25 maio 2015
Noturno do Chile
Roberto Bolaño
Companhia das letras
R$ 30,00
118 páginas
Roberto Bolaño
é um autor consagrado. Me animei quando o livro foi sugerido no clube de
leitura. Seria uma ótima oportunidade de conhecer um pouco da obra do afamado
escritor chileno.
Quando terminei
de ler o livro questionei sobre o que era esse livro? Qual foi a mensagem que o
escritor quis passar?
Lembrei-me de
uma frase de professores de oficina literária: “não é porque você tem uma
história que acha superinteressante que isso será um livro interessante."
O autor escreve
bem, tem estilo, mas contou uma história sem grandes ações, reviravoltas,
suspenses ou emoções. O começo poderia ter sido o meio ou fim. Como o fim
poderia ter sido o meio ou o começo. Foi como se alguém entrasse no meu escritório
e relatasse o episódio da aventura comprando um sanduíche e um refrigerante e
como mastigou 32 vezes antes de engolir.
É lógico que
exagerei um pouquinho na falta de emoções.
Noturno do
Chile é a história de um escritor chileno e como ele vivencia a literatura. O protagonista
e narrador é um padre escritor com bases teóricas sólidas que enxerga com
suavidade, sem opinar, sobre a podridão do mundo literário que o cerca. Na
amizade sincera que busca num poeta e crítico literário percebe que o crítico é
rodeado de poetas que apenas almejam aplausos e elogios. Em outro momento o protagonista
frequenta os saraus na casa de uma premiada escritora iniciante. Comenta que a
premiação talvez não fosse merecida. Descobre que a autora é esposa de poderosa
autoridade da ditatura chilena. O cenário sugere que o prêmio foi resultado de
uma homenagem ao marido e não às suas qualidades literárias.
Depois de ter
escrito as linhas acima me senti capaz de responder a pergunta que eu mesmo
formulei: “sobre o que era esse livro?”
Trata-se da
falsidade das pessoas em seus meios. Frente à frente, homens, para não magoar, só
elogiam. Lamentavelmente, ninguém aponta os defeitos do outo cara à cara, olho
no olho. Apenas de longe são sinceros.
Conforme li na
biografia, Bolaño ganhou notoriedade por sua atuação como militante de esquerda.
Não me arrependo de ter lido o livro, também não gosto quando os autores
inventam de escrever usando um único parágrafo. Entretanto, lendo, sempre se
aprende alguma lição. Só não recomendo para que não se perca tempo. Talvez por
não conhecer o autor nem estar cara a cara com ele, opino que é uma pena que talvez
tenha lido o livro errado de Bolaño. Ele foi ganhador do Prêmio Rómulo Gallegos
por seu romance Os detetives Selvagens.
Talvez este outro livro merecesse meus aplausos ou será que o prêmio venezuelano
também terá sido uma homenagem militante?
28 abril 2015
Fábula
Era uma vez
uma formiga que
caminhava sobre a bancada
da minha pia.
– Antes
de tudo , alguns
esclarecimentos são absolutamente
necessários:
1– As histórias
que começam com
“era uma vez ”
são contos
infantis com final
feliz e esta é uma fábula
adulta e sem
final feliz .
2 – A bancada
da minha pia
é preta . Entretanto ,
para que a gente possa ver
a formiga da minha
história , vou fazer
de conta que
a bancada é branca.
Então, como
eu ia dizendo, era
uma vez uma formiguinha que caminhava sobre
o mármore branco
da bancada da minha
cozinha . Caminhava para
cá e caminhava para
lá . Ela
estava trabalhando.
– Todas as formigas
das fábulas são
muito trabalhadeiras.
Ela empurrava um
carrinho de supermercado ,
à procura de sobras
comestíveis . No carrinho ,
até agora
só havia supérfluos : uma fatia de pizza
de muçarela e dois fios
enrolados de macarrão miojo sabor carne . Da
prateleira inferior
da gôndola , ela
retirou duas pipocas de micro-ondas. No corredor seguinte ,
topou com a cigarra
e perguntou:
– Fazendo compras
tão cedo ?
