30 setembro 2013

Boca do inferno

Boca do Inferno

Ana Miranda
336 páginas
Companhia das letras
40 jimbos

Ultimamente quando termino a leitura de um livro procuro escrever a minha percepção.
O Boca do Inferno da Ana Miranda é leitura obrigatória para os vestibulandos já a algum tempo, por isso tive curiosidade para conhecer o conteúdo , mas sempre acabei por escolher do mesmo  - aquilo que efetivamente  já sei, de antemão, que gosto. É nessas horas que eu me alegro de participar de um grupo de leitura onde os livros são indicados pelos participantes.
Eu, francamente não tinha a menor ideia do que iria encontrar pela frente, ao contrário de um amigo, que quando comentei a minha leitura e ele imediatamente lembrou  que deveria ser sobre o Gregório de Matos, que conforme aprendera nas aulas de literatura, era o apelido do poeta.
De fato é a biografia ficcionada do poeta ambientada em Salvador no século XVII.  A história é resultado de profunda pesquisa e por isso mescla momentos de história e costumes do Brasil colônia. Resgata a história de um advogado e poeta que satiriza e acusa em versos o cruel governador que tem como prótese um braço de prata. A história revela intrigas de corrupção, vingança e poder eclodidas a partir do assassinato do alcaide-mor. Os acusados e perseguido são a família Ravasco que tem um membro para lá de conhecido na literatura: Padre Antônio Vieira.
A leitura não flui por recuperar muito vocabulário de época, obrigando-nos a tentar adivinhar o sentido de muitas palavras. Tive má vontade até a trigésima página quando resolvi assinalar os arcadismos e criar uma espécie de glossário particular. Também foi o momento em que resolvi desligar o celular, tirar o relógio do pulso e entrar numa carroça para viajar no tempo. Então procurei assimilar os cheiros e mastigar os sabores da história. Concluí que os personagens, os cenários e o entrelaçamento da biografia com a História são incríveis.
Apesar de todos os merecidos elogios, confesso que, para mim a leitura foi dificultosa até o final e precisei de vontade férrea para concluir a tempo de discutir o livro no clube de leitura.
Tenho orgulho de ter conhecido e conversado longamente com a autora em 2007. O trabalho, premiado com um Jabuti, realmente é digno de ser considerado um dos cem melhores romances da língua portuguesa do século XX.
Se você é persistente, goste de ler e de história este é um livro que vai acrescentar muito ao seu prazer e conhecimento.

Palavras de Boca do inferno de Ana Miranda - 5.a edição
açucena
61
Planta ornamental - flor
adufa
75
Anteparo externo das janelas, feito de ripas que não se tocam
agoin

Tribo da Costa do Ouro , África, de onde vieram muitos escravos para a Bahia. Os homens eram considerados exímios pescadores e mulheres perfeitas cozinheiras e muito bonitas com a cor de azeitona.
albarda
104
Sela rústica para bestas de carga
alcouce
33
bordel
aldraba
92
Tranca ou tranqueta de porta, janela, etc; Argola ou maça de metal com que se bate às portas para que abram; batente.
alimária
95
Animal, sobretudo quadrúpede.
almotacé
85
oficial municipal encarregado da fiscalização das medidas e dos pesos e da taxação dos preços dos alimentos
alpujarras
77
Pessoa vinda de Alpujarras, na Andalucía, sul da Espanha.
antífona
270
Versículo cantado pelo celebrante, antes e depois dum salmo.
arcabuz
259
Espécie de bacamarte
asnaval
55

