinícius de Moraes

“A rosa hereditária. A rosa radioativa estúpida e inválida.” — A rosa de Hiroshima — Vinícius de Moraes

“Sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos.” — Alegria, alegria — Caetano Veloso

“Quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais.” — E agora, José? — Carlos Drummond de Andrade

“Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei.” — Vou-me embora pra Pasárgada — Manuel Bandeira

“Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá.” — Canção do exílio — Gonçalves Dias

“Meu reino por um cavalo!” — exclamou Ricardo III na Guerra das Duas Rosas, conforme William Shakespeare

“Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?” — Vozes d'África — Castro Alves

“Queixo-me às rosas, mas que bobagem, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti, ai.” — As rosas não falam — Cartola

"Para todas as coisas: dicionário. Para que fiquem prontas: paciência." — Diariamente — Nando Reis

“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.” — No meio do caminho — Carlos Drummond de Andrade

“Toda pedra no caminho você pode retirar.” — É preciso saber viver — Roberto Carlos e Erasmo Carlos

“De repente, não mais que de repente, fez-se de triste o que se fez amante.” — Soneto da separação — Vinícius de Moraes

“Se você rouba de um autor, é plágio, se de vários, é pesquisa.” — Wilson Mizner.

15 setembro 2015

A reunião


A/C: Dr. von Silva
Prezado Sr.
Assunto: reunião
Pauta:
•  Aprovação das contas do primeiro semestre;
•  Medidas visando melhorar atendimento ao público;
•  Contenção de custos: restrições no uso do telefone;
•  Reforma dos banheiros;
•  Assuntos gerais.
Local e horário:  sala 223, sexta-feira, às 16h
                                                                A Chefia


Sempre era assim. Assim é sempre. Assim sempre será. Diabos! Reunião de manhã. Reunião à tarde. Reunião para discutir a pauta da próxima reunião. Reunião para reunir. Reunião para definir data para outra reunião.
           
Pontualmente, às dezesseis e quarenta, o encontro é iniciado com uma reprimenda a um dos convocados.

— Doutor Nestor, poderia explicar o motivo do atraso?

— Eu estava em reunião no quarto andar, tratando dos interesses coletivos.

— Que reunião foi essa? Porque não me chamaram? Penso que estão me boicotando!

 
Discutimos as novas cores para os crachás.

— E qual a conclusão?

— Ainda estamos na definição sobre a cor do cordão para prender o crachá.

Claudinha mostrou-se interessada na questão.

— Qual é a cor que está predominando para a escolha dos crachás? Eu prefiro verde, combina com meus olhos...  — suspirou.

O chefe interrompeu a conversa.

— Eu penso sinceramente que hoje é sexta-feira e devemos agilizar esta reunião para sairmos daqui antes da meia-noite.  E eu penso em pegar um cineminha...

— Qual é o filme que você vai ver?  — perguntou Claudinha.

Com um olhar de desaprovação, começou.

— Senhores, o primeiro item é a aprovação das contas da repartição referentes ao primeiro semestre...

— Chefe, temos que adiar este ponto, pois esqueci de pedir que os convocados trouxessem suas calculadoras...

Aliviado, o chefe passou para o segundo item.

— Bem, em relação ao atendimento ao público, penso que eles não devem interromper nossas reuniões. Fora isso, penso que são muito bem atendidos. Podemos dar sequência: a contenção no uso dos telefones.

— Chefinho, eu já tomei as providências. Inclusive vai atender também à sua vontade de ser menos interrompido nas reuniões, externou Claudinha.

— Como assim?

— Eu já mandei tirar os telefones da portaria. Assim eles não podem perguntar se as pessoas podem subir. E conforme suas ordens, só podem subir as pessoas autorizadas.

— Muito bem, Claudinha. Aproveitando o próximo assunto, da reforma dos banheiros, penso em fazer uma pausa para visita ao local. Volto já.

— O cafezinho ainda não chegou? — perguntou Chico.
           

O chefe retornou com as mãos ainda úmidas, disposto a encerrar a agenda do final de sexta-feira.

— Eu penso que faltam vinte minutos para as seis horas. Alguém ainda tem alguma pergunta?

— Chefe, o ar-condicionado está mal regulado. Na reunião em que foi definida a temperatura, nem todos os parâmetros foram devidamente analisados.

— Como assim, von Silva? Penso que foi você quem mais fortemente argumentou que teríamos que baixar a temperatura por causa do gradiente térmico do sol poente nas janelas. Qual parâmetro não foi analisado?

— Paulinha.

— Continuo sem entender...

— É que ela está se agasalhando demais e escondendo o decote.

— Penso que segunda-feira poderemos discutir isso. Vamos descer?

