09 abril 2011

Pessoas dupla-face

Tenho observado que os meus amigos não são meus amigos. Gosto daqueles que se esforçam para serem meus amigos. Gosto das pessoas que se transformam em gentilezas e amabilidades tentando conquistar o meu sorriso. A máscara que colocam nos aproxima.

Entretanto muitos dos meus conhecidos, desnudados das aparências, se transformam em pessoas repugnantes.

No domingo estive num churrasco maravilhoso. O anfitrião me recebeu na porta. Era um cavalheiro personificado. Picanha ao ponto. Cerveja gelada. Garção para servir. Peguei uma costelinha e enquanto separava a carne do osso observava o dono da casa. A face de bondade personificada que exista era alimentada diariamente pela outra face, a de empresário corruptor. Eu só conhecia uma delas e esta, me agradava.

Meu carro estava na oficina, e na volta para casa, aceitei a carona de uma mulher de metro e meio. Magrinha e frágil. Super meiga. Educada na França. Gentilíssima. Ao contrário do que supus, o carro dela era uma enorme station wagon onde seguramente caberia um batalhão de soldados. Ela não havia consumido uma única gota de álcool, porém quando se sentou ao volante parece que sacou de uma máscara do porta-luvas e dirigiu com a agressividade de um fuzileiro naval no campo de batalha e no sinal vermelho, xingou como um sargento irritado. Francamente, me assustei com a mulher debaixo da outra mulher.

Ainda bem que não demoramos muito a chegar.

O síndico, todo solícito, estava na frente do edifício podando algumas plantas e demonstrando o zelo com o bem comum. Na guarita, o porteiro me entregou uma convocação para uma Assembléia. O primeiro item da pauta era sobre a reeleição do síndico. Um fingidor, um crápula mal educado, egocêntrico que aumentou as taxas do condomínio para reformar o próprio apê enquanto reformava o prédio. Duvido que tenha um vaso em casa.

Já no elevador, pensei: ah, meu amigo leitor, ponha a máscara, elogie esta crônica, chame-a de artigo se quiser, mas elogie. Entretanto se você for sincero e contundente nas críticas, tirarei a minha máscara de bondade e, desejarei que você queime no inferno.

06 abril 2011

Protesto de mulheres brasilienses

Ao começar a reunião com o secretariado, o governador observou mais uma aglomeração na frente do Palácio do Buriti. Apesar do pouco tempo sentado na cabeceira da mesa, já estava vacinado contra greves, protestos e manifestações.

De dentro para fora, o vidro e a vida são azuis. De fora para dentro o vidro e a vida são negros.

A mesa é pequena para acomodar tantos secretários e o governador. A reunião começa e segue a pauta. O governador não consegue se concentrar, nota que os jardins estão apinhados de gente. Bem mais, muito mais, que do que as manifestações cotidianas.

─ Alguém tem idéia de quantos são?

Um dos secretários que estava de costas para a janela respondeu prontamente:

─ Trinta e quatro.

─ Trinta e quatro mil? Acho que são mais.

─ Não, não. Somos apenas 34 secretários.

Incomodado com a resposta alienada, foi até a janela observar melhor o tumulto.

Uma larga avenida separa os manifestantes do palácio. Além do isolamento acústico, o barulho dos ônibus e carros impedem que se ouça, de dentro do gabinete, as palavras de ordem gritadas nos jardins. O megafone também não produz o efeito desejado.

Enquanto mais gente chega de todas as direções, mulheres carregam cartazes com o número 52,19%.

Observa que todas as protestantes são mulheres. Bem vestidas e mal vestidas. De cabelo oxigenado, branco, anelado ou bem cortado. Executivas, universitárias, donas de casa, garis, aposentadas, meninas. Mais mulheres do que caberiam no Maracanã lotado.

Ainda assustado com a quantidade, voltou a questionar:

─ Estou impressionado. Quantas serão?

O mesmo alienado, sem pestanejar, respondeu que são apenas quatro secretárias: Mulher, Comunicação, Educação e Transferência de Renda.

O governador contou até dez para conter a impaciência.

─ Alguém sabe o que significam 52,19%? ─ Olhou para o secretário que respondeu 34 anteriormente, evitando outra bobagem, afirmou. ─ Sei que não é o reajuste que vocês pleiteiam. Não é a inflação, nem o reajuste dos combustíveis. Não é a taxa de desemprego, tampouco a taxa de ocupação nos presídios. Não é a taxa de aprovação dos alunos nas escolas.

O estagiário de jornalismo entrou esbaforido na sala com uma folha de papel: “Agora são 112.267 mulheres, gritando igualdade, reunidas na frente do palácio do Buriti”.

─ Meu filho, você está maluco! Você as contou uma por uma? Nunca vai ser jornalista de verdade. Toda nota deve responder as perguntas básicas: onde? o que? quem? quando? onde? como? e por que?. Eu quero saber por que protestam!

─ Elas imploram por igualdade. Sentem-se desamparadas. Querem mais homens.

─ Não entendi. Há décadas brigam por espaço. Elas sempre reclamam que os homens são maioria em todos os lugares.

─ É que de acordo com o Censo 2010, são 1.337.726 mulheres, o que corresponde a 52,18% dos residentes no DF. De onde calculei que há 112.267 mais mulheres que homens.



Este conto é resultado de um devaneio inspirado na matéria publicada no Correio Braziliense, em 03/04/2011 – “A capital da mulherada”.

30 março 2011

Chantili pensa que é gente

O medicamento que desacelera o ritmo da vida também tem ajudado os animais a se sentirem mais felizes, reduzindo a carga diária do estresse doméstico. Depois da pílula para humanos, a versão veterinária do Prozac foi lançada nos Estados Unidos. O laboratório Eli Lilly não revela quando o produto chegará no mercado nacional. CB – Indústria farmacêutica, 27/03/2011.



Daphne, Chantili, Passarela, Daslu e Blasê eram amigas inseparáveis. Onde estava uma, estavam as cinco. Como um grupo de adolescentes, se copiavam mutuamente nas roupinhas, modos e falares. Em vez de púberes com hormônios à flor da pele, eram cadelas com estresse aflorando no pelo.

Começavam a manhã com aulas de musculação na academia. Não competiam entre si. Por mais que malhassem, o espelho não refletiria a silhueta sarada. Sempre dependiam dos caprichos de uma tosadora profissional. Escolhiam os modelitos de acordo com as imagens das revistas francesas. Se o pelo estivesse muito curto pareceriam mais magras, entretanto ficariam muito peladas e poderiam ser confundidas com cachorras vulgares. Só Passarela, por ser uma dálmata, dispensava as tesouradas. No momento estava muito orgulhosa, pois a padronagem de onça voltara ao topo dos red carpet.

Terminadas as comparações no espelho, pesavam-se, comiam uma ossinho de cereais e depois do banho seguiam para longas sessões de relaxamento e massagem.

Pouco antes do almoço o motorista as levava para casa a tempo de se recomporem com vestes mais adequadas.

Após a sesta, trocavam novamente de roupa. Para aulas de francês e de piano preferiam roupas discretas, camisetas com gola olímpica e tênis de franjinha. Nas terças e quintas-feiras quando jogavam biriba usavam blusinhas casuais.

Somente às quartas-feiras de tarde eram levadas para passear nas calçadas. Vestiam jeans customizadas, tênis de marca e blusa style. A diferença estava nos perfumes. Daphne e Chantili, duas poodles, eram fiéis ao Channel número 5. Daslu preferia o Obsession da Calvin Klein. Passarela pingava gotinhas de Givenchi atrás das orelhas. Blasê, uma yorkshire dourada, sentia-se mais fêmea jateando Gabriela Sabatini no pescoço. Percebiam ter alvará de soltura para liberar as vira-latas que habitavam dentro de cada uma elas. Mesmo assim não defecavam nos gramados e se queixavam do cheiro dos postes. Raramente permitiam que algum cachorro se aproximasse. Se latisse então, coisa animal, e mesmo que fosse um atlético doberman, seria evitado para toda a eternidade.

Num desses passeios a dona foi abordada por uma colega com dois collies.

─ Suas cachorrinhas são tão bonitinhas. Sempre observo com admiração. Elas não ficam muito estressadas com uma agenda tão cheia e tão distante da vida animal?

