Em 27/02/2010 recebi um e-mail do mestre comentando meu livro “Quase pisei!”:
27 fevereiro 2011
Adeus mestre Scliar
Foi com muito pesar que recebi a notícia da morte do grande Moacyr Scliar. As “Histórias que os jornais não contam” foram o exemplo que mirei para escrever meus contos semanais no blog.
Em 27/02/2010 recebi um e-mail do mestre comentando meu livro “Quase pisei!”:
Em 27/02/2010 recebi um e-mail do mestre comentando meu livro “Quase pisei!”:
Meu caro Roberto, só umas linhas para te dizer que estou terminando teu livro e que gostei muito de tuas crônicas, vivas, bem humoradas, bem escritas. Recebe os parabens e o abraço do
Moacyr Scliar
Tem escritores que escrevem para burro. Scliar escrevia para Jabuti.
23 fevereiro 2011
Quero uma estrela cadente
O outrora famoso céu noturno de Brasília é uma vítima do crescimento urbano das últimas duas décadas. Ele veio acompanhado da expanção da iluminação pública: 3,4 milhões de postes novos só entre 2000 e 2008. O problema é que essa iluminaçõa é ineficiente. Os postes jogam a luz em todas as direçõs, inclusive para cima. Isso privou as cidades da visão das estrelas.
Em Brasília, por exemplo, era possível observar a olho nu a Via Láctea e quase 2000 estrelas por ano no começo da década de 1990. Hoje o número caiu para 150. – Folha de São Paulo, Ciência, 20 de fevereiro de 2011.
Será que você encontra o Cruzeiro do Sul?
Eu era menino. Faz um bocado de tempo. Meio século já se passou. Costumava passar as férias no litoral, na casa de um tio. O acesso era difícil. No trecho final, nos últimos cinco quilômetros não havia estrada nem rua. O caminho era a areia branca da praia. Era uma aventura passar onde o mar lambia a areia, ali o piso era mais duro.
Precisávamos atravessar cinco riachos antes de chegar ao destino. Quando era época de chuva os riachos se enchiam de poder e se transformavam em rios engolidores de veículos, tornando a travessia mais arriscada. Era necessário passar com as rodas dentro do mar onde o rio se alargava e ficava mais raso. Muitas e muitas vezes ajudamos a desatolar aventureiros inexperientes.
Tudo era festa, mas precisávamos chegar de dia. Corríamos para guardar as roupas e levar a comida para a cozinha. A eletricidade poderia faltar e quase sempre faltava. Quando não havia energia precisávamos bombear manualmente a água para a caixa para sermos recompensados com um banho gelado no retorno do mar. Quem seria o primeiro, após as obrigações, a chegar na praia? Mergulhar? Furar onda? Pegar jacaré?
A farra no mar teminava com um assobio da mãe chamando para a broa de milho saída do forno. Todos corriam para escolher o pão mais queimadinho. E comê-lo, queimando a língua, na fila do chuveiro.
Lanchávamos muitas vezes à luz de um lampião de querosene para depois sentarmos em roda na frente da casa.
Do lado de fora era mais claro que dentro. As estrelas iluminavam o jardim e a conversa.
Alguém achou o Cruzeiro do Sul? Cadê as três Marias? Vênus? Só era identificada no começo da noite.
Foi um tempo muito bom, sabíamos que as Três Marias formavam parte da constelação de Orion. E que a estrela mais brilhante do céu era Antares, o coração da enorme constelação de Escorpião.
Havia uma luzinha bastante luminosa que atravessava o céu diariamente, em hora certa. Era um dos satélites artificiais de comunicação. Poderia ser o Telstar ou algum dos vários Intelsat.
A converesa variava e mudava. Até que, repntinamente uma estrela cadente chamasse a nossa atenção. Era hora de formular desejos.
Hoje, moro em cidade grande, impossível contar uma centena de estrelas no céu opaco. Acho que os adolescentes urbanos nem imaginam como é vibrante um céu estrelado.
Minha vontade é enxergar pelo menos mais uma estrela cadente para fazer um único pedido: rever o céu esplendoroso.
Esta crônica resultou de matéria brilhante da Folha de São Paulo. Imagine que a nossa praia, antigamente deserta, hoje está povoada de arranha céus.
21 fevereiro 2011
Vendo mulher
28 anos, 90 centímetros de busto, 60 de cintura e 90 de quadril. Coxas grossas. 1,65 de altura e 62 kg muito bem distribuídos. Cabelos negros, lisos como sabonete. Olhos cor piscina de hotel. Nariz arrebitado sobre lábios carnudos e sorriso malicioso. Meiga, carente e sensual. Provocativo decote. Arquiteta, artista plástica e cantora.É esta mulher que estou vendo da minha janela.
16 fevereiro 2011
Consulta aos arquivos moleculares
A revista semanal Science, publicação da American Association for the Advancement of Science (AAAS) diz que em uma única célula humana há cerca cem vezes mais informação codificada no DNA humano do que em todos os livros, CD’s, computadores, negativos de fotos e todo tipo de lugar onde se armazenam dados, digitais ou analógicos. Folha de São Paulo — Ciência, 11/02/2011
Acordou cansado e tonto. Pensou num out door de pousos e decolagens do salão de embarque grudado no cérebro com as informações passando a jato. A vista enxergava um enorme tubo tridimensional azul com caracteres binários passando à velocidade da luz.
Levantou-se segurando nas paredes. No banho tentava entender o que estava acontecendo.
À noite tivera uma discussão com o irmão. Precisavam abrir um cofre cujo segredo estava perdido. A caixa blindada continha um dossiê do avô, fundador da indústria onde eram sócios. Os documentos só poderiam ser lidos 50 anos após a morte do criador da empresa. Já se passaram quatro meses da data marcada com um círculo vermelho no calendário e a porta metálica continuava lacrada.
O fabricante do cofre já não existia. Consultaram dezenas de chaveiros e especialistas. Inclusive pagaram passagem a um mestre suíço. Nada adiantou.
Ainda se lembravam da tarde de domingo quando o nono reuniu os dois meninos na sede da fábrica para uma conversa curta e grave. Logo após, mostrou uma pasta negra, abriu a porta do cofre vazio, depositou a pasta, fechou a porta e girou o segredo. Anotou, às nossas vistas, a combinação do cofre na primeira página de uma bíblia. O pai dos meninos falecera em um acidente de carro. Seríam os únicos guardiões e, ameaçando com o indicador, exigiu sigilo absoluto.
Na adolescência começaram a trabalhar sob a orientação dura do criador da empresa. Geneticamente e por méritos, rapidamente galgaram posições.
Quando o velho faleceu estavam participando de uma feira de negócios no Japão. Assim que souberam, retornaram imediatamente ao Brasil. Chegaram tarde para a cerimônia. Só assistiram à missa.
Temiam que o avô os vigiasse do céu ou do inferno cobrando a promessa. Jamais tocaram no assunto entre si. Nem as esposas sabiam.
Um dia, conversando sobre a religiosidade do vovô, souberam que ele foi enterrado segurando uma bíblia e um terço.
Criaram uma questão para motivar a exumação do corpo. Vovô transformara-se em pó. Reconheceram a bíblia por um fragmento da capa. A anotação foi devorada pela terra.
A insistência do irmão em explodir o cofre o atormentava.
Para ele, a única solução viável era recuperar na memória longínqua os números do avô escritos com caneta de tinta preta.
Renovou as esperanças depois de ler numa revista científica que uma única célula humana guardava mais informações que toda a humanidade conseguira armazenar em bibliotecas, filmes, redes e computadores mundo afora.
Quando fechou a torneira do chuveiro, teve certeza, o seu organismo estava deszipando, descompactando, os chips do HD interno à busca da informação armazenada.

Acordou cansado e tonto. Pensou num out door de pousos e decolagens do salão de embarque grudado no cérebro com as informações passando a jato. A vista enxergava um enorme tubo tridimensional azul com caracteres binários passando à velocidade da luz.
Levantou-se segurando nas paredes. No banho tentava entender o que estava acontecendo.
À noite tivera uma discussão com o irmão. Precisavam abrir um cofre cujo segredo estava perdido. A caixa blindada continha um dossiê do avô, fundador da indústria onde eram sócios. Os documentos só poderiam ser lidos 50 anos após a morte do criador da empresa. Já se passaram quatro meses da data marcada com um círculo vermelho no calendário e a porta metálica continuava lacrada.
O fabricante do cofre já não existia. Consultaram dezenas de chaveiros e especialistas. Inclusive pagaram passagem a um mestre suíço. Nada adiantou.
Ainda se lembravam da tarde de domingo quando o nono reuniu os dois meninos na sede da fábrica para uma conversa curta e grave. Logo após, mostrou uma pasta negra, abriu a porta do cofre vazio, depositou a pasta, fechou a porta e girou o segredo. Anotou, às nossas vistas, a combinação do cofre na primeira página de uma bíblia. O pai dos meninos falecera em um acidente de carro. Seríam os únicos guardiões e, ameaçando com o indicador, exigiu sigilo absoluto.