Você não está
mais trabalhando na casa
de shows de São
Paulo?
– Não ,
querida , aquela cigarra
é outra , é a do La Fontaine. Sou muito mais bonita e charmosa .
Arrumei um maridão maravilhoso ,
não preciso
trabalhar.
Sem graça
pela mancada ,
a formiga continuou, apressada , seu caminho . Encontrou o leão
e o rato e disparou:
– Bom-dia, Majestade !
Vejo que está acompanhado do seu ajudante de
ordens .
Ao que
o leão respondeu:
– Mocinha ,
deixe de ser fofoqueira
e vá trabalhar . O rato
que roeu a rede
para o leão escapar é personagem
do Lobato. Este ratinho é meu novo amigo de todas as horas.
A formiga
considerou que teria sido melhor ter ficado em casa ,
dormindo debaixo das cobertas até mais tarde.
Formiga de fábula ,
independentemente do autor , tem que ser trabalhadeira e falante .
Voltou a empurrar seu
carrinho e consultou a lista
de compras : geleia, açúcar, leite condensado, bolo de chocolate , quindim, torta
de morango com
suspiro e creme
chantili.
Da
A formiga
seguiu seu caminho
sem torrão
de açúcar e sem
barra de chocolate .
E deparou-se com outra formiga pilotando um carrinho mais
vazio ainda.
Desta vez
nada perguntou, imaginando existir alguma fábula
de Esopo que tenha duas formigas conversando.
Moral da história
1:
Não se meta
em cozinha
de homem : só
tem comida salgada.
Moral da história
2:
20 abril 2015
Homo brasiliensis
— Cobogó? Que diabos é isso?
Evito prestar atenção à conversa alheia. Entretanto, às vezes é
impossível não ouvir.
Eu voltava para Brasília sentado na poltrona do meio. Logo atrás de mim,
naquele voo lotado, estava uma mulher vistosa, nos seus trinta anos. Entendi
que ela desconhecia Brasília e recebeu um convite para trabalhar na Capital.
Ela queria saber como as pessoas moram em Brasília e encontrou na cadeira
vizinha um candango falante que deve ter sido guia turístico. Ambos falavam alto,
o que tirou a atenção da minha leitura.
A primeira frase que ouvi, foi dele.
— Os ricos moram no lago. Os bem ricos, numa ponta de picolé.
— Como é? — Indagou a mulher, formando rima.
— As pessoas mais endinheiradas moram próximas do lago. Os terrenos enormes
que ficam nas margens são chamados pontas de picolé. Somente esses têm o
privilégio do acesso à água. Acredito que o melhor lugar para morar é no Plano.
— As margens do lago são muito íngremes?
— Não. Por quê?
— Você disse que preferia morar em lugar plano.
O vizinho, imagino, deu um sorriso, explicou que se referia ao Plano
Piloto e falou das Asas Sul e Norte, arrematando que as mais valorizadas eram
as 100 e as 300.
Naturalmente, ela deve ter feito cara de dúvida, pois ele disse que as
quadras 100 e 300 ficam a oeste do Eixão.
Continuei sentado no meu lugar, preso ao cinto de segurança, mas com uma
enorme vontade de olhar para trás para ver a cara de interrogação da mulher.
— Eixão?
O avião deu uma chacoalhada, de modo que perdi aquela explanação. Ouvi
outra, já pela metade.
— ... os melhores apartamentos são os mais antigos, são amplos e
vazados.
— E o que é um apartamento vazado?
O candango chegou a ser irritante com sua longa e apaixonada explicação.
— Os prédios, conhecidos por blocos, ficam deitados. São compridos em
vez de altos. O que faz com que haja maior número de apartamentos no mesmo
andar e provoca menos áreas externas, logo há muitos apartamentos com apenas
uma frente. Os antigos são ventilados: têm frente e fundo do lado oposto. São
os vazados. Todos os apês antigos têm cobogó.
— Cobogó? Que é isso? Tenha dó! — Exclamou em nova rima.
Adoro essa palavra formada pela primeira sílaba dos nomes de três
engenheiros que criaram uma parede de tijolos decorativos que permite
ventilação e entrada de luz natural. De modo que só ouvi o final da frase do
vizinho falante.
