21 fevereiro 2009

Operação Valquíria

Participei de um desafio onde devia, semanalmente, produzir um texto com tema definido. Coube-me escrever sobre as circunstâncias que levaram Claus Schenk von Stauffenberg, em Berlin no dia 19 de julho de 1944, a prever as conseqüências para a permanência de Hitler no poder e que o fizeram aceitar a missão que executaria no dia seguinte.

Nos cinemas de todo o mundo Tom Cruise interpreta Claus Schenk von Stauffenberg, oficial alemão que colocou uma bomba aos pés do Führer no maior atentado contra o ditador. Em 2007, escrevi como teria sido o dia do oficial alemão na véspera do famoso atentado.

(conto escolhido)




Valquíria



Era a noite do dia 19 de julho de 1944. Em Berlim, no seu alojamento solitário, o coronel alemão Claus Schenk von Stauffenberg repassava informações e o plano para colocar uma bomba no bunker de Adolph Hitler no dia seguinte.

Von Stauffenberg caminhava nervosamente de um canto ao outro do quarto e revivia a angústia da reunião de dissidentes do alto comando ocorrida há vinte dias. Naquela tarde ficara claro para todos os oficiais que a partir da invasão da Normandia, o Dia D, a guerra estava perdida. Seria apenas uma questão de tempo para que a Alemanha fosse arrasada e humilhada. Os aliados, entre si, acertaram, no tratado de Teerã, que só interessava a rendição incondicional da Alemanha nazista. Desta forma não havia nenhuma possibilidade de acordo de paz em separado. Mas, para evitar que a Alemanha fosse invadida e subjugada pelos bárbaros russos, seria necessário um pacto com os americanos e ingleses. A solução seria a eliminação do Führer e a neutralização da poderosa SS. O grupo resolveu se opor justamente ao lema da SS – Schutzstaffel[1] – “Minha honra é a lealdade”.

Von Staffenberg pegara sua caderneta e relera as palavras do General Ludwig Beck "A obediência de um soldado encontra seus limites onde seu conhecimento, sua consciência e sua responsabilidade proíbem-no de obedecer ordens" O coronel alemão sabia que estas palavras, se lidas por alguém da SS, significariam a própria morte. Deu um sorriso de leve e questionou qual seria a sua condenação após o atentado. Achou que não precisava se preocupar com anotações e concentrou pensamentos na ação.

A decisão está tomada. Amanhã, bem cedo, pego o avião e pouso por volta das dez horas em Rastenburg. O motorista estará me esperando para percorrer os seis quilômetros de poeira até a Toca do Lobo[2].

A reunião do alto comando está prevista para meio-dia. Às onze e meia faço um lanche rápido junto com meu ajudante de ordens, tenente von Häften, confirmo o horário da reunião, peço licença para trocar a camisa empoeirada com a ajuda de von Häften. Todos sabem que preciso de ajuda desde que perdi meu braço direito e ainda dois dedos da mão esquerda. Von Häften engatilhará as duas bombas quebrando a cápsula de ácido que dissolve o fio que retém a bomba. O petardo explodirá ente dez e vinte minutos depois. Terei apenas cinco minutos para posicionar a valise sob a mesa e sair. Não há como desarmá-las. Estarei na sala de reuniões e von Häften me chamará para atender um telefonema urgente. Sairemos juntos, passaremos pelo alojamento e pegaremos o carro para ir até a pista de Wilhelmsdorf, de onde voarei para Berlim para ir ao Ministério da Guerra participar do levante contra o governo. Estará realizada a operação Valquíria[3].

Já se passaram dois anos, quando eu estava com Rommel no norte da África ouvindo as últimas notícias vindas da Alemanha. Eu pouco conhecia o glorioso marechal-de-campo Erwin Rommel, a Raposa do Deserto,

“Hoje a polícia prendeu o judeu Davi Stern que convidou crianças a lamber chocolate numa chapa de ferro congelada. As crianças foram atraídas pelo doce e numa armadilha infernal ficaram grudadas pela língua molhada. Essas três inocentes crianças foram mutiladas gratuitamente por um ser desprezível que gargalhava de prazer ao ouvir os gritos do desespero infantil.”

– Schweinehund! – porco imundo – berrou Rommel desligando o rádio. – Maldito Heydrich! É insuportável esta maldita e mentirosa propaganda anti-semita. Este cachorro safado vive criando falsas histórias para colocar os alemães e o mundo contra os judeus.

Fiquei nervoso e balançei a cabeça negativamente, Rommel em vez de ficar chocado com a crueldade do judeu, xingara o número dois da SS. Rommel, um homem frio e calculista, externara sua opinião para mim, um quase desconhecido, e, percebendo meus olhos arregalados, resolveu argumentar para fundamentar sua opinião.

– Sabe Claus, eu acreditei e lutei pela nossa Alemanha durante todo este tempo até que descobri que Goebbels, nosso ilustre ministro da propaganda, que vive alardeando grandes vitórias e conquistas, é um grande mentiroso. Minhas vitórias no deserto, de acordo com a língua de Goebbels, foram estrondosas, foram épicas! Passei a ser um herói imbatível e um orgulho para a raça ariana, quando na verdade eu dispunha apenas de equipamento melhor, e, modéstia à parte, um pouco de esperteza. Goebbels exaltava os alemães enquanto a verdadeira função de Heydrich, no serviço secreto, era criar boatos para desestabilizar os inimigos e fazer o mundo acreditar que os judeus eram o demônio na face da terra.

– Mas está provado cientificamente, meu comandante, que somos uma raça superior...

– Haha! Os cientistas foram contratados pelo Führer. Você ainda se lembra da Noite dos Cristais?

– Como alguém pode se esquecer daquele inverno de 38?

– Aposto que você ficou chocado quando aquele moleque judeu assassinou com requintes de crueldade nosso diplomata, não é mesmo?

– Eu e toda a Alemanha.

– O judeu nunca existiu. Foi a SS que eliminou um idiota incompetente, botou a culpa no judeu, depois colocou um monte de militares à paisana para empurrar a população incentivada pelo rádio. O resultado foi uma centena de judeus mortos, dúzias de sinagogas queimadas e a depredação do comércio judeu em toda Alemanha. – Rommel exibiu um sorriso irônico e continuou – O vidro quebrado das vitrines serviu apenas para criar um nome poético: Noite dos Cristais. – Das war der Anfang, mein Freund. – este foi o começo, meu amigo.

