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28 abril 2017
Greve do cão
A nota do jornal dizia “Lambidas
de cachorro podem parecer carinho, mas na verdade são apenas uma forma que os
animais têm de identificar por onde o dono andou, diz a pesquisa
norte-americaana. Como são animais com muita sensibilidade a cheiros e sabores,
os cães fazem a festa, experimentando novas sensações quando seus donos voltam
da rua.”
Cronista
que sou, embaladao pelo clima de hoje, imaginei a cena abaixo:
Todos estavam tensos. Nervosos. Temiam a presença de
espiões entre eles. Ao entrarem no austero prédio foram vasculhados
minunciosamente e sequer uma pulga foi encontrada.
Civilizadamente caminharam sobre o piso de granito de Assuã
– o mesmo das pirâmidas egípcias – admirando as pinturas dos mestres Boticelli
e Donatello do renascimento florentino, para se acomodarem na mesa de jacarandá
doada por Rui Barbosa. Estava reunida em Haia, na Holanda, a cúpula dos cães
farejadores do planeta.
O artigo publicado nos jornais mundo afora encimava a pauta
da reunião extraordinária.
A mesa redonda distribui o poder de forma equilibrada entre
os presentes. O pastor alemão Lutero representa os farejadores de palavrões nos
livros escolares. O labrador golden
retriver Strongnose é o diretor de operaçãoe especias nos aeroportos da
costa oeste dos Estados Unidos. É capaz de identificar a cidade de origem de
qualquer americano pelo cheiro do chiclete. Batalão, é um premiado vira-latas
da Rocinha: localizou um torcedor do América em dia de Maracanã lotado. Talmud
é policial reformado do exército. Se aposentou antes de encontrar a paz no
terrítório israelense. O mastiff Eticus,
nascido em Roma, é especialista em fungar políticos. Em doze anos de serviço foi
capaz de localizar dois honestos.
Com o austrero cenário descrito, alguns personagens
apresentados e o microfone do tradutor simultâneo desligado para evitar
gravações, deu-se início à reunião.
Todos rosnaram simultaneamente.
– É um absurdo o que fazem conosco. Temos que dar um basta
nesta situação abusiva.
– Exigimos o máximo de oito horas de trabalhos diárias.
– Precisamos de descanso semanal.
– Chega de ração. Exigimos comida decente.
– Também temos direito à sobremesa.
– Chega de banhos em quartos de empregada. Reinvindicamos
banheiras com hidromassagem.
Apenas o sindicalista Arnoldo estava quieto no seu lugar.
No momento certo latiu mais alto, silenciou todos. O pitbull conhecido por seu temperamento agressivo e apelido de Exterminador
afirmou que precisavam de uma proposta única. Consequentemente todas as
reinvindicações foram anotadas e por unanimidade foi votada e aprovada que
iriam exigir o direito de lamber e cheirar bifes de filé mignon.
E agora sim, Arnoldo, com sua larga experiência apresentou
a grande arma secreta, o único meio de persuadir os homens a terem boa vontade.
Uma greve.
– Todos, até o cachorro do cafezinho latiram em coro:
Unidos unidos jamais seremos vencidos; unidos unidos jamais seremos vencidos.
Foi deflagrada a greve por
tempo indeterminado. A partir do dia seguinte todos os cães da face da terra
deixariam de abanar o rabo.
09 agosto 2016
DEVOLUÇÃO PERIGOSA
Foi
publicado que “A biblioteca pública de Winona (Estados Unidos) perdoou as
dívidas de todas as devoluções atrasadas de livros. O resultado: um livro
perdido há pelo menos 35 anos foi parar na caixa da biblioteca. O exemplar devolvido
é de um livro com textos de diários de figuras públicas norte-americanas quando
crianças. O livro foi publicado em 1966 e emprestado quatro vezes antes de
desaparecer. Não fosse pela semana de perdão das dívidas promovida pela
biblioteca, o proprietário do livro perdido teria de pagar mais de US$1,4 mil
(cerca de R$ 2,4mil) de multa.”
Essa
história mexeu comigo.
A manchete do jornalzinho da
pequena cidade americana anunciava que naquele sábado a biblioteca municipal
promoveria o dia do perdão. O acervo estava prejudicado. Por maior que fosse o
atraso, todos que devolvessem livros naquele dia seriam perdoados nas multas.
John Smith fecha
cuidadosamente o jornaleco sobre a mesa e olha para a estante repleta de
livros. Com os olhos percorre as prateleiras, uma a uma. Fixa-se numa capa
verde clara desbotada pelo tempo. Levanta-se e puxa o livro pela lombada. Uma
orelha dobrada indica quando Humbert inicia a longa viagem de prazer, pela
Europa, com Lolita. Volta a fechar o
livro e se recorda de mil aventuras quando era vendedor de xarope. Sua
camionete conhecia todas as estradas do Alabama, Mississipi, Tenessee,
Kentucky, Missouri e Arkansas. Em cada cidade, em cada vila, mesmo que houvesse
apenas uma única mulher, novinha que fosse, Smith dormia acompanhado.
