27 agosto 2007

Inverno

Como todos os dias, levanto e olho o tempo pela janela. Nestes últimos dias de agosto não existe possibilidade de chuva no Planalto Central. Ao contrário, em casa colocamos umidificadores para amainar a seca. Na falta, espalhamos bacias e toalhas molhadas. Crianças são as que mais sofrem.
Pertinho, vejo verde grama irrigada, mais à frente, suave névoa escondendo calmas águas do Paranoá. Ao fundo o horizonte vermelho.
Troco o pijama por uma camiseta e meias de lã por meias esportivas. Me espreguiço e vou caminhar. Na porta de saída do bloco recebo o impacto do frio no peito. Cumprimento o empacotado porteiro e, em vez de esquerda, escolho a direita. Às vezes temos que sair da rotina e mudar os nossos trajetos e rumos diários. Resolvi trocar as calçadas sujas de cocô de cachorro de madame por calçada marginal ao mato aparado em superquadra ainda não construída.
Andei cem metros e ultrapassei a linha de alcance dos aspersores. A grama mudou de cor para sem cor. Mais adiante formigas cruzaram a calçada numa trilha de cavacos marrons desrespeitando o caminho urbanamente civilizado. Prosseguindo, levantei a vista para o céu sereno e desmaiado. Abri os braços com as palmas abertas para captar energia. A força veio tão forte que podia senti-la pousando nas mãos. Emocionado e incrédulo eu queria ver para crer. Vi partículas pretas. Apurei o olhar e constatei fuligem. Para muito além da névoa seca o fogo pintava o horizonte de vermelho. Na lonjura a cor é suave.
Ainda é cedo. O dia acordou, preguiçoso, ainda não levantou. Está quase silencioso, até ouço cachorros latindo à distância. Devem ser vira-latas, cachorros escovados latem mais tarde.
As árvores nativas não são bonitas. Os galhos são tortos e retorcidos. São errados. Os troncos parrudos têm uma couraça de jacaré para sobreviver nas queimadas. E nesta época do ano, além de não serem bonitas, estão nuas mostrando esqueletos de campos de concentração. Sem conhecê-las não damos valor.
A cabeça recém-despertada capta sem chiados o que me acerca. Passarinho não chia. Passarinho pia. O pio do sabiá está muito próximo.
– Olha lá! Olha lá! Ouça, preste atenção! Faça da boca um assobio e repita. Repita assobiando: – piedade-sinhô... piedade... tendó-de-nós... piedade... sinhô. Não é bonito? É apaixonante.
Continuo meu passo e vejo uma fumacinha no meio do terreno litigioso. Ali não há muito mato para ser queimado. Entretanto o instinto de preservação, nesta época de seca, sugere que eu apague o fogo enquanto estiver baixo. Eu mudo meu rumo na direção da fumaça. Nem precisei caminhar muito. Em volta do fogo vi quatro boquinhas escancaradas de fome, dor, frio e morte. O pai oferecia o desjejum caçado nas caçambas peçonhentas. Adiante da fogueira havia uma tenda de lona preta sob uma árvore de casca dura.
A única luz que havia para aqueles miseráveis urbanos era o amarelo solar das flores do ipê.
Piedade-sinhô... piedade... tendó-de-nós... piedade... sinhô...

