03 setembro 2010
Não foi reeleito
Pudera!
O deputado era tão ruim de serviço, mas tão ruim, que cobrava só 5% de comissão.
O deputado era tão ruim de serviço, mas tão ruim, que cobrava só 5% de comissão.
01 setembro 2010
Endereços que ninguém encontra
“Com poucas placas de sinalização e identificação de lugares, região pertencente a Águas Claras traz dor de cabeça aos moradores, que encontram dificuldade em receber correspondência, contas e até visitas.” CB – Areal 28/08/2010 
Três batidas secas com o nó do dedo médio no vidro do carro acordaram Antônio Rezende P. Silveira. O sol começava a se esconder atrás de alguns barracos de madeira. O vento frio uivava no meio da poeira.
O fiscal da receita estadual empurrou um boleto de cobrança de IPTU – Imposto Predial e Territorial Urbano – janela adentro.
Com a cara amassada de um dia mal dormido Antonio reclamou que não entendia aquela cobrança.
– O senhor está morando neste lugar há uma semana, fixou residência, logo deve pagar o IPTU.
– Eu estou perdido.
– Não tem dinheiro para pagar?
– Vim para este maldito lugar e não encontrei o endereço para entregar uma cesta de café da manhã. Procurei, procurei e rodei tudo que é rua. Depois deu o desespero e tentei encontrar a saída. Aí acabou a gasolina. Ninguém sabe que rua é essa! Estou perdido neste fim de mundo.
***
A Companhia de Eletricidade terminou de plantar oito postes de iluminação sob o olhar atento de José de Arimatéia Rodrigues. É a primeira rua do bairro onde as mariposas podem enlouquecer em volta da lâmpada.
– Eu gostaria de agradecer o trabalho de vocês. Ficou brilhante.
– Agradeça ao Deputado Chico Daluz.
– Hoje mesmo falarei com o filho dele que mora naquela casa, na rua vizinha.
– Na outra rua? Não é aqui? Virgem Maria! Erramos a rua!
***
Por causa de histórias como essas a comunidade, liderada pela parteira Mari Help e pelo escriturário Jotabê, convocaram a população para uma reunião e colocaram em discussão os nomes das ruas.
A babilônia das ruas marcou presença na reunião.
– Vamos colocar nomes de países? Noruega, Alemanha, Estados Unidos, Suíça, Inglaterra. Quem sabe essas nações adotam nossas ruas?
– Duque de Caxias, Almirante Tamandaré, General Mascarenhas de Morais, Marechal Deodoro foram as opções do major aposentado.
– Acho que devemos valorizar a nossa terra, nosso povo, nossas origens. Proponho botocudo, tupinambá, nhambiquara, goitacaz, tremembé.
– Você gosta de polissílabos! Prefiro nomes mais curtos!
O contador sugeriu numerar as ruas. A bibliotecária contestou sugerindo uma codificação alfanumérica.
A mocinha apaixonada levantou a mão pedindo a palavra e opinou Avenida do Amor, Alameda da Saudade, Rua do Aconchego, Praça dos Sonhos, Esquina do Flerte, Travessa Abraço Feliz...
– E as minorias? Agora é lei. Temos que reservar espaço para eles. Rua dos Deficientes Auditivos, Quadra da Melhor Idade, Ladeira dos Cadeirantes...
– Proponho o nome do ilustre presidente, do dinâmico governador, dos nobres senadores, de alguns devotados deputados. Do nosso querido prefeito!
– Aí, seu baba-ovo, não se esqueça do nome da avó!
– Acalma! Sossega! Aquieta!
– Isso é nome que se apresente?
– Não são nomes de rua, apenas estou pedindo paz aos exaltados.
A reunião terminou em beco sem saída.
Texto não publicado no Correio Braziliense. Nem na Folha, no Globo, no Estado ou Zero Hora.
Este é o quarto conto semanal com provocação originada por notícia do Correio Braziliense. Vencido o prazo de experiência os redatores do jornal receberão os textos para avaliar a data do meu ingresso remunerado numa redação. O colunista esperto sabe que o diagramador tem ordens de guilhotinar textos maiores que a coluna. O texto, de 2959 caracteres, no mínimo, e 2997, no máximo, sempre estará disponível antes das 18h das quartas-feiras.

Três batidas secas com o nó do dedo médio no vidro do carro acordaram Antônio Rezende P. Silveira. O sol começava a se esconder atrás de alguns barracos de madeira. O vento frio uivava no meio da poeira.
O fiscal da receita estadual empurrou um boleto de cobrança de IPTU – Imposto Predial e Territorial Urbano – janela adentro.
Com a cara amassada de um dia mal dormido Antonio reclamou que não entendia aquela cobrança.
– O senhor está morando neste lugar há uma semana, fixou residência, logo deve pagar o IPTU.
– Eu estou perdido.
– Não tem dinheiro para pagar?
– Vim para este maldito lugar e não encontrei o endereço para entregar uma cesta de café da manhã. Procurei, procurei e rodei tudo que é rua. Depois deu o desespero e tentei encontrar a saída. Aí acabou a gasolina. Ninguém sabe que rua é essa! Estou perdido neste fim de mundo.
***
A Companhia de Eletricidade terminou de plantar oito postes de iluminação sob o olhar atento de José de Arimatéia Rodrigues. É a primeira rua do bairro onde as mariposas podem enlouquecer em volta da lâmpada.
– Eu gostaria de agradecer o trabalho de vocês. Ficou brilhante.
– Agradeça ao Deputado Chico Daluz.
– Hoje mesmo falarei com o filho dele que mora naquela casa, na rua vizinha.
– Na outra rua? Não é aqui? Virgem Maria! Erramos a rua!
***
Por causa de histórias como essas a comunidade, liderada pela parteira Mari Help e pelo escriturário Jotabê, convocaram a população para uma reunião e colocaram em discussão os nomes das ruas.
A babilônia das ruas marcou presença na reunião.
– Vamos colocar nomes de países? Noruega, Alemanha, Estados Unidos, Suíça, Inglaterra. Quem sabe essas nações adotam nossas ruas?
– Duque de Caxias, Almirante Tamandaré, General Mascarenhas de Morais, Marechal Deodoro foram as opções do major aposentado.
– Acho que devemos valorizar a nossa terra, nosso povo, nossas origens. Proponho botocudo, tupinambá, nhambiquara, goitacaz, tremembé.
– Você gosta de polissílabos! Prefiro nomes mais curtos!
O contador sugeriu numerar as ruas. A bibliotecária contestou sugerindo uma codificação alfanumérica.
A mocinha apaixonada levantou a mão pedindo a palavra e opinou Avenida do Amor, Alameda da Saudade, Rua do Aconchego, Praça dos Sonhos, Esquina do Flerte, Travessa Abraço Feliz...
– E as minorias? Agora é lei. Temos que reservar espaço para eles. Rua dos Deficientes Auditivos, Quadra da Melhor Idade, Ladeira dos Cadeirantes...
