Hoje é Páscoa. Domingo de Páscoa. E domingo é dia de caminhar no Eixão. Espalho protetor solar no rosto e braços, faço alongamentos e disparo para a rua. O sol do outono é abrandado por suaves ventos do nordeste sugerindo chuvas no período da tarde. Ainda penso na Páscoa e que o pessoal de propaganda do Mago sugere a distribuição de livros em vez de ovos de chocolate. Livros de Paulo Coelho. Coelhos lembram fertilidade. Fertilidade lembra coelhas e coelhinhas atiçam meu instinto masculino. Presto atenção nos rebolados e decotes caminhantes, femininos, claro. Caminhar é muito bom para a saúde e para a mente. Podemos pensar, refletir e resolver os problemas do mundo. Acho que prefiro observar. Sou voiê. Acompanho tudo o que se passa em volta. Entre outras coisas, presto atenção nos atletas. Percebo o que está na moda e o que não está. Cabelo com rabo-de-cavalo é moda. Tênis colorido continua moda. Aquele senhor barrigudo com a camiseta branca estufada dentro da bermuda jeans com uma pouchete presa no cinto social e meias brancas até o meio das canelas definitivamente está fora de moda. Olho e vejo tudo. Coisa engraçada são os três irmãozinhos apostando corrida de bicicleta e gritando para todos saírem da frente. Coisa animal é o cachorrinho de apartamento sendo levado no colo. Meu passo apressado pára na altura da 203 Norte. Um casal está jogando um pedaço de pau numa árvore tentando derrubar frutas. Olhei bem para aquela árvore alta, de tronco liso e retilíneo Em resposta à minha pergunta informaram que era jenipapo. Tomei a liberdade de aproximar do nariz e aspirei um perfume ligeiramente adocicado num fruto marrom do tamanho de uma laranja. Perguntei se fariam licor e disseram que comeriam a polpa com açúcar. Achei constrangedor pedir para abrir a fruta e fiquei sem saber como é. Voltei para o meu caminho. Já estou longe de casa. Vou andar só mais um pouquinho. Só até aquela placa. Não, até aquela coelhinha passar. Faço a volta e vou ficar olhando a coelhinha seu rabinho a balançar. Foi o que eu fiz. Segui a coelhinha. Que coelhinha apressada! Os olhos seguiam a coelhinha e o pensamento fixo no jenipapo. Acho que a primeira vez que ouvi falar em jenipapo foi em meados dos anos 70, quando na novela Bem Amado, o Coronel Odorico Paraguaçu era servido do afrodisíaco licor de jenipapo pelas irmãs Cajazeiras. Primeiro era servido, depois se servia. É muito estranho a gente conhecer alguma coisa e não conhecê-la ao mesmo tempo. Nunca fui apresentado a um jenipapeiro. Fiquei frustrado por não conhecer a fruta por dentro. Será que é preta? Os índios se utilizam do urucum para pintar a pele de vermelho e de jenipapo para o preto. O jenipapo é o corante usado nos cestos e vasos. Quando terei nova oportunidade? O jenipapo era o assunto da mente. A coelhinha, dos olhos. Olhei novamente para a coelhinha e, para os meus olhos, carregava saltitante uma cestinha cheia de ovos multicoloridos. Será que o coelho da Páscoa quando pinta os ovos usa corante de jenipapo?
Local: Livraria Cultura no CasaPark Shopping Center - Brasília-DF
É a sua oportunidade de conseguir uma dedicatória personalizada. Você pode, inclusive, ditar o que desejar. Eu escreverei. Para Vinícius, anotei: Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça é Pepino que vem e que estilhaça, caminho do lar.
Saímos da aula com o dever de anotar até o fim do dia, flashes motivadores para uma crônica.