18 agosto 2007

Recepção ao primeiro-ministro do Reino da Estroína

Minha bela adormecida,

Que alegria receber notícias suas depois de tanto tempo. Estou flutuando nas nuvens por saber que você virá a Brasília para a recepção ao primeiro-ministro do Reino da Estróina, Frederico Gustavo III no Palácio do Itamaraty.
Quantas saudades e recordações guardo da nossa infância quando sua brincadeira predileta era brincar de princesa. Eu tinha que duelar com malfeitores, matar dragões e me ajoelhar aos seus pés para ser consagrado cavalheiro e merecer o prêmio máximo: um beijo na testa. Você estava sempre linda, coroada com uma tiara de lantejoulas brilhantes. Os tempos se passaram, e na última vez em que a vi, antes de mudar para Brasília você estava resplandecente no pôr-do-sol, caminhamos de mãos dadas e trocamos um único e delicioso beijo selando respeito e amizade eternas. Deixei-a na porta do castelo, depois subi no alazão e vim embora.
Passados quase trinta anos, você terá seu sonho realizado: um convite para participar de uma festa na corte.
Até parece que escutei sua voz macia quanto me escreveu:
– “Meu cavalheiro, como será e como devo ir ao baile?”
Minha querida, a recepção não será um baile, não haverá orquestra de violinos e já não se dançam valsas nos salões. A presença do homenageado no salão não será anunciada pelo bater do bastão pelo mestre de cerimônias. Nem a nobreza estará perfilada à entrada para recepcionar os ilustres convidados.
No convite consta traje de gala. O que requer vestidos longos para as damas e fraque para os cavalheiros. Os oficiais das três armas têm trajes próprios para esses eventos. É a oportunidade de ostentar orgulhosamente as insígnias que representam as condecorações e medalhas conquistadas por méritos. É também o momento em que ministros e altas autoridades estufam o peito com as diversas comendas e honrarias. Aqueles que não as têm, penduram medalhas de futebol de salão ou de concursos literários. Ouvi dizer que o presidente usará o colar com a grã-cruz de Estróina.
Não se preocupe em mandar costurar vestido especial, faça como todos fazem: alugue roupa de dourados e pratas. Não se preocupe com jóias, também há imitações perfeitas para alugar. Quem sabe você encontra uma coroa de brilhantes para que eu possa coroá-la rainha? Caso você não queira alugar, sempre há possibilidade de retirar do armário alguma roupa da avó e desfilar na passarela com a essência de milenar naftalina. Ah, antes que eu esqueça, é muito importante que seu vestido seja largo o suficiente para correr. Este é sempre o grande e esperado momento. A corrida ao bifê. Quando um garçom depositar a baixela de prata com a cascata de camarões será dada a largada. Todos sairão correndo para encher pratos, bocas, bolsas e bolsos de camarões. Quem já tinha o bolso cheio de salgadinhos joga tudo no chão para substituir por camarão. Então, previna-se com uma saia folgada e uma bolsa espaçosa.
Os garçons, com imaculadas luvas brancas depositarão mais umas dezenas de travessas com os mais saborosos acepipes. Com a mesma velocidade eles desaparecerão nas bocas dos convidados que, com suas bocas cheias, gritarão aos garçons para trazerem mais taças de vinho.
Ah, minha querida Bela Adormecida, Cinderela ou Rapunzel, esqueça seus sapatinhos de cristal e sua carruagem de cavalos de longas crinas.
Numa reverência, respondo à segunda parte da sua pergunta, minha princesa, como deves ir? Deves ir comigo, para que eu, seu fiel escudeiro, a proteja da dura realidade.
Beijo,
Despertador

07 agosto 2007

Perdedor de Deus


Sou um predestinado! Quando nasci todos já sabiam que meu destino seria o sofrimento. No meu parto não havia nem estrela nem cometa a iluminar o caminho. Apenas um buraco negro. Há os eleitos, sou o perdedor.
Quis a sorte que eu freqüentasse a alta classe. Sempre rodeado de moças apetitosas e rapazes fortes num desfile constante de corpos e modas. Não faço feio, modéstia à parte, sou escultural.A educação espiritual me ensinou a ouvir problemas alheios. A vida é terrível. Competitividade, falsidade, egoísmo, dinheiro, vaidade, paixão. A sociedade está com problemas graves e, em vez do diálogo, pancadas. Não consultam, não expõem, não conversam, não se queixam, não se confessam, apenas batem. Esta é minha sina. Só querem saber de bater em mim. Reflito, oro, medito, mas jamais revido. Absorvo bem os golpes da vida. Acredito em reencarnação. Devo ter sido muito mau e agora cabe-me a purificação. Meu aprendizado é apanhar sem revidar, responder sempre com um sorriso. Meu crescimento interno permite que eu sonhe uma vida melhor depois desta, estou cansado de ser boneco de academia de musculação.

02 agosto 2007

Político na tevê




Barzinho lotado na final da copa do mundo.
Político passa na frente da tevê.
Neguinho grita que deputado não é transparente.

19 julho 2007

Ausência


Sou a secretária eletrônica do blog do Klotz.

Ele viajou e só retorna em agosto.

Por favor, deixe seu comentário, elogio ou esculhambação.






Cu acentuado


Sou orkutiano e naquelas bandas participo de uma comunidade Bar dos Escritores. Há vários participantes que realmente dominam o riscado. Entretanto há outros que escrevem uns testos ezquizitos. Vários escrevem palavrões e consideram questão de postura, de atitude. Ou contestação.

Cu deixou de ser obsceno há duas décadas ou mais. Só é obsceno quando é acentuado.
Depois de ler outra obscenidade escrevi este besteirol.

"Esta comunidade já teve homéricas discussões à respeito do cu acentuado.
Um amigo falou do cu rosado e do cu sujo. Se fosse acentuado seria cúpreo.
Só o mulo leva acento no cu. Isto, quando o cu vai na frente. É o cúmulo.
A alta casta da igreja também é a favor do cu acentuado. É a cúria.
Quem tem dado sabe que cu gosta de acento. É o cúbico.
Quem está de acordo em levar acento no cu é cúmplice.
Há pessoas que não concordam e acham que cu deve receber acento sim. E ficam decúbito.
Mesmo sem acento, pode-se, com o cu, tomar assento."

