27 maio 2011
18 maio 2011
A guerra das águas
A água mineral líder de mercado na França percorre um caminho de 10 anos entre rochas vulcânicas até ficar bem pura. Mas apareceu um forte concorrente: a água dos icebergs. Os mais jovens têm cerca de 10 mil anos. Os pedaços de gelo são derretidos e engarrafados. O produto da concorrência virou moda entre as famílias ricas da Califórnia e o preço faz jus ao público: chega a custar US$10 a garrafa. – CB, Você sabia, 16/05/2011.
A notícia chegou aos ouvidos de Antonio Carlos, um empresário brasileiro prestes a lançar um revolucionário filtro d’água no mercado mundial. O que fazer contra essa concorrência inesperada?
Nem precisou fazer nada.
A guerra foi iniciada pelos franceses que alegaram que a água dos icebergs provavelmente teria restos de urina de animais polares.
Os americanos, que financiam o projeto de exploração do pessoal da Groenlândia, sentiram-se ofendidos nos brios. Reuniram uma tropa de agentes comerciais e foram ao Pentágono pedir permissão para o revide.
Os generais americanos, auto-proclamados defensores da justiça mundial, em primeiro lugar afirmaram que quando se trata de ofensa à soberania americana não é necessária permissão para a retaliação. Em seguida questionaram se a língua estranha dos franceses era árabe. Com a resposta negativa, perguntaram se o território francês ficava no Oriente Médio. Os comerciantes abriram mapas para consulta antes de afirmar categoricamente que não encontraram a França próxima ao Irã, Iraque, Paquistão, Arábia Saudita, Kuwait ou Venezuela. Os generais se entreolharam. Ainda havia uma questão fundamental em aberto. E em caso positivo, apontariam os mísseis na direção da capital do país ainda naquela noite.
- Aquela torre enorme é para a exploração de petróleo?
Se não havia petróleo na questão então a ofensa era menor.
Antonio Carlos acompanhou tudo, bem de pertinho, graças a um agente triplo infiltrado na SIA e no DGSE (Direction Générale de la Sécurité Extérieure), o Serviço Secreto Francês. Sentiu firmeza. Os yankees não jogariam bombas nos galegos, e estes sequer arremessariam suflês nos yankees.
Em vez de combater com pistola d’água. O empresário brasileiro poderia lançar uma ofensiva sem medo. Precisaria encontrar uma forma de detonar com o marketing e a grife das garrafinhas internacionais.
Nem precisou pesquisar muito. O seu filho quando soube como eram as águas dos estrangeiros esboçou cara de nojo e emitiu um sonoro: – Eca! A partir dali as idéias caíram em cascata folheando os jornais da cidade. Encontrou uma campanha pronta para condenar a água filtrada no processo de 10 anos e também a água congelada há 10 mil anos. Colocaria água na fervura dos concorrentes internacionais.
Começaria dizendo que a água vem da Cidade Maravilhosa. Lugar de alegria e carnaval. A palavra Rio tem origem no verbo rir, na felicidade de viver e traz consigo o movimento e a ginga da corrente de água. Por outro lado, diria, nada sutilmente, que quem gosta de água parada é o mosquito da dengue.
Outra pérola que brotou de matéria publicada em jornal. – Correio Braziliense – Sempre às quartas-feiras antes das 18, com tamanho predeterminado um texto, como se fosse uma coluna de jornal.
11 maio 2011
A salvação dos sapos
A súbita extinção do sapo-dourado e do sapo-arlequim da reserva ambiental Monteverde, na Costa Rica, é um dos casos mais bem documentados dos declínios populacionais misteriosos que caracterizam a crise global dos anfíbios. O subsequente desaparecimento de 40% das espécies de anuros (grupo de anfíbios que não possuem cauda) das florestas tropicais porto-riquenhas é um dos casos mais extremos de perda de biodiversidade. – CB Ciência, 10/05/2011.
Conheci o porto-riquenho, Paco Gonzales, ainda adolescente. Ele participou de um programa de intercâmbio e morou seis meses na casa do meu vizinho. Paco era engraçado e conquistador nato. Com o sotaque portunhol dizia que seu pai tinha sido um sapo que, ao ser beijado, se tranformara em príncipe. E que ele era nascido príncipe, e que de acordo com a lenda do seu país, precisava ser beijado por uma princesa para virar rei. Magras, pobres, altas, com ou sem óculos, beijava todas. Transformou-se em rei do bairro.Já biólogo, retornou ao Brasil, na virada do século, para um congresso. Eu o hospedei durante dez dias. O suficiente para recordar histórias de sapos, rãs e pererecas.
Um dia tive a oportunidade de visitá-lo em San Juan. Fiquei muito bem impressionado com o mar transparente na vista aérea e o moderno aeroporto. No caminho para casa ele me relatou que estava muito preocupado com a morte misteriosa dos anfíbios do arquipélago. Os estudos levavam a crer na diminuição na população de salamandras, cobras-cegas, lagartos e na extinção de sapos, rãs e pererecas. O caso mais grave era com os anuros, anfíbios sem cauda.
Na manhã seguinte visitamos o centro da cidade, declarado Patrimônio Histórico pela Unesco. E à tarde fomos ao laboratório de Paco.
Conforme suas pesquisas e comprovação de imagens observou que os sapos nasciam e se desenvolviam felizes até começarem a frequentar a escola e a sociedade nas lagoas. Ali entravam em contato com outras espécies e assumiam feições tristes. Relatou-me que a transformação era impactante, imediata. De sorridentes passavam a chorões depressivos. E da depressão à morte tudo acontecia muito rápido.
Descobriu que os sapos se envergonhavam pela ausência de uma cauda. Comprovou a tese quando começou a cortar o rabo de lagartos e cobras: todos morriam de vergonha.
Mas Paco era estudioso e perseverante. Analisou centenas de bichinhos, até encontrar uma solução para os infelizes. Agora estava orgulhoso, se aproximava a hora de mostrar ao mundo o resultado do seu trabalho. Apontou-me uma enorme caixa com uma encomenda, antes de abrir, mostrou-me um artigo científico que escrevera especialmente para a revista do Instituto Bitantã. Ele seria o salvador de todas as espécies em extinção. Bastaria colocar as próteses nos bichinhos.
Entusiasmado mostrou rabinhos de cachorro, para demonstrar alegria, rabinhos de canguru, para saltar mais longe, rabinhos de vaca para espantar moscas, rabinhos de chipanzé para subir em árvores.