Na adolescência começaram a trabalhar sob a orientação dura do criador da empresa. Geneticamente e por méritos, rapidamente galgaram posições.
Quando o velho faleceu estavam participando de uma feira de negócios no Japão. Assim que souberam, retornaram imediatamente ao Brasil. Chegaram tarde para a cerimônia. Só assistiram à missa.
Temiam que o avô os vigiasse do céu ou do inferno cobrando a promessa. Jamais tocaram no assunto entre si. Nem as esposas sabiam.
Um dia, conversando sobre a religiosidade do vovô, souberam que ele foi enterrado segurando uma bíblia e um terço.
Criaram uma questão para motivar a exumação do corpo. Vovô transformara-se em pó. Reconheceram a bíblia por um fragmento da capa. A anotação foi devorada pela terra.
A insistência do irmão em explodir o cofre o atormentava.
Para ele, a única solução viável era recuperar na memória longínqua os números do avô escritos com caneta de tinta preta.
Renovou as esperanças depois de ler numa revista científica que uma única célula humana guardava mais informações que toda a humanidade conseguira armazenar em bibliotecas, filmes, redes e computadores mundo afora.
Quando fechou a torneira do chuveiro, teve certeza, o seu organismo estava deszipando, descompactando, os chips do HD interno à busca da informação armazenada.
Desta vez, escrevi o conto baseado numa matéria da Folha de São Paulo. No blog sempre até
ás 18 horas das quartas-feiras com número pré-determinado de caracteres como se fosse uma coluna.
14 fevereiro 2011
Klotz em Lisboa
Dificilmente observo o contador do blog. Nunca liguei muito para isso, tanto que só coloquei um contador de visitas no fim de 2008. De lá para cá recebi mais de 30.000 visitas.Hoje minha curiosidade foi atiçada por outro e-mail que recebi de português cometando um texto do blog. Procurei o analisador estatístico do Google e me surpreendi com a quantidade de visitas nos últimos 30 dias: 1466 dos cinco continentes!
São 48,8 visitas/dia! — Nada mau!
É espantoso, considerando que não divulgo o blog.
Observei que a grande maioria é brasileira: 1285 e que se distrubui em todo teritório nacional. São Paulo é a campeã de acessos. Em seguida vem Brasília, origem do blog. Rio de Janeiro é a terceria. Tudo muito natural. A boa surpresa foi a descoberta que Lisboa se fez presente 46 vezes e o Porto 19 no último mês. As duas cidades lusitanas estão à frente de muitas cidades brasileiras.
Certamente há muito mais leitores que apenas o Joaquim e o Manuel.
Segue meu abraço ao Joaquim.
09 fevereiro 2011
A bicharada foi ao cinema

Cientistas do Instituto de Abraham, em Londres, descobriram que as ovelhas ficam mais calmas quando vêem rostos conhecidos depois de algum tempo sozinhas. Na pesquisa foram projetadas imagens de cabras, ovelhas, formas geométricas e outras figuras. Então mediu-se o nível de estresse dos bichos, com controle das batidas cardíacas e inquietação. CB – Você sabia..., 07/02/2011
Há algo de podre no reino da Inglaterra, diria Shakespeare ao saber que os cientistas britânicos, por não terem mais o que fazer, pesquisam as imagens preferidas pelas ovelhas. Começaram com triângulos, quadrados e estrelas, até produzir longas metragens com artistas consagrados.
Imagine a surpresa do bardo inglês. Caminhando por uma calçada de Stratford, passa em frente ao cinema e depara-se com um cartaz:
Hoje: Ovêlho e o mar – sessão às 14/ 16/ 18/ 20 e 22 horas. Um filme estrelado pela Ovelha Dolly, roteiro de Ernest Hemingway e adaptação especial para o rebanho ovino.
Lê o cartaz e relembra ter escrito as tragédias do Rei Lear, Otelo e Hamlet. Tudo humano, para humanos. Isso foi lá nos anos 1600. Os tempos mudaram. Agora o mundo é ecologicamente correto com direitos iguais para todos os seres viventes. E principalmente para todos os cientistas aplicarem as verbas onde bem quiserem, contanto que engordem as estatísticas governamentais de trabalhos acadêmicos.
Coçou a barba e pensou estar obsoleto. Escrever peças para teatro é bobagem. O negócio é escrever roteiros para o cinema visando milhares e milhares de espectadores passando na frente da bilheteria. O drama, em vez de ser na tela, fica por conta da dificuldade de cobrar os ingressos do fazendeiro, dono do rebanho.
Experiência e imaginação é que não falta ao dramaturgo. Se o negócio é cobrar ingresso por cabeça é melhor mudar o público alvo. Uma ovelha ocupa muito espaço num cinema. Ainda mais com poltronas reclináveis.
Pensou em oferecer filmes para cavalos. Mas estes já estão muito exigentes, acostumados pela nobreza. As vacas ocupariam mais espaço que as ovelhas. Os cachorros e gatos, já escolhem seus próprios filmes em casa.
A grande sacada foi lembrar-se das galinhas. Consideradas pouco exigentes e de memória não muito privilegiada, veriam o mesmo filme cem vezes antes de descobrir que se trata de repetição. Tampouco perceberiam se o filme tem lógica ou não. As galinhas ocupam muito menos espaço, assim pode-se ter muito mais cabeças por sessão.
Por desconhecerem luxo e direitos, em vez de salas atapetadas projeta-se a película nas próprias granjas empoeiradas.
O escritor inglês, nas suas elucubrações, percebeu uma vantagem financeira adicional: as galinhas adoram milho. Portanto seriam consumidoras em potencial da pipoca.
Infelizmente, acabou descobrindo que as ovelhas inglesas têm um sindicato forte e exigem prioridade. Então, diante da imposição, resolve em vez de escrever novas peças, simplesmente adaptar trabalhos antigos. As ovelhas também poderão ver no cinema Mac Béééé e Roméééu e Julieta.
Novamente um texto baseado em notícia publicada no Correio Braziliense desta semana. Sempre às quartas-feira antes da 18 horas. - Ufa, hoje foi no sufoco. Quase apanhei do relógio.
01 fevereiro 2011
Moda de americanizar nomes
O resultado do vestibular é um momento que faz a felicidade dos que vêem seus nomes na lista, mas também leva muita gente a dar boas risadas. Nas listagens a criatividade de muitos pais fica evidente. Daí conhecemos Rennolly, Dasayanne, Heldemys, Sunshine Summer,Yacana, Mauriston, Wuppschandler,Deicksony e outros tantos, que além da dificuldade para conseguir escrever o próprio nome, podem até sofrer por term sido batizados de forma tão incomum. CB - Comportamento, 30/01/2011

Insuportável!
Já tinha sido assim no colégio, agora também na faculdade. Primeiro vieram os copos descartáveis. Depois garfos quebráveis, colherzinhas plásticas e facas sem corte. A coisa foi piorando. Gritos, xingamentos, desaforos. Aí vieram os pratos de papelão. Tudo era arremessado em mim quando eu entrava na sala de aula.
Foi piorando gradativamente a cada semana. Trocaram o permanente pelo descartável e o descartável pelo definitivo.
Passei a ser o lixo e os pratos de louça. Jogaram pratos de sobremesa, xícaras, travessas e açucareiros. Só entendi o que acontecia quando acertaram um bule na minha testa.
Era bullying!
Parece que a escola e a faculdade são os lugares onde atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos ocorrem com mais frequência. Toda turma se junta contra vítimas indefesas e isoladas. Pobres dos diferentes. Altos, judeus, gordinhos, orelhudos, narigudos, homosexuais. Em vez de zoação ou perseguição era bullying.
Apesar de se dizerem contra os americanos, na hora do batismo preferem palavras ou termos em inglês.
Este é o meu problema: Sou Edivaldo Uchoa Amaral. Quase todos os colegas carregam cás, dabelius e ipsilones nos nomes. Alguns repetem eles ou enes. Outros têm agás inusitados. Enquanto sou simplesmente brasileiro Edi. Menosprezado, desrespeitado, alvo de gozações.
Com medo de bolas de papel, eu me sentava acuado num canto da sala. Em seis meses de aula não participei de nenhuma roda de conversas.
Eu precisava sair do isolamento.
Para amenizar o constrangimento, comecei por procurar uma morena de dentes brilhantes que foi importunada nos primeiros dias de aula.
— Maria do Socorro, por que o pessoal te deixou em paz?
Explicou que o seu apelido sempre fora Mary Help.
Depois procurei pelo João Pedro e ele sacou a identidade e apontou orgulhoso: João Pedro de Olliveira com dois eles, ressaltou.
Minha outra abordagem foi a Rosecleide, amiga da Dannyelle.
— Oi Rose, seu nome Rosecleide Silva, não é mesmo?
— Sim e qual é o problema?
— Que sorte que não pegam no seu pé.
— Meu Silva é com ipsilone.
Só me restou ir à delegacia e prestar queixa.
