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04 julho 2020
Sem perdão Frederick Forsyth
Sem Perdão
Frederick
Forsyth
Editora Record
242 páginas
Houve um tempo
em que eu lia pouco, mas me sentia confortável por saber que havia algum Forsyth
me aguardando na prateleira.
Assim li “Quarto
protocolo”, “O dossiê Odessa”, o insuperável “O dia do Chacal”, ”Cães de guerra”,
“O negociador”, “O punho de Deus” (o mais fraco de todos), “Alternativa do
diabo”.
Também li “Sem
perdão”, mas eu não me lembrava disso quando comprei esse exemplar num sebo
virtual após o escritor Chico Lopes (ou terá sido o Claudio França?) apontar, no
Facebook, o livro como um dos seus preferidos. Dizia no comentário que era um
livro ótimo livro de contos.
Contos são a
minha praia e Frederick Forsyth é a praia onde gosto de nadar.
Desde que
resolvi me reinventar e ser escritor, em 2003, larguei os best-sellers e passei
a ler os clássicos ou livros escritos por conhecidos. Nunca mais li Forsyth, Ken Follett, Dan Brawn ou
thrillers do gênero.
O comentário
aguçou os meus sentidos de prosador de contos e crônicas e, de imediato, fiz a
minha encomenda virtual.
Quando o meu
exemplar chegou eu me preparei para ler com o mesmo apetite do glutão que amarra
um guardanapo no pescoço antes de encarar a macarronada.
Pela primeira vez leria um
Forsyth como escritor e não apenas como um leitor.
O primeiro
conto, que dá nome ao livro, começa com “Mark Sanderson gostava das mulheres.
Da mesma forma como gostava dos steaks do gado de corte Aberdeen Angus,
sempre ao ponto, acompanhados por uma salada de alface. Consumia a ambos com
igual prazer, se bem que passageiro. E cada vez que se sentia um pouco
esfomeado, por uma coisa ou outra, telefonava para o fornecedor apropriado e
encomendava o que precisava no momento.”
Interrompi
para sublinhar a magnífica abertura.
Em seguida
lança um conflito: Mark Sanderson tinha três vidas: a vida pública, a vida
particular e a vida secreta. Impossível ficar imune à curiosidade.
Do
protagonista informa que “Aprendera as regras do jogo em dois anos. E, o que
era ainda mais importante, aprendera também a violá-las legalmente.”
A partir
destas informações lança uma história fascinante de um homem poderoso que
alcança tudo o que deseja até se apaixonar. Tudo perfeitamente verossímil com um
fechamento arrebatador.
O final é tão
impactante e original que naquele instante tive a certeza de ter lido o conto e
o livro antes. Que delícia voltar a comer um prato de que se gosta!
O título do
conto seguinte “Não há cobras na Irlanda” me chamou a atenção porque eu gravei
mentalmente essa “informação inútil” sem saber de onde ou por quê. No conto, o
autor em vez de apenas mencionar uma cobra indiana, a descreve fisicamente,
detalha hábitos alimentares e a letalidade do veneno. Nada é excessivo ou
cansativo. Pelo contrário, nos convence que a cobra existe e é daquela forma.
Muito provavelmente um autor comum apenas mencionaria um nome conhecido de
cobra o que por si só seria o suficiente para provocar medo. Aqui as
informações não são inúteis. Todas têm devida importância para a sequência e
consequência da história. Forsyth, preza os detalhes minuciosos, resultado de pesquisa
profunda. Assim são as descrições de ações, lugares ou até objetos, dependendo
da importância de cada um para cada conto. O autor, pelas descrições insere o
leitor com uma verossimilhança absoluta e contagia com uma escrita ágil e
envolvente.
Tanto que no
conto seguinte, “O imperador”, somos levados para uma pescaria em alto mar numa
traineira. Os relatos e emoções da pescaria são próximos da proeza em que
Hemingway conseguiu ao pescar um Nobel com “O velho e o mar”.
Esqueci de
dizer que o conto começa com um conflito que fisga o leitor:
“– E tem mais uma coisa – disse a Sra.
Murgatroyd.
Ao lado dela,
no táxi, o marido disfarçou um pequeno suspiro. Com a Sra. Murgatroyd, sempre
havia mais uma coisa. Não importava o quanto tudo estivesse correndo bem. Edna Murgatroyd
passava pela vida sob o acompanhamento de um rosário de queixas, uma litania interminável
de insatisfação. Em suma, ela importunava o marido incessantemente, sem lhe dar
um minuto de descanso.”
“Usado como
prova” é um conto que nunca saiu da minha cabeça. Simplesmente genial. Trata-se
de uma investigação policial em que somos instigados o desde a primeira linha e
ficamos em suspense até o ponto final. Fiquei muito feliz de reencontrar esse
conto.
Apesar dos
contos serem longos não há excessos. Os personagens são bem construídos e muito
bem credenciados. Narrativas com reviravoltas e fechamentos surpreendentes, sem
o posicionamento emocional, tanto que inexistem lados bons ou ruins, apenas
ações e reações.
Não é à toa
que Frederick Forsyth tem tantos fãs mundo afora.
Hoje mesmo vou
procurar outros títulos do mestre.
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Sem Perdão
16 novembro 2018
A LOUCA
DA CASA
Rosa Montero
Editora Harper Collins
176 páginas
R$ 30,00
Quando o livro
foi sugerido no Clube de Leitura eu não estava prestando atenção.
Intuí, erradamente, tratar-se de
uma autora brasileira no topo de best
sellers.
Santa ignorância!!!
Em vez de
Monteiro é Rosa Montero, autora espanhola. O livro é de 2013, publicado no
Brasil em 2016 e a temática é o ofício do escritor.