Coisas do passado. Fui
acusado justamente e injustamente. Revoltou-se com o apelido de serial fucker. Cumpriu pena alternativa
durante um ano distribuindo basic baskets
em um orfanato.
Dizia-se redimido. Fixou
residência. Passou a frequentar uma igreja evangélica.
Mais que um livro, Lolita fora seu companheiro de viagens
durante 40 anos. Agora a estrada chegara ao fim. O livro precisava ser
devolvido. Necessitava demonstrar a todos que estava regenerado, era homem
cumpridor das leis, que estava reintegrado na sociedade. Que poderia olhar nos
olhos dos vizinhos sem constrangimentos. John Smith voltara a ser um cidadão. A
devolução seria o momento libertador.
O sábado chegou e o evento,
dia do perdão, atraiu toda a população do vilarejo. O banjo, a gaita e o
violino faziam a festa. Um misto de fotógrafo e jornalista registrava sorrisos
de leitores que devolviam livros sem desmbolsar preciosos dólares.
Smith, retornando do culto,
retirou o livro de dentro de uma sacola e, sob os flashes, entregou-o orgulhosamente
à bibliotecária.
— Muito obrigado. O senhor é
o mister John Smith, não é?
— Sim sou eu mesmo. É um
alívio livrar-me deste pecado.
— Consta que, além de
Lolita, o senhor ainda detém Memórias de
uma Mulher de Prazer – Fanny Hill
de J. Cleland; O Amante de Lady Chatterly
de D. H. Lawrence; Trópico de Câncer
de Henry Miller; História de O, de
Pauline Reage além de Justine e Filosofia na alcova do Marquês de Sade.
O senhor continua pervertido!
08 março 2016
O veado chinês e o
pangaré brasileiro
Foi
publicado que “Um veado na China está viciado em cerveja. O animal, que vive em
um resort em Weihai, na província chinesa de Shandong, começou a beber quando
Zhagn Xiangxi, uma das garçonetes do hotel começou a servir-lhe cerveja. De
acordo com o Daily Telegraph, ao limpar o restaurante, Zhang achou uma garrafa cheia de cerveja e a
serviu ao bicho, que bebeu tudo. Desde então, ela tem servido a bebida ao
animal, que agora se alimenta diariamente com duas garrafas da bebida.”
Severino pensou em Troque Totroque, quando viu as
imagens na televisão de um veado tomando uma cerveja, de golada, diretamente do
gargalo sem desperdiçar uma gota e que ao final, passou a língua como se fosse
um guardanapo.
Troque Trotoque era um pangaré que puxara carroças
por toda uma vida. Tudo o que sabia aprendera nas ruas. Agora estava velho.
Fora aposentado depois que começou a mancar por ter se cortado ao pisar numa
lâmina afiada.
Somente um observador, como Severino, perceberia
que o cavalo ora mancava com a pata dianteira esquerda e hora com pata
dianteira direita. Apesar da pouca cultura, Severino achava que Troque deve ter
pertencido à troupe da companhia do
Teatro Brasileiro de Comédia, do Paulo Autran, Adolfo Celi e Tônia Carrero. Era
um ator de primeira linha.
Severino se dizia proprietário de um quiosque de
alimentos e bebidas para transeuntes. Popularmente o barraco era chamado de
copo sujo. Vendia pastéis fora do prazo de validade, pães de queijo empedrados,
cachaça batizada e cerveja morna. Tudo empoeirado.
Por destino, ambos conviviam no mesmo espaço.
Troque, depois que ganhara a liberdade, mastigava o mato seco e o lixo da
vizinhança e opinava sinceramente sobre a qualidade do futebol praticado no
campinho esburacado estercando sob a trave. O problema é que a qualidade
duvidosa das refeições provocava muita sede e a coloração escura da água do
córrego não era muito convidativa.
A única forma de beber alguma coisa era se
apresentar na parada de ônibus. Fazia embaixadas com uma bola de meia, cuspia
fogo ou mostrava a pata ensanguentada. Ganhava umas moedas. Trocava tudo por
uma cerveja no boteco do Severino.
Quando estava muito cansado de se exibir
reunia-se aos colegas aposentados e jogava damas em uma das mesas metálicas do
boteco do Severino. Por ser esperto sempre ganhava o suficiente para pagar a
própria bebida.
Depois do noticiário, Severino contou ao amigo
panga o que tinha visto na tevê. Troque, que já tinha tomado quatro cervejas,
irritou-se muito com a comparação. Em tom provocativo, lembrou que jamais bebeu
um copo por conta da casa. Nem uma branquinha sequer. Que nunca, mas nunca
mesmo, pendurou qualquer conta. Que era freguês que merecia respeito pela
assiduidade e comportamento ilibado. Meteu um coice na placa do FIADO SÓ
AMANHÃ. Puxando da faca, completou dizendo que poderia ser chamado de fedido,
de maltrapilho, de sujo. Até pinguço. Mas veado, jamais.