Em compensação, eu morri de rir.
Todas as quartas-feiras, até as 18h, publico no blog um texto oriundo de matéria publicada no Correio Braziliense. Como numa coluna de jornal, o texto é limitado de 2959 a 2997 caracteres.
*imagem do sapo-arlequim, em extinção
10 maio 2011
Estive em Lisboa e lembrei de você
Luiz Ruffato é um nome consagrado da atual literatura brasileira. Em 14 de agosto de 2007, no auditório do CCBB – Centro Cultural do Banco do Brasil – tive o prazer de ouvi-lo numa palestra. Até hoje só havia lido e gostado de dois dos seus contos. Assumi o compromisso de um dia ler Ruffato. Infelizmente não coloquei prazo. Logo, demorei muito para cumprir com a minha dívida pessoal.
Agora, participando do Grupo de Leitura promovido pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da UnB, surgiu a oportunidade de conhecer Estive em Lisboa e lembrei de você.
O livro foi originado no projeto Amores Expressos, promovido pela Companhia de Letras e bancado por incentivos da Lei Rouanet. Vários autores foram convidados a escrever uma história de amor tendo como cenário uma cidade do Planeta onde seriam hospedados por 30 dias.
Ruffato deveria escrever um romance tendo Lisboa como fundo. E, de fato Serginho, o protagonista propõe casamento a uma prostituta brasileira, Sheila, na capital lusitana. Porém a impressão que eu tive é que o narrador jamais saiu de Cataguases, no interior de Minas, com sua prosa fluente, como se estivesse encadeando causos numa roda de vizinhos na calçada em frente de casa, sob um poste de luz amarela.
O cardápio de falares do interior mineiro ganha novos temperos quando o protagonista atravessa o Atlântico para vivenciar situações de um imigrante sobrevivendo no mundo.
Julgo (quem sou eu para julgar um ícone?) ser um romance de 85 páginas, pouco elaborado para a notória capacidade do autor. Parece que Ruffato procurou se livrar rapidamente do compromisso assumido com a editora.
04 maio 2011
Falta gente e sobra humor em Borá
Borá, no interior de São Paulo, mantém o título de menor município do país em população. Na última década, a cidade recebeu 10 pessoas a mais na lista de habitantes, totalizando os atuais 805. – CB, Censo 2010, 30/04/2011.
Hoje é quarta-feira, dia de publicar minha coluna semanal com base em notícia publicada na semana. Eu já havia separado algumas matérias sobre o casamento real britânico e sobre o fim de Osama Bin Laden. Mas o editor entrou na minha sala, com desprezo e cenho fechado, disse que isso era para os jornalistas graúdos. Que eu deveria escrever sobre o Censo 2010. Fiquei felicíssimo. Assunto brasileiro da maior importância.
– Você fará a matéria sobre Borá.
– O Censo descobriu alguma nova tribo indígena?
– Não. É o menos populoso município brasileiro.
– Maravilha. Onde estão as passagens? Viajo quando?
– Deixe de viajar! Você tem duas horas para colocar o texto sobre a minha mesa. – E bateu a porta atrás de mim.
No mesmo instante me conectei na Internet para pesquisar. Descobri que há pelo menos um cidadão bem-humorado na cidade. “Borá é uma cidade localizada a três passos de onde Judas perdeu as botas, o All Star e a virgindade.”
Descobri também que é uma cidade pacífica. Quando os dois times de futebol, o Borá FC e o Borá EC se defrontam, os torcedores gritam o mesmo nome.
O grande evento anual é a escolha da miss e do mister Borá com direito a entrevistas e transmissão ao vivo pela rádio da cidade.
As imagens mostram todas as ruas asfaltadas e uma praça repleta de bancos de concreto com nomes gravados. Dali se pode ver a igreja matriz, imaginar a música vinda do coreto desativado e espiar os casais de namorados na fonte luminosa.
O prédio da prefeitura é identificado em letras garrafais: Paço Municipal. Uma construção assobradada recente, em forma de bolo de casamento, juntando a prefeitura e a câmara municipal. Na fachada superior há uma espaçosa varanda prevendo momentos solenes ou festivos. Dizem que a edificação é um pequeno paço para o homem, um salto para a humanidade.
É curioso saber que o expediente é das 9h às 11h e das 13h às 17h. E que um mesmo prefeito dirigiu a cidade por 14 anos em quatro mandatos diferentes.
As estatísticas apontam que 90% dos habitantes são alfabetizados e que 93% da população, acima dos 13 anos, acessa o Facebook. Curiosamente ninguém nasceu na cidade nos últimos 30 anos. Será que só lêem livros e trocam e-mails? Ou é brincadeira de um gozador cidadão boraense.
O mais surpreendente é que a cidade é extremamente politizada. Todos votam. Idosos, maiores de 17 anos, mulheres, adolescentes, crianças, bebês e até os que ainda irão nascer. Pois apesar da cidade ter apenas 805 habitantes, tinha, já em 2008, 924 eleitores.
Consegui terminar o texto no prazo. O editor sempre exigiu um conto ou crônica. Desta vez, para me testar, exigiu um artigo.
Do texto pode até não gostar, mas certamente terá interesse em desvendar o mistério que atrai moradores de outros lugares a votar na pequena Borá.
01 maio 2011
O único final feliz para uma história de amor é um acidente – JP Cuenca - crítica
O único final feliz para uma história de amor é um acidente de João Paulo Cuenca, Editora Companhia das Letras, é um romance com altas doses depressivas que demora a fisgar o leitor no anzol. Entretanto, uma vez fisgado, é impossível fugir.
O cenário é em Tóquio, onde um pai, voyer, espiona, invade e oprime abusivamente a vida do filho. Sempre, 24 por dia, câmaras e gravadores registram movimentos, conversas e intimidades. O pai estimula a vida sexual do filho para se aproveitar das imagens. O filho tem conhecimento, mas não consente com as atitudes paternas, como num estupro.
O pai, octogenário, oculta suas ações da sociedade atrás de uma fachada de poeta, líder de tradições literárias.
O autor imprime verossimilhança a fatos impossíveis como uma mulher robô construída especialmente para atender devaneios do velho poeta. O autor convence tão completamente que os delírios sofridos pelo protagonista transformam a opressão e mania de perseguição em imagens que confundem o leitor entre realidade e ficção.
A minha leitura foi muito rápida, merecia volta para reflexões e melhor entendimento das intenções do autor. Por sorte participo de um grupo de leitura* onde destrinchamos o pescador que nos fisgou.