– Proponho o nome do ilustre presidente, do dinâmico governador, dos nobres senadores, de alguns devotados deputados. Do nosso querido prefeito!
– Aí, seu baba-ovo, não se esqueça do nome da avó!
– Acalma! Sossega! Aquieta!
– Isso é nome que se apresente?
– Não são nomes de rua, apenas estou pedindo paz aos exaltados.
A reunião terminou em beco sem saída.
Texto não publicado no Correio Braziliense. Nem na Folha, no Globo, no Estado ou Zero Hora.
Este é o quarto conto semanal com provocação originada por notícia do Correio Braziliense. Vencido o prazo de experiência os redatores do jornal receberão os textos para avaliar a data do meu ingresso remunerado numa redação. O colunista esperto sabe que o diagramador tem ordens de guilhotinar textos maiores que a coluna. O texto, de 2959 caracteres, no mínimo, e 2997, no máximo, sempre estará disponível antes das 18h das quartas-feiras.
25 agosto 2010
Banco chinês devora moedas e machuca fundos

“Os chineses da província de Shangdon terão de pagar para sentar em bancos do Parque de Yantai. Eles vem com uma espécie de pinos pontiagudos que só se retraem quando o usuário coloca moedas em uma caixa instalada debaixo dele.” CB – Você sabia... 23/08/2010
Construa a cena de um domingo numa praça de cidade do interior. O sino chamando para a missa. Um casal de velhinhos, silenciosos, de mãos dadas, sentados no banco, de frente para o coreto. Na sombra de uma jaqueira, um balão de gás, vermelho, amarrado no carrinho empurrado pela mamãe. Uma menininha de vestidinho branco, com a boca lambuzada de sorvete, brincando com uma formiga no chão. Um cachorro deitado na grama com a cabeça entre as patas. Uma abelha escolhendo uma flor. Os vendedores de balão, sorvete e bolas agrupados na esquina da avenida. A cidade deve ter uns 30 mil habitantes. Tudo muito calmo e sereno como as nuvens brancas estacionadas no céu azul.
Pois a história em questão aconteceu na China e não aqui. Lá é tudo muito semelhante. Ou quase. A cidadezinha do interior deve ter uns 30 milhões de moradores, todos com os olhinhos semicerrados e falando uma língua que nós não entendemos. Provavelmente a plaça tenha uma igleja, um coleto e gente em plofusão. – isso é brincadeira de contador de histórias provocando leitores.
A praça de Chan Ti Li fica no topo da cidadezinha de Mo lan Go e está sempre lotada de gente. Precisaram colocar um placar luminoso limitando o número de pessoas.
HÁ VAGAS PARA DOIS ADULTOS E UMA CRIANÇA OU UM GORDO E UMA CRIANÇA.
A situação beirava o caos. Para aumentar a área útil aos cidadãos, o administrador do parque eliminou todos os espaços onde havia grama, substituiu-os por um cimentado verde. Quase todas as árvores foram retiradas. Em compensação plantou postes para que a população pudesse se revezar e praticar passeios noturnos.
Os recursos para a manutenção da praça provinham de máquinas de refrigerante adaptadas para grãos de milho. Por algumas moedas, se recebia um copo para alimentar pombas. Com o passar do tempo as aves sumiram, porque deixou de haver pista suficiente para pousos e decolagens.
Necessitando de caixa, o criativo administrador readaptou os caça-níqueis aos banheiros públicos. Logicamente a queixa dos usuários era esperada. Surpreendeu-se, porém, ao descobrir que a população, por falta de outro lugar para sentar, usava os banheiros para descansar as pernas.
Empreendedor, rapidamente inventou bancos com limitadores de tempo. Da forma descrita no jornal. Mesmo contrariados, os habitantes da Shangdon sentaram-se. A novidade, entretanto, mudou hábitos de tal sorte que o ganancioso administrador despertou para mais uma forma de arrecadar dinheiro fácil: alugava pequenos fones de ouvido que emitiam sinais sonoros 30 segundos antes dos bancos cutucarem as bundas distraídas. Lucrou mais ainda no aluguel dos fones para a garotada que pagava mais e adorava saber, com antecedência, qual velhinho iria pular com pontudas cutucadas.
Texto não publicado no Correio Braziliense. Nem na Folha, no Globo, no Estado ou Zero Hora.
Outra notícia do Correio Braziliense provocou o terceiro conto semanal. Logo logo vários editores receberão os links para avaliar meu início remunerado no quadro dos colunistas. Sei que texto entregue após a hora é o mesmo que texto não escrito por isso sempre estará disponível antes das 18h das quartas-feiras.
18 agosto 2010
Delivery para ladrões de carros

“Com um kit de adulteração a tiracolo, Carlos Alberto Nascimento, 35 anos, fazia serviços de falsificação de veículos em domicílio.” CB – Crime 13/08/2010
– Alô. Eu queria falar com o seu Nascimento.
– Pois não. É o Nascimento ao vivo e em cores.
– Eu encontrei seu número no caderno de classificados e gostaria de saber como funciona o seu serviço.
– Eu esquento carros.
– Isso eu entendi. Mas no que exatamente consiste o seu trabalho?
– Em primeiro lugar eu lixo à máquina os números do motor, câmbio e carroceria. Depois gravo novos números com a minha puncionadora de caracteres alfa numéricos. Em seguida uso um processo químico para remover os números dos vidros do carro antes de aplicar os adesivos com a nova numeração. Também troco as placas dianteira e traseira.
– E os documentos?
– O senhor me interrompeu! Eu estava dizendo que para finalizar, imprimo o novo DUT e certificado já com o carimbo de quitação.
– Qual é o endereço?
– É muito perigoso andar por aí com carro roubado. Vai que a polícia pega. Eu é que vou até aí.
– O senhor faz o serviço de legalização em fusca?
– Meu amigo, trabalho em qualquer tipo de veículo. Fusca é muito fácil, mas não vale o meu tempo. Cobro mais pelo meu serviço do que vale um carro velho como esse. Fusca é para iniciantes. Meu negócio é caro prateado... importado. Me poupe. Tchau, mano!
O telefone volta a tocar.
– Sim, sou eu, Nascimento. Pode falar.
– Descolei dois carrões e preciso entregar urgente. Tu pode vir hoje?
– Tá dificíl. Tô com a agenda cheia. Já são três horas e ainda tenho outro na fila. Ainda bem que é pertinho. Amanhã e quinta não vai dar. Só tenho um horário na sexta à tarde. Onde que é?
– Só sexta? É aqui na Ceilândia.
– Ceilândia! Já te falei, tô fora! Agora só atendo doutor. Só trabalho no Plano Piloto e Lago Sul. Conheço dois delivery na Ceilândia. Quer o número?