Na porta do prédio encontramos com um senhor de uns 70 anos vestido com roupa domingueira. Pediu-nos dinheiro para voltar a Pirapora. Contou-nos, em lágrimas choradas de dor que fora assaltado na Rodoviária. Era preciso alguma coisa mais impactante para servir de mote. E seguimos caminho até um shopping. Compramos o que deveria ser comprado e retornamos ao estacionamento. Uma camionete estacionara em fila dupla fechando o nosso carro. Solicitamos a um guarda que nos ajudasse a empurrar o veículo obstruidor ou que o multasse. O guarda deu de ombros e disse que era tarefa do lavador de carros e virou-nos as costas. Também não era assunto merecedor de uma crônica opinativa. Muito engraçada foi a cena que vimos logo depois: a mocinha escancarou a porta do seu automóvel e em seguida abriu um guarda-chuva. Medrosamente esgueirou-se e colou a cabeça no guarda-chuva. Não queria se molhar em hipótese alguma. A vaidosa moça certamente passara o dia no cabeleireiro. Foi engraçado porque não estava nem chuviscando. Era um episódio muito ridículo para ser anotado. Chegando em casa vi imagens de um pavoroso incêndio na indústria química instalada entre residências. Considerei o tema óbvio demais para ser registrado.À noite fomos ao aniversário e posse de um amigo na Academia de Letras de Brasília.Comentamos que aquele era o desejo de todo homem, ter saúde, inteligência e naquele momento ser tornado imortal. Também não anotamos o que ponderei ser obviedade.Já em casa fiquei feliz. Ele deitou-se na cama enquanto e eu deitei-me no criado mudo. Por preguiça de gastar a minha tinta, convenci-o de que nada valia a pena ser escrito.
Ignácio de Loyola Brandão se apresentou no dia 19/03/09 no T-Bone, Açougue Cultural.
Para quem não o conhece, devo dizer que se trata de um dos expoentes da nossa literatura com mais de 30 títulos, incluindo o romance O Menino que Vendia Palavras, vencedor do Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção do ano de 2008.
Depois da palestra procurei-o para solicitar uma dedicatória no fantástico livro autobiográfico, Veia bailarina onde relata o drama de uma cirurgia bem sucedida d 11 horas contra um aneurisma cerebral.
Ofereci o meu recém lançado livro Pepino e farofa. Para minha surpresa, Ignácio levou o livro ao nariz para aspirar os aromas das minhas aventuras culinárias.
Os cronistas sempre enriquecem fatos e imagens. Não é mesmo, mestre?
*****
Por enquanto a venda de Pepino e farofa será direta, do autor para o leitor.
O livro custa R$ 28,00 para entregas no Plano Piloto em Brasília.
Para todos os outros lugares do Brasil, com a postagem, custa R$ 30,50
2 exemplares na mesma remessa saem por R$ 59,80
3 exemplares na mesma remessa saem por R$ 89,40
Para saber quem efetuou os depósitos acrescentarei alguns centavos identificando o número do pedido.
Faça seu pedido através do e-mail r-klotz@uol.com.br, fornecendo a quantidade desejada, o endereço para a entrega e nome para a dedicatória, se desejar.
Darei o retorno informando o valor exato e fornecendo conta corrente do BB para crédito bancário.
Estávamos sentados à mesa da varanda. Trêscasais. A lua apontava cheia, criando umclima romântico juntocom a descontração da tarantela Funico Li Funico La.
A conversaalegre unia o grupo. A terceiragarrafa de chianti já estava no final. O cheiro da manjerona do molho à bolonhesa ainda estava no arquandoveio o elogio.
– Parabéns. Adorei o jantar. Disseram quevocêsó sabia fazerpizza, miojo ouesquentarlasanha. Aquivocê extrapolou. A massa estava esplêndida. Comovocê fez?
– Obrigadopeloelogio. Umamigo italiano passou a receita herdada da avó. A nonaera de Modena, cidadevizinha a Bolonha.
Para fazer a massaficarperfeita temos queir aos detalhes. Não é suficiente uma toalhaverde e guardanaposvermelhos. É precisomuito mais.
Comece na escolha da massa. O espaguete deve sernúmero10. Acadacemgramas de massa ferva umlitro de águacomdezgramas de sal. Acrescente o sal na águasomenteapós a fervura. Não coloque azeitenemóleo na água, senão a massa fica escorregadia e o molhonão adere.O maisdifícil é acertar o pontopara a massaficaral dente, ou seja, firme o suficienteparasersentidanosdentes.
– Depois de todosestesdetalhes, imagino que o molho deve seralgo super complicado e difícil.