Entregaram-me o formulário e na primeira linha escrevi meu nome.
O atencioso escrevente perguntou se meu apelido era Gringo.
— Por que seria? Tenho cabelos encaracolados, meus olhos são escuros.
— Justamente é o seu nome. Edivaldo Uchoa Amaral. Repare nas iniciais: Estados Unidos da América.
Gringo! Edu abriu um largo sorriso, rasgou a queixa e correu feliz para anunciar seu novo apelido.
Já tinha sido assim no colégio, agora também na faculdade. Primeiro vieram os copos descartáveis. Depois garfos quebráveis, colherzinhas plásticas e facas sem corte. A coisa foi piorando. Gritos, xingamentos, desaforos. Aí vieram os pratos de papelão. Tudo era arremessado em mim quando eu entrava na sala de aula.
Foi piorando gradativamente a cada semana. Trocaram o permanente pelo descartável e o descartável pelo definitivo.
Passei a ser o lixo e os pratos de louça. Jogaram pratos de sobremesa, xícaras, travessas e açucareiros. Só entendi o que acontecia quando acertaram um bule na minha testa.
Era bullying!
Parece que a escola e a faculdade são os lugares onde atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos ocorrem com mais frequência. Toda turma se junta contra vítimas indefesas e isoladas. Pobres dos diferentes. Altos, judeus, gordinhos, orelhudos, narigudos, homosexuais. Em vez de zoação ou perseguição era bullying.
Apesar de se dizerem contra os americanos, na hora do batismo preferem palavras ou termos em inglês.
Este é o meu problema: Sou Edivaldo Uchoa Amaral. Quase todos os colegas carregam cás, dabelius e ipsilones nos nomes. Alguns repetem eles ou enes. Outros têm agás inusitados. Enquanto sou simplesmente brasileiro Edi. Menosprezado, desrespeitado, alvo de gozações.
Com medo de bolas de papel, eu me sentava acuado num canto da sala. Em seis meses de aula não participei de nenhuma roda de conversas.
Eu precisava sair do isolamento.
Para amenizar o constrangimento, comecei por procurar uma morena de dentes brilhantes que foi importunada nos primeiros dias de aula.
— Maria do Socorro, por que o pessoal te deixou em paz?
Explicou que o seu apelido sempre fora Mary Help.
Depois procurei pelo João Pedro e ele sacou a identidade e apontou orgulhoso: João Pedro de Olliveira com dois eles, ressaltou.
Minha outra abordagem foi a Rosecleide, amiga da Dannyelle.
— Oi Rose, seu nome Rosecleide Silva, não é mesmo?
— Sim e qual é o problema?
— Que sorte que não pegam no seu pé.
— Meu Silva é com ipsilone.
Só me restou ir à delegacia e prestar queixa.
Entregaram-me o formulário e na primeira linha escrevi meu nome.
O atencioso escrevente perguntou se meu apelido era Gringo.
— Por que seria? Tenho cabelos encaracolados, meus olhos são escuros.
— Justamente é o seu nome. Edivaldo Uchoa Amaral. Repare nas iniciais: Estados Unidos da América.
Gringo! Edu abriu um largo sorriso, rasgou a queixa e correu feliz para anunciar seu novo apelido.
Outro conto originado por notícia publicada no Correio Braziliense durante a semana. Sempre até as 18h das quartas-feiras, limitado a 2978 ± 19 caracteres.
30 janeiro 2011
Aspirina não resolve
Sem remover um único fio de cabelo, fizeram um rasgo diagonal no alto da minha cabeça. Quinze centímetros de comprimento. Um de largura e dois de profundidade.Uma enorme chave de fenda foi colocada no rasgo e começaram a girar no sentido horário. Apertaram a minha cabeça um quarto de volta mais próxima do pescoço.
Ai, como dói a minha cabeça.
25 janeiro 2011
Ingleses brigam seis dias por semana
312 é a quantidade média de brigas que os casais têm por ano, segundo pesquisa britânica que ouviu 3 mil pessoas. Eles se enfrentam principalmente às quintas feiras, por volta das 20h. Os motivos incluem deixar a tampa da privada levantada e espalhar toalhas molhadas pela casa. CB – Tubo de ensaio, 22/01/2011
Sob a densa neblina é impossível enxergar os ponteiros do Big Ben, entretanto o som das sete badaladas é audível a grandes distâncias. Assim como não se enxerga dentro das casas londrinas, é possível escutar a, digamos, conversa do casal que acabara de sentar-se para desjejuar.
— Meu bem, o café está frio!
— Frio está você, atrás desse tablóide cheio de letras pretas.
— Isto não é um jornaleco qualquer. É o Daily Mirror. E aqui diz que os ingleses só brigam 312 vezes ao ano.
— E qual é o problema?
— É que você, darling, parece querer esgotar a nossa cota anual num único dia.
— Deixe de bobagem, Charlie, são apenas ajustes normais que um casal tem de fazer para viver em prazerosa concórdia.
— Que os nossos vizinhos não escutem, mas você já reclamou que não levantei a tampa do vaso, que deixei a toalha molhada sobre a cama, que não dei a descarga e... está resmungando o tempo todo.
— Você não fez por menos! Reclamou dos meus cabelos no ralo do chuveiro, da calcinha pendurada na torneira, da luz acesa no banheiro...
— E você, lady, ainda chama isso de ajuste?
— Está bem, é só uma pequena discordância multitemática.
— Uma discussão interminável para azucrinar o meu dia.
— Foi bom você lembrar. Estamos atrasados. Termine seu café e ponha o lixo para fora.
— O café além de frio, está horrível. E a lixeira está cheia além da capacidade. De novo!
— Por mim, eu ainda acerescentaria esse seu casaco velho e encardido.
— Você implica, só porque foi a minha mãe que deu ele para mim. Você esta indo para o quarto? Aproveite para trocar a sua blusa que está manchada.
Ela lançou um olhar fulminante, virou as costas e sumiu no corredor.
Nada como oponentes afastados um do outro por um tempo. Alguns minutos de silêncio, quando as pessoas se amam, podem trazer a harmonia e a paz duradoura.
Ele retorna o diálogo com palavras de carinho:
— Benzinho! Onde estão as chaves?
A resposta foi imediata.
— Pra que chave? Vendemos o carro na semana passada. Se lembra?
— Como a gente sai de casa sem abrir a porta?
O inimigo sentiu o golpe. Fez-se silêncio. Um silêncio para mudar a estratégia e preparar o contra-ataque.
Ouviu-se uma gaveta fechada com violência. Depois outra gaveta fechada com mais violência. Barulho de coisas arremesadas ao chão. Um palavrão resmungado. Depois outro palavrão.
Ann saiu do quarto e foi em direção do pobre Charles com os olhos faiscando ódio e suplicando compaixão.
Londres, Manchester, Liverpool, Birmingham e todo Reino Unido escutou o grito que veio cortante como o de um corvo no cemitério.
— Eu não tenho nada para vestir!
Ainda bem que isso só acontece na distante Inglaterra.
Meu Deus do céu! Eu nunca vou me casar com uma inglesa.
Outro texto com motivação em notícia publicada durante a semana no Correio Braziliense.
19 janeiro 2011
Número na cabeça

Na Estrutural, uma das cidades mais carentes do Distrito Federal, a inspiração dos jovens ao mudar o visual passa longe das celebridades dos campos e palcos. Agora, os pedidos mais comuns nas barbearias da região são artigos do Código Penal, números que representam a incredulidade – como o 666 –, além de listras que servem para identificá-los como integrantes de determinados grupos criminosos. CB – Comportamento – 16/01/2011
Por volta das seis horas da tarde de uma quarta-feira, a viatura encostou no meio-fio ainda com as luzes piscando e a sirene ligada. Parece que encontraram o grupo que constrange e ameaça com apologia ao crime. São facilmente identificados pelo corte de cabelo curtíssimo formando desenhos tribais. Os agentes saltaram empunhando armas e ordenando que os rapazes, que corriam na calçada, levantassem as mãos.
– Quietos aí. Não se movam! De costas! Encostem na parede! Mãos pra cima!
– É para não se mover ou levantar as mãos?
Sob a ameaça da arma de um dos policiais, os outros dois começaram a revistar os quatro elementos imobilizados.
– Documentos! – Gritou o homem com a ponto 40 destravada apontando o meliante mais próximo.
Habituado á falta de gentileza, o garoto de pele parda estava mais calmo que os agentes. – Posso botar a mão no bolso para pegar o documento?
Sem responder o policial consentiu gesticulando com arma.
O agente de polícia observa a cabeça raspada em recortes imitando as tatuagens agressivas e assustadoras.
– O que é isso na sua cabeça?
– É a nova moda.
– O que significa esse 666?
– Besta.
O policial dá um safanão na boca do delinquente. – Me respeita!
– 666 é o número do apocalipse. Da Besta.
– E tu? – Cutucando com a pistola – Pensa que me assusta com esse 148 recortado no cabeção? Tô sacando! Código Penal, Artigo 148: Sequestro e cárcere privado.