– Eu estou pasmo, meu marechal. Mas como o senhor me explica aquele discurso do Goebbels no ano passado, lá no Palácio dos Esportes? Goebbels perguntou para o povo se queriam a guerra total e catorze mil vozes animadas disseram sim e depois repetiram que sim.

– Mentiras! O discurso foi uma encenação gravada para transmissão por rádio e para os cinemas. Depois da derrota em Stalingrado, a intenção era entusiasmar os ouvintes e principalmente recuperar o moral dos soldados nas frentes de batalha, por isso, Goebbels referiu-se ao apoio da platéia presente, com uma centena de vaquinhas amestradas infiltradas – ressaltou – como sendo uma amostra da sociedade em seu todo. Todos ficaram empolgados por conta de uma farsa, de uma mentira. Todos mentem, todos mentem. O discurso foi gravado durante a semana e no estádio só houve encenação, teatro. – Alle lügen – Todos mentem.

Naquele fim de tarde meus olhos foram arregaçados para alguma coisa que eu já enxergara e em que não ousara crer. Em pouco tempo descobri que havia outros oficiais descontentes com a condução do governo da nossa Alemanha.

Jamais passou pela minha cabeça o assassinato do Führer. Jamais passou pela minha cabeça que eu seria o assassino do Führer. No mundo ninguém tem noção do que está acontecendo, nem os alemães, nem os nossos inimigos. A solução deve vir por aqueles que sabem. Pelos meus filhos e pelo futuro da Alemanha, estamos certos. Farei o que deve ser feito.

Já são quase dez horas da noite, toda a Alemanha canta junto com Marlene Dietrich a bela canção “Lili Marlene” antes do encerramento das transmissões radiofônicas.

Von Stauffenberg abre sua caderneta e com um lápis anota:

Fizemos o exame de consciência diante de Deus e a ação deve se realizar, pois este homem é a encarnação do mal. Queremos uma nova ordem, que faça todos os alemães portadores do Estado e que lhes garanta Direito e Justiça. Se tiver sucesso, serei considerado traidor de minha pátria; se falhar, me considerarei traidor de minha própria consciência.

As luzes do quartel são apagadas.





[1] A Schutzstaffel – escudo de proteção – ou SS, foi uma organização paramilitar ligada ao partido nazista

[2] Toca do Lobo – Wolfschanze – o QG de Hitler em Rastenburg, na Prússia Oriental.

[3] A Valquíria, é o título da ópera de Richard Wagner - segunda parte da tetralogia “O Anel do Nibelungo”.





O desfecho do atentado

A reunião foi transferida na última hora do bunker para um barraco de madeira. O bunker por ser de concreto armado teria os efeitos da bomba multiplicados.

A reunião também foi antecipada em meia hora assim, o mutilado von Stauffenberg conseguiu ativar apenas um dos dois explosivos previstos.

A bomba colocada sob a mesa, a meio metro de Hitler, foi afastada por um general que ficou incomodado com a presença da maleta.

A explosão matou quatro e feriu outras onze pessoas, mas não foi o suficiente para matar o ditador.

Von Stauffenberg foi preso e executado no dia seguinte.

Hitler ordenou vingança implacável a Himmler, chefe da SS. Consequentemente foram mortos quase 5.000 pessoas.

O herói Rommel foi convidado a se suicidar. O atentado foi previsto por Nostradamus.


Tom Cruise interpreta o alemão nas telas do cinema em filme homônimo a este conto.

16 fevereiro 2009

Assassinato na Avenida Paulista



Exercício proposto pelo Prof. Marco Antunes na oficina literária da Câmara dos Deputados: Conte-nos como, onde e quem matou Adelaide Santoro numa história de suspense que não pode ter mais que dez linhas.

Era tarde, por volta das oito horas da noite. Antes de sair tranquei os arquivos e levei um café para a doutora Adelaide Santoro. Ela estava pálida, estranha. Perguntei se ela estava bem. Agitada, estalava os dedos e olhou duas vezes para o enorme relógio da parede. Jamais tive liberdades com a doutora, mesmo assim ainda perguntei se ela queria desabafar comigo. Respondeu-me que não, que eu poderia ir embora e que já havia chamado um táxi para levá-la para casa. Todos nós, do escritório, sabíamos que o doutor Santoro guardava um revólver na gaveta direita da escrivaninha. Tenho certeza que não havia mais ninguém nas salas. Todos já haviam saído. Juro que não fui eu quem matou a Doutora Adelaide Santoro.

12 fevereiro 2009

Bebedouros

Uma imagem vale mais que cem palavras?
Este foi o exercício proposto na oficina literária da Câmara dos Deputados
Descrever a imagem, não o seu conteúdo, em exatas cem palavras. Tempo 15 minutos.

Do lado esquerdo há um bebedouro metálico. Embutidos um filtro e uma serpentina para gelar a água. O usuário tem um botão para acionar o esguicho.
Do lado direito, outro bebedouro. Este em porcelana branca. Ambos são alimentados pela mesma água.
Um tem a tubulação escondida enquanto o outro tem a tubulação oxidada aparente.
No de louça há um homem de calça escura, camisa branca e chapéu. A imagem remete aos anos 50 nos Estados Unidos. Não pelos bebedouros, nem pelo chapéu do homem sedento. E sim, pelas placas sobre os bebedouros: na direita lê-se colored e na esquerda white.


* A fotografia é de Elliott Erwitt, tirada em 1950, na Carolina do Norte

05 fevereiro 2009

Trema em único ato


Jamais pensei que um texto, é de novembro de 2005,
pudesse caducar em tão pouco tempo.
Trata-se de um diálogo, jamais havido, com a mais afamada
defensora da língua portuguesa no Centro-Oeste, Dad Squarisi.