Na ficha
catalográfica o livro é rotulado como romance, mas no meu entender é um
delicioso bate-papo com uma escritora que tem o que dizer e contar e ensinar e
fazer pensar com originalidade sobre o próprio ofício.
É como se
fosse um programa de televisão com uma entrevistada envolvente e inteligente. As
conversas não são lineares como numa narrativa, então em vez de opinar como
seria de se esperar sobre uma resenha, resolvi recortar e colar trechos que me
pareceram construtivos ou marcantes.
Pág 62 – “Vale
a pena ser continuar sendo criança em alguma região de si mesmo. Vale a pena
não crescer demais.”.
Pág 63 – “A
qualidade literária é um dos valores mais subjetivos e mais dificilmente
mensuráveis que conheço; ”. “A história demonstra que nem o sucesso em vida nem
os prêmios, nem, ao contrário, o fracasso e a contrariedade dos críticos foram
alguma vez a prova confiável da qualidade de uma obra. E nem sequer o tempo põe
as coisas em seu lugar, como gostaríamos de acreditar por precisarmos de
certezas; algumas vezes, caíram por puro acaso em minhas mãos romances de autores antigos totalmente
esquecidos e fora de catálogo, que, no entanto, achei ótimos, e previsivelmente
eles nunca mais regressarão do cemitério.”
Pág 75 –
“Escrever ficção é expor à luz um fragmento muito profundo do inconsciente.”.
Pág 80 – “Para
ser um bom escritor, é preciso desejar sê-lo, e desejar, aliás, de maneira
febril. Sem a disparatada e soberba ambição de criar uma grande obra não se
consegue escrever sequer um romance médio.”.
Pág 100 – “O
romance é o único gênero literário em que reinam a mesma imprecisão e falta de
limites que reinam na existência humana. É um gênero sujo, híbrido, agitado. Escrever
romances é um ofício sem glamour;
somos os operários da literatura e precisamos colocar tijolo por tijolo,
manchar as mãos e exaurir nossas costas no esforço de construir uma humilde
parede de palavras que, quem sabe, vai acabar desmoronando.”.
Pág 101 –
“Mesmo os melhores romances da história, os grandes romanções maravilhosos, têm
páginas fracas, perdas de tensão, carências óbvias. Eu gosto disso. E me
reconheço nisso; isto é, reconheço o fôlego hesitante das coisas.”.
E é lógico que
uma autora mulher sempre é questionada sobre a escrita feminina.
Pág 108 –
“Quando uma mulher escreve um romance protagonizado por uma mulher, todo mundo
considera que está falando das mulheres; mas se um homem escreve sobre um
romance protagonizado por um homem, todo mundo considera que está falando do
gênero humano?
Não tenho
nenhum interesse, absolutamente nenhum, de escrever sobre mulheres. Quero
escrever sobre o gênero humano, mas por acaso 51 por cento da Humanidade é do
sexo feminino; e como eu pertenço a esse grupo, a maioria dos meus protagonistas
absolutos são mulheres, da mesma maneira que os romancistas geralmente criam
personagens principais masculinos. E já é hora de os leitores homens se
identificarem com as protagonistas mulheres, da mesma maneira que durante
séculos nós nos identificamos com os protagonistas masculinos, que eram nossos únicos modelos literários; porque
essa permeabilidade, essa flexibilidade do olhar nos tornará a todos mais
sábios e mais livres.”.
Pág 112 – “Se
os homens tivessem regras, a literatura universal estaria cheia de metáforas do
sangue.”
A autora
aborda outro tema tão caro aos brasileiros: a escrita politizada.
Pág 109 –
“Detesto a literatura utilitária e militante, os romances feministas,
ecológicos pacifistas ou qualquer ista
que se possa pensar, porque escrever para passar uma mensagem trai a função
primordial da narrativa, seu sentido essencial, que é o da busca do sentido.
Escreve-se, então para aprender, para saber; e não é possível empreender essa
viagem de conhecimento levando previamente as respostas.”.
Pág 39 – “Para
mim, o famoso compromisso do escritor não consiste em engajar suas obras a
favor de uma causa (o utilitarismo panfletário é a traição máxima ao ofício; a
literatura é um caminho do conhecimento que precisamos percorrer carregados de
perguntas, não de respostas), e sim em permanecer sempre alerta contra o senso
comum, contra o preconceito próprio, contra todas as ideias herdadas e não questionadas
que se infiltram insidiosamente em nossa cabeça, venenosas como o cianeto,
inertes como o chumbo, más ideias que induzem à preguiça intelectual. Para mim,
escrever é uma maneira de pensar; e deve ser o pensamento mais limpo, mais
livre e mais vigoroso possível.”.
Pág 113 – “É
raríssimo um escritor que cultive um único gênero”.
Pág 127 – “A
morte também é leitora, por isso, recomendo ter sempre algum livro na mão,
porque assim, quando a morte chega e vê o livro, se espicha toda para ver o que
você está lendo, como eu faço no ônibus, e então se distrai. “.
Pág 167 – “O
que o romancista faz é desenvolver múltiplas alterações, essas irisações da
realidade.”. “O escritor pega um grumo autêntico da existência, um nome, uma
cara, um pequeno episódio, e começa a modificá-lo mil e uma vezes, substituindo
os ingredientes ou dando-lhes outra forma, como se estivesse rodando
indefinidamente os mesmos fragmentos para construir mil figuras diferentes.”.
Esse fragmento
é importante porque traduz o que Rosa Montero fez como fio condutor do livro ao
contar três vezes a mesma história com mesmos cenários e personagens, porém ingredientes
variados levaram a fechamentos verossímeis, mas absurdamente diferentes.
Eu questionei
se o romance era um bate-papo descontraído, agora deixo para você questionar se
esta resenha é um resumo.
Além de
delicioso, o livro passa a ser um livro de consultas.
