25 novembro 2012

Os enamoramentos



Javier Marías

Editora Companhia das Letras – 2011

344 páginas

Paguei: R$ 50,00

Observação: a editora colocou dois livros dentro de uma sobrecapa.



É muito comum que o autor de um romance cite, mencione ou até escreva um capítulo se referindo a algum outro livro. Geralmente o livro mencionado é de alguma história que todos conhecem. Neste caso, a referência é a um livro de um grande autor e cuja história foi filmada pelo menos duas vezes. Mas não é de domínio público. O autor de Os enamoramentos não apenas citou, porém fez do conteúdo de Coronel Chabert um personagem importante para a história. Logo, se você pretende ler Os enamoramentos, deve, antes, ler o fabuloso texto de Honoré de Balzac.

O título e a capa sugerem que seja um romance açucarado. Já passado da metade da história, explica que o termo enamoramento em espanhol tem uma conotação inexistente em outras línguas, que difere de amor. Pode até suplantá-lo. Que embora se confundam, não são a mesma coisa. “O que é muito raro é sentir um fraco, verdadeiro fraco por alguém, e que esse alguém produza em nós essa fraqueza, que nos torne fracos. Isso é o determinante, que nos impeça de ser objetivos e nos desarme perpetuamente e nos leve a nos render em todas as contendas.” Em um clichê, o amor cega e por um amor desses somos capazes de qualquer sacrifício. Até morrer ou matar.

Mariá Dolz é a protagonista e narradora da história de pouquíssimos personagens. Involuntariamente conhece um casal que desjejua no mesmo café e que ela, durante muito tempo, costumava observar com admiração. Ou melhor, ela conhece apenas a mulher do casal. Ele foi brutalmente assassinado alguns dias antes.

A história se desenvolve de tal maneira que Mariá, novamente sem intenções, conhece toda a história por trás do homicídio. E, numa citação de um advogado do livro de Balzac “Sempre foi assim. O número de crimes impunes supera largamente o dos punidos; e não falemos dos ignorados e ocultos, por força deve ser infinitamente maior que o dos conhecidos e registrados.”

Eu gostei do livro. Mas com restrições, pois o autor é prolixo e repete e revive e remói e reconta a mesma passagem sob os mais diversos ângulos. Tanto que em determinado capítulo uma personagem leva oito páginas à porta para se apresentar e convidar o visitante a entrar na sala.

Para quem gosta de uma discussão de relacionamento, daquelas em que a mulher fala ininterruptamente, é um prato cheio.

Em tempo, o autor, conforme a orelha, publicou mais de 30 livros, foi traduzido para mais de 40 idiomas (acredito que queriam dizer vendido em mais de 40 países) e vendeu mais de 6 milhões de exemplares.

23 novembro 2012

Ainda quero almoçar com Veríssimo muitos domingos


Fui dormir triste e acordei ainda triste. O noticiário noturno informou que Luis Fernando Verissimo está internado em estado grave. Suspeita-se que virose alimentar tenha provocado infecção generalizada.

Alguém desconhece Verissimo?

Para ajudar quem é de outro planeta, ele disse, por exemplo, que “Só acredito naquilo que posso tocar. Não acredito, por exemplo, em Luiza Brunet.” E também escreveu O Analista de Bagé, Comédias da Vida Privada, As mentiras que os homens contam.

Nas imagens sempre o vemos com uma camisa social clara, às vezes com um paletó. O rosto redondo, as sobrancelhas espessas e ligeiramente caídas nas laterais, os óculos de aros transparentes, a testa grande, a fala pausada e gestos comedidos nos remetem a um tio querido. Uma pessoa que gostaríamos de ter à mesa nos almoços domingueiros.

Como sempre numa churrascaria.

Ele se serviria da salada. Regaria com azeite (do bom), salpicaria um pouco de sal, moeria uma pimenta-do-reino para temperar alguma reflexão. Ficaria em silêncio até o minuto anterior ao gole na taça do tinto seco.

– Saúde! –- Num olhar cúmplice para a esposa.

Depois do brinde voltaria ao silêncio ou às palavras discretas, inaudíveis aos comensais mais afastados da ponta.

Talvez fizesse alguma observação sobre comida antes essencial e agora proibida por organizações médicas. Talvez comentasse uma letra de Lupicínio. Só falaria de futebol se nenhum colorado tivesse sido convocado para a seleção. De Charlie Parker reverenciaria os improvisos. Jamais faria piadas ou trocadilhos, somente observações originais.

Fiel à família, vai à churrascaria pela companhia. O médico o proibiu as carnes vermelhas.

É comedido na hora de servir do bufê. Gosta dos tomates cereja, mas evita as frases longas. Repele as cacofonias e se serve de dois talos de aspargos. Rejeita a cumbuca de lugares comuns, torce o nariz para a travessa de ideias clichê e escolhe três cogumelos cozidos, uma colherada de ervilhas e num único momento se permite ao óbvio: dois pedaços de frango grelhado. Por cima de tudo, uma generosa colherada de bom humor.

Já sentado com o guardanapo no colo, mastiga devagar. Os olhinhos pequenos se movem com rapidez. Enxergam tudo. Observam o desenho da mancha da toalha da mesa, leem a marca do teclado do músico cego, apreciam a transparência do vestido da mulher que passa em frente da porta aberta. Enquanto isso as orelhas são grandes antenas que captam o chiado da carne assada, escutam cochichos à mesa vizinha e ouvem um natureba contar até 32 enquanto mastiga.