Klotz: – Escrevi a palavra liqüidificador e o corretor ortográfico corrigiu para liquidificador. Eu já li em algum lugar que o trema ainda não teve Lei Áurea.
Dad (assente com gesto suave).
Klotz (curioso): – Consultei o Aurélio eletrônico e ele oferece as duas possibilidades. Procurei trema no índice do Manual de Redação e não encontrei. Abri à página 74 de Mais Dicas da Dad e encontrei grifado em amarelo: “Não se iluda. O trema continua vivinho da silva”.
Dad (assente com a cabeça mais uma vez esboçando sorriso).
Klotz: Consulta ao Houaiss eletrônico e verifica que este concorda com o Aurélio.
Klotz (faz cara de interrogação): – Tenho certeza que Dad está certa. Por que Aurélio e Houaiss estão errados oferecendo duas opções?
Dad (recolhe o sorriso e franze a testa com reprovação delicada).
Klotz (intrigado): Volta à página 74 e continua leitura: “usa-se nos dígrafos gu e qu seguidos de e ou i.”
Klotz (em voz alta): – LI-QÜI-DI-FI-CA-DOR. Se eu pronuncio a letra u e esta é seguida de i, então LI-QÜI-DI-FI-CA-DOR tem trema.
Dad (a testa volta a ficar lisinha, sorriso só com os olhos).
Klotz (confuso): Retorna ao Aurélio e relê: liquidificador sem trema.
Dad (com olhar didático sugere voltar à página 74).
Klotz (lê em voz alta final da nota, e comenta): – “O u deve ser pronunciado”. Pois é, eu pronuncio!
Dad (sem dizer palavra sugere que eu repita o que eu acabei de dizer).
Klotz: – Pois é, EU pronuncio!
Klotz (silencia, reflete e externa): – E há outros que não pronunciam. Líquido, liquidificador.
Klotz (alegre com enorme sorriso): – É líquido e certo que você sabe das coisas. E sabe explicar. Mais uma vez, obrigado!
Dad (abre largo sorriso e diz): – Fique tranqüilo, são questões da lingüística. Você é que é gentil.

13 janeiro 2009

Extinção




Quem comeu, comeu. Quem não comeu, não come mais. Acabou! Terminou! Zé fini!

O prazo de validade já era. Não tem mais. Não existe mais. Sumiu do mapa. Pode procurar à vontade, nas padarias, restaurantes, churrascarias, supermercados. Desapareceu! Decretaram a extinção da lingüiça.

Nunca mais teremos linguiças temperadas com tremas.

01 janeiro 2009

Ceia de Natal


O ano sempre começa lento. Para chegar o carnaval é uma eternidade. O feriado da Páscoa também demora um pouco. Os dias passam, um por um, até chegar a independência, geralmente num fim de semana, desperdiçando nosso desejado feriado. Dali para a frente, a rapidez do ano vai ladeira abaixo, numa corrida desenfreada até chegar o Natal. Aí, é a loucura da falta de tempo.
Faltam poucos dias para a maior data do calendário cristão.
Enquanto casado, eu não tinha nenhuma preocupação nem responsabilidade. Na data marcada, sentava-me à mesa em companhia dos familiares e festejávamos.
Agora, descasado, fui questionado pela namorada sobre como seria nosso Natal.
– Como assim?
– Seus filhos? Não vai estar com seus filhos? Natal é uma data de confraternização e união familiar.
Fiz uma cara de vaquinha de presépio. Refleti. Ela está certa. E com cara de Papai Noel saindo da chaminé exclamei:
– Farei uma ceia de Natal em casa!
Na mesma hora anotei na agenda as providências:

• GUIRLANDA
• ÁRVORE-DE-NATAL
• CEIA
• BEBIDAS
• MENSAGEM

Em seguida verifiquei no calendário alguma data disponível. Sexta-feira ou sábado antes da data religiosa. Refleti, por alguns segundos, sobre a conveniência de enviar convites formalizando o evento ou se apenas telefonaria para meus filhos. Achei melhor telefonar para minha filha e convidar meu filho mais tarde, pessoalmente. Afinal, ele mora aqui em casa.
Para mim será evento muito importante e realizador. A festa tem de acontecer antes do Natal na casa da ex. Lá meus filhos poderão externar orgulhosamente que o pai deles é capaz de organizar uma confraternização tão bem ou melhor do que a mãe.

GUIRLANDA
Na mesma noite procurei os enfeites da casa. Lembrei-me que a guirlanda que adornava nossa porta ficou com a ex.
– Serei criativo!
Desci ao térreo do edifício com uma tesoura na mão para cortar algumas folhagens e com elas fazer uma coroa. Mal cortei o primeiro ramo e o síndico sugeriu gentilmente que aquele era um bem comum e que, além disso, a poda era proibida depois das 22 horas, principalmente por pessoas que não aprovaram as contas do prédio.
Achei que o síndico tinha cara de rena de Papai Noel, e retornei ao meu apartamento.
Resolvi procurar gravura de alguma guirlanda em revistas. Encontrei uma garota escultural na página central da Playboy. Ela era o próprio presente. Acabei optando por algo mais apropriado: uma gravura da Nossa Senhora dos Natais Familiares.
Recortei e, por não encontrar cartolina, colei direto sobre a porta. Por baixo da gravura grampeei o raminho de planta recém-colhido.

ÁRVORE-DE-NATAL
Quando da separação, na partilha dos bens, tivemos uma longa disputa em relação à árvore-de-natal. Pensamos em dividir a árvore em dois. Aí, a contenda passou para quem ficaria com a parte superior da árvore. O corte longitudinal já havia sido descartado, porque o tronco era muito delicado. Ela acabou ficando com a árvore, as bolas vermelhas e brancas. Fiquei com a estrela da ponta da árvore e com as bolas azuis, verdes e roxas.
Depois da rejeição do síndico, considerei descartada a hipótese de cortar algum galho de árvore para nomeá-lo pinheiro. De imediato, veio à lembrança a frase exaustivamente dita pela namorada:
– A cadeira do seu quarto parece uma árvore-de-natal!
Feliz com a solução encontrada, busquei a cadeira e a coloquei sobre a mesinha do canto. Tirei todas as roupas e a enfeitei com bolinhas azuis, verdes e roxas. No alto do espaldar prendi a estrela com uma fita crepe. Só faltam lâmpadas coloridas piscando a genial idéia.