bandurrilha
317
Cara de bandurrilha
bergantim
240
Embarcação movida à vela e a remos.
borzeguim
61
Botina cujo cano se fecha com cordões
cabriloé
89
Carruagem de 2 rodas e capota móvel, puxada por 1 cavalo.
cachaporra
41
Objeto utilizado como arma; clava; tacape; pau de bater; cacete.
calhau
317
Fragmento de rocha dura maior que o seixo.
canaz
76
canaz é uma flexão de cão: Indivíduo de extrema força e raça.
carafa
66
Tipo de taquara fina.
catano
42
ca.ta.na é uma Pequena espada curva. Catano???
caterva
41
corja
charrua
89
Arado grande, de ferro.
chularia
296
Falar de chularias – falar palavrões
cilício
102
Cinto ou cordão de lã áspera, us. sobre a pele como penitência.
corsário
64
Não sou pirata, sou corsário. Corsário: Navio, ou homem que faz o corso. Corso: Ataque ao tráfego comercial do inimigo, realizado por navio de guerra ou navio mercante armado.
credência
75
Algum tipo de móvel de madeira.
culatrina
42
Cu. culatra:1. O fundo do cano de arma de fogo.
2. A parte posterior do canhão.
donaire
86
Gentileza, garbo.
embiocada
33
Donzela embiocada
embuço
91
Parte da capa ou do manto com que se pode cobrir a face. 
endechas
270
Poesia triste
enxovia
53
Cárcere térreo ou subterrâneo, escuro, úmido e sujo.
escanção
189
O que reparte vinho entre os convivas.
fanchono
229
 homem que procura prazeres nos indivíduos do próprio sexo
ferrão
42
O mesmo que aguilhão: 1. A ponta de ferro da aguilhada; ferrão.
2. Ponta aguçada; bico.
figurilha
317
1 Pequena figura. 2. Bigorrilha. 3 Fraca-figura....
fodinchão
126
Fodido. Usado como superlativo para mais e para menos.  
galicado
84
atacado de sífilis; que tem doença venérea;
garraio
89
Bezerro ainda não corrido e não matreiro. Fig. Homem inexperiente, novato...
gelosia
164
Grade de tabuinhas de madeira paralelas a intervalos, que ocupa o vão duma janela.
gladio
77
Espada de 2 gumes; espada.
granacha
12
vestimenta longa, usada por monges, magistrados. Pessoa que usa a granacha.
guadunhas
317

guedelha
91
Cabelo desgrenhado e longo.
jimbo
260
Dinheiro e, primitivamente um marisco com valor de moeda entre os negros
labrego
91
Diz-se de, ou indivíduo rude, grosseiro.
lambaz do ralo
268
Lambedor de onde sai a água de esgoto
lava-rabos
42
puxa-sacos no sentido figurado
léria
102
mentiras, palavras vazias; ato sem fundamento
madraço
96
O mesmo que mandrião; preguiçoso, vadio, malandro.
magano
227
Diz-se de, ou indivíduo jovial, engraçado.
mariola
37
Malandro, velhaco. Aqui entre nós é um doce em tabletes, feito de banana ou goiaba
marrano
202
se refere aos judeus convertidos ao cristianismo dos reinos cristãos da Península Ibérica
mazombo
227
tristonho; taciturno; sorumbático;
mofina
102
Mulher desditosa, infeliz; Mulher acanhada, tacanhaAvareza, mesquinhez. Artigo anônimo difamatório. Mulher indesejada. (não é prostituta, trata-se de aspecto físico e/ou de conteúdo) Infeliz, desgraçado; Avarento, sovina; Doentio, enfermiço.
néscio
33
Que não sabe; ignorante, estúpido, incapaz, inepto
odre
80
Saco feito de pele, para transportar líquidos. Cantil.
palangana
120
Tabuleiro onde são levados os assados à mesa.
palanquim
226
Espécie de liteira
paludismo
215
malária
pantomima
126
Mímica; Peça em que o(s) ator(es) se manifesta(m) só por gestos, expressões corporais ou fisionômicas; mímica.
pantufo
126
Homem gordo e barrigudo.
parlenda
127
Conjunto de rimas infantis, de caráter lúdico e ritmo fácil, Ex.: Um, dois, feijão com arroz. Três quatro, feijão no prato. Cinco, seis, é minha vez. Sete, oito, de comer biscoito. Nove, dez, ou de comer pastéis.
pasguate
38
Idiota; pacóvio
patarata
229
ostentar algo de maneira ridícula ou de dizer uma mentira para alardear vantagem.
pechilingue
87
Instrumento com que o sapateiro faz os furos individualmente para cravar os pinos no calçado. Ler, pronunciando separadamente as letras. Ler mal ou com dificuldade. 
peralvilho
33
Letrados peralvilhos
poião
32
Sentou-se no poião da porta;
pucarinho
229
Pequeno vaso, diminutivo de púcaro.
pulcro
229
Excessivamente belo; em que há beleza; formoso.
radicolho
229

