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05 dezembro 2016
Ousei participar de um
Festival de Contação de Histórias em Goiás.
Mandei um vídeo e
minha interpretação foi classificada entre os finalistas.
Meu prêmio foi
conseguir decorar um texto e dizê-lo em público.
Eu me diverti e fiquei
orgulhoso por perder para uma interpretação para o Apólogo, um conto do Machado
de Assis.
Eis o conto:
A velha e o fogo
A velha ateava fogo em alguns
papéis. Numa das mãos, um jornal servindo de tocha e na outra um galho para
cutucar a papelada. Foi só no que reparei.
Não. Eu reparei que ela usava
umas roupas estranhas, algo como um vestido sobre outro. Talvez um vestido
sobre uma camisola. Usava uma touca artesanal, de crochê claro. Não pude ver o
rosto. As mãos eram bem alvas, assim como os tornozelos acima das meias brancas
que calçavam um par de sandálias de dedo.
Passei
por ela e segui o meu caminho. Para mim, foi apenas uma figura esquisita em
roupas azuis desbotadas queimando pertences num local afastado, um atalho entre
o meu prédio e a larga avenida.
Quando
entrei no Eixão, o sol esquentou e revi mentalmente aquela senhora incendiária.
Prestei atenção na figura e passei a divagar.
Primeiro,
sorri com ternura imaginando que a meiga anciã devia estar enviando mensagens
para o céu com a fumaça. Julguei que seriam poemas saudosos, escritos com
letrinhas tremidas, após a dolorosa separação quando o marido partiu em viagem
para o infinito. Imaginei recordações em longas cartas lembrando o nascimento
dos três filhos, a alegria da viagem ao Rio de Janeiro, quando juntos rezaram
ao pé do Cristo no alto da cidade. Imaginei a frágil senhora enviando aos céus
a receita das empadinhas de palmito, favoritas do finado, para que algum anjo
cozinheiro lhe recordasse as delícias terrenas. Fantasiei procurando captar o
sonho da paixão de um jubileu dourado.
Quase
fui atropelado por uma bicicleta que vinha em sentido contrário. O susto
acordou-me dos devaneios e levou-me a refletir que os papéis queimados poderiam
ter sido escritos pelo saudoso marido. Quem sabe agora, às vésperas de mudança
de endereço, quisesse evitar que os filhos soubessem como o casal se amara com
volúpia, ao contrário da inocência dos filhos, que sempre julgaram ter pais
pudicos por terem praticado sexo apenas nas três únicas vezes em que geraram os
três únicos filhos. Ninguém mais acredita em Papai Noel , mas os
filhos sempre acreditam em pais castos, puros e assexuados.
Naquele
momento também ri. Ri de mim, por acreditar em Papai Noel e em
sinceras declarações apaixonadas. A mulher devia estar apagando o passado de
fogo ardente. Isso faria muito mais sentido. Passei a imaginar confissões de lascívia
e luxúria de um amor adolescente. Não, isto não justificaria sair de casa num
domingo de manhã, para atear fogo nas relíquias, longe dos olhos da família. A
velhinha, pensei, deve querer ocultar, para sempre, pecados mais fortes.
Decerto, cartas do amante. Manuscritos que revelavam promessas, desejos e
realizações. Linhas anunciando palavras ditas sob as cobertas. Ali estaria o
envelope com o nome e endereço completo do amante. Ali estaria uma fotografia
do casal adúltero, numa tarde de outono. A família e a sociedade jamais
poderiam saber daqueles poentes escaldantes. Ali, no meio da fogueira, estaria
a carta com a surpresa e alegria do amante ao saber que seria pai.
A
cada passo que eu avançava a velhinha rejuvenescia nos meus pensamentos. Ficava
mais bonita, sensual e atraente.
Agora,
idosa e dependente, às vésperas de mudar para a casa do filho bastardo, todos
os seus pertences ficariam expostos. Inclusive a verdade, guardada na caixa de
papelão rosa. O receio da rejeição e o temor de ser enviada para um asilo a
faziam queimar o passado.
Durante
uma hora e meia caminhei pensando na velhinha e nos seus doces ou picantes
segredos matrimoniais. Quando saí do Eixão, a curiosidade era tão grande que
resolvi verificar se sobrara alguma coisa legível naquelas cinzas.
Durante uma hora
e meia caminhei pensando na velhinha e nos seus doces ou picantes segredos
matrimoniais. Quando saí do Eixão, a curiosidade era tão grande que resolvi
verificar se sobrara alguma coisa legível naquelas cinzas.
— Foi aí que o senhor, seu delegado, apareceu e me flagrou com aquele
crânio fumegante nas mãos.
11 abril 2016
Girafa barulhenta
Caminhar sempre é bom.
Acompanhado é melhor. E quando a companhia é agradável, é o máximo. Tenho uma
vizinha que gosta de caminhar comigo.
Infelizmente a velocidade
dela é devagarzinho. Bem devagarzinho, para poder falar bastante. Ela é muito
alegre, extrovertida e perguntadeira. Bem típico da idade. Eu que não tenho
nenhuma neta, a princípio fiquei incomodado com esse negócio de me chamar de
Vô. Porém é uma menina muito fofinha, de olhos grandes. Demorei a me acostumar,
agora até gosto de ser chamado vovô. Quando ganho beijo lambuzado, nem reclamo.
Hoje ela me contou que já
sabe o que o irmãozinho vai ganhar de aniversário, mas que não ia me contar
porque a mãe disse que era segredo.
Depois cantou a
musiquinha da escola.
vou comer, vou comer
pra ficar fortinho, pra ficar
fortinho
e crescer e crescer.
E aí, sem mais nem menos
me perguntou se era verdade que as girafas não faziam barulho. Eu não sabia se
aquilo era uma piada, pegadinha ou uma demonstração de conhecimento.
— Quem te disse isso?
— A tia. Ela disse que os
cachorros latem, que os gatos miam, que os passarinhos piam, mas que as girafas
não falam. As coitadas não fazem nenhum barulho.
Percebi os olhos tristes
da menina com pena da girafa.
— As pescoçudas fazem
barulho, sim. Você precisa ouvir como é alto o pum da girafa.
A menina deu uma risada e
eu continuei.
— Silenciosas são as
borboletas. Ou você já ouviu as borboletas batendo papo, cantando e fazendo
algazarra?
Antes que ela
respondesse, prossegui:
— Fale para a sua tia que
o único bicho que não fala é o criado-mudo.
Ganhei um delicioso beijo
e ela saiu correndo.
28 agosto 2014
Inverno
Como todos os dias, levanto e olho o tempo pela janela. Nestes últimos
dias de agosto, não existe possibilidade de chuva no Planalto Central. Ao
contrário, em casa colocamos umidificadores para amainar a seca. Na falta,
espalhamos bacias e toalhas molhadas. Crianças são as que mais sofrem.
Pertinho, verde grama irrigada. Mais à frente, suave névoa escondendo
águas adormecidas do Paranoá. Ao fundo o horizonte vermelho.
Troco o pijama por uma camiseta e meias de lã por meias esportivas.
Espreguiço-me e vou caminhar. Na porta de saída do bloco, recebo o impacto do
frio no peito. Aceno para o empacotado porteiro e, em vez de esquerda, escolho
a direita. Às vezes, temos que sair da rotina e mudar os nossos trajetos e
rumos diários. Resolvi trocar calçada decorada com cocô de cachorro de madame
por calçada marginal, no mato ralo, em superquadra ainda não construída.
Ando cem metros e ultrapasso a linha de alcance dos aspersores. A grama
mudou de cor para sem cor. Mais adiante, formigas cruzam a calçada numa trilha
de cavacos marrons desrespeitando o caminho urbanamente civilizado.
Prosseguindo, levanto a vista para o céu sereno e desmaiado. Abro os braços com
as palmas abertas para captar energia. A força vem tão forte que posso senti-la
pousando nas mãos. Emocionado e incrédulo, eu quero ver para crer. Vejo
partículas pretas. Apuro o olhar e constato fuligem. Para muito além da névoa
seca, o fogo pinta o horizonte de vermelho. Na lonjura, a dor é suave e não
dói.
É cedo. O dia acordou preguiçoso, não levantou. Está quase silencioso,
ouço cachorros latirem distantes. Devem ser vira-latas, cachorros escovados
latem mais tarde.