– Que é isso seu guarda, tá me estranhando? Sou da paz. Eu moro naquela casa, aí da frente. Pode olhar: número 148.
– E tu? – Cutucando o terceiro – Exibindo terror para cima da comunidade? Tô de olho! 155 de um lado e 121 do outro. Não nasci ontem. Furto e homicídio.
– Sou sangue bom! Trabalhador. Dou um duro danado para sustentar a minha lôra. Tenho que levantar às 4 da matina, preparar a matula e pegar o busão às 4 e meia. 155 é o número da linha na ida. Na volta pego o 121. Tudo lotado.
O quarto elemento nem se mexia, parecia mais assustado.
– Tira o capacete!
– Que diabos de números são esses? 4348? Se reponder cavalo e elefante, vai levar um catiripapo no pé do escutador, só para ficar esperto.
– Pega leve. Sou motobói. Entrego pizzas.
– Agora só falta me dizer que a pizzaria tem 4.348 opções. – Ou vai me dizer que 4348 é o número da pizza calabresa tamanho grande?
– Eu estava dizendo que sou entregador de telepizza e esse é o número do telefone.
– 4348? Tá gozando com a minha cara?
– São quatro 3 e quatro 8. 3333-8888.
Os homens uniformizados se entreolharam e o que parecia ser o chefe da operação ordenou:
– Três três um. Todos presos por desacato à autoridade.
Outro conto baseado em notícia publicada no Correio Braziliense desta semana.
12 janeiro 2011
Medo de fobia

Existem centenas de tipos de fobias, mas elas costumam causar sintomas parecidos, como falta de ar, sudorese fria, e batimentos cardíacos acelerados. Segundo especialistas, quando o problema traz para o paciente um prejuízo contínuo, é hora de procurar ajuda. Existem cerca de 300 espécies de fobias. Eis algumas: Ablutofobia – medo de tomar banho; Astrofobia – medo de trovões e raios; Catoptrofobia – medo de espelhos; Motefobia – medo de borboletas e mariposas; Somnifobia – medo de dormir. CB – Saber viver, 11/01/11
O doutor Zigmundo Froide instalou uma placa com letras douradas na porta da sala recém adquirida: PSICANALISTA especialidade medos e fobias. Entre sem bater.
Muitos médicos escolhem a especialidade em decorrência da própria vivência. É natural que alguém com inúmeros casos de câncer na família escolha ser oncólogo. Um moleque vivia engessado de tanto osso quebrado estudou e especializou-se ortopedista. Zig sempre era surrado pelos irmãos por isso mandou escrever na placa: entre sem bater.
A primeira paciente do psicanalista foi uma moça lindíssima que afirmou ter ojeriza a ratos e camundongos. O doutor apontou o divã e iniciou uma palestra sobre os malefícios, doenças, peste e raiva transmitidas pelos roedores. Por tudo isso, o medo era muito natural. Nos casos extremos de pavor a doença recebia o nome de surifobia. Após o discurso perguntou sobre a origem do problema. Perguntou se ela foi mordida por um rato quando criança.
A moça revelou que amava o hamster de estimação. O problema era com Mickey Mouse e colegas. Odiava Jerry tanto quanto o Tom. Considerava nojento um rato cozinheiro, como o Remy, de Ratatouille. Os amiguinhos de Cinderela, Bernardo e Bianca eram insuportáveis. Níquel Náusea era intragavelmente ácido. E que o mexicano Ligeirinho como seu "arriba, arriba" era repetitivo.
Dr. Zig, intempestivamente determinou que a paciente deveria liberar os gatos como Frajola, Manda-chuva, Garfield e Felix. Abriu a porta encerrando a sessão.
O paciente seguinte, um adolescente com uma enorme franja nos olhos, disse que tinha fobia a Justin Bieber, Luan Santana, Fiuk e Rick Martin. O psicanalista levantou a franja do meninão, olhou-o nos olhos.
— Seu problema é a inveja. Em seguida pediu para a secretária encaminhar outro paciente.
Entrou um sujeito manco, engruvinhado na timidez.
— Qual seu problema?
— Tenho pavor a sapatos pretos. Sou obrigado a usá-los. Fazem parte do meu uniforme.
— Compre sapatos dois números acima. Próximo.
— Doutor, não consigo pegar em dinheiro.
— Esse medo recebe o nome de misofobia. Medo de germes ambientais. O multimilionário Howard Huges sofria terrivelmente com a enfermidade. Tanto ele quanto Michael Jackson usavam luvas para se proteger do medo de tocar em dinheiro contaminado.
— Meu problema é outro. É que o dinheiro nunca chega às minhas mãos. Me arruma algum?
— Oras, não me amole. Vá trabalhar! Próximo.
— Doutor Froide?
— Sim. Qual o seu problema?
— Tenho medo de psicanalistas.
Apontou o revólver e atirou. Perguntou pelo próximo.
Muitos médicos escolhem a especialidade em decorrência da própria vivência. É natural que alguém com inúmeros casos de câncer na família escolha ser oncólogo. Um moleque vivia engessado de tanto osso quebrado estudou e especializou-se ortopedista. Zig sempre era surrado pelos irmãos por isso mandou escrever na placa: entre sem bater.
A primeira paciente do psicanalista foi uma moça lindíssima que afirmou ter ojeriza a ratos e camundongos. O doutor apontou o divã e iniciou uma palestra sobre os malefícios, doenças, peste e raiva transmitidas pelos roedores. Por tudo isso, o medo era muito natural. Nos casos extremos de pavor a doença recebia o nome de surifobia. Após o discurso perguntou sobre a origem do problema. Perguntou se ela foi mordida por um rato quando criança.
A moça revelou que amava o hamster de estimação. O problema era com Mickey Mouse e colegas. Odiava Jerry tanto quanto o Tom. Considerava nojento um rato cozinheiro, como o Remy, de Ratatouille. Os amiguinhos de Cinderela, Bernardo e Bianca eram insuportáveis. Níquel Náusea era intragavelmente ácido. E que o mexicano Ligeirinho como seu "arriba, arriba" era repetitivo.
Dr. Zig, intempestivamente determinou que a paciente deveria liberar os gatos como Frajola, Manda-chuva, Garfield e Felix. Abriu a porta encerrando a sessão.
O paciente seguinte, um adolescente com uma enorme franja nos olhos, disse que tinha fobia a Justin Bieber, Luan Santana, Fiuk e Rick Martin. O psicanalista levantou a franja do meninão, olhou-o nos olhos.
— Seu problema é a inveja. Em seguida pediu para a secretária encaminhar outro paciente.
Entrou um sujeito manco, engruvinhado na timidez.
— Qual seu problema?
— Tenho pavor a sapatos pretos. Sou obrigado a usá-los. Fazem parte do meu uniforme.
— Compre sapatos dois números acima. Próximo.
— Doutor, não consigo pegar em dinheiro.
— Esse medo recebe o nome de misofobia. Medo de germes ambientais. O multimilionário Howard Huges sofria terrivelmente com a enfermidade. Tanto ele quanto Michael Jackson usavam luvas para se proteger do medo de tocar em dinheiro contaminado.
— Meu problema é outro. É que o dinheiro nunca chega às minhas mãos. Me arruma algum?
— Oras, não me amole. Vá trabalhar! Próximo.
— Doutor Froide?
— Sim. Qual o seu problema?
— Tenho medo de psicanalistas.
Apontou o revólver e atirou. Perguntou pelo próximo.
Outro conto inspirado em uma notícia do Correio Braziliense desta semana. A publicação no blog é sempre às quartas-feiras antes das 18 horas. Como numa coluna de jornal, o tamanho é fixo entre 2957 e 2997 caracteres.
05 janeiro 2011
Consulta a Nostradama
Depois de a prestigiada Journal of Psichology publicar um artigo no qual o pesquisador Daryl Bem, da Universidade de Cornell, afirmar que, sim, é possível predizer o futuro. Ainda argumentou: o que eu sei é que os dados que obtivemos indicam que é possível prever o futuro, mas é necessário mais investigação para explicar solidamente esse fenômeno. CB – Ciência 31/12/2011
Para tudo existe a primeira vez. A primeira sopa de espinafre, o primeiro galo na testa, o primeiro logro, a primeira transa, a primeira falha, a vigésima desculpa. Naturalmente, nem tudo acontece ao mesmo tempo e nem sempre nos lembramos da estréia de todos os fatos na nossa vida. Eu, por exemplo, não me lembro de ter encontrado com o síndico sem um pedido para aumentar a taxa de condomínio. Talvez a primeira vez nem tenha existido.
Pois o meu amigo se lembra da primeira ida a uma astróloga. Disse que na porta da frente havia um cartaz anunciando que Dona Safira predizia o futuro através da leitura de búzios, tarot ou bola de cristal. R$ 100,00 adiantados.
Jotabê é um sujeito incredulamente crédulo. Ou seja, desconfiado como roceiro quando vê uma escada rolante pela primeira vez. Vê, desconfia, examina, passa a acreditar e confiar. Aí sobe e desce como se houvesse escada rolante no galinheiro.