15 julho 2007

Mulher dura na queda

Dei flores perfumadas,
abri portas,
puxei cadeiras aveludadas.
Ofereci chocolate quente.
Preparei banquete.
Fiz poesia, declamei.
Negativou com a cabeça.
Deixou-me sem sentidos.
Apelei.
Cochichei que o deputado foi processado.
Que o governador foi obrigado a devolver o dinheiro.
Que o presidente demitiu seis ministros.
E renunciou.
Fui beijado, na boca.
Faz sentido.
※ ※ ※ ※ ※
Quadro “A diva no divã” de Rosiane

12 julho 2007

Manchete

Bandido estupra e mata anciã. Traficante vende, não entrega e esfaqueia. Parou no sinal e perdeu o carro. Pivete chapado mata por um relógio quebrado. Pedreiro faz sexo com nenê da vizinha. Mais uma rebelião no presídio. São manchetes diárias dos nossos jornais. Na verdade não são manchetes, são apenas chamativos das páginas internas do jornal. Às primeiras páginas cabem as verdadeiras notícias de destaque: política, economia e esporte. Os fatos corriqueiros de morte e violência, de tão comuns ficam com as páginas centrais. Os acontecimentos só recebem relevo quando o algoz ou a vítima são pessoas de notório destaque. Se o seqüestrado for apenas rico não receberá sequer uma linha dos jornais.
É a banalização da morte, a vulgarização do crime. É o cotidiano. Ninguém mais se importa.
Os presídios estão superlotados, os policiais não têm formação, os processos percorrem um lento e burocrático caminho, as leis estão obsoletas e se contradizem, sempre há mais uma instância a ser recorrida, a corrupção atinge até juízes. As estatísticas informam que menos de 20% dos criminosos acabam condenados e destes, menos de 15% cumprem toda a pena.
O bandido tem a certeza da impunidade. Ao cidadão cabe esperar apenas pela justiça divina. Ao perceber à sua volta um rastro de terrores ela passa a desejar a morte do malfeitor. A morte preferencialmente em julgamento sumário e execução em praça pública.
Se não houver uma reviravolta em todo sistema, breve tornaremos à Idade Média e teremos como manchete: Povo brasileiro exige pena de morte.

04 julho 2007

Girafa barulhenta


Caminhar sempre é bom. Acompanhado é melhor. E quando a companhia é agradável, é o máximo. Tenho uma vizinha que gosta de caminhar comigo.
Infelizmente a velocidade dela é devagarzinho. Bem devagarzinho, para poder
falar bastante. Ela é muito alegre, extrovertida e perguntadeira. Bem típico da idade. Eu que não tenho nenhum neto, a princípio fiquei incomodado com esse negócio de me chamar de Vô. Mas é uma menina muito fofinha. Demorei a me acostumar, agora até gosto de ser chamado vovô. Quando ganho beijo lambuzado nem reclamo.
Hoje ela me contou que já sabe o que o irmãozinho vai ganhar de aniversário, mas que não vai me contar porque a mãe disse que era segredo.
Depois ela cantou a musiquinha da escola.
Meu lanchinho, meu lanchinho
vou comer, vou comer
pra ficar fortinho, pra ficar fortinho
e crescer e crescer.
E aí, sem mais nem menos ela perguntou se era verdade que as girafas não faziam barulho.
Eu não sabia se aquilo era uma piada, pegadinha ou era uma demonstração de conhecimento.
– Quem te disse isso?
– A tia. Ela disse que os cachorros latem, que os gatos miam, que os passarinhos piam, mas que as girafas não falam. As coitadas não fazem nenhum barulho.
Percebi os olhos tristes da menina com pena da girafa.
– As girafas fazem barulho sim. Você precisa ouvir como é alto o pum da girafa.
A menina deu uma risada e eu continuei.
– Silenciosas são as borboletas. Ou você já ouviu as borboletas batendo papo e fazendo algazarra?
Antes que ela respondesse continuei:
– Fale para sua tia que o único bicho que não fala é o criado-mudo.
Ganhei um delicioso beijo e ela saiu correndo.