— ... além do quê, são impressões digitais da cidade.
Daí, ela perguntou qual era o prato típico da cidade.
E ele foi muito criativo na resposta.
— Não há nenhum prato típico porque os moradores têm origem em todas as
regiões brasileiras. Na cidade, encontramos todos os temperos. Não há prato nem
forma comum de preparar alguma iguaria. É usual a reunião das pessoas em torno
de uma churrasqueira. Cada um assando a carne ou peixe a seu modo.
Em quase todas as casas do Lago há churrasqueiras. Quase todos os clubes
construíram churrasqueiras e também há muitas espalhadas nos parques públicos.
O churrasco agrega as pessoas. O brasiliense aprendeu que, para sobreviver ali,
deve unir-se aos outros, respeitando e ultrapassando barreiras regionais.
— Uau! Falou bonito! Só ouço as pessoas falarem mal de Brasília, que é
onde todos os corruptos se reúnem para roubar o resto dos brasileiros...
Nesse momento, a forasteira acertou o fígado de todos os brasilienses
com um poderoso golpe direto.
— Pois é, esse lamentável rótulo pertencia ao Rio, enquanto Capital.
Mineiros: pão-duros; baianos: preguiçosos; paulistas: trabalhadores. Rótulos
servem apenas para garrafas. Os corruptos estão espalhados por todos os cantos
do nosso país. Não se salva nenhum enquanto permanecer a impunidade. A
diferença é que de Brasília saem as verbas federais, as somas são maiores e a
mídia está mais atenta.
A mulher percebeu que cometeu uma gafe ao falar mal de Brasília a um brasiliense.
E procurou mudar de assunto:
— Faz muito tempo que você mora em Brasília?
Aliviado, o candango respondeu:
— Agora você já está falando como uma brasiliense legítima...
— Não entendi...
— Quando duas pessoas se conhecem, a primeira pergunta é: há quanto
tempo mora na cidade? E a segunda, invariavelmente, é: de onde você veio?
Agora, com o passar do tempo e o surgimento de uma geração de nascidos na
capital, a coisa mudou um pouco. De qualquer forma, as perguntas sempre são
bem-vindas para o início de uma conversa.
— Há quanto tempo, afinal, você mora na cidade?
— Fui para lá no início da década de 70. No tempo em que a lenda dizia
que quem se mudava para Brasília passava pelo estágio dos três dês.
Deslumbramento, decepção e desespero. Deslumbramento com as largas avenidas,
arquitetura monumental e proximidade com o poder. Decepção ao perceber que
morar próximo ao poder não os transforma em nobres. Desespero
por não se adaptar à cidade e querer ir embora.
— Era tão ruim assim?
— É uma cidade de gente guerreira. Os perdedores sempre reclamam. —
Pigarreou com desdém. — O tempo
incorporou outro dê. O dê da demência.
— Como assim? Não entendi...
— É quando as pessoas se acostumam, se entrosam e passam a amar
Brasília.
— Interessante essa lenda...
— Particularmente, adotei ainda os dês da devoção e defesa da cidade que
tão bem me acolheu.
Nesse momento, a conversa dos dois foi interrompida pelo forte barulho
do retrocesso das turbinas no pouso do avião.
O avião taxiou e estacionou.
Abri a porta do compartimento acima da cabeça, peguei minha sacola e
olhei para os que me proporcionaram um voo mais agradável.
Ainda pensei em falar ao conterrâneo que as sílabas de cobogó foram
formadas a partir dos nomes de Coimbra, Boekmann e Góis, mas apenas me despedi
com um gesto de cabeça.
14 abril 2015
O homem que amava os cachorros
O
HOMEM
QUE
AMAVA
OS
CACHORROS
LEONARDO PADURA
Editora Boitempo
590 páginas
R$ 60,00
Nesta primeira
dezena de abril de 2015 as manchetes de todos os jornais destacaram o
restabelecimento das relações entre Cuba e Estados Unidos após 62 anos de
embargo comercial.