As árvores nativas são feias. Os galhos são tortos e retorcidos. São
errados. Os troncos parrudos têm uma couraça de jacaré para sobreviver nas
queimadas. E nesta época do ano, além de feias, estão nuas mostrando esqueletos
de campos de concentração. Sem conhecê-las, não damos valor.
A cabeça antenada, recém-despertada, capta, sem chiados e sem interferências,
o que me acerca. Passarinho não chia. Passarinho pia. O pio do sabiá está muito
próximo.
Olha lá! Olha lá! Ouça, preste atenção! Faça da boca um assobio e repita.
Repita assobiando: piedade sinhô... piedade...
tem dó de nós... piedade... sinhô. Não é bonito? É apaixonante.
Continuo meu passo na quadra litigiosamente abandonada e vejo uma
fumacinha. Ali não há muito mato para ser queimado. Entretanto o instinto de
preservação, nesta época de seca, sugere que eu apague o fogo, enquanto estiver
baixo. Sigo na direção da fumaça. Nem preciso caminhar muito. Em volta do fogo,
vejo quatro boquinhas escancaradas de fome, dor, frio e morte. O pai oferece o
desjejum caçado nas caçambas peçonhentas. Adiante da fogueira, há uma tenda de
lona preta sob uma árvore de casca dura.
A única luz que há para aqueles miseráveis urbanos é o amarelo solar das
flores do ipê.
Piedade sinhô...
piedade...
tendo de nós...
piedade...
sinhô...
26 novembro 2009
Zulma é duca
Hora e meia recebemos elogios por textos escritos. Alguns sinceros, outros nem tanto.
A gente acaba se acostumando, embora o ego seja voraz por mais e mais tapinhas de incentivo.
No dia 5 de novembro recebi uma homenagem sem nenhuma palavra. Apenas um gesto. Um gesto de carinho de um dos caras que mais admiro na comunidade Bar do Escritor.
Na imagem do orkut se mostra lendo meu livro Quase pisei!.
Fiquei emocionado.
Zulmar Lopes, conhecido em alguns bares duvidosos de Copacabana como Lameque Eros Hyde da Silva, é duca!
09 abril 2009
Jenipapo na cesta do coelho da páscoa
Hoje é Páscoa. Domingo de Páscoa. E domingo é dia de caminhar no Eixão. Espalho protetor solar no rosto e braços, faço alongamentos e disparo para a rua. O sol do outono é abrandado por suaves ventos do nordeste sugerindo chuvas no período da tarde.
Ainda penso na Páscoa e que o pessoal de propaganda do Mago sugere a distribuição de livros em vez de ovos de chocolate. Livros de Paulo Coelho.
Coelhos lembram fertilidade. Fertilidade lembra coelhas e coelhinhas atiçam meu instinto masculino. Presto atenção nos rebolados e decotes caminhantes, femininos, claro. Caminhar é muito bom para a saúde e para a mente. Podemos pensar, refletir e resolver os problemas do mundo. Acho que prefiro observar. Sou voiê. Acompanho tudo o que se passa em volta. Entre outras coisas, presto atenção nos atletas. Percebo o que está na moda e o que não está. Cabelo com rabo-de-cavalo é moda. Tênis colorido continua moda. Aquele senhor barrigudo com a camiseta branca estufada dentro da bermuda jeans com uma pouchete presa no cinto social e meias brancas até o meio das canelas definitivamente está fora de moda. Olho e vejo tudo. Coisa engraçada são os três irmãozinhos apostando corrida de bicicleta e gritando para todos saírem da frente. Coisa animal é o cachorrinho de apartamento sendo levado no colo.
Meu passo apressado pára na altura da 203 Norte. Um casal está jogando um pedaço de pau numa árvore tentando derrubar frutas. Olhei bem para aquela árvore alta, de tronco liso e retilíneo Em resposta à minha pergunta informaram que era jenipapo.
Tomei a liberdade de aproximar do nariz e aspirei um perfume ligeiramente adocicado num fruto marrom do tamanho de uma laranja. Perguntei se fariam licor e disseram que comeriam a polpa com açúcar. Achei constrangedor pedir para abrir a fruta e fiquei sem saber como é.
Voltei para o meu caminho. Já estou longe de casa. Vou andar só mais um pouquinho. Só até aquela placa. Não, até aquela coelhinha passar. Faço a volta e vou ficar olhando a coelhinha seu rabinho a balançar.
Foi o que eu fiz. Segui a coelhinha. Que coelhinha apressada!
Os olhos seguiam a coelhinha e o pensamento fixo no jenipapo. Acho que a primeira vez que ouvi falar em jenipapo foi em meados dos anos 70, quando na novela Bem Amado, o Coronel Odorico Paraguaçu era servido do afrodisíaco licor de jenipapo pelas irmãs Cajazeiras. Primeiro era servido, depois se servia. É
muito estranho a gente conhecer alguma coisa e não conhecê-la ao mesmo tempo. Nunca fui apresentado a um jenipapeiro. Fiquei frustrado por não conhecer a fruta por dentro. Será que é preta? Os índios se utilizam do urucum para pintar a pele de vermelho e de jenipapo para o preto. O jenipapo é o corante usado nos cestos e vasos. Quando terei nova oportunidade?
O jenipapo era o assunto da mente. A coelhinha, dos olhos.
Olhei novamente para a coelhinha e, para os meus olhos, carregava saltitante uma cestinha cheia de ovos multicoloridos. Será que o coelho da Páscoa quando pinta os ovos usa corante de jenipapo?
Ainda penso na Páscoa e que o pessoal de propaganda do Mago sugere a distribuição de livros em vez de ovos de chocolate. Livros de Paulo Coelho.
Coelhos lembram fertilidade. Fertilidade lembra coelhas e coelhinhas atiçam meu instinto masculino. Presto atenção nos rebolados e decotes caminhantes, femininos, claro. Caminhar é muito bom para a saúde e para a mente. Podemos pensar, refletir e resolver os problemas do mundo. Acho que prefiro observar. Sou voiê. Acompanho tudo o que se passa em volta. Entre outras coisas, presto atenção nos atletas. Percebo o que está na moda e o que não está. Cabelo com rabo-de-cavalo é moda. Tênis colorido continua moda. Aquele senhor barrigudo com a camiseta branca estufada dentro da bermuda jeans com uma pouchete presa no cinto social e meias brancas até o meio das canelas definitivamente está fora de moda. Olho e vejo tudo. Coisa engraçada são os três irmãozinhos apostando corrida de bicicleta e gritando para todos saírem da frente. Coisa animal é o cachorrinho de apartamento sendo levado no colo.
Meu passo apressado pára na altura da 203 Norte. Um casal está jogando um pedaço de pau numa árvore tentando derrubar frutas. Olhei bem para aquela árvore alta, de tronco liso e retilíneo Em resposta à minha pergunta informaram que era jenipapo.
Tomei a liberdade de aproximar do nariz e aspirei um perfume ligeiramente adocicado num fruto marrom do tamanho de uma laranja. Perguntei se fariam licor e disseram que comeriam a polpa com açúcar. Achei constrangedor pedir para abrir a fruta e fiquei sem saber como é.
Voltei para o meu caminho. Já estou longe de casa. Vou andar só mais um pouquinho. Só até aquela placa. Não, até aquela coelhinha passar. Faço a volta e vou ficar olhando a coelhinha seu rabinho a balançar.
Foi o que eu fiz. Segui a coelhinha. Que coelhinha apressada!
Os olhos seguiam a coelhinha e o pensamento fixo no jenipapo. Acho que a primeira vez que ouvi falar em jenipapo foi em meados dos anos 70, quando na novela Bem Amado, o Coronel Odorico Paraguaçu era servido do afrodisíaco licor de jenipapo pelas irmãs Cajazeiras. Primeiro era servido, depois se servia. É
muito estranho a gente conhecer alguma coisa e não conhecê-la ao mesmo tempo. Nunca fui apresentado a um jenipapeiro. Fiquei frustrado por não conhecer a fruta por dentro. Será que é preta? Os índios se utilizam do urucum para pintar a pele de vermelho e de jenipapo para o preto. O jenipapo é o corante usado nos cestos e vasos. Quando terei nova oportunidade?O jenipapo era o assunto da mente. A coelhinha, dos olhos.
Olhei novamente para a coelhinha e, para os meus olhos, carregava saltitante uma cestinha cheia de ovos multicoloridos. Será que o coelho da Páscoa quando pinta os ovos usa corante de jenipapo?
