|
açucena
|
61
|
Planta ornamental - flor
|
|
adufa
|
75
|
Anteparo externo das janelas, feito de ripas que não se tocam
|
|
agoin
|
|
Tribo da Costa do Ouro , África, de onde vieram muitos escravos para
a Bahia. Os homens eram considerados exímios pescadores e mulheres perfeitas
cozinheiras e muito bonitas com a cor de azeitona.
|
|
albarda
|
104
|
Sela rústica para bestas de carga
|
|
alcouce
|
33
|
bordel
|
|
aldraba
|
92
|
Tranca ou tranqueta de porta, janela,
etc; Argola ou maça de metal com que se bate às portas para que abram;
batente.
|
|
alimária
|
95
|
Animal, sobretudo quadrúpede.
|
|
almotacé
|
85
|
oficial municipal encarregado da fiscalização das medidas e dos pesos
e da taxação dos preços dos alimentos
|
|
alpujarras
|
77
|
Pessoa vinda de Alpujarras, na Andalucía, sul da Espanha.
|
|
antífona
|
270
|
Versículo cantado pelo celebrante,
antes e depois dum salmo.
|
|
arcabuz
|
259
|
Espécie de bacamarte
|
|
asnaval
|
55
|
|
|
bandurrilha
|
317
|
Cara de bandurrilha
|
|
bergantim
|
240
|
Embarcação movida à vela e a remos.
|
|
borzeguim
|
61
|
Botina cujo cano se fecha com cordões
|
|
cabriloé
|
89
|
Carruagem de 2 rodas e capota móvel,
puxada por 1 cavalo.
|
|
cachaporra
|
41
|
Objeto utilizado como arma; clava; tacape; pau de bater; cacete.
|
|
calhau
|
317
|
Fragmento de rocha dura maior que o seixo.
|
|
canaz
|
76
|
canaz é uma flexão de cão: Indivíduo de extrema força e raça.
|
|
carafa
|
66
|
Tipo de taquara fina.
|
|
catano
|
42
|
ca.ta.na é uma Pequena espada curva. Catano???
|
|
caterva
|
41
|
corja
|
|
charrua
|
89
|
Arado grande, de ferro.
|
|
chularia
|
296
|
Falar de chularias – falar palavrões
|
|
cilício
|
102
|
Cinto ou cordão de lã áspera, us.
sobre a pele como penitência.
|
|
corsário
|
64
|
Não sou pirata, sou corsário. Corsário: Navio, ou homem que faz o
corso. Corso: Ataque ao tráfego comercial do inimigo, realizado por
navio de guerra ou navio mercante armado.
|
|
credência
|
75
|
Algum tipo de móvel de madeira.
|
|
culatrina
|
42
|
Cu. culatra:1. O fundo do cano de arma
de fogo.
2. A parte posterior do canhão. |
|
donaire
|
86
|
Gentileza, garbo.
|
|
embiocada
|
33
|
Donzela embiocada
|
|
embuço
|
91
|
Parte da capa ou do manto com que se pode cobrir a face.
|
|
endechas
|
270
|
Poesia triste
|
|
enxovia
|
53
|
Cárcere térreo ou subterrâneo, escuro,
úmido e sujo.
|
|
escanção
|
189
|
O que reparte vinho entre os convivas.
|
|
fanchono
|
229
|
homem que procura prazeres nos
indivíduos do próprio sexo
|
|
ferrão
|
42
|
O mesmo que aguilhão: 1. A ponta de
ferro da aguilhada; ferrão.
2. Ponta aguçada; bico. |
|
figurilha
|
317
|
1 Pequena figura. 2. Bigorrilha. 3
Fraca-figura....
|
|
fodinchão
|
126
|
Fodido. Usado como superlativo para
mais e para menos.
|
|
galicado
|
84
|
atacado de sífilis; que tem doença
venérea;
|
|
garraio
|
89
|
Bezerro ainda não corrido e não
matreiro. Fig. Homem inexperiente, novato...
|
|
gelosia
|
164
|
Grade de tabuinhas de madeira paralelas
a intervalos, que ocupa o vão duma janela.
|
|
gladio
|
77
|
Espada de 2 gumes; espada.