Em menos de dois anos de esquentamento de carros frios, Nascimento treinou e uniformizou dois auxiliares para atender a demanda. Em vez de moto atendia com uma van importada. O volume de serviço crescia rapidamente. Nem precisou fazer marketing. A propaganda era na base do boca-a-boca. Trabalho gabaritado, limpo e preciso. Terminava em no máximo 45 minutos. Tudo transcorria às mil maravilhas. Cogitava em abrir filial no Rio de Janeiro e em São Paulo. Contratou um despachante para legalizar a empresa. Estava preocupado com as altas taxas de impostos.
Uma tarde, após muita insistência resolveu atender um cliente novo, doutor Azevedo, muito falante e que parecia ser do ramo. Abriu um espaço na agenda e ainda brincou dizendo que fazia como os médicos: era um encaixe. Só foi porque o cliente garantiu ter um galpão lotado de carrões pouco rodados à espera de um bom profissional.
Apesar da vontade, o delegado não podia prender Nascimento. Além das cadeiras velhas e obsoletas máquinas de escrever, as viaturas da delegacia sequer tinham combustível para se locomover. Foi aí que o delegado Azevedo teve a idéia de chamar Nascimento para uma cilada.
Texto não publicado no Correio Braziliense. Nem na Folha, no Globo, no Estado ou Zero Hora.
Leia o segundo conto semanal originado por notícia publicada no Correio Braziliense. Em prazo curto enviarei os textos para diversos editores para avaliar a data do meu ingresso no quadro dos colunistas. O texto, de 2959 caracteres, no mínimo, e 2997, no máximo, sempre estará disponível antes das 18h das quartas-feiras.
11 agosto 2010
Recenseador perde boné e a coragem
“Grupo de 360 pesquisadores faz censo da vida marinha em todo o planeta e revela parte da riqueza de um mundo ainda misterioso.” CB – Ciência 03/08/2010

José Osmar Clarindo foi o quinto colocado no concurso nacional para agente censitário do IMGE, o Instituto Marinho de Geografia e Estatística. Finalmente chegou o seu primeiro dia como recenseador das águas ensolaradas do Atlântico brasileiro.
Recebe um colete com o logotipo do IMGE estampado no peito, crachá, um computador portátil além, naturalmente, de todo o equipamento para mergulho.
O dia de Jotaô não é um mar de rosas. Começa com problemas de locomoção sem vale-transporte e a descoberta que não há linhas regulares de ônibus para a região para onde foi escalado. Teve que pedir carona a um barco pesqueiro.
Conferiu e confirmou a exata localização com um pequeno GPS. Apertou a campainha da primeira porta que encontrou pela frente. Foi atendido por uma estrela marinha com um monte de bobis no cabelo oxigenado. Esta informou que naquele domicílio morava com o maquiador e seis filhos. Tres dela, um dele e outros dois, menorzinhos, em conjunto com o namorado. Informou que era atriz desde pequena e que fez a primeira ponta num comercial para pasta de dentes. Seu nome era Marynalva Souza Ferreira, mas que no formulário preferia Marylin di Mônaco.
Em seguida entrevistou a quelônia Affonsina Austragésila Clementina Teóphila Junqueira conhecida por Tatá. Negou que o apelido era uma forma carinhosa por ser uma tartaruga. O tataraneto a chamava assim. Na hora de preencher o quadradinho com a idade, duvidou quando ela disse ter 278 anos. Mulheres costumam mentir, reduzindo a idade.
– E a casa?
– Olhe para mim – mostrou um anel de diamantes – e diga se tenho cara de quem tem imóvel cedido ou alugado? É apertado, mas é meu.
– Quantos quartos? Quantos banheiros? A senhora tem televisão, geladeira e aspirador de pó?
Dona Tatá achou tudo muito indiscreto. Quando perguntada se morava sozinha, fingiu atender uma chamada ao telefone, pediu licença e terminou a conversa.
A manhã avançava rápida e ainda precisava preencher seis formulários para atender a meta diária imposta pelo IMGE.
Já começava a decorar as perguntas. Nome, idade, quantos moravam naquele domicílio? A casa tem energia elétrica? O lixo é recolhido, queimado ou jogado no mar? Tem rede de abastecimento de água ou a água vem do poço ou de algum do rio?
O próximo endereço era soturno. Ouviu latidos antes de ler a placa que avisava peixe bravo. Consultava o relógio, 12h25, quando a porta se abriu e um enorme tubarão branco abriu a porta. A fera estava com um garfo na nadadeira direita, uma faca na esquerda e um guardanapo amarrado no pescoço.
Com voz de trovão cumprimentou amistosamente:
– Veio em boa hora, amigo. Vamos entrar! Vou começar meu almoço agora.
Na fuga rápida largou o laptop e o boné caiu da cabeça.
Estas águas ainda guardarão muitos mistérios. Precisou voltar para a superfície, faltou-lhe oxigênio para terminar a pesquisa.
Projeto colunista. Correio Braziliense? Folha? Globo? Estadão? Zero Hora?A partir de hoje escreverei um conto semanal com tema originado em notícia do Correio Braziliense. Quando tiver material suficiente para avaliação os editores de diversos jornais receberão os textos para avaliar a data do meu ingresso remunerado na redação. Com 2959 caracteres, no mínimo, e 2997 no máximo, o texto sempre estará disponível antes das 18h das quartas-feiras.
Recebe um colete com o logotipo do IMGE estampado no peito, crachá, um computador portátil além, naturalmente, de todo o equipamento para mergulho.
O dia de Jotaô não é um mar de rosas. Começa com problemas de locomoção sem vale-transporte e a descoberta que não há linhas regulares de ônibus para a região para onde foi escalado. Teve que pedir carona a um barco pesqueiro.
Conferiu e confirmou a exata localização com um pequeno GPS. Apertou a campainha da primeira porta que encontrou pela frente. Foi atendido por uma estrela marinha com um monte de bobis no cabelo oxigenado. Esta informou que naquele domicílio morava com o maquiador e seis filhos. Tres dela, um dele e outros dois, menorzinhos, em conjunto com o namorado. Informou que era atriz desde pequena e que fez a primeira ponta num comercial para pasta de dentes. Seu nome era Marynalva Souza Ferreira, mas que no formulário preferia Marylin di Mônaco.
Em seguida entrevistou a quelônia Affonsina Austragésila Clementina Teóphila Junqueira conhecida por Tatá. Negou que o apelido era uma forma carinhosa por ser uma tartaruga. O tataraneto a chamava assim. Na hora de preencher o quadradinho com a idade, duvidou quando ela disse ter 278 anos. Mulheres costumam mentir, reduzindo a idade.
– E a casa?
– Olhe para mim – mostrou um anel de diamantes – e diga se tenho cara de quem tem imóvel cedido ou alugado? É apertado, mas é meu.
– Quantos quartos? Quantos banheiros? A senhora tem televisão, geladeira e aspirador de pó?
Dona Tatá achou tudo muito indiscreto. Quando perguntada se morava sozinha, fingiu atender uma chamada ao telefone, pediu licença e terminou a conversa.