A poderosa
Globo ao perceber o movimento de aproximação enviou rapidamente um repórter
para colher depoimentos cubanos sobre o viver na ilha. A maioria dos
entrevistados era de anônimos até que, para a minha surpresa, conversaram com Leonardo
Padura que falou com clareza e impressionante liberdade sobre as dificuldades e
perspectivas de morar em Cuba.
Não foi à toa.
Ele foi
escolhido pelo seu recente reconhecimento e premiações literárias na Espanha,
França, Itália além da própria Cuba.
No romance O homem que amava os cachorros, Padura aparentemente
sem cerceamento de expressão, reconstrói a figura do polêmico líder soviético
Leon Trotski, do seu assassino e de um frustrado escritor cubano nos tempos
atuais. O romance ficcional entrelaça com maestria a biografia dos três
personagens, desvenda os crimes da União Soviética de Joseph Stalin, penetra na
guerra civil da Espanha e comenta sobre a vida em Cuba nos dias atuais.
Por sorte não
fui interrogado por nenhum membro da NKVD*, entretanto tenho a confessar que a
leitura foi pesada em todos os sentidos. Pela quantidade de páginas e
principalmente por causa das severas revelações dos métodos do tirano Stalin.
Não sei se por
medo de interrogatórios, mas os russos de forma geral são conhecidos por vários
nomes e apelidos. Trostki foi batizado Liev Davidovich Bronstein. Stalin
recebeu o nome de Iossif Vissarionvitch Djugashvili. Lenin era Vladimir Ilitch
Ulianov. O assassino espanhol, Jaime Ramón Mercader del Rio Hernández, a cada
capítulo se escondia atrás de outro codinome. Além dos nomes, codinomes e
apelidos impronunciáveis na maioria das vezes, conhecermos pouco as figuras do
passado soviético o que tornou a leitura um desvendamento de um código secreto.
Exterminando
esse problema que é nosso e não do livro, a leitura ficou palatável e em vários
momentos verdadeiramente saborosa.
O autor desde
o início nos previne que “fanatismos não se discutem, pois encerram em si
mesmos um diagnóstico.” E de uma forma geral sugere que os seguidores de Karl
Marx foram também seguidores de Maquiavel ao aplicar a máxima que o fim
justifica os meios.
O resumo, bem
resumido da história, é a revelação do segredo de um homem que encontra outro
numa praia deserta. Ele diz ter sido treinado para executar Trotski quando este
estava exilado no México.
Entretanto
como o autor foi tão generoso ao escrever centenas de páginas eu seria
deselegante se apresentasse um resumo de apenas três linhas.
Então,
retribuindo a gentileza, faço um resumo estendido a partir de frases
sublinhadas.
Mercader foi
um rebelde espanhol que rompeu com o pai burguês pela causa socialista. Na
Revolução Espanhola – movimento grevista com saldo de 1.400 mortos e mais de
30.000 detidos – convenceu-se de que a piedade não existe nem pode existir na
luta de classes. Vive numa Madrid cansada desencantada, assediada pela escassez
e ansiosa por regressar a uma normalidade destruída pela guerra e pelos sonhos
revolucionários mesmo que ao preço infame da rendição. Embrenhou-se nas reuniões
políticas a ponto de se destacar e ser cooptado pelo Partido para ações mais
significativas para a causa da revolução que a simples panfletagem ou explosão
de prédios.
Simultaneamente
Stalin impera na União Soviética com um rebenque numa mão e um chocolate na
outra. Por exemplo, para construir o canal que ligava o mar Branco ao Báltico
chicoteou 200 mil prisioneiros, dos quais mais de 25 mil morreram, e presenteou
com um bombom ao escritor Máximo Gorgki
quando este documentou para o mundo que o Canal demonstrava a supremacia
da engenharia socialista e que se propunha a transformar os prisioneiros em
modelos resplandecentes do Novo Homem Soviético.
Ao comunista madrileno
que sonhava com a utopia, que todos fossem felizes, alimentados, abrigados,
cheios de direitos e sem obrigações é ensinado que não se atacam os inimigos
quando estão de pé, mas quando estão de joelhos. E é nesta posição, submissa
pelo medo, que precisa estar a população opositora. Ele é doutrinado, não
precisa entender nada, deve submeter-se à santíssima trindade: obediência,
fidelidade e discrição. É apresentado e estuda a biografia, reescrita e
publicada, de Trotski.