─ Normal. Elas pensam que são gente.

─ Os meus, quando permanecem muito tempo presos, ficam tristes. Aí, costumo dar uns comprimidos de Prozac.

─ No way! O máximo que faço é dar uma aspirina na TPM. Para deixá-las alegres vamos ao shopping comprar uma bolsa da nova coleção Louis Vuitton.



Outra história inspirada em matéria publicada no Correio Braziliense

23 março 2011

Controle rigoroso das calorias

Agora os cientistas estão tentando criar ferramentas de monitoramento dos costumes das pessoas. São softwares, sensores e equipamentos de GPS que acompanham todos os passos dos pacientes ou voluntários em pesquisas. Tudo para garantir que a ciência consiga um retrato fiel da vida dessas pessoas, sem precisar confiar na memória ou no rigor dos alvos dos estudos. CB – Tecnologia, 21/03/2011.


João Paulo amava muito a sua esposa, Ana Clara. Moravam em um confortável apartamento no Leblon, resultado de lucros reciclando garrafas de refrigerante em capacetes para operários da construção civil. Ana Clara, formada em economia, administrava a casa e levava os filhos para a escola e dezenas de aulas particulares.
Ele estava triste com a falta de entusiasmo da esposa que perdera o viço e ganhara gordura. Os 15 quilos pesavam no interesse sexual de Jotapê. Tanto pesavam que propôs inúmeros regimes alimentares, sugeriu aulas de natação, squash e dança de salão. Conseguiu convencê-la a se matricular em academia de ginástica.
Um dia voltando da fábrica encontrou Ana Clara metida em um vestido curto e justo. Achou-a repugnante. Percebeu a esposa como um açougue que expõe as carnes na vitrine. Por amor, por todo amor que sentia pela mulher, foi só um pouco indelicado:
─ Como é que alguém pode desejá-la com todo esse tamanho?
Em resposta, Ana Clara abaixou sensualmente a alça do ombro esquerdo, atirou um beijo, virou as costas e saiu rebolativa da sala.
Os gestos em vez de provocar, amoleceram desejos.
Após três meses de abstinência, Jotapê procurou um endocrinologista que trouxe para o Brasil um equipamento de monitoramento das alterações calóricas. O software registrava detalhadamente todas as refeições, indicando o cardápio completo e ainda um GPS para monitorar deslocamentos.
Em uma semana de acompanhamento poderia descobrir se a mulher, de fato, estava seguindo o regime e se exercitava corretamente na academia.
Gastou o equivalente a um mês de produção da fábrica para instalar o chip num brinco de ouro e brilhantes que ofereceu em festa no aniversário aos dez anos de casamento.
Passados dez dias, convidou-a para jantar num restaurante luxuoso para mostrar o resultado do investimento que fez para resgatar o carinho e o amor no casamento.
Abriu o envelope lacrado e retirou o relatório.
─ Olha amor: terça-feira, 15h40, você levando as crianças a pé para a aula de inglês. Às 16h15, tomando um suco de laranja no Bob’s, 130 calorias. Às 17h você foi de carro para a academia e perdeu 75 cal em 15 minutos de jump, 50 cal em 15 minutos de esteira e 100 cal nas séries de tríceps e flexão.
─ Meu amor, isso é invasivo.
─ É muito mais detalhado que eu imaginava. Vamos olhar o dia de ontem. O que você lanchou na casa da Maria Fernanda?
─ Não estou gostando disso!
Quinta-feira, 16h13 - Ué? De carro? Indo para a Barra da Tijuca? A casa dela não é em Ipanema? Acréscimo de 75 cal tomando vinho. 18h25 queimou 450 cal em 22 minutos de sexo.


Novamente um conto bem humorado resultante de matéria publicada durante a semana no Correio Braziliense. Sempre às quartas-feiras antes das 18h, com limite máximo de caracteres como uma coluna no jornal.

18 março 2011

O vrum que me levou ao passado



O sol ainda estava sob as cobertas, mas eu, madrugador que sou, já estava de pé na frente da geladeira pegando um pacote plástico com pão de forma. Ouvi, do quinto andar, o barulho da moto do entregador de jornal.

No mesmo instante, lembrando tempos antigos, salivei pão francês e leite fresco.

Eu explico: O padeiro no escuro da manhã pilotava uma lambreta verde com um baú de madeira. Parava na frente de quase todos os portões. Sabia de cabeça quantos filões, pãezinhos, doces e garrafas de leite deveria entregar em cada casa. Entrava, deixava as garrafas de tampa de alumínio ao lado dos saquinhos de papel e saia.

Os sons que eu ouvia da minha cama na infância ainda reverbam na memória.

Primeiro ouvíamos ao longe o liga e desliga da lambreta se aproximando até chegar sob a nossa janela. Depois de embrulhar os pães mornos ouvíamos a tampa fechando barulhos no baú. Em seguida os passos corridos no quintal até a caixa protegida do tempo. Dois segundos depois retornava com os mesmos passos corridos. Batia o portão de ferro e ligava a moto se afastando alguns metros até o próximo vizinho.

Agora, guardei o pão de forma de volta na geladeira e caminhei até a padaria em busca de um sonho.

16 março 2011

A noiva degustou o doce

A cada ano aumenta o número de casais que sobem ao altar no Distrito Federal. Mesmo em tempos de independência financeira e de uniões não oficiais, cresce o volume de noivos que fazem questão de oficializar o casório na igreja ou com grande festa. Em 2009, o Instituto de Geografia e Estatística (IBGE) registrou 16.312 novos casamentos celebrados na capital federal – uma média de 44 por dia. CB – Comportamento, 13/03/2011

Uma descarga de energia elétrica percorreu-lhe o corpo. Os cabelos da nuca se arrepiaram.

Jantar à meia luz sempre foi muito prazeroso para ela, mas ouvir Moonlight serenade nas cordas de um violino era o orgasmo.

Foi nesse clima que ele tirou uma caixinha do bolso, abriu e ofereceu uma aliança.

– Quer casar comigo?

O brilho dos olhos respondeu por ela.

– Faremos uma equipe invencível. Somaremos forças. Seremos imbatíveis. Juntos conquistaremos o mundo. Ultrapassaremos todos os obstáculos da vida. Eu te amo, te adoro, te venero. Você é tudo para mim.

– Meu amor, que lindo. Estou tão feliz. Você pensou em alguma data?

– A partir de agora, todo dia pode ser o dia.

– É por isso que eu te amo! Você é firme. Vamos fazer uma grande festa para todos nossos amigos, num lugar bem bonito. Vamos procurar uma igreja amanhã?

– Amanhã é a semifinal! Tenho chances de ser o artilheiro do campeonato.

No dia seguinte Henrique marcou cinco gols e Vanessa ao conversar com cinco padres descobriu uma janela na agenda de um dos párocos. Conseguiu marcar o casamento a 13 meses, num sábado, numa igreja aconchegante de tamanho médio. Tempo o suficiente para todos os preparativos. À noite falaram de realizações e se amaram vitoriosos.

Acordaram tarde no domingo. Almoçaram filé à parmegiana acompanhado de projetos para a festa. Caminharam até a casa de Henrique. A cerveja embriagou o ronco dele enquanto embalou os sonhos dela. Mentalmente estendeu um tapete vermelho, decorou a igreja com velas e lírios brancos. Viu-se num vestido decotado sem alças com cintura apertada arredondando desejos, véu de três metros, grinalda de pedrinhas brilhantes e, em vez de buquê, uma rosa vermelha.

Ele trocou a cama pelo sofá na frente tevê. Ela foi para o micro digitar planejamento.

Escolher sapato. Comprar ou alugar vestido? Agendar maquiador. Definir local para recepção. Cardápio para o jantar? Quem será o DJ? Convites brancos ou creme?

– Bem? Me ajuda a fazer a lista dos convidados?

– Agora?

Ela era insegura. Precisava de alguém do seu lado para segurar a mão.

Mesmo assim escolheu as músicas para a igreja. Confirmou velas e lírios brancos. Decidiu um fraque para o noivo. Alugou um carro preto.

Conforme a data ia chegando, Vanessa ficava mais bonita e autoconfiante.

Discutiu o contrato do fotógrafo. Definiu a praia para a lua de mel, degustou e aprovou doces e salgados. Mandou Henrique providenciar vinhos e uísque.