Recomendo para você que escreve e para você que
tem prazer em ler.
05 outubro 2017
Mulheres que mordem
mulheres que mordem
BEATRIZ
LEAL
Ímã Editoral
120 páginas
R$ 45,00
Há diversas
formas de começar um livro.
A minha,
costumeiramente, é pela capa. A imagem é de sensualidade quase explícita. Mas o título não corresponde ao desenho.
Então fui impactado pela segunda vez com uma questão mentalmente não resolvida.
A dica do
enigma veio na contracapa falando em quatro mulheres, quatro mordidas. Aí
percebi a genial simbiose da ilustração com o título. Sou leigo em botânica. Mulheres
são representadas pelas flores enquanto a mordida é símbolo da agressividade,
da pessoa guerreira então nada melhor que uma planta carnívora. A percepção sexual
fica para a cabeça pervertida deste leitor.
Particularmente
desgosto de resgate de histórias — tão na moda — dos tempos da ditadura. Seja
de um lado ou de outro.
Este tem
alguns diferenciais. Foi finalista do Jabuti, é de autora jovem que não
vivenciou aqueles tempos, é brasiliense, foi indicada pelo clube de leitura e
me entregou o livro com uma dedicatória.
Imagino que
tenha sido tarefa difícil escrever sobre a ditadura argentina que a autora não
vivenciou.
Em cada
capítulo conhecemos pedaços de histórias de personagens.
Em inteligente
combinação, o nome dos personagens – em negrito – inicia capítulos quando não
são os visivelmente reconhecíveis relatórios ou as cartas – em itálico – de
Rosa.
Os personagens
foram bem trabalhados de modo que cada um tivesse “voz” e personalidade
diferenciada.
A narradora apresenta Elena como obsessiva
esposa de militar, que “só teria de aprender a conviver com a disciplina que já
tinha contaminado os passos de Ramiro.”... “Ela se ocupava contando quantas
mastigadas havia dado no frango, movimentando a arcada dentária inferior em
direção à superior no ritmo da música que tocava”... “Elena só não contava
mastigadas quando ouvia de longe os passos fortes de Ramiro. Cinco anos depois,
ela sabia que ele precisava invariavelmente de 59 passos para chegar do quarto
á cozinha, de manhã, após acordar.”.
Laura, a arredia filha adotada, é apresentada
em época diferente. Já adulta. “tomando cuidado para não tropeçar nas raízes
protuberantes de árvores”... “E sente um leve prazer quando tropeça, mapeando
qual foi o pensamento responsável por fazê-la parar de prestar atenção no chão.”...
“Criou um tipo de intimidade com a cidade que ninguém mais tira. No entanto, há
dias em que ainda sente uma peça vazia.”.
Por meio das
cartas sabemos que Rosa é mãe da militante Clara.
Conhecemos o
torturador por meio do relatório de entrevista na imigração.
À pergunta “—
E por que ela foi mantida viva tanto tempo?” Respondeu: “Quando ela chegou,
logo descobriram que estava grávida, e de pouco tempo ainda. Então
mantiveram-na, até o bebê nascer, em regime especial. Para que não abortasse
espontaneamente, a gente tinha limite nas metodologias que podíamos aplicar.
Tínhamos que conseguir alguma
informação, mas os limites para mulheres grávidas eram mais estabelecidos. Era
como se os bebês dessem a elas um pouco de chance a mais. Não entendo por quê,
se a ideia era que todo mundo morresse mesmo. “.
Os conflitos
aos poucos se fecham em torno de um final não previsível, mas quase feliz,
porque não há felicidade possível na opressão.
03 outubro 2017
TODOS OS ABISMOS CONVIDAM PARA UM MERGULHO
TODOS
OS ABISMOS CONVIDAM PARA UM MERGULHO
Cinthia Kriemler
Editora Patuá
272 páginas
R$ 45 no site da editora
O título do
livro é um indicativo da leitura que nos espera. Se você é do tipo mimimi,
gosta de poesia lírica, rosas perfumadas e sedutores príncipes encantados
procure a sua turma. Este livro é para os que sabem a diferença entre amor e
sexo. E que também sabem que mortos, muito além das qualidades enumeradas pelo
padre na beira do túmulo, fedem.
A autora não
faz pacto com o leitor propondo histórias terríveis e solicitando o obséquio para
o leito acreditar. Tudo é verossímil. Narrado em primeira pessoa, tudo é real e
verdadeiro. Quando a luz se vai, a escuridão penetra.
Trata-se de
uma assistente social depressiva que atende fragilizados na violência
doméstica. A escolha da profissão não é opção masoquista para ouvir e intervir
em dramas familiares. A protagonista vivenciou o terror com o pai, mãe e filha.
Ela é forte. Objetiva minimizar o sofrimento de quem é subjugado.
Beatriz
precisa entrevistar um pai. “Tenho que ouvir o depoimento desse lixo sem me
alterar. Não posso apertar os lábios, nem franzir a testa, nem arquear as
sobrancelhas, nem balançar o pé, nem fazer ironia, nem respirar com força. Nem,
nem, nem, nem. Nenhum antagonismo. Imparcialidade, Beatriz, imparcialidade.
Somos pessoas muito civilizada, nós que ouvimos sobre incestos, estupros,
porradas, queimaduras, facadas, estrangulamentos, afogamentos, tiros,
overdoses, suicídios. Que buscamos em cada abusador — pai, mãe, tio, irmão,
namorado, colega, professor — um indício de arrependimento por seus crimes.
Mesmo sabendo que isso nunca acontece.”.