26 janeiro 2016
Endereços que ninguém encontra
Nota do jornal: “Com
poucas placas de sinalização e identificação de lugares, região pertencente a
Águas Claras traz dor de cabeça aos moradores, que encontram dificuldade em
receber correspondência, contas e até visitas.”
Três batidas secas com o nó do dedo médio no
vidro do carro acordaram Antônio Rezende P. Silveira. O sol começava a se
esconder atrás de alguns barracos de madeira. O vento frio uivava no meio da
poeira.
O fiscal da receita estadual empurrou um boleto
de cobrança de IPTU – Imposto Predial e Territorial Urbano – janela adentro.
Com a cara amassada de um dia mal dormido Antonio
reclamou que não entendia aquela cobrança.
— O senhor está morando neste lugar há uma
semana, fixou residência, logo deve pagar o IPTU.
— Eu estou perdido.
— Não tem dinheiro para pagar?
— Vim para este maldito lugar e não encontrei o
endereço para entregar uma cesta de café da manhã. Procurei, procurei e rodei
tudo que é rua. Depois deu o desespero e tentei encontrar a saída. Aí acabou a
gasolina. Ninguém sabe que rua é essa! Estou perdido neste fim de mundo.
***
A Companhia de Eletricidade terminou de plantar
oito postes de iluminação sob o olhar atento de José de Arimatéia Rodrigues. É
a primeira rua do bairro onde as mariposas podem enlouquecer em volta da
lâmpada.
— Eu gostaria de agradecer o trabalho de vocês.
Ficou brilhante.
— Agradeça ao Deputado Chico Daluz.
— Hoje mesmo falarei com o filho dele que mora
naquela casa, na rua vizinha.
— Na outra rua? Não é aqui? Virgem Maria! Erramos
a rua!
***
Por causa de histórias como essas a comunidade,
liderada pela parteira Mari Cesária e pelo escriturário Zé Bic, convocaram a
população para uma reunião e colocaram em discussão os nomes das ruas.
A babilônia das ruas marcou presença na reunião.
— Vamos colocar nomes de países? Noruega,
Alemanha, Estados Unidos, Suíça, Inglaterra. Quem sabe essas nações adotam
nossas ruas?
— Duque de Caxias, Almirante Tamandaré, General
Mascarenhas de Morais, Marechal Deodoro foram as opções do major aposentado.
— Acho que devemos valorizar a nossa terra, nosso
povo, nossas origens. Proponho botocudo, tupinambá, nhambiquara, goytacaz,
tremembé.
— Você gosta de polissílabos? Prefiro mais
curtos!
O contador sugeriu numerar as ruas. A
bibliotecária contestou sugerindo uma codificação alfanumérica.
A mocinha apaixonada levantou a mão pedindo a
palavra e opinou Avenida do Amor, Alameda da Saudade, Rua do Aconchego, Praça
dos Sonhos, Esquina do Flerte, Travessa Abraço Feliz...
— E as minorias? Agora é lei. Temos que reservar
espaço para eles. Rua dos Deficientes Auditivos, Quadra da Melhor Idade,
Ladeira dos Cadeirantes...
— Proponho o nome do ilustre presidente, do
dinâmico governador, dos nobres senadores, de alguns devotados deputados. Do
nosso querido prefeito!
— Aí, seu baba-ovo, não se esqueça do nome da
avó!
— Acalma! Sossega! Aquieta!
— Não gostei dessas sugestões! – reclamou um
desatento.
— Não são nomes de rua, apenas estou pedindo paz
aos exaltados.
A reunião terminou em beco sem saída.
08 dezembro 2015
Número na cabeça
Publicado no jornal:
Na Estrutural, uma das cidades mais carentes
do Distrito Federal, a inspiração dos jovens ao mudar o visual passa longe das
celebridades dos campos e palcos. Agora, os pedidos mais comuns nas barbearias
da região são artigos do Código Penal, números que representam a incredulidade
– como o 666 –, além de listras que servem para identificá-los como integrantes
de determinados grupos criminosos. CB – Comportamento – 16/01/2011
Por volta das seis horas da tarde de
uma quarta-feira, a viatura encostou no meio-fio ainda com as luzes piscando e
a sirene ligada. Parece que encontraram o grupo que constrange e ameaça com
apologia ao crime. São facilmente identificados pelo corte de cabelo curtíssimo
formando desenhos tribais. Os agentes saltaram empunhando armas e ordenando que
os rapazes, que corriam na calçada, levantassem as mãos.
– Quietos aí. Não se movam! De costas!
Encostem na parede! Mãos pra cima!
– É para não se mover ou levantar as
mãos?
Sob a ameaça da arma de um dos policiais,
os outros dois começaram a revistar os quatro elementos imobilizados.
– Documentos! – Gritou o homem com a
ponto 40 destravada apontando o meliante mais próximo.
Habituado à falta de gentileza, o
garoto de pele parda estava mais calmo que os agentes. – Posso botar a mão no
bolso para pegar o documento?
Sem responder o
policial consentiu gesticulando com arma.
O agente de
polícia observa a cabeça raspada em recortes imitando as tatuagens agressivas e
assustadoras.