Trotski que
havia sido um dos principais líderes e teóricos da Revolução Russa, foi
derrotado e exilado por Stalin. Mesmo assim, de países distantes, consegue ser
um combatente ferrenho escrevendo artigos. Por isso, na biografia reescrita deixa
de ser russo para ser ucraniano. É chamado falso profeta, renegado, inimigo do
povo. Dizem que é a maldade ideológica personificada elevada à enésima potência.
O exilado parece
se alimentar e crescer com a difamação. Escreve pra vários jornais apontando a
política de um governo que adota a perseguição e a mentira como recursos do
Estado e estilo de vida para o conjunto da sociedade.
Baseado em minuciosa
pesquisa o autor não deixa que o livro se transforme em maçante aula de
história política. Mostra por exemplo, como os jovens são facilmente aliciados,
como o assassino, e são convencidos para a grande missão. Que os homens do
futuro terão um mundo mais seguro e melhor graças a pessoas como ele. Mostra
também como o escritor é envolvido para escrever o romance. A simultaneidade das histórias torna o
resultado em leitura digna de aplausos ruidosos.
Sem dúvida e
sem trocadilho, foi um dos grandes livros que li.
* NKVD – Narodnyi Komissariat
Vnutrennikh Del ou Comissariado do Povo para Assuntos Internos.
07 abril 2015
O decote no escritório
Sabe aqueles peitos das mulheres de filmes americanos? Pois é, a Patrícia
tem um par desses. O generoso decote exibe muita volúpia, poder e alegria.
Logicamente a alegria fica por conta, apenas, daquele que tiver o privilégio de
brincar naquelas montanhas russas. Ou americanas. Ou brasileiras. Sei lá, JotaTê
sempre se perde quando está cercado de pensamentos no vale.
A Patrícia é da área de marketing e
são raras as oportunidades que tem de encontrá-la no trabalho. A exuberância só
fica disponível aos seus olhos nas reuniões semestrais. Ele até propôs que as
reuniões semestrais fossem todos os meses. Mas a diretoria não quer que outras
gerências se relacionem com o pessoal de propaganda e marketing.
Na última reunião havia poucos presentes.
Todos cientes, da importância da reunião com o diretor. Patrícia compareceu com
uma blusa abotoada e saia. Uma saia comportada. Nem chamou à atenção, ao menos
antes da reunião começar.
As coisas começaram a se complicar
quando o destino o colocou na mesa bem à frente da doutora Patrícia. Ele havia
se preparado com afinco para a reunião de resultados. Uma boa apresentação
respaldada em trabalho eficaz poderia definir uma promoção para alguém daquela
sala. Ele queria ser o promovido.
No momento em que percebeu que a
exposição de motivos do departamento de marketing estava no botão da blusa que
a doutora abrira abaixou a cabeça. Pensou em olhar e focar nos próprios apontamentos.
Foi aí que perdeu a promoção.
Patrícia jogou com toda sua inteligência e capacidade. Ela estava em casa. O terreno era o
dela. Sabia onde seria a reunião. Seria na sala com a enorme mesa de tampo de
vidro. E se preparou muito melhor que ele. Usou de todos os artifícios para
desconcentrá-lo e superá-lo. Veio sem calcinha.
JotaTê foi aplicado. Conferiu os pormenores e certificou-se que ela
estava realmente, indubitavelmente, deliciosamente sem calcinha.
Ela rabiscou e empurrou um bilhete.
– Quer?
Era impossível olhar para os olhos da doutora Patrícia.
Limpou a baba que escorria pela lateral da boca e assentiu com a cabeça
olhando para o decote.
A fama da doutora era de cumpridora de prazos e compromissos.
Na sexta-feira se encontraram e rumaram para o motel.
Tudo perfeito, Patty estava pleonasticamente divina. Os sonhos iriam se
realizar. Era o sonho de dez entre dez funcionários da empresa.
