27 abril 2011
Meu convite para o casamento de William e Kate
Nada de extravagância, centenas de famosos ou muitos membros da alta sociedade britânica. O príncipe e a futura princesa Kate Middleton apostaram em uma celebração íntima, mesmo que ela tenha pompas de evento de estado. A Clarence House divulgou a lista com as presenças confirmadas para participar da celebração. O documento lista os nomes de reis, rainhas, diplomatas e membros do governo, mas também revela, sobretudo, a identidade de amigos e pessoas ligadas ao casal. CB – Mundo, 24/04/2011.
Abri a caixa de correspondências e lá estava o envelope com o convite. – Yes! Eu recebi! – Um cartão branco, duro, um pouco menor que uma folha de papel A4, com bordas chanfradas em ouro e letras douradas. Logo abaixo da insígnia da avó de William, a Rainha Elizabeth, estava o meu nome: Mr. Roberto Klotz.
Ah, como esperei por este momento. Eu tinha certeza que Kate não me decepcionaria. É bem verdade que cheguei a duvidar.
Durante os últimos dois meses verifiquei a caixa de correspondência umas quinhentas vezes. Nesta semana eu me cansei de virar a chave e espiar no escaninho: instalei uma poltrona ao lado. – O Santa Ansiedade! – Tudo porque os convites para o casamento do Príncipe William foram distribuídos em fevereiro, estávamos às vésperas do casamento, abril, e o meu não chegava.
Enviei cartas, bilhetes, torpedos, telefonemas, telegramas e tuitadas cobrando o meu convite. O chefe de cerimonial finalmente retornou uma mensagem de desculpas com a informação de que os convites impressos foram insuficientes e que a pressão de autoridades, celebridades e pessoas do mundo inteiro era enorme, mas que o Palácio mandara confeccionar especialmente apenas mais três convites. O meu estaria entre eles.
Voltei a olhar para o convite. Confirmei o meu nome mais uma vez, posso dizer que estou feliz e realizado. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não foi convidado. O Exterminador do Futuro, Arnold Schwarzenegger, não foi convidado. Lady Gaga, que dispensa apresentações, não foi convidada. O bruxo Harry Potter não foi convidado. Eu fui. – Isso não é o máximo?
Leio, um pouco abaixo, que a vestimenta sugerida é o uniforme militar, um fraque ou ainda um terno de negócios.
Isso me assusta um pouco. Jamais usei um traje militar, não tenho fraque e o meu terno é um paletó com uma mancha de gordura na manga esquerda. Talvez eu tenha que cortar as mangas.
No convite ainda há um cartãozinho informando o meu lugar na Abadia de Westminster. Será ao lado da Victoria Beckham. – Nada mau.
Reviro o envelope, procuro e não encontro a passagem de avião nem os vouchers para o hotel, conforme combinado. – Assim não dá. Acho que não querem que eu vá!
Eu já tinha escrito a dedicatória, um livro diferente, de minha autoria, para cada um dos noivos. Embrulhei em papel prateado com uma fita vermelha. Em vez de entregar pessoalmente, colocarei num envelope pardo e postarei no correio. O casal saberá como é doloroso esperar ansiosamente na frente da caixa de correspondência.
Mais um texto, o 38.o sem interrupções, inspirado em matéria publicada no Correio Braziliense da semana. Sempre às 4.as com o mesmo tamanho, o de uma coluna de jornal.
20 abril 2011
O santo das causas impossíveis
Santo Expedito é conhecido por atender às causas urgentes e impossíveis. Conta-se que, quando ele se converteu ao cristianismo, um espírito mau em forma de corvo tentou dissuadi-lo da escolha, mas Expedito não pensou duas vezes e rapidamente matou o pássaro. A agilidade dessa decisão faz os fiéis crerem na ligeireza da solução dos problemas. – CB, Cidades, 20/04/2011.
Ontem, dia de Santo Expedito, fui à igreja. Eu e meio mundo. A igreja estava lotada de pedintes. Todos pedindo solução rápida ou impossível para os problemas.
O santo é das antigas, da época em que não havia computador para organizar a própria agenda e hoje se vê atolado de causas urgentes alheias. Tive pena dele. Pena e um pedido. Queria que ele me ajudasse a escrever o meu texto semanal inspirado em notícia publicada no jornal durante a semana. Era urgente porque o meu prazo terminava às 18 horas e o editor costuma degolar autores que atrasam a matéria por mais que 30 segundos. Fiz questão que o santo soubesse da ameaça que paira sobre a minha cabeça. Apesar da imagem conhecida, Expedito foi decapitado pelos militares romanos a mando do Imperador Diocleciano.
É bem verdade que eu deveria estar atrás do teclado digitando meu texto em vez de imaginar milagres nos bancos da igreja. Mas eu estava lá e me caberia rezar, fazer o meu pedido e aguardar rapidez no atendimento do pedido.
Enquanto aguardava na fila observei que ele usava trajes de legionário romano com uma túnica acima dos joelhos e manta púrpura. Com o pé ele pisava um corvo batizado Ontem. Ele era muito rápido com os fiéis. Santo Expedito não podia anotar nada, em uma das mãos segurava uma palma e na outra um crucifixo batizado Hoje. Registrava mentalmente os pedidos e despachava os necessitados mais rápido que os médicos na consulta do INSS.
Pedi para uma senhora guardar o lugar para mim na fila para dar uma espiada como era o atendimento.
Fui até bem pertinho do santo.
Uma senhora juntou as mãos frente ao peito em forma de oração e implorou um emprego para o filho. O santo captou o desespero da mulher e imediatamente estendeu o caderno de classificados. Acenou com a cabeça chamando o próximo.
Aproximou-se um rapaz bem vestido, jeitão de filhinho de papai. ─ Meu Santo, fazei com que eu seja aprovado no concurso do Senado Federal. ─ Meu querido, basta que tu comeces a estudar. Próximo.
Um senhor de cabelos brancos e olheiras profundas se arrastou silenciosamente até o santo, mostrou a identidade para provar que não era tão velho quanto parecia. Queria viver mais tempo.
─ Qual é o seu problema?
─ Câncer. Ajude-me, por favor.
Na mesma hora o santo devolveu o documento com uma pequena alteração.
─ Agora o senhor é de capricórnio. Próximo.
Minha vez estava chegando. Voltei para o meu lugar na fila até ser atendido.
Expliquei o meu drama de prazos de entrega.
─ Começa a escrever mais cedo e terás tempo para pesquisar e descobrir que o patrono dos jornalistas e escritores é São Francisco de Sales. Próximo.
A matéria foi publicada na quarta. E na mesma quarta, graças a Santo Expedito, postei no meu blog.
13 abril 2011
Viajei com Gagarin
Aos 27 anos, Yuri Gagarin, um jovem russo de origem humilde é lembrado pela rara coragem. Ele foi um dos 19 pilotos que se candidataram ao vôo, em um tempo em que testes humanos num ambiente sem gravidade sequer haviam sido feitos. “Foi um vôo absolutamente heróico. Era uma missão muito difícil, e as pessoas pensavam que só um louco poderia ir para o espaço”, relata à agência Reuters o jornalista científico Vladimir Gubarev, que conheceu Gagarin na juventude. CB – Ciência, 12/04/2011.