27 junho 2007

Minha tia era um general

O nome da minha tia é Waltraut. Parece um castigo. Aos alemães é um nome para ser ostentado com orgulho. O problema de Waltraut, em relação ao próprio nome, é ter nascido no Brasil e residir no Brasil. Nasceu nos anos 20, do século passado. Filha de alemães imigrantes. Foi para a escola alemã. Freqüentava o clube alemão. O vizinho da frente era alemão. O da esquerda, alemão. O da direita também era alemão. Na mercearia comprava Reis, Bohnen e Zucker. Tudo em alemão. E o Herr Schmidt anotava em alemão a despesa na caderneta para a cobrança mensal.
Antes de prosseguir vamos para uma aula de alemão. A pronúncia do nome da minha tia é Váutraut. Com o último tê mudo. Repita comigo: Váutraut. Nem é tão difícil. Mas a aula não terminou. Reis é pronunciado ráis e significa arroz, Bohnen é pronunciado bônen e significa feijões enquanto Zucker é pronunciado tsúquer e é açúcar. Todas são iniciadas por maiúsculas porque substantivos, em alemão, são iniciados por maiúsculas. Agora podemos voltar à nossa tia. Ou melhor, à minha tia Waltraut.
– Quase esqueço de apresentar o Herr Schmidt. Herr Schmidt, leitor. Leitor, Herr Schmidt. Herr quer dizer senhor e Schmidt é tão comum quanto Silva ou Souza. Pronuncia-se hérr Chmit. Com tê mudo. Voltemos à tia Waltraut.
Ela era bonita, tinha postura ereta e voz firme. Se por um lado era elegante e ingênua por outra era determinada e inflexível. Quase uma caricatura.
Lá nos anos 60 ela pegava no pé dos meus primos, filhos dela. Queria que eles falassem alemão. Era mais do que natural que eles falassem português, como todo mundo. Na escola, no clube. Como o vizinho da frente e o do lado esquerdo. E o da direita também. Todos falavam português. Mas a tia queria que eles falassem alemão entre si. Irmão com irmão. Irmão com irmã. O cinto estalava no ar se um deles respondesse em português uma pergunta alemã. Tem que falar alemão! Dóitch chprehen! A minha tia era um general. E, generais não podem ser contrariados.
– Deutsch sprechen! – Fale alemão! – Ela ordenava em tom ríspido.
A prima mais velha já namorava escondido e ainda ouvia constrangida o ameaçador: – Deutsch sprechen!

O meu primo mais novo que devia ter uns sete anos também ouvia o Deutsch sprechen vinte vezes ao dia. Aquilo era uma lavagem cerebral. Tanto era, que um dia o menino estava brincando e se divertindo com o irmão e, de forma ingênua, perguntou para a mãe:
– Tenho que rir em alemão também?
Foi a libertação. Nunca mais a tia Waltraut ordenou que falassem alemão.
Mas meus primos nunca se libertaram de terem de comer espinafre, berinjela e chuchu. Tudo em alemão. É lógico.

12 junho 2007

Acordei


Acordei pensando e ejaculando vontades.
Você virou-me as costas.
Era tudo o que eu queria.

07 junho 2007

Mesa na calçada

Domingo ensolarado. Hora do almoço. Restaurante cheio. Guarda-sóis protegendo narizes empinados.
Papai Ivo, mamãe Tereza, avó Lucrécia, Pedro com a cara cheia de espinhas e Juninho com a chupeta.
Sobre a toalha engordurada uma travessa com um pouco de batatas fritas. Uma travessa cheia de alface, tomates e palmito. Uma travessa com resto de cebolas com molho. Outra travessa com arroz. Uma lata de cerveja e várias de guaraná.
Uma menina e um cachorro se aproximam.
Vovó vê longos cabelos desgrenhados, unhas sujas e pés descalços.
Pedro se delicia com olhos verdes e peitinhos desabrochando.
Mami se retrai com os vira-latas piolhentos.
Ivo vira a cara.
Juninho estende a sobra de bife mastigado.
A menina rasga a carne ao meio e oferta metade ao fiel amigo.
Juninho quer saber o nome da menina e seu cão.
Papi, Mami e Vó respondem juntos:– Bárbaros não têm nome!

28 maio 2007

Fora de medida

Chego em casa depois de mais um estafante dia de trabalho e a confusão está instalada: madame chorando na frente do fogão.
Sempre a tratei muito bem. Quase não lhe falta nada. Como sempre, acordei-a com um delicado beijo na testa, preparei o café e ainda coloquei colherinha e meia de açúcar. Beijei-a na saída. Melhor dizendo, beijei-a na boca, ao sair. Senti saudades e retornei direto para casa ao fim do dia.
Vejo que há uma série de xícaras diferentes espalhadas pela mesa da cozinha, um pacote de massa para bolo, um termômetro, a calculadora, alguns ovos de codorna, várias colheres de tamanhos diferentes, a jarra de leite, o pote de margarina derretida e o velho despertador barulhento.
Tomo-a em meus braços e pergunto o que foi que aconteceu.
Soluçando, responde que desejava preparar uma festinha só para nós dois, mas a receita do pacote estava por demais complicada:

BOLO DE CHOCOLATE
Ingredientes:
1 pacote de massa de bolo de chocolate
¾ de xícara de leite
3 ovos
2 colheres de margarina à temperatura ambiente