01 junho 2008
Letras brancas
Quando era moleque, lembro que os tapumes de toda São Paulo traziam uma mensagem estranhíssima: CÃO FILA KM 23. Todos os paulistanos em algum momento leram a frase. O enigma foi notícia de rádio e televisão. Todos palpitavam no significado da charada, a voz corrente dizia que era jogada publicitária de vendedor de cachorros.
Em outra época, não lembro se antes ou depois, as paredes amanheceram cobertas de tinta escorrida com palavras de protesto: ABAIXO A DITADURA, ELEIÇÕES DIRETAS, YANKEES GO HOME. Eram tempos sombrios e os militares de plantão julgaram que CELECANTO PROVOCA TERREMOTO, fosse outra provocação. Houve inquéritos e perseguições, mas jamais soubemos o sentido daquele aviso.
Depois do piche veio a tinta. Hoje em dia, raros são os prédios, que escapam dos sprays. As gangues rabiscam os lugares mais inalcançáveis para marcar força, poder e território.
Recentemente, letras vermelhas marcaram o fundo azul de uma banca de jornais: A LIBERDADE VEM EMBALADA EM PLÁSTICO, É COLORIDA E TEM GOSTO DE ISOPOR. Naquele dia, meus quarenta minutos de caminhada foram de muita curiosidade sem resposta. Pareceu-me vir de alguém questionando a sociedade de consumo.
Algum tempo depois, no Eixão, deparei com enormes letras negras escritas no mármore branco de um viaduto: TAMOS DE OVÁRIO CHEIO DE VIOLÊNCIA. Meus pensamentos caminhantes transformaram-se em reflexão e questionamentos.
Andei ontem meu longo percurso até a rodoviária, onde o Eixão se cruza com o Eixo Monumental. Lá fica o Buraco do Tatu, passagem
14 maio 2008
Andando com Nietzsche e Schubert
Caminhar é bom. Caminhar acompanhado é melhor. Caminhar acompanhado de companhia inteligente é ótimo. Eu me lembro de tudo como se tivesse acontecido agora. Dois minutinhos atrás, ou três.

Foi num quente final de tarde de março. Estávamos na trilha do Parque de Olhos D’Água, aqui em Brasília, pertinho de casa. A conversa das duas ia animada. Ana Beatriz e Rafaela comentavam a influência da obra de Shakespeare na escrita de Machado da Assis. Apesar de o assunto ser inesgotável, falaram em Nietzsche antes de descobrirem afinidades com Schubert. Perguntaram minha opinião sobre o niilismo e eu disse que tinha acabado de lanchar. O riso maroto das duas sugeriu que era melhor continuar calado.
O diálogo entre as minhas companheiras versou sobre o existencialismo, passou por discussão sobre a exploração alternativa de fontes energéticas e, quando estávamos sobre a ponte, Ana Beatriz encostou-se na amurada, ergueu o indicador para o céu e afirmou que aquela nuvem parecia o mapa do mar Adriático. Rafaela concordou com ressalvas dizendo que o Golfo de Veneza era um pouco mais fechado e em seguida apontou para outra nuvem, mais à direita.
– Veja. Lá está a Pietá de Michelangelo.
Ana Beatriz assentiu e perguntou-me o que eu via.
Olhei para o céu. Examinei as nuvens detidamente e encontrei uma nuvem linda, muito branca, parecia um coelhinho. Olhei de novo e depois olhei para o rosto das minhas amigas. Achei melhor dizer que não encontrei nada.
Concluí que às vezes é melhor caminhar só do que bem acompanhado.
08 maio 2008
Raio de luz
O despertador alarmou,
o leito me cuspiu,
o café queimou,
a gravata oprimiu,
a neblina embaçou.
Viver fede.
O trânsito congelou.
O carro pediu asilo.
A calçada me recebeu,
no raio de luz tropecei.
Trombetas tocaram.
Soltei nós,
calei gritos,
perfumei carniça,
adocei mares,
cortei a escuridão,
domei tristeza.
Namoro a dama-da-noite.
o leito me cuspiu,
o café queimou,
a gravata oprimiu,
a neblina embaçou.
Viver fede.

O trânsito congelou.
O carro pediu asilo.
A calçada me recebeu,
no raio de luz tropecei.
Trombetas tocaram.
Soltei nós,
calei gritos,
perfumei carniça,
adocei mares,
cortei a escuridão,
domei tristeza.
Namoro a dama-da-noite.
06 março 2008
Quando pintei o urubu
Hoje acordei atleta e artista plástico. Acordei, mas não levantei. Apenas fiquei pensando em como é louca a nossa mente. Considerar atleta alguém que caminha quarenta minutos diários por recomendação do cardiologista jamais pode ser considerado atleta. Mas na poderosa e imaginativa mente ainda sou capaz de escalar montanhas e chegar ao outro continente com meia dúzia de braçadas. Para não me chamarem mentiroso eu diria que, tudo bem, uma dúzia de braçadas e chego à África. O mais engraçado é me achar artista plástico. Logo eu, que de artista, sei apenas que Miguelângelo pintou a Mona Lisa.

Enquanto escovo os dentes vou à janela ver como está o tempo.
– Decepcionante.
Aquela deliciosa moça do tempo diria com um sorriso que o tempo está encoberto com nuvens carregadas com o dia sujeito a trovoadas e temporais. Não acho nada sensual um dia carregado de tempestades.
Tenho que fazer alguma coisa, além de guardar a escova de dentes e tirar a espuma da boca. Vão me confundir com algum louco babando pela moça do tempo.
Minha primeira providência é procurar os meus baldes de tinta aquarela que guardo no armário da garagem junto com a árvore de Natal e junto com os meus esquis para neve.
Levo as tintas, a palheta e o pincel para a minha varanda. E abro a minha escada expansível.
Começo da esquerda para a direita. Ou do norte para leste, como preferirem. Pinto o céu de azul e as nuvens de branco. Como há nuvens demais, pinto várias de azul para se transformarem em céu. Mudo a escada de lugar girando para o leste. Apago as nuvens pretas e faço um círculo amarelo com um sol brilhante. Do meio das nuvens surge um avião cujo piloto acena um agradecimento pela melhoria das condições de vôo.
Com a minha rapidez de atleta rapidamente deixo todo o céu azul e várias nuvens branquinhas. Eu fui tão rápido e ágil que agora tenho que me desculpar com o urubu que pintei de branco. O urubu, para minha alegria, não ficou ofendido, ao contrário, disse que esse era o grande sonho dele e que não adiantava ficar apenas alisando o cabelo. Agora sentia-se uma verdadeira garça.
Eu, hem!
Guardo a escada e troco meu jaleco de artista por um calção de atleta. Lambuzo pernas, braços e rosto com protetor solar. Afinal, somente malucos caminham sob um sol abrasador como o de hoje.
Na rua, além do sol quente, percebo poeira, árvores secas e plantas sedentas. Minha consciência dói. Meu egoísmo se retrai e volto para casa como um atleta legítimo: correndo.
Como desfazer? Não tenho tinta preta? Nem sei desenhar raios e trovões.
Sento na frente do micro e aponto o mouse para aquele xizinho do canto superior direito.
– Deseja salvar as alterações em “hoje acordei atleta e artista plástico? Sim? Não? Ou Cancelar?
Apontei o mouse para não e cliquei.
Ah, como é bom poder dormir mais um pouco nos dias chuvosos.
16 fevereiro 2008
Achados e perdidos
Quando abri a cortina para olhar o tempo, vi a minha vizinha andando e gesticulando muito. Tomei o café, li o jornal e coloquei minha bermuda caminhante. Iniciei meus exercícios diários descendo os cinco andares pela escada.A vizinha, agora com as duas mãos na cabeça, continuava a caminhar agitada no calçamento entre verdes gramados.
Segui meu caminho solitário. Ainda olhei para trás por duas vezes. A mulher andava para lá e para cá no mesmo trecho, nos mesmos cem metros. Parecia desolada, balançando a cabeça de forma negativa.
A vizinha é uma senhora que já passou dos setenta anos, magrinha, magrinha. Cabelos brancos amarrados em coque. Blusinha abotoada até o pescoço e nenhuma maquiagem para disfarçar as olheiras profundas. Viúva. Mora sozinha, sem gato ou cachorro. A filha mora em algum país da América Central. Confidenciou-me o síndico que rareiam os seus alunos de piano e que ela está em débito com o condomínio por cinco meses. Contou também que a solitária professora deve estar com algum outro trabalho, uma vez que passa as tardes fora de casa ao contrário dos últimos dez anos. Pela falta de luz nos olhos parecia ser daquelas pessoas que foram esquecidas pela Dona Morte.