E prossegue
mais adiante: “Dentro de alguns dias entrego um laudo ao juiz. Que vai juntá-lo
ao de um psicólogo. Ambos servirão para determinar o seu destino. No meu lado
vai estar escrito que você representa uma ameaça à usa companheira, ao seu
filho e à sociedade. Que você é um pedófilo desgraçado que pratica incesto. Uma
aberração. Mas tudo dito de maneira civilizada. Baseado em depoimentos, fatos,
provas. Como se não houvesse dentro de mim uma besta capaz de morder. Eu mordo.
Forte. Se eu pudesse dizer o que penso, diria aos seus algozes na cadeia para
não matar você logo. Pediria que o mantivessem vivo, sendo humilhado, estuprado
por um, por dois, por dez homens, apanhando até ficar roxo. Só não quero que
você morra. É tão pouco.“.
Não
é à toa que ela se chama Beatriz: aquela que faz ou procura fazer os outros
felizes; que a psicóloga se chama Clarice: a que brilha, a que traz luz e que a
filha Laura é aquela que se deixa dominar por sentimentos contrários, que se
preocupa com a opinião dos outros.
A narrativa
tem palavras de fácil compreensão, dispensa dicionários. O dicionário não é o
instrumento para mensurar a escrita. O conteúdo pesado necessita de balança.
Sou
fã da escrita de Cinthia Kriemler, entretanto esta leitura não é recomendada
após as refeições tampouco antes de dormir.
21 setembro 2017
A RESISTÊNCIA
A RESISTÊNCIA
Julián Fuks
144 páginas
Companhia das Letras
R$ 30,00
Poucos foram
os livros que li duas vezes. Este, li uma quase seguida da outra.
O romance é
ótimo. Tanto que recebeu merecidamente o Jabuti de melhor romance e segundo
colocado no Prêmio Oceanos de Literatura. Fuks também foi eleito um dos
melhores jovens escritores em 2012 além de ter sido finalista do Jabuti e do
Brasil Telecom em outras duas ocasiões. Tive a oportunidade de conhecê-lo num
bate-papo promovido pelo CCBB em Brasília. O cara é fera.
A mim, além da
história interessou-me a forma de contar. O livro é uma aula. É uma oficina
para quem se dispuser a ler como um escritor.
Narrado em
primeira pessoa, é autoficcional, inicia impactante na primeira frase: “Meu
irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado.“.
Fala sobre a desimportância
da necessidade dos laços sanguíneos para haver fraternidade. Relata inúmeros
casos que poderiam ter acontecido com qualquer filho de qualquer família,
adotado ou não. Só que o irmão adotado se descobre neto das Avós da Praça de Maio.
Em vez de
tentar fazer uma sinopse, passo a palavra ao autor no Capítulo 18.
O narrador em
busca do apartamento em que os pais moraram em Buenos Aires, ainda nos anos de
chumbo, sem discurso prévio, cria um interlocutor porteiro. “Procuro um casal
que morou aqui há muito tempo”. “Tiveram que partir de súbito”. Percebo a incompreensão. “Pero usted no sabe sus nombres?” “ Sim, eu sei, eles são meus pais,
o bebê é meu irmão, eu sei onde estão, eles não desapareceram”. “Só queria
conhecer o apartamento onde viveram porque estou escrevendo um livro a respeito”
e segue adiante “Um livro sobre meu irmão, sobre dores e vivências de infância,
mas também sobre perseguição e resistência, sobre terror, tortura e desaparecimentos.”.
Fuks toca a sensibilidade
do leitor sem ser piegas.
Há inúmeras resenhas
e aplausos na Internet. O meu foco vai para a escrita.
Fuks é mestre
nas aberturas de capítulos. O sétimo se inicia com “Isto não é uma história.
Isto é história.”. No vigésimo terceiro, assusta: “Hoje sonhei com a morte do
meu irmão.”.
No terceiro
capítulo, o narrador sabe da importância de um episódio, mas tem ciência da impossibilidade
de recordar os fatos exatamente como aconteceram. Então constrói o cenário.
“Ele é adotado
disse a uma prima”. ... “eu devia ter uns cinco anos” ... “Estávamos num carro”
... “Fez-se um silêncio imediato” ... “Posso ter levado um cutucão discreto da
minha irmã” ... “Tão contundente foi aquele silêncio que dele me lembro até
hoje.”.
“Na minha
lembrança os olhos do meu irmão estavam lacrimosos, mas desconfio que essa seja
uma nuance inventada, acrescida nas primeiras vezes que rememorei o episódio,
turvado já por algum remorso. Ele estava sentado no banco da frente. Se chorava,
decerto continha qualquer soluço e escondia as lágrimas com as mãos ou; ou
voltava o rosto para a janela, extraviava a vista em presumíveis pedestres. O
caso é que não me olharia, não viraria para trás. Talvez fossem os meus, os
olhos lacrimosos.”
Da mesma forma,
confira as cenas do jantar em que os convidados não apareceram ou quando os
pais participaram de uma convocação da resistência portenha em São Paulo.
Gosto
das reflexões e pensamentos do narrador, sobretudo porque não diz, não narra.
Mostra ou apresenta os fluxos de consciência nas cenas.
Ao
contrário de tantas biografias, este autor, sem constrangimentos, mostra as
ferramentas de escritor ao externar “vejo ou invento meu irmão” (capítulo 8) ou
outras como “especulo como meus avós reagiram”, “transito na imaginação”, “visito
o museu da memória”(pág 93), “um truque alternativo, a vontade de forjar
sentidos que a vida se recusa a dar.” (pág 95).
Na penúltima
linha do penúltimo capítulo, o narrador apresenta o seu nome: Sebastián. Com
acento no último “a” como Julián. Confessadamente um alterego do autor ou
heterônimo como preferem alguns poetas.
Finalizo
os comentários dizendo que recomendo a leitura com entusiasmo. Tanto que indiquei
ao grupo de leitura a que pertenço proporcionando-me a releitura.