|
|
granacha
|
12
|
vestimenta longa, usada por monges, magistrados. Pessoa que
usa a granacha.
|
|
guadunhas
|
317
|
|
|
guedelha
|
91
|
Cabelo desgrenhado e longo.
|
|
jimbo
|
260
|
Dinheiro e, primitivamente um marisco com valor de moeda entre os
negros
|
|
labrego
|
91
|
Diz-se de, ou indivíduo rude,
grosseiro.
|
|
lambaz do ralo
|
268
|
Lambedor de onde sai a água de esgoto
|
|
lava-rabos
|
42
|
puxa-sacos no sentido figurado
|
|
léria
|
102
|
mentiras, palavras vazias; ato sem fundamento
|
|
madraço
|
96
|
O mesmo que mandrião; preguiçoso, vadio, malandro.
|
|
magano
|
227
|
Diz-se de, ou indivíduo jovial, engraçado.
|
|
mariola
|
37
|
Malandro, velhaco. Aqui entre nós é um doce em tabletes, feito de
banana ou goiaba
|
|
marrano
|
202
|
se refere aos judeus convertidos ao cristianismo dos reinos cristãos
da Península Ibérica
|
|
mazombo
|
227
|
tristonho; taciturno; sorumbático;
|
|
mofina
|
102
|
|
|
néscio
|
33
|
Que não sabe; ignorante, estúpido, incapaz, inepto
|
|
odre
|
80
|
Saco feito de pele, para transportar líquidos.
Cantil.
|
|
palangana
|
120
|
Tabuleiro onde são levados os assados à mesa.
|
|
palanquim
|
226
|
Espécie de liteira
|
|
paludismo
|
215
|
malária
|
|
pantomima
|
126
|
Mímica; Peça em que o(s) ator(es) se manifesta(m) só por gestos,
expressões corporais ou fisionômicas; mímica.
|
|
pantufo
|
126
|
Homem gordo e barrigudo.
|
|
parlenda
|
127
|
Conjunto de rimas infantis, de caráter lúdico e ritmo fácil, Ex.: Um,
dois, feijão com arroz. Três quatro, feijão no prato. Cinco, seis, é minha
vez. Sete, oito, de comer biscoito. Nove, dez, ou de comer pastéis.
|
|
pasguate
|
38
|
Idiota; pacóvio
|
|
patarata
|
229
|
ostentar algo de maneira ridícula ou de dizer uma mentira para alardear
vantagem.
|
|
pechilingue
|
87
|
Instrumento com que o sapateiro faz os furos individualmente para
cravar os pinos no calçado. Ler, pronunciando separadamente as letras.
Ler mal ou com dificuldade.
|
|
peralvilho
|
33
|
Letrados peralvilhos
|
|
poião
|
32
|
Sentou-se no poião da porta;
|
|
pucarinho
|
229
|
Pequeno vaso, diminutivo de púcaro.
|
|
pulcro
|
229
|
Excessivamente belo; em que há beleza; formoso.
|
|
radicolho
|
229
|
|
|
rascoa
|
64
|
1 Cozinheira. 2 Meretriz... (Filhos de uma rascoa)
|
|
salvajola
|
37
|
variante de "selvagem"; mariola: velhaco
|
|
sandeu
|
33
|
Idiota, parvo, tolo.
|
|
sege
|
37
|
Coche com 2 rodas e um só assento.
|
|
serpentina
|
31
|
É uma espécie de liteira simples onde num varão é pendurada uma rede
que é conduzida por dois escravos. Na rede deita-se o senhor.
|
|
sicofanta
|
190
|
|
|
sodomita
|
317
|
Relativo à cópula anal
|
|
surrão
|
37
|
Bolsa ou saco de couro bastante usada; Roupa suja e gasta.
|
|
tafularia
|
41
|
coisa ou pessoa taful; luxo ou esmero exagerado, ger. de mau
gosto - cafona
|
|
tronga
|
193
|
Não saber fazer coisas simples, ser parva, burra; Meretriz, barregan,
concubina
|
|
vaganau
|
229
|
vadio, vagabundo; Mariola de carregar; Indivíduo
corpulento, alambazado. Maroto, maganão.
|
|
vedor
|
223
|
1. Que vê, inspeciona ou fiscaliza. 2.
Administrador, inspetor, fiscal, intendente: vedor da casa real.
|
|
vitualhas
|
283
|
víveres
|
|
zancos
|
126
|
Pernas de pau
|
|
zotíssimo
|
125
|
|
30 setembro 2013
Boca do inferno
Boca do Inferno
Ana Miranda
336 páginas
40 jimbos
Ultimamente
quando termino a leitura de um livro procuro escrever a minha percepção.