Enquanto eu seguia o meu caminho a Dona Ernestina, esse era o nome dela, balançava seu coque branco e os meus pensamentos.
– O que será que Dona Ernestina perdeu? Algum brinco ou broche familiar? Talvez alguma pulseira que a ligasse ao amado marido?
De longe, vejo a viúva de cabeça baixa procurando na calçada e na grama. A dor também aperta o meu peito. Uma vez perdi uma abotoadura com monograma que herdei do meu avô. Nenhuma outra jóia substitui o ouro e o brilho das pessoas amadas.
A angústia tomou-me o corpo e fui em direção ao desespero personificado naquela mulher.
Ela precisa de ajuda. Quem sabe se eu chamar o pessoal do prédio para auxiliar na busca? Com a ajuda do zelador e mais três faxineiros rapidamente encontraremos a jóia sumida no passeio público.
Dona Ernestina sentou-se no banco.
Aproximei-me e sentei-me ao seu lado. O rosto da Dona Ernestina estava molhado de lágrimas. Peguei suas mãos, tomei fôlego e perguntei:
– O que a senhora perdeu?
– O piano.
Eu me senti um idiota. Perde-se uma carteira, um guarda-chuva, um cachorro ou até um amante. Mas perder um piano?
– Acho que não entendi. A senhora perdeu um piano?
– Perdi o meu piano de trinta anos. Era um Steinway.
Olhei para a grama à esquerda, olhei para a grama à direita como se estivesse procurando o objeto perdido.
– Onde a senhora perdeu o seu piano?
– No bingo. No bingo, meu filho.
Desisti de pedir o auxílio aos funcionários do prédio.A Dona Ernestina perdeu as notas, ficou sem dó.
11 fevereiro 2008
A corrida por um beijo
– Oi, vô, posso caminhar com você? 
– Lógico, meu filho. Não era você que estava empinando pipa ontem à tarde?
– Era sim. Você viu como ela estava alta?
– Eu só vi quando você estava com a pipa na mão, correndo para subir. Uma beleza de amarelo! Se você vier comigo pode chegar atrasado na escola...
– Ainda está cedo. Minha aula só começa às oito.
Achei estranho que aquele menino quisesse caminhar comigo. Eu só o tinha visto meia dúzia de vezes, nos gramados que ficam em volta dos edifícios onde moramos. Ele estava visivelmente querendo falar comigo, sentado na escadaria do prédio esperando eu passar.
O menino colocou-se à minha esquerda e seguimos juntos o meu trajeto rotineiro.
– E qual é seu nome?
– Pedro.
– Eu vi você jogando bola outro dia. Você leva jeito. Mas o chamavam por outro nome. Não era?
– Tico. Tico é nome de criança. Prefiro Pedro. Pedro é meu nome e é de homem. Já fiz onze anos, véi.
– Maravilha. E o Pedro torce para que time?
– Torço para o Botafogo. E o senhor?
– Ah, meu filho, o Senhor está lá no céu. Sou Fluminense. – Certamente o menino não quer discutir futebol, ele está tenso. Resolvo arriscar. – E as meninas?
– Pois é vô, você não se importa se eu chamá-lo de vô. Não é?
Parece que acertei, pensei comigo, ele está com algum problema em relação a alguma menina.
– Gosto que me chamem vô. Não gosto quando me chamam de seu isso ou seu aquilo. Em que posso ajudá-lo?
– É que eu gosto da Carolzinha. Já pedi pra namorar com ela e agora apareceu o Joca e quer atrapalhar tudo. Ele também quer namorar ela.
– A Carolzinha deve ser muito bonita...
– Ela é linda. E eu acho que ela gosta de mim enquanto a turma acha que sou muito pirralho pra ela.
– Pirralho?
– Ela tem doze anos e é um pouco maior que eu. Mas só um pouquinho.
– E porque você acha que o vovô pode ajudá-lo?
– É que a síndica falou que você é mó namorador.
– Mas isso é fofoca. Era só o que me faltava. Ela não tem mais o que fazer?
– Eu já vi você caminhando de mãos dadas com várias mulheres diferentes...
– Tá bem, espertinho, vamos retomar a conversa da Carolzinha, isso é o que interessa. Se a Carolzinha gosta de você e você gosta dela por que o Joca iria atrapalhar tudo?
– O Joca é mó bom. È ele que tira par ou ímpar para escolher os times. È só ele que sabe andar de bike na roda de trás. È ele que tira mó onda de sabe-tudo. As meninas só querem saber dele. A turma toda já tá torcendo para ele.
– Então a coisa tá preta. E você acha que a Carolzinha vai cair na onda dele?
– Acho. A Zeca me sacaneou. Inventou uma corrida. E quem ganhar, ganha um beijo da Carolzinha. Mó sacanagem! Tô afim da Carol há muito mais tempo e o Joca é bem maior do que eu e corre mais. Tô ferrado!
Nem perguntei mais detalhes do Joca nem da Zeca para não tirar o foco da preocupação do menino.
– A corrida já está marcada?
– Já. É na semana que vem. A Zeca disse que assim eu teria tempo de treinar. E deu mó gargalhada na minha cara!
– Quer dizer que quem ganhar a corrida ganha um beijo como se fosse aquela medalha olímpica? É isso?
– É isso, vô. Tô ferrado!
– E o Joca, com aquela cara de maioral, ainda disse que me dava 3 metros de vantagem. Filho da mãe!
– E onde vai ser a corrida?
– A Zeca disse que eu poderia escolher qualquer lugar, que o Joca vai ganhar mesmo.
– O Joca também estuda aqui na escola?
– Estuda. Por que? Você não vai falar com as tias, vai?
– Jamais. Isso é coisa de homem. Coisa de homem para resolver como homem.
– O Joca nem quer namorar com a Carolzinha, ele só quer tirar onda e mostrar que ele é o bonzão, o fodão.
– Eu acho que você deve marcar o dia e hora lá na escola.
– Isso é tudo o que ele quer. Aparecer!
– Você deve escolher a hora que tiver mais gente para ver a corrida.
– Para gritarem o nome do Joca? É campeão! É campeão! É campeão! Beija! Beija! Beija! Nunca. È muita humilhação.
– E se for o contrário?
– Contrário como? Não existe a menor chance de eu ganhar a corrida.
– Faça o seguinte: diga que topou o desafio e marque com a turma o dia e a hora na escola. Ainda faça uma provocação que você já está treinando para beijar. Deixe para dizer aonde será a corrida para a última hora.
– Eu hein? Na escola só tem o pátio. Não tem jeito.
– Você quer ou não quer ganhar aquela medalha olímpica?
– Claro, né, vô. Eu amo a Carolzinha.
– Você tem a vantagem de 3 metros não tem?
– Tenho, mas é muito pouco.
– Na última hora diga que é na escadaria da escola. Escada acima. São apenas três andares. E comece a treinar desde já.
Pedro abriu mó sorriso e saiu correndo.– Valeu, véi.

– Lógico, meu filho. Não era você que estava empinando pipa ontem à tarde?
– Era sim. Você viu como ela estava alta?
– Eu só vi quando você estava com a pipa na mão, correndo para subir. Uma beleza de amarelo! Se você vier comigo pode chegar atrasado na escola...
– Ainda está cedo. Minha aula só começa às oito.
Achei estranho que aquele menino quisesse caminhar comigo. Eu só o tinha visto meia dúzia de vezes, nos gramados que ficam em volta dos edifícios onde moramos. Ele estava visivelmente querendo falar comigo, sentado na escadaria do prédio esperando eu passar.
O menino colocou-se à minha esquerda e seguimos juntos o meu trajeto rotineiro.
– E qual é seu nome?
– Pedro.
– Eu vi você jogando bola outro dia. Você leva jeito. Mas o chamavam por outro nome. Não era?
– Tico. Tico é nome de criança. Prefiro Pedro. Pedro é meu nome e é de homem. Já fiz onze anos, véi.
– Maravilha. E o Pedro torce para que time?
– Torço para o Botafogo. E o senhor?
– Ah, meu filho, o Senhor está lá no céu. Sou Fluminense. – Certamente o menino não quer discutir futebol, ele está tenso. Resolvo arriscar. – E as meninas?
– Pois é vô, você não se importa se eu chamá-lo de vô. Não é?
Parece que acertei, pensei comigo, ele está com algum problema em relação a alguma menina.
