27 agosto 2011
Contrastes
Os primeiros raios de luz penetravam no restaurante através das tábuas soltas. Várias cadeiras estavam sobre as mesas. Em outras mesas havia cinzeiros cheios e copos vazios. Na frente do balcão, cacos de vidro de garrafa de aguardente refletiam cores de arco-íris numa poça de sangue.
18 agosto 2011
Não se engane
A água pinga,
a pinga não água
O monge habita,
hábito não empadrece
o padre coabita
e apodrece o hábito.
Pingo não é letra.
Frigideira, né panela, não.
Mariposa não é borboleta.
mamadeira não é teta.
Frase curta não é verso.
Parágrafo não é estrofe.
Esse é o dilema.
Prosa não é poema.
14 agosto 2011
Enterro sem elogios
Após culto pagão
O coveiro desceu o caixão.
Parentes lançaram pétalas.
Colegas sopraram pó.
O filho bastardo rolou uma lágrima.
Os peladeiros baixaram uma camisa do Flamengo.
Os parceiros jogaram cartas.
A turma do boteco acrescentou uma aguardente.
A amante pousou um poema.
A esposa despencou a aliança.
O padre contrariado atirou pesada bíblia.
O coveiro fechou a sepultura.
10 agosto 2011
03 agosto 2011
Mosaico
João morava nos degraus da matriz. Sua camisa de retalhos era tão transparente quanto as janelas da igreja.
27 julho 2011
Casa dos espíritos
Minha vida estava sem sentido. A empregada roubou meu cedê do Raul Seixas. O cachorro roeu minha máquina fotográfica. Fiquei preso no elevador durante cinco horas. Com o síndico. Embriagado! Minha namorada engordou 32 quilos e antes que eu acabasse o relacionamento me abandonou. Sumiu!
Tentei de tudo; alho, sal grosso, pé de pato mangalô três vezes, arruda e guiné para espantar o mau olhado.
A grande mudança ocorreu quando um amigo, sabendo da minha fase agourenta, presenteou-me com uma Casa dos Espíritos. Uma espécie de templo budista, utilizada pelos tailandeses, para ser colocado na entrada e que deve ser bem provida de incenssos, alimentos e objetos para trazer sorte e conforto.
Por morar em apartamento, a instalei no hall dos elevadores do meu andar. Procurando seguir as tradições e o manual de instruções, promovi uma festa de boas vindas. Recheei o telhadinho com uma foto da Juliana Paes, uma nota de dez Euros e um pedaço de frango à passarinho com muito alho. O DJ mandou ver um pagode legal. Foi uma festa para ninguém botar defeito.
No dia seguinte a filha da zelador brincou de casinha no hall. O dinheiro sumiu, a foto estava rasgada. Sobrou apenas uma barbie impregnada com o cheiro do alho.
Mesmo assim, depois de uma semana a minha namorada retornou. Estava linda. Voltou de um spa parecendo top model. Magra, cabelos de salão, roupa mostrando todas as curvas. O problema é que entrou na porta vizinha.
08 julho 2011
O cheiro da carne queimada
Ontem terminei de ler o livro do Zulmar Lopes. Letras miúdas em apenas 104 páginas. Demorei uns 15 dias. Não foi incompetência de leitura, nem má vontade. Foi puro tesão. Sabe aquela transa que, de tão boa, que você não quer ejacular e protela o gozo ao máximo para não findar os prazeres do momento?
Pois foi exatamente isso que aconteceu na leitura do livro. Lia alguns poucos contos e largava em algum ponto da casa. Depois lia mais um conto e abandonava noutro ponto da casa. Assim o livro peregrinou da cozinha ao banheiro do banheiro para o escritório. Dormiu no criado mudo e foi parar debaixo do sofá da sala. E, a cada conto gostado eu virava a orelha marcando o início do conto. Eu sempre faço isso com os livros de histórias curtas ou poemas para facilitar um eventual retorno ao livro. Quando terminei os 23 contos observei o livro com 15 orelhas além das duas que já vieram da gráfica. Um índice de aprovação fantástico. Imagine-se apreciando 18 músicas de um cedê de 23. Percebe o índice de acertos do Zulmar?