12 de abril de 2011 – Há exatos 50 anos Yuri Gagarin foi o primeiro homem a ir para o espaço. Um feito extraordinário. Tão importante quanto Colombo chegar de caravela na América. A ficção se transformava em realidade. O homem comprovou ser capaz de voar mais alto e mais distante que os pássaros. Gagarin voou nos sonhos de todos os homens. Lá do espaço declarou que a Terra era azul. Visitar a Lua passou a ser tangível.
Deixei o jornal de lado uns minutinhos e também viajei no espaço, do tempo.
Eu era menino, não se falava noutra coisa. Gagarin era o herói dos homens. Garrincha e Pelé já driblavam e marcavam gols, mas todos os meus amigos queriam ser cosmonautas. Ninguém viu o lançamento na tevê. Não foi transmitido. Nem a cores nem em preto e branco. Aliás, poucos tinham televisão. O imaginário era muito melhor que qualquer imagem. Descrevíamos detalhadamente a trajetória do herói. Primeiro vestindo a roupa prateada, depois os canudinhos de oxigênio e por cima o capacete. Subia uma escadinha, entrava numa cabine cheia de botões, alavancas e luzes piscantes. Fechava a porta com um barulho surdo e metálico numa combinação de prisão e sarcófago. Já sentado se amarrava a um banco solitário.
Era hora de imitar o coração batendo disparado – tum,tum tum, tum. Aí, todos os amigos gritavam em coro a contagem regressiva: 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 – buuuuum. Gagarin disparava na vertical, rumo ao céu até se perder de vista.
Não se falava em outra coisa. Estava lançada a gagarinmania. Até hoje me lembro de uma charge da revista Cruzeiro onde um peixinho dourado nadava dentro do capacete de aquário.
Tempos idos. Eu morava em São Paulo, em casa não tínhamos telefone, apesar de estarmos na fila de aquisição há sete anos. Também não possuíamos tevê. Meus pais questionavam a novidade. Mas nós, crianças, íamos brincar nas outras casas da rua e nos transformamos em televizinhos e dizíamos que as recém inventadas máquinas de assar frango eram televisão de pobre.
De repente, surgiu o Caravelle, o primeiro avião a jato. Revolucionário com as turbinas coladas na traseira em vez das hélices nas asas. O barulho era enorme, sempre saímos correndo da sala para apontar o avião no céu. Todos, em vez de fazer rápido, passamos a fazer a jato.
Uma flâmula pendurada, em cima da cabeceira da minha cama, lembrava a inauguração de Brasília, um ano antes. As novidades e o heroísmo estavam presentes no dia-a-dia.
Gagarin voltou para a Terra. Mas os tempos de infância não voltam mais.
Novamente me deliciei com uma notícia extraída do jornal e com ela, como todas as quartas-feiras, criei uma história.
11 abril 2011
Cordilheira – Daniel Galera - crítica
Li o livro em três dias, bem a tempo de escrever meus comentários visando a primeira reunião do Grupo de Leitura.
Não entendi a intenção o design da capa.
Ao contrário dos best-sellers americanos, o livro não tem uma estrutura com um roteiro pré-definido. Certamente foi conduzido a partir de uma idéia pré-elaborada, mas levado pela protagonista.
Desconheço outros escritos do autor para comparar, entretanto a linguagem utilizada é convincente ao ser colocada na voz de uma protagonista feminina. A protagonista se envolve em reflexões e revolve sentimentos como uma eterna discussão de relacionamentos, coisa tipicamente feminina.
A ambientação em Buenos Aires foi atendida. O autor descreve cores, cheiros, luzes, paladares e sons convencendo-nos do cenário da história.
Os personagens são convincentes quanto à caracterização e personalidade. Consigo me imaginar conversando com cada um deles numa mesa de bar como se os conhecesse de longa data.
Houve momentos em que me irritei ao ler descrições ou pensamentos super-hiper-mega detalhados. Eu procurava relativizar: trata-se de uma mulher. Mulheres são assim, (ó santo machismo!) e para tentar compreendê-las é necessário ouvi-las.
O título do livro certamente foi inspirado em “Le gustaba mucho mirar la cordillera”. ─ “Me veio à mente Duisa, a esposa daquele pioneiro da Terra do Fogo, trazida para viver nessa região na primeira metade do século anterior, fitando as montanhas numa estância isolada de tudo e de todos, em silêncio permanente, sob a observação secreta e carinhosa do marido que décadas depois lembraria dela exatamente por essa tendência à demorada contemplação da cordilheira. A imagem dessa mulher na minha cabeça sempre trazia uma profunda melancolia, a ponto de me dar um nó na garganta. Eu queria ser como ela”
Muitos já escreveram e desenvolveram romances a partir da questão do envolvimento da realidade do autor com a ficção das suas histórias. A grandeza do livro é que o autor explora ao extremo o drama de todo escritor: onde começa a ficção e onde termina a realidade. De modo que um grupo de escritores subverte a lógica e passa a vivenciar os personagens das suas obras. A protagonista do livro, também escritora, sequer se identificava no próprio livro e passou a questionar-se ligando ficção à realidade após o envolvimento com o grupo. Fernando Pessoa abordou a questão com o famoso verso: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente. Que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente”.
Galera não se cansa de mostrar o que o motivou a escrever Cordilheira. Ainda no começo da história a protagonista fala sobre sua mãe que faleceu no parto. “Minha mãe, um ser fictício que eu não cansava de imaginar e desenvolver”. “Minha mãe foi o meu primeiro personagem.” Passada a metade do livro, Escreve: “Não há como escrever honestamente sobre qualquer coisa que não seja nós mesmos. Um escritor pode tentar maquiar esse fato com todas as suas forças, mas nunca escapará dele.”
Nas últimas páginas está a confirmação da intenção do autor que se utiliza da protagonista escritora para escrever: “Eu a inventei justamente para nunca precisar ser como ela, para exorcizar uma Anita que detestaria me tornar.”
Enfim, apesar do detalhismo nas descrições e aprofundamento das reflexões, gostei da história. O autor conseguiu me surpreender. Recomendo.
09 abril 2011
Pessoas dupla-face
Tenho observado que os meus amigos não são meus amigos. Gosto daqueles que se esforçam para serem meus amigos. Gosto das pessoas que se transformam em gentilezas e amabilidades tentando conquistar o meu sorriso. A máscara que colocam nos aproxima.
Entretanto muitos dos meus conhecidos, desnudados das aparências, se transformam em pessoas repugnantes.
No domingo estive num churrasco maravilhoso. O anfitrião me recebeu na porta. Era um cavalheiro personificado. Picanha ao ponto. Cerveja gelada. Garção para servir. Peguei uma costelinha e enquanto separava a carne do osso observava o dono da casa. A face de bondade personificada que exista era alimentada diariamente pela outra face, a de empresário corruptor. Eu só conhecia uma delas e esta, me agradava.
Meu carro estava na oficina, e na volta para casa, aceitei a carona de uma mulher de metro e meio. Magrinha e frágil. Super meiga. Educada na França. Gentilíssima. Ao contrário do que supus, o carro dela era uma enorme station wagon onde seguramente caberia um batalhão de soldados. Ela não havia consumido uma única gota de álcool, porém quando se sentou ao volante parece que sacou de uma máscara do porta-luvas e dirigiu com a agressividade de um fuzileiro naval no campo de batalha e no sinal vermelho, xingou como um sargento irritado. Francamente, me assustei com a mulher debaixo da outra mulher.
Ainda bem que não demoramos muito a chegar.