Tudo isso pode virar uma crônica. Ou não. Assim como o psicanalista não analisa todas as conversas de que participa, o escritor não escreve tudo o que acontece à sua volta.

O almoço só termina com a sobremesa. Diabético que é, rejeita o pudim de leite, o queijo com goiabada e a ambrosia. Nem pensa duas vezes, vai direto no prato com fechamento inusitado..

Fique bom logo, querido mestre, ainda quero almoçar com você muitos domingos.


15 novembro 2012

O coronel Chabert



De Honoré de Balzac

Em 83 páginas impressas pela Companhia das Letras

Paguei R$ 50 porque vinha embrulhado numa sobrecapa junto com o livro Os enamoramentos.



Honoré de Balzac é um dos grandes nomes da literatura mundial. É um daqueles para os quais os “cult” estufam o peito antes de reverenciar o nome. Li no Wikipédia que ele teria escrito 88 romances, novelas e contos. Até aí nenhuma vantagem. Somando apenas os contos e crônicas dos meus três livros já tenho uns 150. A diferença (ligeiríssima diferença) é que o moço com o nome francês é considerado o fundador do Realismo na literatura moderna. Entre outros vários, escreveu a Comédia humana, um dos cem melhores livros incluído em todas as listas dos melhores da literatura universal. Que é muito mais que os cem melhores da literatura mundial. O cara influenciou gente da grandeza de Proust, Zolá, Dickens, Dostô, Flaubert e até do nosso mestre Machado. Ah sim, os tais 88 romances, novelas e contos estão contidos na Comédia humana que é um verdadeiro estudo de costumes e filosóficos a partir da observação do homem no seu tempo e esse estudo foi eitado pela Globo resultando em 17 volumes.

Eu não li os 17 volumes, nem algum dos outros vários livros publicaos, mas agora já posso estufar o peito, revenciar o nome de Balzac e exlclamar: eu li e gostei.

Eu li apenas um livrinho de 83 páginas que acompanhou a edição de Os enamoramentos de Javier Marías.

Livrinho no tamnho, enorme no conteúdo. Balzac, escreve muito!

Trata do reaparecimento de um coronel que foi dado como morto numa batalha napoleônica. Sua viúva herdou uma grande bolada, casou de novo e não quer mais saber dele. Ele procura um advogado para reaver a sua grana, identidade e lugar na sociedade. O drama esmiúça o caráter de cada um dos personagens com profundidade, elegância e revelações que todos preferiam deixar sepultas no fundo da alma. Sobra para todo mundo. Pois afirma que “em Paris, muitas mulheres vivem com um monstro moral desconhecido ou estão à beira de um abismo; elas criam um calo no lugar da sua dor e conseguem continuar a rir e se divertir.”

Terminei de ler o livro às 5h59. Exatamente um minuto antes de o despertador tocar dizendo que eu precisava levantar.

Mais ou menos na metade da novela assinalei alguns trechos fortes sobre as características da viúva do Coronel Chabert imaginando que seriam peças fundamentais para o desenlace. Quebrei a cara. A história não tem um fechamento espetacular. É muito mais que isso. Mostra, numa espácie de lição de moral, a grandeza interna do coronel.

Passei o dia com sono, mas maravilhado com o livro.

22 setembro 2012

O último livro




O último livro

Zoran Živković

Editora Octavo

235 páginas

uns R$ 46,00






É um romance policial que do meio para diante coloca os dois pés numa viagem surreal.

Conta a história da livraria Papyrus onde acontecem sucessivas mortes. Aparentemente de causas naturais. O inspetor Dejan Lukić é designado para investigar o caso. Logo descobrimos que apesar de policial, ele gosta e estudou literatura o que é condição para haver interesses comuns entre a proprietária da livraria Vera Gavrvrilović e o inspetor.

É natural que um homem e uma mulher, de interesses comuns, se atraiam. Estranho é uma mulher que alcançar o sonho de possuir e comandar uma livraria de sucesso não se impressionar com as mortes no estabelecimento, apenas questionar que o movimento pode afugentar clientes e deitar-se com o inspetor como se tudo fosse normal como tomar chá ao final do expediente.

O que eu quero dizer com isso?

É que a ideia da história onde leitores são mortos pelos livros que leem foi atraente para mim. Fiquei muito curioso para saber como isso poderia ocorrer, porquê envenenar leitores, qual o veneno foi empregado. Mas a história se perde em alguns momentos em que a história deixa de ser verossímil em atitudes ou momentos. Em determinado momento desaparecem de cena misteriosamente e inexplicavelmente mais de 30 pessoas das vistas do inspetor e do chefe de polícia secreta. Não há sequer uma tentativa de explicação. A partir desse momento a história afunda num poço de surrealismo.

A conclusão para as mortes não convence.

O que mais me agradou no livro foram os vários personagens leitores da livraria. Clientes assíduos cheios de manias, compulsões e obsessões maravilhosamente incomuns.

Esta foi a minha opinião que não é igual à dos editores, tanto que duas editoras publicaram o livro em português.