Eu já conhecia alguns contos do mestre Zulmar, inclusive deste livro porque frequentamos a comunidade orkutiana Bar do escritor e porque li algumas antologias onde estão algumas das obras premiadas em concursos literários. Tanto conhecia que estava muito curioso e enviei mensagem ao autor:
─ O conto com Dona Ernestina está no livro? ─ É que eu gostei tanto do conto que batizei Ernestina uma personagem de um dos meus contos prediletos.
─ Ernestina abre o livro. ─ Foi a resposta.
Mas e o livro? Porque é tão bom?
Se você acha o pôr de sol divino, o canto do sabiá maravilhoso e que rosas emanam desejos de amor então o livro que você procura é outro. Cheiro de carne queimada não é mimimi. É escrita politicamente incorreta. O autor narra histórias sórdidas colhidas no baú dos sete pecados.
Observe a construção deste personagem do conto A ferro e fogo
“A pergunta que Solange se fazia, Reginaldo Meia-Bunda tinha a resposta. Seu apelido politicamente incorreto resultara de uma poliomielite contraída na infância que atrofiara toda a musculatura da perna esquerda, deixando-o manco. Desprezado pelas mulheres e objeto de chacotas dos homens do bairro, Reginaldo Meia-Bunda pouco tinha de distração além do exercício da maledicência e o prazer pela intriga. Ouvidos apurados, captou notícias aqui e acolá a respeito de uma possível traição da mulher de Waldemar e, como percebera o sumiço do vascaíno Claudinei por aquelas bandas, juntou as peças do quebra-cabeça e, deleitoso por um escarcéu, decidiu encontrar o fugitivo. De fuxico em fuxico, Meia Bunda logo chegou ao paradeiro de Cladinei, morando numa cabeça de porco nas franjas do bairro de Santa Cruz.”
Isso é exemplo para livros que ensinam como montar uma personagem.
Eu gostaria de ter escrito um monte destes contos. Somente um grande autor consegue andar no fio da navalha do erótico, do policialesco, do grotesco sem cair na vulgaridade.
Parabéns, Zulmar. Seu livro é ótimo.
Recomendo a leitura com entusiasmo.
29 junho 2011
Torradinha exibida
Restaurante novo e aconchegante.
Sentei-me próximo da janela.
Toalha e guardanapo de linho.
Recebi gentileza e cardápio.
Enquanto tomava chope gelado e cremoso
virei páginas, salivei opções.
Qual será a especialidade da casa?
Senhor garçom, por favor,
─ Qual é o prato mais solicitado?
─ É o couvert, senhor.
─ Obrigado. Anote um filé com fritas.
20 junho 2011
Desmoralização
A van preta com a caveira do BOPE – Batalhão de Operações Policiais Especiais – estacionou na frente da favela da Rocinha. Desceram quatro policiais fortemente armados. Com cara de poucos amigos, olharam para os dois lados, antes de seguir em frente, quando um flanelinha perguntou se poderia vigiar.
16 junho 2011
Sarau do Caribe
Peço desculpas, hoje estou muito nervoso. Passei uns dias muito malucos e agora venho falar na frente de tanta gente sem ter preparado o meu texto. Eu não trouxe nenhum texto para ler desta vez.
Quando o Marco Antunes, organizador do sarau, me convidou para escrever um texto sobre o Panamá e Porto Rico fiquei muito orgulhoso. Seria a oportunidade de falar sobre a genial construção do famoso canal pelo engenheiro Ferdinand Lesseps o mesmo que construiu o canal de Suez. Eu poderia dizer que 13mil navios ou 4% do comércio marítimo mundial, passam anualmente por ali. E que o Pacífico é 24 centímetros mais alto que o Atlântico.
Sobre Porto Rico eu diria que é a quarta maior ilha do Caribe. Com área equivalente a dois distritos federais. E que a economia é muito dinâmica e diversificada onde se instalaram empresas multinacionais de farmacêutica, eletrônica, têxtil, petroquímica e até biotecnologia.
É o que eu diria, mas o Marco disse que não queria nenhuma aula de geografia ou economia. Ele queria uma história que se passasse na região.
Então, acabei telefonando para o meu amigo Paco Rodrigues, morador de San Juan, para me contar sobre a vida de Porto Rico e, quem sabe, a partir dali fazer uma crônica.
Muito melhor que palavras, ele me convidou para passar uns dias com ele.
Na mesma noite comprei passagem. Faria um vôo com escala em Miami na ida e na volta faria escala na cidade de Panamá. Tudo o que eu queria. Viajei no dia seguinte.