O Boca do
Inferno da Ana Miranda é leitura obrigatória para os vestibulandos já a algum
tempo, por isso tive curiosidade para conhecer o conteúdo , mas sempre acabei
por escolher do mesmo - aquilo que
efetivamente já sei, de antemão, que
gosto. É nessas horas que eu me alegro de participar de um grupo de leitura
onde os livros são indicados pelos participantes.
Eu,
francamente não tinha a menor ideia do que iria encontrar pela frente, ao
contrário de um amigo, que quando comentei a minha leitura e ele imediatamente lembrou
que deveria ser sobre o Gregório de
Matos, que conforme aprendera nas aulas de literatura, era o apelido do poeta.
De fato é a
biografia ficcionada do poeta ambientada em Salvador no século XVII. A história é resultado de profunda pesquisa e
por isso mescla momentos de história e costumes do Brasil colônia. Resgata a
história de um advogado e poeta que satiriza e acusa em versos o cruel
governador que tem como prótese um braço de prata. A história revela intrigas
de corrupção, vingança e poder eclodidas a partir do assassinato do
alcaide-mor. Os acusados e perseguido são a família Ravasco que tem um membro para
lá de conhecido na literatura: Padre Antônio Vieira.
A leitura não
flui por recuperar muito vocabulário de época, obrigando-nos a tentar adivinhar
o sentido de muitas palavras. Tive má vontade até a trigésima página quando
resolvi assinalar os arcadismos e criar uma espécie de glossário particular.
Também foi o momento em que resolvi desligar o celular, tirar o relógio do
pulso e entrar numa carroça para viajar no tempo. Então procurei assimilar os
cheiros e mastigar os sabores da história. Concluí que os personagens, os
cenários e o entrelaçamento da biografia com a História são incríveis.
Apesar de
todos os merecidos elogios, confesso que, para mim a leitura foi dificultosa
até o final e precisei de vontade férrea para concluir a tempo de discutir o
livro no clube de leitura.
Tenho orgulho
de ter conhecido e conversado longamente com a autora em 2007. O trabalho, premiado
com um Jabuti, realmente é digno de ser considerado um dos cem melhores
romances da língua portuguesa do século XX.
Se você é
persistente, goste de ler e de história este é um livro que vai acrescentar
muito ao seu prazer e conhecimento.
Palavras de Boca do inferno de Ana
Miranda - 5.a
edição
Em branco as palavras
não encontradas no dicionário nem Internet.
30 junho 2013
Lombinho de porco com batatas-doces
Hoje vou abrir uma exceção. Tomei uma dose de Seleta com estômago cheio de apetite. Isso fez a diferença.
Moro sozinho. Não tenho assalariada que me faça as vontades nem lave minhas roupas ou passe um pano no chão. Opção minha. Se bem que às vezes seria tããããão bom! Nem sempre há sobras de restaurantes na geladeira ou mesmo paladar para repetir miojo ou lasanha congelada. Acho absurdo apelar para as caixinhas chinesas ou entregadores de pizza na hora do almoço. Por isso uma vez ou outra eu sou obrigado a pilotar o fogão. Hoje foi o dia. Gosto de comer bem.
Escrevi enquanto o forno assava.
Entrei na cozinha às 11h45 para elaborar o menu. Olha aqui, olha acolá.
Coloquei um lombinho de porco do freezer para descongelar no micro-ondas. Enchi uma panela para ferver água. Descasquei quatro batatas doces e cortei em rodelas para ferver na água. Espremi uma laranja sobre o lombinho descongelado e salguei. Liguei o forno no máximo. Enquanto cozinhava a batatas e a carne tomava banho no suco de laranja aproveitei para descascar duas cebolas e o equivalente a um polegar de gengibre. Piquei as cebolas e o gengibre no processador até que ficassem como uma pasta densa.