* – Grupo de Leitura do Departamento de Teoria Literária da Universidade de Brasília.
27 abril 2011
Meu convite para o casamento de William e Kate
Nada de extravagância, centenas de famosos ou muitos membros da alta sociedade britânica. O príncipe e a futura princesa Kate Middleton apostaram em uma celebração íntima, mesmo que ela tenha pompas de evento de estado. A Clarence House divulgou a lista com as presenças confirmadas para participar da celebração. O documento lista os nomes de reis, rainhas, diplomatas e membros do governo, mas também revela, sobretudo, a identidade de amigos e pessoas ligadas ao casal. CB – Mundo, 24/04/2011.
Abri a caixa de correspondências e lá estava o envelope com o convite. – Yes! Eu recebi! – Um cartão branco, duro, um pouco menor que uma folha de papel A4, com bordas chanfradas em ouro e letras douradas. Logo abaixo da insígnia da avó de William, a Rainha Elizabeth, estava o meu nome: Mr. Roberto Klotz.
Ah, como esperei por este momento. Eu tinha certeza que Kate não me decepcionaria. É bem verdade que cheguei a duvidar.
Durante os últimos dois meses verifiquei a caixa de correspondência umas quinhentas vezes. Nesta semana eu me cansei de virar a chave e espiar no escaninho: instalei uma poltrona ao lado. – O Santa Ansiedade! – Tudo porque os convites para o casamento do Príncipe William foram distribuídos em fevereiro, estávamos às vésperas do casamento, abril, e o meu não chegava.
Enviei cartas, bilhetes, torpedos, telefonemas, telegramas e tuitadas cobrando o meu convite. O chefe de cerimonial finalmente retornou uma mensagem de desculpas com a informação de que os convites impressos foram insuficientes e que a pressão de autoridades, celebridades e pessoas do mundo inteiro era enorme, mas que o Palácio mandara confeccionar especialmente apenas mais três convites. O meu estaria entre eles.
Voltei a olhar para o convite. Confirmei o meu nome mais uma vez, posso dizer que estou feliz e realizado. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não foi convidado. O Exterminador do Futuro, Arnold Schwarzenegger, não foi convidado. Lady Gaga, que dispensa apresentações, não foi convidada. O bruxo Harry Potter não foi convidado. Eu fui. – Isso não é o máximo?
Leio, um pouco abaixo, que a vestimenta sugerida é o uniforme militar, um fraque ou ainda um terno de negócios.
Isso me assusta um pouco. Jamais usei um traje militar, não tenho fraque e o meu terno é um paletó com uma mancha de gordura na manga esquerda. Talvez eu tenha que cortar as mangas.
No convite ainda há um cartãozinho informando o meu lugar na Abadia de Westminster. Será ao lado da Victoria Beckham. – Nada mau.
Reviro o envelope, procuro e não encontro a passagem de avião nem os vouchers para o hotel, conforme combinado. – Assim não dá. Acho que não querem que eu vá!
Eu já tinha escrito a dedicatória, um livro diferente, de minha autoria, para cada um dos noivos. Embrulhei em papel prateado com uma fita vermelha. Em vez de entregar pessoalmente, colocarei num envelope pardo e postarei no correio. O casal saberá como é doloroso esperar ansiosamente na frente da caixa de correspondência.
Mais um texto, o 38.o sem interrupções, inspirado em matéria publicada no Correio Braziliense da semana. Sempre às 4.as com o mesmo tamanho, o de uma coluna de jornal.
20 abril 2011
O santo das causas impossíveis
Santo Expedito é conhecido por atender às causas urgentes e impossíveis. Conta-se que, quando ele se converteu ao cristianismo, um espírito mau em forma de corvo tentou dissuadi-lo da escolha, mas Expedito não pensou duas vezes e rapidamente matou o pássaro. A agilidade dessa decisão faz os fiéis crerem na ligeireza da solução dos problemas. – CB, Cidades, 20/04/2011.
Ontem, dia de Santo Expedito, fui à igreja. Eu e meio mundo. A igreja estava lotada de pedintes. Todos pedindo solução rápida ou impossível para os problemas.
O santo é das antigas, da época em que não havia computador para organizar a própria agenda e hoje se vê atolado de causas urgentes alheias. Tive pena dele. Pena e um pedido. Queria que ele me ajudasse a escrever o meu texto semanal inspirado em notícia publicada no jornal durante a semana. Era urgente porque o meu prazo terminava às 18 horas e o editor costuma degolar autores que atrasam a matéria por mais que 30 segundos. Fiz questão que o santo soubesse da ameaça que paira sobre a minha cabeça. Apesar da imagem conhecida, Expedito foi decapitado pelos militares romanos a mando do Imperador Diocleciano.
É bem verdade que eu deveria estar atrás do teclado digitando meu texto em vez de imaginar milagres nos bancos da igreja. Mas eu estava lá e me caberia rezar, fazer o meu pedido e aguardar rapidez no atendimento do pedido.
Enquanto aguardava na fila observei que ele usava trajes de legionário romano com uma túnica acima dos joelhos e manta púrpura. Com o pé ele pisava um corvo batizado Ontem. Ele era muito rápido com os fiéis. Santo Expedito não podia anotar nada, em uma das mãos segurava uma palma e na outra um crucifixo batizado Hoje. Registrava mentalmente os pedidos e despachava os necessitados mais rápido que os médicos na consulta do INSS.
Pedi para uma senhora guardar o lugar para mim na fila para dar uma espiada como era o atendimento.
Fui até bem pertinho do santo.
Uma senhora juntou as mãos frente ao peito em forma de oração e implorou um emprego para o filho. O santo captou o desespero da mulher e imediatamente estendeu o caderno de classificados. Acenou com a cabeça chamando o próximo.
Aproximou-se um rapaz bem vestido, jeitão de filhinho de papai. ─ Meu Santo, fazei com que eu seja aprovado no concurso do Senado Federal. ─ Meu querido, basta que tu comeces a estudar. Próximo.
Um senhor de cabelos brancos e olheiras profundas se arrastou silenciosamente até o santo, mostrou a identidade para provar que não era tão velho quanto parecia. Queria viver mais tempo.
─ Qual é o seu problema?
─ Câncer. Ajude-me, por favor.
Na mesma hora o santo devolveu o documento com uma pequena alteração.
─ Agora o senhor é de capricórnio. Próximo.