Fiquei em Miami apenas o tempo suficiente para trocar de avião e rumar para Porto Rico.
Encostei a cabeça na poltrona pensando em finalmente descansar da correria. Na revista de bordo li uma ampla reportagem sobre o Triângulo das Bermudas, onde barcos, navios e aviões desaparecem misteriosamente. Foi aí que o avião entrou numa zona de turbulência impressionante. Repentinamente todas as luzes se apagaram e caímos em queda livre no escuro.
O grito dos desesperados amainou e passei a ouvir o som de uma flauta. Fomos pousados suavemente no alto de uma pirâmide. A pirâmide do Sol. Fomos recebidos por um Deus, Quetzalcoatl, uma serpente ricamente emplumada. Disse que estávamos ali para ser sacrificados, oferenda necessária para o Sol nascer todos os dias.
Aleguei que eu não poderia ser sacrificado porque deveria falar do Caribe num sarau em Brasília, terra de muitas pirâmides. De nada adiantou. Aí eu apelei. Disse que eu era um sacerdote e que faria a lua desaparecer naquela noite se não fossemos todos libertados. O eclipse de ontem à noite aconteceu e acabamos homenageados em uma cerimônia com muito chocolate cultivado e produzido pela nação asteca e maia. Fui liberado bem a tempo de comparecer ao sarau e trazer este chocolate, oferecido pelo deus Quetzalcoatl ao organizador.
09 junho 2011
Precisamos falar sobre o Kevin
“Precisamos falar sobre o Kevin” de Lionel Shriver é um fantástico romance ficcional escrito em forma de sucessivas cartas como se fossem capítulos.
Uma mulher americana transcreve ao marido a própria transformação de executiva bem sucedida em mãe de um serial killer. As cartas são uma sucessão muito bem escritas e convincentes de angústias, sofrimentos, sentimento de culpa e inocência, acusações sofridas e punições impostas pela sociedade, lembranças boas e más. O tema, tantas vezes abordado em livros e cinema (Beautiful boy, Bang bang you’re dead, A torre da morte) agora é mostrado do ponto de vista da mãe que se coloca como inocente apesar da condenação implacável da sociedade e mostra como qualquer família pode a qualquer tempo, aparentemente, sem mais nem menos, gerar um filho assassino. Isto é, com verossimilhança e altas doses de ironia a situa e identifica o leitor como pai ou mãe do personagem assassino.
A autora, em linguagem intimista e atual, fala do tipo de crime onde um atirador dispara sobre inocentes em lugares públicos ou escolas parecia e que parecia restrito aos americanos, entretanto provocou vítimas em escolas na Europa e, mais recentemente, também no Brasil. Esperamos que este tipo de crime hediondo, agora universal, fique restrito, pelo menos, à nossa época.
A história é densa e tensa, envolvente e emocionante. Muitas ações e histórias paralelas constroem um romance para ser lido um só fôlego, sem interrupções. Não é à toa que recebeu elogios da crítica internacional e desponta entre os grandes best sellers americanos.
08 junho 2011
Alegria para os cronistas brasilienses
O Crônicas da Cidade vai acolher textos produzidos por cronistas do jornal e por cronistas-leitores. As crônicas devem ter como objeto de inspiração a capital do país, o modo de vida dos brasilienses, os invisíveis viveres cotidianos, as mudanças de humor do céu, os sufocamentos de agosto, os sabores, odores, tremores e dissabores da cidade que tantos amam e que tantos não conseguem entender e vivem de maldizê-la. – CB, Crônica da Cidade, 08/06/2011.
Antes mesmo do jornal ser entregue na minha porta, a serra elétrica da construção vizinha já atazana meu começo de dia. Como vou passar manteiga e tomar o meu o café com um barulho desses?
Todas as quartas-feiras começam assim. Apocalipses cíclicos, zumbidos infernais, tempestades zodiacais.
Há 40 quartas-feiras me proponho a escrever um texto bem-humorado motivado por uma matéria publicada no jornal durante a semana. Deve ter exato número de caracteres e ser publicado no meu blog antes das seis da tarde.