Estavam a sós no quarto. Me ia
luz. O beijo. A agarração. A volúpia. Mãos acariciando e apalpando. Mãos
despindo corpos. Corpos nus se pegando e se esfregando. Libido nos céus. Os
enormes e rígidos seios eram dele, tudo dele. Dele e da sua boca.
A língua descreveu meio círculo no mamilo de Patty e na mesma hora
Patrícia, de prazer, cravou e arrastou as dez unhas nas costas de JotaTê. O
sangue correu nas trilhas dos dez punhais.
O candidato a gerente brochou. Perdeu a promoção, o tesão e a vantagem de
dizer que tinha comido a Patrícia, a nova gerente.
28 março 2015
Tia velha
Quando era menininho eu odiava aquelas tias
velhas, amigas da minha avó, que chegavam apertando bochechas falando que me
viram nascer.
Hoje eu sou a tia velha.
24 março 2015
A máquina fantástica
Adolpho Bioy Casares
Editora Expresso e
Cultura – esgotado em todas as editoras
128 páginas
Participar de
um grupo de leitura foi uma das melhores coisas que me aconteceu depois que
resolvi viajar no mundo literário. Saí da rota comercial dos best sellers para navegar horizontes
desconhecidos. A bússola são os colegas marinheiros do grupo de leitura que,
via de regra, sugerem embarcações diferentes para destinos, para mim, sempre
inexplorados.
Quando
propuseram um autor argentino torci o nariz como o brasileiro que acompanha o
futebol.
Ainda precisei
comprar o livro numa livraria virtual uma vez que o livro está esgotado. Recebi o livro amarelado reencadernado com
algumas marcas de fita durex. Cheirava ligeiramente a mofo ao contrário de um
novo que recende a tinta gráfica.
Ultimamente
estou meio ressabiado com as apresentações, orelhas e contracapas que tenho
lido. Todas são elogiosas. Aliás, é por isso que estão ali.
Então, foi
assim, cheio de desconfianças, que li a apresentação de Jorge Luís Borges, o
Maradona da literatura portenha.
Borges afirma
que nenhuma outra época possui novelas de argumentos tão admiráveis quanto The turn of the screw,
Der Prozess, The invisible man, Le voyageur sur la terre ou
como o desta , escrita em Buenos Aires por Adolpho Bioy Casares.
Ou seja, que
acima de tudo, eu, como leitor, deveria prestar atenção no argumento da
história. Foi o que eu fiz.
Trata-se da
história de um condenado à morte que foge para uma ilha afastada. A ilha apesar
de deserta possui algumas poucas edificações improváveis: um museu, uma igreja
e uma piscina.
O fugitivo é
prevenido por um italiano que vendia tapetes em Calcutá, que as construções
datavam de 1924 e que nem os piratas chineses nem o navio do Instituto
Rockefeller ousavam ir até lá. Que a ilha era um foco de enfermidade, ainda
misteriosa, que matava de fora para dentro. Caem as unhas e o cabelo, a pele e
as córneas morrem e o corpo só resiste de oito a dez dias.
Com esse
início de mistério e quase de terror sabemos também que o fugitivo pela
centésima noite anota suas sensações, medos e descobertas. E tomamos
conhecimento da história justamente a partir das anotações do caderno do
fugitivo.
Também, desde
o início, o autor lança notas de rodapé de página que são absolutamente geniais,
pela sutileza, quando questiona a veracidade do narrador ao prestar algumas informações como a primeira nota que
diz que as Ilhas Ellice são baixas e sem árvores ao contrário do narrador que
diz que ali havia um morro e árvores.
A história ganha vulto quando o condenado
passa a ter companhia na ilha. Não sabemos se são alucinações, delírios, fantasmas
ou pessoas de verdade. Cabendo ao leitor especular o mistério como num enredo
policial.
Entre os
vultos se destacam um homem, Malthus e uma mulher, Faustine, pela qual o
protagonista e narrador se apaixona.
Estes são os
cenários e personagens que o autor utiliza para divagar sobre a vida, sobre a
morte e sobre a eternidade enquanto tenta descobrir se a origem dos vultos são
fantasmas, se ele está morto ou até se são provenientes das alucinações provocadas
pelas raízes que come.