rascoa
64
1 Cozinheira. 2 Meretriz... (Filhos de uma rascoa)
salvajola
37
variante de "selvagem"; mariola: velhaco
sandeu
33
Idiota, parvo, tolo.
sege
37
Coche com 2 rodas e um só assento.
serpentina
31
É uma espécie de liteira simples onde num varão é pendurada uma rede que é conduzida por dois escravos. Na rede deita-se o senhor.
sicofanta
190
Pessoa mentirosa, difamadora, delatora, velhaca
sodomita
317
Relativo à cópula anal
surrão
37
Bolsa ou saco de couro bastante usada; Roupa suja e gasta.
tafularia
41
 coisa ou pessoa taful; luxo ou esmero exagerado, ger. de mau gosto - cafona
tronga
193
Não saber fazer coisas simples, ser parva, burra; Meretriz, barregan, concubina
vaganau
229
vadio, vagabundo; Mariola de carregar; Indivíduo corpulento, alambazado. Maroto, maganão. 
vedor
223
1. Que vê, inspeciona ou fiscaliza. 2. Administrador, inspetor, fiscal, intendente: vedor da casa real.
vitualhas
283
víveres
zancos
126
Pernas de pau
zotíssimo
125



Em branco as palavras não encontradas no dicionário nem Internet.

30 junho 2013

Lombinho de porco com batatas-doces


Não sou de postar no facebook o meu dia-a-dia. Ainda não aprendi a dizer bom-dia FB nem boa-noite FB, tô com soninho, vou dormir.

Hoje vou abrir uma exceção. Tomei uma dose de Seleta com estômago cheio de apetite. Isso fez a diferença.

Moro sozinho. Não tenho assalariada que me faça as vontades nem lave minhas roupas ou passe um pano no chão. Opção minha. Se bem que às vezes seria tããããão bom! Nem sempre há sobras de restaurantes na geladeira ou mesmo paladar para repetir miojo ou lasanha congelada. Acho absurdo apelar para as caixinhas chinesas ou entregadores de pizza na hora do almoço. Por isso uma vez ou outra eu sou obrigado a pilotar o fogão. Hoje foi o dia. Gosto de comer bem.

Escrevi enquanto o forno assava.

Entrei na cozinha às 11h45 para elaborar o menu. Olha aqui, olha acolá.

Coloquei um lombinho de porco do freezer para descongelar no micro-ondas. Enchi uma panela para ferver água. Descasquei quatro batatas doces e cortei em rodelas para ferver na água. Espremi uma laranja sobre o lombinho descongelado e salguei. Liguei o forno no máximo. Enquanto cozinhava a batatas e a carne tomava banho no suco de laranja aproveitei para descascar duas cebolas e o equivalente a um polegar de gengibre. Piquei as cebolas e o gengibre no processador até que ficassem como uma pasta densa.

As batatas demoram um pouquinho para cozinhar, mas não deixe esfarelar. E aí o que fazer enquanto não cozinham? É hora de abrir o apetite com um aperitivo. Se fosse de noite eu optaria por meio cauboy, como era dia optei por uma dose de Seleta. A louça implorava para ser lavada. Aleguei que eu estava ocupado tomando uma. Ela argumentou que se eu não fizesse agora teria de fazê-lo depois do almoço, naquele momento em que bate o sono dos satisfeitos. Esvaziei a bancada da louça suja e enchi o secador com louça limpa. Espetei uma batata com um garfo e julguei que estava no jeito, nem dura nem desmanchando.