Esta manhã de quarta-feira começou rápida nos ponteiros do relógio. Nada recortei durante a semana. Ainda não escolhi o tema. Preciso encontrar um mote no jornal de hoje. Política? – Não, ninguém se interessa por políticos. Internacional? – Não. Penso que os leitores preferem temas locais. Economia? – Basta de inflação! Tecnologia? Saúde? Ciência? Esportes? – Já falaram tudo sobre o jogo de despedida do Ronaldo, não há nada para acrescentar. – Ai meu deus! – Li mais um caderno e ainda não fui balançado por uma notícia. Cidades? – Gosto do caderno, sinto-me em casa. Cassação da deputada? Caixa de Pandora? Social? Celular para controle de freqüência nas escolas? – Hum, muito interessante. Atropelamentos e greve de ônibus, são notícias ruins, difícil fazer graça. Crônica da cidade? Um blog para os cronistas. – Um blog para os cronistas? Uêba! Tudo o que eu sempre quis!
A serra elétrica parou. O apocalipse montou seu cavalo negro e saiu a galope. O céu se abriu para a motivação para escrever nesta e em várias outras quartas-feiras. Agora basta ajustar o teclado à frente e digitar com entusiasmo.
A cidade ferve de cronistas ansiosos por um lugar nobre para expor escritos e uma voz grita:
– Levante o dedo quem quer escrever no Correio.
Meus dois indicadores apontam para o céu. Lá no alto encontram outras dezenas de mãos frequentadoras de saraus, blogs e oficinas literárias. Todos os escritores são ávidos por leitores.
Só que o tempo do cronista corre mais rápido que o dos outros mortais: precisa entregar o texto antes de terminar o prazo.
Quero entregar logo meu trabalho para ser dos primeiros a ter um texto publicado no blog. Tenho pressa. Baixo meus dedos e os agito sobre o teclado.
Enquanto os dedos dançam no palco das letras, a mente conta e confere o número de letras, espaços e parágrafos previamente estabelecidos pelo editor. O sorriso de realização chega junto com ponto final. A serra elétrica só voltará na outra semana. Um bem-te-vi anuncia a chegada de outro texto.
27 maio 2011
18 maio 2011
A guerra das águas
A água mineral líder de mercado na França percorre um caminho de 10 anos entre rochas vulcânicas até ficar bem pura. Mas apareceu um forte concorrente: a água dos icebergs. Os mais jovens têm cerca de 10 mil anos. Os pedaços de gelo são derretidos e engarrafados. O produto da concorrência virou moda entre as famílias ricas da Califórnia e o preço faz jus ao público: chega a custar US$10 a garrafa. – CB, Você sabia, 16/05/2011.
A notícia chegou aos ouvidos de Antonio Carlos, um empresário brasileiro prestes a lançar um revolucionário filtro d’água no mercado mundial. O que fazer contra essa concorrência inesperada?
Nem precisou fazer nada.
A guerra foi iniciada pelos franceses que alegaram que a água dos icebergs provavelmente teria restos de urina de animais polares.
Os americanos, que financiam o projeto de exploração do pessoal da Groenlândia, sentiram-se ofendidos nos brios. Reuniram uma tropa de agentes comerciais e foram ao Pentágono pedir permissão para o revide.
Os generais americanos, auto-proclamados defensores da justiça mundial, em primeiro lugar afirmaram que quando se trata de ofensa à soberania americana não é necessária permissão para a retaliação. Em seguida questionaram se a língua estranha dos franceses era árabe. Com a resposta negativa, perguntaram se o território francês ficava no Oriente Médio. Os comerciantes abriram mapas para consulta antes de afirmar categoricamente que não encontraram a França próxima ao Irã, Iraque, Paquistão, Arábia Saudita, Kuwait ou Venezuela. Os generais se entreolharam. Ainda havia uma questão fundamental em aberto. E em caso positivo, apontariam os mísseis na direção da capital do país ainda naquela noite.
- Aquela torre enorme é para a exploração de petróleo?
Se não havia petróleo na questão então a ofensa era menor.
Antonio Carlos acompanhou tudo, bem de pertinho, graças a um agente triplo infiltrado na SIA e no DGSE (Direction Générale de la Sécurité Extérieure), o Serviço Secreto Francês. Sentiu firmeza. Os yankees não jogariam bombas nos galegos, e estes sequer arremessariam suflês nos yankees.
Em vez de combater com pistola d’água. O empresário brasileiro poderia lançar uma ofensiva sem medo. Precisaria encontrar uma forma de detonar com o marketing e a grife das garrafinhas internacionais.