– O que é isso na
sua cabeça?
– É a moda.
– O que significa
esse 666?
– Besta.
O policial dá um
safanão na boca do delinquente. – Me respeita!
– 666 é o número do
apocalipse. Da Besta.
– E tu? – Cutucando
com a pistola – Pensa que me assusta com esse 148 recortado no cabeção? Tô
sacando! Código Penal, Artigo 148: Sequestro e cárcere privado.
– Que é isso seu
guarda, tá me estranhando? Sou da paz. Eu moro naquela casa, aí da frente. Pode
olhar: número 148.
– E tu? – Cutucando
o terceiro – Exibindo terror para cima da comunidade? Tô de olho! 155 de um
lado e 121 do outro. Não nasci ontem. Furto e homicídio.
– Sou sangue bom!
Trabalhador. Dou um duro danado para sustentar a minha lôra. Tenho que levantar
às 4 da matina, preparar a matula e pegar o busão às 4 e meia. 155 é o número
da linha na ida. Na volta pego o 121. Tudo lotado.
O quarto elemento
nem se mexia, parecia mais assustado.
– Tira o capacete!
– Que diabos de
números são esses? 4348? Se reponder cavalo e elefante vai levar um catiripapo
no pé do escutador, só para ficar esperto.
– Pega leve. Sou
motobói. Entrego pizzas.
– Agora só falta me
dizer que a pizzaria tem 4.348 opções. – Ou vai me dizer que 4348 é o número da
pizza calabresa tamanho grande?
– Eu estava dizendo
que sou entregador de telepizza e esse é o número do telefone.
– 4348? Tá gozando
com a minha cara?
– São quatro 3 e
quatro 8. 3333-8888.
Os homens
uniformizados se entreolharam, aquele que parecia ser o chefe da operação
ordenou:
– Três três um.
Todos presos por desacato à autoridade.
08 junho 2011
Alegria para os cronistas brasilienses
O Crônicas da Cidade vai acolher textos produzidos por cronistas do jornal e por cronistas-leitores. As crônicas devem ter como objeto de inspiração a capital do país, o modo de vida dos brasilienses, os invisíveis viveres cotidianos, as mudanças de humor do céu, os sufocamentos de agosto, os sabores, odores, tremores e dissabores da cidade que tantos amam e que tantos não conseguem entender e vivem de maldizê-la. – CB, Crônica da Cidade, 08/06/2011.
Antes mesmo do jornal ser entregue na minha porta, a serra elétrica da construção vizinha já atazana meu começo de dia. Como vou passar manteiga e tomar o meu o café com um barulho desses?
Todas as quartas-feiras começam assim. Apocalipses cíclicos, zumbidos infernais, tempestades zodiacais.
Há 40 quartas-feiras me proponho a escrever um texto bem-humorado motivado por uma matéria publicada no jornal durante a semana. Deve ter exato número de caracteres e ser publicado no meu blog antes das seis da tarde.
Esta manhã de quarta-feira começou rápida nos ponteiros do relógio. Nada recortei durante a semana. Ainda não escolhi o tema. Preciso encontrar um mote no jornal de hoje. Política? – Não, ninguém se interessa por políticos. Internacional? – Não. Penso que os leitores preferem temas locais. Economia? – Basta de inflação! Tecnologia? Saúde? Ciência? Esportes? – Já falaram tudo sobre o jogo de despedida do Ronaldo, não há nada para acrescentar. – Ai meu deus! – Li mais um caderno e ainda não fui balançado por uma notícia. Cidades? – Gosto do caderno, sinto-me em casa. Cassação da deputada? Caixa de Pandora? Social? Celular para controle de freqüência nas escolas? – Hum, muito interessante. Atropelamentos e greve de ônibus, são notícias ruins, difícil fazer graça. Crônica da cidade? Um blog para os cronistas. – Um blog para os cronistas? Uêba! Tudo o que eu sempre quis!
A serra elétrica parou. O apocalipse montou seu cavalo negro e saiu a galope. O céu se abriu para a motivação para escrever nesta e em várias outras quartas-feiras. Agora basta ajustar o teclado à frente e digitar com entusiasmo.
A cidade ferve de cronistas ansiosos por um lugar nobre para expor escritos e uma voz grita:
– Levante o dedo quem quer escrever no Correio.
Meus dois indicadores apontam para o céu. Lá no alto encontram outras dezenas de mãos frequentadoras de saraus, blogs e oficinas literárias. Todos os escritores são ávidos por leitores.
Só que o tempo do cronista corre mais rápido que o dos outros mortais: precisa entregar o texto antes de terminar o prazo.
Quero entregar logo meu trabalho para ser dos primeiros a ter um texto publicado no blog. Tenho pressa. Baixo meus dedos e os agito sobre o teclado.
Enquanto os dedos dançam no palco das letras, a mente conta e confere o número de letras, espaços e parágrafos previamente estabelecidos pelo editor. O sorriso de realização chega junto com ponto final. A serra elétrica só voltará na outra semana. Um bem-te-vi anuncia a chegada de outro texto.