Tocou na campainha e uma mulher enrugada estendeu a mão cheia de anéis e ofereceu uma cadeira ao meu amigo. Este, sem dizer palavra, observou detalhadamente o ambiente multicolorido de velas e cheiros. Sentou-se na frente da mulher de vestido estampado de flores lilás e entregou uma nota verde.
– Eu quero que a senhora diga quantas moedas eu tenho no bolso da minha calça.
Ela recolheu as cartas e juntou num montinho. Fixou o olhar nos olhos de Jotabê e disse:
– O número de pratas do seu bolso reflete um ato passado que quer fazer presente. No cartaz está claro que Dona Safira prevê o futuro, não adivinha o agora. Entretanto eu antevejo que você vai tirar as moedas do bolso na primeira oportunidade.
Meu amigo colocou a mão no bolso e mostrou uma moeda do tempo do Império.
– A senhora acertou. É prata, sim. Eu vim aqui para saber do meu destino na empresa em que trabalho.
– Você ainda não faz por merecer uma promoção. – Foi a resposta rápida. – São cem reais.
– Mas a senhora nem consultou as cartas, os búzios ou a bola!
– Não é preciso. É uma resposta padrão. Nada se consegue sem esforço.
– Onde estão os búzios?
– Minha filha levou. Outra pergunta. Mais cem reais.
– Mas isso é picaretagem. A senhora não é astróloga coisa nenhuma.
– Em nenhum momento eu disse isso. Você entrou, me deu cem reais e deduziu que eu era a minha filha. Eu deduzi que ia ganhar dinheiro fácil.
Jotabê disse que se levantou, falou dois palavrões, virou as costas, saiu e bateu a porta.
Odiou-se pela nota perdida, pela moeda esquecida, pela fé abalada e principalmente por ter sido logrado com tanta estupidez.
Se as pessoas pudessem prever o futuro, ele não entraria por aquela porta, nem a primeira vez.
Pois o meu amigo se lembra da primeira ida a uma astróloga. Disse que na porta da frente havia um cartaz anunciando que Dona Safira predizia o futuro através da leitura de búzios, tarot ou bola de cristal. R$ 100,00 adiantados.
Jotabê é um sujeito incredulamente crédulo. Ou seja, desconfiado como roceiro quando vê uma escada rolante pela primeira vez. Vê, desconfia, examina, passa a acreditar e confiar. Aí sobe e desce como se houvesse escada rolante no galinheiro.
Tocou na campainha e uma mulher enrugada estendeu a mão cheia de anéis e ofereceu uma cadeira ao meu amigo. Este, sem dizer palavra, observou detalhadamente o ambiente multicolorido de velas e cheiros. Sentou-se na frente da mulher de vestido estampado de flores lilás e entregou uma nota verde.
– Eu quero que a senhora diga quantas moedas eu tenho no bolso da minha calça.
Ela recolheu as cartas e juntou num montinho. Fixou o olhar nos olhos de Jotabê e disse:
– O número de pratas do seu bolso reflete um ato passado que quer fazer presente. No cartaz está claro que Dona Safira prevê o futuro, não adivinha o agora. Entretanto eu antevejo que você vai tirar as moedas do bolso na primeira oportunidade.
Meu amigo colocou a mão no bolso e mostrou uma moeda do tempo do Império.
– A senhora acertou. É prata, sim. Eu vim aqui para saber do meu destino na empresa em que trabalho.
– Você ainda não faz por merecer uma promoção. – Foi a resposta rápida. – São cem reais.
– Mas a senhora nem consultou as cartas, os búzios ou a bola!
– Não é preciso. É uma resposta padrão. Nada se consegue sem esforço.
– Onde estão os búzios?
– Minha filha levou. Outra pergunta. Mais cem reais.
– Mas isso é picaretagem. A senhora não é astróloga coisa nenhuma.
– Em nenhum momento eu disse isso. Você entrou, me deu cem reais e deduziu que eu era a minha filha. Eu deduzi que ia ganhar dinheiro fácil.
Jotabê disse que se levantou, falou dois palavrões, virou as costas, saiu e bateu a porta.
Odiou-se pela nota perdida, pela moeda esquecida, pela fé abalada e principalmente por ter sido logrado com tanta estupidez.
Se as pessoas pudessem prever o futuro, ele não entraria por aquela porta, nem a primeira vez.
O Ano Novo chegou. Com ele renovam-se as energias para ser publicado numa grande mídia.
Acima, mais um conto inspirado em uma notícia do Correio Braziliense desta semana. A publicação no blog é sempre às quartas-feiras antes das 18 horas. Como numa coluna de jornal, o tamanho é fixo entre 2957 e 2997 caracteres.
29 dezembro 2010
Indulto improdutivo
Oitocentos e noventa e cinco presos serão beneficiados com a saída especial de Natal, de acordo com dados preliminares da Subsecretaria do Sistema Penitenciário (Sesipe) da Secretaria de Estado de Segurança Pública do DF (SSP-DF). Eles serão liberados amanhã, às 10h, e devem retornar 72 horas depois, ou seja, às 10h do dia 27. CB - Saidão de Natal, 23/12/2010 – Viu só, Mané, que sacanagem. Os homens de beca nem respeitam a gente. Num vai dar tempo. Vamos ter que ser muito rápidos. Não gosto de fazer as coisas assim no grito. Pá e buf!
– Num saquei.
– Tá aqui no jornal. A gente só será liberado depois da dez da matina.
– E daí?
– Tu é muito Mané mesmo. Tem que ficar enjaulado pra aprender!
– E?
– É muito pouco tempo. Tá aqui ó! As lojas fecham às cinco.
– Onde tu quer chegar?
– Se liga rapá! Até o cara achar a chave e abrir o portão vai dar meio-dia.
– Se explica logo!
– Quer que eu faça um desenho?
– Quero que seja claro!
– Tá bom! Entre sair daqui e chegar até as lojas vamos ter muito pouco tempo. E amanhã é Natal. É nossa última chance.
– Tu acha que a família vai ficar chateada se tu chegar em casa sem presente?
– Ai meu Santo Deus! Quero sair logo daqui. Não guento ficar junto dum cara burro como tu.
– Me respeita!
– Tu num percebeu ainda que o tempo tá muito curto. As lojas fecham às cinco. A gente só chega na cidade lá pelas três. São só duas horas de loja aberta. Sem escolha! É entrar na primeira e resolver a parada.
– Tu faz assim ó: escreve num papel os nomes das pessoas para quem vai comprar presente. Na dureza que a gente tá, o melhor é ir numa loja de 1,99.
– Ninguém merece!
– Acho que tua mulher vai entender. O principal é não chegar de mãos abanando. Ela vem aqui toda semana trazer conforto. Ela sabe como são as coisas aqui. Sabe que tu tá mais duro que cassetete nas costas. Vai numa loja de 1,99 e escolhe um presente bonito. Mulhé gosta de perfume. Eu se fosse tu, escolhia um com cheiro de violeta.
– Tu tá de olho na minha horta?
– De jeito nenhum. Mulher de amigo meu, pra mim é homem.
– Tu tá insinuando que minha mulher é macho?
– Não. Eu apenas disse que nem olho por mais gostosa, eu respeito.
– Tu é muito abusado!
– Deixa quieto. A gente tava falando da nossa saída do Natal. Que tu vai ter pouco tempo para chegar até a cidade, procurar uma loja e escolher presente pro seu pessoal. Tu pode comprar um cedê para dançar um forró com a tua nêga. Fácil, barato e rápido.
– Eu gosto de fazer tudo direitinho, planejado.
– Já falei. Anota num papel e pronto. Tó aqui, tem o da minha carteira de cigarros.
– Eu não acredito!
– Tu não sabe escrever? Eu anoto. Qual é o nome dos seus filhos?
– Eu quero sair logo daqui. Tu é muito ignorante. – Dirigiu-se para a grade e gritou: – Guarda! Guarda! Me tire daqui!
– Calma. Se acalma. Olha o bom comportamento. Amanhã a gente sai. Falta pouco.
– Eu lá quero comprar presente! Será que tu não percebeu ainda que as lojas tão cheias de grana e que a gente só tem umas poucas horas para fazer a féria antes das lojas fecharem?
Outro conto cheio de ironia e humor motivado por notícia publicada no Correio Braziliense nesta semana.
Sempre às quartas feiras, antes das 18 horas e com conteúdo entre 2959 e 2997 caracteres.
E daí? Daí que viso um espaço como colunista remunerado.
28 dezembro 2010
Sapos, rãs, jias, pererecas e outros familiares

Nos hospedamos em um hotel à beira de um rio. Quando escureceu todos os anuros afinaram suas gargantas e, como num enorme coro sem maestro, desafinaram e barulharam a noite. Tanto que tivemos que aumentar o volume da nossa conversa. Num determinado momento, nós dois, ao mesmo tempo, lembramos de fechar a janela. Nós co-achamos de acabar com a festa dos sapos.