A manhã avançava rápida e ainda precisava preencher seis formulários para atender a meta diária imposta pelo IMGE.
Já começava a decorar as perguntas. Nome, idade, quantos moravam naquele domicílio? A casa tem energia elétrica? O lixo é recolhido, queimado ou jogado no mar? Tem rede de abastecimento de água ou a água vem do poço ou de algum do rio?
O próximo endereço era soturno. Ouviu latidos antes de ler a placa que avisava peixe bravo. Consultava o relógio, 12h25, quando a porta se abriu e um enorme tubarão branco abriu a porta. A fera estava com um garfo na nadadeira direita, uma faca na esquerda e um guardanapo amarrado no pescoço.
Com voz de trovão cumprimentou amistosamente:
– Veio em boa hora, amigo. Vamos entrar! Vou começar meu almoço agora.
Na fuga rápida largou o laptop e o boné caiu da cabeça.
Estas águas ainda guardarão muitos mistérios. Precisou voltar para a superfície, faltou-lhe oxigênio para terminar a pesquisa.
Projeto colunista. Correio Braziliense? Folha? Globo? Estadão? Zero Hora?A partir de hoje escreverei um conto semanal com tema originado em notícia do Correio Braziliense. Quando tiver material suficiente para avaliação os editores de diversos jornais receberão os textos para avaliar a data do meu ingresso remunerado na redação. Com 2959 caracteres, no mínimo, e 2997 no máximo, o texto sempre estará disponível antes das 18h das quartas-feiras.
06 agosto 2010
Cria da Cidade: Brincalhão das palavras
Brasília, quinta-feira, 05 de agosto de 2010
Por Sérgio Maggio
O cronista Roberto Klotz quis gravar o Cria da Cidade na Concha Acústica. O motivo: o pôr do sol deslumbrante. Chegamos lá e os portões estavam fechados. O vigilante não tinha ordem para permitir a entrada de estranhos. Já estávamos pensando em outra locação, quando o escritor de gogó afiado convenceu o rapaz da “importância cultural (e pessoal) de utilizar aquele espaço”. Pois bem: como num passe de mágica, os portões se abriram, confirmando a fama de “bom de papo” que cerca o autor de Pepino e farofa, um divertido livro de historietas cotidianas, nascidas na cozinha de sua casa.
— Nada como abrir o coração. Era muito importante para mim estar neste lugar, quero inclusive aproveitar a acústica natural na hora de recitar as minhas crônicas, revela.
E foi exatamente assim. Os bancos vazios da bela Concha Acústica serviram de caminho para ele circular espalhando palavras. O escrito de Roberto Klotz é cheio de humor e de imagens. Olha só como ele se define: “Roberto Klotz é um engenheiro que saltou do topo do prédio recém-construído e estilhaçou-se em parágrafos. Nasceu no século passado. Bem-humorado, crítico, vacinado, analfabeto, irônico, paulistanamente candango”.
Em Brasília, entrosou-se com o meio literário. Fez isso comparecendo a todos os eventos e saraus do DF. Onde tinha escritor reunido, Klotz estava lá. Se a mesa-redonda era sobre literatura, estava presente na plateia. Até que, um dia, trocou de posição. Quando viu, estava no palco a falar de suas crônicas ligeiras, que nasciam com a observação do cotidiano.
— Fui virando um escritor. O engenheiro ficou de lado, lembra.
Já no segundo livro, Quase pisei!, Roberto Klotz configura-se como um brincalhão das palavras. Essa obra nasceu porque um médico o obrigou a andar para que ele perdesse peso. “Durante as caminhadas, encontrei elefante, lâmpada mágica, cão bravo, pegadas de onça, muito cocô e 45 motivos para exercitar o bom humor em Quase pisei!”, espalha em seu irreverente release.
ANOTE AÍ
Roberto Klotz tem um blog (http://robertoklotz.blogspot.com). Lá, é possível adquirir os seus livros a R$ 28 e acompanhar os post.
Assista ao Cria da Cidade com Roberto Klotz, hoje, a partir das 17h, no Correio Notícias, com apresentação de Maria Julia Monteiro.
05 agosto 2010
História para giz no quadro-negro
Foi uma enorme alegria rever o passado na forma dos amigos da escola. No sábado meu coração foi bombardeado por quase cem abraços de saudades!
Em vez de escrever uma crônica lembrando o dia ou histórias da nossa convivência no Porto Seguro, fui mais longe um pouquinho para relembrar que o que nos une não foi apenas o convívio.
Gostaria de anotar a história com um pedaço de giz no quadro negro de uma sala de aula do colégio.
No início do século XX a Europa estava em ebulição com guerras para todos os lados. No início da Primeira Grande Guerra a minha avó, Elly Steinert, uma jovem fazendeira, teve que sair do campo para se apresentar em Berlin para prestar serviços comunitários como enfermeira. Por outro lado, Franz Skaliks, o noivo, um jovem artista plástico, também fazendeiro de Tilsit, teve que se alistar no exército. Vestiu o uniforme e foi para a frente de batalha. Em apenas uma semana foi preso pelos russos e deportado para a Sibéria. Lá, naquele país de língua estranha, o burguês, passou fome e frio. Conseguiu fugir na quinta tentativa, porém o trem, que era o único meio de transporte para sair de lá, era muito vigiado e por isso só conseguiu retornar à Prússia Oriental dois anos depois de terminada a guerra. Casou-se com a noiva esperançosa que ainda o aguardava apesar de nunca terem trocado uma única correspondência no período.
Com a Alemanha derrotada, fragilizada e humilhada, os franceses e belgas a invadiram pelo centro-oeste. Poloneses tomaram um naco do leste. E os russos invadiram o país ao norte justo onde eram as fazendas dos recém-casados.
A guerra, as invasões, o confisco de imóveis e terras, a falta de liberdade, a hiperinflação e o desemprego criaram um clima de ceticismo, incerteza, insegurança e terror na Alemanha.
Por outro lado o Brasil procurava mão-de-obra barata e qualificada para todos os setores do campo e da cidade. Propagandeava boas condições de trabalho, segurança, paz, liberdade e clima ameno, provocando e estimulando ousadias e aventuras ao desconhecido.
Em 1923, com os russos nos calcanhares, o jovem casal fugiu de Tilsit, vizinha a Königsberg, hoje Kalinigrado, para Hamburgo com a intenção de pegar um navio para a América do Sul.
É curioso lembrar que a mãe de um colega da foto de 1958 do Kindergarten (jardim de infância), Hans Jürgen Ludwig, veio da mesma cidade na mesma época.
Na fuga e insegurança, meus avós, por amor, embarcaram deixando o filhinho de dois anos de idade para trás.
No mesmo navio, Antonio Delfino, havia outro alemão, Walther Jank, avô de outra colega da mesma foto. Nem sei se ela, Renata Richter, conhece essa história.
Meus avós maternos quando chegaram a São Paulo ficaram na hospedaria Floresta, no Largo São Francisco que era dos bisavós de John Willis Mc Quade e Roberto Klotz ambos presentes na mesma foto de 58.