– O molho é o maissimples. Refogue 500 gramas de carne moída de primeirajuntocom uma cebola ralada e umdente de alho picado. Acrescente uma lata de extrato de tomate, salsa, orégano e tomilhofrescos. Uma colher de açúcar, trêscolheres de azeite e meia de sal. Adicione umcopo de águaquente e mexa emfogobaixodurante vinte minutos.
– Será que posso anotar a receita?
– Fique à vontade. Tenho caneta e papel na cozinha. Ao lado do telefone.
...
– O que é isso?... O que aconteceu?
Após o grito de espantotodos levantaram correndo curiosospara a cozinha.
– O quesãoestesfios de macarrão grudados na parede?
– É que o italiano me explicou que a massa fica no ponto de al dentequando gruda no azulejo.
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Esta crônica está em Pepino e farofa.
Por enquanto a venda de Pepino e farofa será direta, do autor para o leitor.
O livro custa R$ 28,00 para entregas no Plano Piloto, em Brasília.
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2 exemplares na mesma remessa saem por R$ 59,80
3 exemplares na mesma remessa saem por R$ 89,40
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Retornarei informando o valor exato e fornecendo conta corrente do BB para crédito bancário
Há dias nublados em que estou com médio apetite e devo preparar alguma coisa na cozinha. Chegou a hora da janta. A falta de inspiração me leva a abrir a geladeira e vasculhar todos os cantos e gavetas à procura de alguma solução sem esforço. Por preguiça não abro aqueles potinhos plásticos com lembranças de outras refeições. Tampouco investigo o que contêm aquelas dezenas de vidros da porta da geladeira. Fico incomodado ao ouvir o açucareiro na geladeira gritando que devo iniciar urgente mais uma guerra inútil contra as formigas. Até a garrafa d’água está quase vazia. Melhor que as formas de gelo.
– Pizza? Lasanha? Miojo? De novo, não!
Sempre ouço que deveria, nestes tempos frios, tomar uma saudável sopa, um salutar caldo ou um robusto creme. Isso é comida de maricas! Homem que é homem come pizza, lasanha e miojo. Tudo misturado. E depois vomita! Argh! Hoje não tenho que provar nada para ninguém. Afinal, estou sozinho.
– Nada como uma cervejinha para clarear a mente e a urina!
Vou ao micro e acesso a internet. Receitas culinárias? Nem pensar. Vou para uma sala de bate-papo para descobrir alguma alma caridosa que saiba preparar algo leve e saboroso para aplacar minha fome.
Salas de bate-papo sempre têm um tema em discussão, dessa forma muitas pessoas se encontram virtualmente: cada uma se conecta a partir de um micro. Os temas são variados: seleção brasileira com 38 interessados; literatura com 3 presentes; carros com 7 participantes; sexo, com 92 pessoas – Isso não é sala de bate-papo, é orgia. Antropologia, sala vazia; culinária, 6 participantes, é aí que eu vou.
Insiro meu nome e uma pergunta:
– Alguém aí sabe como preparar alguma coisa fácil e rápida? Eu sou totalmente leigo na cozinha e estou com vontade de comer algo leve.
Fico feliz com uma boa recepção. Todos me desejam boa-noite e uma Sônia muito prestativa informa que tem a solução para mim: Carrotes au Charbon.
Informo que nada entendo de cozinha e menos ainda de francês.
Ela foi muito gentil e disse que deveria ir para a cozinha descascar 2 cenouras, cortar em rodelas e colocar em uma panela com fogo alto. Ela aguardaria meu retorno para novas instruções.
Feliz com a solução. Vou à cozinha velozmente cumprir aqueles passos da receita.
Retorno ao micro, entro na sala e procuro por Sônia.
Sônia me aguardava.
– Este é um prato no qual eu sou especialista. Aprendi com meu avô. Ele era francês, um tremendo gozador e um excelente cozinheiro. Sabia preparar pratos com muita rapidez e com sabor inigualáveis. Já ensinei esta receita para muitas amigas e três namorados. Todos o consideraram um prato inesquecível. Você será o próximo a dar sua opinião.
– Sônia, rápido, qual é o próximo passo? Estou sentindo cheiro de queimado!– Parabéns, sua receita já está pronta. Carrotes au Charbon significa cenouras ao carvão.
Terça é o grande dia! Hora de provar as deliciosas crônicas culinárias Pepino e farofa.
3 de março, a partir das 18h no Carpe Diem, 104 Sul.
