Quando prestei
concurso para carteiro imaginei que fosse distribuir cartas em bairro de rico.
Não neste bairro de ruas enlameadas, repleta de cachorros sujos e barracos sem
número.
Não há caixas
de correio. Odeio bater palmas e gritar para entregar os envelopes.
A próxima casa
vai ser mais fácil. A porta está entreaberta.
- Ó, de casa.
– Bato com os nós dos dedos na porta.
- Ó, de casa –
chamo três vezes e abro lentamente a porta.
Não vejo
ninguém e avanço uns passos.
Chama-me à
atenção a mesinha na frente do sofá. O tampo é mistura de balcão e cemitério.
Quatro pratos empilhados com restos de arroz e ossos de frango. Uma mamadeira
caída com leite derramado ressecado. Uma chapinha desgastada. Um joy stick. Um controle remoto. O cinzeiro transbordando guimbas está ao lado
de três latas vazias de cerveja bem defronte do lado direito do sofá que está
mais afundado e onde também há marcas de queimaduras de cigarro. Do lado
esquerdo do sofá há um travesseiro indicando que é cama de um dos moradores.

Acima do sofá,
na parede há um recorte de página central de revista com o time do Botafogo,
campeão estadual de 2006. No prego, logo acima, há um boné provocativo com o
escudo do Flamengo.
Dei mais um
passo para largar a correspondência sobre a mesinha quando reparei rastros de
pneu de bicicleta perto de um par de havaianas destroçadas e um cachorro morto.
Saí correndo.
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