– Gosto que me chamem vô. Não gosto quando me chamam de seu isso ou seu aquilo. Em que posso ajudá-lo?
– É que eu gosto da Carolzinha. Já pedi pra namorar com ela e agora apareceu o Joca e quer atrapalhar tudo. Ele também quer namorar ela.
– A Carolzinha deve ser muito bonita...
– Ela é linda. E eu acho que ela gosta de mim enquanto a turma acha que sou muito pirralho pra ela.
– Pirralho?
– Ela tem doze anos e é um pouco maior que eu. Mas só um pouquinho.
– E porque você acha que o vovô pode ajudá-lo?
– É que a síndica falou que você é mó namorador.
– Mas isso é fofoca. Era só o que me faltava. Ela não tem mais o que fazer?
– Eu já vi você caminhando de mãos dadas com várias mulheres diferentes...
– Tá bem, espertinho, vamos retomar a conversa da Carolzinha, isso é o que interessa. Se a Carolzinha gosta de você e você gosta dela por que o Joca iria atrapalhar tudo?
– O Joca é mó bom. È ele que tira par ou ímpar para escolher os times. È só ele que sabe andar de bike na roda de trás. È ele que tira mó onda de sabe-tudo. As meninas só querem saber dele. A turma toda já tá torcendo para ele.
– Então a coisa tá preta. E você acha que a Carolzinha vai cair na onda dele?
– Acho. A Zeca me sacaneou. Inventou uma corrida. E quem ganhar, ganha um beijo da Carolzinha. Mó sacanagem! Tô afim da Carol há muito mais tempo e o Joca é bem maior do que eu e corre mais. Tô ferrado!
Nem perguntei mais detalhes do Joca nem da Zeca para não tirar o foco da preocupação do menino.
– A corrida já está marcada?
– Já. É na semana que vem. A Zeca disse que assim eu teria tempo de treinar. E deu mó gargalhada na minha cara!
– Quer dizer que quem ganhar a corrida ganha um beijo como se fosse aquela medalha olímpica? É isso?
– É isso, vô. Tô ferrado!
– E o Joca, com aquela cara de maioral, ainda disse que me dava 3 metros de vantagem. Filho da mãe!
– E onde vai ser a corrida?
– A Zeca disse que eu poderia escolher qualquer lugar, que o Joca vai ganhar mesmo.
– O Joca também estuda aqui na escola?
– Estuda. Por que? Você não vai falar com as tias, vai?
– Jamais. Isso é coisa de homem. Coisa de homem para resolver como homem.
– O Joca nem quer namorar com a Carolzinha, ele só quer tirar onda e mostrar que ele é o bonzão, o fodão.
– Eu acho que você deve marcar o dia e hora lá na escola.
– Isso é tudo o que ele quer. Aparecer!
– Você deve escolher a hora que tiver mais gente para ver a corrida.
– Para gritarem o nome do Joca? É campeão! É campeão! É campeão! Beija! Beija! Beija! Nunca. È muita humilhação.
– E se for o contrário?
– Contrário como? Não existe a menor chance de eu ganhar a corrida.
– Faça o seguinte: diga que topou o desafio e marque com a turma o dia e a hora na escola. Ainda faça uma provocação que você já está treinando para beijar. Deixe para dizer aonde será a corrida para a última hora.
– Eu hein? Na escola só tem o pátio. Não tem jeito.
– Você quer ou não quer ganhar aquela medalha olímpica?
– Claro, né, vô. Eu amo a Carolzinha.
– Você tem a vantagem de 3 metros não tem?
– Tenho, mas é muito pouco.
– Na última hora diga que é na escadaria da escola. Escada acima. São apenas três andares. E comece a treinar desde já.
Pedro abriu mó sorriso e saiu correndo.– Valeu, véi.
02 fevereiro 2008
Lâmpada mágica dos meus sonhos
Abaixei-me para pegar a lâmpada. Parecia vinda dos sonhos do oriente. Nunca tinha visto um objeto assim, só em filmes, desenhos animados ou livrinhos infantis com histórias mágicas. A forma da lâmpada sugeria cruzamento de bule com açucareiro de latão.
Essas coisas só acontecem comigo!
Olho em volta para conferir se não há ninguém olhando para mim. Isso está parecendo um trote. Qualquer mortal que eu conheço se encheria de sonhos e desejos, esfregaria a lateral, levaria um susto como o mago esfumaçado imaginário e teria o direito de formular três pedidos por libertar o gênio aprisionado por dois milênios.
Imagine se eu iria me dar ao trabalho de ficar elucubrando bobagens como essa?
Caminhão de dinheiro? Mulheres? Uma viagem ao redor do mundo? A paz entre os homens? Eternidade? Não, eu não vou perder tempo com isso. Ainda tenho algumas coisas para fazer antes do sol se por. A primeira é me desviar desse monte de meninos zunindo de bicicleta pela calçada.
Essa lâmpada vai ficar bonita em cima da cômoda na sala. Combina bem com o porta incenso e a caixinha de marchetaria. A quem perguntar, contarei que a ganhei de um xeique árabe por ter vencido uma corrida de camelos.
Olhando a lâmpada vejo que ela está bem sujinha. Está precisando de um polimento antes de ter o direito de ser defumada pelo incenso.
– Você que está lendo, já estava adivinhando que eu iria esfregar a lâmpada. Não é verdade?
Cinco passos adiante comecei a limpar a lâmpada com a barra da camisa.
– Pergunto a você, leitor, o que aconteceu?
Ouvi uma voz atrás de mim. Uma voz infantil, uma voz de menino.
Atrás de mim estava um garoto de uns dez anos de idade com um turbante na cabeça.
– Oi vô. Que bom que você achou minha lâmpada. Ela caiu da bicicleta.
Olhei desconfiado para aquele turbante carnavalesco.
– Bicicleta? Cadê a sua bicicleta menino?
– Tá ali, ó! Devolve a minha lâmpada.
O menino falou com tanta convicção que entreguei o objeto e os meus sonhos infantis.
O garoto pegou a lâmpada e voltou em direção da bicicleta.
Retomei o meu caminho debochando os meus absurdos devaneios. Onde já se viu uma lâmpada idiota provocar tantas fantasias. Melhor assim. Voltar ao meu caminho, à minha realidade.
Enquanto o velho caminhava para um lado, o garoto com a lâmpada na mão, voava no seu tapete para o outro lado.
Essas coisas só acontecem comigo!
Olho em volta para conferir se não há ninguém olhando para mim. Isso está parecendo um trote. Qualquer mortal que eu conheço se encheria de sonhos e desejos, esfregaria a lateral, levaria um susto como o mago esfumaçado imaginário e teria o direito de formular três pedidos por libertar o gênio aprisionado por dois milênios.
Imagine se eu iria me dar ao trabalho de ficar elucubrando bobagens como essa?
Caminhão de dinheiro? Mulheres? Uma viagem ao redor do mundo? A paz entre os homens? Eternidade? Não, eu não vou perder tempo com isso. Ainda tenho algumas coisas para fazer antes do sol se por. A primeira é me desviar desse monte de meninos zunindo de bicicleta pela calçada.
Essa lâmpada vai ficar bonita em cima da cômoda na sala. Combina bem com o porta incenso e a caixinha de marchetaria. A quem perguntar, contarei que a ganhei de um xeique árabe por ter vencido uma corrida de camelos.
Olhando a lâmpada vejo que ela está bem sujinha. Está precisando de um polimento antes de ter o direito de ser defumada pelo incenso.
– Você que está lendo, já estava adivinhando que eu iria esfregar a lâmpada. Não é verdade?
Cinco passos adiante comecei a limpar a lâmpada com a barra da camisa.
– Pergunto a você, leitor, o que aconteceu?
Ouvi uma voz atrás de mim. Uma voz infantil, uma voz de menino.
Atrás de mim estava um garoto de uns dez anos de idade com um turbante na cabeça.
– Oi vô. Que bom que você achou minha lâmpada. Ela caiu da bicicleta.
Olhei desconfiado para aquele turbante carnavalesco.
– Bicicleta? Cadê a sua bicicleta menino?
– Tá ali, ó! Devolve a minha lâmpada.
O menino falou com tanta convicção que entreguei o objeto e os meus sonhos infantis.
O garoto pegou a lâmpada e voltou em direção da bicicleta.
Retomei o meu caminho debochando os meus absurdos devaneios. Onde já se viu uma lâmpada idiota provocar tantas fantasias. Melhor assim. Voltar ao meu caminho, à minha realidade.