22 dezembro 2010
Mona Lisa e o relógio

Esta semana, especialistas do Conselho Nacional de Valorização do Patrimônio Cultural e Ambiental da Itália anunciaram a descoberta de um novo detalhe na pintura da Mona Lisa: letras muito pequenas, imperceptíveis a olho nu, gravadas nas pálpebras de Mona Lisa. A novidade pode resolver um dos maiores enigmas que cercam o quadro. CB – Ciência, 18/12/2010
Entra ano, sai ano, o quadro da Mona Lisa é alvo de especulações e histórias polêmicas.
Falam que o sorriso é resultado de uma gravidez ou de que havia dado à luz há pouco tempo em função do véu típico de gestantes do século XVI. Sugerem que o rosto seria um auto-retrato do pintor vestido de mulher com a alegação de que o artista seria gay. O escritor Dan Brown defendeu a tese de que o nome da retratada é um anagrama para Amon l'Isa, em referência a antigas divindades egípcias. Historiadores franceses afirmam que Napoleão Bonaparte teria se apaixonado pelo quadro e que teria mandado pendurá-lo em seus aposentos. Conforme os jornais da época, Vincezo Peruggia furtou o quadro do Louvre para repatriá-lo à Itália. Os tablóides contam como ele fazia sexo com Mona. Para se opor à unanimidade, um psicopata jogou ácido sobre ela, danificando parte inferior da obra.
A relação de histórias curiosas é longa e não cabe em um único parágrafo. Por isso respire fundo antes de recomeçar a ler outras particularidades ou indiscrições.
Estudiosos afirmam que Mona Lisa, pintada em 1506, é Lisa Gherardini, mulher de um rico comerciante de seda de Florença. Já um historiador comprova que a obra foi pintada em 1489 e que a mulher por trás do sorriso famoso é Isabel de Aragão, Duquesa de Milão. Sigmund Freud interpretou o sorriso como sendo uma atração erótica subjacente de Leonardo pela mãe.
Por tantas informações e especulações resolvi ir direto à fonte. Telefonei para Mona Lisa. Não me perguntem o número. Nem sob tortura direi.
A nossa conversa foi bastante rápida. Eu mal a entendia por não falar italiano medieval. Ela estava bem humorada e disse que que parecia que o povo não tinha mais o que fazer, que a deixassem em paz. Que adorava Léo, mas que jamais tivera um caso com ele. Que Léo além de pintor, escultor, anatomista, cientista e inventor também era piadista. Era maravilhoso posar para o iluste artista que contava anedotas enquanto enchia a tela de cores. Ele me perguntou se eu sabia a semelhança entre uma grávida e uma tartaruga com um relógio amarrado às costas. Como eu poderia saber se o relógio ainda não havia sido inventado? Ele riu, dizendo que as duas não viam a hora. Daí ele inventou o relógio, depois colocou-o numa pequena caixa, presenteou-me e pendurou-o no meu pescoço. No quadro o relógio indicava cinco horas. Hora de término da sessão. Depois ele resolveu apagar o relógio do quadro pois o mundo não estava preparado para a falta de tempo. Foi nesse clima de bom humor que pintou o meu sorriso. Apenas isso. Não há enigmas, apenas a felicidadade.
Aí, acabou a bateria do meu celular.
Entra ano, sai ano, o quadro da Mona Lisa é alvo de especulações e histórias polêmicas.
Falam que o sorriso é resultado de uma gravidez ou de que havia dado à luz há pouco tempo em função do véu típico de gestantes do século XVI. Sugerem que o rosto seria um auto-retrato do pintor vestido de mulher com a alegação de que o artista seria gay. O escritor Dan Brown defendeu a tese de que o nome da retratada é um anagrama para Amon l'Isa, em referência a antigas divindades egípcias. Historiadores franceses afirmam que Napoleão Bonaparte teria se apaixonado pelo quadro e que teria mandado pendurá-lo em seus aposentos. Conforme os jornais da época, Vincezo Peruggia furtou o quadro do Louvre para repatriá-lo à Itália. Os tablóides contam como ele fazia sexo com Mona. Para se opor à unanimidade, um psicopata jogou ácido sobre ela, danificando parte inferior da obra.
A relação de histórias curiosas é longa e não cabe em um único parágrafo. Por isso respire fundo antes de recomeçar a ler outras particularidades ou indiscrições.
Estudiosos afirmam que Mona Lisa, pintada em 1506, é Lisa Gherardini, mulher de um rico comerciante de seda de Florença. Já um historiador comprova que a obra foi pintada em 1489 e que a mulher por trás do sorriso famoso é Isabel de Aragão, Duquesa de Milão. Sigmund Freud interpretou o sorriso como sendo uma atração erótica subjacente de Leonardo pela mãe.
Por tantas informações e especulações resolvi ir direto à fonte. Telefonei para Mona Lisa. Não me perguntem o número. Nem sob tortura direi.
A nossa conversa foi bastante rápida. Eu mal a entendia por não falar italiano medieval. Ela estava bem humorada e disse que que parecia que o povo não tinha mais o que fazer, que a deixassem em paz. Que adorava Léo, mas que jamais tivera um caso com ele. Que Léo além de pintor, escultor, anatomista, cientista e inventor também era piadista. Era maravilhoso posar para o iluste artista que contava anedotas enquanto enchia a tela de cores. Ele me perguntou se eu sabia a semelhança entre uma grávida e uma tartaruga com um relógio amarrado às costas. Como eu poderia saber se o relógio ainda não havia sido inventado? Ele riu, dizendo que as duas não viam a hora. Daí ele inventou o relógio, depois colocou-o numa pequena caixa, presenteou-me e pendurou-o no meu pescoço. No quadro o relógio indicava cinco horas. Hora de término da sessão. Depois ele resolveu apagar o relógio do quadro pois o mundo não estava preparado para a falta de tempo. Foi nesse clima de bom humor que pintou o meu sorriso. Apenas isso. Não há enigmas, apenas a felicidadade.
Aí, acabou a bateria do meu celular.
Orgulhosamente apresento mais um conto cheio de humor motivado por notícia publicada no Correio Braziliense nesta semana.
Sempre às quartas feiras, antes das 18 horas e com conteúdo entre 2959 e 2997 caracteres.
E daí? Daí que viso um espaço como colunista remunerado.
15 dezembro 2010
Xixi fora de hora
A literatura médica registra que entre 2% e 25% das crianças do mundo sofrem de disfunção do trato urinário inferior (DTUI). Para ter uma idéia da faixa em que o Brasil se posiciona nesse espectro, Giovana Teixeira Branco Vaz, professora da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, entrevistou 739 crianças de três escolas públicas. “O estudo apontou uma prevalência de 21,8%, ou seja, mais de um quinto delas é afetado”. CB – Saúde, 13/12/2010.Teresa Cristina Tavares Miranda recebeu um telefonema da escola e saiu às pressas do trabalho para buscar Glorinha na escola. Glorinha chorava muito. Ela não estava com febre, nem havia sido mordida por nenhum coleguinha. Durante a aula fez xixi e se molhou toda. Deixou uma poça amarela sob sua cadeirinha azul. Não era a primeira vez que isso acontecia. Acontecia com frequência. Naquela semana era a terceira vez. E ainda era quarta-feira.
Apesar de ser loirinha de cabelos cacheados e dos olhinhos azuis, Glorinha era rejeitada por seus coleguinhas. Ninguém queria se sentar ao seu lado. Não emprestavam um lápis ou um caderno. Até Luciana, sua única amiga se afastou. Reclamavam que ela fedia a mijo.
Levaram a menina para um tratamento com um fisioterapeuta que rapidamente encontrou solução para o caso que já virava um pesadelo.
Em pouco tempo Glorinha estava totalmente recuperada. Voltou a sorrir e se relacionar bem com a turminha. Para a festa junina da escola foi escolhida para ser a noiva do casamento caipira.
Tudo parecia caminhar para um final feliz na casa da família dos Tavares Miranda. Parecia. Não foi bem assim. O xixi voltou a incomodar como uma cachoeira. Nem julgue você que o fisioterapeuta não trabalhou direito. Nem pense que a Glorinha voltou a se molhar. A história agora foi com o Pedrinho, irmão mais velho, 11 anos.
Pedrinho sempre fora problemático. Foi suspenso na escola por ter sido flagrado fumando no pátio. Um vizinho reclamou por ter visto o menino aos beijos com a filha de doze. Até o padre, tão piedoso, estava incomodado por Pedrinho insistir em chamá-lo de desinteressado sexual.
Quando estava no meio de uma reunião no trabalho, o doutor Tavares Miranda, jovem pai do Pedrinho, recebeu um telefonema da secretaria do clube dizendo que deveria procurar o diretor imediatamente por causa do xixi do Pedrinho.
Não recebeu maiores explicações. Percebeu pelo tom de indignação que o assunto era grave. Ameaçavam o filho de expulsão. Só porque fez xixi na piscina. Um absurdo!