Misture tudo até formar massa homogênea; Unte e enfarinhe uma forma redonda com furo no meio; preaqueça o forno em temperatura média por quinze minutos; Não abra o forno antes de 30 minutos; após esfriar por 15 minutos, desenforme e sirva.
– Veja só quantas xícaras diferentes nós temos aqui: a do seu café, aquela outra de plástico, a do jogo de porcelana que ganhamos no nosso casamento... e todas têm tamanhos diferentes, – Ovos podem ser de codorna, de pata, de galinha, caipira, brancos, médios e... Enxugando as lágrimas. Qual dessas colheres? Uso a do diário ou devo usar a do faqueiro de prata?
Segurei-a pela mão, arrastando-a até a sala. Acomodei-a no sofá. E fui buscar dois cálices. Enquanto servia um porto, protestei:
– A culpa é da impunidade! Neste país as pessoas fazem o que querem e ninguém é responsabilizado por nada. Passam nos sinais vermelhos, assaltam, não fecham as pastas de dentes... Todos esses calhordas deveriam ser exemplarmente punidos! Para que serve o Instituto Nacional de Pesos e Medidas? Vou entrar com medida cautelar, seja lá o que isso queira dizer!
Irado, continuo meu protesto:
– Cientistas do mundo inteiro se reúnem, estudam e definem que quilograma é a massa do protótipo internacional constituído por um cilindro de platina e 10% de irídio depositado no Bureau Internacional de Pesos e Medidas, e ainda que o metro é igual ao comprimento do trajeto percorrido pela luz no vácuo durante um intervalo de tempo de 1/299 792 458 de segundo e... que diabos!
Virei o cálice de vinho para lubrificar a garganta e continuei:
– Estes fazedores de receitas culinárias estão nos cozinhando! Como vamos definir o que é uma pitada? Quantas gramas? Uma colher rasa de farinha? Então, além das colheres de chá, sopa e sobremesa, ainda podem ser cheias, bem cheias e rasas? Aí, ainda tem a história de meia xícara, três quartos de xícara ao invés de dizerem que se trata de tantos mililitros. Tenham a santa paciência! Forno à temperatura média. Vai te danar!
Sirvo-me de outro cálice de porto, viro o cálice de um só gole e continuo no meu discurso:
– A falta de uniformização das medidas é um retrocesso para a nossa nação. Sucrilhos, macarrão instantâneo, molho de tomate, geléia, coco ralado, sapatos... Nada está padronizado. Estamos a léguas de distância dos povos desenvolvidos!
Resolvi respirar e dar um dedo de prosa:
– Querida, você sempre soube preparar comidas maravilhosas. O que foi que houve? De verdade?
– Bom, eu só tinha ovos de codorna. Então quis saber quantos ovos de codorna seriam equivalentes a um de galinha. E principalmente queria saber onde você havia escondido a garrafa de vinho do porto.

※ ※ ※ ※ ※
Este texto foi extraído de “von Silva” – livro que aguarda publicação

22 maio 2007

Panapaná

Curioso? Também fiquei. Eu tinha um dicionário à mão. Talvez você não tenha. Se tiver, não precisa buscar, até o final do texto desvendaremos esta charada.
Panapaná não tem prefixo nem sufixo. E nem crucifixo para quem não souber o significado.
Existe um jogo com centenas de palavras, cada uma associada a cinco possibilidades, apenas uma verdadeira. Os jogadores devem tentar descobrir o significado se não souberem a resposta certa. Este não é um jogo, apenas um breve exercício mental.
Panapaná não tem origem grega nem latina. Não provém do francês, nem do inglês. É produto nacional, do bom. Ascendência tupi. Desta língua aprendemos e guardamos pouco. Ita é pedra. Pira é peixe. Boi é cobra e açu é grande. Só conhece quem se aventura por palavras cruzadas.
Com estas dicas já podemos deduzir que panapaná não é nome de palavra para invento do homem nem de coisa relacionada a modernidades. É coisa da natureza ou de sentimento.
Panapaná apesar de coletivo não se encontra nas cidades. Não é coletivo de transportar pessoas, é coletivo de transportar sonhos.
Panapaná não é uma borboleta, é um conjunto delas refletindo a alegria do sol em devaneios coloridos.