CEIA
Agora no papel de dona-de-casa, cozinheira e chefe de cerimonial é fundamental escolher o cardápio de acordo com a solenidade. Petiscos, salada, prato principal, acompanhamento, sobremesa e bebidas.
A escolha óbvia para os petiscos são pipocas de microondas enfeitadas com fios de ovos e cerejas. O branco é básico, combina com tudo.
Para facilitar a digestão não há nada como uma boa salada! Uma lata de ervilhas, uma lata de milho, algumas fatias de presunto picadas e um vidro grande de maionese. É só ferver o miojo, esperar esfriar e misturar tudo. Para enfeitar, eu coloco uma azeitona da fatia de pizza que sobrou na geladeira.
Fiz as contas rapidamente e cheguei à conclusão que seremos seis adultos. Felizmente, nenhuma criança para ficar perguntando de cinco em cinco minutos se já pode abrir os presentes. Por isso mesmo, iremos abrir os presentes logo.
Eu lembro que minha mãe, minha avó e também a ex preparavam a ceia na véspera porque o forno era muito pequeno e não comportava o peru ou a leitoa. Não vou assar nenhum dos dois porque não gostaria de comparações do meu peru com outros convencionais. Meu assado será muito melhor, ao menos nos quesitos porta-bandeira, alegoria e samba-enredo. Farei algo bem natalino: lasanha de peito de peru. Não tenho como preparar simultaneamente as seis lasanhas no microondas. De véspera, assarei uma por uma e depois guardarei na geladeira até o grande momento.
Para coroar o banquete, a lasanha deve ter acompanhamento à altura. Farei minha especialidade: pizza. Pizza natalina. Será uma pizza de muçarela com nozes e cerejas. Servirei cortada em forma de estrela.
Nos grandes eventos sempre há doces e frutas para sobremesa. Serei inovador. Farei prato único, unindo doce e frutas. Cada um de nós poderá servir-se da sua fruta preferida. Uva, abacaxi, manga ou limão. Vou oferecer picolés nos diversos sabores.

BEBIDAS
Essa não é minha especialidade. Tenho muita dificuldade para combinar as bebidas com os respectivos pratos. Para acompanhar os petiscos e deixar os convidados bem à vontade para o bate-papo fluir, imagino uísque para os barbados e coquetel de frutas para o departamento feminino. Dizem que uísque com guaraná é cafona. Também acho. Talvez com outro refrigerante fique melhor. De qualquer forma, o uísque já está guardado há bastante tempo: doze anos.
– Será que o prazo de validade já venceu?
O ideal é experimentar.
– Sem gelo é muito ruim. Melhor é servir outra dose e verificar com gelo. Aprovado!
Bom, agora vamos ao coquetel de frutas. Ainda bem que já comprei os picolés. Ponho três no liqüidificador e três copos de vodka. Não preciso colocar açúcar nem gelo. No mesmo copo onde estava o uísque coloco três, melhor quatro, dedos do coquetel. Aprovado!
– O que fai com lasanha? Finho branco, tinto ou cerfeja?
– Efentos importantess tem fários copos e taçasss. Fou tomar só mais um.

MENSAGEM
Axo que é melhor ser brefe!
Faço cara de apresentador de jornal e leio a mensagem: Agradeço a Deus e a todos os Santos, por mais um ano de saúde e por permitir concluir o que me propus fazer. Sou grato pela presença e pelo carinho da família, desejo que todos tenham um Feliz Natal. Peço a Deus que abençoe esta família e perdoe minha terrível ceia.
Amém.

18 dezembro 2008

BOAS FESTAS

Amigos,

Tomara que Papai Noel atenda a todos os pedidos.

E que 2009 seja ainda melhor que 2008.

Com um abraço,

Klotz

15 dezembro 2008

Pipoca


Hoje é sexta-feira, começo do fim de semana. Dia de cinema. Dia de alto astral. Deveres cumpridos e descanso merecido.

Chego em casa com duas comédias trazidas da locadora.

Banho tomado, roupa confortável, pés descalços e telefonema da namorada dizendo-se companhia para o filme e para a pipoca.

Para minha surpresa, vejo que no armário onde deveriam estar os saquinhos de pipoca para microondas, eu encontro apenas um caixa de goiabada.

Não sou quadrado! Eu me viro!

Acho que ela não vai gostar de comer goiabada vendo filme. E se eu colocar no microondas? Acho que também não vai gostar.

Chinelo no , vou à padaria. tem milho para pipoca de panela.

Não tem para microondas?

Me enchi de idéias, comprei um pacote de milho e ainda dois pães franceses.

em casa, procurando por pipoca, nada encontrei, nem no índice do velho livro da Dona Benta.

Como é que não tem nada?

Naqueles tempos nem havia microondas!

Não sou quadrado. Eu me viro!

Cheio de autoconfiança e criatividade, pego o saquinho dos pães franceses e coloco duas xícaras cuidadosamente medidas do milho recém-comprado.

Feliz por me lembrar do óleo, coloco caprichada meia xícara por cima dos milhozinhos. Acho que xícara inteira é demais.

Eu tenho uma boa mão. É o que dizem meus amigos da roda de pôquer.

Resolvo deixar o sal para depois.

Orgulhoso das idéias, grampeio o saco de papel por três vezes.

Apressadamente coloco no microondas, afinal a banca da pia tem óleo demais para o meu gosto. Aproveito para secar o caminho de óleo entre a bancada e o forno.

Ansioso, nem espero a namorada chegar nem o filme começar. Aperto a tecla PIPOCA e providencio uma bebida. Vinho!

Vinho é bom para namorar...

O ruído do forno está diferente!

Espio pela janelinha e vejo que o saco estourou. Abro a porta imediatamente a tempo de levar uma pipoca na testa.

Toca o interfone. A namorada vai subir.

Ela chega e eu, cheio de brios, ofereço vinho e um pão com goiabada.

27 novembro 2008

E agora, Maria?

Pela primeira vez, em quatro meses, acordara disposto e bem humorado. A grama em Brasília verdejara. Além disso, voltara a trabalhar no meu ofício como corretor, agora em uma grande incorporadora. A vantagem é que ela promovia os lançamentos imobiliários nos jornais e na televisão. Faria mais de uma venda no conjunto de salas recém-lançadas e dirigidas ao segmento médico.

Lembro-me dos acontecimentos daquele dia como se tivessem acontecido agora, há poucos minutos, mesmo após mais de uma década desde aquela segunda-feira, 15 de agosto de 1994. Na época, a minha intuição profetizara que aquele dia seria incomum. Seria um dia fantástico.

Saí de casa exatamente às 9h30, meia hora antes do início de meu expediente e me dirigi ao Setor Hospitalar Sul. No céu azul, o sol mostrava os dentes num enorme sorriso.

Bem próximo ao meu destino, chamou minha atenção uma banca de flores expondo cravos brancos. Foi irresistível. Combinava com o meu humor e completaria a minha auto-estima. Virei à esquerda e estacionei exatamente em frente à banca. Escolhi duas dúzias de flores que foram embrulhadas em papel celofane e presas com uma fita vermelha. Voltei para o carro, depositei o maço florido no banco de passageiros e o observei demoradamente. No mundo machista, em que vivemos, percebi como seria ridículo enfeitar com tantas flores o ambiente de trabalho. No trailer de vendas mal cabiam eu e um cliente, quanto mais duas dúzias de cravos brancos. O supervisor passaria por lá mais tarde. Se ele as visse, e não teria como não ver, espalharia no mesmo dia a notícia para toda a equipe. E eu precisava tanto daquele emprego.