18 maio 2011
A guerra das águas
A água mineral líder de mercado na França percorre um caminho de 10 anos entre rochas vulcânicas até ficar bem pura. Mas apareceu um forte concorrente: a água dos icebergs. Os mais jovens têm cerca de 10 mil anos. Os pedaços de gelo são derretidos e engarrafados. O produto da concorrência virou moda entre as famílias ricas da Califórnia e o preço faz jus ao público: chega a custar US$10 a garrafa. – CB, Você sabia, 16/05/2011.
A notícia chegou aos ouvidos de Antonio Carlos, um empresário brasileiro prestes a lançar um revolucionário filtro d’água no mercado mundial. O que fazer contra essa concorrência inesperada?
Nem precisou fazer nada.
A guerra foi iniciada pelos franceses que alegaram que a água dos icebergs provavelmente teria restos de urina de animais polares.
Os americanos, que financiam o projeto de exploração do pessoal da Groenlândia, sentiram-se ofendidos nos brios. Reuniram uma tropa de agentes comerciais e foram ao Pentágono pedir permissão para o revide.
Os generais americanos, auto-proclamados defensores da justiça mundial, em primeiro lugar afirmaram que quando se trata de ofensa à soberania americana não é necessária permissão para a retaliação. Em seguida questionaram se a língua estranha dos franceses era árabe. Com a resposta negativa, perguntaram se o território francês ficava no Oriente Médio. Os comerciantes abriram mapas para consulta antes de afirmar categoricamente que não encontraram a França próxima ao Irã, Iraque, Paquistão, Arábia Saudita, Kuwait ou Venezuela. Os generais se entreolharam. Ainda havia uma questão fundamental em aberto. E em caso positivo, apontariam os mísseis na direção da capital do país ainda naquela noite.
- Aquela torre enorme é para a exploração de petróleo?
Se não havia petróleo na questão então a ofensa era menor.
Antonio Carlos acompanhou tudo, bem de pertinho, graças a um agente triplo infiltrado na SIA e no DGSE (Direction Générale de la Sécurité Extérieure), o Serviço Secreto Francês. Sentiu firmeza. Os yankees não jogariam bombas nos galegos, e estes sequer arremessariam suflês nos yankees.
Em vez de combater com pistola d’água. O empresário brasileiro poderia lançar uma ofensiva sem medo. Precisaria encontrar uma forma de detonar com o marketing e a grife das garrafinhas internacionais.
Nem precisou pesquisar muito. O seu filho quando soube como eram as águas dos estrangeiros esboçou cara de nojo e emitiu um sonoro: – Eca! A partir dali as idéias caíram em cascata folheando os jornais da cidade. Encontrou uma campanha pronta para condenar a água filtrada no processo de 10 anos e também a água congelada há 10 mil anos. Colocaria água na fervura dos concorrentes internacionais.
Começaria dizendo que a água vem da Cidade Maravilhosa. Lugar de alegria e carnaval. A palavra Rio tem origem no verbo rir, na felicidade de viver e traz consigo o movimento e a ginga da corrente de água. Por outro lado, diria, nada sutilmente, que quem gosta de água parada é o mosquito da dengue.
Outra pérola que brotou de matéria publicada em jornal. – Correio Braziliense – Sempre às quartas-feiras antes das 18, com tamanho predeterminado um texto, como se fosse uma coluna de jornal.
11 maio 2011
A salvação dos sapos
A súbita extinção do sapo-dourado e do sapo-arlequim da reserva ambiental Monteverde, na Costa Rica, é um dos casos mais bem documentados dos declínios populacionais misteriosos que caracterizam a crise global dos anfíbios. O subsequente desaparecimento de 40% das espécies de anuros (grupo de anfíbios que não possuem cauda) das florestas tropicais porto-riquenhas é um dos casos mais extremos de perda de biodiversidade. – CB Ciência, 10/05/2011.
Conheci o porto-riquenho, Paco Gonzales, ainda adolescente. Ele participou de um programa de intercâmbio e morou seis meses na casa do meu vizinho. Paco era engraçado e conquistador nato. Com o sotaque portunhol dizia que seu pai tinha sido um sapo que, ao ser beijado, se tranformara em príncipe. E que ele era nascido príncipe, e que de acordo com a lenda do seu país, precisava ser beijado por uma princesa para virar rei. Magras, pobres, altas, com ou sem óculos, beijava todas. Transformou-se em rei do bairro.Já biólogo, retornou ao Brasil, na virada do século, para um congresso. Eu o hospedei durante dez dias. O suficiente para recordar histórias de sapos, rãs e pererecas.
Um dia tive a oportunidade de visitá-lo em San Juan. Fiquei muito bem impressionado com o mar transparente na vista aérea e o moderno aeroporto. No caminho para casa ele me relatou que estava muito preocupado com a morte misteriosa dos anfíbios do arquipélago. Os estudos levavam a crer na diminuição na população de salamandras, cobras-cegas, lagartos e na extinção de sapos, rãs e pererecas. O caso mais grave era com os anuros, anfíbios sem cauda.