Juntos fizeram o curso de noivos. Vanessa estava feliz. Crescera como mulher. Aprendera a decidir. Chegara o grande momento de dizer não para Henrique.



Com tamanho fixo como se fosse uma coluna de jornal, escrevi outro conto baseado em matéria publicada no Correio Braziliense. Publico no blog sempre às quartas-feiras antes das 18h. Com tamanho fixo como se fosse uma coluna de jornal. Qualquer hora dessas um grande jornal oferecerá um espaço, tenho certeza.

11 março 2011

Espirros de homem derrubam quatro árvores

Nas décadas de 50/60 era comum jornais sensacionalistas trazerem manchetes espetaculares como:

Veneno de rato no bolo dos noivos”ou

Mulher deu à luz um peixe” ou

“Fugiu da prisão usando camisola”  ou

“Matou a sogra com uma caneta”.

No corpo da matéria sempre havia uma explicação minorando o impacto do chamativo. Infelizmente a matéria que originou este título é verdadeira. Pois o vizinho doente e antiecológico também justificou a derrubada das árvores vizinhas ao apartamento. Levou um laudo médico à prefeitura provando ser alérgico àquela espécie de árvore, conseguindo que a própria prefeitura enviasse homens com uma motosserra para derrubar as árvores evitando novos espirros.

09 março 2011

O carnaval de fantasias no salão

Todos sábados eram iguais aos outros, mas aquele sábado era diferente dos outros sábados: era sábado de Carnaval.
Faltavam poucos minutos para as quatro horas e no salão da empresa já circulavam muitos funcionários. Apesar dos alto-falantes tocarem animação com as antigas marchinhas carnavalescas o pessoal estava mais propenso a permanecer sentado e conversar. Ninguém sacudia o corpo em alegria.

A arrumadeira de motel, impecável em seu traje com avental de rendinha preta, tomava cafezinho com o pipoqueiro de cinema que vestia uma jardineira listrada de branco e azul. Na blusa da mocinha estava bordado sex appeal enquanto na jardineira foi bordada uma espiga de milho sob a palavra pop corn em letras vermelhas.

O frentista ajeitava o boné verde-amarelo no reflexo da porta de vidro.

Perto da grande janela a conversa ia fúnebre. Era possível identificar as profissões pelas roupas. Conversavam sobre as diferenças na linguagem em cada profissão. O coveiro diz que enterra o finado. O médico, de jaleco, informa que o doente foi a óbito. O juiz, de toga, anota que o de cujus deixou fabulosa herança. O policial, com um cassetete e um par de algemas na cintura, diz que a arma era do presunto. O padre, muito chocado dentro da batina, faz o sinal da cruz enquanto falam dos entes queridos.

– Cadê a animação, pessoal? – Perguntou o cobrador de ônibus, ajeitando o quepe bege. – Isso tá muito funesto. É dia de festa! Bora trocar de assunto! – Encarou a babá e começou a assobiar provocativo... – Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval...

O grupo não deu a menor bola para o cobrador. Continuou a relacionar diferenças no palavreado das profissões. Apenas trocaram mortos por viventes. O juiz diz que a sociedade se compõe de cidadãos. O médico enxerga em cada pessoa um paciente. O padre reza com os fiéis. O policial vê um meliante em cada cidadão.

Afora o cobrador ninguém se animava. Impacientes, olhavam para os ponteiros do grande relógio de parede.

A música parou. Uma voz metálica solicitou que todos entrassem no ônibus e se acomodassem. Que o culpado pelo atraso já estava chegando.

Ainda tiveram que esperar cinco longos minutos.

Quando o mestre-cuca tirou o chapéu e entrou no ônibus, o pessoal explodiu em vaias. Finalmente poderiam sair. O ônibus já estava com o motor ligado. Antes do motorista fechar a porta e engatar a primeira marcha ouvi o gerente gritar da calçada com o mestre-cuca.

– Quem você pensa que é para nos fazer de palhaços? Nunca mais atrase. Você se prejudica. Prejudica a empresa e todo os seus colegas. Nossa empresa é séria. Temos 15 anos de tradição como a melhor empresa locadora de mão de obra de plantonistas de reposição.



O conto foi inspirado na matéria publicada no Correio Braziliense de 06/03/2011 – Carnaval. – “Enquanto muitos brasilienses caem no samba ou aproveitam o recesso para descansar, há aqueles que precisam trabalhar para manter o funcionamento de serviços essenciais como saúde, transporte e limpeza urbana.”



















02 março 2011

Ganhe um Oscar e viva mais quatro anos

Os atores e as atrizes que levaram para casa a maior honraria do cinema hollywoodiano ganharão também alguns anos a mais de vida. Pelo menos é o que dizem pesquisadores da Universidade de Toronto, no Canadá. Depois de analisar dados relacionados à saúde e á mortalidade dos artistas que venceram o prêmio nas categorias ligadas à atuação – melhores ator, atriz e melhores ator e atriz coadjuvantes –, o resultado foi claro: os vitoriosos vivem em média quatro anos a mais do que aqueles que foram apenas indicados para o prêmio. CB – Ciência, 26/02/2011



Quatro amigos passaram a madrugada esparramados no sofá acompanhando a cerimônia de entrega do Oscar. Cinéfilos que eram, discutiam preferências em todas as categorias. Sabiam o nome de todos os filmes e respectivos atores, atrizes, diretores, roteiristas, trilhas sonoras. Se bobeasse, debatiam sobre a cor da cueca do cinegrafista do concorrente a Melhor Efeitos Visuais.

Competiam para mostrar conhecimento:

– Qual foi o único empate feminino? – Em 1969, Catherine Hepburn e Barbra Streisand dividiram o prêmio de melhor atriz.

– Quantos prêmios ganhou o Ponte sobre o rio Kwai? – Seis: Melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor fotografia, melhor edição, melhor roteiro adaptado e melhor trilha sonora.

– Quantos têm direito a voto na escolha do Oscar? – Precisamente 4.755.

– Nome completo, endereço e CPF de cada um deles?

A boa ironia sobre o próprio grupo causa risada e é brindada com mais um gole de uísque.

No dia seguinte um dos debatedores, José Henrique, acordou tarde. Além da ressaca lembrou de ter estudado um monte de curiosidades à respeito dos filmes, atores e trizes. Que apesar de ter falado bastante, esqueceu-se de dizer que, conforme a pesquisa, os agraciados com o Oscar viviam em média quatro anos a mais do que aqueles que foram apenas indicados. Deu risada e perguntou-se: e daí? Para que serve isso?

Foi para o chuveiro com o uísque e a pergunta martelando na cabeça.

Bom empresário que era, encontrou uma resposta lucrativa.

Em menos de três meses abriu uma loja para vender estatuetas douradas. Idênticas aos originais com exatos 33 cm e 3,85 kg, banhadas em ouro, se erguendo esguias e musculosas sobre um rolo de filme. O preço da confecção era igual ao original: 200 dólares. O preço da venda era de 1.000 dólares.

O resultado da pesquisa sobre o Oscar aparecia emoldurado, atrás do balcão, às vistas de todos os clientes.

Você oferece um Oscar para a pessoa que você mais gosta e, automaticamente, o presenteado vive mais quatro anos. O nome da loja brilhava em neon: Fonte da Juventude.

O sucesso foi tão grande que rapidamente surgiram os concorrentes com milhares de Oscares de plástico barato.

Por fim, a Academia de Hollywood desenvolveu e concedeu-lhe o prêmio de Melhor Idéia para um Filme. Consequência da publicação, em todos os jornais do mundo, que o Sindicato das Funerárias o estava boicotando a ponto do presidente do Sindicato ser flagrado tentando provocar um incêndio no seu comércio.



Mais um conto resultante de notícia publicada no Correio Braziliense da semana. Sempre às quartas-feiras, até as 18 horas com tamanho fixo, como se fosse uma coluna de jornal.

27 fevereiro 2011

Adeus mestre Scliar

Foi com muito pesar que recebi a notícia da morte do grande Moacyr Scliar. As “Histórias que os jornais não contam” foram o exemplo que mirei para escrever meus contos semanais no blog.