Dois anos mais tarde uma outra imigrante, Lyta Scherwitz trouxe o filho de volta da Alemanha, para junto dos pais. Essa mulher era parente de outros colegas da foto do quinto ano primário: Cláudia e Ingeborg Caspari.
Contei essa pequena história apenas para ilustrar que nós, que nos reunimos no sábado, depois de 40 anos de formados, não somos apenas colegas de colégio. Somos muito mais do que isso. Somos uma grande família com passado e origens semelhantes que se entrelaçaram durante décadas. Nós somos descendentes dos imigrantes que vieram até pouco antes da Segunda Guerra por isso temos histórias e origens comuns. Nossos antepassados se uniram para se fortalecer diante do desconhecido.
Nossos pais conheceram, freqüentaram, estudaram, trabalharam ou se divertiram em lugares como o Esporte Clube Germânia, o Deutscher Segel-Club e a Olinda Schule. Respectivamente Clubes Pinheiros, Iate Clube Santo Amaro e Colégio Visconde de Porto Seguro.
Moro em Brasília desde 72, desde então perdi o convívio com parentes e amigos de São Paulo. No período descobri que a distância afasta para sempre pessoas com as quais não temos afinidade ou laços mais fortes. É muito gratificante voltar a São Paulo e sentir no coração que, mesmo depois de tanto tempo, ainda guardamos tantos amigos como uma grande família.
Em vez de escrever uma crônica lembrando o dia ou histórias da nossa convivência no Porto Seguro, fui mais longe um pouquinho para relembrar que o que nos une não foi apenas o convívio.
Gostaria de anotar a história com um pedaço de giz no quadro negro de uma sala de aula do colégio.
No início do século XX a Europa estava em ebulição com guerras para todos os lados. No início da Primeira Grande Guerra a minha avó, Elly Steinert, uma jovem fazendeira, teve que sair do campo para se apresentar em Berlin para prestar serviços comunitários como enfermeira. Por outro lado, Franz Skaliks, o noivo, um jovem artista plástico, também fazendeiro de Tilsit, teve que se alistar no exército. Vestiu o uniforme e foi para a frente de batalha. Em apenas uma semana foi preso pelos russos e deportado para a Sibéria. Lá, naquele país de língua estranha, o burguês, passou fome e frio. Conseguiu fugir na quinta tentativa, porém o trem, que era o único meio de transporte para sair de lá, era muito vigiado e por isso só conseguiu retornar à Prússia Oriental dois anos depois de terminada a guerra. Casou-se com a noiva esperançosa que ainda o aguardava apesar de nunca terem trocado uma única correspondência no período.
Com a Alemanha derrotada, fragilizada e humilhada, os franceses e belgas a invadiram pelo centro-oeste. Poloneses tomaram um naco do leste. E os russos invadiram o país ao norte justo onde eram as fazendas dos recém-casados.
A guerra, as invasões, o confisco de imóveis e terras, a falta de liberdade, a hiperinflação e o desemprego criaram um clima de ceticismo, incerteza, insegurança e terror na Alemanha.
Por outro lado o Brasil procurava mão-de-obra barata e qualificada para todos os setores do campo e da cidade. Propagandeava boas condições de trabalho, segurança, paz, liberdade e clima ameno, provocando e estimulando ousadias e aventuras ao desconhecido.
Em 1923, com os russos nos calcanhares, o jovem casal fugiu de Tilsit, vizinha a Königsberg, hoje Kalinigrado, para Hamburgo com a intenção de pegar um navio para a América do Sul.
É curioso lembrar que a mãe de um colega da foto de 1958 do Kindergarten (jardim de infância), Hans Jürgen Ludwig, veio da mesma cidade na mesma época.
Na fuga e insegurança, meus avós, por amor, embarcaram deixando o filhinho de dois anos de idade para trás.
No mesmo navio, Antonio Delfino, havia outro alemão, Walther Jank, avô de outra colega da mesma foto. Nem sei se ela, Renata Richter, conhece essa história.
Meus avós maternos quando chegaram a São Paulo ficaram na hospedaria Floresta, no Largo São Francisco que era dos bisavós de John Willis Mc Quade e Roberto Klotz ambos presentes na mesma foto de 58.
Dois anos mais tarde uma outra imigrante, Lyta Scherwitz trouxe o filho de volta da Alemanha, para junto dos pais. Essa mulher era parente de outros colegas da foto do quinto ano primário: Cláudia e Ingeborg Caspari.
Contei essa pequena história apenas para ilustrar que nós, que nos reunimos no sábado, depois de 40 anos de formados, não somos apenas colegas de colégio. Somos muito mais do que isso. Somos uma grande família com passado e origens semelhantes que se entrelaçaram durante décadas. Nós somos descendentes dos imigrantes que vieram até pouco antes da Segunda Guerra por isso temos histórias e origens comuns. Nossos antepassados se uniram para se fortalecer diante do desconhecido.
Nossos pais conheceram, freqüentaram, estudaram, trabalharam ou se divertiram em lugares como o Esporte Clube Germânia, o Deutscher Segel-Club e a Olinda Schule. Respectivamente Clubes Pinheiros, Iate Clube Santo Amaro e Colégio Visconde de Porto Seguro.
Moro em Brasília desde 72, desde então perdi o convívio com parentes e amigos de São Paulo. No período descobri que a distância afasta para sempre pessoas com as quais não temos afinidade ou laços mais fortes. É muito gratificante voltar a São Paulo e sentir no coração que, mesmo depois de tanto tempo, ainda guardamos tantos amigos como uma grande família.

De pé
1 – Horst Hübbe, 2 – , 3 – Carlos Guilherme Soares dos Reis, 4 – Eric, 5 – Theodomiro Pacheco Rosenstock, 6 - , 7 - , 8 - , 9 – Kurt Dreyer, 10 – Holguer Stade, 11 – Luis London, 12 – Heinrich Kiep, 13 – John Willis McQuade, 14 - , 15 – Karin Frei, 16 – Lia Rosa Wenda, 17 – Dana Modercin, 18 – Eduardo Utescher, 19 – Sonia Gehre, 20 – Alex Welther, 21 – Ricardo Schiesser,
Sentados no banco
22 – Ingo Hoffman, 23 – Jorge Gjurekowick, 24 – João José Eder, 25 – Roberto Klotz, 26 – Fernando de Castro Freund, 27 – Walter Scharlitz, 28 – Cláudio Lothar Fatio, 29 – Francisco, 30 – Monica Selma Flues, 31 – Stephanie Pfeifer, 32 - , 33 – Renate Polisaitis, 34 - , 35 – Ruth da Silva Löwenstein, 36 – Irene Müller, 37 - , 38 – Lisa Öerberg, 39 – Maria Luzia Celeste Rodrigues, 40 - , 41 – Lia Pereira da Silva, 42 – Vera Helena Frucci, 43 – Monica Woserow, 44 – Lílian Kunze, 45 – Ricardo, 46 – Henrique
Sentados no chão
47 – Ian Peter Searby, 48 – Marcelo Villares, 49 - , 50 - , 51 – Ricardo Villares
52 – André Cláudio Bürgui, 53 - , 54 – Heidi Hause, 55 - , 56 – Hans Jürgen Ludwig, 57 – Horst Witmaack, 58 – Silvia Ferreira de Oliveira, 59 – Vivian Dreifuss, 60 – Renata Richter, 61 – Vivian Nipper, 62 – Ana Maria Stickel, 63 – Erica Vogt, 64 – Cristina Andrea Eloed, 65 - , 66 – Verena Magalhães Erismann, 67 – Maria Monica Nico, 68 – Vera Lúcia Capello
Professora Nilse à esquerda e Tante Waltraut à direita.