Roberto Klotz
21 de setembro de 2017
08 fevereiro 2017
Quarto de despejo
Carolina Maria deJesus
Editora Ática
R$ 45,00
198 páginas
O Quarto de despejo é uma edição das anotações
diárias de uma moradora da extinta favela do Canindé, à beira do rio Tietê, no
centro de São Paulo. Escrito na segunda metade dos anos 1950. É de uma
realidade contundente.
Numa época em
que os autores brasileiros dificilmente conseguiam edições maiores que dois,
três mil exemplares, Carolina Maria de Jesus superou barreiras. Após o
lançamento, seguiram-se três edições, com um total de 100 mil exemplares
vendidos, tradução para 13 idiomas e vendas em mais de 40 países.
— Por que
alguém deve ler Quarto de despejo?
— Poderia ser
uma homenagem pelos 40 anos da morte da autora (13 de fevereiro de 1977), mas
prefiro dizer que é informação. Aqui você vai saber, pela voz de uma favelada o
que é fome. Que os miseráveis brigam, se matam e fazem sexo como animais. Que quando
falta o respeito a si mesmo não pode haver respeito ao próximo. Carolina Maria
de Jesus se respeitava e respeitava o próximo.
A autora era
negra, favelada, mulher, miserável, três vezes mãe solteira, mas guerreira e de
coração generoso.
O livro não
tem história. Não tem enredo. Não tem começo dramático, não tem final feliz.
Nem final tem. É um relato do cotidiano. É um diário. É um manual de
sobrevivência no meio do lixo. É um depoimento-denúncia isento de ódio.
— Mas porque
afinal fez tanto sucesso?
— É que naquele
meio são raros os que sabem ler e escrever. Mais raros ainda os que apesar destas
qualidades, têm garra, permanecem sóbrios, usam o papel e a caneta para acusar
sem ódio, sobrevivem e conseguem, a despeito de tudo, ainda ter lampejos
poéticos, persistência e sorte de ser publicados. Tudo o que se lê à respeito
da favela é escrito pelo olhar de quem come três vezes ao dia.
Se você pensa
que a sua vida é ruim. Você não sabe de nada.
A personagem
principal é a fome e a cada cinco páginas há ao menos uma morte, por fome,
doença, aborto ou assassinato.
O primeiro
relato é de 15 de julho de 1955, dia do aniversário da filha. Em vez de bolo,
velinhas e balões, a menina ganhou um par de sapatos achados no lixo, lavados e
remendados pela mãe e autora.
Em 19 de julho
anota que não conseguiu armazenar para viver. Resolveu armazenar paciência. E
adiante, após relatar uma queixa da vizinha diz “Os meus filhos estão
defendendo-me. Vocês são incultas, não podem compreender. Vou escrever um livro
referente a favela. Hei de citar tudo que aqui se passa. E tudo que vocês me
fazem. Eu quero escrever o livro, e vocês com estas cenas desagradáveis me
fornece os argumentos”.
Em 22 de julho
Diz que é muito alegre. “Todas manhãs eu canto. Sou como as aves, que cantam
apenas ao amanhecer”.
Em 10 de maio,
depois de citar políticos opina que “O Brasil precisa ser dirigido por uma
pessoa que já passou fome. A fome também é professora.”
No dia 15 de
maio encontra a poesia: “O céu já está salpicado de estrelas. Eu que sou exotica
gostaria de recortar um pedaço do céu para fazer um vestido.”
Em 27 de maio:
“Resolvi tomar uma media e comprar um pão. Que efeito surpreendente faz a
comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as arvores, as aves
tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.”
Em 16 de
junho: “Eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu até acho o
cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de
preto onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento
na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reencarnações,
eu quero voltar sempre preta.”
Em 6 de julho,
em relação à catação de papel: “Parece que eu vim ao mundo predestinada a
catar. Só não cato a felicidade.”
No dia 8 de
julho anotou que o filho (de uns nove anos) fora acusado de molestar uma menina
de dois anos. E que iriam denunciá-lo ao juizado de menores. Ela mesmo tomou a
iniciativa de ir ao Juizado para interná-lo “porque agora tudo que aparecer de
mal vão dizer que foi ele.”
No mesmo dia
anota que o doutor do juizado “disse-me que se os meus filhos fossem para o
Abrigo que ia sair ladrões. Fiquei horrorizada ouvindo um Juiz dizer isto.”
Em 16 de
agosto: “O custo de vida faz o operario perder a simpatia pela democracia.”
No dia 18 de
julho do ano seguinte reflete: “Temos só um jeito de nascer e muitos de morrer.”
É lógico que selecionei
o lado poético.
Para nós, moradores de casa de alvenaria, a
pobreza, a fome, a morte são invisíveis como os miseráveis.
09 janeiro 2017
Milton Hatoum
Companhia de Bolso
200 páginas
R$25,00
Hoje é estreia da minissérie homônima na TV
Globo. Li o livro em maio de 2016 e acho que postei a minha crítica. Entretanto,
tendo em vista o momento, republico.
O primeiro capítulo do livro é curtinho,
porém muito impactante. O autor recortou um trecho de altíssimo grau de emoção
da história e abriu o livro com ele.
Eis os dois últimos parágrafos deste
capítulo:
“Eu não a vi morrer, eu não quis vê-la
morrer. Mas alguns dias antes de sua morte, ela deitada na cama de uma clínica,
soube que ergueu a cabeça e perguntou em árabe para que só a filha e a amiga
quase centenária entendessem (e para que ela mesma não se traísse): “Meus
filhos já fizeram as pazes?”. Repetiu a pergunta com a força que lhe restava,
com a coragem que mãe aflita encontra na hora da morte”.
“Ninguém respondeu. Então o rosto quase
sem rugas de Zana desvaneceu; ela ainda virou a cabeça para o lado, à procura
da única janelinha da parede cinzenta, onde se apagava num pedaço do céu
crepuscular”.