Em 27/02/2010 recebi um e-mail do mestre comentando meu livro “Quase pisei!”:

Meu caro Roberto, só umas linhas para te dizer que estou terminando teu livro e que gostei muito de tuas crônicas, vivas, bem humoradas, bem escritas. Recebe os parabens e o abraço do
Moacyr Scliar


Tem escritores que escrevem para burro. Scliar escrevia para Jabuti.

23 fevereiro 2011

Quero uma estrela cadente

O outrora famoso céu noturno de Brasília é uma vítima do crescimento urbano das últimas duas décadas. Ele veio acompanhado da expanção da iluminação pública: 3,4 milhões de postes novos só entre 2000 e 2008. O problema é que essa iluminaçõa é ineficiente. Os postes jogam a luz em todas as direçõs, inclusive para cima. Isso privou as cidades da visão das estrelas.
Em Brasília, por exemplo, era possível observar a olho nu a Via Láctea e quase 2000 estrelas por ano no começo da década de 1990. Hoje o número caiu para 150. – Folha de São Paulo, Ciência, 20 de fevereiro de 2011.
Será que você encontra o Cruzeiro do Sul?


Eu era menino. Faz um bocado de tempo. Meio século já se passou. Costumava passar as férias no litoral, na casa de um tio. O acesso era difícil. No trecho final, nos últimos cinco quilômetros não havia estrada nem rua. O caminho era a areia branca da praia. Era uma aventura passar onde o mar lambia a areia, ali o piso era mais duro.

Precisávamos atravessar cinco riachos antes de chegar ao destino. Quando era época de chuva os riachos se enchiam de poder e se transformavam em rios engolidores de veículos, tornando a travessia mais arriscada. Era necessário passar com as rodas dentro do mar onde o rio se alargava e ficava mais raso. Muitas e muitas vezes ajudamos a desatolar aventureiros inexperientes.

Tudo era festa, mas precisávamos chegar de dia. Corríamos para guardar as roupas e levar a comida para a cozinha. A eletricidade poderia faltar e quase sempre faltava. Quando não havia energia precisávamos bombear manualmente a água para a caixa para sermos recompensados com um banho gelado no retorno do mar. Quem seria o primeiro, após as obrigações, a chegar na praia? Mergulhar? Furar onda? Pegar jacaré?

A farra no mar teminava com um assobio da mãe chamando para a broa de milho saída do forno. Todos corriam para escolher o pão mais queimadinho. E comê-lo, queimando a língua, na fila do chuveiro.

Lanchávamos muitas vezes à luz de um lampião de querosene para depois sentarmos em roda na frente da casa.

Do lado de fora era mais claro que dentro. As estrelas iluminavam o jardim e a conversa.

Alguém achou o Cruzeiro do Sul? Cadê as três Marias? Vênus? Só era identificada no começo da noite.

Foi um tempo muito bom, sabíamos que as Três Marias formavam parte da constelação de Orion. E que a estrela mais brilhante do céu era Antares, o coração da enorme constelação de Escorpião.

Havia uma luzinha bastante luminosa que atravessava o céu diariamente, em hora certa. Era um dos satélites artificiais de comunicação. Poderia ser o Telstar ou algum dos vários Intelsat.

A converesa variava e mudava. Até que, repntinamente uma estrela cadente chamasse a nossa atenção. Era hora de formular desejos.

Hoje, moro em cidade grande, impossível contar uma centena de estrelas no céu opaco. Acho que os adolescentes urbanos nem imaginam como é vibrante um céu estrelado.

Minha vontade é enxergar pelo menos mais uma estrela cadente para fazer um único pedido: rever o céu esplendoroso.



Esta crônica resultou de matéria brilhante da Folha de São Paulo. Imagine que a nossa praia, antigamente deserta, hoje está povoada de arranha céus.

21 fevereiro 2011

Vendo mulher

28 anos, 90 centímetros de busto, 60 de cintura e 90 de quadril. Coxas grossas. 1,65 de altura e 62 kg muito bem distribuídos. Cabelos negros, lisos como sabonete. Olhos cor piscina de hotel. Nariz arrebitado sobre lábios carnudos e sorriso malicioso. Meiga, carente e sensual. Provocativo decote. Arquiteta, artista plástica e cantora.
É esta mulher que estou vendo da minha janela.

16 fevereiro 2011

Consulta aos arquivos moleculares

A revista semanal Science, publicação da American Association for the Advancement of Science (AAAS) diz que em uma única célula humana há cerca cem vezes mais informação codificada no DNA humano do que em todos os livros, CD’s, computadores, negativos de fotos e todo tipo de lugar onde se armazenam dados, digitais ou analógicos. Folha de São Paulo — Ciência, 11/02/2011
Acordou cansado e tonto. Pensou num out door de pousos e decolagens do salão de embarque grudado no cérebro com as informações passando a jato. A vista enxergava um enorme tubo tridimensional azul com caracteres binários passando à velocidade da luz.
Levantou-se segurando nas paredes. No banho tentava entender o que estava acontecendo.
À noite tivera uma discussão com o irmão. Precisavam abrir um cofre cujo segredo estava perdido. A caixa blindada continha um dossiê do avô, fundador da indústria onde eram sócios. Os documentos só poderiam ser lidos 50 anos após a morte do criador da empresa. Já se passaram quatro meses da data marcada com um círculo vermelho no calendário e a porta metálica continuava lacrada.
O fabricante do cofre já não existia. Consultaram dezenas de chaveiros e especialistas. Inclusive pagaram passagem a um mestre suíço. Nada adiantou.
Ainda se lembravam da tarde de domingo quando o nono reuniu os dois meninos na sede da fábrica para uma conversa curta e grave. Logo após, mostrou uma pasta negra, abriu a porta do cofre vazio, depositou a pasta, fechou a porta e girou o segredo. Anotou, às nossas vistas, a combinação do cofre na primeira página de uma bíblia. O pai dos meninos falecera em um acidente de carro. Seríam os únicos guardiões e, ameaçando com o indicador, exigiu sigilo absoluto.
Na adolescência começaram a trabalhar sob a orientação dura do criador da empresa. Geneticamente e por méritos, rapidamente galgaram posições.
Quando o velho faleceu estavam participando de uma feira de negócios no Japão. Assim que souberam, retornaram imediatamente ao Brasil. Chegaram tarde para a cerimônia. Só assistiram à missa.
Temiam que o avô os vigiasse do céu ou do inferno cobrando a promessa. Jamais tocaram no assunto entre si. Nem as esposas sabiam.
Um dia, conversando sobre a religiosidade do vovô, souberam que ele foi enterrado segurando uma bíblia e um terço.
Criaram uma questão para motivar a exumação do corpo. Vovô transformara-se em pó. Reconheceram a bíblia por um fragmento da capa. A anotação foi devorada pela terra.
A insistência do irmão em explodir o cofre o atormentava.
Para ele, a única solução viável era recuperar na memória longínqua os números do avô escritos com caneta de tinta preta.
Renovou as esperanças depois de ler numa revista científica que uma única célula humana guardava mais informações que toda a humanidade conseguira armazenar em bibliotecas, filmes, redes e computadores mundo afora.
Quando fechou a torneira do chuveiro, teve certeza, o seu organismo estava deszipando, descompactando, os chips do HD interno à busca da informação armazenada.
Desta vez, escrevi o conto baseado numa matéria da Folha de São Paulo. No blog sempre até
ás 18 horas das quartas-feiras com número pré-determinado de caracteres como se fosse uma coluna.

14 fevereiro 2011

Klotz em Lisboa


Dificilmente observo o contador do blog. Nunca liguei muito para isso, tanto que só coloquei um contador de visitas no fim de 2008. De lá para cá recebi mais de 30.000 visitas.
Hoje minha curiosidade foi atiçada por outro e-mail que recebi de português cometando um texto do blog. Procurei o analisador estatístico do Google e me surpreendi com a quantidade de visitas nos últimos 30 dias: 1466 dos cinco continentes!
São 48,8 visitas/dia! — Nada mau!
É espantoso, considerando que não divulgo o blog.
Observei que a grande maioria é brasileira: 1285 e que se distrubui em todo teritório nacional. São Paulo é a campeã de acessos. Em seguida vem Brasília, origem do blog. Rio de Janeiro é a terceria. Tudo muito natural. A boa surpresa foi a descoberta que Lisboa se fez presente 46 vezes e o Porto 19 no último mês. As duas cidades lusitanas estão à frente de muitas cidades brasileiras.
Certamente há muito mais leitores que apenas o Joaquim e o Manuel.
Segue meu abraço ao Joaquim.

