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Tempero de família
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Lombinho de porco com batatas-doces
29 junho 2011
Torradinha exibida
18 março 2011
O vrum que me levou ao passado
30 agosto 2008
Piercings e morangos
Depois do expediente eu estava com vontade de comer alguma coisa, por isso quando entrei no barzinho, em vez das pessoas, procurei olhar para os pratos. Ainda era cedo, poucos mastigavam, até havia alguns lugares para sentar. Passei por três mesas repletas de cervejas, velas coloridas, cachacinhas de alambique e amendoins em pequenas vasilhas transparentes. Na quarta mesa havia uma pizza. Quatro taças de café e uma pizza individual recém-entregue. Uma pizza de morangos com queijo derretido escorrendo do prato. A repugnância provocou-me contrações mal disfarçadas. Olhei para o dono do prato. Era de uma mulher que combinava com pizza de morango. Uma refeição estranha para uma pessoa estranha. Não há o que descrever na estranhíssima comida, mas a moça já passou dos vinte anos, madura, isso é certo.
Cabelos negros com cachos cuidadosamente esculpidos pelo vento. Um delicado brinco sobressai na sobrancelha bem cuidada que emoldura olho de alegria faiscante. O rosto comprido e os cabelos curtos revelam dois piercings na parte superior da orelha. No lóbulo, uma pedra sinaliza verde para mim.
Sentei-me numa mesa favorável ao voyeurismo explícito à dona dos piercings e morangos
Sob a manga comprida do casaco, perto do pulso direito, traços escuros sugerem uma tatuagem. A postura ereta denota pessoa de personalidade forte - fiz tatoo, botei piercing, falo palavrão e faço careta - ela exerce um certo domínio na conversa, uma espécie de liderança. As três amigas da mesa são mais jovens que ela. É deselegante falar em idade após os vinte. Após os trinta, há, é falta, de educação.
Ela percebe que eu a observo e sorri discretamente sem interromper a fala.
Acho graça. Como posso simpatizar com alguém que come pizza de morangos? E se delicia lascivamente?
Ela é uma mulher diferente com seus atrativos metálicos. É extrovertida e expansiva apesar do olhar carente.
Ela leva as duas mãos para o botão superior do casaco. Abre e segue suavemente para o segundo botão. Ela não olha para mim e abre provocativamente. Uma blusa preta apertada surge por debaixo do casaco. Quando as mãos abrem o terceiro e último botão ela, tira o casaco sensualmente livrando os ombros e desnudando enormes tatuagens multicoloridas em ambos os braços. Recebo uma piscadinha maliciosa e em seguida os botões rapidamente voltam para suas casas e enclausuram surpresas.
O impacto foi devastador. Tão excitante quanto uma cruzada de pernas sem calcinhas.
– Uma cerveja, bem gelada e – estalei os dedos – por favor, um cardápio. – Pedi ao garçom.
Ela é uma mulher de vanguarda, lança moda e modismos. Não tenho dúvida nenhuma. É uma líder. Se ela criar uma expressão nova, o grupo vai imitar. Se ela usar um capacete de bombeiros, passará a ser o uniforme da empresa no dia seguinte. Depois que ela pediu pizza de morangos e lambeu os dedos será destronada, perderá o trono de rainha. Será apenas uma louca sem paladares que come pizza de morangos acompanhada de café. Argh!
Prefiro comer comida salgada. Procuro por pizzas no cardápio. Encontro empadas, crepes e coxinhas recheadas. Nada de pizzas. Nenhuma única pizza.
– Ó, garçom! Por favor eu quero comer uma pizza, traga-me o cardápio das pizzas.
– Não servimos pizzas aqui.
– Mas naquela mesa – apontei com o nariz – estão comendo uma.
– Aquele prato, senhor, é nosso carro-chefe, waffle com sorvete de creme e morangos. Aparências enganam.
04 abril 2008
Pão com tertúlias
No intervalo entre uma crônica e um conto de Machado de Assis, durante a oficina literária, levantei-me e servi ao grupo umas fatias de pão caseiro trazidas de casa.
Dizem que tenho que sair da minha zona de conforto, sempre escrevendo crônicas bem humoradas. Foi exatamente o que resolvi fazer. Não levei nenhuma crônica para o encontro. Saí do escritório e fui à cozinha. Deixei meu público restrito e atirei-me às massas. Massa de pão mais especificamente. Levei dois recipientes com 16 contadas fatias de pão. Destampei ambos e estendi para o grupo da esquerda e logo em seguida ofereci para o grupo da direita.
Na verdade devo informar aos leitores que era à minha direita ou à minha esquerda, ninguém ali estava preocupado com posições políticas. Machado ensinou-nos que às vezes devemos lembrar ao leitor que ele não faz parte da história, para ele não se condoer de dores por algum personagem e também que não adianta salivar, pois não vai provar nenhuma fatia do cheiroso pão que está sendo compartilhado por vorazes bocas famintas de onze horas da manhã.
Aos olhares femininos, preocupados com a redonda forma, do pão, é lógico, externei, brincalhão, que aquele alimento era light. Em vez das previstas três xícaras de óleo na receita, eu havia colocado apenas meia xícara.
Mais importante que a receita é o momento certo e modo certo de servir. O momento é bem próximo da hora do almoço e a quantidade deve ser tal que todos possam provar, mas apenas alguns possam repetir. O que deixará em todos a sensação de desejo não totalmente satisfeito. A sensação do prazer, próximo do orgasmo, porém sem o gozo.
O mestre, na posição de líder, deu-se ao direito de comer uma segunda fatia para retornar energizado a leitura de outra crônica. Saboreamos Machado enquanto o odor do pão fresco ainda persistia no ambiente e nas mentes.
Ao final da aula, desta vez, não ouvi nenhuma crítica em relação aos meus textos. Nem positiva nem negativa. Várias colegas, gentilmente pediram a receita. Percebi como elogio ao meu trabalho.
Reparei que o professor correu para pegar a derradeira fatia. Foi meu melhor elogio, o gesto demonstrou que gostou de eu ter saído da minha zona de conforto.
Os ingredientes:
2 tabletes de fermento biológico (30g) – utilizei 3 envelopes de 11g com validade vencida e mesmo assim deu certo
1 colher (sopa) de açúcar
1½ xícara de água morna
½ xícara de óleo
1 embalagem de creme de cebola
3 xícaras de farinha de trigo
O modo de fazer:
Unte uma forma de pão. – É bom que a forma seja das grandes (28x11cm) porque a massa cresce um bocado e depois transborda no fogão provocando uma lambança federal além da fedentina de pão queimado. Na dúvida, use duas formas. Um pão você oferece na aula e a outro você come antes da aula
Em uma tigela grande, misture o fermento com o açúcar. Depois acrescente a água, o óleo e o creme de cebolas. Misture.
Adicione a farinha e misture até formar uma massa mole.
Preaqueça o forno em temperatura média – 180ºC
Ponha a massa na forma e deixe crescer por 30 min ou até dobrar de volume.
Leve ao forno por 25 minutos ou até dourar.
Tertúlias são o complemento ideal ao pão.
Quando for levar o pão para a aula não esqueça de deixar o recipiente semi-aberto para impregnar a sala com aroma de desejo.