Minha vez estava chegando. Voltei para o meu lugar na fila até ser atendido.
Expliquei o meu drama de prazos de entrega.
─ Começa a escrever mais cedo e terás tempo para pesquisar e descobrir que o patrono dos jornalistas e escritores é São Francisco de Sales. Próximo.
A matéria foi publicada na quarta. E na mesma quarta, graças a Santo Expedito, postei no meu blog.
13 abril 2011
Viajei com Gagarin
Aos 27 anos, Yuri Gagarin, um jovem russo de origem humilde é lembrado pela rara coragem. Ele foi um dos 19 pilotos que se candidataram ao vôo, em um tempo em que testes humanos num ambiente sem gravidade sequer haviam sido feitos. “Foi um vôo absolutamente heróico. Era uma missão muito difícil, e as pessoas pensavam que só um louco poderia ir para o espaço”, relata à agência Reuters o jornalista científico Vladimir Gubarev, que conheceu Gagarin na juventude. CB – Ciência, 12/04/2011.
12 de abril de 2011 – Há exatos 50 anos Yuri Gagarin foi o primeiro homem a ir para o espaço. Um feito extraordinário. Tão importante quanto Colombo chegar de caravela na América. A ficção se transformava em realidade. O homem comprovou ser capaz de voar mais alto e mais distante que os pássaros. Gagarin voou nos sonhos de todos os homens. Lá do espaço declarou que a Terra era azul. Visitar a Lua passou a ser tangível.
Deixei o jornal de lado uns minutinhos e também viajei no espaço, do tempo.
Eu era menino, não se falava noutra coisa. Gagarin era o herói dos homens. Garrincha e Pelé já driblavam e marcavam gols, mas todos os meus amigos queriam ser cosmonautas. Ninguém viu o lançamento na tevê. Não foi transmitido. Nem a cores nem em preto e branco. Aliás, poucos tinham televisão. O imaginário era muito melhor que qualquer imagem. Descrevíamos detalhadamente a trajetória do herói. Primeiro vestindo a roupa prateada, depois os canudinhos de oxigênio e por cima o capacete. Subia uma escadinha, entrava numa cabine cheia de botões, alavancas e luzes piscantes. Fechava a porta com um barulho surdo e metálico numa combinação de prisão e sarcófago. Já sentado se amarrava a um banco solitário.
Era hora de imitar o coração batendo disparado – tum,tum tum, tum. Aí, todos os amigos gritavam em coro a contagem regressiva: 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 – buuuuum. Gagarin disparava na vertical, rumo ao céu até se perder de vista.
Não se falava em outra coisa. Estava lançada a gagarinmania. Até hoje me lembro de uma charge da revista Cruzeiro onde um peixinho dourado nadava dentro do capacete de aquário.
Tempos idos. Eu morava em São Paulo, em casa não tínhamos telefone, apesar de estarmos na fila de aquisição há sete anos. Também não possuíamos tevê. Meus pais questionavam a novidade. Mas nós, crianças, íamos brincar nas outras casas da rua e nos transformamos em televizinhos e dizíamos que as recém inventadas máquinas de assar frango eram televisão de pobre.
De repente, surgiu o Caravelle, o primeiro avião a jato. Revolucionário com as turbinas coladas na traseira em vez das hélices nas asas. O barulho era enorme, sempre saímos correndo da sala para apontar o avião no céu. Todos, em vez de fazer rápido, passamos a fazer a jato.
Uma flâmula pendurada, em cima da cabeceira da minha cama, lembrava a inauguração de Brasília, um ano antes. As novidades e o heroísmo estavam presentes no dia-a-dia.
Gagarin voltou para a Terra. Mas os tempos de infância não voltam mais.
Novamente me deliciei com uma notícia extraída do jornal e com ela, como todas as quartas-feiras, criei uma história.
11 abril 2011
Cordilheira – Daniel Galera - crítica
Li o livro em três dias, bem a tempo de escrever meus comentários visando a primeira reunião do Grupo de Leitura.
Não entendi a intenção o design da capa.
Ao contrário dos best-sellers americanos, o livro não tem uma estrutura com um roteiro pré-definido. Certamente foi conduzido a partir de uma idéia pré-elaborada, mas levado pela protagonista.
Desconheço outros escritos do autor para comparar, entretanto a linguagem utilizada é convincente ao ser colocada na voz de uma protagonista feminina. A protagonista se envolve em reflexões e revolve sentimentos como uma eterna discussão de relacionamentos, coisa tipicamente feminina.
A ambientação em Buenos Aires foi atendida. O autor descreve cores, cheiros, luzes, paladares e sons convencendo-nos do cenário da história.
Os personagens são convincentes quanto à caracterização e personalidade. Consigo me imaginar conversando com cada um deles numa mesa de bar como se os conhecesse de longa data.
Houve momentos em que me irritei ao ler descrições ou pensamentos super-hiper-mega detalhados. Eu procurava relativizar: trata-se de uma mulher. Mulheres são assim, (ó santo machismo!) e para tentar compreendê-las é necessário ouvi-las.
O título do livro certamente foi inspirado em “Le gustaba mucho mirar la cordillera”. ─ “Me veio à mente Duisa, a esposa daquele pioneiro da Terra do Fogo, trazida para viver nessa região na primeira metade do século anterior, fitando as montanhas numa estância isolada de tudo e de todos, em silêncio permanente, sob a observação secreta e carinhosa do marido que décadas depois lembraria dela exatamente por essa tendência à demorada contemplação da cordilheira. A imagem dessa mulher na minha cabeça sempre trazia uma profunda melancolia, a ponto de me dar um nó na garganta. Eu queria ser como ela”
Muitos já escreveram e desenvolveram romances a partir da questão do envolvimento da realidade do autor com a ficção das suas histórias. A grandeza do livro é que o autor explora ao extremo o drama de todo escritor: onde começa a ficção e onde termina a realidade. De modo que um grupo de escritores subverte a lógica e passa a vivenciar os personagens das suas obras. A protagonista do livro, também escritora, sequer se identificava no próprio livro e passou a questionar-se ligando ficção à realidade após o envolvimento com o grupo. Fernando Pessoa abordou a questão com o famoso verso: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente. Que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente”.
Galera não se cansa de mostrar o que o motivou a escrever Cordilheira. Ainda no começo da história a protagonista fala sobre sua mãe que faleceu no parto. “Minha mãe, um ser fictício que eu não cansava de imaginar e desenvolver”. “Minha mãe foi o meu primeiro personagem.” Passada a metade do livro, Escreve: “Não há como escrever honestamente sobre qualquer coisa que não seja nós mesmos. Um escritor pode tentar maquiar esse fato com todas as suas forças, mas nunca escapará dele.”