Na manhã seguinte visitamos o centro da cidade, declarado Patrimônio Histórico pela Unesco. E à tarde fomos ao laboratório de Paco.
Conforme suas pesquisas e comprovação de imagens observou que os sapos nasciam e se desenvolviam felizes até começarem a frequentar a escola e a sociedade nas lagoas. Ali entravam em contato com outras espécies e assumiam feições tristes. Relatou-me que a transformação era impactante, imediata. De sorridentes passavam a chorões depressivos. E da depressão à morte tudo acontecia muito rápido.
Descobriu que os sapos se envergonhavam pela ausência de uma cauda. Comprovou a tese quando começou a cortar o rabo de lagartos e cobras: todos morriam de vergonha.
Mas Paco era estudioso e perseverante. Analisou centenas de bichinhos, até encontrar uma solução para os infelizes. Agora estava orgulhoso, se aproximava a hora de mostrar ao mundo o resultado do seu trabalho. Apontou-me uma enorme caixa com uma encomenda, antes de abrir, mostrou-me um artigo científico que escrevera especialmente para a revista do Instituto Bitantã. Ele seria o salvador de todas as espécies em extinção. Bastaria colocar as próteses nos bichinhos.
Entusiasmado mostrou rabinhos de cachorro, para demonstrar alegria, rabinhos de canguru, para saltar mais longe, rabinhos de vaca para espantar moscas, rabinhos de chipanzé para subir em árvores.
Em compensação, eu morri de rir.
Todas as quartas-feiras, até as 18h, publico no blog um texto oriundo de matéria publicada no Correio Braziliense. Como numa coluna de jornal, o texto é limitado de 2959 a 2997 caracteres.
*imagem do sapo-arlequim, em extinção
04 maio 2011
Falta gente e sobra humor em Borá
Borá, no interior de São Paulo, mantém o título de menor município do país em população. Na última década, a cidade recebeu 10 pessoas a mais na lista de habitantes, totalizando os atuais 805. – CB, Censo 2010, 30/04/2011.
Hoje é quarta-feira, dia de publicar minha coluna semanal com base em notícia publicada na semana. Eu já havia separado algumas matérias sobre o casamento real britânico e sobre o fim de Osama Bin Laden. Mas o editor entrou na minha sala, com desprezo e cenho fechado, disse que isso era para os jornalistas graúdos. Que eu deveria escrever sobre o Censo 2010. Fiquei felicíssimo. Assunto brasileiro da maior importância.
– Você fará a matéria sobre Borá.
– O Censo descobriu alguma nova tribo indígena?
– Não. É o menos populoso município brasileiro.
– Maravilha. Onde estão as passagens? Viajo quando?
– Deixe de viajar! Você tem duas horas para colocar o texto sobre a minha mesa. – E bateu a porta atrás de mim.
No mesmo instante me conectei na Internet para pesquisar. Descobri que há pelo menos um cidadão bem-humorado na cidade. “Borá é uma cidade localizada a três passos de onde Judas perdeu as botas, o All Star e a virgindade.”
Descobri também que é uma cidade pacífica. Quando os dois times de futebol, o Borá FC e o Borá EC se defrontam, os torcedores gritam o mesmo nome.
O grande evento anual é a escolha da miss e do mister Borá com direito a entrevistas e transmissão ao vivo pela rádio da cidade.
As imagens mostram todas as ruas asfaltadas e uma praça repleta de bancos de concreto com nomes gravados. Dali se pode ver a igreja matriz, imaginar a música vinda do coreto desativado e espiar os casais de namorados na fonte luminosa.
O prédio da prefeitura é identificado em letras garrafais: Paço Municipal. Uma construção assobradada recente, em forma de bolo de casamento, juntando a prefeitura e a câmara municipal. Na fachada superior há uma espaçosa varanda prevendo momentos solenes ou festivos. Dizem que a edificação é um pequeno paço para o homem, um salto para a humanidade.
É curioso saber que o expediente é das 9h às 11h e das 13h às 17h. E que um mesmo prefeito dirigiu a cidade por 14 anos em quatro mandatos diferentes.
As estatísticas apontam que 90% dos habitantes são alfabetizados e que 93% da população, acima dos 13 anos, acessa o Facebook. Curiosamente ninguém nasceu na cidade nos últimos 30 anos. Será que só lêem livros e trocam e-mails? Ou é brincadeira de um gozador cidadão boraense.
O mais surpreendente é que a cidade é extremamente politizada. Todos votam. Idosos, maiores de 17 anos, mulheres, adolescentes, crianças, bebês e até os que ainda irão nascer. Pois apesar da cidade ter apenas 805 habitantes, tinha, já em 2008, 924 eleitores.
Consegui terminar o texto no prazo. O editor sempre exigiu um conto ou crônica. Desta vez, para me testar, exigiu um artigo.
Do texto pode até não gostar, mas certamente terá interesse em desvendar o mistério que atrai moradores de outros lugares a votar na pequena Borá.
