12 janeiro 2011

Medo de fobia



Existem centenas de tipos de fobias, mas elas costumam causar sintomas parecidos, como falta de ar, sudorese fria, e batimentos cardíacos acelerados. Segundo especialistas, quando o problema traz para o paciente um prejuízo contínuo, é hora de procurar ajuda. Existem cerca de 300 espécies de fobias. Eis algumas: Ablutofobia – medo de tomar banho; Astrofobia – medo de trovões e raios; Catoptrofobia – medo de espelhos; Motefobia – medo de borboletas e mariposas; Somnifobia – medo de dormir. CB – Saber viver, 11/01/11



O doutor Zigmundo Froide instalou uma placa com letras douradas na porta da sala recém adquirida: PSICANALISTA especialidade medos e fobias. Entre sem bater.
Muitos médicos escolhem a especialidade em decorrência da própria vivência. É natural que alguém com inúmeros casos de câncer na família escolha ser oncólogo. Um moleque vivia engessado de tanto osso quebrado estudou e especializou-se ortopedista. Zig sempre era surrado pelos irmãos por isso mandou escrever na placa: entre sem bater.
A primeira paciente do psicanalista foi uma moça lindíssima que afirmou ter ojeriza a ratos e camundongos. O doutor apontou o divã e iniciou uma palestra sobre os malefícios, doenças, peste e raiva transmitidas pelos roedores. Por tudo isso, o medo era muito natural. Nos casos extremos de pavor a doença recebia o nome de surifobia. Após o discurso perguntou sobre a origem do problema. Perguntou se ela foi mordida por um rato quando criança.
A moça revelou que amava o hamster de estimação. O problema era com Mickey Mouse e colegas. Odiava Jerry tanto quanto o Tom. Considerava nojento um rato cozinheiro, como o Remy, de Ratatouille. Os amiguinhos de Cinderela, Bernardo e Bianca eram insuportáveis. Níquel Náusea era intragavelmente ácido. E que o mexicano Ligeirinho como seu "arriba, arriba" era repetitivo.
Dr. Zig, intempestivamente determinou que a paciente deveria liberar os gatos como Frajola, Manda-chuva, Garfield e Felix. Abriu a porta encerrando a sessão.
O paciente seguinte, um adolescente com uma enorme franja nos olhos, disse que tinha fobia a Justin Bieber, Luan Santana, Fiuk e Rick Martin. O psicanalista levantou a franja do meninão, olhou-o nos olhos.
— Seu problema é a inveja. Em seguida pediu para a secretária encaminhar outro paciente.
Entrou um sujeito manco, engruvinhado na timidez.
— Qual seu problema?
— Tenho pavor a sapatos pretos. Sou obrigado a usá-los. Fazem parte do meu uniforme.
— Compre sapatos dois números acima. Próximo.
— Doutor, não consigo pegar em dinheiro.
— Esse medo recebe o nome de misofobia. Medo de germes ambientais. O multimilionário Howard Huges sofria terrivelmente com a enfermidade. Tanto ele quanto Michael Jackson usavam luvas para se proteger do medo de tocar em dinheiro contaminado.
— Meu problema é outro. É que o dinheiro nunca chega às minhas mãos. Me arruma algum?
— Oras, não me amole. Vá trabalhar! Próximo.
— Doutor Froide?
— Sim. Qual o seu problema?
— Tenho medo de psicanalistas.
Apontou o revólver e atirou. Perguntou pelo próximo.


Outro conto inspirado em uma notícia do Correio Braziliense desta semana. A publicação no blog é sempre às quartas-feiras antes das 18 horas. Como numa coluna de jornal, o tamanho é fixo entre 2957 e 2997 caracteres.

05 janeiro 2011

Consulta a Nostradama



Depois de a prestigiada Journal of Psichology publicar um artigo no qual o pesquisador Daryl Bem, da Universidade de Cornell, afirmar que, sim, é possível predizer o futuro. Ainda argumentou: o que eu sei é que os dados que obtivemos indicam que é possível prever o futuro, mas é necessário mais investigação para explicar solidamente esse fenômeno. CB – Ciência 31/12/2011
Para tudo existe a primeira vez. A primeira sopa de espinafre, o primeiro galo na testa, o primeiro logro, a primeira transa, a primeira falha, a vigésima desculpa. Naturalmente, nem tudo acontece ao mesmo tempo e nem sempre nos lembramos da estréia de todos os fatos na nossa vida. Eu, por exemplo, não me lembro de ter encontrado com o síndico sem um pedido para aumentar a taxa de condomínio. Talvez a primeira vez nem tenha existido.
Pois o meu amigo se lembra da primeira ida a uma astróloga. Disse que na porta da frente havia um cartaz anunciando que Dona Safira predizia o futuro através da leitura de búzios, tarot ou bola de cristal. R$ 100,00 adiantados.
Jotabê é um sujeito incredulamente crédulo. Ou seja, desconfiado como roceiro quando vê uma escada rolante pela primeira vez. Vê, desconfia, examina, passa a acreditar e confiar. Aí sobe e desce como se houvesse escada rolante no galinheiro.
Tocou na campainha e uma mulher enrugada estendeu a mão cheia de anéis e ofereceu uma cadeira ao meu amigo. Este, sem dizer palavra, observou detalhadamente o ambiente multicolorido de velas e cheiros. Sentou-se na frente da mulher de vestido estampado de flores lilás e entregou uma nota verde.
– Eu quero que a senhora diga quantas moedas eu tenho no bolso da minha calça.
Ela recolheu as cartas e juntou num montinho. Fixou o olhar nos olhos de Jotabê e disse:
– O número de pratas do seu bolso reflete um ato passado que quer fazer presente. No cartaz está claro que Dona Safira prevê o futuro, não adivinha o agora. Entretanto eu antevejo que você vai tirar as moedas do bolso na primeira oportunidade.
Meu amigo colocou a mão no bolso e mostrou uma moeda do tempo do Império.
– A senhora acertou. É prata, sim. Eu vim aqui para saber do meu destino na empresa em que trabalho.
– Você ainda não faz por merecer uma promoção. – Foi a resposta rápida. – São cem reais.
– Mas a senhora nem consultou as cartas, os búzios ou a bola!
– Não é preciso. É uma resposta padrão. Nada se consegue sem esforço.
– Onde estão os búzios?
– Minha filha levou. Outra pergunta. Mais cem reais.
– Mas isso é picaretagem. A senhora não é astróloga coisa nenhuma.
– Em nenhum momento eu disse isso. Você entrou, me deu cem reais e deduziu que eu era a minha filha. Eu deduzi que ia ganhar dinheiro fácil.
Jotabê disse que se levantou, falou dois palavrões, virou as costas, saiu e bateu a porta.
Odiou-se pela nota perdida, pela moeda esquecida, pela fé abalada e principalmente por ter sido logrado com tanta estupidez.
Se as pessoas pudessem prever o futuro, ele não entraria por aquela porta, nem a primeira vez.