O síndico, todo solícito, estava na frente do edifício podando algumas plantas e demonstrando o zelo com o bem comum. Na guarita, o porteiro me entregou uma convocação para uma Assembléia. O primeiro item da pauta era sobre a reeleição do síndico. Um fingidor, um crápula mal educado, egocêntrico que aumentou as taxas do condomínio para reformar o próprio apê enquanto reformava o prédio. Duvido que tenha um vaso em casa.
Já no elevador, pensei: ah, meu amigo leitor, ponha a máscara, elogie esta crônica, chame-a de artigo se quiser, mas elogie. Entretanto se você for sincero e contundente nas críticas, tirarei a minha máscara de bondade e, desejarei que você queime no inferno.
06 abril 2011
Protesto de mulheres brasilienses
Ao começar a reunião com o secretariado, o governador observou mais uma aglomeração na frente do Palácio do Buriti. Apesar do pouco tempo sentado na cabeceira da mesa, já estava vacinado contra greves, protestos e manifestações.
De dentro para fora, o vidro e a vida são azuis. De fora para dentro o vidro e a vida são negros.
A mesa é pequena para acomodar tantos secretários e o governador. A reunião começa e segue a pauta. O governador não consegue se concentrar, nota que os jardins estão apinhados de gente. Bem mais, muito mais, que do que as manifestações cotidianas.
─ Alguém tem idéia de quantos são?
Um dos secretários que estava de costas para a janela respondeu prontamente:
─ Trinta e quatro.
─ Trinta e quatro mil? Acho que são mais.
─ Não, não. Somos apenas 34 secretários.
Incomodado com a resposta alienada, foi até a janela observar melhor o tumulto.
Uma larga avenida separa os manifestantes do palácio. Além do isolamento acústico, o barulho dos ônibus e carros impedem que se ouça, de dentro do gabinete, as palavras de ordem gritadas nos jardins. O megafone também não produz o efeito desejado.
Enquanto mais gente chega de todas as direções, mulheres carregam cartazes com o número 52,19%.
Observa que todas as protestantes são mulheres. Bem vestidas e mal vestidas. De cabelo oxigenado, branco, anelado ou bem cortado. Executivas, universitárias, donas de casa, garis, aposentadas, meninas. Mais mulheres do que caberiam no Maracanã lotado.
Ainda assustado com a quantidade, voltou a questionar:
─ Estou impressionado. Quantas serão?
O mesmo alienado, sem pestanejar, respondeu que são apenas quatro secretárias: Mulher, Comunicação, Educação e Transferência de Renda.
O governador contou até dez para conter a impaciência.
─ Alguém sabe o que significam 52,19%? ─ Olhou para o secretário que respondeu 34 anteriormente, evitando outra bobagem, afirmou. ─ Sei que não é o reajuste que vocês pleiteiam. Não é a inflação, nem o reajuste dos combustíveis. Não é a taxa de desemprego, tampouco a taxa de ocupação nos presídios. Não é a taxa de aprovação dos alunos nas escolas.
O estagiário de jornalismo entrou esbaforido na sala com uma folha de papel: “Agora são 112.267 mulheres, gritando igualdade, reunidas na frente do palácio do Buriti”.
─ Meu filho, você está maluco! Você as contou uma por uma? Nunca vai ser jornalista de verdade. Toda nota deve responder as perguntas básicas: onde? o que? quem? quando? onde? como? e por que?. Eu quero saber por que protestam!
─ Elas imploram por igualdade. Sentem-se desamparadas. Querem mais homens.
─ Não entendi. Há décadas brigam por espaço. Elas sempre reclamam que os homens são maioria em todos os lugares.
─ É que de acordo com o Censo 2010, são 1.337.726 mulheres, o que corresponde a 52,18% dos residentes no DF. De onde calculei que há 112.267 mais mulheres que homens.
Este conto é resultado de um devaneio inspirado na matéria publicada no Correio Braziliense, em 03/04/2011 – “A capital da mulherada”.
30 março 2011
Chantili pensa que é gente
O medicamento que desacelera o ritmo da vida também tem ajudado os animais a se sentirem mais felizes, reduzindo a carga diária do estresse doméstico. Depois da pílula para humanos, a versão veterinária do Prozac foi lançada nos Estados Unidos. O laboratório Eli Lilly não revela quando o produto chegará no mercado nacional. CB – Indústria farmacêutica, 27/03/2011.
Daphne, Chantili, Passarela, Daslu e Blasê eram amigas inseparáveis. Onde estava uma, estavam as cinco. Como um grupo de adolescentes, se copiavam mutuamente nas roupinhas, modos e falares. Em vez de púberes com hormônios à flor da pele, eram cadelas com estresse aflorando no pelo.
Começavam a manhã com aulas de musculação na academia. Não competiam entre si. Por mais que malhassem, o espelho não refletiria a silhueta sarada. Sempre dependiam dos caprichos de uma tosadora profissional. Escolhiam os modelitos de acordo com as imagens das revistas francesas. Se o pelo estivesse muito curto pareceriam mais magras, entretanto ficariam muito peladas e poderiam ser confundidas com cachorras vulgares. Só Passarela, por ser uma dálmata, dispensava as tesouradas. No momento estava muito orgulhosa, pois a padronagem de onça voltara ao topo dos red carpet.
Terminadas as comparações no espelho, pesavam-se, comiam uma ossinho de cereais e depois do banho seguiam para longas sessões de relaxamento e massagem.
Pouco antes do almoço o motorista as levava para casa a tempo de se recomporem com vestes mais adequadas.
Após a sesta, trocavam novamente de roupa. Para aulas de francês e de piano preferiam roupas discretas, camisetas com gola olímpica e tênis de franjinha. Nas terças e quintas-feiras quando jogavam biriba usavam blusinhas casuais.
Somente às quartas-feiras de tarde eram levadas para passear nas calçadas. Vestiam jeans customizadas, tênis de marca e blusa style. A diferença estava nos perfumes. Daphne e Chantili, duas poodles, eram fiéis ao Channel número 5. Daslu preferia o Obsession da Calvin Klein. Passarela pingava gotinhas de Givenchi atrás das orelhas. Blasê, uma yorkshire dourada, sentia-se mais fêmea jateando Gabriela Sabatini no pescoço. Percebiam ter alvará de soltura para liberar as vira-latas que habitavam dentro de cada uma elas. Mesmo assim não defecavam nos gramados e se queixavam do cheiro dos postes. Raramente permitiam que algum cachorro se aproximasse. Se latisse então, coisa animal, e mesmo que fosse um atlético doberman, seria evitado para toda a eternidade.
Num desses passeios a dona foi abordada por uma colega com dois collies.
─ Suas cachorrinhas são tão bonitinhas. Sempre observo com admiração. Elas não ficam muito estressadas com uma agenda tão cheia e tão distante da vida animal?
─ Normal. Elas pensam que são gente.
─ Os meus, quando permanecem muito tempo presos, ficam tristes. Aí, costumo dar uns comprimidos de Prozac.
─ No way! O máximo que faço é dar uma aspirina na TPM. Para deixá-las alegres vamos ao shopping comprar uma bolsa da nova coleção Louis Vuitton.