Quando finalizei o livro compreendi o comentário, produzido pelo New York Times, anotado na primeira orelha do livro: “Talvez seja prematuro coroar Zoran Živković como o novo Borges, mas sem dúvida o maior candidato.” Não era bem um elogio, mas um aviso que ainda é prematuro coroar o autor.


PS:  Como será que se pronunciam Zes e Ces acentuados?

18 setembro 2012

O arroz de Palma


O arroz de Palma

Francisco Azevedo

Editora Record

366 páginas

Uns R$ 43,00


É uma criativa história de amor. É leitura para quem gosta de refletir e buscar lições sobre os fatos que acontecem na vida familiar. Se o autor fosse rotular o livro empregaria na ficha as palavras da primeira linha da página 337: romance literalmente água com açúcar.

Para alguns isso é ofensa, para outros, elogio. A história em algumas passagens me comoveu. Não cheguei às lágrimas, mas percebi que se os fatos não foram verídicos, foram muito bem narrados e convincentes, eu diria que merecedores de um romance como este que foi escrito por Francisco Azevedo.

Toda a história se desenvolve nas lembranças do narrador enquanto prepara um almoço domingueiro para a família. Por isso mesmo emprega, principalmente no início, metáforas criativas como “família é um prato que emociona”; “temperos exóticos alteram o sabor do parentesco, mas se misturados com delicadeza tornam a família mais colorida interessante e saborosa”; “não existe família à Oswaldo Aranha, Família à Rossini ou Família ao Molho Pardo em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria. Família é afinidade, é à Moda da Casa”. Conforme a narrativa se desenvolve o autor relaxa a guarda e em vez de metáforas criativas abusa de clichês, lugares comuns e ditos populares ao ponto de em uma única página (106) cometer “chutar o balde”; “dou tratos à bola”; “mentira deslavada”; “Quem conta um conto aumenta um ponto”. É perdoado por ser o linguajar que se encaixa no perfil do narrador.

Mas há passagens que merecem destaque como na 218:

– Deus também é de extremos.

– Deus?

– Tens tanta certeza assim?

– Tenho. Hoje, por exemplo. Vi um nascer do sol deslumbrante. Van Gogh arrancaria a outra orelha se visse aquelas cores!

– Céus! Deve ter sido mesmo uma maravilha.

– Daí me dei conta de que Deus pôs a beleza do sol nos extremos. Nascendo ou morrendo. O sol do meio-termo, do meio-dia, não é para ser admirado. Nem sequer podemos olhar para ele.

– Digo que o teu dia tem 12 horas e o de Deus tem 24.

– O quê?!

Só então tia Palma pousa o crochê e olha para mim.

– Num dia de 24 horas, o sol dos extremos é o do meio-dia – que é auge –, e o da meia-noite – que é ausência. O sol que está a nascer ou a morrer é o sol das preces. O sol do meio-termo, como dizes.



E também à página 234 em que Palma se queixava de dor na coluna e

... concluiu que a dor que sentia – maior que ela – era bem menor que a dor do mundo. Comparada com todo o sofrimento e aflição que haveria nos quatro cantos da Terra, sua dor se tornava insignificante, portanto, suportável. Brincava.

– Que remédio nos trará a cura? Que farmacêutico virá para passar algodãozinho com álcool, soprar a bunda da Terra e lhe aplicar a injeção que nos aplacará todas as dores?

E ainda uma sensacional descrição de um abraço à página 231:

Papai se levanta. Nos abraçamos tão entregues um ao outro, que tudo em nós se mistura: as lágrimas, os cheiros, os sons, as peles, os panos, as dores, tudo. Ficamos a eternidade assim, ele em mim e eu nele. Nenhum tempo, nenhum espaço. Perdemos a noção. Quando acabar o abraço, teremos que voltar à realidade. Quem é que quer? Não, eu. A iniciativa de separar os corpos não será minha. Não mesmo. Ele é o pai, a instância superior. Ele decidirá o quando e eu me conformarei. Mas o abraço é mais forte que qualquer grau de parentesco, quer continuar para sempre. Isabel vem e se junta a nós, mas sabe até onde pode ir. Apenas nos toca de leve, solidária. Suas mãos em nossos ombros também é aviso de vida, sinal de que ali há outras pessoas que precisam de nós. Papai e eu entendemos aquele novo tato que chega. Nossos corpos se soltam naturalmente e, aos poucos, vão reconhecendo e definindo seus limites.



Quer saber a minha opinião?

– É um prato cheio se você gosta de histórias de amor e costuma citar ditos populares.

30 agosto 2012

Travessuras da menina má


Travessuras da menina má

Autor: Mario Vargas Lhosa

Editora: Ponto de leitura


400 páginas

Uns R$ 23,00

Jamais havia lido Mario Vargas Lhosa. Sabia que fora vencedor recente de um Nobel de Literatura e que é peruano.

Confesso que o tamanho do livro – 400 páginas – não foi nada estimulante para o início da leitura. É que tenho o péssimo costume de ir até o fim em todas as minhas leituras, independentemente se gosto ou não.

Mas já na primeira página o livro atiçou a minha curiosidade. É que eu esperava de um escritor de Prêmio Nobel de Literatura um linguajar austero, de frases longas e palavras cabeludas. Ao contrário, encontrei um contador de histórias amigável como se estivesse sentado no sofá da minha sala.