O Ano Novo chegou. Com ele renovam-se as energias para ser publicado numa grande mídia.
Acima, mais um conto inspirado em uma notícia do Correio Braziliense desta semana. A publicação no blog é sempre às quartas-feiras antes das 18 horas. Como numa coluna de jornal, o tamanho é fixo entre 2957 e 2997 caracteres.

29 dezembro 2010

Indulto improdutivo

Oitocentos e noventa e cinco presos serão beneficiados com a saída especial de Natal, de acordo com dados preliminares da Subsecretaria do Sistema Penitenciário (Sesipe) da Secretaria de Estado de Segurança Pública do DF (SSP-DF). Eles serão liberados amanhã, às 10h, e devem retornar 72 horas depois, ou seja, às 10h do dia 27. CB - Saidão de Natal, 23/12/2010


– Viu só, Mané, que sacanagem. Os homens de beca nem respeitam a gente. Num vai dar tempo. Vamos ter que ser muito rápidos. Não gosto de fazer as coisas assim no grito. Pá e buf!
– Num saquei.
– Tá aqui no jornal. A gente só será liberado depois da dez da matina.
– E daí?
– Tu é muito Mané mesmo. Tem que ficar enjaulado pra aprender!
– E?
– É muito pouco tempo. Tá aqui ó! As lojas fecham às cinco.
– Onde tu quer chegar?
– Se liga rapá! Até o cara achar a chave e abrir o portão vai dar meio-dia.
– Se explica logo!
– Quer que eu faça um desenho?
– Quero que seja claro!
– Tá bom! Entre sair daqui e chegar até as lojas vamos ter muito pouco tempo. E amanhã é Natal. É nossa última chance.
– Tu acha que a família vai ficar chateada se tu chegar em casa sem presente?
– Ai meu Santo Deus! Quero sair logo daqui. Não guento ficar junto dum cara burro como tu.
– Me respeita!
– Tu num percebeu ainda que o tempo tá muito curto. As lojas fecham às cinco. A gente só chega na cidade lá pelas três. São só duas horas de loja aberta. Sem escolha! É entrar na primeira e resolver a parada.
– Tu faz assim ó: escreve num papel os nomes das pessoas para quem vai comprar presente. Na dureza que a gente tá, o melhor é ir numa loja de 1,99.
– Ninguém merece!
– Acho que tua mulher vai entender. O principal é não chegar de mãos abanando. Ela vem aqui toda semana trazer conforto. Ela sabe como são as coisas aqui. Sabe que tu tá mais duro que cassetete nas costas. Vai numa loja de 1,99 e escolhe um presente bonito. Mulhé gosta de perfume. Eu se fosse tu, escolhia um com cheiro de violeta.
– Tu tá de olho na minha horta?
– De jeito nenhum. Mulher de amigo meu, pra mim é homem.
– Tu tá insinuando que minha mulher é macho?
– Não. Eu apenas disse que nem olho por mais gostosa, eu respeito.
– Tu é muito abusado!
– Deixa quieto. A gente tava falando da nossa saída do Natal. Que tu vai ter pouco tempo para chegar até a cidade, procurar uma loja e escolher presente pro seu pessoal. Tu pode comprar um cedê para dançar um forró com a tua nêga. Fácil, barato e rápido.
– Eu gosto de fazer tudo direitinho, planejado.
– Já falei. Anota num papel e pronto. Tó aqui, tem o da minha carteira de cigarros.
– Eu não acredito!
– Tu não sabe escrever? Eu anoto. Qual é o nome dos seus filhos?
– Eu quero sair logo daqui. Tu é muito ignorante. – Dirigiu-se para a grade e gritou: – Guarda! Guarda! Me tire daqui!
– Calma. Se acalma. Olha o bom comportamento. Amanhã a gente sai. Falta pouco.
– Eu lá quero comprar presente! Será que tu não percebeu ainda que as lojas tão cheias de grana e que a gente só tem umas poucas horas para fazer a féria antes das lojas fecharem?



Outro conto cheio de ironia e humor motivado por notícia publicada no Correio Braziliense nesta semana.
Sempre às quartas feiras, antes das 18 horas e com conteúdo entre 2959 e 2997 caracteres.
E daí? Daí que viso um espaço como colunista remunerado.

28 dezembro 2010

Sapos, rãs, jias, pererecas e outros familiares



Nos hospedamos em um hotel à beira de um rio. Quando escureceu todos os anuros afinaram suas gargantas e, como num enorme coro sem maestro, desafinaram e barulharam a noite. Tanto que tivemos que aumentar o volume da nossa conversa. Num determinado momento, nós dois, ao mesmo tempo, lembramos de fechar a janela. Nós co-achamos de acabar com a festa dos sapos.