27 abril 2011
Meu convite para o casamento de William e Kate
Nada de extravagância, centenas de famosos ou muitos membros da alta sociedade britânica. O príncipe e a futura princesa Kate Middleton apostaram em uma celebração íntima, mesmo que ela tenha pompas de evento de estado. A Clarence House divulgou a lista com as presenças confirmadas para participar da celebração. O documento lista os nomes de reis, rainhas, diplomatas e membros do governo, mas também revela, sobretudo, a identidade de amigos e pessoas ligadas ao casal. CB – Mundo, 24/04/2011.
Abri a caixa de correspondências e lá estava o envelope com o convite. – Yes! Eu recebi! – Um cartão branco, duro, um pouco menor que uma folha de papel A4, com bordas chanfradas em ouro e letras douradas. Logo abaixo da insígnia da avó de William, a Rainha Elizabeth, estava o meu nome: Mr. Roberto Klotz.
Ah, como esperei por este momento. Eu tinha certeza que Kate não me decepcionaria. É bem verdade que cheguei a duvidar.
Durante os últimos dois meses verifiquei a caixa de correspondência umas quinhentas vezes. Nesta semana eu me cansei de virar a chave e espiar no escaninho: instalei uma poltrona ao lado. – O Santa Ansiedade! – Tudo porque os convites para o casamento do Príncipe William foram distribuídos em fevereiro, estávamos às vésperas do casamento, abril, e o meu não chegava.
Enviei cartas, bilhetes, torpedos, telefonemas, telegramas e tuitadas cobrando o meu convite. O chefe de cerimonial finalmente retornou uma mensagem de desculpas com a informação de que os convites impressos foram insuficientes e que a pressão de autoridades, celebridades e pessoas do mundo inteiro era enorme, mas que o Palácio mandara confeccionar especialmente apenas mais três convites. O meu estaria entre eles.
Voltei a olhar para o convite. Confirmei o meu nome mais uma vez, posso dizer que estou feliz e realizado. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não foi convidado. O Exterminador do Futuro, Arnold Schwarzenegger, não foi convidado. Lady Gaga, que dispensa apresentações, não foi convidada. O bruxo Harry Potter não foi convidado. Eu fui. – Isso não é o máximo?
Leio, um pouco abaixo, que a vestimenta sugerida é o uniforme militar, um fraque ou ainda um terno de negócios.
Isso me assusta um pouco. Jamais usei um traje militar, não tenho fraque e o meu terno é um paletó com uma mancha de gordura na manga esquerda. Talvez eu tenha que cortar as mangas.
No convite ainda há um cartãozinho informando o meu lugar na Abadia de Westminster. Será ao lado da Victoria Beckham. – Nada mau.
Reviro o envelope, procuro e não encontro a passagem de avião nem os vouchers para o hotel, conforme combinado. – Assim não dá. Acho que não querem que eu vá!
Eu já tinha escrito a dedicatória, um livro diferente, de minha autoria, para cada um dos noivos. Embrulhei em papel prateado com uma fita vermelha. Em vez de entregar pessoalmente, colocarei num envelope pardo e postarei no correio. O casal saberá como é doloroso esperar ansiosamente na frente da caixa de correspondência.
Mais um texto, o 38.o sem interrupções, inspirado em matéria publicada no Correio Braziliense da semana. Sempre às 4.as com o mesmo tamanho, o de uma coluna de jornal.
20 abril 2011
O santo das causas impossíveis
Santo Expedito é conhecido por atender às causas urgentes e impossíveis. Conta-se que, quando ele se converteu ao cristianismo, um espírito mau em forma de corvo tentou dissuadi-lo da escolha, mas Expedito não pensou duas vezes e rapidamente matou o pássaro. A agilidade dessa decisão faz os fiéis crerem na ligeireza da solução dos problemas. – CB, Cidades, 20/04/2011.
Ontem, dia de Santo Expedito, fui à igreja. Eu e meio mundo. A igreja estava lotada de pedintes. Todos pedindo solução rápida ou impossível para os problemas.
O santo é das antigas, da época em que não havia computador para organizar a própria agenda e hoje se vê atolado de causas urgentes alheias. Tive pena dele. Pena e um pedido. Queria que ele me ajudasse a escrever o meu texto semanal inspirado em notícia publicada no jornal durante a semana. Era urgente porque o meu prazo terminava às 18 horas e o editor costuma degolar autores que atrasam a matéria por mais que 30 segundos. Fiz questão que o santo soubesse da ameaça que paira sobre a minha cabeça. Apesar da imagem conhecida, Expedito foi decapitado pelos militares romanos a mando do Imperador Diocleciano.
É bem verdade que eu deveria estar atrás do teclado digitando meu texto em vez de imaginar milagres nos bancos da igreja. Mas eu estava lá e me caberia rezar, fazer o meu pedido e aguardar rapidez no atendimento do pedido.