O capítulo lança uma questão “Meus
filhos já fizeram as pazes?“ que mostra um enorme conflito e com a pergunta
atiça a curiosidade do leitor. Antes de responder sim ou não, somos provocados
à bisbilhotice, queremos saber que motivo é forte o suficiente para colocar em
lados opostos dois irmãos? Ansiamos por saber por que estão brigados.
A história se passa em Manaus de 1910 a 1968.
No período, o autor mostra a evolução da cidade enquanto inunda as páginas com
as águas do rio Negro e enreda a história de imigrantes libaneses com ramos das
seringueiras e sons dos pios de jaçanãs e jacu-ciganas.
Aos poucos somos apresentados aos irmãos
gêmeos Omar e Yaqub.
Em relação a Yaqub: “O que lhe faltava
no manejo do idioma sobrava-lhe no poder de abstrair, calcular, operar com
números”.
“E para isso”, dizia o pai orgulhoso,
“não é preciso língua, só cabeça. Yaqub tem de sobra o que falta no outro”.
O outro, o Caçula – referindo-se a Omar
– exagerava as audácias juvenis: gazeava lições de latim, subornava porteiros
sisudos do colégio dos padres e saía para a noite, fardado, transgressor dos
pés ao gogó, rondando os salões da Maloca dos Barés, do Acapulco, do Cheik
Clube, do Shangri-Lá. De madrugada, na hora do último sereno, voltava para
casa.
“Colhe a orquídea mais rara, mas também
arranca a aninga da lama”.
Apesar de narrado na primeira pessoa, durante
muito tempo ficamos sem saber quem é o narrador. “E a mim, sem me olhar, sem se
importar com a minha presença Na verdade, para Zana, a mãe dos gêmeos, eu só
existia como rastro dos filhos dela”.
No transcorrer da história descobrimos
que o narrador é filho de um dos gêmeos com a empregada índia que mora nos
fundos da casa. O narrador, desprezado pela família, quer saber quem é o pai.
Quem são os pais dos gêmeos?
Halim, marido de Zana e pai dos gêmeos
era comerciante. “Vendia coisas de qualquer um. Vendia sem prosperar muito, mas
atento à ameaça da decadência, que um dia ele me garantiu ser um abismo. Não
caiu nesse abismo, nem exigiu de si grandes feitos. O abismo mais temível
estava em casa, e este Halim não pode evitar”.
“A intimidade com os filhos, isso o
Halim nunca teve. Uma parte de sua história, a valentia de uma vida, nada disso
ele contou aos gêmeos”.
“Mas acreditava, bêbado de idealismo, no
amor excessivo, extático, com suas metáforas lunares. Um romântico tardio, um
tanto deslocado ou anacrônico, alheio às aparências poderosas que o ouro e o
roubo propiciam. Talvez pudesse ter sido poeta, um flâneur da província; não
passou de um modesto negociante possuído de fervor passional”.
E quem era a esposa Zana?
“Era possuída por uma teimosia
silenciosa, matutada, uma insistência em fogo brando; depois, armada por uma
convicção poderosa, golpeava ferinamente e decidia tudo, deixando o outro
estatelado.”
E a pergunta lançada o primeiro
capítulo?
“O duelo entre os irmãos era uma
centelha que prometia explodir”.
“Duelo? Melhor chamar de rivalidade,
alguma coisa que não deu certo ente os gêmeos ou entre nós e eles, revelou-me
Halim, mirando a seringueira centenária no quintal.”
Antes que eu, nas transcrições, revele
mais do que deveria, adianto que se trata de uma história triste, uma história
sem advertências ou opiniões de moral. É história de seduções consanguíneas. É
história de incestos, paixões e ódios.
Em vez de responder a pergunta, elaboro
outra: porque levei tanto tempo para conhecer a escrita de Milton Hatoum?
28 novembro 2016
Liturgia
do fim
Marília
Arnaud
Editora
Alaúde – selo Tordesilhas
R$
30,00
250
páginas
Há
quem goste de rabada com agrião. Há quem considere buchada de bode um prato dos
deuses. Aos vegetarianos a picanha mal
passada é um sacrilégio. Para outros, o camarão ao alho e óleo causa urticária.
Cada comensal tem seu próprio paladar. Assim, posso dizer que este livro não é
um bife com arroz, ovo e batatas fritas. Não é um prato para o dia a dia, não é
um prato comum e de gosto consensual.
É
para quem gosta de comida com muito condimento. E a cozinheira, digo autora, salpica
poesia em todas as páginas, parágrafos, linhas. Em alguns lugares, para o meu paladar, parece
que a tampa do vidro da especiaria caiu e exagerou o sabor. “Costumávamos fazer longos passeios pela
praia, afundando na areia dourada os pés descalços, lambidos de espuma,
sentindo na pele a calidez do sol, escutando o estrugi monótono do quebrar das
ondas.”.
Em
resumo trata-se de história onde Inácio é expulso da casa da fazenda pelo pai. Ele
se forma em Letras, se casa com Ieda, tem uma filha Isabel, mas, introvertido,
jamais consegue lidar com as pessoas à sua volta. Está ensimesmado com o passado
na fazenda Perdição. O motivo da expulsão não fica claro para o leitor. Tampouco
está totalmente resolvido para o protagonista. A história, mistura de recordações
e fluxos de pensamentos, avança lentamente. A cada dez passos para frente, voltam-se
nove passos. São muitas as pistas fornecidas para conhecermos a motivação para o
desentendimento. Marília Arnaud nos conduz com maestria e só nas últimas páginas
revela todo o segredo. A originalidade do final é estarrecedora. Vale todo o
sacrifício de uma leitura floreada de vais e voltas.