A noite contará com a pessoa mais importante do universo: você.
O autor, Roberto Klotz, recebeu diversos telegramas onde famosos não disseram:
Neil Armstrong–Umpequenolivropara o homem, umgrandelivropara a humanidade.
Dorival Caymmi – Quemnãogosta de Pepino e farofa, bomsujeitonão é. É ruim da cabeçaoutotalmente lelé.
Jânio Quadros – Li-lo porque qui-lo.
Esfinge – Leia Pepino e farofaoute devoro.
O agente de divulgação trabalhou tão bem, que sumiu até com a máquina de passar cartões.
Leve um arcaico talão de cheques ou dim-dim.
No blog há informações para aquisição via postal.
Por enquanto a venda de Pepino e farofa será direta, do autor para o leitor.
O livro custa R$ 28,00 para entregas no Plano Piloto em Brasília.
Para todos os outros lugares do Brasil, com a postagem, custa R$ 30,50
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3 exemplares na mesma remessa saem por R$ 89,40
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Na terça, 3 de março, o restaurante Carpe Diem lançará: Pepino e farofa.
O autor do livro, Roberto Klotz informa que todas as crônicas culinárias do livro Pepino e farofa foram testadas na sua cozinha experimental. Nem sempre aprovadas.
Para agitar a noite do lançamento, convidou estrelas do jet set internacional. Fidel Castro fará breve discurso com as qualidades do livro. Andy Warhol apresentará seu mais novo quadro: a sopa de Pepino e farofa. Amy Winehouse e Maradona, apressados, virão na carreira. Todos confirmados. Tanto que já desembolsou passagens e estadias para o agente da divulgação.
Por enquanto a venda de Pepino e farofa será direta, do autor para o leitor.
O livro custa R$ 28,00 para entregas no Plano Piloto em Brasília.
Para todos os outros lugares do Brasil, com a postagem, custa R$ 30,50
2 exemplares na mesma remessa saem por R$ 59,80
3 exemplares na mesma remessa saem por R$ 89,40
Para saber quem efetuou os depósitos acrescentarei alguns centavos identificando o número do pedido.
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Retornarei informando o valor exato e fornecendo conta corrente do BB para crédito bancário.
No dia 3 de março o Carpe Diem oferecerá um cardápio inusitado: Pepino e farofa.
Pepino e farofa é um livro de crônicas culinárias resultante da inexperiência de 50 anos no comando de um fogão.O bem humorado autor, Roberto Klotz, agendou aviões para cruzar os céus de Brasília com faixas convite para o lançamento. Reservou o Píer 21 para Gisele Bündchen desfilar trajando uma sumária capa do livro. Comprometeu trios elétricos para Ivete Sangalo cantar a música composta especialmente para o livro. O agente literário sumiu com a grana e só restou convidar por e-mail.
Por enquanto a venda de Pepino e farofa será direta, do autor para o leitor. O livro custa R$ 28,00 para entregas no Plano Piloto em Brasília. Para todos os outros lugares do Brasil, com a postagem, custa R$ 30,50 2 exemplares na mesma remessa saem por R$ 59,80 3 exemplares na mesma remessa saem por R$ 89,40 Para saber quem efetuou os depósitos acrescentarei alguns centavos identificando o número do pedido. Faça seu pedido através do e-mail r-klotz@uol.com.br, fornecendo a quantidade desejada, o endereço para a entrega e nome para a dedicatória, se desejar. Retornarei informando o valor exato e fornecendo conta corrente do BB para crédito bancário
Participei de um desafio onde devia, semanalmente, produzir um texto com tema definido. Coube-me escrever sobre as circunstâncias que levaram Claus Schenk von Stauffenberg, em Berlin no dia 19 de julho de 1944, a prever as conseqüências para a permanência de Hitler no poder e que o fizeram aceitar a missão que executaria no dia seguinte.
Nos cinemas de todo o mundo Tom Cruise interpreta Claus Schenk von Stauffenberg, oficial alemão que colocou uma bomba aos pés do Führer no maior atentado contra o ditador. Em 2007, escrevi como teria sido o dia do oficial alemão na véspera do famoso atentado.