Enquanto aguardava na fila observei que ele usava trajes de legionário romano com uma túnica acima dos joelhos e manta púrpura. Com o pé ele pisava um corvo batizado Ontem. Ele era muito rápido com os fiéis. Santo Expedito não podia anotar nada, em uma das mãos segurava uma palma e na outra um crucifixo batizado Hoje. Registrava mentalmente os pedidos e despachava os necessitados mais rápido que os médicos na consulta do INSS.
Pedi para uma senhora guardar o lugar para mim na fila para dar uma espiada como era o atendimento.
Fui até bem pertinho do santo.
Uma senhora juntou as mãos frente ao peito em forma de oração e implorou um emprego para o filho. O santo captou o desespero da mulher e imediatamente estendeu o caderno de classificados. Acenou com a cabeça chamando o próximo.
Aproximou-se um rapaz bem vestido, jeitão de filhinho de papai. ─ Meu Santo, fazei com que eu seja aprovado no concurso do Senado Federal. ─ Meu querido, basta que tu comeces a estudar. Próximo.
Um senhor de cabelos brancos e olheiras profundas se arrastou silenciosamente até o santo, mostrou a identidade para provar que não era tão velho quanto parecia. Queria viver mais tempo.
─ Qual é o seu problema?
─ Câncer. Ajude-me, por favor.
Na mesma hora o santo devolveu o documento com uma pequena alteração.
─ Agora o senhor é de capricórnio. Próximo.
Minha vez estava chegando. Voltei para o meu lugar na fila até ser atendido.
Expliquei o meu drama de prazos de entrega.
─ Começa a escrever mais cedo e terás tempo para pesquisar e descobrir que o patrono dos jornalistas e escritores é São Francisco de Sales. Próximo.
A matéria foi publicada na quarta. E na mesma quarta, graças a Santo Expedito, postei no meu blog.
13 abril 2011
Viajei com Gagarin
Aos 27 anos, Yuri Gagarin, um jovem russo de origem humilde é lembrado pela rara coragem. Ele foi um dos 19 pilotos que se candidataram ao vôo, em um tempo em que testes humanos num ambiente sem gravidade sequer haviam sido feitos. “Foi um vôo absolutamente heróico. Era uma missão muito difícil, e as pessoas pensavam que só um louco poderia ir para o espaço”, relata à agência Reuters o jornalista científico Vladimir Gubarev, que conheceu Gagarin na juventude. CB – Ciência, 12/04/2011.
12 de abril de 2011 – Há exatos 50 anos Yuri Gagarin foi o primeiro homem a ir para o espaço. Um feito extraordinário. Tão importante quanto Colombo chegar de caravela na América. A ficção se transformava em realidade. O homem comprovou ser capaz de voar mais alto e mais distante que os pássaros. Gagarin voou nos sonhos de todos os homens. Lá do espaço declarou que a Terra era azul. Visitar a Lua passou a ser tangível.
Deixei o jornal de lado uns minutinhos e também viajei no espaço, do tempo.
Eu era menino, não se falava noutra coisa. Gagarin era o herói dos homens. Garrincha e Pelé já driblavam e marcavam gols, mas todos os meus amigos queriam ser cosmonautas. Ninguém viu o lançamento na tevê. Não foi transmitido. Nem a cores nem em preto e branco. Aliás, poucos tinham televisão. O imaginário era muito melhor que qualquer imagem. Descrevíamos detalhadamente a trajetória do herói. Primeiro vestindo a roupa prateada, depois os canudinhos de oxigênio e por cima o capacete. Subia uma escadinha, entrava numa cabine cheia de botões, alavancas e luzes piscantes. Fechava a porta com um barulho surdo e metálico numa combinação de prisão e sarcófago. Já sentado se amarrava a um banco solitário.
Era hora de imitar o coração batendo disparado – tum,tum tum, tum. Aí, todos os amigos gritavam em coro a contagem regressiva: 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 – buuuuum. Gagarin disparava na vertical, rumo ao céu até se perder de vista.
Não se falava em outra coisa. Estava lançada a gagarinmania. Até hoje me lembro de uma charge da revista Cruzeiro onde um peixinho dourado nadava dentro do capacete de aquário.
Tempos idos. Eu morava em São Paulo, em casa não tínhamos telefone, apesar de estarmos na fila de aquisição há sete anos. Também não possuíamos tevê. Meus pais questionavam a novidade. Mas nós, crianças, íamos brincar nas outras casas da rua e nos transformamos em televizinhos e dizíamos que as recém inventadas máquinas de assar frango eram televisão de pobre.
De repente, surgiu o Caravelle, o primeiro avião a jato. Revolucionário com as turbinas coladas na traseira em vez das hélices nas asas. O barulho era enorme, sempre saímos correndo da sala para apontar o avião no céu. Todos, em vez de fazer rápido, passamos a fazer a jato.
Uma flâmula pendurada, em cima da cabeceira da minha cama, lembrava a inauguração de Brasília, um ano antes. As novidades e o heroísmo estavam presentes no dia-a-dia.
Gagarin voltou para a Terra. Mas os tempos de infância não voltam mais.
Novamente me deliciei com uma notícia extraída do jornal e com ela, como todas as quartas-feiras, criei uma história.
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