Nas últimas páginas está a confirmação da intenção do autor que se utiliza da protagonista escritora para escrever: “Eu a inventei justamente para nunca precisar ser como ela, para exorcizar uma Anita que detestaria me tornar.”
Enfim, apesar do detalhismo nas descrições e aprofundamento das reflexões, gostei da história. O autor conseguiu me surpreender. Recomendo.
09 abril 2011
Pessoas dupla-face
Tenho observado que os meus amigos não são meus amigos. Gosto daqueles que se esforçam para serem meus amigos. Gosto das pessoas que se transformam em gentilezas e amabilidades tentando conquistar o meu sorriso. A máscara que colocam nos aproxima.
Entretanto muitos dos meus conhecidos, desnudados das aparências, se transformam em pessoas repugnantes.
No domingo estive num churrasco maravilhoso. O anfitrião me recebeu na porta. Era um cavalheiro personificado. Picanha ao ponto. Cerveja gelada. Garção para servir. Peguei uma costelinha e enquanto separava a carne do osso observava o dono da casa. A face de bondade personificada que exista era alimentada diariamente pela outra face, a de empresário corruptor. Eu só conhecia uma delas e esta, me agradava.
Meu carro estava na oficina, e na volta para casa, aceitei a carona de uma mulher de metro e meio. Magrinha e frágil. Super meiga. Educada na França. Gentilíssima. Ao contrário do que supus, o carro dela era uma enorme station wagon onde seguramente caberia um batalhão de soldados. Ela não havia consumido uma única gota de álcool, porém quando se sentou ao volante parece que sacou de uma máscara do porta-luvas e dirigiu com a agressividade de um fuzileiro naval no campo de batalha e no sinal vermelho, xingou como um sargento irritado. Francamente, me assustei com a mulher debaixo da outra mulher.
Ainda bem que não demoramos muito a chegar.
O síndico, todo solícito, estava na frente do edifício podando algumas plantas e demonstrando o zelo com o bem comum. Na guarita, o porteiro me entregou uma convocação para uma Assembléia. O primeiro item da pauta era sobre a reeleição do síndico. Um fingidor, um crápula mal educado, egocêntrico que aumentou as taxas do condomínio para reformar o próprio apê enquanto reformava o prédio. Duvido que tenha um vaso em casa.
Já no elevador, pensei: ah, meu amigo leitor, ponha a máscara, elogie esta crônica, chame-a de artigo se quiser, mas elogie. Entretanto se você for sincero e contundente nas críticas, tirarei a minha máscara de bondade e, desejarei que você queime no inferno.
06 abril 2011
Protesto de mulheres brasilienses
Ao começar a reunião com o secretariado, o governador observou mais uma aglomeração na frente do Palácio do Buriti. Apesar do pouco tempo sentado na cabeceira da mesa, já estava vacinado contra greves, protestos e manifestações.
De dentro para fora, o vidro e a vida são azuis. De fora para dentro o vidro e a vida são negros.
A mesa é pequena para acomodar tantos secretários e o governador. A reunião começa e segue a pauta. O governador não consegue se concentrar, nota que os jardins estão apinhados de gente. Bem mais, muito mais, que do que as manifestações cotidianas.
─ Alguém tem idéia de quantos são?
Um dos secretários que estava de costas para a janela respondeu prontamente:
─ Trinta e quatro.
─ Trinta e quatro mil? Acho que são mais.
─ Não, não. Somos apenas 34 secretários.
Incomodado com a resposta alienada, foi até a janela observar melhor o tumulto.
Uma larga avenida separa os manifestantes do palácio. Além do isolamento acústico, o barulho dos ônibus e carros impedem que se ouça, de dentro do gabinete, as palavras de ordem gritadas nos jardins. O megafone também não produz o efeito desejado.
Enquanto mais gente chega de todas as direções, mulheres carregam cartazes com o número 52,19%.
Observa que todas as protestantes são mulheres. Bem vestidas e mal vestidas. De cabelo oxigenado, branco, anelado ou bem cortado. Executivas, universitárias, donas de casa, garis, aposentadas, meninas. Mais mulheres do que caberiam no Maracanã lotado.
Ainda assustado com a quantidade, voltou a questionar:
─ Estou impressionado. Quantas serão?
O mesmo alienado, sem pestanejar, respondeu que são apenas quatro secretárias: Mulher, Comunicação, Educação e Transferência de Renda.
O governador contou até dez para conter a impaciência.
─ Alguém sabe o que significam 52,19%? ─ Olhou para o secretário que respondeu 34 anteriormente, evitando outra bobagem, afirmou. ─ Sei que não é o reajuste que vocês pleiteiam. Não é a inflação, nem o reajuste dos combustíveis. Não é a taxa de desemprego, tampouco a taxa de ocupação nos presídios. Não é a taxa de aprovação dos alunos nas escolas.
O estagiário de jornalismo entrou esbaforido na sala com uma folha de papel: “Agora são 112.267 mulheres, gritando igualdade, reunidas na frente do palácio do Buriti”.
─ Meu filho, você está maluco! Você as contou uma por uma? Nunca vai ser jornalista de verdade. Toda nota deve responder as perguntas básicas: onde? o que? quem? quando? onde? como? e por que?. Eu quero saber por que protestam!
─ Elas imploram por igualdade. Sentem-se desamparadas. Querem mais homens.
─ Não entendi. Há décadas brigam por espaço. Elas sempre reclamam que os homens são maioria em todos os lugares.
─ É que de acordo com o Censo 2010, são 1.337.726 mulheres, o que corresponde a 52,18% dos residentes no DF. De onde calculei que há 112.267 mais mulheres que homens.
Este conto é resultado de um devaneio inspirado na matéria publicada no Correio Braziliense, em 03/04/2011 – “A capital da mulherada”.
30 março 2011
Chantili pensa que é gente
O medicamento que desacelera o ritmo da vida também tem ajudado os animais a se sentirem mais felizes, reduzindo a carga diária do estresse doméstico. Depois da pílula para humanos, a versão veterinária do Prozac foi lançada nos Estados Unidos. O laboratório Eli Lilly não revela quando o produto chegará no mercado nacional. CB – Indústria farmacêutica, 27/03/2011.