(conto escolhido)
Valquíria
Era a noite do dia 19 de julho de 1944. Em Berlim, no seu alojamento solitário, o coronel alemão Claus Schenk von Stauffenberg repassava informações e o plano para colocar uma bomba no bunker de Adolph Hitler no dia seguinte.
Von Stauffenberg caminhava nervosamente de um canto ao outro do quarto e revivia a angústia da reunião de dissidentes do alto comando ocorrida há vinte dias. Naquela tarde ficara claro para todos os oficiais que a partir da invasão da Normandia, o Dia D, a guerra estava perdida. Seria apenas uma questão de tempo para que a Alemanha fosse arrasada e humilhada. Os aliados, entre si, acertaram, no tratado de Teerã, que só interessava a rendição incondicional da Alemanha nazista. Desta forma não havia nenhuma possibilidade de acordo de paz em separado. Mas, para evitar que a Alemanha fosse invadida e subjugada pelos bárbaros russos, seria necessário um pacto com os americanos e ingleses. A solução seria a eliminação do Führer e a neutralização da poderosaSS. O grupo resolveu se opor justamente ao lema da SS – Schutzstaffel[1]– “Minha honra é a lealdade”.
Von Staffenberg pegara sua caderneta e relera as palavras do General Ludwig Beck "A obediência de um soldado encontra seus limites onde seu conhecimento, sua consciência e sua responsabilidade proíbem-no de obedecer ordens" O coronel alemão sabia que estas palavras, se lidas por alguém da SS, significariam a própria morte. Deu um sorriso de leve e questionou qual seria a sua condenação após o atentado. Achou que não precisava se preocupar com anotações e concentrou pensamentos na ação.
A decisão está tomada. Amanhã, bem cedo, pego o avião e pouso por volta das dez horas em Rastenburg. O motorista estará me esperando para percorrer os seis quilômetros de poeira até a Toca do Lobo[2].
A reunião do alto comando está prevista para meio-dia.Às onze e meia faço um lanche rápido junto com meu ajudante de ordens, tenente von Häften, confirmo o horário da reunião, peço licença para trocar a camisa empoeirada com a ajuda de von Häften. Todos sabem que preciso de ajuda desde que perdi meu braço direito e ainda dois dedos da mão esquerda. Von Häften engatilhará as duas bombas quebrando a cápsula de ácido que dissolve o fio que retém a bomba. O petardo explodirá ente dez e vinte minutos depois. Terei apenas cinco minutos para posicionar a valise sob a mesa e sair. Não há como desarmá-las. Estarei na sala de reuniões e von Häften me chamará para atender um telefonema urgente. Sairemos juntos, passaremos pelo alojamento e pegaremos o carro para ir até a pista de Wilhelmsdorf, de onde voarei para Berlim para ir ao Ministério da Guerra participar do levante contra o governo. Estará realizada a operação Valquíria[3].
Já se passaram dois anos, quando eu estava com Rommel no norte da África ouvindo as últimas notícias vindas da Alemanha. Eu pouco conhecia o glorioso marechal-de-campo Erwin Rommel, a Raposa do Deserto,
“Hoje a polícia prendeu o judeu Davi Stern que convidou crianças a lamber chocolate numa chapa de ferro congelada. As crianças foram atraídas pelo doce e numa armadilha infernal ficaram grudadas pela língua molhada. Essas três inocentes crianças foram mutiladas gratuitamente por um ser desprezível que gargalhava de prazer ao ouvir os gritos do desespero infantil.”
– Schweinehund! – porco imundo – berrou Rommel desligando o rádio. – Maldito Heydrich! É insuportável esta maldita e mentirosa propaganda anti-semita. Este cachorro safado vive criando falsas histórias para colocar os alemães e o mundo contra os judeus.
Fiquei nervoso e balançei a cabeça negativamente, Rommel em vez de ficar chocado com a crueldade do judeu, xingara o número dois da SS. Rommel, um homem frio e calculista, externara sua opinião para mim, um quase desconhecido, e, percebendo meus olhos arregalados, resolveu argumentar para fundamentar sua opinião.