09 fevereiro 2011

A bicharada foi ao cinema


Cientistas do Instituto de Abraham, em Londres, descobriram que as ovelhas ficam mais calmas quando vêem rostos conhecidos depois de algum tempo sozinhas. Na pesquisa foram projetadas imagens de cabras, ovelhas, formas geométricas e outras figuras. Então mediu-se o nível de estresse dos bichos, com controle das batidas cardíacas e inquietação. CB – Você sabia..., 07/02/2011



Há algo de podre no reino da Inglaterra, diria Shakespeare ao saber que os cientistas britânicos, por não terem mais o que fazer, pesquisam as imagens preferidas pelas ovelhas. Começaram com triângulos, quadrados e estrelas, até produzir longas metragens com artistas consagrados.
Imagine a surpresa do bardo inglês. Caminhando por uma calçada de Stratford, passa em frente ao cinema e depara-se com um cartaz:

Hoje: Ovêlho e o mar – sessão às 14/ 16/ 18/ 20 e 22 horas. Um filme estrelado pela Ovelha Dolly, roteiro de Ernest Hemingway e adaptação especial para o rebanho ovino.

Lê o cartaz e relembra ter escrito as tragédias do Rei Lear, Otelo e Hamlet. Tudo humano, para humanos. Isso foi lá nos anos 1600. Os tempos mudaram. Agora o mundo é ecologicamente correto com direitos iguais para todos os seres viventes. E principalmente para todos os cientistas aplicarem as verbas onde bem quiserem, contanto que engordem as estatísticas governamentais de trabalhos acadêmicos.
Coçou a barba e pensou estar obsoleto. Escrever peças para teatro é bobagem. O negócio é escrever roteiros para o cinema visando milhares e milhares de espectadores passando na frente da bilheteria. O drama, em vez de ser na tela, fica por conta da dificuldade de cobrar os ingressos do fazendeiro, dono do rebanho.
Experiência e imaginação é que não falta ao dramaturgo. Se o negócio é cobrar ingresso por cabeça é melhor mudar o público alvo. Uma ovelha ocupa muito espaço num cinema. Ainda mais com poltronas reclináveis.
Pensou em oferecer filmes para cavalos. Mas estes já estão muito exigentes, acostumados pela nobreza. As vacas ocupariam mais espaço que as ovelhas. Os cachorros e gatos, já escolhem seus próprios filmes em casa.
A grande sacada foi lembrar-se das galinhas. Consideradas pouco exigentes e de memória não muito privilegiada, veriam o mesmo filme cem vezes antes de descobrir que se trata de repetição. Tampouco perceberiam se o filme tem lógica ou não. As galinhas ocupam muito menos espaço, assim pode-se ter muito mais cabeças por sessão.
Por desconhecerem luxo e direitos, em vez de salas atapetadas projeta-se a película nas próprias granjas empoeiradas.
O escritor inglês, nas suas elucubrações, percebeu uma vantagem financeira adicional: as galinhas adoram milho. Portanto seriam consumidoras em potencial da pipoca.
Infelizmente, acabou descobrindo que as ovelhas inglesas têm um sindicato forte e exigem prioridade. Então, diante da imposição, resolve em vez de escrever novas peças, simplesmente adaptar trabalhos antigos. As ovelhas também poderão ver no cinema Mac Béééé e Roméééu e Julieta.

Novamente um texto baseado em notícia publicada no Correio Braziliense desta semana. Sempre às quartas-feira antes da 18 horas. - Ufa, hoje foi no sufoco. Quase apanhei do relógio.

01 fevereiro 2011

Moda de americanizar nomes

O resultado do vestibular é um momento que faz a felicidade dos que vêem seus nomes na lista, mas também leva muita gente a dar boas risadas. Nas listagens a criatividade de muitos pais fica evidente. Daí conhecemos Rennolly, Dasayanne, Heldemys, Sunshine Summer,Yacana, Mauriston, Wuppschandler,Deicksony e outros tantos, que além da dificuldade para conseguir escrever o próprio nome, podem até sofrer por term sido batizados de forma tão incomum. CB - Comportamento, 30/01/2011

Insuportável!
Já tinha sido assim no colégio, agora também na faculdade. Primeiro vieram os copos descartáveis. Depois garfos quebráveis, colherzinhas plásticas e facas sem corte. A coisa foi piorando. Gritos, xingamentos, desaforos. Aí vieram os pratos de papelão. Tudo era arremessado em mim quando eu entrava na sala de aula.
Foi piorando gradativamente a cada semana. Trocaram o permanente pelo descartável e o descartável pelo definitivo.
Passei a ser o lixo e os pratos de louça. Jogaram pratos de sobremesa, xícaras, travessas e açucareiros. Só entendi o que acontecia quando acertaram um bule na minha testa.
Era bullying!
Parece que a escola e a faculdade são os lugares onde atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos ocorrem com mais frequência. Toda turma se junta contra vítimas indefesas e isoladas. Pobres dos diferentes. Altos, judeus, gordinhos, orelhudos, narigudos, homosexuais. Em vez de zoação ou perseguição era bullying.
Apesar de se dizerem contra os americanos, na hora do batismo preferem palavras ou termos em inglês.
Este é o meu problema: Sou Edivaldo Uchoa Amaral. Quase todos os colegas carregam cás, dabelius e ipsilones nos nomes. Alguns repetem eles ou enes. Outros têm agás inusitados. Enquanto sou simplesmente brasileiro Edi. Menosprezado, desrespeitado, alvo de gozações.
Com medo de bolas de papel, eu me sentava acuado num canto da sala. Em seis meses de aula não participei de nenhuma roda de conversas.
Eu precisava sair do isolamento.
Para amenizar o constrangimento, comecei por procurar uma morena de dentes brilhantes que foi importunada nos primeiros dias de aula.
— Maria do Socorro, por que o pessoal te deixou em paz?
Explicou que o seu apelido sempre fora Mary Help.
Depois procurei pelo João Pedro e ele sacou a identidade e apontou orgulhoso: João Pedro de Olliveira com dois eles, ressaltou.
Minha outra abordagem foi a Rosecleide, amiga da Dannyelle.
— Oi Rose, seu nome Rosecleide Silva, não é mesmo?
— Sim e qual é o problema?
— Que sorte que não pegam no seu pé.
— Meu Silva é com ipsilone.
Só me restou ir à delegacia e prestar queixa.
Entregaram-me o formulário e na primeira linha escrevi meu nome.
O atencioso escrevente perguntou se meu apelido era Gringo.
— Por que seria? Tenho cabelos encaracolados, meus olhos são escuros.
— Justamente é o seu nome. Edivaldo Uchoa Amaral. Repare nas iniciais: Estados Unidos da América.
Gringo! Edu abriu um largo sorriso, rasgou a queixa e correu feliz para anunciar seu novo apelido.



Outro conto originado por notícia publicada no Correio Braziliense durante a semana. Sempre até as 18h das quartas-feiras, limitado a 2978 ± 19 caracteres.

30 janeiro 2011

Aspirina não resolve

Sem remover um único fio de cabelo, fizeram um rasgo diagonal no alto da minha cabeça. Quinze centímetros de comprimento. Um de largura e dois de profundidade.
Uma enorme chave de fenda foi colocada no rasgo e começaram a girar no sentido horário. Apertaram a minha cabeça um quarto de volta mais próxima do pescoço.
Ai, como dói a minha cabeça.