Daphne, Chantili, Passarela, Daslu e Blasê eram amigas inseparáveis. Onde estava uma, estavam as cinco. Como um grupo de adolescentes, se copiavam mutuamente nas roupinhas, modos e falares. Em vez de púberes com hormônios à flor da pele, eram cadelas com estresse aflorando no pelo.
Começavam a manhã com aulas de musculação na academia. Não competiam entre si. Por mais que malhassem, o espelho não refletiria a silhueta sarada. Sempre dependiam dos caprichos de uma tosadora profissional. Escolhiam os modelitos de acordo com as imagens das revistas francesas. Se o pelo estivesse muito curto pareceriam mais magras, entretanto ficariam muito peladas e poderiam ser confundidas com cachorras vulgares. Só Passarela, por ser uma dálmata, dispensava as tesouradas. No momento estava muito orgulhosa, pois a padronagem de onça voltara ao topo dos red carpet.
Terminadas as comparações no espelho, pesavam-se, comiam uma ossinho de cereais e depois do banho seguiam para longas sessões de relaxamento e massagem.
Pouco antes do almoço o motorista as levava para casa a tempo de se recomporem com vestes mais adequadas.
Após a sesta, trocavam novamente de roupa. Para aulas de francês e de piano preferiam roupas discretas, camisetas com gola olímpica e tênis de franjinha. Nas terças e quintas-feiras quando jogavam biriba usavam blusinhas casuais.
Somente às quartas-feiras de tarde eram levadas para passear nas calçadas. Vestiam jeans customizadas, tênis de marca e blusa style. A diferença estava nos perfumes. Daphne e Chantili, duas poodles, eram fiéis ao Channel número 5. Daslu preferia o Obsession da Calvin Klein. Passarela pingava gotinhas de Givenchi atrás das orelhas. Blasê, uma yorkshire dourada, sentia-se mais fêmea jateando Gabriela Sabatini no pescoço. Percebiam ter alvará de soltura para liberar as vira-latas que habitavam dentro de cada uma elas. Mesmo assim não defecavam nos gramados e se queixavam do cheiro dos postes. Raramente permitiam que algum cachorro se aproximasse. Se latisse então, coisa animal, e mesmo que fosse um atlético doberman, seria evitado para toda a eternidade.
Num desses passeios a dona foi abordada por uma colega com dois collies.
─ Suas cachorrinhas são tão bonitinhas. Sempre observo com admiração. Elas não ficam muito estressadas com uma agenda tão cheia e tão distante da vida animal?
─ Normal. Elas pensam que são gente.
─ Os meus, quando permanecem muito tempo presos, ficam tristes. Aí, costumo dar uns comprimidos de Prozac.
─ No way! O máximo que faço é dar uma aspirina na TPM. Para deixá-las alegres vamos ao shopping comprar uma bolsa da nova coleção Louis Vuitton.
Outra história inspirada em matéria publicada no Correio Braziliense
23 março 2011
Controle rigoroso das calorias
Agora os cientistas estão tentando criar ferramentas de monitoramento dos costumes das pessoas. São softwares, sensores e equipamentos de GPS que acompanham todos os passos dos pacientes ou voluntários em pesquisas. Tudo para garantir que a ciência consiga um retrato fiel da vida dessas pessoas, sem precisar confiar na memória ou no rigor dos alvos dos estudos. CB – Tecnologia, 21/03/2011.
João Paulo amava muito a sua esposa, Ana Clara. Moravam em um confortável apartamento no Leblon, resultado de lucros reciclando garrafas de refrigerante em capacetes para operários da construção civil. Ana Clara, formada em economia, administrava a casa e levava os filhos para a escola e dezenas de aulas particulares.
Ele estava triste com a falta de entusiasmo da esposa que perdera o viço e ganhara gordura. Os 15 quilos pesavam no interesse sexual de Jotapê. Tanto pesavam que propôs inúmeros regimes alimentares, sugeriu aulas de natação, squash e dança de salão. Conseguiu convencê-la a se matricular em academia de ginástica.
Um dia voltando da fábrica encontrou Ana Clara metida em um vestido curto e justo. Achou-a repugnante. Percebeu a esposa como um açougue que expõe as carnes na vitrine. Por amor, por todo amor que sentia pela mulher, foi só um pouco indelicado:
─ Como é que alguém pode desejá-la com todo esse tamanho?
Em resposta, Ana Clara abaixou sensualmente a alça do ombro esquerdo, atirou um beijo, virou as costas e saiu rebolativa da sala.
Os gestos em vez de provocar, amoleceram desejos.
Após três meses de abstinência, Jotapê procurou um endocrinologista que trouxe para o Brasil um equipamento de monitoramento das alterações calóricas. O software registrava detalhadamente todas as refeições, indicando o cardápio completo e ainda um GPS para monitorar deslocamentos.
Em uma semana de acompanhamento poderia descobrir se a mulher, de fato, estava seguindo o regime e se exercitava corretamente na academia.
Gastou o equivalente a um mês de produção da fábrica para instalar o chip num brinco de ouro e brilhantes que ofereceu em festa no aniversário aos dez anos de casamento.
Passados dez dias, convidou-a para jantar num restaurante luxuoso para mostrar o resultado do investimento que fez para resgatar o carinho e o amor no casamento.
Abriu o envelope lacrado e retirou o relatório.
─ Olha amor: terça-feira, 15h40, você levando as crianças a pé para a aula de inglês. Às 16h15, tomando um suco de laranja no Bob’s, 130 calorias. Às 17h você foi de carro para a academia e perdeu 75 cal em 15 minutos de jump, 50 cal em 15 minutos de esteira e 100 cal nas séries de tríceps e flexão.
─ Meu amor, isso é invasivo.
─ É muito mais detalhado que eu imaginava. Vamos olhar o dia de ontem. O que você lanchou na casa da Maria Fernanda?
─ Não estou gostando disso!
Quinta-feira, 16h13 - Ué? De carro? Indo para a Barra da Tijuca? A casa dela não é em Ipanema? Acréscimo de 75 cal tomando vinho. 18h25 queimou 450 cal em 22 minutos de sexo.
Novamente um conto bem humorado resultante de matéria publicada durante a semana no Correio Braziliense. Sempre às quartas-feiras antes das 18h, com limite máximo de caracteres como uma coluna no jornal.
18 março 2011
O vrum que me levou ao passado
O sol ainda estava sob as cobertas, mas eu, madrugador que sou, já estava de pé na frente da geladeira pegando um pacote plástico com pão de forma. Ouvi, do quinto andar, o barulho da moto do entregador de jornal.