– Sabe Claus, eu acreditei e lutei pela nossa Alemanha durante todo este tempo até que descobri que Goebbels, nosso ilustre ministro da propaganda, que vive alardeando grandes vitórias e conquistas, é um grande mentiroso. Minhas vitórias no deserto, de acordo com a língua de Goebbels, foram estrondosas, foram épicas! Passei a ser um herói imbatível e um orgulho para a raça ariana, quando na verdade eu dispunha apenas de equipamento melhor, e, modéstia à parte, um pouco de esperteza. Goebbels exaltava os alemães enquanto a verdadeira função de Heydrich, no serviço secreto, era criar boatos para desestabilizar os inimigos e fazer o mundo acreditar que os judeus eram o demônio na face da terra.
– Mas está provado cientificamente, meu comandante, que somos uma raça superior...
– Haha! Os cientistas foram contratados pelo Führer. Você ainda se lembra da Noite dos Cristais?
– Como alguém pode se esquecer daquele inverno de 38?
– Aposto que você ficou chocado quando aquele moleque judeu assassinou com requintes de crueldade nosso diplomata, não é mesmo?
– Eu e toda a Alemanha.
– O judeu nunca existiu. Foi a SS que eliminou um idiota incompetente, botou a culpa no judeu, depois colocou um monte de militares à paisana para empurrar a população incentivada pelo rádio. O resultado foi uma centena de judeus mortos, dúzias de sinagogas queimadas e a depredação do comércio judeu em toda Alemanha. – Rommel exibiu um sorriso irônico e continuou – O vidro quebrado das vitrines serviu apenas para criar um nome poético: Noite dos Cristais. – Das war der Anfang, mein Freund. – este foi o começo, meu amigo.
– Eu estou pasmo, meu marechal. Mas como o senhor me explica aquele discurso do Goebbels no ano passado, lá no Palácio dos Esportes? Goebbels perguntou para o povo se queriam a guerra total e catorze mil vozes animadas disseram sim e depois repetiram que sim.
– Mentiras! O discurso foi uma encenação gravada para transmissão por rádio e para os cinemas. Depois da derrota em Stalingrado, a intenção era entusiasmar os ouvintes e principalmente recuperar o moral dos soldados nas frentes de batalha, por isso, Goebbels referiu-se ao apoio da platéia presente, com uma centena de vaquinhas amestradas infiltradas – ressaltou – como sendo uma amostra da sociedade em seu todo. Todos ficaram empolgados por conta de uma farsa, de uma mentira. Todos mentem, todos mentem. O discurso foi gravado durante a semana e no estádio só houve encenação, teatro. – Alle lügen –Todos mentem.
Naquele fim de tarde meus olhos foram arregaçados para alguma coisa que eu jáenxergara e em que não ousara crer. Em pouco tempo descobri que havia outros oficiais descontentes com a condução do governo da nossa Alemanha.
Jamais passou pela minha cabeça o assassinato do Führer. Jamais passou pela minha cabeça que eu seria o assassino do Führer. No mundo ninguém tem noção do que está acontecendo, nem os alemães, nem os nossos inimigos. A solução deve vir por aqueles que sabem. Pelos meus filhos e pelo futuro da Alemanha, estamos certos. Farei o que deve ser feito.
Já são quase dez horas da noite, toda a Alemanha canta junto com Marlene Dietrich a bela canção “Lili Marlene” antes do encerramento das transmissões radiofônicas.
Von Stauffenberg abre sua caderneta e com um lápis anota:
Fizemos o exame de consciência diante de Deus e a ação deve se realizar, pois este homem é a encarnação do mal. Queremos uma nova ordem, que faça todos os alemães portadores do Estado e que lhes garanta Direito e Justiça. Se tiver sucesso, serei considerado traidor de minha pátria; se falhar, me considerarei traidor de minha própria consciência.
As luzes do quartel são apagadas.
[1] A Schutzstaffel – escudo de proteção – ou SS, foi uma organização paramilitar ligada ao partido nazista
[2] Toca do Lobo – Wolfschanze – o QG de Hitler em Rastenburg, na Prússia Oriental.
[3] A Valquíria, é o título da ópera de Richard Wagner - segunda parte da tetralogia “O Anel do Nibelungo”.
O desfecho do atentado
A reunião foi transferida na última hora do bunker para um barraco de madeira. O bunker por ser de concreto armado teria os efeitos da bomba multiplicados.
A reunião também foi antecipada em meia hora assim, o mutilado von Stauffenberg conseguiu ativar apenas um dos dois explosivos previstos.