As batatas demoram um pouquinho para cozinhar, mas não deixe esfarelar. E aí o que fazer enquanto não cozinham? É hora de abrir o apetite com um aperitivo. Se fosse de noite eu optaria por meio cauboy, como era dia optei por uma dose de Seleta. A louça implorava para ser lavada. Aleguei que eu estava ocupado tomando uma. Ela argumentou que se eu não fizesse agora teria de fazê-lo depois do almoço, naquele momento em que bate o sono dos satisfeitos. Esvaziei a bancada da louça suja e enchi o secador com louça limpa. Espetei uma batata com um garfo e julguei que estava no jeito, nem dura nem desmanchando.
Peguei o meu maior pirex – aquele de fazer a lasanha familiar – e molhei o fundo com azeite.
Derramei as batatas-doces numa giga peneira para escorrer toda a água. Fiz um leito de batatas sobre o azeite. Pousei o lombinho sobre as batatas e derramei o suco de laranja sobre ele. Com uma colher revesti a carne de cebola picada, era muita cebola. Então usei o restante para espalhar sobre as batatas-doces.
São 12h30 e coloquei a vasilha no forno. Liguei o marcador de tempo para 25 minutos. Meia hora deveria ser o suficiente, mas gosto de dar uma conferida antes da hora.
Me servi de mais meia dose de Seleta e vim para o micro escrever a receita.
Não é por nada não, mas ficou muito bom. Farei para o próximo jantar, por isso anotei a minha aventura culinária.
20 maio 2013
Aprender a rezar na Era da Técnica
Aprender a rezar na Era da Técnica
Editora Companhia das Letras
356 páginas
Paguei R$45,00
Li em 6 dias
Foi o livro mais surpreedente que li nos últimos tempos. Aborda e entrelaça com profundidade dois temas fundamentais para a humanidade: poder e morte.
Em dezenas de pequenos capítulos, que podem ser lidos quase que independentemente, há uma sequência de lições poderosas e chocanates.
O início do romance é um soco maquiavélico até para o mais liberal machista da face da terra:
“O pai agarrou nele e levou-o ao quarto de uma empregada, a mais nova e mais bonita da casa.
– Agora vais fazê-la, aqui à minha frente.
A criadita estava assustada, claro, mas o estranho é que parecia que ela estava assustada com ele, e não com o pai: era de facto de Lenz ser um adolescente que assustava a criadita e não a violência com que o pai a disponibilizava ao filho, sem qualquer pudor, sem sequer ter o cuidado de sair. O pai queria ver.”
A intenção não era a iniciação sexual do filho. Era uma aula na iniciação do poder sobre os mais fracos através do sexo.
Entre outras aulas de poder, o pai avisa que:
“– Nessa casa o medo é ilegal.”
E assim, de lição em lição, o nosso protagoniista é diplomado com louvor. Transforma-se em um homem que dispensa emoções e é destituído de sentimentos bons ou ruins, a ponto de incomodar-se com elogios ou agradecimentos. Chega a formular teorias próprias: “os homens poderosos só não matariam na rua, à frente de todos, um vagabundo, com as próprias mãos ou com uma arma, porque não queriam humilhar em público as leis do país, já que de certa maneira eram elas que, em alguns pormenores os protegiam.”
A narrativa segue num cenário que poderia ser a Alemanha no período entre-guerras. Os personagens são pouquíssimos: Lenz Buchmann – o exemplar cirurgião que troca a medicina pela vice-presidência do partido político. A fidelíssima secretária Julia Liegnitz e seu irmão surdo-mudo. Hamm Kestner – poderoso presidente do partido. Rafa, o louco e ainda Friederich Buchmann que, apesar de morto, está presente em quasse todos os atos de Lenz. Não cito a mulher e o irmão do protagonista porque este os queria apagados.
A história se desenvolve com o surgimento de uma doença e o consequente enfraquecimento do protagonista e aí surge o último personagem que é a morte.
O autor propõe reflexões sobre o comportamento humano sem preocupações de apresentar construções frasais para deleitar os estudiosos literários.