Peguei o meu maior pirex – aquele de fazer a lasanha familiar – e molhei o fundo com azeite.

Derramei as batatas-doces numa giga peneira para escorrer toda a água. Fiz um leito de batatas sobre o azeite. Pousei o lombinho sobre as batatas e derramei o suco de laranja sobre ele. Com uma colher revesti a carne de cebola picada, era muita cebola. Então usei o restante para espalhar sobre as batatas-doces.

São 12h30 e coloquei a vasilha no forno. Liguei o marcador de tempo para 25 minutos. Meia hora deveria ser o suficiente, mas gosto de dar uma conferida antes da hora.

Me servi de mais meia dose de Seleta e vim para o micro escrever a receita.

Não é por nada não, mas ficou muito bom. Farei para o próximo jantar, por isso anotei a minha aventura culinária.

20 maio 2013

Aprender a rezar na Era da Técnica

Aprender a rezar na Era da Técnica


Do português Gonçalo M. Tavares

Editora Companhia das Letras

356 páginas

Paguei R$45,00

Li em 6 dias



Foi o livro mais surpreedente que li nos últimos tempos. Aborda e entrelaça com profundidade dois temas fundamentais para a humanidade: poder e morte.

Em dezenas de pequenos capítulos, que podem ser lidos quase que independentemente, há uma sequência de lições poderosas e chocanates.

O início do romance é um soco maquiavélico até para o mais liberal machista da face da terra:

“O pai agarrou nele e levou-o ao quarto de uma empregada, a mais nova e mais bonita da casa.

– Agora vais fazê-la, aqui à minha frente.

A criadita estava assustada, claro, mas o estranho é que parecia que ela estava assustada com ele, e não com o pai: era de facto de Lenz ser um adolescente que assustava a criadita e não a violência com que o pai a disponibilizava ao filho, sem qualquer pudor, sem sequer ter o cuidado de sair. O pai queria ver.”

A intenção não era a iniciação sexual do filho. Era uma aula na iniciação do poder sobre os mais fracos através do sexo.

Entre outras aulas de poder, o pai avisa que:

“– Nessa casa o medo é ilegal.”

E assim, de lição em lição, o nosso protagoniista é diplomado com louvor. Transforma-se em um homem que dispensa emoções e é destituído de sentimentos bons ou ruins, a ponto de incomodar-se com elogios ou agradecimentos. Chega a formular teorias próprias: “os homens poderosos só não matariam na rua, à frente de todos, um vagabundo, com as próprias mãos ou com uma arma, porque não queriam humilhar em público as leis do país, já que de certa maneira eram elas que, em alguns pormenores os protegiam.”

A narrativa segue num cenário que poderia ser a Alemanha no período entre-guerras. Os personagens são pouquíssimos: Lenz Buchmann – o exemplar cirurgião que troca a medicina pela vice-presidência do partido político. A fidelíssima secretária Julia Liegnitz e seu irmão surdo-mudo. Hamm Kestner – poderoso presidente do partido. Rafa, o louco e ainda Friederich Buchmann que, apesar de morto, está presente em quasse todos os atos de Lenz. Não cito a mulher e o irmão do protagonista porque este os queria apagados.

A história se desenvolve com o surgimento de uma doença e o consequente enfraquecimento do protagonista e aí surge o último personagem que é a morte.

O autor propõe reflexões sobre o comportamento humano sem preocupações de apresentar construções frasais para deleitar os estudiosos literários.

Lentamente, em pequenas lições a morte combate o poder sem pemitir negociações. Em tensão crescente o autor desenvolve o romance para várias possibilidades de fechamento e mesmo assim consegue surpreender.

De tantas reflexões, é o tipo de livro que só se fecha muito tempo depois de ser lido.

Se você tiver estômago, recomendo com entusiasmo.