Ao
falar do protagonista, Inácio Boaventura, a linguagem parece-me muito feminina,
não me convence para um narrador masculino, mesmo que escritor e poeta de
profissão. Ao lirismo acrescentou dezenas de adjetivos e advérbios.
“Rasgou-me
o peito súbita vontade de chorar, por mamãe e Ifigênia, por todas as coisas que
tinham deixado de ver, o brilho das manhãs, as ondas verdes nas encostas, o voo
nupcial da rainhas ao entardecer, o
debrum alaranjado do sol se pondo atrás das serras, a imensidão das noites
enluaradas, por tudo o que não mais podiam sentir, o vento no rosto, o perfume
das catleias, o calor do sangue a lhe correr nas veias, pelo que tinham deixado
de ser e no que se transformariam, pedaços de carnes devorados pelos vermes,
húmus a nutrir o solo.”.
“Confinado
atrás de muros intransponíveis de raiva e impotência, eu ousava me comparar a
eles, na medida em que o fogo secreto, a sarça ardente que os iluminava e
aquecia era a mesma que me esbraseava a raiz mais funda da vida, ali onde
principiava a angústia da carne, onde latejava o mistério da alma, alma minha,
de onde me fora arrancada uma fatia significante – é verdade que nos
acostumamos com qualquer coisa, com qualquer situação, por mais dura, mais
aflitiva ou humilhante que seja, e na noite mais espessa acabamos por enxergar
pontos luminosos.”.
Entretanto,
Marília Arnaud é espetacular em algumas descrições, como quando apresenta o
cenário de Joaquim Boaventura, o pai de Inácio.
“Sobre o centro, o tabuleiro de gamão e a
Bíblia aberta nos salmos. Pendurado num armador de rede, um macacão de
apicultor. E a cadeira de balanço de papai, trono de um rei sombrio, soberano
de um país perdido nas brenhas de uma serra, senhor de todas as coisas existentes
em derredor e a partir de si, a casa e as pessoas que a habitavam, a terra e a água,
as pedras e as árvores, o animais e as lavouras, as flores e as abelhas, e
ainda o silêncio e a palavra, a última palavra.”.
Depois
de um parágrafo como esse. Precisamos aplaudir.
E
assim, com alguns açúcares na receita, vamos digerindo a narrativa.
Marília
Arnaud, a cozinheira, sem que percebêssemos, acrescentou folhas de erva-santa
ao prato. A erva-santa ou erva-do-bicho confere sabor amargo. Primeiro algumas
poucas folhas esmigalhadas. E, por fim, quando já estávamos familiarizados com
o paladar, imaginando o café sem açúcar, ela se utilizou de várias folhas da
erva, causando um desfecho surpreendente onde, passados alguns dias ainda sentimos
o gosto amargo.
Se
eu recomendo? Sim se você for poeta ou gosta muito de literatura. Caso
contrário, tente entender a história, pule algumas páginas e se surpreenda com
o desfecho.
31 outubro 2016
Juan Gómez Bárcena
Alfaguara
246 páginas
R$ 40,00
Escrever uma crítica
literária é desagradável quando o livro desagrada. Neste caso, com O céu de Lima foi prazeroso opinar.
Em 1904, dois sonhadores
poetas peruanos que idolatram um poeta espanhol – Juan Ramón Jiménez, cujo mais
recente livro não está disponível no país. Acham que se escrevessem uma carta ao
autor para solicitar um exemplar não seriam atendidos, então resolvem criar uma
personagem, Georgina Hübner, para seduzir o espanhol e, aí sim, encomendar o
livro. Recebem o livro, festejam e
contam vantagem entre os amigos também admiradores do europeu. Em vez de se
darem por satisfeitos, resolvem dar continuidade à sedução com o objetivo de
conseguir um poema dedicado à personagem inventada.
Logo de cara
eu amei a faísca que impulsionou o autor a escrever. Depois, confirmei que o mote
que originou a história é verdadeiro e Juan Ramón Jiménez veio a ganhar o Nobel
de literatura em 1956.
Juan Gómez
Bárcena nos conduz por uma história riquíssima, repleta de surpresas,
expectativas e realismo.
Além de
desenvolver a história, revela deliciosamente a personalidade, modo de vida e
entrelaçamento dos diversos personagens
Em resumo, José
Gálvez Barrenechea, de família ilustre, é bastante objetivo para conseguir o almejado
poema, enquanto Carlos Rodríguez, filho de empresário que venceu ao explorar índios
nos seringais, redige com letra feminina as cartas desenvolvidas em conjunto e
praticamente incorpora Georgina na tentativa de sedução.
O conjunto de
cartas, estimulado por um escriba de cartas, se transforma também para a redação de um romance.
O
narrador relata a sua versão ambientada cem anos atrás. É uma história de vida, de amor, de relacionamentos
e de literatura. De literatura porque insere dezenas de informações para
produzir um romance.
Construção de
personagem: para seduzir, o escriba de cartas sugere que “o que se mostra pela
metade sempre sugere mais do que o que se mostra por completo.” E completa: “porque
mostrar-se demais é tão pouco sedutor como não se mostrar em absoluto.” E
hilário informa que para se fingir de mulher “basta acrescentar uns quantos ‘não
sei’, ‘acho que ‘, e ‘tenho a impressão’, porque as mulheres hesitam muito. E
reticências também; todas que puder. E depois a questão da caligrafia: mais
complicada do que parece. Mas fora isso... sabe qual é o segredo? Imaginar-se
uma mulher que você amou. E como todos os homens somos parecidos, é de esperar
que o sujeito a quem escrevemos compartilhe a nossa maneira de ver as coisas...”
Algumas
páginas depois põe em prática a sugestão.
“Georgina é a
mesma prostituta polaca outra vez.