Outra história inspirada em matéria publicada no Correio Braziliense
23 março 2011
Controle rigoroso das calorias
Agora os cientistas estão tentando criar ferramentas de monitoramento dos costumes das pessoas. São softwares, sensores e equipamentos de GPS que acompanham todos os passos dos pacientes ou voluntários em pesquisas. Tudo para garantir que a ciência consiga um retrato fiel da vida dessas pessoas, sem precisar confiar na memória ou no rigor dos alvos dos estudos. CB – Tecnologia, 21/03/2011.
João Paulo amava muito a sua esposa, Ana Clara. Moravam em um confortável apartamento no Leblon, resultado de lucros reciclando garrafas de refrigerante em capacetes para operários da construção civil. Ana Clara, formada em economia, administrava a casa e levava os filhos para a escola e dezenas de aulas particulares.
Ele estava triste com a falta de entusiasmo da esposa que perdera o viço e ganhara gordura. Os 15 quilos pesavam no interesse sexual de Jotapê. Tanto pesavam que propôs inúmeros regimes alimentares, sugeriu aulas de natação, squash e dança de salão. Conseguiu convencê-la a se matricular em academia de ginástica.
Um dia voltando da fábrica encontrou Ana Clara metida em um vestido curto e justo. Achou-a repugnante. Percebeu a esposa como um açougue que expõe as carnes na vitrine. Por amor, por todo amor que sentia pela mulher, foi só um pouco indelicado:
─ Como é que alguém pode desejá-la com todo esse tamanho?
Em resposta, Ana Clara abaixou sensualmente a alça do ombro esquerdo, atirou um beijo, virou as costas e saiu rebolativa da sala.
Os gestos em vez de provocar, amoleceram desejos.
Após três meses de abstinência, Jotapê procurou um endocrinologista que trouxe para o Brasil um equipamento de monitoramento das alterações calóricas. O software registrava detalhadamente todas as refeições, indicando o cardápio completo e ainda um GPS para monitorar deslocamentos.
Em uma semana de acompanhamento poderia descobrir se a mulher, de fato, estava seguindo o regime e se exercitava corretamente na academia.
Gastou o equivalente a um mês de produção da fábrica para instalar o chip num brinco de ouro e brilhantes que ofereceu em festa no aniversário aos dez anos de casamento.
Passados dez dias, convidou-a para jantar num restaurante luxuoso para mostrar o resultado do investimento que fez para resgatar o carinho e o amor no casamento.
Abriu o envelope lacrado e retirou o relatório.
─ Olha amor: terça-feira, 15h40, você levando as crianças a pé para a aula de inglês. Às 16h15, tomando um suco de laranja no Bob’s, 130 calorias. Às 17h você foi de carro para a academia e perdeu 75 cal em 15 minutos de jump, 50 cal em 15 minutos de esteira e 100 cal nas séries de tríceps e flexão.
─ Meu amor, isso é invasivo.
─ É muito mais detalhado que eu imaginava. Vamos olhar o dia de ontem. O que você lanchou na casa da Maria Fernanda?
─ Não estou gostando disso!
Quinta-feira, 16h13 - Ué? De carro? Indo para a Barra da Tijuca? A casa dela não é em Ipanema? Acréscimo de 75 cal tomando vinho. 18h25 queimou 450 cal em 22 minutos de sexo.
Novamente um conto bem humorado resultante de matéria publicada durante a semana no Correio Braziliense. Sempre às quartas-feiras antes das 18h, com limite máximo de caracteres como uma coluna no jornal.
18 março 2011
O vrum que me levou ao passado
O sol ainda estava sob as cobertas, mas eu, madrugador que sou, já estava de pé na frente da geladeira pegando um pacote plástico com pão de forma. Ouvi, do quinto andar, o barulho da moto do entregador de jornal.
No mesmo instante, lembrando tempos antigos, salivei pão francês e leite fresco.
Eu explico: O padeiro no escuro da manhã pilotava uma lambreta verde com um baú de madeira. Parava na frente de quase todos os portões. Sabia de cabeça quantos filões, pãezinhos, doces e garrafas de leite deveria entregar em cada casa. Entrava, deixava as garrafas de tampa de alumínio ao lado dos saquinhos de papel e saia.
Os sons que eu ouvia da minha cama na infância ainda reverbam na memória.
Primeiro ouvíamos ao longe o liga e desliga da lambreta se aproximando até chegar sob a nossa janela. Depois de embrulhar os pães mornos ouvíamos a tampa fechando barulhos no baú. Em seguida os passos corridos no quintal até a caixa protegida do tempo. Dois segundos depois retornava com os mesmos passos corridos. Batia o portão de ferro e ligava a moto se afastando alguns metros até o próximo vizinho.
Agora, guardei o pão de forma de volta na geladeira e caminhei até a padaria em busca de um sonho.
16 março 2011
A noiva degustou o doce
A cada ano aumenta o número de casais que sobem ao altar no Distrito Federal. Mesmo em tempos de independência financeira e de uniões não oficiais, cresce o volume de noivos que fazem questão de oficializar o casório na igreja ou com grande festa. Em 2009, o Instituto de Geografia e Estatística (IBGE) registrou 16.312 novos casamentos celebrados na capital federal – uma média de 44 por dia. CB – Comportamento, 13/03/2011
Uma descarga de energia elétrica percorreu-lhe o corpo. Os cabelos da nuca se arrepiaram.
Jantar à meia luz sempre foi muito prazeroso para ela, mas ouvir Moonlight serenade nas cordas de um violino era o orgasmo.
Foi nesse clima que ele tirou uma caixinha do bolso, abriu e ofereceu uma aliança.
– Quer casar comigo?
O brilho dos olhos respondeu por ela.
– Faremos uma equipe invencível. Somaremos forças. Seremos imbatíveis. Juntos conquistaremos o mundo. Ultrapassaremos todos os obstáculos da vida. Eu te amo, te adoro, te venero. Você é tudo para mim.
– Meu amor, que lindo. Estou tão feliz. Você pensou em alguma data?
– A partir de agora, todo dia pode ser o dia.
– É por isso que eu te amo! Você é firme. Vamos fazer uma grande festa para todos nossos amigos, num lugar bem bonito. Vamos procurar uma igreja amanhã?
– Amanhã é a semifinal! Tenho chances de ser o artilheiro do campeonato.
No dia seguinte Henrique marcou cinco gols e Vanessa ao conversar com cinco padres descobriu uma janela na agenda de um dos párocos. Conseguiu marcar o casamento a 13 meses, num sábado, numa igreja aconchegante de tamanho médio. Tempo o suficiente para todos os preparativos. À noite falaram de realizações e se amaram vitoriosos.
Acordaram tarde no domingo. Almoçaram filé à parmegiana acompanhado de projetos para a festa. Caminharam até a casa de Henrique. A cerveja embriagou o ronco dele enquanto embalou os sonhos dela. Mentalmente estendeu um tapete vermelho, decorou a igreja com velas e lírios brancos. Viu-se num vestido decotado sem alças com cintura apertada arredondando desejos, véu de três metros, grinalda de pedrinhas brilhantes e, em vez de buquê, uma rosa vermelha.
Ele trocou a cama pelo sofá na frente tevê. Ela foi para o micro digitar planejamento.
Escolher sapato. Comprar ou alugar vestido? Agendar maquiador. Definir local para recepção. Cardápio para o jantar? Quem será o DJ? Convites brancos ou creme?
– Bem? Me ajuda a fazer a lista dos convidados?
– Agora?
Ela era insegura. Precisava de alguém do seu lado para segurar a mão.