– Todo mundo faz xixi na piscina. Homens e mulheres. Velhos e crianças. Por que Pedrinho não pode? Isso é pessoal! – Resmungou indignado.
Pegou o carro no estacionamento. Como pai, pensou em arregaçar as mangas para brigar com o diretor. Como advogado, esboçou mentalmente um processo judicial contra o abuso de autoridade.
Quando chegou ao clube nem pediu permissão. Entrou logo na sala do diretor.
– O que você tem contra o meu filho? Botando o dedo em riste. – Todos mijam na piscina!
– Mas não da torre de saltos.
Orgulhosamente apresento mais um conto cheio de humor motivado por notícia publicada no Correio Braziliense nesta semana.
Sempre às quartas feiras, antes das 18 horas e com conteúdo entre 2959 e 2997 caracteres.
E daí? Daí que viso um espaço como colunista remunerado.
08 dezembro 2010
O tubarão na história

“Uma turista alemã de 70 anos morreu ao ser atacada por um tubarão quando se banhava no Mar Vermelho, diante do hotel, no concorrido balneário egípcio de Sharm El-Sheik, um dos destinos mais procurados no Oriente Médio. Horas depois da morte da idosa alemã, as autoridades locais anunciaram a captura de dois tubarões de 2m.” CB – Mundo, 06/12/2010.
Os tubarões mordem há 450 milhões de anos.
Pois é, vou lhes contar a história de uma poderosa família de tubarões cuja dinastia está instalada desde os tempos imemoriais no Mar Vermelho.
Apenas para que você, caro leitor, tenha a noção do poder desta família, eu relembro que eles ficarm muito irritados e ameaçados quando um líder religioso, Moisés, mandou abrir uma estrada ligando as duas margens do Mar. Foram privados do mais elementar direito de liberdade. Foram impedidos de ir e vir. Sentiram-se aprisionados. Foram bloqueados. Não puderam transitar livremente no sentido Norte-Sul por um período curto, mas inesquecível. Os Tubarões reclamaram, protestaram, ameaçaram processar. Para compensar o fechamento, Moisés ofertou centenas de soldados para alimentar a corte dos tubarões.
Apesar da dispensa lotada de apetitosos soldados, precisavam se prevenir contra possíveis novas intervenções humanas. A família se organizou, juntou riquezas e estudou, durante 3000 anos, diversas possibilidades. Contrataram um francês, Ferdinand Lesseps, para abrir uma rota de fuga até o mar mais próximo, o Mar Mediterrâneo. A obra foi tão bem planejada e executada que resultou em vantagem adicional de alimentar de operários todo o clã durante uma década.
Os livros não revelam tudo por falta de pesquisa dos historiadores. Estudando os hieróglifos encontrei mais fatos curiosos.
Com a morte de Ptolomeu XIV os filhos, Ptolomeu XIV e Cleópatra herdaram juntos o trono egípcio. A encantadora Cleópatra, como todos sabem era muito bonita e costumava se enfeitar com jóias e pedras de todos os quilates. Cleópatra era conhecida por adorar jóias, poder e gatos. Só alguns poucos súditos conheciam a paixão da rainha por tubarões.
Contrariando os desejos do pai os irmãos brigavam pelo poder e Ptolo (esse era o aplelido do mano) a expulsou do reino. Ela pegou carona num navio e foi parar em Roma onde seduziu o imperador Júlio César. Voltou ao Egito com o apoio dos romanos para aniquilar o exército faraônico e destronar o irmão.
Todos, incluindo Ptolo, vivos ou mortos, foram oferecidos à familia Tubarão no mar ao leste do Egito. A parentada Tubarão se banqueteou durante meses num episódio singular. As águas verdes foram tingidas de púrpura originando o nome do Mar Vermelho.
Desde então, Cleópatra sempre servia algum escravo ou desafeto aos bichos de estima. O próprio marido jamais foi encontrado depois que ele a questionou sobre trocas de cartas e olhares com o governador Marco Antônio.
Marco Antônio se juntou a Cleópatra e governaram a porção Oriental do Império Romano sempre alimentando os tubarões a partir do balneário de Sharm El-Sheik.
Um novo conto
sempre baseado em notícia de jornal .
Sempre às quartas-feiras antes das 18h.
Sempre entre 2959 e 2997 caracteres.
Sempre com bom humor.
Como um colunista à espera de um convite para um grande jornal.
03 dezembro 2010
Quem come o ovo?
Maior que o desafio
de colocar um ovo em pé é repartir um único ovo à mesa de jantar de uma família.
O solitário ovo deve ser dividido sob um telhado de zinco entre uma mulher grávida, o marido e uma filhinha esquelética.
Impossível?
Todos juntaram as mãos em oração para agradecer a generosa refeição. O ovo é de avestruz e não de codorna.
de colocar um ovo em pé é repartir um único ovo à mesa de jantar de uma família.O solitário ovo deve ser dividido sob um telhado de zinco entre uma mulher grávida, o marido e uma filhinha esquelética.
Impossível?
Todos juntaram as mãos em oração para agradecer a generosa refeição. O ovo é de avestruz e não de codorna.
01 dezembro 2010
Que país será esse?
O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, ganhou de presente um novo cachorro de estimação. E, como não tem idéia sobre qual nome colocar no bichinho, teve uma idéia genial: chamar o povo russo para dar sugestões. Na última quarta, Putin divulgou, em comunicado no site oficial do cargo no governo russo, que aceita sugestões de internautas para batizar o cão. CB – Você sabia?, 29/11/2010
Numa certa manhã de inverno o jornal anunciava na primeira página que a colheita de trigo foi excepcional, que a vitoriosa seleção de futebol estava com novo técnico e que o inverno não seria muito rigoroso.
Na mesma manhã os muros da capital amanheceram com letras anônimas afirmando que o técnico de futebol desapareceu misteriosamente, que o pão continua ausente nas gôndolas e que a próxima estação será sempre pior.
Na escola, a criançada aprende a biografia do grande líder da nação. É relevado que o querido presidente à frente de uma equipe dinâmica é um defensor incansável do trio saúde, segurança e educação.
Nos apertados transportes coletivos – ônibus, trem ou caçamba de caminhão – tudo pode acontecer além de assaltos e assédios. Os veículos podem até chegar no horário e às vezes ir até o destino sem quebrar.
Nas fábricas, os operários, heróis da nação, trabalham apenas 14 horas diárias e recebem, a preços simbólicos e subvencionados pela pátria, uma refeição balanceada. Exatos 300 gramas.
Nos contracheques, mês a mês os números são cada vez mais expressivos. Em aumentos sucessivos crescem os números dos impostos a pagar.
Nas repartições públicas há uma coleção interminável de carimbos. Os raros funcionários que comparecem ao serviço desconhecem a finalidade dos carimbos por isso encaminham as pessoas das filas ao próximo guichê da próxima repartição.
Nos hospitais, para compensar a falta de médicos, enfermeiros e auxiliares há pacientes espalhados nas camas, corredores e até nas prateleiras vazias de remédios.
Nas prisões de segurança máxima não há assassinos nem estupradores. Não há corruptos nem corruptores. Os ocupantes das celas são homens com as línguas cortadas por ousaram inventar mentiras à respeito das ações dos mandatários do governo.
Nas covas rasas, jornalistas ou não, estão os que se rebelaram contra o sistema e pediram eleições.
Do trono dourado do palácio, o presidente discursa em rede nacional de rádio e televisão elogiando ações e a própria generosidade. Sempre solícito com o clamor popular oferece eleições para daqui a cinco anos.
Em todas as cidades o governo promove festas com discursos, música e rojões. Nas praças e avenidas o povo comemora a bondade. Releva o tempo de espera, esquece mordaças, perdoa maldades e volta a sorrir esperançoso com o fim da ditadura.
Na exata data marcada o governante-mor convoca eleições gerais. O voto não é obrigatório. Vota quem quiser.
Apresenta uma lista com seis nomes. A população vai às urnas. Após a apuração, o nome pelo escolhido pela sabedoria popular será para batizar o novo poodle presidencial.
Numa certa manhã de inverno o jornal anunciava na primeira página que a colheita de trigo foi excepcional, que a vitoriosa seleção de futebol estava com novo técnico e que o inverno não seria muito rigoroso.Na mesma manhã os muros da capital amanheceram com letras anônimas afirmando que o técnico de futebol desapareceu misteriosamente, que o pão continua ausente nas gôndolas e que a próxima estação será sempre pior.
Na escola, a criançada aprende a biografia do grande líder da nação. É relevado que o querido presidente à frente de uma equipe dinâmica é um defensor incansável do trio saúde, segurança e educação.
Nos apertados transportes coletivos – ônibus, trem ou caçamba de caminhão – tudo pode acontecer além de assaltos e assédios. Os veículos podem até chegar no horário e às vezes ir até o destino sem quebrar.
Nas fábricas, os operários, heróis da nação, trabalham apenas 14 horas diárias e recebem, a preços simbólicos e subvencionados pela pátria, uma refeição balanceada. Exatos 300 gramas.