— Ainda temos uma rápida reunião com Chico. Bom fim de semana!

— Até segunda!

Apenas o chefe saiu.

— E aí, Chico, quem acertou o bolão? — perguntou Nestor.

— Foi o von Silva, ele cravou dezoito vezes! O chefe repetiu ‘penso’ dezoito vezes.



Extraído de Cara de crachá de Roberto Klotz

10 agosto 2015

Paris


Minha tarefa diária de apontar todos os lápis é das mais importantes. Apesar do moderno apontador, faço questão de mostrar a arte, esculpindo as pontas com meu canivete vermelho. Os lápis têm a majestosa função de escrever petições, redigir ofícios, anotar depoimentos, rascunhar despachos e limpar orelhas.

Minha segunda tarefa é colocar o jornal sobre a escrivaninha do chefe.

Os jornais devem chegar donzelos. Intactos. Responsável que sou, sempre chego antes do chefe pelo menos umas duas ou três horas para dar conta dos meus árduos e rotineiros deveres. Nesta quarta-feira, li, pelo menos, a manchete do jornal. E mais um pouquinho. Estava tão cedo. Política, internacional, esportes, cultura. Lá no caderno de turismo anunciavam passagens para Paris. Mon Diê. Doze vezes, e ainda assim tá caro!

Paris é como uma virgem na flor da idade. Sonho passear por todos os seus cantos. Cheirar suas flores, atravessar suas pontes, caminhar nos seus jardins, sentir as bolhas do champanha no céu da boca. Se existe algum lugar com classe, esse lugar tem nome: Paris.  É desnecessário subir na Torre Eiffel para ficar junto das nuvens e sonhar.

Mona Lisa? Tenho hora marcada com você. Seu sorriso é minha alegria. 

Saímos juntos para um café na calçada coberta com as folhas douradas. Crepe Suzete, baguete, Lafayette, cotonete. Ah, o som, magnífico som: camembér, trotoá, voalá, peti puá, croassã, chantili, rende vu.

Mais um pouco de açúcar, Mona?

Na mesa vizinha, Voltaire, Sartre, um cavalo branco e Bonaparte. À direita, Jacques Cousteau, Débussy, Asterix e Brigitte Bardot. 

Bonsuá! 

Saio de braços dados. Todos me cumprimentam. Não é por mim, é por minha encantadora companhia que seduz com olhar emblemático e sorriso enigmático. 

Ela ajeita o véu, empunha a sombrinha e entramos na charrete. Sem nenhuma palavra margeamos o Sena. O chofer aumenta a música do rádio: La vie en rose. Na música seguinte ela olha para mim e canta em dueto com Piaf: Ne me quitte pas. Não me deixes. 

Nesse exato momento os sinos da catedral de Notre Dame badalam dez vezes.

O chefe entrou na sala.

— Bonjour!


— Que droga, von Silva! Quantas vezes preciso te dizer que odeio quando mexem ou dormem no meu jornal?!


Texto publicado no livro "Cara de crachá"

Prêmio edição da crônica “Dia e noite, Paris é um sonho” no Prêmio UFF de Literatura, promovido pela Universidade Federal Fluminense, Niterói – RJ.