Mesmo assim escolheu as músicas para a igreja. Confirmou velas e lírios brancos. Decidiu um fraque para o noivo. Alugou um carro preto.
Conforme a data ia chegando, Vanessa ficava mais bonita e autoconfiante.
Discutiu o contrato do fotógrafo. Definiu a praia para a lua de mel, degustou e aprovou doces e salgados. Mandou Henrique providenciar vinhos e uísque.
Juntos fizeram o curso de noivos. Vanessa estava feliz. Crescera como mulher. Aprendera a decidir. Chegara o grande momento de dizer não para Henrique.
Com tamanho fixo como se fosse uma coluna de jornal, escrevi outro conto baseado em matéria publicada no Correio Braziliense. Publico no blog sempre às quartas-feiras antes das 18h. Com tamanho fixo como se fosse uma coluna de jornal. Qualquer hora dessas um grande jornal oferecerá um espaço, tenho certeza.
11 março 2011
Espirros de homem derrubam quatro árvores
“Veneno de rato no bolo dos noivos”ou
“Mulher deu à luz um peixe” ou
“Fugiu da prisão usando camisola” ou
“Matou a sogra com uma caneta”.
No corpo da matéria sempre havia uma explicação minorando o impacto do chamativo. Infelizmente a matéria que originou este título é verdadeira. Pois o vizinho doente e antiecológico também justificou a derrubada das árvores vizinhas ao apartamento. Levou um laudo médico à prefeitura provando ser alérgico àquela espécie de árvore, conseguindo que a própria prefeitura enviasse homens com uma motosserra para derrubar as árvores evitando novos espirros.
09 março 2011
O carnaval de fantasias no salão
Todos sábados eram iguais aos outros, mas aquele sábado era diferente dos outros sábados: era sábado de Carnaval.
Faltavam poucos minutos para as quatro horas e no salão da empresa já circulavam muitos funcionários. Apesar dos alto-falantes tocarem animação com as antigas marchinhas carnavalescas o pessoal estava mais propenso a permanecer sentado e conversar. Ninguém sacudia o corpo em alegria.
A arrumadeira de motel, impecável em seu traje com avental de rendinha preta, tomava cafezinho com o pipoqueiro de cinema que vestia uma jardineira listrada de branco e azul. Na blusa da mocinha estava bordado sex appeal enquanto na jardineira foi bordada uma espiga de milho sob a palavra pop corn em letras vermelhas.
O frentista ajeitava o boné verde-amarelo no reflexo da porta de vidro.
Perto da grande janela a conversa ia fúnebre. Era possível identificar as profissões pelas roupas. Conversavam sobre as diferenças na linguagem em cada profissão. O coveiro diz que enterra o finado. O médico, de jaleco, informa que o doente foi a óbito. O juiz, de toga, anota que o de cujus deixou fabulosa herança. O policial, com um cassetete e um par de algemas na cintura, diz que a arma era do presunto. O padre, muito chocado dentro da batina, faz o sinal da cruz enquanto falam dos entes queridos.
– Cadê a animação, pessoal? – Perguntou o cobrador de ônibus, ajeitando o quepe bege. – Isso tá muito funesto. É dia de festa! Bora trocar de assunto! – Encarou a babá e começou a assobiar provocativo... – Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval...
O grupo não deu a menor bola para o cobrador. Continuou a relacionar diferenças no palavreado das profissões. Apenas trocaram mortos por viventes. O juiz diz que a sociedade se compõe de cidadãos. O médico enxerga em cada pessoa um paciente. O padre reza com os fiéis. O policial vê um meliante em cada cidadão.
Afora o cobrador ninguém se animava. Impacientes, olhavam para os ponteiros do grande relógio de parede.
A música parou. Uma voz metálica solicitou que todos entrassem no ônibus e se acomodassem. Que o culpado pelo atraso já estava chegando.
Ainda tiveram que esperar cinco longos minutos.
Quando o mestre-cuca tirou o chapéu e entrou no ônibus, o pessoal explodiu em vaias. Finalmente poderiam sair. O ônibus já estava com o motor ligado. Antes do motorista fechar a porta e engatar a primeira marcha ouvi o gerente gritar da calçada com o mestre-cuca.
– Quem você pensa que é para nos fazer de palhaços? Nunca mais atrase. Você se prejudica. Prejudica a empresa e todo os seus colegas. Nossa empresa é séria. Temos 15 anos de tradição como a melhor empresa locadora de mão de obra de plantonistas de reposição.
O conto foi inspirado na matéria publicada no Correio Braziliense de 06/03/2011 – Carnaval. – “Enquanto muitos brasilienses caem no samba ou aproveitam o recesso para descansar, há aqueles que precisam trabalhar para manter o funcionamento de serviços essenciais como saúde, transporte e limpeza urbana.”
02 março 2011
Ganhe um Oscar e viva mais quatro anos
Os atores e as atrizes que levaram para casa a maior honraria do cinema hollywoodiano ganharão também alguns anos a mais de vida. Pelo menos é o que dizem pesquisadores da Universidade de Toronto, no Canadá. Depois de analisar dados relacionados à saúde e á mortalidade dos artistas que venceram o prêmio nas categorias ligadas à atuação – melhores ator, atriz e melhores ator e atriz coadjuvantes –, o resultado foi claro: os vitoriosos vivem em média quatro anos a mais do que aqueles que foram apenas indicados para o prêmio. CB – Ciência, 26/02/2011
Quatro amigos passaram a madrugada esparramados no sofá acompanhando a cerimônia de entrega do Oscar. Cinéfilos que eram, discutiam preferências em todas as categorias. Sabiam o nome de todos os filmes e respectivos atores, atrizes, diretores, roteiristas, trilhas sonoras. Se bobeasse, debatiam sobre a cor da cueca do cinegrafista do concorrente a Melhor Efeitos Visuais.
Competiam para mostrar conhecimento:
– Qual foi o único empate feminino? – Em 1969, Catherine Hepburn e Barbra Streisand dividiram o prêmio de melhor atriz.
– Quantos prêmios ganhou o Ponte sobre o rio Kwai? – Seis: Melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor fotografia, melhor edição, melhor roteiro adaptado e melhor trilha sonora.
– Quantos têm direito a voto na escolha do Oscar? – Precisamente 4.755.
– Nome completo, endereço e CPF de cada um deles?
A boa ironia sobre o próprio grupo causa risada e é brindada com mais um gole de uísque.
No dia seguinte um dos debatedores, José Henrique, acordou tarde. Além da ressaca lembrou de ter estudado um monte de curiosidades à respeito dos filmes, atores e trizes. Que apesar de ter falado bastante, esqueceu-se de dizer que, conforme a pesquisa, os agraciados com o Oscar viviam em média quatro anos a mais do que aqueles que foram apenas indicados. Deu risada e perguntou-se: e daí? Para que serve isso?
Foi para o chuveiro com o uísque e a pergunta martelando na cabeça.
Bom empresário que era, encontrou uma resposta lucrativa.
Em menos de três meses abriu uma loja para vender estatuetas douradas. Idênticas aos originais com exatos 33 cm e 3,85 kg, banhadas em ouro, se erguendo esguias e musculosas sobre um rolo de filme. O preço da confecção era igual ao original: 200 dólares. O preço da venda era de 1.000 dólares.
O resultado da pesquisa sobre o Oscar aparecia emoldurado, atrás do balcão, às vistas de todos os clientes.