22 dezembro 2010

Mona Lisa e o relógio
















Esta semana, especialistas do Conselho Nacional de Valorização do Patrimônio Cultural e Ambiental da Itália anunciaram a descoberta de um novo detalhe na pintura da Mona Lisa: letras muito pequenas, imperceptíveis a olho nu, gravadas nas pálpebras de Mona Lisa. A novidade pode resolver um dos maiores enigmas que cercam o quadro. CB – Ciência, 18/12/2010


Entra ano, sai ano, o quadro da Mona Lisa é alvo de especulações e histórias polêmicas.
Falam que o sorriso é resultado de uma gravidez ou de que havia dado à luz há pouco tempo em função do véu típico de gestantes do século XVI. Sugerem que o rosto seria um auto-retrato do pintor vestido de mulher com a alegação de que o artista seria gay. O escritor Dan Brown defendeu a tese de que o nome da retratada é um anagrama para Amon l'Isa, em referência a antigas divindades egípcias. Historiadores franceses afirmam que Napoleão Bonaparte teria se apaixonado pelo quadro e que teria mandado pendurá-lo em seus aposentos. Conforme os jornais da época, Vincezo Peruggia furtou o quadro do Louvre para repatriá-lo à Itália. Os tablóides contam como ele fazia sexo com Mona. Para se opor à unanimidade, um psicopata jogou ácido sobre ela, danificando parte inferior da obra.
A relação de histórias curiosas é longa e não cabe em um único parágrafo. Por isso respire fundo antes de recomeçar a ler outras particularidades ou indiscrições.
Estudiosos afirmam que Mona Lisa, pintada em 1506, é Lisa Gherardini, mulher de um rico comerciante de seda de Florença. Já um historiador comprova que a obra foi pintada em 1489 e que a mulher por trás do sorriso famoso é Isabel de Aragão, Duquesa de Milão. Sigmund Freud interpretou o sorriso como sendo uma atração erótica subjacente de Leonardo pela mãe.
Por tantas informações e especulações resolvi ir direto à fonte. Telefonei para Mona Lisa. Não me perguntem o número. Nem sob tortura direi.
A nossa conversa foi bastante rápida. Eu mal a entendia por não falar italiano medieval. Ela estava bem humorada e disse que que parecia que o povo não tinha mais o que fazer, que a deixassem em paz. Que adorava Léo, mas que jamais tivera um caso com ele. Que Léo além de pintor, escultor, anatomista, cientista e inventor também era piadista. Era maravilhoso posar para o iluste artista que contava anedotas enquanto enchia a tela de cores. Ele me perguntou se eu sabia a semelhança entre uma grávida e uma tartaruga com um relógio amarrado às costas. Como eu poderia saber se o relógio ainda não havia sido inventado? Ele riu, dizendo que as duas não viam a hora. Daí ele inventou o relógio, depois colocou-o numa pequena caixa, presenteou-me e pendurou-o no meu pescoço. No quadro o relógio indicava cinco horas. Hora de término da sessão. Depois ele resolveu apagar o relógio do quadro pois o mundo não estava preparado para a falta de tempo. Foi nesse clima de bom humor que pintou o meu sorriso. Apenas isso. Não há enigmas, apenas a felicidadade.
Aí, acabou a bateria do meu celular.




Orgulhosamente apresento mais um conto cheio de humor motivado por notícia publicada no Correio Braziliense nesta semana.
Sempre às quartas feiras, antes das 18 horas e com conteúdo entre 2959 e 2997 caracteres.
E daí? Daí que viso um espaço como colunista remunerado.

15 dezembro 2010

Xixi fora de hora


A literatura médica registra que entre 2% e 25% das crianças do mundo sofrem de disfunção do trato urinário inferior (DTUI). Para ter uma idéia da faixa em que o Brasil se posiciona nesse espectro, Giovana Teixeira Branco Vaz, professora da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, entrevistou 739 crianças de três escolas públicas. “O estudo apontou uma prevalência de 21,8%, ou seja, mais de um quinto delas é afetado”. CB – Saúde, 13/12/2010.

Teresa Cristina Tavares Miranda recebeu um telefonema da escola e saiu às pressas do trabalho para buscar Glorinha na escola. Glorinha chorava muito. Ela não estava com febre, nem havia sido mordida por nenhum coleguinha. Durante a aula fez xixi e se molhou toda. Deixou uma poça amarela sob sua cadeirinha azul. Não era a primeira vez que isso acontecia. Acontecia com frequência. Naquela semana era a terceira vez. E ainda era quarta-feira.
Apesar de ser loirinha de cabelos cacheados e dos olhinhos azuis, Glorinha era rejeitada por seus coleguinhas. Ninguém queria se sentar ao seu lado. Não emprestavam um lápis ou um caderno. Até Luciana, sua única amiga se afastou. Reclamavam que ela fedia a mijo.
Levaram a menina para um tratamento com um fisioterapeuta que rapidamente encontrou solução para o caso que já virava um pesadelo.
Em pouco tempo Glorinha estava totalmente recuperada. Voltou a sorrir e se relacionar bem com a turminha. Para a festa junina da escola foi escolhida para ser a noiva do casamento caipira.
Tudo parecia caminhar para um final feliz na casa da família dos Tavares Miranda. Parecia. Não foi bem assim. O xixi voltou a incomodar como uma cachoeira. Nem julgue você que o fisioterapeuta não trabalhou direito. Nem pense que a Glorinha voltou a se molhar. A história agora foi com o Pedrinho, irmão mais velho, 11 anos.
Pedrinho sempre fora problemático. Foi suspenso na escola por ter sido flagrado fumando no pátio. Um vizinho reclamou por ter visto o menino aos beijos com a filha de doze. Até o padre, tão piedoso, estava incomodado por Pedrinho insistir em chamá-lo de desinteressado sexual.
Quando estava no meio de uma reunião no trabalho, o doutor Tavares Miranda, jovem pai do Pedrinho, recebeu um telefonema da secretaria do clube dizendo que deveria procurar o diretor imediatamente por causa do xixi do Pedrinho.
Não recebeu maiores explicações. Percebeu pelo tom de indignação que o assunto era grave. Ameaçavam o filho de expulsão. Só porque fez xixi na piscina. Um absurdo!
– Todo mundo faz xixi na piscina. Homens e mulheres. Velhos e crianças. Por que Pedrinho não pode? Isso é pessoal! – Resmungou indignado.
Pegou o carro no estacionamento. Como pai, pensou em arregaçar as mangas para brigar com o diretor. Como advogado, esboçou mentalmente um processo judicial contra o abuso de autoridade.
Quando chegou ao clube nem pediu permissão. Entrou logo na sala do diretor.
– O que você tem contra o meu filho? Botando o dedo em riste. – Todos mijam na piscina!
– Mas não da torre de saltos.