15 maio 2007

Dona Clotilde na farmácia


Canapé, garabulha, janota e trabuzana.
A mim, pareciam palavrões dos mais ofensivos. Para Dona Clotilde significavam sofá, confusão, mauricinho e tempestade.
Disseram-me que era professora do gymnásio. Maquiadíssima, ela usava um vestido preto com broche na lapela, um coque no cabelo roxo e sapatos com um salto de tacão. O conjunto devia ter uns 150 anos de idade. Ou mais.
Tratava-se de uma vetusta senhora. Velha era pouco. Dona Clotilde era muito velha.
Eu vi quando aquela ortodoxa figura entrou na farmácia. Reparei que escolheu escova de dentes e um creme que devia ser hidratante. Foi ao fundo da loja e retornou. Pegou um sabonete e tornou a ir ao fundo da farmácia onde separou um vidro de sei lá o quê.
Percebendo que a senhora estava desconfortável o atendente perguntou se poderia ajudá-la.
Eu estava muito longe e não ouvi o pedido. Apenas ouvi o balconista perguntar se ela estava rouca.
Vi a senhora matusalém contestar e mexer os lábios novamente.
O rapazola franziu a testa como quem não entendeu.
– A senhora está com dores nas costas?
A miúda anciã negou com a cabeça de coque roxo e discretamente resmungou alguma coisa.
– A senhora está com furúnculo?
A idosa mulher, quase se escondendo, fez que não. Chamou o farmacêutico mais para perto e cochichou alguma coisa.
Julgando a professora com problemas de audição, o moço com o jaleco branco perguntou:
– A senhora não consegue se sentar?
A antiqüíssima e frágil mulher se encolheu toda, fez que sim com os olhos. E, com o indicador em cruz sobre os lábios pediu discrição ao atendente e disse mais alguma coisa.
Vi quando o vendedor respondeu alguma coisa e a senhora consentiu com um discretíssimo sorriso.
Antes da série de bengaladas eu vi quando o balconista gritou para o colega:
– João, pega aí uma caixa de supositório para hemorróidas.

10 maio 2007

Narciso

Narciso era auto apaixonado. Seus pais eram o deus-rio Cefiso e a ninfa Liríope. E,por ser filho de deus se achava lindo, divino e maravilhoso. Passava o dia admirando-se no reflexo das águas da lagoa Eco. O problema era ficar de quatro, alguém poderia querer amá-lo também.
Por ordem de Narciso, o melhor artífice do reino criou o espelho: recortou um pedaço da lagoa e colocou-o numa moldura de brancas nuvens.
Narciso ao contemplar-se pela primeira vez ouviu o espelho repetindo: – Eco, eco, eco. Curioso e intrigado, aproximou-se bem do pedaço da lagoa e perguntou:
– Você só sabe dizer eco? O que dizes de mim?
– Você tem mau hálito.

※ ※ ※ ※ ※
Imagem de Narciso por Caravaggio

25 abril 2007

Opostos

Um casal de amigos, Paulo e Fernanda, são opostos em tudo. A começar, naturalmente pelo sexo. Ele é alto, ela é baixa. Ele magro, ela gorda. Ele sovina, ela shopping center. Ele moreno, ela loira. Inteligência não é medida pela cor do cabelo, isto é puro preconceito. Ele é preocupado, ela é desligada. Ele pontual, ela, ih, esqueci. Ele toma rápido banho frio, ela demorado banho quente. Cá entre nós e a torcida do Flamengo, quem é que agüenta demorado banho frio? Ele enrola a pasta de dente, ela nem põe a tampa. Ele diz que tudo tem seu lugar, ela procura a lixa de unha na cozinha encontra a pulseira dourada. Ele sapato, flauta e violoncelo, ela apito, pandeiro e chinelo.
Ele jamais larga o sapato na frente da tevê. Ele só tira o sapato após desfazer o lacinho, para em seguida guardá-lo no armário. Ao lado do outro sapato da mesma cor, logo abaixo da etiqueta: sapato social. Todos os cedês têm lugar certo. Dentro de cada caixinha está o cedê anunciado na frente. A não ser que ela tenha escutado música na última hora.
E daí?
Daí, que quase todos os casais lembram Paulo e Fernanda. Alguns Fernando e Paula.
Esta descrição está parecendo clichê. Então, a melhor forma é parar com a descrição e contar dois fatos recentes ocorridos com o casal.