Você oferece um Oscar para a pessoa que você mais gosta e, automaticamente, o presenteado vive mais quatro anos. O nome da loja brilhava em neon: Fonte da Juventude.
O sucesso foi tão grande que rapidamente surgiram os concorrentes com milhares de Oscares de plástico barato.
Por fim, a Academia de Hollywood desenvolveu e concedeu-lhe o prêmio de Melhor Idéia para um Filme. Consequência da publicação, em todos os jornais do mundo, que o Sindicato das Funerárias o estava boicotando a ponto do presidente do Sindicato ser flagrado tentando provocar um incêndio no seu comércio.
Mais um conto resultante de notícia publicada no Correio Braziliense da semana. Sempre às quartas-feiras, até as 18 horas com tamanho fixo, como se fosse uma coluna de jornal.
27 fevereiro 2011
Adeus mestre Scliar
Foi com muito pesar que recebi a notícia da morte do grande Moacyr Scliar. As “Histórias que os jornais não contam” foram o exemplo que mirei para escrever meus contos semanais no blog.
Em 27/02/2010 recebi um e-mail do mestre comentando meu livro “Quase pisei!”:
Em 27/02/2010 recebi um e-mail do mestre comentando meu livro “Quase pisei!”:
Meu caro Roberto, só umas linhas para te dizer que estou terminando teu livro e que gostei muito de tuas crônicas, vivas, bem humoradas, bem escritas. Recebe os parabens e o abraço do
Moacyr Scliar
Tem escritores que escrevem para burro. Scliar escrevia para Jabuti.
23 fevereiro 2011
Quero uma estrela cadente
O outrora famoso céu noturno de Brasília é uma vítima do crescimento urbano das últimas duas décadas. Ele veio acompanhado da expanção da iluminação pública: 3,4 milhões de postes novos só entre 2000 e 2008. O problema é que essa iluminaçõa é ineficiente. Os postes jogam a luz em todas as direçõs, inclusive para cima. Isso privou as cidades da visão das estrelas.
Em Brasília, por exemplo, era possível observar a olho nu a Via Láctea e quase 2000 estrelas por ano no começo da década de 1990. Hoje o número caiu para 150. – Folha de São Paulo, Ciência, 20 de fevereiro de 2011.
Será que você encontra o Cruzeiro do Sul?
Eu era menino. Faz um bocado de tempo. Meio século já se passou. Costumava passar as férias no litoral, na casa de um tio. O acesso era difícil. No trecho final, nos últimos cinco quilômetros não havia estrada nem rua. O caminho era a areia branca da praia. Era uma aventura passar onde o mar lambia a areia, ali o piso era mais duro.
Precisávamos atravessar cinco riachos antes de chegar ao destino. Quando era época de chuva os riachos se enchiam de poder e se transformavam em rios engolidores de veículos, tornando a travessia mais arriscada. Era necessário passar com as rodas dentro do mar onde o rio se alargava e ficava mais raso. Muitas e muitas vezes ajudamos a desatolar aventureiros inexperientes.
Tudo era festa, mas precisávamos chegar de dia. Corríamos para guardar as roupas e levar a comida para a cozinha. A eletricidade poderia faltar e quase sempre faltava. Quando não havia energia precisávamos bombear manualmente a água para a caixa para sermos recompensados com um banho gelado no retorno do mar. Quem seria o primeiro, após as obrigações, a chegar na praia? Mergulhar? Furar onda? Pegar jacaré?
A farra no mar teminava com um assobio da mãe chamando para a broa de milho saída do forno. Todos corriam para escolher o pão mais queimadinho. E comê-lo, queimando a língua, na fila do chuveiro.
Lanchávamos muitas vezes à luz de um lampião de querosene para depois sentarmos em roda na frente da casa.
Do lado de fora era mais claro que dentro. As estrelas iluminavam o jardim e a conversa.
Alguém achou o Cruzeiro do Sul? Cadê as três Marias? Vênus? Só era identificada no começo da noite.
Foi um tempo muito bom, sabíamos que as Três Marias formavam parte da constelação de Orion. E que a estrela mais brilhante do céu era Antares, o coração da enorme constelação de Escorpião.
Havia uma luzinha bastante luminosa que atravessava o céu diariamente, em hora certa. Era um dos satélites artificiais de comunicação. Poderia ser o Telstar ou algum dos vários Intelsat.
A converesa variava e mudava. Até que, repntinamente uma estrela cadente chamasse a nossa atenção. Era hora de formular desejos.
Hoje, moro em cidade grande, impossível contar uma centena de estrelas no céu opaco. Acho que os adolescentes urbanos nem imaginam como é vibrante um céu estrelado.
Minha vontade é enxergar pelo menos mais uma estrela cadente para fazer um único pedido: rever o céu esplendoroso.
Esta crônica resultou de matéria brilhante da Folha de São Paulo. Imagine que a nossa praia, antigamente deserta, hoje está povoada de arranha céus.
21 fevereiro 2011
Vendo mulher
28 anos, 90 centímetros de busto, 60 de cintura e 90 de quadril. Coxas grossas. 1,65 de altura e 62 kg muito bem distribuídos. Cabelos negros, lisos como sabonete. Olhos cor piscina de hotel. Nariz arrebitado sobre lábios carnudos e sorriso malicioso. Meiga, carente e sensual. Provocativo decote. Arquiteta, artista plástica e cantora.É esta mulher que estou vendo da minha janela.
16 fevereiro 2011
Consulta aos arquivos moleculares
A revista semanal Science, publicação da American Association for the Advancement of Science (AAAS) diz que em uma única célula humana há cerca cem vezes mais informação codificada no DNA humano do que em todos os livros, CD’s, computadores, negativos de fotos e todo tipo de lugar onde se armazenam dados, digitais ou analógicos. Folha de São Paulo — Ciência, 11/02/2011
Acordou cansado e tonto. Pensou num out door de pousos e decolagens do salão de embarque grudado no cérebro com as informações passando a jato. A vista enxergava um enorme tubo tridimensional azul com caracteres binários passando à velocidade da luz.
Levantou-se segurando nas paredes. No banho tentava entender o que estava acontecendo.
À noite tivera uma discussão com o irmão. Precisavam abrir um cofre cujo segredo estava perdido. A caixa blindada continha um dossiê do avô, fundador da indústria onde eram sócios. Os documentos só poderiam ser lidos 50 anos após a morte do criador da empresa. Já se passaram quatro meses da data marcada com um círculo vermelho no calendário e a porta metálica continuava lacrada.
O fabricante do cofre já não existia. Consultaram dezenas de chaveiros e especialistas. Inclusive pagaram passagem a um mestre suíço. Nada adiantou.
Ainda se lembravam da tarde de domingo quando o nono reuniu os dois meninos na sede da fábrica para uma conversa curta e grave. Logo após, mostrou uma pasta negra, abriu a porta do cofre vazio, depositou a pasta, fechou a porta e girou o segredo. Anotou, às nossas vistas, a combinação do cofre na primeira página de uma bíblia. O pai dos meninos falecera em um acidente de carro. Seríam os únicos guardiões e, ameaçando com o indicador, exigiu sigilo absoluto.
Na adolescência começaram a trabalhar sob a orientação dura do criador da empresa. Geneticamente e por méritos, rapidamente galgaram posições.