25 janeiro 2011

Ingleses brigam seis dias por semana


312 é a quantidade média de brigas que os casais têm por ano, segundo pesquisa britânica que ouviu 3 mil pessoas. Eles se enfrentam principalmente às quintas feiras, por volta das 20h. Os motivos incluem deixar a tampa da privada levantada e espalhar toalhas molhadas pela casa. CB – Tubo de ensaio, 22/01/2011



Sob a densa neblina é impossível enxergar os ponteiros do Big Ben, entretanto o som das sete badaladas é audível a grandes distâncias. Assim como não se enxerga dentro das casas londrinas, é possível escutar a, digamos, conversa do casal que acabara de sentar-se para desjejuar.
— Meu bem, o café está frio!
— Frio está você, atrás desse tablóide cheio de letras pretas.
— Isto não é um jornaleco qualquer. É o Daily Mirror. E aqui diz que os ingleses só brigam 312 vezes ao ano.
— E qual é o problema?
— É que você, darling, parece querer esgotar a nossa cota anual num único dia.
— Deixe de bobagem, Charlie, são apenas ajustes normais que um casal tem de fazer para viver em prazerosa concórdia.
— Que os nossos vizinhos não escutem, mas você já reclamou que não levantei a tampa do vaso, que deixei a toalha molhada sobre a cama, que não dei a descarga e... está resmungando o tempo todo.
— Você não fez por menos! Reclamou dos meus cabelos no ralo do chuveiro, da calcinha pendurada na torneira, da luz acesa no banheiro...
— E você, lady, ainda chama isso de ajuste?
— Está bem, é só uma pequena discordância multitemática.
— Uma discussão interminável para azucrinar o meu dia.
— Foi bom você lembrar. Estamos atrasados. Termine seu café e ponha o lixo para fora.
— O café além de frio, está horrível. E a lixeira está cheia além da capacidade. De novo!
— Por mim, eu ainda acerescentaria esse seu casaco velho e encardido.
— Você implica, só porque foi a minha mãe que deu ele para mim. Você esta indo para o quarto? Aproveite para trocar a sua blusa que está manchada.
Ela lançou um olhar fulminante, virou as costas e sumiu no corredor.
Nada como oponentes afastados um do outro por um tempo. Alguns minutos de silêncio, quando as pessoas se amam, podem trazer a harmonia e a paz duradoura.
Ele retorna o diálogo com palavras de carinho:
— Benzinho! Onde estão as chaves?
A resposta foi imediata.
— Pra que chave? Vendemos o carro na semana passada. Se lembra?
— Como a gente sai de casa sem abrir a porta?
O inimigo sentiu o golpe. Fez-se silêncio. Um silêncio para mudar a estratégia e preparar o contra-ataque.
Ouviu-se uma gaveta fechada com violência. Depois outra gaveta fechada com mais violência. Barulho de coisas arremesadas ao chão. Um palavrão resmungado. Depois outro palavrão.
Ann saiu do quarto e foi em direção do pobre Charles com os olhos faiscando ódio e suplicando compaixão.
Londres, Manchester, Liverpool, Birmingham e todo Reino Unido escutou o grito que veio cortante como o de um corvo no cemitério.
— Eu não tenho nada para vestir!

Ainda bem que isso só acontece na distante Inglaterra.
Meu Deus do céu! Eu nunca vou me casar com uma inglesa.


Outro texto com motivação em notícia publicada durante a semana no Correio Braziliense.

19 janeiro 2011

Número na cabeça



Na Estrutural, uma das cidades mais carentes do Distrito Federal, a inspiração dos jovens ao mudar o visual passa longe das celebridades dos campos e palcos. Agora, os pedidos mais comuns nas barbearias da região são artigos do Código Penal, números que representam a incredulidade – como o 666 –, além de listras que servem para identificá-los como integrantes de determinados grupos criminosos. CB – Comportamento – 16/01/2011



Por volta das seis horas da tarde de uma quarta-feira, a viatura encostou no meio-fio ainda com as luzes piscando e a sirene ligada. Parece que encontraram o grupo que constrange e ameaça com apologia ao crime. São facilmente identificados pelo corte de cabelo curtíssimo formando desenhos tribais. Os agentes saltaram empunhando armas e ordenando que os rapazes, que corriam na calçada, levantassem as mãos.
– Quietos aí. Não se movam! De costas! Encostem na parede! Mãos pra cima!
– É para não se mover ou levantar as mãos?
Sob a ameaça da arma de um dos policiais, os outros dois começaram a revistar os quatro elementos imobilizados.
– Documentos! – Gritou o homem com a ponto 40 destravada apontando o meliante mais próximo.
Habituado á falta de gentileza, o garoto de pele parda estava mais calmo que os agentes. – Posso botar a mão no bolso para pegar o documento?
Sem responder o policial consentiu gesticulando com arma.
O agente de polícia observa a cabeça raspada em recortes imitando as tatuagens agressivas e assustadoras.
– O que é isso na sua cabeça?
– É a nova moda.
– O que significa esse 666?
– Besta.
O policial dá um safanão na boca do delinquente. – Me respeita!
– 666 é o número do apocalipse. Da Besta.
– E tu? – Cutucando com a pistola – Pensa que me assusta com esse 148 recortado no cabeção? Tô sacando! Código Penal, Artigo 148: Sequestro e cárcere privado.
– Que é isso seu guarda, tá me estranhando? Sou da paz. Eu moro naquela casa, aí da frente. Pode olhar: número 148.
– E tu? – Cutucando o terceiro – Exibindo terror para cima da comunidade? Tô de olho! 155 de um lado e 121 do outro. Não nasci ontem. Furto e homicídio.
– Sou sangue bom! Trabalhador. Dou um duro danado para sustentar a minha lôra. Tenho que levantar às 4 da matina, preparar a matula e pegar o busão às 4 e meia. 155 é o número da linha na ida. Na volta pego o 121. Tudo lotado.
O quarto elemento nem se mexia, parecia mais assustado.
– Tira o capacete!
– Que diabos de números são esses? 4348? Se reponder cavalo e elefante, vai levar um catiripapo no pé do escutador, só para ficar esperto.
– Pega leve. Sou motobói. Entrego pizzas.
– Agora só falta me dizer que a pizzaria tem 4.348 opções. – Ou vai me dizer que 4348 é o número da pizza calabresa tamanho grande?
– Eu estava dizendo que sou entregador de telepizza e esse é o número do telefone.
– 4348? Tá gozando com a minha cara?
– São quatro 3 e quatro 8. 3333-8888.
Os homens uniformizados se entreolharam e o que parecia ser o chefe da operação ordenou:
– Três três um. Todos presos por desacato à autoridade.
Outro conto baseado em notícia publicada no Correio Braziliense desta semana.

12 janeiro 2011

Medo de fobia



Existem centenas de tipos de fobias, mas elas costumam causar sintomas parecidos, como falta de ar, sudorese fria, e batimentos cardíacos acelerados. Segundo especialistas, quando o problema traz para o paciente um prejuízo contínuo, é hora de procurar ajuda. Existem cerca de 300 espécies de fobias. Eis algumas: Ablutofobia – medo de tomar banho; Astrofobia – medo de trovões e raios; Catoptrofobia – medo de espelhos; Motefobia – medo de borboletas e mariposas; Somnifobia – medo de dormir. CB – Saber viver, 11/01/11



O doutor Zigmundo Froide instalou uma placa com letras douradas na porta da sala recém adquirida: PSICANALISTA especialidade medos e fobias. Entre sem bater.
Muitos médicos escolhem a especialidade em decorrência da própria vivência. É natural que alguém com inúmeros casos de câncer na família escolha ser oncólogo. Um moleque vivia engessado de tanto osso quebrado estudou e especializou-se ortopedista. Zig sempre era surrado pelos irmãos por isso mandou escrever na placa: entre sem bater.
A primeira paciente do psicanalista foi uma moça lindíssima que afirmou ter ojeriza a ratos e camundongos. O doutor apontou o divã e iniciou uma palestra sobre os malefícios, doenças, peste e raiva transmitidas pelos roedores. Por tudo isso, o medo era muito natural. Nos casos extremos de pavor a doença recebia o nome de surifobia. Após o discurso perguntou sobre a origem do problema. Perguntou se ela foi mordida por um rato quando criança.
A moça revelou que amava o hamster de estimação. O problema era com Mickey Mouse e colegas. Odiava Jerry tanto quanto o Tom. Considerava nojento um rato cozinheiro, como o Remy, de Ratatouille. Os amiguinhos de Cinderela, Bernardo e Bianca eram insuportáveis. Níquel Náusea era intragavelmente ácido. E que o mexicano Ligeirinho como seu "arriba, arriba" era repetitivo.
Dr. Zig, intempestivamente determinou que a paciente deveria liberar os gatos como Frajola, Manda-chuva, Garfield e Felix. Abriu a porta encerrando a sessão.
O paciente seguinte, um adolescente com uma enorme franja nos olhos, disse que tinha fobia a Justin Bieber, Luan Santana, Fiuk e Rick Martin. O psicanalista levantou a franja do meninão, olhou-o nos olhos.
— Seu problema é a inveja. Em seguida pediu para a secretária encaminhar outro paciente.
Entrou um sujeito manco, engruvinhado na timidez.
— Qual seu problema?
— Tenho pavor a sapatos pretos. Sou obrigado a usá-los. Fazem parte do meu uniforme.
— Compre sapatos dois números acima. Próximo.
— Doutor, não consigo pegar em dinheiro.
— Esse medo recebe o nome de misofobia. Medo de germes ambientais. O multimilionário Howard Huges sofria terrivelmente com a enfermidade. Tanto ele quanto Michael Jackson usavam luvas para se proteger do medo de tocar em dinheiro contaminado.
— Meu problema é outro. É que o dinheiro nunca chega às minhas mãos. Me arruma algum?
— Oras, não me amole. Vá trabalhar! Próximo.
— Doutor Froide?
— Sim. Qual o seu problema?
— Tenho medo de psicanalistas.
Apontou o revólver e atirou. Perguntou pelo próximo.