Automaticamente, liguei o carro. Pensava nas flores e na conseqüência da provável falação. Segui em frente ao invés de entrar à direita, rumo ao meu ponto de vendas. Quando me dei conta, cem metros adiante, estava dentro do cemitério. Tudo foi muito rápido ou as minhas reações é que estavam lentas.

Acreditem, fiquei feliz com a solução apontada pelo destino. Decidi me desfazer das flores em algum túmulo. Avancei mais um pouco e estacionei o meu carrinho junto ao meio fio. Peguei o ramalhete e comecei a andar à procura de um jazigo que me fosse simpático, que me agradasse.

Nesses meus quatro meses de Brasília, jamais havia pisado no cemitério. O local plano, muito amplo e com verde para todos os lados, me agradou. Andei por entre várias sepulturas e logo encontrei uma, diferenciada. Uma singela cruz de mármore deitada ao lado da placa de bronze. O espaço era regado pela sombra de um ipê de flores amarelas.

Depositei o ramalhete e li o nome da morta:


Maria Helena dos Santos Abreu

* 13 04 1951

15 08 1993


Meus joelhos dobraram. Caí. Caí em choro compulsivo. Fazia um ano, exatamente um ano, que Helena, minha paixão, falecera.

Eu havia mudado de cidade em busca de Maria Helena. Eu sabia que ela estava morando em Brasília. Era só o que eu sabia. Vim para procurar por Helena. Minha doce Heleninha. Encontrei-a depois de quatro meses. Agarrei-me às flores, agora eu entendia porque escolhera cravos brancos. Eram suas prediletas.

Helena significou alegria na minha vida. Sempre inventava fórmulas para fazer e dizer as coisas de uma forma única, singular. Impossível classificá-la apenas com uma palavra. Helena era paixão, sexo, entusiasmo, imaginação, ousadia e criatividade.

Conhecemos-nos em Belo Horizonte, na ante-sala do dentista, e, antes mesmo da consulta, trocamos o primeiro beijo. O segundo beijo foi muito engraçado, pois nós dois estávamos com as bocas anestesiadas.

Heleninha era um ser especial, pessoa com muita energia. Acordava disposta, irradiava animação o dia inteiro e se deitava com disposição para brincar de montanha-russa.

Uma vez fomos convidados a passar o fim de semana na chácara de um amigo. Depois de duas horas de cerveja, ela me puxou pela mão dizendo-se com vontade de comer mangas colhidas no pé. A mangueira nem estava muito longe. Procurei uma vara para cutucar as frutas e ela argumentou que não se deve bater nem em frutas, que deveríamos subir na árvore e colhê-las com suavidade. Parecia uma macaquinha. Em dois tempos estava no alto com uma fruta avermelhada na mão. Demorei a alcançar o mesmo galho. Chupamos mangas e trocamos beijos. Chupamos beijos e trocamos mangas.

De uma outra vez, numa quarta-feira, ela insistiu em ver o pôr-do-sol no ponto mais alto da cidade, o Conjunto JK. Lá, o enorme relógio brilha a hora certa de dia e de noite. Helena superava todas as barreiras e conseguimos chegar ao topo do edifício, na cobertura, com relativa facilidade. A surpreendente Heleninha tinha razão, a vista fascinante merecia um brinde e por isso trouxera uma garrafa que ainda conservava a temperatura gelada. A rolha do espumante explodiu prédio abaixo. Foi sensual beber champanhe sobre a pele. Foi erótico amar tendo beagá aos nossos pés.

Você não tem idéia o quanto amei essa mulher.

E nem pense que Heleninha só gostava das alturas. Num feriado, na distante Guarapari, depois de comermos moqueca de siri e bolinhos de mandioca, num dos quiosques da praia, fomos nos refrescar. A água transparente permitia que meus olhos vissem a tatuagem que só eu conhecia. Naquele dia o mar ferveu.

Em nossos momentos de reflexão e maturidade sabíamos que juntos não teríamos futuro nem segurança. Escrevemos um pacto, assinamos com letras de paixão e nos casamos. Ela com um rico engenheiro e eu com uma dondoca metida a besta. Nossos encontros diários passaram a ser semanais. Carentes, combinamos um jantar no mesmo restaurante. Ela com o marido e eu com a minha esposa. Naturalmente, em mesas diferentes. Foi muito excitante levantarmos ao mesmo tempo e entrarmos furtivamente no mesmo banheiro.

Foram muitos os encontros. Em outra oportunidade, pedi a um colega, corretor, que me desse as chaves de um apartamento finamente mobiliado para mostrá-lo para um cliente. Fantasiamos uma tarde inesquecível. Ela de enfermeira e eu de caubói.

Tudo se transformou quando Maria Helena e o marido mudaram para Brasília. Alugamos caixas postais para trocarmos correspondências entusiasmadas e libertinas. Após oito meses, de uma hora para outra, inexplicavelmente, Helena despediu-se e sumiu. Parou de escrever. Aguardei alguns meses sem nenhum contato. Entrei em desespero e me propus a encontrá-la. Desfiz meu casamento, larguei meu emprego e peguei a estrada. Eu não tinha o telefone nem o endereço. Apenas o número de uma caixa postal e uma fixação: encontrar a amada.

Como eu iria localizar uma secretária? Procurei pelo marido em todas as construtoras. Vasculhei órgãos públicos e empresas privadas. Até que, diante do túmulo, no dia 15 de agosto, relembrei de todos os fatos, e ainda ajoelhado, voltei a abraçar o maço com a fita vermelha.

Todos devem ter uma Maria Helena na vida.

Para mim, naquele momento, a mensagem da última carta recebida fez sentido.

“Meu amor, eu estou muito bem. Recebi a herança da minha mãe.”

Eu não conheci Dona Diva, a mãe de Maria Helena, soube apenas que era uma pobretona como eu e que faleceu de câncer nos pulmões.

Terminou a carta dizendo que “me chamaria quando estivesse em paz novamente.”