Quando o velho faleceu estavam participando de uma feira de negócios no Japão. Assim que souberam, retornaram imediatamente ao Brasil. Chegaram tarde para a cerimônia. Só assistiram à missa.
Temiam que o avô os vigiasse do céu ou do inferno cobrando a promessa. Jamais tocaram no assunto entre si. Nem as esposas sabiam.
Um dia, conversando sobre a religiosidade do vovô, souberam que ele foi enterrado segurando uma bíblia e um terço.
Criaram uma questão para motivar a exumação do corpo. Vovô transformara-se em pó. Reconheceram a bíblia por um fragmento da capa. A anotação foi devorada pela terra.
A insistência do irmão em explodir o cofre o atormentava.
Para ele, a única solução viável era recuperar na memória longínqua os números do avô escritos com caneta de tinta preta.
Renovou as esperanças depois de ler numa revista científica que uma única célula humana guardava mais informações que toda a humanidade conseguira armazenar em bibliotecas, filmes, redes e computadores mundo afora.
Quando fechou a torneira do chuveiro, teve certeza, o seu organismo estava deszipando, descompactando, os chips do HD interno à busca da informação armazenada.

Acordou cansado e tonto. Pensou num out door de pousos e decolagens do salão de embarque grudado no cérebro com as informações passando a jato. A vista enxergava um enorme tubo tridimensional azul com caracteres binários passando à velocidade da luz.
Levantou-se segurando nas paredes. No banho tentava entender o que estava acontecendo.
À noite tivera uma discussão com o irmão. Precisavam abrir um cofre cujo segredo estava perdido. A caixa blindada continha um dossiê do avô, fundador da indústria onde eram sócios. Os documentos só poderiam ser lidos 50 anos após a morte do criador da empresa. Já se passaram quatro meses da data marcada com um círculo vermelho no calendário e a porta metálica continuava lacrada.
O fabricante do cofre já não existia. Consultaram dezenas de chaveiros e especialistas. Inclusive pagaram passagem a um mestre suíço. Nada adiantou.
Ainda se lembravam da tarde de domingo quando o nono reuniu os dois meninos na sede da fábrica para uma conversa curta e grave. Logo após, mostrou uma pasta negra, abriu a porta do cofre vazio, depositou a pasta, fechou a porta e girou o segredo. Anotou, às nossas vistas, a combinação do cofre na primeira página de uma bíblia. O pai dos meninos falecera em um acidente de carro. Seríam os únicos guardiões e, ameaçando com o indicador, exigiu sigilo absoluto.
Na adolescência começaram a trabalhar sob a orientação dura do criador da empresa. Geneticamente e por méritos, rapidamente galgaram posições.
Quando o velho faleceu estavam participando de uma feira de negócios no Japão. Assim que souberam, retornaram imediatamente ao Brasil. Chegaram tarde para a cerimônia. Só assistiram à missa.
Temiam que o avô os vigiasse do céu ou do inferno cobrando a promessa. Jamais tocaram no assunto entre si. Nem as esposas sabiam.
Um dia, conversando sobre a religiosidade do vovô, souberam que ele foi enterrado segurando uma bíblia e um terço.
Criaram uma questão para motivar a exumação do corpo. Vovô transformara-se em pó. Reconheceram a bíblia por um fragmento da capa. A anotação foi devorada pela terra.
A insistência do irmão em explodir o cofre o atormentava.
Para ele, a única solução viável era recuperar na memória longínqua os números do avô escritos com caneta de tinta preta.
Renovou as esperanças depois de ler numa revista científica que uma única célula humana guardava mais informações que toda a humanidade conseguira armazenar em bibliotecas, filmes, redes e computadores mundo afora.
Quando fechou a torneira do chuveiro, teve certeza, o seu organismo estava deszipando, descompactando, os chips do HD interno à busca da informação armazenada.
Desta vez, escrevi o conto baseado numa matéria da Folha de São Paulo. No blog sempre até
ás 18 horas das quartas-feiras com número pré-determinado de caracteres como se fosse uma coluna.
14 fevereiro 2011
Klotz em Lisboa
Dificilmente observo o contador do blog. Nunca liguei muito para isso, tanto que só coloquei um contador de visitas no fim de 2008. De lá para cá recebi mais de 30.000 visitas.Hoje minha curiosidade foi atiçada por outro e-mail que recebi de português cometando um texto do blog. Procurei o analisador estatístico do Google e me surpreendi com a quantidade de visitas nos últimos 30 dias: 1466 dos cinco continentes!
São 48,8 visitas/dia! — Nada mau!
É espantoso, considerando que não divulgo o blog.
Observei que a grande maioria é brasileira: 1285 e que se distrubui em todo teritório nacional. São Paulo é a campeã de acessos. Em seguida vem Brasília, origem do blog. Rio de Janeiro é a terceria. Tudo muito natural. A boa surpresa foi a descoberta que Lisboa se fez presente 46 vezes e o Porto 19 no último mês. As duas cidades lusitanas estão à frente de muitas cidades brasileiras.
Certamente há muito mais leitores que apenas o Joaquim e o Manuel.
Segue meu abraço ao Joaquim.
09 fevereiro 2011
A bicharada foi ao cinema

Cientistas do Instituto de Abraham, em Londres, descobriram que as ovelhas ficam mais calmas quando vêem rostos conhecidos depois de algum tempo sozinhas. Na pesquisa foram projetadas imagens de cabras, ovelhas, formas geométricas e outras figuras. Então mediu-se o nível de estresse dos bichos, com controle das batidas cardíacas e inquietação. CB – Você sabia..., 07/02/2011
Há algo de podre no reino da Inglaterra, diria Shakespeare ao saber que os cientistas britânicos, por não terem mais o que fazer, pesquisam as imagens preferidas pelas ovelhas. Começaram com triângulos, quadrados e estrelas, até produzir longas metragens com artistas consagrados.
Imagine a surpresa do bardo inglês. Caminhando por uma calçada de Stratford, passa em frente ao cinema e depara-se com um cartaz:
Hoje: Ovêlho e o mar – sessão às 14/ 16/ 18/ 20 e 22 horas. Um filme estrelado pela Ovelha Dolly, roteiro de Ernest Hemingway e adaptação especial para o rebanho ovino.
Lê o cartaz e relembra ter escrito as tragédias do Rei Lear, Otelo e Hamlet. Tudo humano, para humanos. Isso foi lá nos anos 1600. Os tempos mudaram. Agora o mundo é ecologicamente correto com direitos iguais para todos os seres viventes. E principalmente para todos os cientistas aplicarem as verbas onde bem quiserem, contanto que engordem as estatísticas governamentais de trabalhos acadêmicos.
Coçou a barba e pensou estar obsoleto. Escrever peças para teatro é bobagem. O negócio é escrever roteiros para o cinema visando milhares e milhares de espectadores passando na frente da bilheteria. O drama, em vez de ser na tela, fica por conta da dificuldade de cobrar os ingressos do fazendeiro, dono do rebanho.
Experiência e imaginação é que não falta ao dramaturgo. Se o negócio é cobrar ingresso por cabeça é melhor mudar o público alvo. Uma ovelha ocupa muito espaço num cinema. Ainda mais com poltronas reclináveis.
Pensou em oferecer filmes para cavalos. Mas estes já estão muito exigentes, acostumados pela nobreza. As vacas ocupariam mais espaço que as ovelhas. Os cachorros e gatos, já escolhem seus próprios filmes em casa.