Outro conto inspirado em uma notícia do Correio Braziliense desta semana. A publicação no blog é sempre às quartas-feiras antes das 18 horas. Como numa coluna de jornal, o tamanho é fixo entre 2957 e 2997 caracteres.

05 janeiro 2011

Consulta a Nostradama



Depois de a prestigiada Journal of Psichology publicar um artigo no qual o pesquisador Daryl Bem, da Universidade de Cornell, afirmar que, sim, é possível predizer o futuro. Ainda argumentou: o que eu sei é que os dados que obtivemos indicam que é possível prever o futuro, mas é necessário mais investigação para explicar solidamente esse fenômeno. CB – Ciência 31/12/2011
Para tudo existe a primeira vez. A primeira sopa de espinafre, o primeiro galo na testa, o primeiro logro, a primeira transa, a primeira falha, a vigésima desculpa. Naturalmente, nem tudo acontece ao mesmo tempo e nem sempre nos lembramos da estréia de todos os fatos na nossa vida. Eu, por exemplo, não me lembro de ter encontrado com o síndico sem um pedido para aumentar a taxa de condomínio. Talvez a primeira vez nem tenha existido.
Pois o meu amigo se lembra da primeira ida a uma astróloga. Disse que na porta da frente havia um cartaz anunciando que Dona Safira predizia o futuro através da leitura de búzios, tarot ou bola de cristal. R$ 100,00 adiantados.
Jotabê é um sujeito incredulamente crédulo. Ou seja, desconfiado como roceiro quando vê uma escada rolante pela primeira vez. Vê, desconfia, examina, passa a acreditar e confiar. Aí sobe e desce como se houvesse escada rolante no galinheiro.
Tocou na campainha e uma mulher enrugada estendeu a mão cheia de anéis e ofereceu uma cadeira ao meu amigo. Este, sem dizer palavra, observou detalhadamente o ambiente multicolorido de velas e cheiros. Sentou-se na frente da mulher de vestido estampado de flores lilás e entregou uma nota verde.
– Eu quero que a senhora diga quantas moedas eu tenho no bolso da minha calça.
Ela recolheu as cartas e juntou num montinho. Fixou o olhar nos olhos de Jotabê e disse:
– O número de pratas do seu bolso reflete um ato passado que quer fazer presente. No cartaz está claro que Dona Safira prevê o futuro, não adivinha o agora. Entretanto eu antevejo que você vai tirar as moedas do bolso na primeira oportunidade.
Meu amigo colocou a mão no bolso e mostrou uma moeda do tempo do Império.
– A senhora acertou. É prata, sim. Eu vim aqui para saber do meu destino na empresa em que trabalho.
– Você ainda não faz por merecer uma promoção. – Foi a resposta rápida. – São cem reais.
– Mas a senhora nem consultou as cartas, os búzios ou a bola!
– Não é preciso. É uma resposta padrão. Nada se consegue sem esforço.
– Onde estão os búzios?
– Minha filha levou. Outra pergunta. Mais cem reais.
– Mas isso é picaretagem. A senhora não é astróloga coisa nenhuma.
– Em nenhum momento eu disse isso. Você entrou, me deu cem reais e deduziu que eu era a minha filha. Eu deduzi que ia ganhar dinheiro fácil.
Jotabê disse que se levantou, falou dois palavrões, virou as costas, saiu e bateu a porta.
Odiou-se pela nota perdida, pela moeda esquecida, pela fé abalada e principalmente por ter sido logrado com tanta estupidez.
Se as pessoas pudessem prever o futuro, ele não entraria por aquela porta, nem a primeira vez.


O Ano Novo chegou. Com ele renovam-se as energias para ser publicado numa grande mídia.
Acima, mais um conto inspirado em uma notícia do Correio Braziliense desta semana. A publicação no blog é sempre às quartas-feiras antes das 18 horas. Como numa coluna de jornal, o tamanho é fixo entre 2957 e 2997 caracteres.

29 dezembro 2010

Indulto improdutivo

Oitocentos e noventa e cinco presos serão beneficiados com a saída especial de Natal, de acordo com dados preliminares da Subsecretaria do Sistema Penitenciário (Sesipe) da Secretaria de Estado de Segurança Pública do DF (SSP-DF). Eles serão liberados amanhã, às 10h, e devem retornar 72 horas depois, ou seja, às 10h do dia 27. CB - Saidão de Natal, 23/12/2010


– Viu só, Mané, que sacanagem. Os homens de beca nem respeitam a gente. Num vai dar tempo. Vamos ter que ser muito rápidos. Não gosto de fazer as coisas assim no grito. Pá e buf!
– Num saquei.
– Tá aqui no jornal. A gente só será liberado depois da dez da matina.
– E daí?
– Tu é muito Mané mesmo. Tem que ficar enjaulado pra aprender!
– E?
– É muito pouco tempo. Tá aqui ó! As lojas fecham às cinco.
– Onde tu quer chegar?
– Se liga rapá! Até o cara achar a chave e abrir o portão vai dar meio-dia.
– Se explica logo!
– Quer que eu faça um desenho?
– Quero que seja claro!
– Tá bom! Entre sair daqui e chegar até as lojas vamos ter muito pouco tempo. E amanhã é Natal. É nossa última chance.
– Tu acha que a família vai ficar chateada se tu chegar em casa sem presente?
– Ai meu Santo Deus! Quero sair logo daqui. Não guento ficar junto dum cara burro como tu.
– Me respeita!
– Tu num percebeu ainda que o tempo tá muito curto. As lojas fecham às cinco. A gente só chega na cidade lá pelas três. São só duas horas de loja aberta. Sem escolha! É entrar na primeira e resolver a parada.
– Tu faz assim ó: escreve num papel os nomes das pessoas para quem vai comprar presente. Na dureza que a gente tá, o melhor é ir numa loja de 1,99.
– Ninguém merece!
– Acho que tua mulher vai entender. O principal é não chegar de mãos abanando. Ela vem aqui toda semana trazer conforto. Ela sabe como são as coisas aqui. Sabe que tu tá mais duro que cassetete nas costas. Vai numa loja de 1,99 e escolhe um presente bonito. Mulhé gosta de perfume. Eu se fosse tu, escolhia um com cheiro de violeta.
– Tu tá de olho na minha horta?
– De jeito nenhum. Mulher de amigo meu, pra mim é homem.
– Tu tá insinuando que minha mulher é macho?
– Não. Eu apenas disse que nem olho por mais gostosa, eu respeito.
– Tu é muito abusado!
– Deixa quieto. A gente tava falando da nossa saída do Natal. Que tu vai ter pouco tempo para chegar até a cidade, procurar uma loja e escolher presente pro seu pessoal. Tu pode comprar um cedê para dançar um forró com a tua nêga. Fácil, barato e rápido.
– Eu gosto de fazer tudo direitinho, planejado.
– Já falei. Anota num papel e pronto. Tó aqui, tem o da minha carteira de cigarros.
– Eu não acredito!
– Tu não sabe escrever? Eu anoto. Qual é o nome dos seus filhos?
– Eu quero sair logo daqui. Tu é muito ignorante. – Dirigiu-se para a grade e gritou: – Guarda! Guarda! Me tire daqui!
– Calma. Se acalma. Olha o bom comportamento. Amanhã a gente sai. Falta pouco.
– Eu lá quero comprar presente! Será que tu não percebeu ainda que as lojas tão cheias de grana e que a gente só tem umas poucas horas para fazer a féria antes das lojas fecharem?