No mesmo instante, lembrando tempos antigos, salivei pão francês e leite fresco.
Eu explico: O padeiro no escuro da manhã pilotava uma lambreta verde com um baú de madeira. Parava na frente de quase todos os portões. Sabia de cabeça quantos filões, pãezinhos, doces e garrafas de leite deveria entregar em cada casa. Entrava, deixava as garrafas de tampa de alumínio ao lado dos saquinhos de papel e saia.
Os sons que eu ouvia da minha cama na infância ainda reverbam na memória.
Primeiro ouvíamos ao longe o liga e desliga da lambreta se aproximando até chegar sob a nossa janela. Depois de embrulhar os pães mornos ouvíamos a tampa fechando barulhos no baú. Em seguida os passos corridos no quintal até a caixa protegida do tempo. Dois segundos depois retornava com os mesmos passos corridos. Batia o portão de ferro e ligava a moto se afastando alguns metros até o próximo vizinho.
Agora, guardei o pão de forma de volta na geladeira e caminhei até a padaria em busca de um sonho.
16 março 2011
A noiva degustou o doce
A cada ano aumenta o número de casais que sobem ao altar no Distrito Federal. Mesmo em tempos de independência financeira e de uniões não oficiais, cresce o volume de noivos que fazem questão de oficializar o casório na igreja ou com grande festa. Em 2009, o Instituto de Geografia e Estatística (IBGE) registrou 16.312 novos casamentos celebrados na capital federal – uma média de 44 por dia. CB – Comportamento, 13/03/2011
Uma descarga de energia elétrica percorreu-lhe o corpo. Os cabelos da nuca se arrepiaram.
Jantar à meia luz sempre foi muito prazeroso para ela, mas ouvir Moonlight serenade nas cordas de um violino era o orgasmo.
Foi nesse clima que ele tirou uma caixinha do bolso, abriu e ofereceu uma aliança.
– Quer casar comigo?
O brilho dos olhos respondeu por ela.
– Faremos uma equipe invencível. Somaremos forças. Seremos imbatíveis. Juntos conquistaremos o mundo. Ultrapassaremos todos os obstáculos da vida. Eu te amo, te adoro, te venero. Você é tudo para mim.
– Meu amor, que lindo. Estou tão feliz. Você pensou em alguma data?
– A partir de agora, todo dia pode ser o dia.
– É por isso que eu te amo! Você é firme. Vamos fazer uma grande festa para todos nossos amigos, num lugar bem bonito. Vamos procurar uma igreja amanhã?
– Amanhã é a semifinal! Tenho chances de ser o artilheiro do campeonato.
No dia seguinte Henrique marcou cinco gols e Vanessa ao conversar com cinco padres descobriu uma janela na agenda de um dos párocos. Conseguiu marcar o casamento a 13 meses, num sábado, numa igreja aconchegante de tamanho médio. Tempo o suficiente para todos os preparativos. À noite falaram de realizações e se amaram vitoriosos.
Acordaram tarde no domingo. Almoçaram filé à parmegiana acompanhado de projetos para a festa. Caminharam até a casa de Henrique. A cerveja embriagou o ronco dele enquanto embalou os sonhos dela. Mentalmente estendeu um tapete vermelho, decorou a igreja com velas e lírios brancos. Viu-se num vestido decotado sem alças com cintura apertada arredondando desejos, véu de três metros, grinalda de pedrinhas brilhantes e, em vez de buquê, uma rosa vermelha.
Ele trocou a cama pelo sofá na frente tevê. Ela foi para o micro digitar planejamento.
Escolher sapato. Comprar ou alugar vestido? Agendar maquiador. Definir local para recepção. Cardápio para o jantar? Quem será o DJ? Convites brancos ou creme?
– Bem? Me ajuda a fazer a lista dos convidados?
– Agora?
Ela era insegura. Precisava de alguém do seu lado para segurar a mão.
Mesmo assim escolheu as músicas para a igreja. Confirmou velas e lírios brancos. Decidiu um fraque para o noivo. Alugou um carro preto.
Conforme a data ia chegando, Vanessa ficava mais bonita e autoconfiante.
Discutiu o contrato do fotógrafo. Definiu a praia para a lua de mel, degustou e aprovou doces e salgados. Mandou Henrique providenciar vinhos e uísque.
Juntos fizeram o curso de noivos. Vanessa estava feliz. Crescera como mulher. Aprendera a decidir. Chegara o grande momento de dizer não para Henrique.
Com tamanho fixo como se fosse uma coluna de jornal, escrevi outro conto baseado em matéria publicada no Correio Braziliense. Publico no blog sempre às quartas-feiras antes das 18h. Com tamanho fixo como se fosse uma coluna de jornal. Qualquer hora dessas um grande jornal oferecerá um espaço, tenho certeza.
11 março 2011
Espirros de homem derrubam quatro árvores
“Veneno de rato no bolo dos noivos”ou
“Mulher deu à luz um peixe” ou
“Fugiu da prisão usando camisola” ou
“Matou a sogra com uma caneta”.
No corpo da matéria sempre havia uma explicação minorando o impacto do chamativo. Infelizmente a matéria que originou este título é verdadeira. Pois o vizinho doente e antiecológico também justificou a derrubada das árvores vizinhas ao apartamento. Levou um laudo médico à prefeitura provando ser alérgico àquela espécie de árvore, conseguindo que a própria prefeitura enviasse homens com uma motosserra para derrubar as árvores evitando novos espirros.
09 março 2011
O carnaval de fantasias no salão
Todos sábados eram iguais aos outros, mas aquele sábado era diferente dos outros sábados: era sábado de Carnaval.
Faltavam poucos minutos para as quatro horas e no salão da empresa já circulavam muitos funcionários. Apesar dos alto-falantes tocarem animação com as antigas marchinhas carnavalescas o pessoal estava mais propenso a permanecer sentado e conversar. Ninguém sacudia o corpo em alegria.
A arrumadeira de motel, impecável em seu traje com avental de rendinha preta, tomava cafezinho com o pipoqueiro de cinema que vestia uma jardineira listrada de branco e azul. Na blusa da mocinha estava bordado sex appeal enquanto na jardineira foi bordada uma espiga de milho sob a palavra pop corn em letras vermelhas.
O frentista ajeitava o boné verde-amarelo no reflexo da porta de vidro.