– Fernanda onde está agenda de telefones?
– Está no banheiro.
– Isso é lugar? O lugar da agenda é do lado do telefone.
– Justamente. O telefone está lá no banheiro.
Paulo resmungando vai até o banheiro, pega o telefone e agenda e retorna para frente da tevê. Começa a folhear à procura de um número.
– Para que horas devo chamar o Humberto e a Fátima?
– Na hora que chegarem. Chegaram.
– Isto significa antes ou depois das nove?
– Então marca aí a hora que você quiser.
– Então vou chamar para as nove.
Paulo continua a folhear a agenda. E pergunta:
– Você vai colocar que roupa?
– Depois eu vejo. Alguma que estiver passada.
– Onde está o número do Humberto? Procurei em erre de Rodrigues e não achei.Também não está no agá nem no efe.
– Procure em eme. É Maria de Fátima!
– Já olhei! Só falta no u de Humberto.
Paulo resolve procurar página por página. Ele há de encontrar o telefone.
– Mas que diabos, Fernanda! O número está no cê.
– Lógico. Carteado. Turma do carteado.
Os nomes são fictícios. Qualquer semelhança é mera coincidência. Ou você acha que eu iria colocar os verdadeiros nomes? E, por serem fictícios conto o outro fato:
O quê você pensaria se visse a toalha molhada do Paulo sobre a cama?
a) Que o Paulo acabou de tomar banho, está se vestindo, e que já já, vai pendurar a toalha;
b) Que o Paulo, afinal, não é tão inflexível e chato;
c) Que o Paulo não costuma deixar a toalha jogada em cima da cama. Larga no chão.
d) A Fernanda tomou banho e usou a toalha do Paulo. A dela está em cima da cadeira desde ontem. E, que o Paulo vai ficar furioso quando descobrir sua toalha molhada e em cima da cama. Do lado em que dorme.
Ontem liguei para a Fernanda e ela disse que a resposta certa seria outra:
e) Nenhuma das anteriores. A Fernanda tomou banho. A toalha dela está no chão do banheiro para enxugar os pés. Usou a do Paulo para se enxugar. Jogou-a em cima da cama para provocar. Enquanto passa um creme nas pernas pede que Paulo traga a camisola branca. Paulo vai se enfurecer pela enésima vez ao ver a toalha, porém ao entregar a camisola Fernanda muda o tom e a começa a massageá-la, antes de agarrá-la entusiasticamente.
Os opostos se atraem.

04 abril 2007

O primeiro pentelho branco a gente nunca esquece!

Este foi o tema que encontrei no blog da Moniquinha há muuuuuito tempo. http://monicaneves.multiply.com/
E, o início do texto, pertence a ela. Um super beijo, garota.

Ingredients: Uma pessoa conhecida veio falar da sua crise quando surgiu o seu primeiro pentelho branco. Me pediu conselho. Eu dei né! Segue abaixo.Directions:Minha sugestão:Assim que aparecer o primeiro pentelho branco tenha uma crise daquelas, memorável. Puxe os cabelos (não os pentelhos), grite, berre, diga o quanto a vida é injusta e que Deus é homem e nunca deve ter tido um pentelho branco. Pegue uma tesourinha e delete o pobre coitado. Enquanto for um pentelho só, a crise estará liberada. Quando forem muitos, minha querida, ou você assume a perereca branquinha ou trate de pintar a pobre coitada (fico com a primeira opção). Você também pode adotar o modelito máquina zero. Super moderno. E não esqueça: bom humor sempre! Envelhecendo, porém com charme!

Meu amigo Roberto Klotz, grande cronista, leu meu post sobre os pentelhos brancos. Não pode responder pq ainda não quer se cadastrar no multiply. Me mandou a resposta via e-mail, hilária.

Transcrevo na íntegra: Este é um tema cercado de muito tabu. A sociedade tem vergonha de discutir tão importante tema. Discutiram séculos sobre o divórcio, o aborto e a eutanásia. A questão dos pelos pubianos sequer entrou em pauta para discussão. Quando, e se, a discussão dos pelos pubianos ganhar foro pode ser que abram espaço para discussão da cor dos ditos cujos. Acredito sinceramente que a questão do enbranquecimento da cabeleira púbia é assunto apenas daqueles que já amadureceram na vida. As crianças não têm nenhuma preocupação quanto à cor nem credo dos pentelhos, apenas desejam ardentemente que a região pélvica seja preenchida rapidamente com pentelhos. Os adolescentes e maduros têm apenas a preocupação na reposição dos pelos devido ao desgaste natural nas relações interpubianas. O pentelho sofre muita discriminação. Muitas mulheres simplesmente podam os pentelhos, como podam seus maridos nas conversas, outras mulheres reduzem drasticamente a área cultivada deixando apenas a mata ciliar. O pentelho também é execrado e ofendido quando das relações orais. Normalmente cospem e ofendem o infeliz que se intromete na boca. A própria palavra pentelho era considerada de baixo calão até que nos últimos 20 anos um apresentador de televisão começou a fazer uso da palavra à exaustão. Pode-se até dizer que o tal apresentador é um chato, assunto próprio para pentelhos. Não querendo fugir à questão proposta, surgimento do pentelho branco, defendo intransigentemente os pentelhos brancos. Acho um absurdo a discriminação contra os pentelhos brancos. Neste mundo povoado por negros pentelhos, penso que devam ser abertos espaços para os pentelhos brancos. Deve ser instituída cota para pentelhos brancos, da mesma forma que existem cotas para os vestibulandos negros, devem existir cotas para os pentelhos brancos.