A história pode ser resumida em: um sujeito se apaixona por uma colega de escola que não lhe dá a menor trela nem esperança. A paixão vira uma espécie de idolatria onde um lambe o chão do outro que ignora solenemente a existência do primeiro. Ele é tradutor enquanto ela é alpinista social. A história começa em Lima, no Peru, avança para Paris da revolução feminista, continua na hippie londrina e termina em Barcelona, sempre com riquíssimas descrições dos cenários, das geografias e dos momentos históricos.

Mas a grande riqueza da história está no entrelaçamento de personagens de riquíssimas biografias. Vai escrever bem , lá longe!

Este livro também foi escolhido pelo nosso Clube de Leitura. Pela primeira vez houve unanimidade. Todos gostaram muito. Todos terminaram de ler e, para minha surpresa, três colegas leram o livro duas vezes.

29 agosto 2012

7 coisas que aprendi por Roberto Klotz


"Em uma iniciativa conjunta* entre os blogs Escriba Encapuzado e Vida de Escritor, T.K. Pereira e Alexandre Lobão convidam escritores para compartilharem suas experiências com os colegas de profissão, destacando sete coisas que aprenderam até hoje.


Não interessa se você é iniciante ou veterano, se escreve poesias, contos, romances ou biografias, envie sua contribuição para esta série de artigos!

A fim de contribuir, eis as 7 coisas que aprendi com a escrita até hoje e que agora compartilho com vocês:"

http://escribaencapuzado.wordpress.com
https://www.facebook.com/escribaencapuzado


❶ Que para produzir é essencial ter um prazo para finalizar a tarefa. – Estipule prazos sempre que for escrever um conto uma crônica ou um romance. Você se lembra de que era capaz de produzir um texto em 50 minutos quando o professor de português exigia uma redação?
❷ Que é necessária uma boa caminhada com os pensamentos no foco do tema, desenvolver a criatividade, imaginar as ações.  Antes de digitar procure premeditar a ideia, o roteiro e a estrutura.  A partir de um tema, uma palavra, um fechamento, um fato estimule a progressão da ideia com coerência, começo meio e fim.
❸ Que a coerência é fundamental. – Mesmo se o texto for surreal precisa manter coesão.  Antes de sair é preciso estar dentro. Um personagem de boa índole não pode virar assassino de uma hora para outro, no mínimo precisa de uma grande motivação.
❹ Que a pesquisa evita que escrevamos bobagens.  – Consulte livros, pergunte e pesquise na Internet. É mais seguro para criar nomes para personagens, descrever cenários que não conhecemos e até é possível resgatar flahes históricos. Quem sabe, você descubra quantas moedas de ouro descansavam na algibeira de Joaquim Silvério dos Reis enquanto outro Joaquim era esgoelado na praça.
❺ Que ao escrevermos contos ou crônicas devemos manter o tom do início ao fim.  – Se a intenção é provocar pavor, piedade, ódio, simpatia... ou seus contrários, a short storie não permite alteração de tom sob pena de prejudicar  o resultado. Por exemplo, se a intenção é escrever um final cômico para um velório, é necessário dar ao leitor alguma dica prévia que o texto não é sério.

❻ Que o leitor não gosta de mulher bonita. Mostre. O leitor prefere que seja descrita: “Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.”

❼ Se você quiser conhecer uma opinião verdadeira sobre seu texto, em vez de perguntar ao amigo se gostou, pergunte do que ele não gostou. Mas ouça e acate (pelo menos no momento) sem se defender, senão jamais ouvirá sinceridade novamente deste leitor.

30 julho 2012

Romanceiro da Inconfidência – Cecília Meireles



Quem diria? Eu lendo poesia!


Lendo, apreciando, aplaudindo e recomendando.

– Assim mesmo, tudo no gerúndio.

A poesia não faz parte das minhas escolhas. Não tenho intimidade com versos e rimas. O livro Romanceiro da Inconfidência foi o escolhido do mês no nosso Clube de Leitura.

A impressão que eu tive é que Cecília Meireles turistou em Ouro Preto, visitou museus, folheou livros antigos, conversou com o povo e tomou café em uma das inúmeras casas coloniais. Lá, em algum momento foi até a cozinha servir-se de mais um pouco de doce caseiro, na volta se perdeu e entrou em uma porta que a levou para um passeio no tempo. Havia uma garrafa sobre a mesa, ela abriu, se serviu e se embriagou de passado.

Depois escreveu maravilhas.

Quando eu li Inocência , do Visconde de Taunay fui levado para outra época por alguém que viveu aquela época. Agora não. Fui levado por Cecília que embora ela não tenha vivenciado a época, conseguiu transmitir até a poeira que se respirava naqueles tempos de revolta contra altos impostos.

Na abertura da obra há um discurso em que ela relata o que a levou a escrever a obra histórica e diz que alguns dos personagens formam versos perfeitos:

Tomás Antonio Gonzaga

Joaquim José da Silva Xavier

Dona Bárbara Heliodora

Vicente Vieira da Mota

Sapateiro de Capanema

Dona Maria Primeira

É lógico que meu ouvido, pouco afeito ao ritmo, nada detectou. Os olhos, porém viram que há versos e poemas de todos os tipos e gostos. Decassílabos, sonetos, redondilhas e outras tantas às quais não fui apresentado formalmente. Entretanto me apaixonei pela declaração : “Somos cada vez mais governados pelos mortos”.