A prostituta
polaca se ainda fosse virgem seis anos depois.
A prostituta
polaca se não fosse prostituta nem polaca; se em vez de ter nascido na Galícia
e ter sido vendida por vinte copeques, tivesse nascido numa mansão de
Miraflores e recebido presentes de quatrocentos dólares em sua festa de
debutante.”
Páginas adiante,
vale conferir, mostra como seria Georgina na imaginação de José.
Ainda fornece a
receita estrutural que “nas páginas centrais de todo romance deve acontecer
algo extraordinário.”.
Faltando vinte
páginas ensina que: “o final precisa de um efeito dramático, porque os melhores
romances de amor terminam em tragédia.”.
Mas o autor faz
muito melhor do que recomenda. Surpreende com um final imprevisto.
É certo que o meu
olhar de escritor observa atentamente as técnicas do escritor, mas muito mais
do que isso, quem se manifesta em aplausos é o meu sentimento de leitor.
27 maio 2016
Dois Irmãos - Milton Hatoum
Milton
Hatoum
Companhia
de Bolso
200
páginas
R$25,00
O
primeiro capítulo do livro é curtinho, porém muito impactante. O autor recortou
um trecho de altíssimo grau de emoção da história e abriu o livro com ele.
Eis
os dois últimos parágrafos deste capítulo:
“Eu
não a vi morrer, eu não quis vê-la morrer. Mas alguns dias antes de sua morte,
ela deitada na cama de uma clínica, soube que ergueu a cabeça e perguntou em
árabe para que só a filha e a amiga quase centenária entendessem (e para que
ela mesma não se traísse): “Meus filhos já fizeram as pazes?”. Repetiu a
pergunta com a força que lhe restava, com a coragem que mãe aflita encontra na
hora da morte”.
“Ninguém
respondeu. Então o rosto quase sem rugas de Zana desvaneceu; ela ainda virou a
cabeça para o lado, à procura da única janelinha da parede cinzenta, onde se
apagava num pedaço do céu crepuscular”.
O capítulo lança uma questão “Meus filhos já fizeram as
pazes?“ que mostra um enorme conflito e com a pergunta atiça a curiosidade do
leitor. Antes de responder sim ou não, somos provocados à bisbilhotice,
queremos saber que motivo é forte o suficiente para colocar em lados opostos dois
irmãos? Ansiamos por saber por que estão brigados.
A história se passa em Manaus de
1910 a 1968. No período, o autor mostra a evolução da cidade enquanto inunda as
páginas com as águas do rio Negro e enreda a história de imigrantes libaneses com
ramos das seringueiras e sons dos pios de jaçanãs e jacu-ciganas.
Aos
poucos somos apresentados aos irmãos gêmeos Omar e Yaqub
Em
relação a Yaqub: “O que lhe faltava no manejo do idioma sobrava-lhe no poder de
abstrair, calcular, operar com números”.
“E
para isso”, dizia o pai orgulhoso, “não é preciso língua, só cabeça. Yaqub tem
de sobra o que falta no outro”.
O
outro, o Caçula – referindo-se a Omar – exagerava as audácias juvenis: gazeava
lições de latim, subornava porteiros sisudos do colégio dos padres e saía para
a noite, fardado, transgressor dos pés ao gogó, rondando os salões da Maloca
dos Barés, do Acapulco, do Cheik Clube, do Shangri-Lá. De madrugada, na hora do
último sereno, voltava para casa.
“Colhe
a orquídea mais rara, mas também arranca a aninga da lama”.
Apesar
de narrado na primeira pessoa, durante muito tempo ficamos sem saber quem é o
narrador. “E a mim, sem me olhar, sem se importar com a minha presença Na
verdade, para Zana, a mãe dos gêmeos, eu só existia como rastro dos filhos
dela”.
No
transcorrer da história descobrimos que o narrador é filho de um dos gêmeos com
a empregada índia que mora nos fundos da casa. O narrador, desprezado pela
família, quer saber quem é o pai.
Quem
são os pais dos gêmeos?
Halim,
marido de Zana e pai dos gêmeos era comerciante. “Vendia coisas de qualquer um.
Vendia sem prosperar muito, mas atento à ameaça da decadência, que um dia ele
me garantiu ser um abismo. Não caiu nesse abismo, nem exigiu de si grandes feitos.
O abismo mais temível estava em casa, e este Halim não pode evitar”.
“A
intimidade com os filhos, isso o Halim nunca teve. Uma parte de sua história, a
valentia de uma vida, nada disso ele contou aos gêmeos”.
“Mas
acreditava, bêbado de idealismo, no amor excessivo, extático, com suas
metáforas lunares. Um romântico tardio, um tanto deslocado ou anacrônico,
alheio às aparências poderosas que o ouro e o roubo propiciam. Talvez pudesse
ter sido poeta, um flâneur da província; não passou de um modesto negociante
possuído de fervor passional”.
E
quem era a esposa Zana?
“Era
possuída por uma teimosia silenciosa, matutada, uma insistência em fogo brando;
depois, armada por uma convicção poderosa, golpeava ferinamente e decidia tudo,
deixando o outro estatelado.”
E
a pergunta lançada o primeiro capítulo?
“O
duelo entre os irmãos era uma centelha que prometia explodir”.
“Duelo?
Melhor chamar de rivalidade, alguma coisa que não deu certo ente os gêmeos ou
entre nós e eles, revelou-me Halim, mirando a seringueira centenária no
quintal.”
Antes
que eu, nas transcrições, revele mais do que deveria, adianto que se trata de
uma história triste, uma história sem advertências ou opiniões de moral. É história
de seduções consanguíneas. É história de incestos, paixões e ódios.
Em
vez de responder a pergunta, elaboro outra: porque levei tanto tempo para
conhecer a escrita de Milton Hatoum?
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