19 novembro 2008

Crianças sempre embaraçam a gente

— Por que eu tenho que colocar roupa?
— Por que o papai tem de trabalhar e você não?
— Por que a sua mão treme?
— Por que suas fotos, quando criança, não são coloridas?
— Por que isso? — Por que aquilo? — Por quê?
— Por que essa menina faz tantas perguntas?
Todo sábado é a mesma coisa. Ainda bem. Filho e nora deixam a netinha aqui em casa e saem para o cinema, vão a algum casamento, se reúnem na casa do Vinícius ou recebem alguém em casa. Eles sempre têm alguma coisa para fazer e deixam a pequena aqui em casa. Fazem isso por eles e por nós, avós corujas.
Ana Beatriz é um doce, muito quietinha. Chega de pijama de flanela, pede colo e uma historinha antes de dormir. Os olhinhos fecham, a cabeça cai e a levo para a cama. Aninha é querida. Não levanta no meio da noite, não faz xixi na cama, nem pede por papai ou mamãe. Apenas dorme profundamente, abraçada ao travesseiro.
Acredito sinceramente que, à noite, um duende verde confunde a menina com um brinquedo e dá corda. De manhã, junto com o canto dos passarinhos, Aninha acorda serelepe, matraca e perguntadeira.
— Vô? — pulando na cama — Posso deitar na sua cama? — cutuca a sola do meu pé com o dedinho — Por que você não tem cócegas no pé? Cadê a vó? Ela tá fazendo pão de queijo?
— Você não ia se deitar na cama? — Pergunto, enquanto estalo um beijo na testa despenteada.
— A gente vai para o zoológico depois do café? — Correndo para o banheiro.
— Vamos ver a girafa, o elefante, o jacaré e os macacos.
Aninha já estava no banheiro espremendo a pasta de dentes.
— A pasta de listrinhas vermelhas já acabou?
— A vovó comprou essa azulzinha especialmente para você.
— É verdade que a vó usa dentadura?
— Não. A vovó não usa dentadura. Ela pode morder a sua bochecha.
— Hoje de manhã ouvi a vó rezando na hora de levantar. Você não reza?
— Algumas pessoas rezam em voz alta e outras rezam baixinho.
— Eu nunca vi você rezar. Você tem um terço?
— Não querida. Eu não tenho terço. Aquele ali é da vó.
— A bisa me ensinou a rezar em alemão. Ich bin klein. Mein Herz ist rein. Soll niemand drin wohnen als Jesus allein*.
— Que bonitinha. Fale de novo, mais devagarzinho, senão o bom Deus não compreende.
— Deus fala alemão ou português?
— Deus entende todas as línguas.
— A tia da escola disse que os índios falavam uma língua que ninguém entendia.
— Os índios falavam uma língua que os portugueses não entendiam.
— A tia disse que os índios não acreditavam em Deus.
— Muitos não acreditam em Deus.
— Por que alguns acreditam em Deus e por que outros não acreditam?
— O deus dos índios é diferente daquele em que nós acreditamos.
— A mãe do Felipe não é índia. E não acredita em Deus.
Fugindo da pressão, segurei a mão da Aninha e a levei para a cozinha.
— Bom-dia querida! Olha só quem eu trouxe! O pão de queijo já está pronto?
Ana agarrou-se ao pescoço da avó e tascou um beijo lambuzado de pasta de dentes.
— Vó, por que alguns acreditam em Deus e outros não?
— Meu anjinho, vista uma roupinha. O pão de queijo está quase pronto. Alfredo, ajude sua neta.
A menina olhou para mim e fez beicinho de quem não recebeu a resposta nem comeu o pão de queijo.
Fui com ela até o quarto onde estava a sacola com a roupa.
— Hoje nós vamos ao zoológico. Você tem medo de lobo mau?
— Eu não. Lobo mau não existe.
— Tem alguma coleguinha que tem medo do lobo mau?
— O Rodrigo tem medo.
— Então, ele acredita em lobo mau?
— A Maria Alice também acredita.
— Então, Aninha, é assim: alguns acreditam e outros não acreditam. Como em Deus.
A menina abriu um enorme sorriso, correu para a cozinha e eu fiquei aliviado.
— Vó, Deus é como um lobo bom. Não é?
Ainda bem que o pão de queijo ficou pronto.

* Versão para a oração infantil:Sou pequenino. Meu coração é puro. Nele mora Jesus menino.

04 novembro 2008

Pílulas contra o mau humor



Eram nove horas da manhã quando José Geraldo entrou na sala da repartição. Passou direto pela secretária, por seus dois colegas de trabalho e dirigiu-se à sua mesa.
— A idiota da faxineira esqueceu a garrafa de álcool. Oh mulherzinha avoada!
Pedro, vizinho de mesa, suavizou.
— Bom-dia! Ainda é bom costume cumprimentar. Em vez de ofender a dona Antônia deveria ligar para ela, agradecer por ela ter limpado seu espaço e informar que guardou o produto de limpeza.
— Tá de caso com ela?
— É impressionante como você começa o dia de forma grosseira, desrespeitosa, mal humorada e sem educação.
Ignorando a observação — Já leu o jornal?
— Não, ainda não terminei de ler.
José Geraldo, sem nenhum constrangimento, enfia a mão no meio da leitura de Pedro e puxa o caderno de esportes.
— Peraí! Eu ainda não li este caderno!
— Que egoísmo, você não tem capacidade para ler tudo ao mesmo tempo. Cadê sua generosidade?
— Aposto que sua namorada dormiu de calça jeans.
— Seja criativo. Pare com suas piadinhas repetitivas.
Evitando constrangimentos, Pedro silenciou.
Na ante-sala, a secretária, responsável pelo jornal, murmurou palavrões imaginando a bronca do chefe ao descobrir o jornal bagunçado.
Passados dez minutos, Pedro comenta a nota policial.
— Viu só? O ladrão entrou na casa durante a madrugada, separou a televisão e o micro, depois se encheu de comida da geladeira, esvaziou uma garrafa de uísque e adormeceu no sofá.
— Como é que eu veria? A notícia está na sua mão. Você não quis me dar todo o jornal.
— Apenas comentei, tentando um diálogo.
— Diálogo? Monólogo, isso sim. Como posso dialogar com alguém que não me permite ler o jornal.
Como só acontece em historinhas, o moço do cafezinho surge na hora certa para amenizar o clima de hostilidades.
— Bom-dia.— enquanto distribui os copos descartáveis — O que vai ser hoje? Ovos estrelados, sucrilhos ou omelete com beicon?
— Obrigado Zezinho. Tem antiácido para o Jotagê?
José Geraldo, sem tirar os olhos do caderno de esportes.
— Sirva um copinho de raticida para meu vizinho.
Zezinho caminhou em direção ao ventilador.
— Eitcha ambiente carregado... Vou aumentar a velocidade para o vento levar o mau humor.
José Geraldo olhou com reprovação.
— Aumente não. Já basta o barulho insuportável das cigarras gritando nas árvores.
Como que fugindo de uma nuvem pesada, Zezinho empurrou seu carrinho para a saída ameaçando fechar a porta enquanto Pedro faz cara de quem está curtindo violinos da orquestra sinfônica.
— Isso que você chama de barulho é o canto das cigarras. É a perpetuação da espécie. É o anúncio das chuvas. É a mudança de estação. Já viu como os flamboyants estão floridos?
— Vai se tratar, Pedrinho! – colocando o queixo sobre o ombro e piscando rapidamente os olhos — Isso de gostar de florzinha vermelhinha é pra flamboiólas. Acho que você escorregou nalguma flor cor-de-rosa e caiu na bichice.
— É Jotagê, se você fosse mulher, eu diria que foi mal comida.
— Outra vez você vem com piadinha manjada ansiando gargalhadas. Invente! Só teletube repete a mesma coisa vinte mil vezes e, mesmo assim, para inocentes bebês.
Pedro, mais uma vez bombardeado por José Geraldo, procura por um aliado na conversa e olha na direção do outro colega de trabalho em leitura concentrada.
— E aí Barbosa, o que você me diz? Concorda que está faltando mulher na vida do Jotagê?
— Não sei e não estou preocupado com os problemas dos outros. Sei apenas que daqui a pouco o chefe vai entrar por aquela porta e perguntar o que a gente tá fazendo.
— E o que você, Barbosa, está fazendo de tão importante?
— Estou cuidando do meu humor. Lendo e apreciando as imagens de um tratado sobre a saúde, manutenção e desenvolvimento do bom humor.
— Tudo o que o carrancudo Jotagê precisa na vida. O que é?
Barbosa levantou a Playboy aberta na página central exatamente na hora em que o chefe pisou na sala.