Enquanto o velho caminhava para um lado, o garoto com a lâmpada na mão, voava no seu tapete para o outro lado.
19 janeiro 2008
Taturana detalhada
Eu me abaixei na calçada para amarrar o tênis e vi uma taturana.Não era uma taturana qualquer. Era uma bichinha cheia de detalhes.
Tinha sete centímetros de comprimento e um centímetro de diâmetro. Era gordinha, bem rechonchuda. Era um roliço colar de contas alternados em verde e preto cobertos por enormes pelos negros. Na frente: duas antenas. Embaixo, dos dois lados, uma série de perninhas cabeludas escuras. O rabinho terminava em ponta enquanto a cabeça era redonda e com um par de olhos amendoados.
Vi todos esses pormenores na lagarta que começava a atravessar a rua na faixa de pedestres.
Ela estava na faixa branca quando um carro passou zunindo tirando um fininho da sua orelha.
Levantei a vista e vi outro carro se aproximando veloz. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, os pneus do carro tiraram outro fino da lagarta que prosseguia corajosamente seu rumo ao outro lado da rua.
Olhei novamente para a taturana. A rua tem nove metros de largura. A faixa tem doze listras brancas e outras tantas negras. Calculo que na velocidade em que ela segue o caminho deverá levar oito minutos até chegar do outro lado. È muito tempo. Mais de trinta carros vão passar ali antes que ela chegue do outro lado.
Agora seis carros se aproximam. Tenho que tomar alguma providência para alterar o destino da taturana.
Em Brasília os carros param na faixa de pedestres.
Tomo a única decisão possível naquela fração de segundos.
Aceno com a mão direita a minha intenção de atravessar a rua na faixa destinada aos pedestres e os carros respeitosamente param, um atrás do outro. A minha angústia é maior que a da taturana.Vou em direção à lagarta e a esmago impiedosamente.
Moral da fábula: Detalhes podem encurtar a história.
04 janeiro 2008
O dia em que a banheira transbordou
Relaxar na água calma e morna da banheira é tornar ao útero. É muito melhor do que sentar no chão duro e frio com as pernas cruzadas zen pensar.
Foi nisso que pensei quando levantei da cama.
Escovei os dentes, penteei a juba e liguei toda a água quente e um tequinho da fria. Enfiei um calção, uma camiseta e meu pisante de atleta. Não tenho paciência para ficar deitado numa banheira, prefiro um rápido chuveiro. Entretanto, uma vez por outra, quando estou tenso, faço como fazem com as batatas: deito na água fervente até me desfazer.
Tranquei a porta meti a chave do apê no bolso esquerdo e desci as escadas. Cinco andares.
Faço minha caminhada em quarenta minutos e a banheira leva cinqüenta para encher. Quando agitado, tenso ou preocupado costumo ir a passos mais velozes e retorno do percurso em tempo menor.
Estava muito ansioso. Havia recebido oferta de trabalho, tentadora, fora de Brasília. Sempre é bom ser reconhecido e ser valorizado. Porém, as mudanças tiram-nos de uma situação de conforto e acomodação. São desafiadoras e misteriosas. Já tinha feito tantas mudanças. Mudei de carro, de casa, mudei de penteado e mudei de namorada. Este, na verdade era meu problema. Trocar de namorada. Nunca fico satisfeito. O mundo está cheio de mulheres maravilhosas. Só encontro as erradas. Quando são bonitas, não sabem conversar. Quando sabem conversar não sabem parar de falar. Quando param de falar não são liberadas no amor. Quando são ótimas no amor não sabem fritar um ovo.
Eu estava namorando com a Cláudia, uma mulher que podia ser capa ou a página do meio da Playboy. Deliciosamente culta que argumentava Freud, almoçava Sartre, bordava Machado de Assis, dormia Nelson Rodrigues e cozinhava Neruda. Porém, sempre há um porém, ela era altamente invasiva. Quando eu menos esperava, lá estava ela, metendo o nariz onde não foi chamada. Mas isso já é outra história.
Para mim, importava caminhar enquanto ponderava sobre o convite de trabalho e todas as suas conseqüências, boas e ruins enquanto a banheira enchia para o arremate de uma reflexão.
Pensava no salário, no aluguel de imóvel, na realização profissional e no distanciamento dos filhos quando sem mais nem menos surgiu a figura do síndico que bloqueou meus passos e pensamentos.
Falou-me da reforma da portaria, de taxas extras, do eterno problema do vizinho do 207 que toca saxofone às duas da manhã. Encheu meus ouvidos com o caso do garoto do 405 que belisca todas as empregadas. Auto-elogiou sua administração com a redução de despesas e solicitou meu voto para a reeleição próxima.
A conversa mole me incomodou e procurei uma desculpa para me desvencilhar do maçante síndico. Quando me lembrei da banheira.
Em pânico levei as duas mãos à cabeça e gritei:
– Meu Deus! Deixei a banheira enchendo! – e saí correndo.
Cheguei em cinco minutos e logo vi que a sala, ao menos, continuava seca.
O corredor também estava seco. E nem havia água sob a porta do banheiro.
Que diabos? – pensei – meu filho está viajando e eu deixei a porta aberta...
Abri a porta e espantado vi Cláudia na banheira de espuma.
– Como você entrou aqui?
– Pedi a chave ao seu filho.
Apesar do alívio por não encontrar enchente e apesar da beldade na minha banheira desisti do banho irritado com a invasão da minha privacidade.
Fui para o quarto, sentei no chão duro, assumi posição de ioga e contei até mil antes de fazer amor.
Foi nisso que pensei quando levantei da cama.Escovei os dentes, penteei a juba e liguei toda a água quente e um tequinho da fria. Enfiei um calção, uma camiseta e meu pisante de atleta. Não tenho paciência para ficar deitado numa banheira, prefiro um rápido chuveiro. Entretanto, uma vez por outra, quando estou tenso, faço como fazem com as batatas: deito na água fervente até me desfazer.
Tranquei a porta meti a chave do apê no bolso esquerdo e desci as escadas. Cinco andares.
Faço minha caminhada em quarenta minutos e a banheira leva cinqüenta para encher. Quando agitado, tenso ou preocupado costumo ir a passos mais velozes e retorno do percurso em tempo menor.
Estava muito ansioso. Havia recebido oferta de trabalho, tentadora, fora de Brasília. Sempre é bom ser reconhecido e ser valorizado. Porém, as mudanças tiram-nos de uma situação de conforto e acomodação. São desafiadoras e misteriosas. Já tinha feito tantas mudanças. Mudei de carro, de casa, mudei de penteado e mudei de namorada. Este, na verdade era meu problema. Trocar de namorada. Nunca fico satisfeito. O mundo está cheio de mulheres maravilhosas. Só encontro as erradas. Quando são bonitas, não sabem conversar. Quando sabem conversar não sabem parar de falar. Quando param de falar não são liberadas no amor. Quando são ótimas no amor não sabem fritar um ovo.
Eu estava namorando com a Cláudia, uma mulher que podia ser capa ou a página do meio da Playboy. Deliciosamente culta que argumentava Freud, almoçava Sartre, bordava Machado de Assis, dormia Nelson Rodrigues e cozinhava Neruda. Porém, sempre há um porém, ela era altamente invasiva. Quando eu menos esperava, lá estava ela, metendo o nariz onde não foi chamada. Mas isso já é outra história.
Para mim, importava caminhar enquanto ponderava sobre o convite de trabalho e todas as suas conseqüências, boas e ruins enquanto a banheira enchia para o arremate de uma reflexão.
Pensava no salário, no aluguel de imóvel, na realização profissional e no distanciamento dos filhos quando sem mais nem menos surgiu a figura do síndico que bloqueou meus passos e pensamentos.
Falou-me da reforma da portaria, de taxas extras, do eterno problema do vizinho do 207 que toca saxofone às duas da manhã. Encheu meus ouvidos com o caso do garoto do 405 que belisca todas as empregadas. Auto-elogiou sua administração com a redução de despesas e solicitou meu voto para a reeleição próxima.
A conversa mole me incomodou e procurei uma desculpa para me desvencilhar do maçante síndico. Quando me lembrei da banheira.
Em pânico levei as duas mãos à cabeça e gritei:
– Meu Deus! Deixei a banheira enchendo! – e saí correndo.
Cheguei em cinco minutos e logo vi que a sala, ao menos, continuava seca.
O corredor também estava seco. E nem havia água sob a porta do banheiro.