Perto da grande janela a conversa ia fúnebre. Era possível identificar as profissões pelas roupas. Conversavam sobre as diferenças na linguagem em cada profissão. O coveiro diz que enterra o finado. O médico, de jaleco, informa que o doente foi a óbito. O juiz, de toga, anota que o de cujus deixou fabulosa herança. O policial, com um cassetete e um par de algemas na cintura, diz que a arma era do presunto. O padre, muito chocado dentro da batina, faz o sinal da cruz enquanto falam dos entes queridos.
– Cadê a animação, pessoal? – Perguntou o cobrador de ônibus, ajeitando o quepe bege. – Isso tá muito funesto. É dia de festa! Bora trocar de assunto! – Encarou a babá e começou a assobiar provocativo... – Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval...
O grupo não deu a menor bola para o cobrador. Continuou a relacionar diferenças no palavreado das profissões. Apenas trocaram mortos por viventes. O juiz diz que a sociedade se compõe de cidadãos. O médico enxerga em cada pessoa um paciente. O padre reza com os fiéis. O policial vê um meliante em cada cidadão.
Afora o cobrador ninguém se animava. Impacientes, olhavam para os ponteiros do grande relógio de parede.
A música parou. Uma voz metálica solicitou que todos entrassem no ônibus e se acomodassem. Que o culpado pelo atraso já estava chegando.
Ainda tiveram que esperar cinco longos minutos.
Quando o mestre-cuca tirou o chapéu e entrou no ônibus, o pessoal explodiu em vaias. Finalmente poderiam sair. O ônibus já estava com o motor ligado. Antes do motorista fechar a porta e engatar a primeira marcha ouvi o gerente gritar da calçada com o mestre-cuca.
– Quem você pensa que é para nos fazer de palhaços? Nunca mais atrase. Você se prejudica. Prejudica a empresa e todo os seus colegas. Nossa empresa é séria. Temos 15 anos de tradição como a melhor empresa locadora de mão de obra de plantonistas de reposição.
O conto foi inspirado na matéria publicada no Correio Braziliense de 06/03/2011 – Carnaval. – “Enquanto muitos brasilienses caem no samba ou aproveitam o recesso para descansar, há aqueles que precisam trabalhar para manter o funcionamento de serviços essenciais como saúde, transporte e limpeza urbana.”
02 março 2011
Ganhe um Oscar e viva mais quatro anos
Os atores e as atrizes que levaram para casa a maior honraria do cinema hollywoodiano ganharão também alguns anos a mais de vida. Pelo menos é o que dizem pesquisadores da Universidade de Toronto, no Canadá. Depois de analisar dados relacionados à saúde e á mortalidade dos artistas que venceram o prêmio nas categorias ligadas à atuação – melhores ator, atriz e melhores ator e atriz coadjuvantes –, o resultado foi claro: os vitoriosos vivem em média quatro anos a mais do que aqueles que foram apenas indicados para o prêmio. CB – Ciência, 26/02/2011
Quatro amigos passaram a madrugada esparramados no sofá acompanhando a cerimônia de entrega do Oscar. Cinéfilos que eram, discutiam preferências em todas as categorias. Sabiam o nome de todos os filmes e respectivos atores, atrizes, diretores, roteiristas, trilhas sonoras. Se bobeasse, debatiam sobre a cor da cueca do cinegrafista do concorrente a Melhor Efeitos Visuais.
Competiam para mostrar conhecimento:
– Qual foi o único empate feminino? – Em 1969, Catherine Hepburn e Barbra Streisand dividiram o prêmio de melhor atriz.
– Quantos prêmios ganhou o Ponte sobre o rio Kwai? – Seis: Melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor fotografia, melhor edição, melhor roteiro adaptado e melhor trilha sonora.
– Quantos têm direito a voto na escolha do Oscar? – Precisamente 4.755.
– Nome completo, endereço e CPF de cada um deles?
A boa ironia sobre o próprio grupo causa risada e é brindada com mais um gole de uísque.
No dia seguinte um dos debatedores, José Henrique, acordou tarde. Além da ressaca lembrou de ter estudado um monte de curiosidades à respeito dos filmes, atores e trizes. Que apesar de ter falado bastante, esqueceu-se de dizer que, conforme a pesquisa, os agraciados com o Oscar viviam em média quatro anos a mais do que aqueles que foram apenas indicados. Deu risada e perguntou-se: e daí? Para que serve isso?
Foi para o chuveiro com o uísque e a pergunta martelando na cabeça.
Bom empresário que era, encontrou uma resposta lucrativa.
Em menos de três meses abriu uma loja para vender estatuetas douradas. Idênticas aos originais com exatos 33 cm e 3,85 kg, banhadas em ouro, se erguendo esguias e musculosas sobre um rolo de filme. O preço da confecção era igual ao original: 200 dólares. O preço da venda era de 1.000 dólares.
O resultado da pesquisa sobre o Oscar aparecia emoldurado, atrás do balcão, às vistas de todos os clientes.
Você oferece um Oscar para a pessoa que você mais gosta e, automaticamente, o presenteado vive mais quatro anos. O nome da loja brilhava em neon: Fonte da Juventude.
O sucesso foi tão grande que rapidamente surgiram os concorrentes com milhares de Oscares de plástico barato.
Por fim, a Academia de Hollywood desenvolveu e concedeu-lhe o prêmio de Melhor Idéia para um Filme. Consequência da publicação, em todos os jornais do mundo, que o Sindicato das Funerárias o estava boicotando a ponto do presidente do Sindicato ser flagrado tentando provocar um incêndio no seu comércio.
Mais um conto resultante de notícia publicada no Correio Braziliense da semana. Sempre às quartas-feiras, até as 18 horas com tamanho fixo, como se fosse uma coluna de jornal.
27 fevereiro 2011
Adeus mestre Scliar
Foi com muito pesar que recebi a notícia da morte do grande Moacyr Scliar. As “Histórias que os jornais não contam” foram o exemplo que mirei para escrever meus contos semanais no blog.
Em 27/02/2010 recebi um e-mail do mestre comentando meu livro “Quase pisei!”:
Em 27/02/2010 recebi um e-mail do mestre comentando meu livro “Quase pisei!”:
Meu caro Roberto, só umas linhas para te dizer que estou terminando teu livro e que gostei muito de tuas crônicas, vivas, bem humoradas, bem escritas. Recebe os parabens e o abraço do
Moacyr Scliar
Tem escritores que escrevem para burro. Scliar escrevia para Jabuti.
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