09 julho 2010
O carteiro, o poeta e eu

Milhares de pessoas, todos os dias, alugam filmes para ver em casa. Preparam algum petisco para comer, se abastecem de alguma bebida, acomodam-se na poltrona, sofá ou cama, escurecem o ambiente e curtem as imagens sonoras em movimento.
Ontem, apesar das semelhanças, tudo foi diferente. Alugamos um filme, estouramos o milho, nos servimos de dois copos de Coca-Cola gelada, nos deitamos no sofá, apagamos a luz, escolhemos o áudio original e legendas em português. Iniciamos a nossa sessão de domingo à tarde.
Até aí foi tudo muito igual ao que acontece em outras casas e com outras platéias. A diferença estava nos meus sentimentos.
Ainda nas primeiras imagens sobrepostas aos nomes dos principais artistas uma imensa alegria invadiu meus sentimentos. Percebi o calor do seu corpo colado ao meu. Captei desejo sussurrado com hálito de hortelã. Ofereceu-me uma pipoca explosiva e com o aconchego nos meus braços percebi que formamos um casal. Nosso filme também começou.
29 junho 2010
Elas batem um bolão

No gramado, debaixo do meu prédio, vi uma menina jogar bola, futebol. Isso já não me espanta mais. As mulheres já estão ocupando todos os espaços que eram de exclusividade masculina. Eu nunca dediquei meu tempo para observar a habilidade das mulheres no trato com a bola. Mas aquela garota merecia um olhar de admiração pela beleza e suavidade. Já a conhecia de alguns encontros dentro do elevador.
Sou do tempo em que futebol era jogo de homem. Jogo duro, muito corpo a corpo. Muita brutalidade. A bola de couro era mais pesada que hoje. Para cabecear bola molhada tinha que ser macho. Coisa comum eram as brigas em campo. As mocinhas somente iam ver alguma partida ou pelada quando havia algum namorado que estivesse jogando. Nenhum interesse no jogo. Esporte absolutamente masculino.
Os adolescentes estão misturados, meninos e meninas estão jogando juntos! A primeira coisa que me chamou a atenção foi que, da mesma forma como os garotos, ela usava um calção grande e deselegante. Naquela brincadeira de fazer gol por entre as árvores, observei que ela chutava com os dois pés e igualmente bem. Qualidade rara até entre garotos bons de bola.
Quando algum garoto chutava a bola longe do gol e a bola rolava indo parar debaixo do carro estacionado, nenhum dos rapazes se prontificava, num gesto cavalheiro, a buscar a bola. Mudança de tempos.
Fiquei boquiaberto quando em determinado momento ela pegou a bola e começou a fazer embaixadas. Eu não contei, foram mais de cinqüenta. Bola no pé, no joelho, de calcanhar, de cabeça, matada no peito. Essa menina leva jeito! Sabe tudo.
A brincadeira continuava e a vi dividindo a bola como homem. E para meu espanto, xingando como homem. É, essas mulheres definitivamente estão tomando nosso lugar, até no futebol. Pensei que já tivesse visto tudo, mas não, ela cuspiu – raichput – como um bom moleque cospe.
Agora só falta as mulheres aprenderem a coçar o saco como nós.
Sou do tempo em que futebol era jogo de homem. Jogo duro, muito corpo a corpo. Muita brutalidade. A bola de couro era mais pesada que hoje. Para cabecear bola molhada tinha que ser macho. Coisa comum eram as brigas em campo. As mocinhas somente iam ver alguma partida ou pelada quando havia algum namorado que estivesse jogando. Nenhum interesse no jogo. Esporte absolutamente masculino.
Os adolescentes estão misturados, meninos e meninas estão jogando juntos! A primeira coisa que me chamou a atenção foi que, da mesma forma como os garotos, ela usava um calção grande e deselegante. Naquela brincadeira de fazer gol por entre as árvores, observei que ela chutava com os dois pés e igualmente bem. Qualidade rara até entre garotos bons de bola.
Quando algum garoto chutava a bola longe do gol e a bola rolava indo parar debaixo do carro estacionado, nenhum dos rapazes se prontificava, num gesto cavalheiro, a buscar a bola. Mudança de tempos.
Fiquei boquiaberto quando em determinado momento ela pegou a bola e começou a fazer embaixadas. Eu não contei, foram mais de cinqüenta. Bola no pé, no joelho, de calcanhar, de cabeça, matada no peito. Essa menina leva jeito! Sabe tudo.
A brincadeira continuava e a vi dividindo a bola como homem. E para meu espanto, xingando como homem. É, essas mulheres definitivamente estão tomando nosso lugar, até no futebol. Pensei que já tivesse visto tudo, mas não, ela cuspiu – raichput – como um bom moleque cospe.
Agora só falta as mulheres aprenderem a coçar o saco como nós.
25 junho 2010
Apolo também girou

Sou robusto quando comparado aos meus colegas de trabalho. Não costumo tomar iniciativa, mas quando me dão pilha vibro com o meu ofício.
Passo os dias trancado no escuro da segunda gaveta do criado-mudo. É um lugar privilegiado para escutar o que acontece na cama ao lado. Apesar da minha origem chinesa, ouço e entendo tudo. Às vezes falo, como agora.
— O casal gay até que se entende bem para um casamento de interesses. Ele é um industriário bem sucedido e acredita que perderia o respeito se a diretoria soubesse das suas preferências sexuais. Enquanto isso, ela é descompromissada com as aparências. Tanto que, naquele dia fatídico, para atender a uma fantasia sexual da vizinha, a encontraria no banco vestindo uma ridícula roupa de faxineira. Sorte a minha fazer parte do ménage à trois. Eu estava escondido na sacola de compras.
Respiro fundo para continuar a história.
— Aquilo foi muito constrangedor. A porta giratória travou e ela teve que mostrar o que trazia na sacola. Ao contrário das outras vezes, senti a mão insegura me levantando. Ela explicou que eu era um simples massageador. Nunca fui tão humilhado! Quando estamos em momentos íntimos ela me alisa, acaricia, beija com prazer. A própria vizinha, também tão carinhosa, percebendo a falta de consideração comigo, se escondeu atrás do pilar. E o marido, aquele abobalhado, viu tudo e não me defendeu. Logo ele que me idolatra e me chama de deus grego.