Que diabos? – pensei – meu filho está viajando e eu deixei a porta aberta...
Abri a porta e espantado vi Cláudia na banheira de espuma.
– Como você entrou aqui?
– Pedi a chave ao seu filho.
Apesar do alívio por não encontrar enchente e apesar da beldade na minha banheira desisti do banho irritado com a invasão da minha privacidade.
Fui para o quarto, sentei no chão duro, assumi posição de ioga e contei até mil antes de fazer amor.
02 dezembro 2007
Quase pisei!
Nenhuma novidade. Todos os dias caminho. Todos os dias desvio
de cocôs caninos. Todos os dias fico estressado. Hoje resolvi não me estressar.
Tenho lido algumas revistas e artigos de auto-ajuda. E li algo parecido com o provérbio que diz: “Se Deus lhe der um limão faça um limonada”. Agora que estréio pisante novo, branquinho, fico mais preocupado ainda em não batizá-lo com cores marrons. Dizem que marrom dá azar. Pura superstição. Mas, voltando ao provérbio e o mal que me aflige nas manhãs caminhantes, imagino que fazer limonada de titica de cachorro não é exatamente a proposta do provérbio. Nos livros de auto-ajuda os exemplos e os resultados sempre são imediatos e de facílima aplicação. Está difícil imaginar-me fazendo limonada tão insólita.
Nem sei se os livros de auto-ajuda estão preparados para ensinar seus dogmas aos caminhantes. Dizem que para estimular a estima e confiança devemos caminhar com o olhar acima da linha do horizonte. Olhar para baixo deprime. Em São Paulo, com aquele monte de edifícios, todos ficarão com torcicolo. E tem mais, se eu olhar para cima enquanto bato pernas, como fazer para desviar das lembranças caninas? Meu estimado tênis vai ficar deprimido e sujo.
Se Deus lhe der um limão faça uma limonada. O que é que isso tem a ver com as fezes caninas? Não foi o Todo Poderoso que as espalhou calçadas afora. Se tivesse sido teria realizado um trabalho perfeito. Não teríamos como escapar. A cada passo estaríamos xingando e blasfemando. O Divino não iria provocar a ira dos homens contra sua Pessoa.
Acredito que o provérbio sugira que devo pegar o cocô, literariamente é claro, e transformá-lo em algo agradável e que, ao invés de provocar aborrecimentos traga alegria.Paro em frente à primeira marca canina e observo a longa calçada. O desenho do cimentado é curioso, lembra um longo jogo de amarelinha. Um pé, depois dois pés, um pé novamente, depois dois pés, seguindo até onde o olhar alcança. Abro um largo sorriso, vou tomar a minha limonada, recolho o pé esquerdo, imitando saci pererê, e salto de amarelinha evitando os quadrados já ocupados.
de cocôs caninos. Todos os dias fico estressado. Hoje resolvi não me estressar.Tenho lido algumas revistas e artigos de auto-ajuda. E li algo parecido com o provérbio que diz: “Se Deus lhe der um limão faça um limonada”. Agora que estréio pisante novo, branquinho, fico mais preocupado ainda em não batizá-lo com cores marrons. Dizem que marrom dá azar. Pura superstição. Mas, voltando ao provérbio e o mal que me aflige nas manhãs caminhantes, imagino que fazer limonada de titica de cachorro não é exatamente a proposta do provérbio. Nos livros de auto-ajuda os exemplos e os resultados sempre são imediatos e de facílima aplicação. Está difícil imaginar-me fazendo limonada tão insólita.
Nem sei se os livros de auto-ajuda estão preparados para ensinar seus dogmas aos caminhantes. Dizem que para estimular a estima e confiança devemos caminhar com o olhar acima da linha do horizonte. Olhar para baixo deprime. Em São Paulo, com aquele monte de edifícios, todos ficarão com torcicolo. E tem mais, se eu olhar para cima enquanto bato pernas, como fazer para desviar das lembranças caninas? Meu estimado tênis vai ficar deprimido e sujo.
Se Deus lhe der um limão faça uma limonada. O que é que isso tem a ver com as fezes caninas? Não foi o Todo Poderoso que as espalhou calçadas afora. Se tivesse sido teria realizado um trabalho perfeito. Não teríamos como escapar. A cada passo estaríamos xingando e blasfemando. O Divino não iria provocar a ira dos homens contra sua Pessoa.
Acredito que o provérbio sugira que devo pegar o cocô, literariamente é claro, e transformá-lo em algo agradável e que, ao invés de provocar aborrecimentos traga alegria.Paro em frente à primeira marca canina e observo a longa calçada. O desenho do cimentado é curioso, lembra um longo jogo de amarelinha. Um pé, depois dois pés, um pé novamente, depois dois pés, seguindo até onde o olhar alcança. Abro um largo sorriso, vou tomar a minha limonada, recolho o pé esquerdo, imitando saci pererê, e salto de amarelinha evitando os quadrados já ocupados.
22 novembro 2007
Calção sem elástico
– Quer ir comigo? Perguntou a apetitosa balzaquiana dentro do elevador.Antes da pergunta minha resposta já estava pronta: por essa vizinha faço qualquer coisa, até derrubo o presidente e a promovo rainha.
Nossos encontros no elevador não são nada casuais, eu sou apreciador das coisas boas da natureza, chamo o elevador exatamente às 7h15, justo na hora em que ela sai para malhar na academia usando roupinhas coloridas. Prefiro caminhar próximo de casa, em torno da quadra, considero um contra-senso pegar o carro para fazer exercícios. Algumas vezes trocamos olhares e bons-dias quando me atrevo a caminhar até o parque situado a três mil passos de casa. Hoje estou usando meu calção mais antigo. Sempre achei que ele fosse sensual. Agora tenho a prova definitiva. O calção faz a diferença.
Hoje ela está mais cheirosa do que nunca e me pergunta se eu quero ir com ela. Será que devo me ajoelhar e agradecer o atendimento às minhas preces ou simplesmente dizer sim? Será que devo responder que prefiro caminhar perto de casa desviando de cocôs caninos camuflando meu longo compromisso com a namorada? Respondo numa linha defensiva.
– Será um prazer acompanhá-la, se você tiver paciência com os passos lerdos de alguém da minha idade. – Com certeza dirá que não estou velho, que estou enxuto e outros elogios mais...
– Eu já reparei que seus passos são rápidos. O senhor não está tão velho assim. Eu amo esses cabelinhos brancos que o senhor tem nas têmporas...
Enquanto me derretia com as doces palavras ela continuou: – O senhor é tão meigo, tão suave, posso chamá-lo vovô?
Quase desisti de ir ao parque.
Chegamos à garagem e fomos direto à vaga onde estava o carrinho da jovem.
Até o parque não trocamos palavras.
Do lado de fora do carro tirei a camisa antes de fechar a porta. Não são apenas as plantas que fazem fotossíntese.
Na entrada do parque coloquei o celular num bolso, o molho de chaves no outro bolso e perguntei se ela vinha com regularidade ao parque para caminhar.
– Gosto de vir aqui. É sossegado, não tem bicicletas zunindo nem cachorros latindo. – Ela respondeu provocando meu assunto recorrente.
– A grande vantagem do parque é caminhar despreocupadamente, pois não há cocôs nas trilhas. Nem grandes nem pequenos. Nem recentes nem ressecados. Até o ar é mais limpo.
Não gostei da minha abordagem escatológica e resolvi mudar de assunto. Na verdade eu já estava arrependido de ter vindo. Ser chamado de vovô é até carinhoso. Beldades como aquela podem me chamar como quiserem, contanto que me chamem. O que me incomoda mesmo é o meu calção. Todos os calções estavam para lavar e assim peguei um velho, do fundo da gaveta, que sempre gostei de usar, mas nem me lembrava porque deixara de usar. Agora redescubro o elástico frouxo. E o calção em vez de se fixar na cintura prefere se acomodar nos joelhos. É lógico que o assunto não poderia ser a falta de elástico.
– Estes ipês estão muito bonitos. Qual deles você prefere? O amarelo ou o rosa?
– Prefiro o amarelo. Pena que as flores estão caindo como se fosse chuva.
Pensei que ela fosse dizer: flores caindo como se fossem calções sem elástico.