Nem precisou pesquisar muito. O seu filho quando soube como eram as águas dos estrangeiros esboçou cara de nojo e emitiu um sonoro: – Eca! A partir dali as idéias caíram em cascata folheando os jornais da cidade. Encontrou uma campanha pronta para condenar a água filtrada no processo de 10 anos e também a água congelada há 10 mil anos. Colocaria água na fervura dos concorrentes internacionais.
Começaria dizendo que a água vem da Cidade Maravilhosa. Lugar de alegria e carnaval. A palavra Rio tem origem no verbo rir, na felicidade de viver e traz consigo o movimento e a ginga da corrente de água. Por outro lado, diria, nada sutilmente, que quem gosta de água parada é o mosquito da dengue.
Outra pérola que brotou de matéria publicada em jornal. – Correio Braziliense – Sempre às quartas-feiras antes das 18, com tamanho predeterminado um texto, como se fosse uma coluna de jornal.
11 maio 2011
A salvação dos sapos
A súbita extinção do sapo-dourado e do sapo-arlequim da reserva ambiental Monteverde, na Costa Rica, é um dos casos mais bem documentados dos declínios populacionais misteriosos que caracterizam a crise global dos anfíbios. O subsequente desaparecimento de 40% das espécies de anuros (grupo de anfíbios que não possuem cauda) das florestas tropicais porto-riquenhas é um dos casos mais extremos de perda de biodiversidade. – CB Ciência, 10/05/2011.
Conheci o porto-riquenho, Paco Gonzales, ainda adolescente. Ele participou de um programa de intercâmbio e morou seis meses na casa do meu vizinho. Paco era engraçado e conquistador nato. Com o sotaque portunhol dizia que seu pai tinha sido um sapo que, ao ser beijado, se tranformara em príncipe. E que ele era nascido príncipe, e que de acordo com a lenda do seu país, precisava ser beijado por uma princesa para virar rei. Magras, pobres, altas, com ou sem óculos, beijava todas. Transformou-se em rei do bairro.Já biólogo, retornou ao Brasil, na virada do século, para um congresso. Eu o hospedei durante dez dias. O suficiente para recordar histórias de sapos, rãs e pererecas.
Um dia tive a oportunidade de visitá-lo em San Juan. Fiquei muito bem impressionado com o mar transparente na vista aérea e o moderno aeroporto. No caminho para casa ele me relatou que estava muito preocupado com a morte misteriosa dos anfíbios do arquipélago. Os estudos levavam a crer na diminuição na população de salamandras, cobras-cegas, lagartos e na extinção de sapos, rãs e pererecas. O caso mais grave era com os anuros, anfíbios sem cauda.
Na manhã seguinte visitamos o centro da cidade, declarado Patrimônio Histórico pela Unesco. E à tarde fomos ao laboratório de Paco.
Conforme suas pesquisas e comprovação de imagens observou que os sapos nasciam e se desenvolviam felizes até começarem a frequentar a escola e a sociedade nas lagoas. Ali entravam em contato com outras espécies e assumiam feições tristes. Relatou-me que a transformação era impactante, imediata. De sorridentes passavam a chorões depressivos. E da depressão à morte tudo acontecia muito rápido.
Descobriu que os sapos se envergonhavam pela ausência de uma cauda. Comprovou a tese quando começou a cortar o rabo de lagartos e cobras: todos morriam de vergonha.
Mas Paco era estudioso e perseverante. Analisou centenas de bichinhos, até encontrar uma solução para os infelizes. Agora estava orgulhoso, se aproximava a hora de mostrar ao mundo o resultado do seu trabalho. Apontou-me uma enorme caixa com uma encomenda, antes de abrir, mostrou-me um artigo científico que escrevera especialmente para a revista do Instituto Bitantã. Ele seria o salvador de todas as espécies em extinção. Bastaria colocar as próteses nos bichinhos.
Entusiasmado mostrou rabinhos de cachorro, para demonstrar alegria, rabinhos de canguru, para saltar mais longe, rabinhos de vaca para espantar moscas, rabinhos de chipanzé para subir em árvores.
Em compensação, eu morri de rir.
Todas as quartas-feiras, até as 18h, publico no blog um texto oriundo de matéria publicada no Correio Braziliense. Como numa coluna de jornal, o texto é limitado de 2959 a 2997 caracteres.