O fechamento
da história apresenta uma resposta verossímil às indagações e podemos aceitá-la
mais do que sendo fantástica, mas de ficção científica.
E, por isso
mesmo o argumento é genial, Borges tem razão, principalmente para as
explicações para a Máquina de Morel.
Finalizando,
sou grato por pertencer a esse grupo de leitura e assim, como o protagonista,
ter a oportunidade de explorar terras por mais fantásticas ou fantasiosas que sejam.
17 março 2015
Palestra de autoajuda
Esta semana recebi três comunicações circulares relembrando a palestra
com o prestigiado conferencista de renome nacional, o escritor de cinco best sellers, Dr. Tiago Neves de Melo Costa. Mesmo quem nunca ouviu falar em Melo Costa
passou a enaltecê-lo após propagandearem a manada de informações.
O RH ressalta que as falas do Dr. Tiago superlotam auditórios. Que é
muito importante se inscrever, apesar da gratuidade, e confirmar a presença,
tendo em vista que o auditório comporta apenas trezentos felizardos. Que a
palestra Melhorando
a autoestima está contida na filosofia de valorização dos
funcionários públicos. Que é restrita aos funcionários desta repartição. Vetada
a presença de parentes.
Há vários dias, a figura do Dr. Melo Costa nos recebe com um sorriso de
boas-vindas na entrada do nosso prédio. O tamanho do sorriso quase ultrapassa
as margens do enorme banner
multicolorido.
No hall dos elevadores, os cartazes informam que o Dr. Melo Costa já
realizou mais de duzentas palestras de sucesso e que já vendeu mais de três
milhões de livros. Que os seus livros “É mole ganhar dinheiro”, “Tenha amigos
no lugar certo”, “Valorize-se e suba na vida”, “O mundo é dos vivos” e “O que o
outro quer ouvir” estarão à venda.
Nos corredores e nas rodas de cafezinho o assunto é único: a vinda do
idolatrado professor Melo Costa. Repentinamente, todos conhecem alguma tia ou
vizinho que melhorara de vida após ler um dos livros dele. Os colegas citam
frases selecionadas nos livros de Melo Costa: “Ajuda o teu semelhante a
levantar a carga, mas não a levá-la.”, “A sorte ajuda os audazes.”, “As pessoas
que vencem neste mundo são as que procuram as circunstâncias de que precisam e,
quando não as encontram, as criam.”. Uma catarse coletiva estava em andamento e
a palestra seria só à tarde.
Às 11h30, recebi mais uma circular informando que os funcionários que
não conseguiram se inscrever teriam uma nova oportunidade dentro de 40 dias,
porque o RH encontrou uma brecha na agenda do disputado conferencista.
À tarde, meia hora depois do combinado, o professor se instala atrás do
microfone e, com a desenvoltura de um bispo evangélico, cativa a plateia
extasiada.
Em resumo, enaltece o trabalho dos funcionários públicos, afirma que
todos são eficientes e eficazes. Eles é que levam o País para frente. Se há
alguma deficiência nas repartições públicas é culpa dos malfalados políticos
que transferem a má imagem aos trabalhadores da burocracia.
Incomodei-me ao perceber que o discurso estava de acordo com o título do
livro mais recente: “O que o outro quer ouvir”. Quando ele pronunciou com
orgulho a própria sabedoria: “Todos os dias fazemos muitas coisas que não são
importantes. Mas é muito importante que as façamos.” Um alarme soou na minha
cabeça. Essa frase é de Mahatma Gandhi.
Peguei a agenda e passei a anotar outras frases de efeito até o término
do teatro, quando todos aplaudiram entusiasmados.
Evitei o lanche de confraternização após a conferência. Fui para a minha
sala checar as anotações. Não fiquei surpreso ao consultar a Internet e confirmar
que Melo Costa, sem constrangimentos, se apossara de pensamentos do Dalai Lama,
de Shakespeare, Pitágoras, Sófocles, Paulo Coelho.