A grande sacada foi lembrar-se das galinhas. Consideradas pouco exigentes e de memória não muito privilegiada, veriam o mesmo filme cem vezes antes de descobrir que se trata de repetição. Tampouco perceberiam se o filme tem lógica ou não. As galinhas ocupam muito menos espaço, assim pode-se ter muito mais cabeças por sessão.
Por desconhecerem luxo e direitos, em vez de salas atapetadas projeta-se a película nas próprias granjas empoeiradas.
O escritor inglês, nas suas elucubrações, percebeu uma vantagem financeira adicional: as galinhas adoram milho. Portanto seriam consumidoras em potencial da pipoca.
Infelizmente, acabou descobrindo que as ovelhas inglesas têm um sindicato forte e exigem prioridade. Então, diante da imposição, resolve em vez de escrever novas peças, simplesmente adaptar trabalhos antigos. As ovelhas também poderão ver no cinema Mac Béééé e Roméééu e Julieta.
Novamente um texto baseado em notícia publicada no Correio Braziliense desta semana. Sempre às quartas-feira antes da 18 horas. - Ufa, hoje foi no sufoco. Quase apanhei do relógio.
01 fevereiro 2011
Moda de americanizar nomes
O resultado do vestibular é um momento que faz a felicidade dos que vêem seus nomes na lista, mas também leva muita gente a dar boas risadas. Nas listagens a criatividade de muitos pais fica evidente. Daí conhecemos Rennolly, Dasayanne, Heldemys, Sunshine Summer,Yacana, Mauriston, Wuppschandler,Deicksony e outros tantos, que além da dificuldade para conseguir escrever o próprio nome, podem até sofrer por term sido batizados de forma tão incomum. CB - Comportamento, 30/01/2011

Insuportável!
Já tinha sido assim no colégio, agora também na faculdade. Primeiro vieram os copos descartáveis. Depois garfos quebráveis, colherzinhas plásticas e facas sem corte. A coisa foi piorando. Gritos, xingamentos, desaforos. Aí vieram os pratos de papelão. Tudo era arremessado em mim quando eu entrava na sala de aula.
Foi piorando gradativamente a cada semana. Trocaram o permanente pelo descartável e o descartável pelo definitivo.
Passei a ser o lixo e os pratos de louça. Jogaram pratos de sobremesa, xícaras, travessas e açucareiros. Só entendi o que acontecia quando acertaram um bule na minha testa.
Era bullying!
Parece que a escola e a faculdade são os lugares onde atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos ocorrem com mais frequência. Toda turma se junta contra vítimas indefesas e isoladas. Pobres dos diferentes. Altos, judeus, gordinhos, orelhudos, narigudos, homosexuais. Em vez de zoação ou perseguição era bullying.
Apesar de se dizerem contra os americanos, na hora do batismo preferem palavras ou termos em inglês.
Este é o meu problema: Sou Edivaldo Uchoa Amaral. Quase todos os colegas carregam cás, dabelius e ipsilones nos nomes. Alguns repetem eles ou enes. Outros têm agás inusitados. Enquanto sou simplesmente brasileiro Edi. Menosprezado, desrespeitado, alvo de gozações.
Com medo de bolas de papel, eu me sentava acuado num canto da sala. Em seis meses de aula não participei de nenhuma roda de conversas.
Eu precisava sair do isolamento.
Para amenizar o constrangimento, comecei por procurar uma morena de dentes brilhantes que foi importunada nos primeiros dias de aula.
— Maria do Socorro, por que o pessoal te deixou em paz?
Explicou que o seu apelido sempre fora Mary Help.
Depois procurei pelo João Pedro e ele sacou a identidade e apontou orgulhoso: João Pedro de Olliveira com dois eles, ressaltou.
Minha outra abordagem foi a Rosecleide, amiga da Dannyelle.
— Oi Rose, seu nome Rosecleide Silva, não é mesmo?
— Sim e qual é o problema?
— Que sorte que não pegam no seu pé.
— Meu Silva é com ipsilone.
Só me restou ir à delegacia e prestar queixa.
Entregaram-me o formulário e na primeira linha escrevi meu nome.
O atencioso escrevente perguntou se meu apelido era Gringo.
— Por que seria? Tenho cabelos encaracolados, meus olhos são escuros.
— Justamente é o seu nome. Edivaldo Uchoa Amaral. Repare nas iniciais: Estados Unidos da América.
Gringo! Edu abriu um largo sorriso, rasgou a queixa e correu feliz para anunciar seu novo apelido.
Já tinha sido assim no colégio, agora também na faculdade. Primeiro vieram os copos descartáveis. Depois garfos quebráveis, colherzinhas plásticas e facas sem corte. A coisa foi piorando. Gritos, xingamentos, desaforos. Aí vieram os pratos de papelão. Tudo era arremessado em mim quando eu entrava na sala de aula.
Foi piorando gradativamente a cada semana. Trocaram o permanente pelo descartável e o descartável pelo definitivo.
Passei a ser o lixo e os pratos de louça. Jogaram pratos de sobremesa, xícaras, travessas e açucareiros. Só entendi o que acontecia quando acertaram um bule na minha testa.
Era bullying!
Parece que a escola e a faculdade são os lugares onde atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos ocorrem com mais frequência. Toda turma se junta contra vítimas indefesas e isoladas. Pobres dos diferentes. Altos, judeus, gordinhos, orelhudos, narigudos, homosexuais. Em vez de zoação ou perseguição era bullying.
Apesar de se dizerem contra os americanos, na hora do batismo preferem palavras ou termos em inglês.
Este é o meu problema: Sou Edivaldo Uchoa Amaral. Quase todos os colegas carregam cás, dabelius e ipsilones nos nomes. Alguns repetem eles ou enes. Outros têm agás inusitados. Enquanto sou simplesmente brasileiro Edi. Menosprezado, desrespeitado, alvo de gozações.
Com medo de bolas de papel, eu me sentava acuado num canto da sala. Em seis meses de aula não participei de nenhuma roda de conversas.
Eu precisava sair do isolamento.
Para amenizar o constrangimento, comecei por procurar uma morena de dentes brilhantes que foi importunada nos primeiros dias de aula.
— Maria do Socorro, por que o pessoal te deixou em paz?
Explicou que o seu apelido sempre fora Mary Help.
Depois procurei pelo João Pedro e ele sacou a identidade e apontou orgulhoso: João Pedro de Olliveira com dois eles, ressaltou.
Minha outra abordagem foi a Rosecleide, amiga da Dannyelle.
— Oi Rose, seu nome Rosecleide Silva, não é mesmo?
— Sim e qual é o problema?
— Que sorte que não pegam no seu pé.
— Meu Silva é com ipsilone.
Só me restou ir à delegacia e prestar queixa.
Entregaram-me o formulário e na primeira linha escrevi meu nome.
O atencioso escrevente perguntou se meu apelido era Gringo.
— Por que seria? Tenho cabelos encaracolados, meus olhos são escuros.
— Justamente é o seu nome. Edivaldo Uchoa Amaral. Repare nas iniciais: Estados Unidos da América.
Gringo! Edu abriu um largo sorriso, rasgou a queixa e correu feliz para anunciar seu novo apelido.
Outro conto originado por notícia publicada no Correio Braziliense durante a semana. Sempre até as 18h das quartas-feiras, limitado a 2978 ± 19 caracteres.
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