30 abril 2013

O retorno

Dulce Maria Cardoso

Editora Tinta da China

Capa dura e 272 páginas

R$ 37,90



A contracapa informa que este foi o livro do ano em Portugal com o Prêmio Especial da Crítica em 2011. “Que em 1975, um ano após a Revolução dos Cravos, Portugal perde suas colônias. Em poucos meses, o país recebe mais de meio milhão de retornados, que de uma
hora para outra precisam abandonar suas casas.” E é nesse contexto que o adolescente e narrador nascido em Luanda, capital de Angola conta sua trajetória pessoal.

Não é a primeira vez que encaro um texto com português de Portugal. Aluguer é aluguel. Connosco é conosco. Mota é motocicleta. Bazar é vazar no sentido de sair. Nada que assuste. São palavras bastante óbvias que não merecem nem uma pequena parada de estranhamento. Este livro é um pouco diferente por somar o lusitano angolano e o narrador introduz dizeres do quimbundo – língua nativa de Angola. Matabicho é desjejum. Geleira é geladeira. Machimbombo que em Portugal é autocarro para nós é simplesmente carro. A expressão “vai dar maca” significa que “vai dar problema”. O estranhamento passa logo e a leitura flui com naturalidade. A linguagem é simples e acessiva. Não há metáforas, figuras de linguagem ou rebuscamentos para tornar a linguagem literária. É uma história contada por Rui, uma pessoa do povo.

Rui é um adolescente quase alienado ao que acontece em torno de si. Talvez alienado não seja a palavra correta. Ele é um adolescente que percebe e vive as transformações típicas de qualquer adolescente: as transformações hormonais. Nesse contexto e convivência percebemos que as grandes transformações históricas e políticas e acontecem em torno dele. Um país negro colonizado e oprimido por portugueses brancos pega em armas para expulsar os invasores.

Ainda no começo da história em vez de descrever o cenário, Rui mostra sem nenhuma sutileza como se relaciona e pensa. “Com o Gegé e com o Lee é diferente, passávamos horas a falar de como seria fazer ginga ginga com raparigas brancas, sabíamos que não era a mesma coisa do que fazer com as pretas que nem cuecas usam e fazem aquilo com qualquer um e se quisermos até fazem com dois ou três em seguida, a Fortunata uma vez fez com sete, uns a seguir dos outros, até fizemos fila como na cantina do liceu. O Gegé é o único que já fez ginga ginga com uma branca, a Anita.” Poucas páginas adiante Rui informa que as raparigas brancas já não se atreviam a sair de casa e que “se um branco na rua é uma provocação, uma rapariga branca é uma provocação ainda maior. Até o preto que durante cinco anos engraxava os sapatos ao domingo de manhã avisou a minha irmã numa das últimas vezes que o vimos, cuidado menina que ainda te fazem o mesmo que os brancos fizeram às nossas mulheres.” Percebe-se a tensão aumentando, várias famílias fogem da revolta iminente enquanto a família do protagonista se apega à casa e valores construídos enquanto moravam em Luanda até que o pai de Rui é preso pelos revoltosos e a família acéfala desesperada foge para Portugal. A história ganha ainda mais dramaticidade no abrigo improvisado onde desconhecem o destino e questionam se o chefe da família está vivo ou morto.

É um romance morno e bastante repetitivo acontecendo num cenário e momento histórico efervescente. A autora não tomou partido nem se envolveu em questões políticas de modo que os portugueses puderam identificar a si ou pessoas do seu relacionamento tornando o livro um sucesso retumbante no país onde foi escrito. Para nós, brasileiros carece pesquisa para contextualizar a história.

A autora tem estilo e o livro somou conhecimento histórico.

01 abril 2013

Primeiro de abril

1.o de abril 


Prezado Chefe,



Peço demissão em caráter irrevogável. Tenho sido sabotado sistematicamente por colegas de trabalho. Não tenho mais condições de trabalhar aqui na repartição que foi a minha casa nestes últimos 35 anos.

Atenciosamente,

... von Silva





Meu chefe recebeu o bilhete com um sorriso no rosto. Meu chefe é bem humorado.

Ele carimbou aprovado, datou e disse que nunca imaginou que seria tão fácil se livrar de mim.







Texto não publicado no livro Cara de crachá, cujo protagonista é von Silva.