21 outubro 2008

Terça crônica



O programa Terça Crônica é muito legal. O apresentador Jones Schneider começa dramatizando um texto do homenageado e depois o entrevista. Em seguida Alex Souza interpreta uma canção de um músico consagrado.

Onze cronistas foram homenageados: Affonso Romano de Sant’Anna, Luis Fernando Verissimo, Carlos Eduardo Novaes, Fernanda Takai de renome nacional. E ainda Conceição Freitas, Alexandre Ribondi, José Carlos Vieira, Márcio Cotrim, Severino Francisco e Rogério Menezes, escritores brasilienses.

Aí, tchan, tchan, tchan... Com vocês: Robeeeerto Kloooootz.

Fui ao primeiro programa e adorei o aconchego do espaço e a forma intimista na condução. No segundo, levei um caderno de crônicas, na verdade o livro “Quase pisei!” e entreguei ao Jones. Para minha surpresa ele devorou e me convidou de imediato para participar. YES!!!

Tal qual criancinha, enviei um milhão de e-mails para todos os meus amigos (e não amigos) convidando-os para o evento. O teatro é pequeno e em todas as edições apenas pouco da metade das cadeiras foram ocupadas. Eu estava morrendo de medo da casa ficar vazia. Percorri bares divulgando e distribuindo convites – o evento é gratuito – e vendendo fanzines com 7 crônicas.

O Correio Braziliense publicou uma nota no jornal enquanto o mesmo jornal publicou uma entrevista na internet. Chique, né?

A casa encheu! Soube de várias pessoas que ficaram de fora, inclusive a mulher do músico.

As pessoas que estavam ali, eram meus amigos. Não soube de nenhum que era amigo de Caetano Veloso, o outro homenageado.

Infelizmente as crônicas lidas devem ficar inéditas até a publicação do livro.

Recomendei que amigos levassem tomates maduros para o caso de não gostarem dos textos. Ninguém jogou nada. Ainda bem.

Quando a gente não é conhecido, expliquei, temos que solicitar aos famosos que nos apresentem. Então, à respeito do meu livro “Pepino e farofa” eles não disseram:

Ernesto Che Guevara – Hay que ler Pepino e farofa, pero sin perder la ternura jamás.

Neil Armstrong Um pequeno livro para o homem, um grande livro para a humanidade.

Charles de GaullePepino e farofa não é um livro sério.

Dom Pedro de Alcântara Como é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que leia Pepino e farofa.

Esfinge – Leia Pepino e farofa ou te devoro.

A entrevista foi muito tranqüila. O bom humor foi a marca forte do programa.

Quando o programa terminou foi um óóóóóóóóóóóóóó que pena!

Adorei.

Ficou um gosto de quero mais.

Agora que não estou ao vivo na sua frente, caro leitor, arremesse os tomates maduros e as mensagens podres.

Publicado no Correioweb

http://www.correiobraziliense.com.br/divirtase

Brasília, terça-feira, 14 de outubro de 2008
DIVIRTA-SE
Programe-se

Terça Crônica recebe o escritor Roberto Klotz

Roberto Klotz já esteve no projeto para falar sobre Luis Fernando Veríssimo
Um espectador assíduo vai subir ao palco no encerramento da primeira temporada do Terça Crônica. Roberto Klotz esteve na estréia do projeto e se encantou pela mistura de conversa, leitura e música – marca dos encontros. Agora, suas narrativas é que vão se encontrar com as composições de Caetano Veloso, interpretadas por Alex Souza, às 21h, no Teatro Goldoni, na Casa d’Itália. Com entrada franca, a noite terá também a participação do ator e diretor Jones Schneider, idealizador do projeto. É ele o responsável pela leitura dramática dos textos e pela condução do bate-papo.

Klotz se interessou pelo projeto por envolver crônicas – sua “praia”, como descreve -, e tomou a iniciativa de mostrar a Jones seu livro Quase Pisei - reunindo 50 textos sobre suas caminhadas diárias. Com três livros prontos ainda não publicados, o ex-engenheiro civil decidiu “vencer na vida sendo escritor" e no próximo ano publicará seu livro Pepino e Farofa, contando suas aventuras culinárias, com recursos do Fundo da Arte e da Cultura (FAC), da Secretaria de Cultura do DF. Escritor recente e apaixonado, Roberto indica o texto A Escrita, disponível em seu blog (http://robertoklotz.blogspot.com), como uma referência sobre seu modo de escrever. Crônica é meu jeito de ser", resume.
Esta não é a primeira vez que Klotz sobe ao palco do Terça Crônica: em setembro ele foi convidado para falar sobre o estilo e linguagem de Luis Fernando Veríssimo. Para Jones Schneider, o convidado desta noite "é um escritor inteligente, despretensioso e bem humorado, que representa muito bem o cronista de Brasília". Depois dessa edição, o projeto fará uma pausa e em novembro estará de volta.