*imagem do sapo-arlequim, em extinção
10 maio 2011
Estive em Lisboa e lembrei de você
Luiz Ruffato é um nome consagrado da atual literatura brasileira. Em 14 de agosto de 2007, no auditório do CCBB – Centro Cultural do Banco do Brasil – tive o prazer de ouvi-lo numa palestra. Até hoje só havia lido e gostado de dois dos seus contos. Assumi o compromisso de um dia ler Ruffato. Infelizmente não coloquei prazo. Logo, demorei muito para cumprir com a minha dívida pessoal.
Agora, participando do Grupo de Leitura promovido pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da UnB, surgiu a oportunidade de conhecer Estive em Lisboa e lembrei de você.
O livro foi originado no projeto Amores Expressos, promovido pela Companhia de Letras e bancado por incentivos da Lei Rouanet. Vários autores foram convidados a escrever uma história de amor tendo como cenário uma cidade do Planeta onde seriam hospedados por 30 dias.
Ruffato deveria escrever um romance tendo Lisboa como fundo. E, de fato Serginho, o protagonista propõe casamento a uma prostituta brasileira, Sheila, na capital lusitana. Porém a impressão que eu tive é que o narrador jamais saiu de Cataguases, no interior de Minas, com sua prosa fluente, como se estivesse encadeando causos numa roda de vizinhos na calçada em frente de casa, sob um poste de luz amarela.
O cardápio de falares do interior mineiro ganha novos temperos quando o protagonista atravessa o Atlântico para vivenciar situações de um imigrante sobrevivendo no mundo.
Julgo (quem sou eu para julgar um ícone?) ser um romance de 85 páginas, pouco elaborado para a notória capacidade do autor. Parece que Ruffato procurou se livrar rapidamente do compromisso assumido com a editora.
04 maio 2011
Falta gente e sobra humor em Borá
Borá, no interior de São Paulo, mantém o título de menor município do país em população. Na última década, a cidade recebeu 10 pessoas a mais na lista de habitantes, totalizando os atuais 805. – CB, Censo 2010, 30/04/2011.
Hoje é quarta-feira, dia de publicar minha coluna semanal com base em notícia publicada na semana. Eu já havia separado algumas matérias sobre o casamento real britânico e sobre o fim de Osama Bin Laden. Mas o editor entrou na minha sala, com desprezo e cenho fechado, disse que isso era para os jornalistas graúdos. Que eu deveria escrever sobre o Censo 2010. Fiquei felicíssimo. Assunto brasileiro da maior importância.
– Você fará a matéria sobre Borá.
– O Censo descobriu alguma nova tribo indígena?
– Não. É o menos populoso município brasileiro.
– Maravilha. Onde estão as passagens? Viajo quando?
– Deixe de viajar! Você tem duas horas para colocar o texto sobre a minha mesa. – E bateu a porta atrás de mim.
No mesmo instante me conectei na Internet para pesquisar. Descobri que há pelo menos um cidadão bem-humorado na cidade. “Borá é uma cidade localizada a três passos de onde Judas perdeu as botas, o All Star e a virgindade.”
Descobri também que é uma cidade pacífica. Quando os dois times de futebol, o Borá FC e o Borá EC se defrontam, os torcedores gritam o mesmo nome.
O grande evento anual é a escolha da miss e do mister Borá com direito a entrevistas e transmissão ao vivo pela rádio da cidade.
As imagens mostram todas as ruas asfaltadas e uma praça repleta de bancos de concreto com nomes gravados. Dali se pode ver a igreja matriz, imaginar a música vinda do coreto desativado e espiar os casais de namorados na fonte luminosa.
O prédio da prefeitura é identificado em letras garrafais: Paço Municipal. Uma construção assobradada recente, em forma de bolo de casamento, juntando a prefeitura e a câmara municipal. Na fachada superior há uma espaçosa varanda prevendo momentos solenes ou festivos. Dizem que a edificação é um pequeno paço para o homem, um salto para a humanidade.
É curioso saber que o expediente é das 9h às 11h e das 13h às 17h. E que um mesmo prefeito dirigiu a cidade por 14 anos em quatro mandatos diferentes.
As estatísticas apontam que 90% dos habitantes são alfabetizados e que 93% da população, acima dos 13 anos, acessa o Facebook. Curiosamente ninguém nasceu na cidade nos últimos 30 anos. Será que só lêem livros e trocam e-mails? Ou é brincadeira de um gozador cidadão boraense.