Em outra pesquisa, descobri que todas as palestras aconteciam em órgãos
públicos: secretarias estaduais, prefeituras, estatais, câmaras municipais e
até no Senado Federal. Procurei em listas de mais vendidos e nada encontrei.
Todos os livros foram adquiridos pelo governo para distribuição nas escolas e
bibliotecas públicas. Sem dúvidas, o Dr. Tiago Neves de Melo Costa aplicava na
prática o que ensinava nos títulos dos livros. Tendo amigos no lugar certo é
mole ganhar dinheiro. Pena que não tenha escrito nenhum livro sobre honestidade
e ética.
Em casa, foi difícil adormecer. Três provérbios giravam velozes na minha
insônia: "Quem encobre ladrão é ladrão e meio." “Não existe almoço de
graça.”; “Ladrão que não é apanhado, passa por homem honrado."
No dia seguinte, mesmo sem ter a quem apontar os fatos na repartição,
juntei a documentação. Lacrei anonimamente um envelope pardo. Dirigi-me ao
Ministério Público.
Quando entrei, pediram que me identificasse na portaria. Passei a porta
giratória e a figura do Dr. Melo Costa me recebeu com um sorriso de boas-vindas
estampado num enorme banner multicolorido.
A porta girou novamente para a minha saída. Entrei em parafuso.
10 março 2015
Mesas com sotaque
Prezado Klotz,
Ficamos
felizes em lhe informar que sua história foi selecionada no Concurso Cultural
25 anos do Feitiço Mineiro e assim você é um dos ganhadores de um voucher de 25
chopps!
Escrever ainda não paga o aluguel nem a gasolina, mas paga a cerveja.
Mesas com sotaque
Ao
lado da churrasqueira da minha casa havia uma mesa rústica com jeitão de
galinhada domingueira de família.
Minha
mulher a desprezava. Expulsou-a ao relento, substitui-a por outra de mármore.
Nos
separamos, a mesa não teve nada a ver com a separação, entretanto na hora de ir
embora escolheu os estofados da sala e desdenhou apontando:
–
Nem para lenha serve.
Eu
a comprara numa garage sale e ao
situá-la junto à churrasqueira procurei respeitar sua tradição de agregadora de
pessoas, de reunir amigos, de motivar encontros. Assim, ao calor das brasas, ela
carregou alegria, copos de cerveja, bolos de aniversário,
História
não se joga fora. Pensei.
Decidi
vender a casa para uma família. Eu precisava me desvencilhar de muitos móveis e
objetos que não caberiam num apartamento. Por questão de orgulho ferido, eu
precisava provar o valor da mesa. Procurei os vendedores de antiguidades e só consegui
sorrisos ou ofertas desprezíveis.
Próximo
da mudança fui almoçar no Feitiço Mineiro
e observei externamente duas mesas com estilo próximas à da minha e várias
outras destoando do ambiente do restaurante. Eu achara o lar para a mesa.
O
caixa apontou-me o proprietário do restaurante.
–
É o seu Jorge.
Conversamos.
Mais que o dono do Feitiço Mineiro, conheci
uma pessoa atenciosa, gentil, inteligente. Agendamos um encontro.
Ele
veio com um amigo para avaliar o móvel. No jardim, Jorge deliciou-se com as
amoras e as mangas. Sem pressa, chegamos à churrasqueira onde uma solitária
orquídea branca valorizava o tampo maciço.
O
avaliador atestou a qualidade e elogiou a peroba rosa. Jorge concordou, mas apontou
que a mesa precisava de reparo, que estava com a superfície desgastada e que
talvez fosse um pouco mais alta do que gostaria.
Jorge
estava acostumado a comprar e vender. Desvalorizou o objeto e, sabendo da minha
pressa para mudar, mostrou-se o dono do tempo. Por outro lado eu havia notado o
sorriso de aprovação, percebera também que dinheiro não era problema. A questão
era a diferença entre o quanto eu queria e o quanto que ele se dispunha a
pagar. A diferença era pequena, mas ambos fincamos pé. Criou-se um impasse.
Abri
uma cerveja e conversamos até o escurecer sem negociar. Na despedida, Jorge confirmou
seu valor e somou três jantares no restaurante com acompanhante.
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