11 outubro 2008

Central do Brasil virou Galeão


— Take three, cena five. — disse enquanto mostrava o caderno como se fosse uma claquete. Acendeu a luz do abajur, e gritou numa folha de papel enrolada imitando um megafone: — luzes, câmara, ação!
Saiu do papel de diretor e colocou-se no papel de roteirista.
— O saguão do Galeão, limpinho, cheio de gente bonita, homens de negócios, famílias se despedindo, carrinhos cheios de malas coloridas, um garotão sarado com uma prancha de surfe. Todos, eu disse todos, repentinamente param como se fossem estátuas para ver o desempenho da salvadora heroína arrastando o abandonado órfão perdido no Rio de Janeiro. Aí, eu, Jessielly Stone, com os cabelos soltos, corro em direção ao portão de embarque, arrasto o Stallone pela mão, me viro para trás e digo, em close: — se apresse, vou achar o seu pai, esteja ele onde estiver. — Em seguida revirou os olhos e curvou-se toda, esticando um braço, aguardando os aplausos do único espectador.
Walter bateu palmas sem entusiasmo.
— O que foi querido? Parece que não gostou?
— O roteiro é um pouco diferente. A história começa numa estação da Central do Brasil onde uma senhora escreve cartas para analfabetos...
— A Central do Brasil não está com nada! Só tem gente feia, só tem pobre. É tudo sujo e cinza. Tem que ter cor, vida, alegria. Inicie numa lan house do shopping da Barra, cheio de luzes e juventude. Eu ajudo o Sly, — aposto que você não sabia do apelido do Stallone — e a mãe dele a digitar um e-mail em português, depois os dois saem da loja e olham vitrines. É hora de mostrar as lojas bonitas. Você pode fazer mershandising e ganhar um dinheirinho extra. É a hora de mostrar o Brasil para os estrangeiros. Os nossos tênis são iguaizinhos aos deles. Temos McDonald’s, ninguém passa fome aqui. Tem o elevador panorâmico... tem até uma árvore de Natal. Linda! Na saída você mostra um garoto andando de skate quando eles pegam um táxi. Achei horrível a mãe, no seu roteiro, morrer atropelada, coisa de pobre, é preferível que a mãe dele morra numa tentativa de seqüestro. Muito mais ação, isso prende o telespectador na cadeira, sabe.
Walter, incrédulo, põe a mão no queixo.
— No roteiro é um menino de nove anos, filho de uma retirante, que nunca conheceu o pai.
— Eco. Quem gosta de pobre é assistente social e político na hora das eleições. Esse pessoal estrangeiro quer ver gente bonita, forte. Eu nem gosto do Rambo, mas a galera toda vibra com os filmes dele. Se você colocar o Stallone naquela telona, nossa, vão fazer fila na bilheteria. O Stallone tem o perfil certo para o filme. Não precisa falar e já tem aquele olhar triste e carente de minha Mami morreu. Aliás, falando-se em fala, nesse momento do seqüestro você enche de gente atirando para todos os lados. O Rambo, depois de matar uns quinze, olha bem no fundo do olho daquele que matou a mãe e antes de atirar diz: hasta la vista baby!
— Mas isso foi dito pelo Schwarzenegger em “Exterminador do Futuro”!
— Se liga, Walter, o que você queria que o Rambo dissesse olhando no fundo do olho do bandido? “Eu acho que vi um gatinho?” Me poupe! Ninguém merece! Aí o Stallone me procura e pede que eu o ajude a voltar para os Estados Unidos para encontrar o pai dele que ele nunca conheceu.
— E você fala inglês?
— E você acha que, com um nome como o meu, Jessielly Stone, eu não saberia falar inglês?
— Mas o seu nome não é Jessielly Rocha?
— Era, do verbo já não é mais. Mudei quando li que você iria lançar o filme nos States.
— Ah bom, faz sentido. — o diretor toma um gole de água — Desculpe interromper, continue por favor.
— Aí, a gente viaja por todos as cidades americanas importantes, Chicago, Washington, Orlando, Los Angeles e quando a gente chegar na capital, o filme mostra todos os pontos turísticos de Nova Iorque: Wall Street, Broadway, Empire State, Torre Eiffel...
Walter coçou o queixo, sorriu debochado.
— Como foi que eu não pensei nisso antes.
— Honey, é lógico, tem que mostrar o lado romântico, que a vida é maravilhosa. Você só pode ganhar o Oscar se você mostrar que a vida é bela. Sabe aquela parte em que eles entram num restaurantezinho chulé de beira de estrada?
— Você se refere ao ponto em que ambos são convidados por um motorista de caminhão e que ela aproveita para furtar comida?
— Esse mesmo. Ninguém agüenta história de roubar biscoitinho recheado de goiabada. Americano nem sabe o que é goiabada. Tem que roubar coisa elegante, supérflua, num shopping fino. Aí, você filma dentro de alguma loja, bem chique, da C&A, o Stallone afanando duas gravatas italianas. Então é flagrado e começa o maior quebra dentro da loja. Ele vai preso e eu sou interrogada. No interrogatório eu sento de frente para os policiais, acendo o cigarro, dou uma baforada e cruzo as pernas, lógico que estou sem calcinha e soltam a gente.
— É impressionante como você pensa em tudo!
— Isso é básico. Um filme tem que ter muita ação, romantismo e umas cenas picantes. Eu já te falei, já fiz novelas na Globo. Taí no meu book, numa eu fui lojista no capítulo 53 e na outra o Antônio Bandeira assobia para mim quando atravesso a rua no capítulo 68.
— Estou curioso. Naturalmente, para fazer sentido, você modificou o final onde a mulher, já afeiçoada ao menino, entrega o garoto aos irmãos e retorna solitária enquanto o garoto joga bola com seus irmãos em frente a uma vila de casas populares construídas pelo governo.
— Só melhorei um pouquinho. O Stallone conquista meu coração, eu fico com ele, a gente vai para cama, mas é só sexo técnico, e aí você mostra as mansões da Califórnia numa câmara se abrindo ao por do sol.
— Muito obrigado, Jessielly. Não sei como o mundo seria sem pessoas como você. Por favor, devolva o roteiro antes de sair.
— Não tem de quê, eu não sei escrever direito. Você escreve as alterações e quando terminar você me chama de novo, tá bom? Ah, e o meu nome é com dois eles e ipsilone no final.
 
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