Lentamente, em pequenas lições a morte combate o poder sem pemitir negociações. Em tensão crescente o autor desenvolve o romance para várias possibilidades de fechamento e mesmo assim consegue surpreender.
De tantas reflexões, é o tipo de livro que só se fecha muito tempo depois de ser lido.
Se você tiver estômago, recomendo com entusiasmo.
30 abril 2013
Dulce Maria Cardoso
Editora Tinta da China
Capa dura e 272 páginas
R$ 37,90
A contracapa informa que este foi o livro do ano em Portugal com o Prêmio Especial da Crítica em 2011. “Que em 1975, um ano após a Revolução dos Cravos, Portugal perde suas colônias. Em poucos meses, o país recebe mais de meio milhão de retornados, que de uma
hora para outra precisam abandonar suas casas.” E é nesse contexto que o adolescente e narrador nascido em Luanda, capital de Angola conta sua trajetória pessoal.
Não é a primeira vez que encaro um texto com português de Portugal. Aluguer é aluguel. Connosco é conosco. Mota é motocicleta. Bazar é vazar no sentido de sair. Nada que assuste. São palavras bastante óbvias que não merecem nem uma pequena parada de estranhamento. Este livro é um pouco diferente por somar o lusitano angolano e o narrador introduz dizeres do quimbundo – língua nativa de Angola. Matabicho é desjejum. Geleira é geladeira. Machimbombo que em Portugal é autocarro para nós é simplesmente carro. A expressão “vai dar maca” significa que “vai dar problema”. O estranhamento passa logo e a leitura flui com naturalidade. A linguagem é simples e acessiva. Não há metáforas, figuras de linguagem ou rebuscamentos para tornar a linguagem literária. É uma história contada por Rui, uma pessoa do povo.
Rui é um adolescente quase alienado ao que acontece em torno de si. Talvez alienado não seja a palavra correta. Ele é um adolescente que percebe e vive as transformações típicas de qualquer adolescente: as transformações hormonais. Nesse contexto e convivência percebemos que as grandes transformações históricas e políticas e acontecem em torno dele. Um país negro colonizado e oprimido por portugueses brancos pega em armas para expulsar os invasores.
Ainda no começo da história em vez de descrever o cenário, Rui mostra sem nenhuma sutileza como se relaciona e pensa. “Com o Gegé e com o Lee é diferente, passávamos horas a falar de como seria fazer ginga ginga com raparigas brancas, sabíamos que não era a mesma coisa do que fazer com as pretas que nem cuecas usam e fazem aquilo com qualquer um e se quisermos até fazem com dois ou três em seguida, a Fortunata uma vez fez com sete, uns a seguir dos outros, até fizemos fila como na cantina do liceu. O Gegé é o único que já fez ginga ginga com uma branca, a Anita.” Poucas páginas adiante Rui informa que as raparigas brancas já não se atreviam a sair de casa e que “se um branco na rua é uma provocação, uma rapariga branca é uma provocação ainda maior. Até o preto que durante cinco anos engraxava os sapatos ao domingo de manhã avisou a minha irmã numa das últimas vezes que o vimos, cuidado menina que ainda te fazem o mesmo que os brancos fizeram às nossas mulheres.” Percebe-se a tensão aumentando, várias famílias fogem da revolta iminente enquanto a família do protagonista se apega à casa e valores construídos enquanto moravam em Luanda até que o pai de Rui é preso pelos revoltosos e a família acéfala desesperada foge para Portugal. A história ganha ainda mais dramaticidade no abrigo improvisado onde desconhecem o destino e questionam se o chefe da família está vivo ou morto.
É um romance morno e bastante repetitivo acontecendo num cenário e momento histórico efervescente. A autora não tomou partido nem se envolveu em questões políticas de modo que os portugueses puderam identificar a si ou pessoas do seu relacionamento tornando o livro um sucesso retumbante no país onde foi escrito. Para nós, brasileiros carece pesquisa para contextualizar a história.
A autora tem estilo e o livro somou conhecimento histórico.