Por não frequentar o mundo da poesia deixei de usufruir todo poder da obra. Li como se fosse prosa. Uma prosa poética riquíssima onde nenhuma palavra é desperdiçada ou está fora do lugar.

Para nos aclimatar no cenário escreve:

Descem fantasmas dos morros,

vêm almas dos cemitérios:
todos pedem ouro e prata,
e estendem punhos severos,
mas vão sendo fabricadas
muitas algemas de prata.

A Chica da Silva dedicou um longo poema do qual só anotei o desfecho:
À Vênus que afaga,
soberba e risonha
as luzentes vagas
do Jequitinhonha.


(À Rainha de Sabá,
num vinhedo de diamantes
poder-se-ia comparar.)


nem Santa Efigênia,
toda em festa acesa,
brilha mais que a negra
na sua riqueza.

Contemplai, branquinhas,
Na sua varanda,
a Chica da Silva,
a Chica que manda!

(Coisa igual nunca se viu.
Dom Quinto, rei famoso,
Não teve mulher assim!)


Quem sou eu para escrever sobre a escrita da mestra? Recortei esses versos mostrando a densidade em que ela coloca o clima de tensão na cidade às vésperas da data programada para o levante:


Pelas gretas das janelas,
pelas frestas das esteiras,
agudas setas atiram
a inveja e a maledicência.
Palavras conjeturadas
oscilam no ar de surpresas,
como peludas aranhas
na gosma as teias densas,
rápidas e envenenadas,
engenhosas, sorrateiras.


Sobre Joaquim Silvério dos Reis poemou:

Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério:
que ele traiu Jesus Cristo,
tu trais um simples alferes.
Recebeu trinta dinheiros...
– e tu muitas coisas pedes:
pensão para toda vida,
perdão para o quanto deves,
comenda para o pescoço,
honras, glórias, privilégios.
E andas tão bem na cobrança
que quase tudo recebes.


Vale a pena ler e descobrir o que a autora reservou a Tiradentes e como ela contou o momento do enforcamento.

Versejou também para o pessoal da cobiça. Aqueles que queriam ouro, diamantes, pedras preciosas a qualquer custo. Parece que adivinhava o futuro no litígio familiar disputando seu legado. Mas isso já é outra história.

Pop Para – choque - Vlado Lima




Vlado Lima é um escroto.

É um escroto criativo e genial.

Mas escroto.


E o que é um escroto?

É um sujeito politicamente incorreto.


Ou melhor.

Tem humor e pensamentos cortantes politicamente incorretos .


Vlado é genial escroto.

O livro – Pop para choque – foi-me empurrado por um agente cultural fã de Bukowski e que se auto intitula anárquico.


Raras vezes leio o que empurram. Minha goela é estreita.


Abri uma página aleatória e li:



LUPICINICAMENTE BLUES

as paredes do quarto: amarelo melancólico

as cortinas da sala: bege down

os móveis: marrom deprê

o carpete: cinza fossa



(...)



tem dias

que a minha casa cheira a Lupicínio Rodrigues



Como não perceber o soco na boca do estômago?





Livro aberto, sem virar folhas, fui à escancarada página anterior:



MEDO DE MICO

não tem vinho

nem vela

nem aqule versinho do Vinícius

não tem Billie na vitrola

nem ursinho Lionella

muito menos a possibilidade de um mico



tem apenas a chuva da ducha

e o pensamento ereto

Nela

(...)



Não costumo mastigar pedras, mas estas são de chocolate com pimenta recheadas com óleo diesel fervente.

 
O livro empurrado não é meu. Como é que eu vou sublinhar ou dobrar orelhas para marcar porradas?

Então anoto uma passagem da qual ri muito:




“hoje


em noites de feijão roxinho

toco La Cumparsita com minha orquestra de gases





minha mulher diz que sou um fracasso

um fracasso espetacular!”



Recebi outra cacetada com a imagem do verso que diz
“vou para Somália contar costelas”.



Recomendo a leitura se você não se choca com qualquer coisinha e sabe distinguir o autor da obra.

Vlado é genial.

Escrota é a escrita dele.

21 junho 2012

Resultado da Rio+20





Os últimos dias foram uma loucura. A cidade estava tomada por militantes de todas as cores. O Rio estava irreconhecível. Em todas as rodas e todas as rádios, nos cafés, nos jornais e na tevê o assunto era sempre a ecológica Rio+20.

Após o expediente da sexta, fugiu para o sítio em Teresópolis. Esqueceu a chave e resolveu dormir ao relento lembrando a infância.

O pai o ensinara a fazer uma cabana amarrando a ponta de uma árvore flexível no chão. A nostalgia apertou quando pegou o canivete vermelho no porta-luvas.

Logo encontrou um pinheiro com pouco mais que a sua altura. Fincou uma estaca no chão e com uma corda construiu o arco com a destreza de um escoteiro.

Abaixou-se e, de cócoras, passou por baixo do portal. Ouviu um zunido agudo como se atravessasse um túnel do tempo. Do outro lado o esperava um sujeito forte, braços cruzados sobre o peito, quase dois metros de altura, barba branca, olhar penetrante, mas familiar.

– Vovô? – arriscou.

– Não. – Grunhiu o velhinho. – Sou seu bisneto.

– Como assim? O que faz aqui?