26 março 2007

Retrato em branco e preto

A definição de raça agora é sacramentada por um tribunal de pureza racial que fotografa os candidatos a vestibular na UnB – Universidade de Brasília, e define os que podem ou não ser enquadrados nas cotas dos negros. Na escola aprendi que raça era uma coisa e cor era outra.
O que me interessa é que devem ser criadas cotas também para os portadores de letra K no nome. Desde a alfabetização sofri descriminação. Tudo por causa da reforma ortográfica de 1943 que eliminou o K do nosso alfabeto. Os portadores de letra W ou Y que juntem sua turma para formalizar seu pleito. Vou cuidar apenas daquilo que me diz respeito.
Somos poucos, pleiteamos uma cota de apenas 0,5%. Negros e mulatos ficam com 40%; deficientes físicos 20%; egressos de escolas públicas: 35:%; pobres: 20%; indígenas: 15%; asiáticos: 4,5%; judeus: 3%; desafinados: 5%; macrobióticos 2%; órfãos: 1%; analfabetos 18,37%.
O nosso caso não necessitará de nenhuma comissão especial para confirmação. Dispensaremos atestado de pobreza e exame de DNA. A identidade será suficiente para provar nosso enquadramento na cota. Particularmente tenho K por parte de pai e de mãe.
Feliz mesmo vai ser um amigo meu Zibgniev Chlowinsky, é pobre, estudou em escola pública do nordeste, não aprendeu a escrever, é preto de pai e indígena de vizinho, sem amídalas, careca, míope e na casa dele não tem televisão colorida. Com certeza vai entrar na faculdade, pois somando todas as cotas estará com 127,38%. O problema é que irá direto para o laboratório de antropologia.

17 março 2007

O grito do Ipiranga

Pedro apesar da fama de absolutista e mandão era uma pessoa dócil e bem mandada. Sempre atendia quando chamado. Miguel, Paula, ou Joaquim. Pedro atendia da forma que o chamassem. Também pudera, batizaram-no de Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon.
Apesar de todas aquelas opções preferíamos chamá-lo príncipe. Era uma coisa respeitosa. Apesar de que, entre nós, às vezes a gente falava do príííncipe puchando bem o iii e colocando o queixo no ombro e piscando rapidamente os olhos. Tínhamos que ser respeitosos, afinal sempre era bom viver às custas de Sua Riqueza.
Pedro tinha mania de se vestir de príncipe. Usava calças brancas tão apertadas que permitiam saber se a moeda do bolso estava cara ou coroa. Usava também umas jaquetas com ombreiras altas e enfeitada de medalhinhas douradas. Pedro era muito avançado para a época., este figurino só virou sucesso nos bailes gays do Rio de Janeiro 250 anos depois.
Pedro era casado com Leopoldina que era tão feia que era conhecida por trem. Por isso mesmo Pedro vivia viajando fugindo de casa. Ele sempre ia a Santos para surfar. Lá as ondas são pequenas de forma que ele dificilmente caia da prancha. Sob um guarda-sol ele foi apresentado a Maria Domitília, uma paulistana que todos diziam ser de Santos. Domitília, como Pedro, era muito avançada em termos de vestimentas. Ia para praia com uma touca minúscula. Ambos tinham 23 anos e se entendiam maravilhosamente sobre os lençóis de cetim. Pedro e Domitília tinham taras sexuais incríveis: se chamavam príncipe e marquesa respectivamente.
No início de setembro, depois de dois meses de praia, Pedro já estava muito bronzeado e deveria retornar a São Paulo e cuidar dos detalhes para a sua festa de aniversário. Pedro faria 24 anos dentro de dois meses e a expectativa era muito grande para o grande baile anual de aniversário. Tudo era motivo para baile.
O mordomo, José Bonifácio, juntou todo o pessoal, mandou selar os cavalos e preparou uma charrete acolchoada para Pedro. Retornamos lentamente subindo a Serra do Mar e atravessando a Mata Atlântica. No quinto dia de viagem, em pleno feriado, chegamos ao topo da serra com esplêndida vista da baixada santista. Montamos acampamento e preparamos uma peixada real.
Os peixes já não tinham sangue azul. Estavam verdes após calorosa viagem numa época em que não havia frizer nem geladeira.
Almoçamos e seguimos viagem. José Bonifácio queria chegar em São Paulo a tempo de ver o desfille no noticiário da tevê.
O peixe verde começou a saltar dentro da barriga de Pedro. Não tardou a achar a saída. Pedro borrou-se todo. Borrou também a bela carruagem aveludada. O cheiro da condução de Pedro ficou insuportável de modo que ele teve de montar um cavalo. Foi necessário limpar-se num riacho próximo. Na falta de papel higiênico utilizou-se da Gazeta do Rio de Janeiro onde leu que foi rebaixado de regente para delegado. Neste exato momento o outro peixe verde saltou de dentro da barriga da Sua Riqueza provocando enorme dor. Pedro urrou.
– Meeeeeerda!
O peixe buscou a independência e este episódio foi retratado anos depois por Pedro Américo e batizado como “O Grito do Ipiranga”.
 
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