Orgulhosamente apresento mais um conto cheio de humor motivado por notícia publicada no Correio Braziliense nesta semana.
Sempre às quartas feiras, antes das 18 horas e com conteúdo entre 2959 e 2997 caracteres.
E daí? Daí que viso um espaço como colunista remunerado.

08 dezembro 2010

O tubarão na história


“Uma turista alemã de 70 anos morreu ao ser atacada por um tubarão quando se banhava no Mar Vermelho, diante do hotel, no concorrido balneário egípcio de Sharm El-Sheik, um dos destinos mais procurados no Oriente Médio. Horas depois da morte da idosa alemã, as autoridades locais anunciaram a captura de dois tubarões de 2m.” CB – Mundo, 06/12/2010.


Os tubarões mordem há 450 milhões de anos.
Pois é, vou lhes contar a história de uma poderosa família de tubarões cuja dinastia está instalada desde os tempos imemoriais no Mar Vermelho.
Apenas para que você, caro leitor, tenha a noção do poder desta família, eu relembro que eles ficarm muito irritados e ameaçados quando um líder religioso, Moisés, mandou abrir uma estrada ligando as duas margens do Mar. Foram privados do mais elementar direito de liberdade. Foram impedidos de ir e vir. Sentiram-se aprisionados. Foram bloqueados. Não puderam transitar livremente no sentido Norte-Sul por um período curto, mas inesquecível. Os Tubarões reclamaram, protestaram, ameaçaram processar. Para compensar o fechamento, Moisés ofertou centenas de soldados para alimentar a corte dos tubarões.
Apesar da dispensa lotada de apetitosos soldados, precisavam se prevenir contra possíveis novas intervenções humanas. A família se organizou, juntou riquezas e estudou, durante 3000 anos, diversas possibilidades. Contrataram um francês, Ferdinand Lesseps, para abrir uma rota de fuga até o mar mais próximo, o Mar Mediterrâneo. A obra foi tão bem planejada e executada que resultou em vantagem adicional de alimentar de operários todo o clã durante uma década.
Os livros não revelam tudo por falta de pesquisa dos historiadores. Estudando os hieróglifos encontrei mais fatos curiosos.
Com a morte de Ptolomeu XIV os filhos, Ptolomeu XIV e Cleópatra herdaram juntos o trono egípcio. A encantadora Cleópatra, como todos sabem era muito bonita e costumava se enfeitar com jóias e pedras de todos os quilates. Cleópatra era conhecida por adorar jóias, poder e gatos. Só alguns poucos súditos conheciam a paixão da rainha por tubarões.
Contrariando os desejos do pai os irmãos brigavam pelo poder e Ptolo (esse era o aplelido do mano) a expulsou do reino. Ela pegou carona num navio e foi parar em Roma onde seduziu o imperador Júlio César. Voltou ao Egito com o apoio dos romanos para aniquilar o exército faraônico e destronar o irmão.
Todos, incluindo Ptolo, vivos ou mortos, foram oferecidos à familia Tubarão no mar ao leste do Egito. A parentada Tubarão se banqueteou durante meses num episódio singular. As águas verdes foram tingidas de púrpura originando o nome do Mar Vermelho.
Desde então, Cleópatra sempre servia algum escravo ou desafeto aos bichos de estima. O próprio marido jamais foi encontrado depois que ele a questionou sobre trocas de cartas e olhares com o governador Marco Antônio.
Marco Antônio se juntou a Cleópatra e governaram a porção Oriental do Império Romano sempre alimentando os tubarões a partir do balneário de Sharm El-Sheik.

Um novo conto
sempre baseado em notícia de jornal .
Sempre às quartas-feiras antes das 18h.
Sempre entre 2959 e 2997 caracteres.
Sempre com bom humor.
Como um colunista à espera de um convite para um grande jornal.

03 dezembro 2010

Quem come o ovo?



Maior que o desafio de colocar um ovo em pé é repartir um único ovo à mesa de jantar de uma família.
O solitário ovo deve ser dividido sob um telhado de zinco entre uma mulher grávida, o marido e uma filhinha esquelética.
Impossível?
Todos juntaram as mãos em oração para agradecer a generosa refeição. O ovo é de avestruz e não de codorna.

01 dezembro 2010

Que país será esse?

O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, ganhou de presente um novo cachorro de estimação. E, como não tem idéia sobre qual nome colocar no bichinho, teve uma idéia genial: chamar o povo russo para dar sugestões. Na última quarta, Putin divulgou, em comunicado no site oficial do cargo no governo russo, que aceita sugestões de internautas para batizar o cão. CB – Você sabia?, 29/11/2010