25 março 2013

Lavoura acaica

De Raduan Nasser
Companhia das letras

quase R$ 40,00
194 páginas
1 semana de leitura


O substantivo do título do livro remete a um cenário de uma fazenda enquanto o adjetivo coloca o cenário no passado. É o que acontece com André que cedo na vida, foge da vida na lavoura para uma cidade interiorana. Ele se afasta da severidade paterna e do sufoco de carinhos maternos. O irmão, Pedro, vai ao seu encontro provocando as lembranças de André.

É um livro denso, sufocante, que deixa você sem fôlego. O protagonista, André, penetra num fluxo de consciência onde esmiúça a memória e a história familiar. Para deixar o leitor sem ar, o autor usa o artifício de escrever capítulos em vez de parágrafos. O primeiro parágrafo e também diálogo só acontece quando já avançamos a 75% da sufocante leitura.

No encontro com o irmão percebe que “ele me abraçou, e eu senti nos seus braços o peso dos braços encharcados da família inteira.” E segue com “eu estava era escuro por dentro, não conseguia sair da carne dos meus sentimentos.” Na mesma linha de pensamento ainda segue quase a externar um grito de incitação: “não se constranja, meu irmão, encontre logo a voz solene que você, uma voz potente de reprimenda, pergunte sem demora o que acontece comigo desde sempre, componha gestos, me desconforme depressa a cara, me quebre contra os olhos a velha louça lá de casa.”

O pensamento de André é uma inspeção a todos os lados do prisma. Enxerga e opina tudo a partir de todos os ângulos possíveis como no momento em que rememora o pai: “digo que não há lugar para a blasfêmia em nossa casa, nem pelo dia feliz que custa a vir, nem pelo dia funesto que súbito se precipita, nem pelas chuvas que tardam mas sempre vêm, nem pelas secas bravas que incendeiam nossas colheitas; não haverá blasfêmia por ocasião de outros reveses, se as crias não vingam, se a rês definha, se os ovos goram, se os frutos mirram, se a terra lerda, se a semente não germina, se as espigas não embucham, se o cacho tomba, se o milho não grana, se os grãos caruncham, se a lavoura pragueja, se se fazem pecas as plantações, se desabam sobre os campos as nuvens vorazes dos gafanhotos, se raiva a tempestade devastadora sobre o trabalho da família;”. Fiz do ponto e vírgula o encerramento da frase, frase que só recebe um ponto uma página e meia depois.

Após muita reflexão, conclui que “não tive o meu contento, o mundo não terá de mim a misericórdia ; amar e ser amado era tudo o que eu queria, mas fui jogado à margem sem consulta, fui amputado, já faço parte da escória, vou me entregar de corpo e alma à doce vertigem de quem se considera, na primeira força da idade, um homem simplesmente acabado.” E segue com amargura “pertenço como nunca desde agora a essa insólita confraria dos enjeitados, dos proibidos, dos recusados pelo afeto, dos sem sossego, dos intranquilos, dos inquietos, dos que se contorcem, dos aleijões com cara de assassino que descendem de Caim.”

Finalmente, como uma peça que faltava num quebra-cabeças, volta com o irmão para recompor a família. Entretanto estraçalha todos os preceitos secularmente estabelecidos.

Particularmente, prefiro linguagem mais dinâmica, mais ágil e contemporânea e uma estrutura que permita ao leitor concluir por conta própria, mas Lavoura arcaica tem tantos méritos que foi premiado pela Academia Brasileira de Letras; recebeu o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro e ainda foi escolhido Revelação pela Associação Paulista dos Críticos de Arte. Em 2001 recebeu uma premiadíssima adaptação cinematográfica.

19 março 2013

Por favor, qual meu nome?