– Vim cobrá-lo, você e toda a sua geração. Olha só o que sobrou da fazenda do seu avô?

O homem olhou para o posto de gasolina, para a fábrica de tintas e para o tamanho do parente.

Agachou-se, fingindo rezar, e de gatinhas atravessou a passagem de volta.

Prometeu a si mesmo que não voltaria ao Rio enquanto não terminasse a Conferência Rio+20.

28 abril 2012

Suprema decisão


Retrato em preto-e-branco

 
A definição de raça agora é sacramentada por um tribunal de pureza racial que entrevista os candidatos a vestibular e define os que podem ou não ser enquadrados nas cotas dos negros. Na escola aprendi que raça era uma coisa e cor era outra.
O que me interessa é que devem ser criadas cotas também para os portadores da letra K no nome. Desde a alfabetização sofri descriminação. Os portadores das letras W ou Y que juntem sua turma para formalizar seu pleito. Vou cuidar apenas daquilo que me diz respeito. Somos poucos, pleiteamos cota de apenas 0,5 % das vagas universitárias.
Negros e mulatos: 40%; deficientes físicos: 20%; egressos de escolas públicas: 35%; pobres: 20%; indígenas: 15%; asiáticos: 4,5%; judeus: 3%; desafinados: 5%; macrobióticos: 2%; órfãos: 1%; analfabetos: 18,37%.
O nosso caso não necessitará de nenhuma comissão especial para confirmação. Dispensaremos atestado de pobreza e exame de DNA. A identidade será o suficiente para provar nosso enquadramento na cota. Particularmente tenho K por parte de pai e de mãe.
Feliz mesmo vai ser um amigo meu Zibgniev Chlowinsky, é pobre, estudou em escola pública do nordeste, não aprendeu a escrever, é preto de pai e indígena de vizinho, sem amídalas, careca, míope e na casa dele não tem televisão colorida.
Zib com certeza vai entrar na faculdade, pois somando todas as cotas estará com 127, 38%, o problema é que irá direto para o laboratório de antropologia.


27 abril 2012

Minha mãe se matou sem dizer adeus


MINHA MÃE SE MATOU

SEM DIZER ADEUS

EVANDRO AFFONSO FERREIRA

Editora Record

128 páginas

Preço: uns R$ 28,00

Quando peguei o livro na mão, o título de tarja preta sobre um papel de embrulho de verde veneno, fiquei chocado. Parecia um remédio que provocaria efeitos colaterais indesejáveis.
Aberto o vidro, digo o livro, saboreei algumas cápsulas coloridas.
Página 11 – manhã que se estatuou.
Página 12 – Veio menina por descuido da natureza. Viveu menino tempo todo.
Página 15 – A sonoridade de: sei-sinto-pressinto.
Página 24 – Ah minha filha, perdão se lhe dei aquilo de que nem eu mesmo gosto: a vida.
Página 25 – não se mate ainda, meu velho, não se mate; pense na possibilidade decepcionante do café lá do outro mundo não ser assim tão encorpado.
Página 30 – Quadrilha drummondiana às avessas– pai batia na mãe que ignorava o filho que odiava o pai.Página 37 – Netos chegam espargindo primavera nos avós.

Página 51 – O desfecho da vida é cheio de indelicadezas.

Página 68 – as folhas caem nas outras estações além do outono.

Página 71 – Mãe jovem na mesa ao lado segura bebê lembrando-me do avô que nunca serei. Não retribuo o sorriso: não quero intimidades com o futuro.

Página 112 – Essa moça que carrega o sol a tiracolo.

Página 115 – Envelhecer é surpreender-se a cada manhã com mais um descuido da morte.

        Logo descobri que as cápsulas rareavam porque as via pretas como o rótulo que veste luto. A morte e o suicídio estão presentes com pessimismo latente. A cada página sentimos a melancolia funesta e desesperançosa. As frases sombrias derrubaram meu astral.

        As páginas avançaram, porém a história não se desenvolvia. A cada capítulo o autor se repetia e se repetia. Repetia tanto que ousei escrever um capítulo resumo:

É domingo. Chove. Passo o dia na doceria. Amo minha mãe bêbada e bonita. Não entendi porque se foi sem despedir. Odeio meu pai. Converso telepático com os fregueses das mesas. Sei-sinto-pressinto amigos judeus e a senhora decrépita. Estou triste e melancólico na mesa-mirante e que não sei como finalizar o livro já batizado Minha mãe se matou sem dizer adeus. Vou cortar a teia da própria vida.

Quando terminei o livro, abri a gaveta do criado-mudo, peguei a cartela de comprimidos. Tomei dois Prozac de 20 mg.

18 fevereiro 2012

E foram todos para Paris


E FORAM TODOS
PARA
PARIS

Autor: Sérgio Augusto
Editora Casa da Palavra

128 páginas

Preço: uns R$ 32,00





Às vésperas de uma viagem ganhei o livro auto-intitulado guia de viagem a Paris com uma capa que provoca nostalgia.

Quando preciso registrar a profissão em algum documento, costumo anotar escritor. Eu já me assumi este papel. Penso, vivo a escrita. Nas minhas veias correm letras. Até consigo salvar uns trocados com a atividade. Desta forma, quem me rodeia imagina, com certa razão que os meus deuses sejam os escritores consagrados. Deuses não. Talvez ídolos? Um pouco menos. Tenho admiração e respeito. Só.