Numa certa manhã de inverno o jornal anunciava na primeira página que a colheita de trigo foi excepcional, que a vitoriosa seleção de futebol estava com novo técnico e que o inverno não seria muito rigoroso.
Na mesma manhã os muros da capital amanheceram com letras anônimas afirmando que o técnico de futebol desapareceu misteriosamente, que o pão continua ausente nas gôndolas e que a próxima estação será sempre pior.
Na escola, a criançada aprende a biografia do grande líder da nação. É relevado que o querido presidente à frente de uma equipe dinâmica é um defensor incansável do trio saúde, segurança e educação.
Nos apertados transportes coletivos – ônibus, trem ou caçamba de caminhão – tudo pode acontecer além de assaltos e assédios. Os veículos podem até chegar no horário e às vezes ir até o destino sem quebrar.
Nas fábricas, os operários, heróis da nação, trabalham apenas 14 horas diárias e recebem, a preços simbólicos e subvencionados pela pátria, uma refeição balanceada. Exatos 300 gramas.
Nos contracheques, mês a mês os números são cada vez mais expressivos. Em aumentos sucessivos crescem os números dos impostos a pagar.
Nas repartições públicas há uma coleção interminável de carimbos. Os raros funcionários que comparecem ao serviço desconhecem a finalidade dos carimbos por isso encaminham as pessoas das filas ao próximo guichê da próxima repartição.
Nos hospitais, para compensar a falta de médicos, enfermeiros e auxiliares há pacientes espalhados nas camas, corredores e até nas prateleiras vazias de remédios.
Nas prisões de segurança máxima não há assassinos nem estupradores. Não há corruptos nem corruptores. Os ocupantes das celas são homens com as línguas cortadas por ousaram inventar mentiras à respeito das ações dos mandatários do governo.
Nas covas rasas, jornalistas ou não, estão os que se rebelaram contra o sistema e pediram eleições.
Do trono dourado do palácio, o presidente discursa em rede nacional de rádio e televisão elogiando ações e a própria generosidade. Sempre solícito com o clamor popular oferece eleições para daqui a cinco anos.
Em todas as cidades o governo promove festas com discursos, música e rojões. Nas praças e avenidas o povo comemora a bondade. Releva o tempo de espera, esquece mordaças, perdoa maldades e volta a sorrir esperançoso com o fim da ditadura.
Na exata data marcada o governante-mor convoca eleições gerais. O voto não é obrigatório. Vota quem quiser.
Apresenta uma lista com seis nomes. A população vai às urnas. Após a apuração, o nome pelo escolhido pela sabedoria popular será para batizar o novo poodle presidencial.



Ainda não fui chamado para assinar contrato com A Folha, Estadão, Correio Braziliense, Zero Hora, Estado de Minas ou Globo, mas já recebi convite para ser publicado no Tagualetras de Taguatinga e A voz de Goiânia.
Todas as quartas-feiras, até as 18 horas, apresento, no meu blog, um texto com provocação originada em artigo do Correio Braziliense. O texto é limitado entre 2959 e 2997 caracteres.
Sou persistente e acredito na qualidade e constância da minha escrita. Por isto aguardo convite para ser colunista remunerado.

24 novembro 2010

Faça sua aposta

O anúncio do casamento do príncipe William – o segundo na sucessão ao trono da Grã-Bretanha – com a plebéia Kate Middleton começou a mobilizar os britânicos, que lotaram as casas de apostas para especular sobre a data e o local da cerimônia. CB – Internacional, 18/11/2010


Londonópolis é uma pequena cidade fundada por ingleses que construíram a estrada de ferro no final dos anos 1800. A cidade encravada no meio das montanhas foi esquecida nas névoas do tempo quando os governantes do país abandonaram as locomotivas. A neblina produzida pelo rio Cãmisa também impede que os habitantes vejam as horas no Tiqueaçu (tiqueaçu, é o equivalente a Big Ben em tupi).
Apesar do isolamento, a cidade se desenvolveu muito desde a revolução industrial, tanto que produz os próprios veículos automotores. E sempre quando um novo prefeito toma pose no cargo, desfila nas ruas a bordo de um possante Rollsronca.
Todos trabalham muito. A alta produtividade estimulou a adoção da semana inglesa. Nas horas de folga a população anglo descendente, quando não joga bridge, fala mal dos franceses ou se entrega aos prazeres do cultivo e da poda promovendo acirrados campeonatos de jardinagem.
Contei sobre o cenário e os costumes do local para ambientar o personagem central dessa história.
William VI, 37 anos, de porte atlético, olhos azuis, bem falante, nobre e rico. É descendente direto de William I que projetou a cidade e, apostando no sucesso do empreendimento, comprou todas as terras circunvizinhas. Empreendedor, plantou ares e hectares de chá nas encostas das montanhas. Os negócios se expandiram de tal forma que estabeleceu pontes de comércio com outras capitais e um viaduto do chá com São Paulo.
O herdeiro das fazendas mantém e incentiva o costume tradicional do chá com torrada às cinco horas. Com a elite da malandragem Londonopolitana inovou ao tomar uísque sem gelo meia hora depois para falar de negócios, cavalos, soccer e mulheres, of course.
Nesta tarde foi diferente. Os dois jornais, O Guardião e Espelho Diário anunciavam o seu casamento em letras garrafais com uma plebéia. A linda noiva de apenas 21 anos sabe tocar as músicas de Elton John ao piano, cozinha o melhor pudim yorkshire da região e sabe, como ninguém, servir a tradicional cerveja quente.
Em mais um costume herdado dos ancestrais britânicos, os tabloides também diziam que estavam abertas as apostas em torno do casamento do século. As bancas de jogo dispunham de listas e mais listas de questões apostáveis.
Quem levará as alianças? Quem serão os padrinhos?
Qual será o recheio do bolo? Chocolate, blueberries, ou strawberries?
Onde será a recepção? No Liverpool pub, no Hotel Shakespeare, na Maison Agatha Christie ou no Wimbledon Center?
Não foram abertas apostas para a cor do vestido.
Para os amigos de copo e mesa do noivo tudo isso é uma grande bobagem. Apenas outro factoide para vender jornais. A aposta mais importante é adivinhar por quantos dias após o casamento William VI se manterá fiel?



Ainda não fui chamado para assinar contrato com A Folha, Estadão, Correio Braziliense, Zero Hora, Estado de Minas ou Globo, mas já recebi convite para ser publicado no Tagualetras de Taguatinga e A voz de Goiânia.
Todas as quartas-feiras, até as 18 horas, apresento, no meu blog, um texto com provocação originada em artigo do Correio Braziliense. O texto é limitado entre 2959 e 2997 caracteres.
Sou persistente e acredito na qualidade e constância da minha escrita. Por isto aguardo convite para ser colunista remunerado.