Apolo era o deus da beleza, da perfeição, da harmonia do equilíbro e da razão.
Apólogo é uma narrativa em que figuram seres inanimados, dotados de palavra.
23 junho 2010
Empáfia giratória

Faltavam cinco minutos para a agência bancária fechar as portas quando a mulher curvilínea ficou presa na porta giratória.
Estava visivelmente constrangida.
Apesar do par de brincos de pérolas, da calça elegante e do nariz empinado, vestia uma blusa puída e um par de chinelos de dedo. O ridículo pano amarrado na cabeça sugeria que estivesse no meio da faxina quando lembrou de pagar o aluguel na última hora do último dia. Vestiu a primeira calça à vista e catou a cesta para uma compra depois de resolver o pagamento.
Independentemente dos sentimentos da mulher, o guarda solicitou em voz alta que a mulher mostrasse o conteúdo da sacola. Com um olhar implorou discrição. Não foi atendida. Desejou ficar invisível. Instada a mostrar o conteúdo da sacola levantou timidamente um vibrador. O vigia, muito alienado, perguntou a serventia do objeto. Uma vizinha, testemunha do fato, um tanto constrangida, esconde-se atrás de um pilar. O guarda não conseguia entender os gestos da mulher nem ouvi-la. A mulher, ainda presa na porta giratória, com o pênis elétrico na mão, teve que gritar explicações enquanto o marido saia pela outra porta giratória fingindo desconhecimento.
21 junho 2010
Pânico giratório

Antonio Carlos era sargento do exército, especialista em desarme de artefatos, bombas e explosivos. Ganhava um dinheiro extra como vigilante armado em agência bancária. Nos últimos meses estava excepcionalmente tenso devido aos três atentados à bomba em assaltos a bancos.
Aquela terça-feira era dia de pagamento. A agência estava abarrotada de clientes. Qualquer uma daquelas pessoas podia ser um assaltante. Todos eram suspeitos. Em movimentos rápidos, os olhos controlavam todas as bolsas, mochilas e pastas executivas.
A mão direita segurava o coldre do revólver desengatilhado. Um capacete de motoqueiro abandonado ao lado da garrafa térmica era mais um motivo de preocupação.
Ouviu um clique.
Virou-se assustado para a porta de entrada e viu uma mulher mal vestida, presa na porta giratória.
O detector de metais travou a mulher. A sacola na mão era duvidosa. A grife estampada não era condizente com as roupas faxineiras. Apontou a arma para a porta, recuou dois passos para se posicionar estrategicamente. Gritou para todos se deitarem no chão. Acionou o alarme estridente. Esticou o braço horizontalmente mirando a testa da mulher apavorada. A mulher levantou os dois braços e começou a chorar e soluçar em pânico.
Com a arma gesticulava pedindo para ver o conteúdo da sacola.
Ela soluçava em desespero, mas negava.
Uma cliente curiosa reconheceu a mulher como sendo sua vizinha. Com medo, se arrastou para trás de um pilar.
O militar insistiu para que a mulher mostrasse o que trazia na sacola. Com voz firme avisou que iria atirar quando a contagem chegasse ao três.
– Um!
Uma velha deitada em frente do balcão dos caixas começou a orar.
– Dois!
A mulher, num movimento lento se agachou e enfiou a mão dentro da sacola.
O sargento voltou a esticar o braço com a arma.
A mulher, tremendo, levantou um vibrador ligado.
O tiro acertou o alto da porta.
Entre gritos e cacos de vidro surgiu o marido da mulher. Tomou-lhe o pênis elétrico da mão arremessando-o ao chão detonando outra guerra.
08 junho 2010
Em frente ao Teatro Municipal

Eu estava lá, Praça Ramos de Azevedo, uma terça-feira, perto do final da tarde. Vi quando Maca chegou. Sentou-se tranquila e despreocupada na murada do chafariz. Mergulhou a mão esquerda na água dando as costas para um garoto que se aproximava empunhando um estilete. Vi tudo, mas estava longe. Ela virou-se lentamente enquanto o moleque gesticulava agitado. Maca acalmou o menino que se acomodou ao lado dela. Ela afagou a cabeça do pivete e, fazendo pente da mão, ajeitou-lhe os cabelos depois dividiu um pedaço de pão.
Não fui para encontrar Macabéa, ela simplesmente chamou a minha atenção pela postura ereta. Parecia que a moça do casaquinho preto aconchegava Deus.
Enquanto isso, um cantor famoso e lindo, desconhecido para ela. Dedilhava um violão. Quando terminou a exibição ofereceu cem reais a quem acertasse a música até a sétima nota tocada. Uma jovem sem dentes, uma barriguda de nove meses, um pretinho chapado, um office boy de gravata. Muitas tentativas frustradas.
Quando o cantor desistiu Macabéa começou a cantar. A multidão parou. Os ônibus silenciaram. Até a fumaça se abriu para as notas da moça.
Com o dinheiro na mão, procurou o garoto. O menino sumiu. Maca chorou. Eu também.
Não fui para encontrar Macabéa, ela simplesmente chamou a minha atenção pela postura ereta. Parecia que a moça do casaquinho preto aconchegava Deus.
Enquanto isso, um cantor famoso e lindo, desconhecido para ela. Dedilhava um violão. Quando terminou a exibição ofereceu cem reais a quem acertasse a música até a sétima nota tocada. Uma jovem sem dentes, uma barriguda de nove meses, um pretinho chapado, um office boy de gravata. Muitas tentativas frustradas.
Quando o cantor desistiu Macabéa começou a cantar. A multidão parou. Os ônibus silenciaram. Até a fumaça se abriu para as notas da moça.
Com o dinheiro na mão, procurou o garoto. O menino sumiu. Maca chorou. Eu também.
27 maio 2010
Unidos para sempre

Faltam três dias para o casamento. O neon vermelho pisca frenesi do lado de fora. Do lado de dentro, no quarto, penumbra, música suave e lençóis amassados. Dois corpos suados conversam sobre o futuro.
Com os olhos brilhantes, Ana Maria encara Cassiano.
– Eu te amarei por toda a minha vida. Serei fiel até a hora da minha morte.
Cassiano, sorrindo feliz, beija delicadamente os lábios de Ana Maria.
Ela puxa a mão do amado para o seio entumecido.
– Quero estar na sua vida e nos seus sonhos.
Ele se aconchega mais um pouquinho, apertando a mão.
Ela descobre parte do coprpo. – Você poderá me amar todos os dias que você quiser.
Se conheceram há seis anos. Se desentenderam e voltaram dezenas de vezes. Ela gosta de cachoeiras. Ele prefere jogar xadrez. Na cama são insaciáveis. Mais que o perfume, as palavras atiçam Cassiano.
Ana Maria cochicha no ouvido, encostando a língua provocativa.