Dali para frente, a caminhada que era para ser prazerosa tornou-se um martírio. Passei a segurar as calças com as duas mãos. O peso do celular e das chaves multiplicou o poder da gravidade e para piorar, a nossa conversa entrou em queda livre. A inflação cai, o ministro cai, caem os aviões, cai a ligação, peitos e bundas caem. Qualquer que fosse o assunto, caía na vala comum das coisas que caem. A caminhada seguia em passo forte no sol quente. O suor que rolava pela testa era de preocupação em disfarçar o calção cadente.
– O senhor tem filhos?
Com a resposta positiva perguntou se aquele moço forte, loiro, de olhos azuis que estava comigo no elevador ontem era o meu filho. Em vez do calção caiu minha ficha.
13 novembro 2007
Dança do acasalamento
Somente o vento do final de tarde de verão domingueiro me resgata da preguiça. Apesar do calor que amoleceu a minha inteligência vou para a rua fazer uma caminhada e levantar as mãos aos céus agradecendo o vento forte e repentino.O calor nos deixa fracos e cansados. O suor cai da testa, molha o peito e desenha desconforto sob as axilas. O vento sopra alívio. O vento é o ar apressado, é o ar que marca presença. Gira cata-ventos multicoloridos e revira guarda-chuvas. Festeiro é quem convida as roupas a dançar nos varais, levanta saias e, querendo algo mais, desnuda as árvores e levanta pipas.
O vento forte provoca desconforto para as aves menores enquanto as maiores aproveitam para fazer mil acrobacias aéreas.
Bem à minha frente, distante, há uma enorme ave pousada. A cor branca se destaca na folhagem verde escura da árvore. Observo que a ave dança em ritmo frenético como se estivesse provocando o vento para alguma aventura. Pelo tamanho do porte não é uma a pomba. Jamais seria uma gaivota, Brasília fica muito longe do mar. Estamos longe de rios ou lagoas, mesmo assim, acredito ser uma garça numa dança de acasalamento.
Caminho na direção da árvore e conforme me aproximo mais curioso fico tentando decifrar o ritmo do pássaro balançante.Agora, com os meus óculos, e a dez passos reconheço um plástico de supermercado, preso no último galho, sorrindo debochado.
31 outubro 2007
Osteoporose infantil
Quando vi que a menininha estava de capacete, joelheiras e cotoveleiras caminhando pela calçada comentei com a minha namorada que a garotinha era uma coitada, que eu estava com muita pena daquela pálida figurinha frágil. A doença dela deveria ser muito grave, provavelmente uma espécie osteoporose infantil em estado muito adiantado de forma que os pais da moleca, para protegê-la obrigavam-na a usar aquela indumentária para não perdê-la para sempre, que ela deveria sofrer muito com aquela roupa quente, e que aquela débil figura deveria ser atormentada impiedosamente com as brincadeiras maldosas dos coleguinhas da escola. Quase derramo uma lágrima salgada de compaixão quando minha companheira interveio.
– Você não viu que ela deixou a bicicleta ali naquela casa?
– Você não viu que ela deixou a bicicleta ali naquela casa?
07 agosto 2007
Perdedor de Deus

Sou um predestinado! Quando nasci todos já sabiam que meu destino seria o sofrimento. No meu parto não havia nem estrela nem cometa a iluminar o caminho. Apenas um buraco negro. Há os eleitos, sou o perdedor.
Quis a sorte que eu freqüentasse a alta classe. Sempre rodeado de moças apetitosas e rapazes fortes num desfile constante de corpos e modas. Não faço feio, modéstia à parte, sou escultural.A educação espiritual me ensinou a ouvir problemas alheios. A vida é terrível. Competitividade, falsidade, egoísmo, dinheiro, vaidade, paixão. A sociedade está com problemas graves e, em vez do diálogo, pancadas. Não consultam, não expõem, não conversam, não se queixam, não se confessam, apenas batem. Esta é minha sina. Só querem saber de bater em mim. Reflito, oro, medito, mas jamais revido. Absorvo bem os golpes da vida. Acredito em reencarnação. Devo ter sido muito mau e agora cabe-me a purificação. Meu aprendizado é apanhar sem revidar, responder sempre com um sorriso. Meu crescimento interno permite que eu sonhe uma vida melhor depois desta, estou cansado de ser boneco de academia de musculação.
Quis a sorte que eu freqüentasse a alta classe. Sempre rodeado de moças apetitosas e rapazes fortes num desfile constante de corpos e modas. Não faço feio, modéstia à parte, sou escultural.A educação espiritual me ensinou a ouvir problemas alheios. A vida é terrível. Competitividade, falsidade, egoísmo, dinheiro, vaidade, paixão. A sociedade está com problemas graves e, em vez do diálogo, pancadas. Não consultam, não expõem, não conversam, não se queixam, não se confessam, apenas batem. Esta é minha sina. Só querem saber de bater em mim. Reflito, oro, medito, mas jamais revido. Absorvo bem os golpes da vida. Acredito em reencarnação. Devo ter sido muito mau e agora cabe-me a purificação. Meu aprendizado é apanhar sem revidar, responder sempre com um sorriso. Meu crescimento interno permite que eu sonhe uma vida melhor depois desta, estou cansado de ser boneco de academia de musculação.
04 julho 2007
Girafa barulhenta

Caminhar sempre é bom. Acompanhado é melhor. E quando a companhia é agradável, é o máximo. Tenho uma vizinha que gosta de caminhar comigo.
Infelizmente a velocidade dela é devagarzinho. Bem devagarzinho, para poder
falar bastante. Ela é muito alegre, extrovertida e perguntadeira. Bem típico da idade. Eu que não tenho nenhum neto, a princípio fiquei incomodado com esse negócio de me chamar de Vô. Mas é uma menina muito fofinha. Demorei a me acostumar, agora até gosto de ser chamado vovô. Quando ganho beijo lambuzado nem reclamo.
Hoje ela me contou que já sabe o que o irmãozinho vai ganhar de aniversário, mas que não vai me contar porque a mãe disse que era segredo.
Depois ela cantou a musiquinha da escola.
Meu lanchinho, meu lanchinho
vou comer, vou comer
pra ficar fortinho, pra ficar fortinho
e crescer e crescer.
E aí, sem mais nem menos ela perguntou se era verdade que as girafas não faziam barulho.
Eu não sabia se aquilo era uma piada, pegadinha ou era uma demonstração de conhecimento.
– Quem te disse isso?
– A tia. Ela disse que os cachorros latem, que os gatos miam, que os passarinhos piam, mas que as girafas não falam. As coitadas não fazem nenhum barulho.
Percebi os olhos tristes da menina com pena da girafa.
– As girafas fazem barulho sim. Você precisa ouvir como é alto o pum da girafa.
A menina deu uma risada e eu continuei.
– Silenciosas são as borboletas. Ou você já ouviu as borboletas batendo papo e fazendo algazarra?
Antes que ela respondesse continuei:
– Fale para sua tia que o único bicho que não fala é o criado-mudo.
Ganhei um delicioso beijo e ela saiu correndo.
Infelizmente a velocidade dela é devagarzinho. Bem devagarzinho, para poder
falar bastante. Ela é muito alegre, extrovertida e perguntadeira. Bem típico da idade. Eu que não tenho nenhum neto, a princípio fiquei incomodado com esse negócio de me chamar de Vô. Mas é uma menina muito fofinha. Demorei a me acostumar, agora até gosto de ser chamado vovô. Quando ganho beijo lambuzado nem reclamo.
Hoje ela me contou que já sabe o que o irmãozinho vai ganhar de aniversário, mas que não vai me contar porque a mãe disse que era segredo.
Depois ela cantou a musiquinha da escola.
Meu lanchinho, meu lanchinho
vou comer, vou comer
pra ficar fortinho, pra ficar fortinho
e crescer e crescer.
E aí, sem mais nem menos ela perguntou se era verdade que as girafas não faziam barulho.
Eu não sabia se aquilo era uma piada, pegadinha ou era uma demonstração de conhecimento.
– Quem te disse isso?
– A tia. Ela disse que os cachorros latem, que os gatos miam, que os passarinhos piam, mas que as girafas não falam. As coitadas não fazem nenhum barulho.
Percebi os olhos tristes da menina com pena da girafa.
– As girafas fazem barulho sim. Você precisa ouvir como é alto o pum da girafa.
A menina deu uma risada e eu continuei.
– Silenciosas são as borboletas. Ou você já ouviu as borboletas batendo papo e fazendo algazarra?
Antes que ela respondesse continuei:
– Fale para sua tia que o único bicho que não fala é o criado-mudo.
Ganhei um delicioso beijo e ela saiu correndo.
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