17 novembro 2010

O cantor de intervalos


Uma agressão inusitada em Ribeirão Preto, cidade do interior paulista, a 300km de São Paulo. Jefferson Fabiano Ferreira Correa, 28 anos teve a boca grudada com cola instantânea na manhã de ontem. Ele foi atendido no Pronto-Socorro Central da cidade para descolar os lábios. CB – Brasil, 17/11/2010



João Tatu era um sujeito grande. Muito grande. Tão grande que as camisas eram GGGG. Pedia a uma costureira para confeccionar camisas especiais.
– Dona Maria quanto eu compro de tecido?
– Dois hectares devem ser suficientes.
Os dois hectares de pano mal cobriam a tatuagem tribal nas costas. Um casal de elefantes fazendo amor, uma girafa colhendo uma fruta, um leão brigando com um tigre, um leopardo correndo atrás de uma gazela. Enfim, se eu descrevesse todo o cenário ambientado na savana africana eu escreveria um livro de 600 páginas.
É certo que a cortina cobria as costas, porém alguma parte dos braços, pernas ou pescoço ficavam à vista tornando-o um outdoor vivo. Impossível passar despercebido numa multidão.
Naturalmente, João recebeu o apelido por causa das diversas tatuagens em todo o corpo e não porque se escondia debaixo da cama, enquanto era possível, quando sentia medo.
Um dos prazeres de João Tatu era frequentar bares com música ao vivo. Todos os fins de semana escolhia algum. Sentava-se sozinho numa mesa próxima do cantor e na hora do intervalo levantava-se, se encaminhava ao palco, ajeitava o microfone e sem nenhum constrangimento, atacava uma canção no mesmo estilo do artista oficial. Sabia todas as letras de todos os sambas, boleros, MPB, rock nacional e internacional. Com ele não existia preconceito contra música sertaneja, pagode ou ópera. Cantava de tudo. Cantava de tudo sem acompanhamento. À capela.
Cantava sem acompanhamento porque era muito ruim. Não havia piano, violão, guitarra ou saxofone que acompanhasse suas notas fora de tom. Via de regra desligavam a energia do microfone e João retornava cabisbaixo para seu lugar.
João, bom brasileiro, não desistia. Procurava outro bar e pacientemente cavava a vez de subir ao palco. Às vezes até pedia. Quando atendido, inventavam uma desculpa qualquer limitando a cantoria a apenas uma rápida exibição.
Apesar de eternamente rejeitado sentia-se o rei da voz. Dizia que faltava apenas a sorte de ser reconhecido por algum grande empresário e ter a carreira alavancada para o mundo.
Começou a procurar casas noturnas maiores, com mais freqüentadores. A história se repetia. Após rápida apresentação era convidado a se retirar. A insistência transformou os delicados convites para retirada em expulsões. João tornou-se conhecido não pela voz, mas pela inconveniência.
Numa noite de lua minguante João Tatu, apesar do tamanho, driblou os leões de chácara da cantina italiana vizinha e empunhou o microfone.
Precisou fugir após os xingamentos e objetos arremessados. Os furiosos seguranças seguiram o desafinado até em casa.
Encontraram-no sob a mesa da sala e colaram-lhe a boca com cola instantânea.



Ainda não fui chamado para assinar contrato com A Folha, Estadão, Correio Braziliense, Zero Hora, Estado de Minas ou Globo, mas já recebi convite para ser publicado no Tagualetras de Taguatinga e A voz de Goiânia.
Todas as quartas-feiras, até as 18 horas, apresento, no meu blog, um texto com provocação originada em artigo do Correio Braziliense. O texto é limitado entre 2959 e 2997 caracteres.
Por que? Porque aguardo convite de algum deles para ser colunista remunerado.

16 novembro 2010

Quando eu morri

Levei três tiros antes mesmo do amanhecer. O primeiro, por trás, na nuca, base do pescoço.
Uma rosa de sangue sujou meu colarinho. Procurei olhar no espelho, mas não enxerguei nada. Eu me sentia bem, anotei o endereço peguei o carro e fui para a casa. Desconhecidos me vestiram um pijama e pediram que eu fosse para a varanda. Mandaram que eu me deitasse no chão. Levei os outros dois tiros. Foram nas costas. Entre as costelas, na altura dos pulmões.
O sangue do pescoço já estava escuro e um enorme e pavoroso hematoma assinalava a violência sofrida. Agora o sangue saía também por dois buracos do meu pijama. O líquido, que imaginei ser quente, escorria gelado pelas costas manchando o piso empoeirado.
A varanda era enorme, talvez uns trezentos metros quadrados. Churrasqueira, bar. Os banheiros masculino e feminino serviam também de apoio para a piscina e para a sauna. A varanda era o cenário perfeito para grandes festas com políticos, jogadores de futebol, modelos e colunistas sociais disputarem espaços e champanhes. Deduzi que a mesa espelhada fosse o suporte para fileiras do pó da alegria. Ao lado da varanda havia um enorme jardim assinado por um paisagista renomado. Observei que, apesar do sol já estar no alto, as luzes do gramado permaneciam acesas.
É muito desconfortável morrer num chão duro e sob um sol escaldante.
A ambulância estacionou no meio do jardim. O carro da perícia também parou no gramado da casa desenhando trilhas de pneus na grama japonesa. As luzes estroboscópicas em cima da viatura anunciavam o fim da festa. Em vez de DJ, o rádio berrava palavrões do delegado.
Os policiais e os paramédicos não deram a mínima importância. Ninguém veio verificar meu pulso.
Minha mulher também levou três tiros e agora, ao invés da cama, dividia o mesmo granito quente e empoeirado. Estava a um metro e meio de mim. O rosto inchado pela bala estampada na têmpora direita a deixava pavorosamente irreconhecível. Os olhos azuis contrastavam com o violeta da pele. Os cabelos loiros e cheirosos estavam empapados de sangue endurecido. Mesmo estirada, ela continuava sensual naquela camisola de seda branca maculada de púrpura brutal. Parecia lançar moda de horror.
O nosso filho estava junto de nós, eterno egoísta, tinha sua própria poça de sangue, resultado de três tiros no peito e um na testa. Nossa família, sempre unida, estava agora, sujando um pequeno espaço do piso da varanda.
Ficar naquela posição defunta era muito desconfortável.
Perguntei para minha esposa se ela estava pronta para ser colocada no saco preto e ser lacrada com um zíper. Como sempre, não respondeu.
Minha posição, deitado de lado, não permitia um bom ângulo de visão. Além disso, não sabia onde foram parar meus óculos. No máximo, via os sapatos daqueles que nos rodeavam. Muitos sapatos diferentes.
O sol de meio-dia esturricava nossa pele. O suor se misturou ao sangue. Estávamos sem protetor solar.
Um moço de tênis cotelê verde providenciou três guarda-sóis. O alívio foi imediato. Desejei que aquele moço fosse um eunuco e então providenciasse ventinho com um enorme abano de plumas.
Meus sentidos estavam prejudicados. Mesmo assim pude ouvir um sabiá assobiando docemente numa amoreira no fundo do jardim. Aprendi que a morte é lírica e acompanhada de canto de passarinhos.
Apareceu uma sandália havaiana. A dona se abaixou e perguntou se eu queria uma água de coco.
Respondi, irônico, que naquela posição só poderia tomar água de coco se me arrumasse um canudinho. A sandália não voltou mais.
Dizem que o sangue é doce. E eu acreditei. As formigas começaram a fazer fila indiana nas minhas costas.
Um par de sapatos pretos com solado grosso se aproximou e começou a me fotografar. Os flashes pipocavam e minhas pupilas acusavam o incômodo.
– Puxa, quando será vão me deixar em paz? – resmunguei baixinho.
Atrás de mim ouvi um diálogo:
– São só esses três?
– Não. Tem mais um ali, na ambulância.
Eu reconheci aquelas vozes: Selton Mello e Carlos Alberto Riccelli.
Então a morte é lírica com canto de passarinhos e vozes de atores globais. Concluo que morrer pode ser interessante.
O par de sapatos pretos com solado grosso retornou e voltou a pipocar flashes. As vozes de Selton e Riccelli repetiram o mesmo diálogo mais umas três vezes.
Morrer pode ser interessante, mas muito repetitivo.
Agora apareceu um sapato marrom. O dono do sapato se abaixou e com uma fita crepe marcou no chão a minha posição. Quando os contornos estavam assinalados ordenou:
– Preste bem atenção para retomar sua posição depois. Agora os atores vão descansar e depois retomaremos a filmagem no mesmo ponto. E cuidado para não melar a casa com a gelatina vermelha.