– Sempre estarei pronta e desejosa.
Gestos assossiados a palavras excitam Cassiano.
A língua desceu até os lábios. – Sempre serei sua.
A volúpia chegou. As frases calaram. Vieram sussuros. Aconteceram gemidos. E finalmente o silêncio com um abraço apertado.
Dormiram algumas horas. O sol ofuscou o neon vermelho.
Já no carro, Cassiano perguntou para onde ela queria ir. Para o trabalho ou para a casa do noivo.
19 maio 2010
Adeus censura
13 maio 2010
O poste literato
Eu gostaria imensamente de descrevê-la em detalhes. É impossível. Poste não tem detalhes. Às vezes, alguns cartazes colados: Faço tudo – eletricista, bombeiro e pedreiro. Resultado do jogo do bicho. Ou, conheça seu futuro nos búzios da Mãe Laura. Como os cartazes nos postes, os acessórios, na roupa feminina, são fundamentais. Não tenho a menor idéia do que se passa no alto da cabeça da Mônica. Se cabos de telefone ou muita energia. Tampouco reparei se no alto há transformador ou uma lâmpada luminosa. Não vi se os cabos estão organizados, ou encaracolados.
Todas as mulheres no meu trabalho são postes. Faço questão de enxergá-las assim. A minha solteirice está convencida que se empregar com amigas do trabalho resulta em demissão por justa causa. Da mesma forma que se envolver com amigas da ex-mulher significa entrar no inferno pela porta da frente. A minha longa experiência de vida sugere que as colegas de trabalho podem ser de concreto, madeira ou metal. Jamais de carne e osso. Filé mignon, nem no melhor dos devaneios.
Tenho um amigo boêmio que tem a mesma teoria que eu. Outro dia fomos a um boteco e tomamos uísque para mais de meio metro. Na saída, trôpego, o amigo esqueceu todos os preceitos para fazer juras de amor a um poste público.
Para contar a minha história achei muito importante descrever detalhadamente quem era a personagem e qual o interesse que ela representava para mim até que, sempre existe um até que.
No final do ano, como em todas as repartições houve uma festa de confraternização. Sentamos um do lado do outro. Ela separada e eu divorciado. Tudo a favor para resultar em diálogos sedutores. Descobrimos que tínhamos as mesmas afinidades que pode ter um elefante com uma agulha. Ela contou-me que tiraria o recesso viajando com todos os parentes. Eu disse que ficaria na cidade, seria o responsável pela seção. Os olhos dela brilharam. — Jura que vai ficar em Brasília? Enchi o peito e respondi que sou muito responsável. Falei, e no exato momento em que terminei a frase, percebi que eu havia falado demais. — Que bom, encontrei alguém para regar as minhas plantinhas. Antes de me refazer do susto, ela se levantou dizendo que ligaria para mim, combinando os detalhes da minha responsabilidade.
Dois dias depois, recebo um telefonema em que ela me informou que saiu correndo de casa, já estava no aeroporto e que a chave do apê estava sob o capacho. Eu deveria regar as plantinhas ainda hoje.
Foi muito constrangedor virar a chave. Para quem eu pediria licença antes de entrar? Penetrei no apartamento. Em vez de violar, eu estava sendo violado.
Constrangido, tive olhos apenas para procurar plantas e vasos. Encontrei um papel sobre a mesa da sala com as instruções detalhadas para cada espécime a cada dois dias. Finalizava com agradecimentos e um endereço eletrônico.
Fui até a cozinha peguei uma panela e enchi de água. Segui todas as instruções detalhadamente, inclusive bombando o spray sobre elas. Confesso que tomei liberdade não concedida: verifiquei se a torneirinha do gás estava fechada. Maldito juízo.
Por causa de uma planta não relacionada enviei um e-mail perguntando se a planta entre a mesa da sala de jantar e a cozinha — aquela que parece um capim comprido verde escuro sobre umas pedras brancas — deveria e ser regada.
Ela respondeu-me que a planta que mencionada é fake... kkkkkk...é de plástico. Amore, mude as lentes dos óculos.
Quem gosta de verde é quadrúpede ruminante. Prefiro e convivo com dois quadrúpedes latidores.
Só voltei a enviar outro e-mail após a segunda rega.
“Estive em sua casa. Ao contrário da outra vez, hoje suas plantinhas nem latiram muito quando cheguei. A violeta chegou a abanar a folhinha. E a orquídea pulou no meu colo. Muito bacana. Já se afeiçoaram a mim. Aquela do pescoço comprido, perto da violeta, está muito saudosa. Chorou perguntando por você. Dei um biscoito e ela se acalmou. Before que eu esqueça, aquela planta que você chamou de fake ficou ofendidíssima. Disse que fake é a sua mãe. E até me mostrou a carteira de identidade e o CPF.”
Na minha quarta missão regadeira, eu continuava tão constrangido de entrar no apartamento alheio como se fosse a primeira vez.
Aliás, na minha primeira ida ao apartamento fiquei bem impressionado com uma planta que parecia árvore de natal, de tantas frutinhas vermelhas. Agora estava triste, cabisbaixa e com a pele amarelada. Deve ter sido a inveja de alguma das outras coleguinhas. Lançaram um olhar de seca pimenteira.
Acabei por enviar outro e-mail informando que a de brinquinhos vermelhos estava moribunda enquanto outra verde clara insistia em escalar as minhas pernas.
Ela respondeu que a pimenteira já estava batendo as botas quando saiu. Logo a substituiria por outra. Disse estranhar o comportamento da planta assanhada, uma vez que não havia nenhuma trepadeira no apartamento. Informou que já estava fechando as malas para retornar.
O dia seguinte amanheceu ventoso ameaçando tempestades. Voltei para a missão derradeira com o objetivo de verificar se havia alguma a janela aberta.
Não passou pela minha cabeça entra no dormitório. Autorizei-me a entrar no escritório. Mãos às costas, avancei sorrateiro como se estivesse abrindo correspondência alheia. Sem olhar para os lados fui direto à janela. Estava fechada. Quando me virei, meu coração acelerou subitamente ao reparar a enorme estante de livros. Um tesouro. A minha curiosidade se manifestou e desandei a ler lombadas e avançando na intimidade e conhecendo o perfil psicológico de um poste através de suas preferências literárias. Jorge Amado, Guimarães Rosa, Maquiavel, Lacan, Sarte, João Ubaldo, Carlos Eduardo Novaes, Carlos Eduardo Novaes, Carlos Eduardo Novaes, êpa! Uma coleção inteira do Novaes! Meu cronista predileto! Nunca vi algo parecido.
Na adolescência comprava o jornal só por causa das crônicas. Senti ímpetos de tocá-los, de pegá-los, de levá-los. Eu queria os livros para mim. Eu precisava possuí-los. Mônica sempre fora um poste. Agora a percebo como um semáforo que acendeu a luz verde.
Quer casar comigo?
22 abril 2010
01 abril 2010
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