A bomba colocada sob a mesa, a meio metro de Hitler, foi afastada por um general que ficou incomodado com a presença da maleta.
A explosão matou quatro e feriu outras onze pessoas, mas não foi o suficiente para matar o ditador.
Von Stauffenberg foi preso e executado no dia seguinte.
Hitler ordenou vingança implacável a Himmler, chefe da SS. Consequentemente foram mortos quase 5.000 pessoas.
O herói Rommel foi convidado a se suicidar. O atentado foi previsto por Nostradamus.
Tom Cruise interpreta o alemão nas telas do cinema em filme homônimo a este conto.
Exercício proposto pelo Prof. Marco Antunes na oficina literária da Câmara dos Deputados: Conte-nos como, onde e quem matou Adelaide Santoro numa história de suspense que não pode ter mais que dez linhas.
Era tarde, por volta das oito horas da noite. Antes de sair tranquei os arquivos e levei um café para a doutora Adelaide Santoro. Ela estava pálida, estranha. Perguntei se ela estava bem. Agitada, estalava os dedos e olhou duas vezes para o enorme relógio da parede. Jamais tive liberdades com a doutora, mesmo assim ainda perguntei se ela queria desabafar comigo. Respondeu-me que não, que eu poderia ir embora e que já havia chamado um táxi para levá-la para casa. Todos nós, do escritório, sabíamos que o doutor Santoro guardava um revólver na gaveta direita da escrivaninha. Tenho certeza que não havia mais ninguém nas salas. Todos já haviam saído. Juro que não fui eu quem matou a Doutora Adelaide Santoro.
Uma imagem vale mais que cem palavras? Este foi o exercício proposto na oficina literária da Câmara dos Deputados Descrever a imagem, não o seu conteúdo, em exatas cem palavras. Tempo 15 minutos. Do lado esquerdo há um bebedouro metálico. Embutidos um filtro e uma serpentina para gelar a água. O usuário tem um botão para acionar o esguicho. Do lado direito, outro bebedouro. Este em porcelana branca. Ambos são alimentados pela mesma água. Um tem a tubulação escondida enquanto o outro tem a tubulação oxidada aparente. No de louça há um homem de calça escura, camisa branca e chapéu. A imagem remete aos anos 50 nos Estados Unidos. Não pelos bebedouros, nem pelo chapéu do homem sedento. E sim, pelas placas sobre os bebedouros: na direita lê-se colored e na esquerda white.
* A fotografia é de Elliott Erwitt, tirada em 1950, na Carolina do Norte
Jamais pensei que um texto, é de novembro de 2005, pudesse caducar em tão pouco tempo. Trata-se de um diálogo, jamais havido, com a mais afamada defensora da língua portuguesa no Centro-Oeste, Dad Squarisi.
Klotz: – Escrevi a palavra liqüidificador e o corretor ortográfico corrigiu para liquidificador. Eu já li em algum lugar que o trema ainda não teve Lei Áurea. Dad (assente com gesto suave). Klotz (curioso): – Consultei o Aurélio eletrônico e ele oferece as duas possibilidades. Procurei trema no índice do Manual de Redação e não encontrei. Abri à página 74 de Mais Dicas da Dad e encontrei grifado em amarelo: “Não se iluda. O trema continua vivinho da silva”. Dad (assente com a cabeça mais uma vez esboçando sorriso). Klotz: Consulta ao Houaiss eletrônico e verifica que este concorda com o Aurélio. Klotz (faz cara de interrogação): – Tenho certeza que Dad está certa. Por que Aurélio e Houaiss estão errados oferecendo duas opções? Dad (recolhe o sorriso e franze a testa com reprovação delicada). Klotz (intrigado): Volta à página 74 e continua leitura: “usa-se nos dígrafos gu e qu seguidos de e ou i.” Klotz (em voz alta): – LI-QÜI-DI-FI-CA-DOR. Se eu pronuncio a letra u e esta é seguida de i, então LI-QÜI-DI-FI-CA-DOR tem trema. Dad (a testa volta a ficar lisinha, sorriso só com os olhos). Klotz (confuso): Retorna ao Aurélio e relê: liquidificador sem trema. Dad (com olhar didático sugere voltar à página 74). Klotz (lê em voz alta final da nota, e comenta): – “O u deve ser pronunciado”. Pois é, eu pronuncio! Dad (sem dizer palavra sugere que eu repita o que eu acabei de dizer). Klotz: – Pois é, EU pronuncio! Klotz (silencia, reflete e externa): – E há outros que não pronunciam. Líquido, liquidificador. Klotz (alegre com enorme sorriso): – É líquido e certo que você sabe das coisas. E sabe explicar. Mais uma vez, obrigado! Dad (abre largo sorriso e diz): – Fique tranqüilo, são questões da lingüística. Você é que é gentil.