Tudo aconteceu muito rapidamente. Eu e todos os outros milhares de vocábulos estávamos bem acomodados no nosso livro. Era um modelo importado de 1935. Objeto elegante, delicado, acabamento esmerado. Além de nós, havia seis mil gravuras e ainda 90 mapas. Na capa dura lia-se Diccionário prático illustrado. Dicionário com dois cês e ilustrado com dois eles. Era como se nossas poltronas estivessem numeradas. Cada termo estava assentado em lugar certo. E o conjunto estava de pé numa prateleira ao lado dos colegas, Português-Inglês / Inglês Português, Novo dicionário básico da língua portuguesa, Novíssima enciclopédia, Dicionário de sinônimos e antônimos.


Foi aí que um descuidado puxou o compêndio pela lombada e o derrubou ao chão. Várias páginas se soltaram e voaram assustadas com o sopro do ventilador. Eu, uma palavrinha azarada, bati a cabeça e perdi a memória. Esqueci meu nome. Em vez de me levarem a um médico, levaram-me a um lexicógrafo.

Essa figura de nome esquisito ajeitou os óculos de lente grossa sentou-se à minha frente, ordenou as minhas cinco letras e chamou-me de chusma. Ele afirmou que eu era uma chusma. Retruquei que não era esse o meu nome. Ele então me chamou de ruma, que dava na mesma. Eu disse que exigia respeito, e que sem querer ofender ninguém, meu nome era muito mais bonito.

O doutor ergueu uma das sobrancelhas e afirmou que eu era uma pessoa muito irritadiça, nervosa.

– Doutor, sei das suas boas intenções em tentar me ajudar a recuperar o meu nome, mas as suas tentativas foram vãs até agora. Meu nome não significa nada para ninguém?

– Seu nome também é o de um jogo de cartas.

– Poquer, trinca, paciência, buraco, truco, blackjack? - indaguei curioso.

– Muito bom. Gosto quando você se esforça para recordar. Mas são apenas cinco letras. Infelizmente essa dica foi fraca: é um jogo pouco comum, – o lexicógrafo faz uma pausa, mexe com os olhos para cima como se buscasse a memória, e continua – seu nome também é um verbo. O mesmo que saqueia, furta ou surrupia. Lembrou?

Eu neguei com a cabeça. – Eu sou do bem – respondi. – Será que não há nada melhor para dizer do meu nome?

– Há sim. Vou dar uma última chance.

– Qual é a dica?

– Você também é um sistema que transforma energia química em energia elétrica. Lembrou do seu nome?








Pense.



Lembrou?



Isso não é piada, nem pilhéria.





Se você pensou em pilha, acertou.






12 março 2013

Nem com Espírito Santo



Ônibus da Viplan em Roma?

Não.

A fumaça preta era do conclave.

05 março 2013

O vrum que me levou ao passado





O sol ainda estava sob as cobertas, mas eu, madrugador que sou, já estava de pé na frente da geladeira pegando um pacote plástico com pão de forma. Ouvi, do quinto andar, o barulho da moto do entregador de jornal. – VRUM.

No mesmo instante, como um flash, lembrei tempos antigos. Salivei pão francês e leite fresco.

Eu explico: o padeiro, no alvorecer do meu passado, pilotava uma lambreta verde com um baú de madeira. Parava na frente de quase todas as casas. Sabia de cabeça quantos filões, pãezinhos, roscas e litros de leite deveria entregar em cada casa. Entrava, deixava as garrafas de vidro e tampa de alumínio ao lado dos saquinhos de papel e retornava apressado.

Os sons que eu ouvia da minha cama, na infância, ainda reverberam na memória.

Primeiro ouvíamos ao longe o liga e desliga da lambreta se aproximando até chegar sob a nossa janela. Depois de embrulhar os pães mornos ouvíamos a tampa fechando barulhos no baú. – POW! Em seguida os passos corridos – TOCTOCTOCTOC – ecoando no quintal até a caixa protegida do tempo. Dois segundos depois retornava de mãos vazias, com os mesmos passos sonoros – TOCTOCTOTOC. Batia o portão de ferro – CLANC – e ligava a moto se afastando alguns metros até o próximo vizinho. – VRUM.

Hoje, devolvi o pão de forma à geladeira e caminhei silencioso até a padaria em busca de um sonho.

 
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