O livro é muito interessante. É um guia que aponta detalhadamente todas as esquinas onde escritores e artistas se encontraram. Ensina e indica os restaurantes freqüentados pela boêmia. Indica quartos de hotéis onde o mundo e o submundo ferveram em Paris. Cita o nome, o sobrenome e muitas vezes até a data em que os figurões ali estiveram. Genial.

Pena não contar o que fizeram naqueles lugares. Eu prefiria ter sabido quais os sabores experimentados por Oscar Wilde nos restaurantes. Eu Teria mais prazer em saber o quê Isadora Duncan conversou num café. Seria maravilhoso saber o nome da companhia e qual vinho Cole Porter tomava ao compor mais uma das odes a Paris. Para mim, o endereço dos hotéis seria mais atraente se viesse acompanhado com as informações dos nomes das duplas ou triplas que revolveram os lençóis.

Uma das poucas histórias, diga-se de passagem, hilária, está no começo do livro:

“As pegadas de Hemingway e seus cupinchas permanecem indeléveis aqui e acolá, nas duas margens do Sena, mas só os cognoscenti saberão reconhecer na galeria de arte que há tempos ocupa o n.o 29 da rue dês Saints-Pères o velho bistrô Michaud’s, que eu já peguei transformado na bresserie L’Escorailles. Foi lá, em seus tempos de bistrô, que ocorreu um dos episódios mais pitorescos da amizade Tom & Jerry entre Hemingway e Fitzgerald. Trocavam os dois intimidades quando Fitzgerald se queixou de que Zelda vivia a fazer pouco das dimensões de seu membro viril. “Você acha que eu tenho pau pequeno?”, perguntou Fitzgerald ao amigo. “Não sei, só vendo”, respondeu Hemingway, que sugeriu uma conferida. Ao exibir o seu músculo da alegria, no banheiro do Michaud’s, Fitzgerald foi contemplado pelo amigo com esse primor de ambigüidade: “Olha, meu caro, fique sabendo que seu pau é do tamanho do seu talento literário.”

O guia é fantástico para quem tem algum escritor como Deus ou então para quem mora ou já foi a Paris vinte vezes. Só neste ano.

Reconheço que o Sérgio Augusto fez uma pesquisa e compilação sensacional. Que o livro é muito bem escrito, instrutivo e cult. Porém, para um simples mortal como eu, que vai pela primeira vez a Paris, é de uma inutilidade quase total.

28 janeiro 2012

Uma criatura dócil

Uma criatura dócil



F. M. Dostoiévski

Editora Cosac Naify - 2009


104 páginas


Preço: R$ 42,00


2.a Edição – 2009





Na apresentação Augusto Massi faz uma sinopse aguçando desejos de leitura. Antecipa traumas. Compara a penhor da protagonista com um agiota como se fosse um pacto com satanás.

Eis parte da primeira orelha:

“Uma criatura dócil é uma pequena obra-prima. O pêndulo da narrativa opera segundo a lógica das transações de uma caixa de penhores: na primeira parte, a heroína se entrega, penhora sua pureza e um ícone da Virgem Maria. Na segunda, resgata a imagem, mas paga com a própria vida.

Tudo começa com o encontro – Mefístocles recomendando-se a Fausto – de duas criaturas simetricamente desencontradas O pacto é selado por um silêncio pontuado de orgulho e humilhação. O arroubo inicial dela é penhorado contra a severidade dele. O agiota coloca em funcionamento um sistema perfeito e torturante de gradação moral. No vaivém das cobranças, a traição e a covardia abrem lugar para a fidelidade e a coragem.”

Li a novela procurando o tinhoso por todas as páginas. Não encontrei o chifrudo nem tampouco qualquer acordo com o demo.

Foi com se tivesse sido convidado para uma feijoada e no prato servissem um peixe assado em forno de lenha.

Demorou um tempão para esquecer a feijoada e degustar o peixe. Que, diga-se de passagem, estava delicioso. Mas não era feijoada.

O livro é ótimo para quem gosta de conversa com o inconsciente. Há verborragia e monólogos para ninguém botar defeito.

A história principia com um marido, em cuja casa, sobre a mesa, jaz a própria mulher, suicida, que algumas horas antes atirou-se de uma janela. Ele está perturbado e ainda não conseguiu juntar os pensamentos. Anda pelos cômodos da casa e tenta entender o que aconteceu.

Esa sim é uma boa apresentação, que o próprio autor faz daquilo que ele denominou novela.

Foi uma boa leitura. Certamente não foi o melhor trabalho do Dostô.

24 janeiro 2012

O conde Drácula


— Ele entrou por aquela porta — apontou com o nariz — rosto comprido, olhos sangrentos contrastando com a pele branca, cabelos pretos engomados formando um “v” na parte superior da testa. Usava a tradicional capa preta de gola alta e forro vermelho. Assustadoramente elegante. Não precisei do cartão de visitas nem de ver os compridos dentes caninos. Eu sabia, qualquer um identificaria o conde Drácula.

— Mas isso é incrível!

— Observei quando olhou para os dois lados da sala, como se estivesse à procura de alguém. Percebi que deteve o olhar, por uma fração de segundos, na nova estagiária.

— E depois?