O mais surpreendente é que a cidade é extremamente politizada. Todos votam. Idosos, maiores de 17 anos, mulheres, adolescentes, crianças, bebês e até os que ainda irão nascer. Pois apesar da cidade ter apenas 805 habitantes, tinha, já em 2008, 924 eleitores.
Consegui terminar o texto no prazo. O editor sempre exigiu um conto ou crônica. Desta vez, para me testar, exigiu um artigo.
Do texto pode até não gostar, mas certamente terá interesse em desvendar o mistério que atrai moradores de outros lugares a votar na pequena Borá.
01 maio 2011
O único final feliz para uma história de amor é um acidente – JP Cuenca - crítica
O único final feliz para uma história de amor é um acidente de João Paulo Cuenca, Editora Companhia das Letras, é um romance com altas doses depressivas que demora a fisgar o leitor no anzol. Entretanto, uma vez fisgado, é impossível fugir.
O cenário é em Tóquio, onde um pai, voyer, espiona, invade e oprime abusivamente a vida do filho. Sempre, 24 por dia, câmaras e gravadores registram movimentos, conversas e intimidades. O pai estimula a vida sexual do filho para se aproveitar das imagens. O filho tem conhecimento, mas não consente com as atitudes paternas, como num estupro.
O pai, octogenário, oculta suas ações da sociedade atrás de uma fachada de poeta, líder de tradições literárias.
O autor imprime verossimilhança a fatos impossíveis como uma mulher robô construída especialmente para atender devaneios do velho poeta. O autor convence tão completamente que os delírios sofridos pelo protagonista transformam a opressão e mania de perseguição em imagens que confundem o leitor entre realidade e ficção.
A minha leitura foi muito rápida, merecia volta para reflexões e melhor entendimento das intenções do autor. Por sorte participo de um grupo de leitura* onde destrinchamos o pescador que nos fisgou.
* – Grupo de Leitura do Departamento de Teoria Literária da Universidade de Brasília.
27 abril 2011
Meu convite para o casamento de William e Kate
Nada de extravagância, centenas de famosos ou muitos membros da alta sociedade britânica. O príncipe e a futura princesa Kate Middleton apostaram em uma celebração íntima, mesmo que ela tenha pompas de evento de estado. A Clarence House divulgou a lista com as presenças confirmadas para participar da celebração. O documento lista os nomes de reis, rainhas, diplomatas e membros do governo, mas também revela, sobretudo, a identidade de amigos e pessoas ligadas ao casal. CB – Mundo, 24/04/2011.
Abri a caixa de correspondências e lá estava o envelope com o convite. – Yes! Eu recebi! – Um cartão branco, duro, um pouco menor que uma folha de papel A4, com bordas chanfradas em ouro e letras douradas. Logo abaixo da insígnia da avó de William, a Rainha Elizabeth, estava o meu nome: Mr. Roberto Klotz.
Ah, como esperei por este momento. Eu tinha certeza que Kate não me decepcionaria. É bem verdade que cheguei a duvidar.
Durante os últimos dois meses verifiquei a caixa de correspondência umas quinhentas vezes. Nesta semana eu me cansei de virar a chave e espiar no escaninho: instalei uma poltrona ao lado. – O Santa Ansiedade! – Tudo porque os convites para o casamento do Príncipe William foram distribuídos em fevereiro, estávamos às vésperas do casamento, abril, e o meu não chegava.
Enviei cartas, bilhetes, torpedos, telefonemas, telegramas e tuitadas cobrando o meu convite. O chefe de cerimonial finalmente retornou uma mensagem de desculpas com a informação de que os convites impressos foram insuficientes e que a pressão de autoridades, celebridades e pessoas do mundo inteiro era enorme, mas que o Palácio mandara confeccionar especialmente apenas mais três convites. O meu estaria entre eles.
Voltei a olhar para o convite. Confirmei o meu nome mais uma vez, posso dizer que estou feliz e realizado. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não foi convidado. O Exterminador do Futuro, Arnold Schwarzenegger, não foi convidado. Lady Gaga, que dispensa apresentações, não foi convidada. O bruxo Harry Potter não foi convidado. Eu fui. – Isso não é o máximo?
Leio, um pouco abaixo, que a vestimenta sugerida é o uniforme militar, um fraque ou ainda um terno de negócios.