Nos contracheques, mês a mês os números são cada vez mais expressivos. Em aumentos sucessivos crescem os números dos impostos a pagar.
Nas repartições públicas há uma coleção interminável de carimbos. Os raros funcionários que comparecem ao serviço desconhecem a finalidade dos carimbos por isso encaminham as pessoas das filas ao próximo guichê da próxima repartição.
Nos hospitais, para compensar a falta de médicos, enfermeiros e auxiliares há pacientes espalhados nas camas, corredores e até nas prateleiras vazias de remédios.
Nas prisões de segurança máxima não há assassinos nem estupradores. Não há corruptos nem corruptores. Os ocupantes das celas são homens com as línguas cortadas por ousaram inventar mentiras à respeito das ações dos mandatários do governo.
Nas covas rasas, jornalistas ou não, estão os que se rebelaram contra o sistema e pediram eleições.
Do trono dourado do palácio, o presidente discursa em rede nacional de rádio e televisão elogiando ações e a própria generosidade. Sempre solícito com o clamor popular oferece eleições para daqui a cinco anos.
Em todas as cidades o governo promove festas com discursos, música e rojões. Nas praças e avenidas o povo comemora a bondade. Releva o tempo de espera, esquece mordaças, perdoa maldades e volta a sorrir esperançoso com o fim da ditadura.
Na exata data marcada o governante-mor convoca eleições gerais. O voto não é obrigatório. Vota quem quiser.
Apresenta uma lista com seis nomes. A população vai às urnas. Após a apuração, o nome pelo escolhido pela sabedoria popular será para batizar o novo poodle presidencial.
Ainda não fui chamado para assinar contrato com A Folha, Estadão, Correio Braziliense, Zero Hora, Estado de Minas ou Globo, mas já recebi convite para ser publicado no Tagualetras de Taguatinga e A voz de Goiânia.
Todas as quartas-feiras, até as 18 horas, apresento, no meu blog, um texto com provocação originada em artigo do Correio Braziliense. O texto é limitado entre 2959 e 2997 caracteres.
Sou persistente e acredito na qualidade e constância da minha escrita. Por isto aguardo convite para ser colunista remunerado.
24 novembro 2010
Faça sua aposta
O anúncio do casamento do príncipe William – o segundo na sucessão ao trono da Grã-Bretanha – com a plebéia Kate Middleton começou a mobilizar os britânicos, que lotaram as casas de apostas para especular sobre a data e o local da cerimônia. CB – Internacional, 18/11/2010
Londonópolis é uma pequena cidade fundada por ingleses que construíram a estrada de ferro no final dos anos 1800. A cidade encravada no meio das montanhas foi esquecida nas névoas do tempo quando os governantes do país abandonaram as locomotivas. A neblina produzida pelo rio Cãmisa também impede que os habitantes vejam as horas no Tiqueaçu (tiqueaçu, é o equivalente a Big Ben em tupi).
Apesar do isolamento, a cidade se desenvolveu muito desde a revolução industrial, tanto que produz os próprios veículos automotores. E sempre quando um novo prefeito toma pose no cargo, desfila nas ruas a bordo de um possante Rollsronca.
Todos trabalham muito. A alta produtividade estimulou a adoção da semana inglesa. Nas horas de folga a população anglo descendente, quando não joga bridge, fala mal dos franceses ou se entrega aos prazeres do cultivo e da poda promovendo acirrados campeonatos de jardinagem.
Contei sobre o cenário e os costumes do local para ambientar o personagem central dessa história.
William VI, 37 anos, de porte atlético, olhos azuis, bem falante, nobre e rico. É descendente direto de William I que projetou a cidade e, apostando no sucesso do empreendimento, comprou todas as terras circunvizinhas. Empreendedor, plantou ares e hectares de chá nas encostas das montanhas. Os negócios se expandiram de tal forma que estabeleceu pontes de comércio com outras capitais e um viaduto do chá com São Paulo.
O herdeiro das fazendas mantém e incentiva o costume tradicional do chá com torrada às cinco horas. Com a elite da malandragem Londonopolitana inovou ao tomar uísque sem gelo meia hora depois para falar de negócios, cavalos, soccer e mulheres, of course.
Nesta tarde foi diferente. Os dois jornais, O Guardião e Espelho Diário anunciavam o seu casamento em letras garrafais com uma plebéia. A linda noiva de apenas 21 anos sabe tocar as músicas de Elton John ao piano, cozinha o melhor pudim yorkshire da região e sabe, como ninguém, servir a tradicional cerveja quente.
Em mais um costume herdado dos ancestrais britânicos, os tabloides também diziam que estavam abertas as apostas em torno do casamento do século. As bancas de jogo dispunham de listas e mais listas de questões apostáveis.
Quem levará as alianças? Quem serão os padrinhos?
Qual será o recheio do bolo? Chocolate, blueberries, ou strawberries?
Onde será a recepção? No Liverpool pub, no Hotel Shakespeare, na Maison Agatha Christie ou no Wimbledon Center?
Não foram abertas apostas para a cor do vestido.
Para os amigos de copo e mesa do noivo tudo isso é uma grande bobagem. Apenas outro factoide para vender jornais. A aposta mais importante é adivinhar por quantos dias após o casamento William VI se manterá fiel?
Ainda não fui chamado para assinar contrato com A Folha, Estadão, Correio Braziliense, Zero Hora, Estado de Minas ou Globo, mas já recebi convite para ser publicado no Tagualetras de Taguatinga e A voz de Goiânia.
Todas as quartas-feiras, até as 18 horas, apresento, no meu blog, um texto com provocação originada em artigo do Correio Braziliense. O texto é limitado entre 2959 e 2997 caracteres.
Sou persistente e acredito na qualidade e constância da minha escrita. Por isto aguardo convite para ser colunista remunerado.
Londonópolis é uma pequena cidade fundada por ingleses que construíram a estrada de ferro no final dos anos 1800. A cidade encravada no meio das montanhas foi esquecida nas névoas do tempo quando os governantes do país abandonaram as locomotivas. A neblina produzida pelo rio Cãmisa também impede que os habitantes vejam as horas no Tiqueaçu (tiqueaçu, é o equivalente a Big Ben em tupi).
Apesar do isolamento, a cidade se desenvolveu muito desde a revolução industrial, tanto que produz os próprios veículos automotores. E sempre quando um novo prefeito toma pose no cargo, desfila nas ruas a bordo de um possante Rollsronca.
Todos trabalham muito. A alta produtividade estimulou a adoção da semana inglesa. Nas horas de folga a população anglo descendente, quando não joga bridge, fala mal dos franceses ou se entrega aos prazeres do cultivo e da poda promovendo acirrados campeonatos de jardinagem.
Contei sobre o cenário e os costumes do local para ambientar o personagem central dessa história.
William VI, 37 anos, de porte atlético, olhos azuis, bem falante, nobre e rico. É descendente direto de William I que projetou a cidade e, apostando no sucesso do empreendimento, comprou todas as terras circunvizinhas. Empreendedor, plantou ares e hectares de chá nas encostas das montanhas. Os negócios se expandiram de tal forma que estabeleceu pontes de comércio com outras capitais e um viaduto do chá com São Paulo.
O herdeiro das fazendas mantém e incentiva o costume tradicional do chá com torrada às cinco horas. Com a elite da malandragem Londonopolitana inovou ao tomar uísque sem gelo meia hora depois para falar de negócios, cavalos, soccer e mulheres, of course.
Nesta tarde foi diferente. Os dois jornais, O Guardião e Espelho Diário anunciavam o seu casamento em letras garrafais com uma plebéia. A linda noiva de apenas 21 anos sabe tocar as músicas de Elton John ao piano, cozinha o melhor pudim yorkshire da região e sabe, como ninguém, servir a tradicional cerveja quente.
Em mais um costume herdado dos ancestrais britânicos, os tabloides também diziam que estavam abertas as apostas em torno do casamento do século. As bancas de jogo dispunham de listas e mais listas de questões apostáveis.Quem levará as alianças? Quem serão os padrinhos?
Qual será o recheio do bolo? Chocolate, blueberries, ou strawberries?
Onde será a recepção? No Liverpool pub, no Hotel Shakespeare, na Maison Agatha Christie ou no Wimbledon Center?
Não foram abertas apostas para a cor do vestido.
Para os amigos de copo e mesa do noivo tudo isso é uma grande bobagem. Apenas outro factoide para vender jornais. A aposta mais importante é adivinhar por quantos dias após o casamento William VI se manterá fiel?
Ainda não fui chamado para assinar contrato com A Folha, Estadão, Correio Braziliense, Zero Hora, Estado de Minas ou Globo, mas já recebi convite para ser publicado no Tagualetras de Taguatinga e A voz de Goiânia.
Todas as quartas-feiras, até as 18 horas, apresento, no meu blog, um texto com provocação originada em artigo do Correio Braziliense. O texto é limitado entre 2959 e 2997 caracteres.
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