Outro conto cheio de ironia e humor motivado por notícia publicada no Correio Braziliense nesta semana.
Sempre às quartas feiras, antes das 18 horas e com conteúdo entre 2959 e 2997 caracteres.
E daí? Daí que viso um espaço como colunista remunerado.

28 dezembro 2010

Sapos, rãs, jias, pererecas e outros familiares



Nos hospedamos em um hotel à beira de um rio. Quando escureceu todos os anuros afinaram suas gargantas e, como num enorme coro sem maestro, desafinaram e barulharam a noite. Tanto que tivemos que aumentar o volume da nossa conversa. Num determinado momento, nós dois, ao mesmo tempo, lembramos de fechar a janela. Nós co-achamos de acabar com a festa dos sapos.

22 dezembro 2010

Mona Lisa e o relógio
















Esta semana, especialistas do Conselho Nacional de Valorização do Patrimônio Cultural e Ambiental da Itália anunciaram a descoberta de um novo detalhe na pintura da Mona Lisa: letras muito pequenas, imperceptíveis a olho nu, gravadas nas pálpebras de Mona Lisa. A novidade pode resolver um dos maiores enigmas que cercam o quadro. CB – Ciência, 18/12/2010


Entra ano, sai ano, o quadro da Mona Lisa é alvo de especulações e histórias polêmicas.
Falam que o sorriso é resultado de uma gravidez ou de que havia dado à luz há pouco tempo em função do véu típico de gestantes do século XVI. Sugerem que o rosto seria um auto-retrato do pintor vestido de mulher com a alegação de que o artista seria gay. O escritor Dan Brown defendeu a tese de que o nome da retratada é um anagrama para Amon l'Isa, em referência a antigas divindades egípcias. Historiadores franceses afirmam que Napoleão Bonaparte teria se apaixonado pelo quadro e que teria mandado pendurá-lo em seus aposentos. Conforme os jornais da época, Vincezo Peruggia furtou o quadro do Louvre para repatriá-lo à Itália. Os tablóides contam como ele fazia sexo com Mona. Para se opor à unanimidade, um psicopata jogou ácido sobre ela, danificando parte inferior da obra.
A relação de histórias curiosas é longa e não cabe em um único parágrafo. Por isso respire fundo antes de recomeçar a ler outras particularidades ou indiscrições.
Estudiosos afirmam que Mona Lisa, pintada em 1506, é Lisa Gherardini, mulher de um rico comerciante de seda de Florença. Já um historiador comprova que a obra foi pintada em 1489 e que a mulher por trás do sorriso famoso é Isabel de Aragão, Duquesa de Milão. Sigmund Freud interpretou o sorriso como sendo uma atração erótica subjacente de Leonardo pela mãe.
Por tantas informações e especulações resolvi ir direto à fonte. Telefonei para Mona Lisa. Não me perguntem o número. Nem sob tortura direi.
A nossa conversa foi bastante rápida. Eu mal a entendia por não falar italiano medieval. Ela estava bem humorada e disse que que parecia que o povo não tinha mais o que fazer, que a deixassem em paz. Que adorava Léo, mas que jamais tivera um caso com ele. Que Léo além de pintor, escultor, anatomista, cientista e inventor também era piadista. Era maravilhoso posar para o iluste artista que contava anedotas enquanto enchia a tela de cores. Ele me perguntou se eu sabia a semelhança entre uma grávida e uma tartaruga com um relógio amarrado às costas. Como eu poderia saber se o relógio ainda não havia sido inventado? Ele riu, dizendo que as duas não viam a hora. Daí ele inventou o relógio, depois colocou-o numa pequena caixa, presenteou-me e pendurou-o no meu pescoço. No quadro o relógio indicava cinco horas. Hora de término da sessão. Depois ele resolveu apagar o relógio do quadro pois o mundo não estava preparado para a falta de tempo. Foi nesse clima de bom humor que pintou o meu sorriso. Apenas isso. Não há enigmas, apenas a felicidadade.
Aí, acabou a bateria do meu celular.




Orgulhosamente apresento mais um conto cheio de humor motivado por notícia publicada no Correio Braziliense nesta semana.
Sempre às quartas feiras, antes das 18 horas e com conteúdo entre 2959 e 2997 caracteres.
E daí? Daí que viso um espaço como colunista remunerado.

15 dezembro 2010

Xixi fora de hora


A literatura médica registra que entre 2% e 25% das crianças do mundo sofrem de disfunção do trato urinário inferior (DTUI). Para ter uma idéia da faixa em que o Brasil se posiciona nesse espectro, Giovana Teixeira Branco Vaz, professora da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, entrevistou 739 crianças de três escolas públicas. “O estudo apontou uma prevalência de 21,8%, ou seja, mais de um quinto delas é afetado”. CB – Saúde, 13/12/2010.

Teresa Cristina Tavares Miranda recebeu um telefonema da escola e saiu às pressas do trabalho para buscar Glorinha na escola. Glorinha chorava muito. Ela não estava com febre, nem havia sido mordida por nenhum coleguinha. Durante a aula fez xixi e se molhou toda. Deixou uma poça amarela sob sua cadeirinha azul. Não era a primeira vez que isso acontecia. Acontecia com frequência. Naquela semana era a terceira vez. E ainda era quarta-feira.
Apesar de ser loirinha de cabelos cacheados e dos olhinhos azuis, Glorinha era rejeitada por seus coleguinhas. Ninguém queria se sentar ao seu lado. Não emprestavam um lápis ou um caderno. Até Luciana, sua única amiga se afastou. Reclamavam que ela fedia a mijo.
Levaram a menina para um tratamento com um fisioterapeuta que rapidamente encontrou solução para o caso que já virava um pesadelo.
Em pouco tempo Glorinha estava totalmente recuperada. Voltou a sorrir e se relacionar bem com a turminha. Para a festa junina da escola foi escolhida para ser a noiva do casamento caipira.
Tudo parecia caminhar para um final feliz na casa da família dos Tavares Miranda. Parecia. Não foi bem assim. O xixi voltou a incomodar como uma cachoeira. Nem julgue você que o fisioterapeuta não trabalhou direito. Nem pense que a Glorinha voltou a se molhar. A história agora foi com o Pedrinho, irmão mais velho, 11 anos.
Pedrinho sempre fora problemático. Foi suspenso na escola por ter sido flagrado fumando no pátio. Um vizinho reclamou por ter visto o menino aos beijos com a filha de doze. Até o padre, tão piedoso, estava incomodado por Pedrinho insistir em chamá-lo de desinteressado sexual.
Quando estava no meio de uma reunião no trabalho, o doutor Tavares Miranda, jovem pai do Pedrinho, recebeu um telefonema da secretaria do clube dizendo que deveria procurar o diretor imediatamente por causa do xixi do Pedrinho.
Não recebeu maiores explicações. Percebeu pelo tom de indignação que o assunto era grave. Ameaçavam o filho de expulsão. Só porque fez xixi na piscina. Um absurdo!
– Todo mundo faz xixi na piscina. Homens e mulheres. Velhos e crianças. Por que Pedrinho não pode? Isso é pessoal! – Resmungou indignado.
Pegou o carro no estacionamento. Como pai, pensou em arregaçar as mangas para brigar com o diretor. Como advogado, esboçou mentalmente um processo judicial contra o abuso de autoridade.
Quando chegou ao clube nem pediu permissão. Entrou logo na sala do diretor.
– O que você tem contra o meu filho? Botando o dedo em riste. – Todos mijam na piscina!
– Mas não da torre de saltos.

Orgulhosamente apresento mais um conto cheio de humor motivado por notícia publicada no Correio Braziliense nesta semana.
Sempre às quartas feiras, antes das 18 horas e com conteúdo entre 2959 e 2997 caracteres.
E daí? Daí que viso um espaço como colunista remunerado.
 
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