Isso me assusta um pouco. Jamais usei um traje militar, não tenho fraque e o meu terno é um paletó com uma mancha de gordura na manga esquerda. Talvez eu tenha que cortar as mangas.
No convite ainda há um cartãozinho informando o meu lugar na Abadia de Westminster. Será ao lado da Victoria Beckham. – Nada mau.
Reviro o envelope, procuro e não encontro a passagem de avião nem os vouchers para o hotel, conforme combinado. – Assim não dá. Acho que não querem que eu vá!
Eu já tinha escrito a dedicatória, um livro diferente, de minha autoria, para cada um dos noivos. Embrulhei em papel prateado com uma fita vermelha. Em vez de entregar pessoalmente, colocarei num envelope pardo e postarei no correio. O casal saberá como é doloroso esperar ansiosamente na frente da caixa de correspondência.
Mais um texto, o 38.o sem interrupções, inspirado em matéria publicada no Correio Braziliense da semana. Sempre às 4.as com o mesmo tamanho, o de uma coluna de jornal.
20 abril 2011
O santo das causas impossíveis
Santo Expedito é conhecido por atender às causas urgentes e impossíveis. Conta-se que, quando ele se converteu ao cristianismo, um espírito mau em forma de corvo tentou dissuadi-lo da escolha, mas Expedito não pensou duas vezes e rapidamente matou o pássaro. A agilidade dessa decisão faz os fiéis crerem na ligeireza da solução dos problemas. – CB, Cidades, 20/04/2011.
Ontem, dia de Santo Expedito, fui à igreja. Eu e meio mundo. A igreja estava lotada de pedintes. Todos pedindo solução rápida ou impossível para os problemas.
O santo é das antigas, da época em que não havia computador para organizar a própria agenda e hoje se vê atolado de causas urgentes alheias. Tive pena dele. Pena e um pedido. Queria que ele me ajudasse a escrever o meu texto semanal inspirado em notícia publicada no jornal durante a semana. Era urgente porque o meu prazo terminava às 18 horas e o editor costuma degolar autores que atrasam a matéria por mais que 30 segundos. Fiz questão que o santo soubesse da ameaça que paira sobre a minha cabeça. Apesar da imagem conhecida, Expedito foi decapitado pelos militares romanos a mando do Imperador Diocleciano.
É bem verdade que eu deveria estar atrás do teclado digitando meu texto em vez de imaginar milagres nos bancos da igreja. Mas eu estava lá e me caberia rezar, fazer o meu pedido e aguardar rapidez no atendimento do pedido.
Enquanto aguardava na fila observei que ele usava trajes de legionário romano com uma túnica acima dos joelhos e manta púrpura. Com o pé ele pisava um corvo batizado Ontem. Ele era muito rápido com os fiéis. Santo Expedito não podia anotar nada, em uma das mãos segurava uma palma e na outra um crucifixo batizado Hoje. Registrava mentalmente os pedidos e despachava os necessitados mais rápido que os médicos na consulta do INSS.
Pedi para uma senhora guardar o lugar para mim na fila para dar uma espiada como era o atendimento.
Fui até bem pertinho do santo.
Uma senhora juntou as mãos frente ao peito em forma de oração e implorou um emprego para o filho. O santo captou o desespero da mulher e imediatamente estendeu o caderno de classificados. Acenou com a cabeça chamando o próximo.
Aproximou-se um rapaz bem vestido, jeitão de filhinho de papai. ─ Meu Santo, fazei com que eu seja aprovado no concurso do Senado Federal. ─ Meu querido, basta que tu comeces a estudar. Próximo.
Um senhor de cabelos brancos e olheiras profundas se arrastou silenciosamente até o santo, mostrou a identidade para provar que não era tão velho quanto parecia. Queria viver mais tempo.
─ Qual é o seu problema?
─ Câncer. Ajude-me, por favor.
Na mesma hora o santo devolveu o documento com uma pequena alteração.
─ Agora o senhor é de capricórnio. Próximo.
Minha vez estava chegando. Voltei para o meu lugar na fila até ser atendido.
Expliquei o meu drama de prazos de entrega.
─ Começa a escrever mais cedo e terás tempo para pesquisar e descobrir que o patrono dos jornalistas e escritores é São Francisco de Sales. Próximo.
A matéria foi publicada na quarta. E na mesma quarta, graças a Santo Expedito, postei no meu blog.
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