— Fico incomodado com a curiosidade de vocês, jornalistas. Jamais estão satisfeitos com respostas simples. Sempre procuram os detalhes dos detalhes. Isto aqui é uma repartição pública como outra qualquer. Nada tenho a esconder, nem eu nem ninguém do nosso departamento. O senhor conde perguntou a coisa mais simples do mundo: onde é o banheiro? Apenas isso.

— Von Silva, o senhor está nos enrolando...

— Eu? Jamais. Sou um humilde servidor, trabalho há 35 anos na casa. Conheço tudo e todos. Jamais faltaria com a verdade.

— Vou repetir a pergunta de forma mais objetiva: o senhor considera que este departamento é um cabide de empregos? Que aqui está cheio de pessoas que nada fazem e se aproveitam do trabalho dos outros?

— Eu insisto na minha resposta. O único sanguessuga que vi na minha vida foi esse. Depois que o chefe mandou pendurar a réstia de alho, nem esse mais retornou.

26 dezembro 2011

Feliz por nada



Feliz por nada
Martha Medeiros

Editora LPM
216 páginas
Preço: Um montão de reais porque comprei no lugar errado.


Na livraria do aeroporto de Brasília, meia hora antes de embarcar no vôo que me levaria ao Natal em São Paulo com a família, pensando na próxima reunião do grupo de leitura, procurei Uma criatura dócil do Dostoievski. Não encontrei.

Na verdade eu queria um livro de leitura descompromissada, linguagem leve, bom astral. Alguma leitura que pudesse ser interrompida a qualquer momento.

Xeretei pilhas de livros. Revistas de todos os segmentos. Quem sabe alguma que me ajude a planejar o ano que vai começar?

Chamou-me a atenção um livro que piscou para mim embora a figura da capa fosse um manequim sem cabeça, porém repleto de botons com smiles espalhados na camisa. Era Martha Medeiros flertando comigo.

Um livro de crônicas, constatei. Histórias curtas. 24.a edição. Uau! Sempre tive curiosidade de saber quem é essa mulher. A foto da segunda orelha convenceu-me a viajar bem acompanhado.

Já sentado na sala de embarque tive o trabalho de contar que a autora escreveu cinco livros de poesia, quatro romances e que este é o sétimo de crônicas. Caraca! Essa mulher é muito nova para tantos livros!

Gosto de refletir sobre as frases de abertura de romances. Mas este não é um romance e a frase de abertura na verdade é uma pergunta: Onde você gostaria de estar agora, nesse exato momento?

Para mim, eu já poderia fechar o livro. Comecei minha viagem ao viajar para lugares e momentos. Foram dez ou quinze segundos tentando responder a questão. A minha alegria foi a resposta original: o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço.

Logo precisei interromper o prazer da leitura para o embarque. Por essas e outras é que escolhi short stories.

Bem no comecinho, acho que na quinta crônica, a autora conta sobre um cara chamado Alain de Button que criou a Escola da Vida. Onde se aprende a viver o cotidiano de forma mais prática e inventiva. Ou seja, a moça que mostrou muita originalidade logo de cara busca ainda mais criatividade?

Logo mais à frente sublinhei uma frase: “Independência nada mais é do que ter o poder de escolha”, conclusão de um comentário: “Te acho uma mulher fenomenal, mas eu não gostaria de ser casada contigo – tu és muito independente.”

A autora se desnuda naturalmente, sem preconceitos, ao mostrar a alma em vários momentos. E, ainda oferece lições aprendidas na própria vida amorosa quando sugere: “não antecipe o término do que ainda não acabou, espere a relação chegar até a rapa, e aí sim.”

Contrastando um artigo da revista Veja sobre a educação em massa dos chineses de Taiwan, reproduz um conceito da poeta Elisa Lucinda que não há jeito de reter conhecimento se não houver emoção.

Em muitos momentos as crônicas sugerem que o livro é um guia de autajuda.

Em Amigo de si mesma sugere que ninguém vai se chatear se você fizer o bem a si mesmo. “Negue-se a participar de coisas em que não acredita ou que simplesmente o aborrecem. Presenteie-se com boa música, bons livros e boas conversas. Não troque sua paz por encenação. Não faça nada que o desagrade só para agradar aos outros. Mas seja gentil e educado, isso reforça laços.” “Sem amizade por si próprio, nunca haverá progresso possível.”

Em Confie em Deus, mas tanque o carro a autora continua o seu delicioso guia ao referendar que “não há prêmio ou punição na vida, apenas conseqüências.”

Achei sensacional a crônica Em que esquina dobrei errado? em que a autora perdeu-se numa viagem em Paris. A partir dali analisa as conseqüências do que pode acontecer a qualquer pessoa ao dobrar a esquina errada em algum momento da vida e conclui que “a vida não é férias em Paris.”

Em Feliz por nada, Martha Medeiros externa sua opinião a partir de fatos, situações ou momentos vivenciados. Quase sempre mostra bom humor, dá lições de vida. Não é a toa que o livro está há 22 semanas entre os 10 mais vendidos da Veja na categoria Não ficção. Penso que deveria estar em Autoajuda.

Terminei de ler o livro no dia 24 de dezembro enquanto esperava o táxi para me levar à casa da minha filha para a ceia de Natal. Ganhei o meu presente natalino antes de todo mundo.
 
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