10 novembro 2010

Um dedo no passado


“Vinte e nove mil anos depois da extinção do homem de Neandertal, o Homo sapiens começa a fazer descobertas reveladoras sobre o estilo de vida desse primo distante. Uma delas, publicada ontem pelo Journal Prociedings of the British Royal Society, acaba de descrever um atributo até então desconhecido, dos abrutalhados homens das cavernas: sua intensa atividade sexual. E para chegar a essa conclusão, os pesquisadores se basearam no comprimento do dedo de fósseis encontrados, que segundo especialistas, pode indicar promiscuidade.” CB – Ciência 4/11/2010

O mulherio se atirava aos pés de Joe. As garotas tinham orgasmos múltiplos ao vê-lo desenvolver passos dificílimos nas pistas de dança calçando enormes sapatos número 46. Joe Louis era o ídolo e fazia o maior sucesso entre as mocinhas do colégio. Tocava violão, cantava as músicas do momento, penteava os cabelos com brilhantina, tomava cuba libre com limão e esnobava com a lambreta vermelha. Um dia descobriram que o sucesso dele era resultado de apurado marketing. O nome fictício escondia o verdadeiro João Luís que calçava 38.
A propaganda ocorria porque o rei do Rock and roll, Elvis Presley, era vivo e enlouquecia as fãs com Love me tender. Nomes e palavras em inglês arrepiavam até os cabelos da nuca das mocinhas estudantes nos internatos. Entre elas também corria a lenda de que o tamanho do pé masculino era proporcional ao membro reprodutor.
Pois a professora de música do Elvis, Dona Carlota Beatriz, era facilmente reconhecível. Usava uma anágua por debaixo da saia, coque nos cabelos prateados e blusa de bordadinhos fechada no pescoço com um broche de ametista. Como professora de piano das antigas era adepta da palmatória. Rigorosíssima na hora de escolher os alunos. Obrigava-os a longas sessões para verificar a habilidade motora de ambas as mãos. Os escolhidos eram sempre os alunos com os dedos mais longos. Diz outra lenda que ela iniciou o menino Elvis também na música. Os tempos eram outros e as crenças também.
Num passado um pouco mais distante, e isso não é lenda, os homens peludos guerreavam com outras tribos para garantir territórios visando a colheita de laranjofructus e fitobananus além da caça de boissauros, porcodontes e galinoraptores. O resultado das investidas no campo era assado em festivos churrascos. Era também o momento em que as fêmeas escolhiam seus parceiros.
Os candidatos se esforçavam ao máximo para chamar a atenção: assobiavam como sabiácus, uivavam como lúpusrex, cantavam imitando curióterix. Os dotes artísticos eram mostrados exaustivamente numa festa que adentrava a noite até que finalmente acontecia o clímax com a dança dos estalactites.
Os homens num ritmo sensual levantavam as mãos espalmadas o mais alto possível procurando tocar os inalcançáveis estalactites das cavernas. As mulheres se excitavam e rapidamente selecionavam um parceiro. Confirmavam a escolha colocando um anel no dedo maior.
Qualquer semelhança com os dias atuais não é mera coincidência.


Conto ou crônica? Artigo? Quem sabe? Pois este texto, como os 13 anteriores, tampouco foi publicado em periódico graúdo. O autor aguarda chamamento para produção semanal remunerada a partir de notícia de jornal. Este é o 14.o texto seqüencial composto com número limitado de caracteres.

03 novembro 2010

A bomba de Darwin


“As Ilhas Galápagos, famosas por serem local de estudo do biólogo Charles Darwin (1809-1882), autor da Teoria da Evolução, foram palco de uma nova descoberta na última quarta. De acordo com o governo local, pescadores encontraram uma dúzia de bombas cuja origem data da Segunda Guerra Mundial.” CB – Você sabia... 01/11/2010.