20 abril 2015

Homo brasiliensis




— Cobogó? Que diabos é isso?
Evito prestar atenção à conversa alheia. Entretanto, às vezes é impossível não ouvir.
Eu voltava para Brasília sentado na poltrona do meio. Logo atrás de mim, naquele voo lotado, estava uma mulher vistosa, nos seus trinta anos. Entendi que ela desconhecia Brasília e recebeu um convite para trabalhar na Capital. Ela queria saber como as pessoas moram em Brasília e encontrou na cadeira vizinha um candango falante que deve ter sido guia turístico. Ambos falavam alto, o que tirou a atenção da minha leitura.
A primeira frase que ouvi, foi dele.
— Os ricos moram no lago. Os bem ricos, numa ponta de picolé.
— Como é? — Indagou a mulher, formando rima.
— As pessoas mais endinheiradas moram próximas do lago. Os terrenos enormes que ficam nas margens são chamados pontas de picolé. Somente esses têm o privilégio do acesso à água. Acredito que o melhor lugar para morar é no Plano.
— As margens do lago são muito íngremes?
— Não. Por quê?
— Você disse que preferia morar em lugar plano.
O vizinho, imagino, deu um sorriso, explicou que se referia ao Plano Piloto e falou das Asas Sul e Norte, arrematando que as mais valorizadas eram as 100 e as 300.
Naturalmente, ela deve ter feito cara de dúvida, pois ele disse que as quadras 100 e 300 ficam a oeste do Eixão.
Continuei sentado no meu lugar, preso ao cinto de segurança, mas com uma enorme vontade de olhar para trás para ver a cara de interrogação da mulher.
— Eixão?
O avião deu uma chacoalhada, de modo que perdi aquela explanação. Ouvi outra, já pela metade.
— ... os melhores apartamentos são os mais antigos, são amplos e vazados.
— E o que é um apartamento vazado?
O candango chegou a ser irritante com sua longa e apaixonada explicação.
— Os prédios, conhecidos por blocos, ficam deitados. São compridos em vez de altos. O que faz com que haja maior número de apartamentos no mesmo andar e provoca menos áreas externas, logo há muitos apartamentos com apenas uma frente. Os antigos são ventilados: têm frente e fundo do lado oposto. São os vazados. Todos os apês antigos têm cobogó.
— Cobogó? Que é isso? Tenha dó! — Exclamou em nova rima.
Adoro essa palavra formada pela primeira sílaba dos nomes de três engenheiros que criaram uma parede de tijolos decorativos que permite ventilação e entrada de luz natural. De modo que só ouvi o final da frase do vizinho falante.
— ... além do quê, são impressões digitais da cidade.
Daí, ela perguntou qual era o prato típico da cidade.
E ele foi muito criativo na resposta.
— Não há nenhum prato típico porque os moradores têm origem em todas as regiões brasileiras. Na cidade, encontramos todos os temperos. Não há prato nem forma comum de preparar alguma iguaria. É usual a reunião das pessoas em torno de uma churrasqueira. Cada um assando a carne ou peixe a seu modo.
Em quase todas as casas do Lago há churrasqueiras. Quase todos os clubes construíram churrasqueiras e também há muitas espalhadas nos parques públicos. O churrasco agrega as pessoas. O brasiliense aprendeu que, para sobreviver ali, deve unir-se aos outros, respeitando e ultrapassando barreiras regionais.
— Uau! Falou bonito! Só ouço as pessoas falarem mal de Brasília, que é onde todos os corruptos se reúnem para roubar o resto dos brasileiros...
Nesse momento, a forasteira acertou o fígado de todos os brasilienses com um poderoso golpe direto.
— Pois é, esse lamentável rótulo pertencia ao Rio, enquanto Capital. Mineiros: pão-duros; baianos: preguiçosos; paulistas: trabalhadores. Rótulos servem apenas para garrafas. Os corruptos estão espalhados por todos os cantos do nosso país. Não se salva nenhum enquanto permanecer a impunidade. A diferença é que de Brasília saem as verbas federais, as somas são maiores e a mídia está mais atenta.
A mulher percebeu que cometeu uma gafe ao falar mal de Brasília a um brasiliense. E procurou mudar de assunto:
— Faz muito tempo que você mora em Brasília?
Aliviado, o candango respondeu:
— Agora você já está falando como uma brasiliense legítima...
— Não entendi...
— Quando duas pessoas se conhecem, a primeira pergunta é: há quanto tempo mora na cidade? E a segunda, invariavelmente, é: de onde você veio? Agora, com o passar do tempo e o surgimento de uma geração de nascidos na capital, a coisa mudou um pouco. De qualquer forma, as perguntas sempre são bem-vindas para o início de uma conversa.
— Há quanto tempo, afinal, você mora na cidade?
— Fui para lá no início da década de 70. No tempo em que a lenda dizia que quem se mudava para Brasília passava pelo estágio dos três dês. Deslumbramento, decepção e desespero. Deslumbramento com as largas avenidas, arquitetura monumental e proximidade com o poder. Decepção ao perceber que morar próximo ao poder não os transforma em nobres. Desespero por não se adaptar à cidade e querer ir embora.
— Era tão ruim assim?
— É uma cidade de gente guerreira. Os perdedores sempre reclamam. — Pigarreou com desdém.  — O tempo incorporou outro dê. O dê da demência.
— Como assim? Não entendi...
— É quando as pessoas se acostumam, se entrosam e passam a amar Brasília.
— Interessante essa lenda...
— Particularmente, adotei ainda os dês da devoção e defesa da cidade que tão bem me acolheu.
Nesse momento, a conversa dos dois foi interrompida pelo forte barulho do retrocesso das turbinas no pouso do avião.
O avião taxiou e estacionou.
Abri a porta do compartimento acima da cabeça, peguei minha sacola e olhei para os que me proporcionaram um voo mais agradável.
Ainda pensei em falar ao conterrâneo que as sílabas de cobogó foram formadas a partir dos nomes de Coimbra, Boekmann e Góis, mas apenas me despedi com um gesto de cabeça.

 
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