01 abril 2013
Primeiro de abril
1.o de abril
Prezado Chefe,
Peço demissão em caráter irrevogável. Tenho sido sabotado sistematicamente por colegas de trabalho. Não tenho mais condições de trabalhar aqui na repartição que foi a minha casa nestes últimos 35 anos.
Atenciosamente,
... von Silva
Meu chefe recebeu o bilhete com um sorriso no rosto. Meu chefe é bem humorado.
Ele carimbou aprovado, datou e disse que nunca imaginou que seria tão fácil se livrar de mim.
Texto não publicado no livro Cara de crachá, cujo protagonista é von Silva.
25 março 2013
Lavoura acaica
Companhia das letras
quase R$ 40,00
194 páginas
1 semana de leitura
O substantivo do título do livro remete a um cenário de uma fazenda enquanto o adjetivo coloca o cenário no passado. É o que acontece com André que cedo na vida, foge da vida na lavoura para uma cidade interiorana. Ele se afasta da severidade paterna e do sufoco de carinhos maternos. O irmão, Pedro, vai ao seu encontro provocando as lembranças de André.
É um livro denso, sufocante, que deixa você sem fôlego. O protagonista, André, penetra num fluxo de consciência onde esmiúça a memória e a história familiar. Para deixar o leitor sem ar, o autor usa o artifício de escrever capítulos em vez de parágrafos. O primeiro parágrafo e também diálogo só acontece quando já avançamos a 75% da sufocante leitura.
No encontro com o irmão percebe que “ele me abraçou, e eu senti nos seus braços o peso dos braços encharcados da família inteira.” E segue com “eu estava era escuro por dentro, não conseguia sair da carne dos meus sentimentos.” Na mesma linha de pensamento ainda segue quase a externar um grito de incitação: “não se constranja, meu irmão, encontre logo a voz solene que você, uma voz potente de reprimenda, pergunte sem demora o que acontece comigo desde sempre, componha gestos, me desconforme depressa a cara, me quebre contra os olhos a velha louça lá de casa.”
O pensamento de André é uma inspeção a todos os lados do prisma. Enxerga e opina tudo a partir de todos os ângulos possíveis como no momento em que rememora o pai: “digo que não há lugar para a blasfêmia em nossa casa, nem pelo dia feliz que custa a vir, nem pelo dia funesto que súbito se precipita, nem pelas chuvas que tardam mas sempre vêm, nem pelas secas bravas que incendeiam nossas colheitas; não haverá blasfêmia por ocasião de outros reveses, se as crias não vingam, se a rês definha, se os ovos goram, se os frutos mirram, se a terra lerda, se a semente não germina, se as espigas não embucham, se o cacho tomba, se o milho não grana, se os grãos caruncham, se a lavoura pragueja, se se fazem pecas as plantações, se desabam sobre os campos as nuvens vorazes dos gafanhotos, se raiva a tempestade devastadora sobre o trabalho da família;”. Fiz do ponto e vírgula o encerramento da frase, frase que só recebe um ponto uma página e meia depois.
Após muita reflexão, conclui que “não tive o meu contento, o mundo não terá de mim a misericórdia ; amar e ser amado era tudo o que eu queria, mas fui jogado à margem sem consulta, fui amputado, já faço parte da escória, vou me entregar de corpo e alma à doce vertigem de quem se considera, na primeira força da idade, um homem simplesmente acabado.” E segue com amargura “pertenço como nunca desde agora a essa insólita confraria dos enjeitados, dos proibidos, dos recusados pelo afeto, dos sem sossego, dos intranquilos, dos inquietos, dos que se contorcem, dos aleijões com cara de assassino que descendem de Caim.”
Finalmente, como uma peça que faltava num quebra-cabeças, volta com o irmão para recompor a família. Entretanto estraçalha todos os preceitos secularmente estabelecidos.
Particularmente, prefiro linguagem mais dinâmica, mais ágil e contemporânea e uma estrutura que permita ao leitor concluir por conta própria, mas Lavoura arcaica tem tantos méritos que foi premiado pela Academia Brasileira de Letras; recebeu o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro e ainda foi escolhido Revelação pela Associação Paulista dos Críticos de Arte. Em 2001 recebeu uma premiadíssima adaptação cinematográfica.
19 março 2013
Por favor, qual meu nome?