Agora pisei - Quando caminho o mundo acerta o passo comigo. Tudo acontece, tudo vejo, tudo anoto. Nascem histórias curtas, criativas e com finais surpreendentes. Vi tubarões na calçada, telhas assassinas, a perda filosofal. 164 páginas a R$ 40, - dedicatória e correio nacional inclusos.
Manual do escritor – Dicas e ferramentas para quem quer escrever e publicar um livro.
Aprender a técnica literária potencializará seu talento. O conhecimento não serviria de nada para a pessoa sem talento, mas aumenta o alcance de quem a possui.
A prática comprova que pequenas mudanças e melhorias fazem a diferença entre competidores e vitoriosos.
Com bom humor, o autor procurou reunir e compartilhar o que considera mais significativo para o desenvolvimento do ofício da escrita até a publicação do seu livro.
224 páginas a R$ 40,00
Cara de crachá - São 44 histórias vivas, rápidas, inquietas. Capazes de renovar fígados envenenados com tristeza. O protagonista, von Silva, é envolvente. Com ele descobrimos oque há por trás do crachá de um funcionário público. De humor particular aponta o lápis na direção do cotidiano de um usuário de carimbos, há 35 anos na mesma repartição. Esse funcionário só podia mesmo ter Cara de crachá.
160 páginas ao preço de R$ 30,00
Livro: Pepino e Farofa
Pepino e farofa são crônicas bem humoradas resultantes de 50 anos de inexperiência no comando de um fogão onde a comida é o prato principal.
No divã do psicanalista convence que o milho afasta a depressão e a solidão. Uma formiga em cima da bancada é motivo para uma fábula. Explica como um violão pode influenciar na preparação do almoço.
Só foi possível escrever o livro graças à minha mãe que, na infância, incentivou-me a brincar de carrinho em vez de comidinhas e panelinhas.
160 páginas ao preço de R$ 30,00
Quase pisei!é um livro de crônicas com temática andante. Os mortais caminham, Klotz viaja na criatividade. Com escrita na primeira pessoa do singular, convence os leitores de que tudo é verdade e que aconteceu com ele. Também nos dá a impressão que o mundo só começa a acontecer quando calça o tênis e sai para a rua. Seu olhar de cronista sempre está atento através de lentes irônicas, bem humoradas e às vezes poéticas, quando coloca os óculos líricos. O entusiasmo e a alegria do autor são contagiantes.
160 páginas ao preço de R$ 30,00
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Roberto Klotz é um engenheiro que saltou do topo do prédio recém-construído e estilhaçou-se em parágrafos. Nasceu no século passado. Bem-humorado, crítico, vacinado, analfabeto, irônico, paulistanamente canadango. Suas histórias muitas vezes têm finais surpreendentes. Enquanto aprendia a cozinhar, escreveu Pepino e farofa, um livro de aventuras culinárias, engordou de tantas pizzas encomendadas. Para perder peso, o médico recomendou que caminhasse. Durante as caminhadas encontrou elefante, lâmpada mágica, cão bravo, pegadas de onça e 45 motivos para exercitar o bom humor em Quase pisei! A vida continua e aí, o álter ego, von Silva tornou-se personagem de Cara de crachá, um funcionário público que carimba bom humor dentro e fora do expediente.De tantas anotações de oficinas literárias, ora sentado prestando atenção, ora de pé ministrando aulas, resultou o pedido de partilhar o conhecimento que gerou o Manual do escritor.Conquistou mais de 40 prêmios literários. Foi Conselheiro de Cultura na Secretaria de Cultura do DF. É jurado de concursos literários e promove oficinas de escrita. Saltou do prédio por saber-se imortal. Ocupa uma cadeira na Academia de Letras do Brasil – DF.