Tudo aconteceu muito rapidamente. Eu e todos os outros milhares de vocábulos estávamos bem acomodados no nosso livro. Era um modelo importado de 1935. Objeto elegante, delicado, acabamento esmerado. Além de nós, havia seis mil gravuras e ainda 90 mapas. Na capa dura lia-se Diccionário prático illustrado. Dicionário com dois cês e ilustrado com dois eles. Era como se nossas poltronas estivessem numeradas. Cada termo estava assentado em lugar certo. E o conjunto estava de pé numa prateleira ao lado dos colegas, Português-Inglês / Inglês Português, Novo dicionário básico da língua portuguesa, Novíssima enciclopédia, Dicionário de sinônimos e antônimos.
Foi aí que um descuidado puxou o compêndio pela lombada e o derrubou ao chão. Várias páginas se soltaram e voaram assustadas com o sopro do ventilador. Eu, uma palavrinha azarada, bati a cabeça e perdi a memória. Esqueci meu nome. Em vez de me levarem a um médico, levaram-me a um lexicógrafo.
Essa figura de nome esquisito ajeitou os óculos de lente grossa sentou-se à minha frente, ordenou as minhas cinco letras e chamou-me de chusma. Ele afirmou que eu era uma chusma. Retruquei que não era esse o meu nome. Ele então me chamou de ruma, que dava na mesma. Eu disse que exigia respeito, e que sem querer ofender ninguém, meu nome era muito mais bonito.
O doutor ergueu uma das sobrancelhas e afirmou que eu era uma pessoa muito irritadiça, nervosa.
– Doutor, sei das suas boas intenções em tentar me ajudar a recuperar o meu nome, mas as suas tentativas foram vãs até agora. Meu nome não significa nada para ninguém?
– Seu nome também é o de um jogo de cartas.
– Poquer, trinca, paciência, buraco, truco, blackjack? - indaguei curioso.
– Muito bom. Gosto quando você se esforça para recordar. Mas são apenas cinco letras. Infelizmente essa dica foi fraca: é um jogo pouco comum, – o lexicógrafo faz uma pausa, mexe com os olhos para cima como se buscasse a memória, e continua – seu nome também é um verbo. O mesmo que saqueia, furta ou surrupia. Lembrou?
Eu neguei com a cabeça. – Eu sou do bem – respondi. – Será que não há nada melhor para dizer do meu nome?
– Há sim. Vou dar uma última chance.
– Qual é a dica?
– Você também é um sistema que transforma energia química em energia elétrica. Lembrou do seu nome?
Pense.
Lembrou?
Isso não é piada, nem pilhéria.
Se você pensou em pilha, acertou.
12 março 2013
05 março 2013
O vrum que me levou ao passado
O sol ainda estava sob as cobertas, mas eu, madrugador que sou, já estava de pé na frente da geladeira pegando um pacote plástico com pão de forma. Ouvi, do quinto andar, o barulho da moto do entregador de jornal. – VRUM.
No mesmo instante, como um flash, lembrei tempos antigos. Salivei pão francês e leite fresco.
Eu explico: o padeiro, no alvorecer do meu passado, pilotava uma lambreta verde com um baú de madeira. Parava na frente de quase todas as casas. Sabia de cabeça quantos filões, pãezinhos, roscas e litros de leite deveria entregar em cada casa. Entrava, deixava as garrafas de vidro e tampa de alumínio ao lado dos saquinhos de papel e retornava apressado.
Os sons que eu ouvia da minha cama, na infância, ainda reverberam na memória.
Primeiro ouvíamos ao longe o liga e desliga da lambreta se aproximando até chegar sob a nossa janela. Depois de embrulhar os pães mornos ouvíamos a tampa fechando barulhos no baú. – POW! Em seguida os passos corridos – TOCTOCTOCTOC – ecoando no quintal até a caixa protegida do tempo. Dois segundos depois retornava de mãos vazias, com os mesmos passos sonoros – TOCTOCTOTOC. Batia o portão de ferro – CLANC – e ligava a moto se afastando alguns metros até o próximo vizinho. – VRUM.
Hoje, devolvi o pão de forma à geladeira e caminhei silencioso até a padaria em busca de um sonho.
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