O inglês, visivelmente emocionado, anotou a data no diário de viagem: quarta-feira, 27 de outubro de 2010. Enquanto lembranças adolescentes embalavam sonhos, anotou em letras garrafais o desembarque na Ilha de Galápagos. Ainda se lembrava da voz rouca do professor de história natural quando explicava a Teoria da Evolução das Espécies em que tudo se desenvolve de forma diferente de outros locais para sobreviver em determinadas condições do meio ambiente.
Darwin observara que o arquipélago isolado era um laboratório fantástico. O mesmo passarinho se desenvolvera de forma diferente em cada ilha em função dos predadores naturais e da alimentação disponível. Já o professor do nosso personagem dizia que em um lugar as cotovias eram brancas noutro eram amarelas. O bico era maior em algumas ilhas do que em outras. E que não havia uma única cotovia na ilha habitada por gatos selvagens, pois evoluíram para uma espécie de pit bull.
No escaler, a caminho do ancoradouro, lembrava as aulas animadas em que o mestre explicava como as tartarugas gigantes de Darwin subiram nas árvores, transformaram-se em macacos, evoluíram, desceram e passaram a se alimentar em restaurantes.
No mesmo instante em que chegava ao cais, encostava um barco pesqueiro com artefatos estranhos. Eram bombas remanescentes da Segunda Guerra. Os ilhéus as desembarcaram transportando-as como se fossem brinquedos inofensivos. O inglês identificou o perigo apontando a parte de trás com a placa metálica onde se lia “10 megatons, made in USA”.
Os pescadores evoluídos tranqüilizaram-no num inglês britânico, digno de doutor da universidade de Cambridge, que aquelas bombas estavam enterradas no mínimo há 60 anos em solo Galapagalês, um ambiente diferente daquele de onde haviam sido fabricadas, portanto se modificaram com o tempo.
O inglês se apavorou imaginando que ao invés das 10 megatons a bomba poderia evoluído para uma bomba atômica.
Atabalhoadamente puxou um revólver e mandou que pousassem a bomba suavemente no chão. No mesmo instante um dos pescadores puxou de uma faca e os outros deixaram a bomba cair. Pacífico, o pescador mostrou a faca: era uma faca cega e sem ponta. Disse que a ilha era de paz, que ali ninguém ameaçava ninguém, que as facas evoluíram, que não precisavam cortar nem furar. O inglês guardou a arma.
Com calma, o pescador, começou a cutucar o detonador e nada aconteceu. Virou a faca e, com o cabo, martelou o detonador.
O inglês, desesperado, começou a se afastar de costas sem tirar o olho da bomba enquanto o marujo martelava.
Tanto bateu que a bomba explodiu num enorme festival de fogos de artifício.
No céu formou-se a palavra “peace”.


Este conto também não foi publicado no Estadão, Globo, Folha, Zero Hora, Estado de Minas ou Correio Braziliense. Nem em lugar algum. Pudera! Só agora estou colocando à disposição.
O texto da próxima semana poderá estar. Basta me contratar para escrever um conto semanal como este que é resultante de notícia publicada nesta semana no Correio Braziliense.
Os textos limitados entre 2958 e 2997 caracteres estarão no blog todas as quartas-feiras antes da 18h.

27 outubro 2010

Presidiários de paladar apurado

“Uma pesquisa feita por cientistas da Universidade de Manchester pode explicar uma questão que existe desde que o homem começou a voar: “Por que a comida servida nos aviões é tão ruim?”. Segundo o estudo, publicado na revista científica Food Quality and Preference, o barulho do ambiente pode interferir na percepção do sabor e textura dos alimentos.” - Você sabia... - CB 25/10/2010


Todos os dias, invariavelmente, a fila era enorme no almoço ou jantar. Para enfrentar a meia hora de espera discutiam futebol, ofendiam o diretor e praguejavam sobre a comida. Mas estavam lá no dia seguinte e no outro e no outro, mês a mês, anos a fio. Quando chegavam ao balcão estendiam um bandejão metálico onde lhes despejavam duas colheradas de arroz, outra de purê de batatas, duas conchas de feijão, alguma verdura molenga e um objeto que chamavam de carne. Às vezes uma laranja ou uma banana.
As enormes fileiras de mesas pregadas ao chão eram disputadas por dois mil homens que arrastavam cadeiras para sentar. As paredes refletiam o som dos cinco aparelhos de televisão espalhados nos cantos do refeitório. A escolha do local não era voluntária. Não dispunham de outro endereço ou opção. Os homens eram prisioneiros da comida da casa de detenção.
Continuamente insatisfeitos estavam sempre reclamando. Diziam que o leite estava azedo. Reclamavam do arroz empapado, lamentavam as verduras podres. Afirmavam que nem a pimenta disfarçava o péssimo gosto da comida. Resmungavam a ausência de frutas. Queixavam-se que a carne era pouca porque já não havia gatos na região. Nem ratos. Eram perpétuos insatisfeitos com o paladar da intragável comida.
Ao contrário da eterna rotina de reclamações, protestaram escandalosamente numa quarta-feira. A multidão estava irada. Homens socavam as mesas, batiam canecas e gritavam palavras de ordem por comida melhor. O barulho no refeitório estava ensurdecedor. Era impossível ouvir o noticiário na televisão que sempre estava no volume máximo. Os prisioneiros pareciam animais irracionais rejeitando a velha ração de marca suspeita.
Só jatos de água fria acalmaram a balbúrdia e no mesmo dia o diretor convocou o responsável pela cozinha exigindo um relatório detalhado sobre a situação.
Para se isentar de qualquer culpa ou até eventuais suspeitas da qualidade dos banquetes oferecidos aos cidadãos enclausurados, o chefe da cozinha, com números e gráficos, relatou e comprovou que a comida era balanceada e oferecia todos os nutrientes, calorias e vitaminas recomendadas pelas rigorosas normas internacionais. O autodenominado mestre-cuca, que advogava melhor que um causídico diplomado e juramentado, para se isentar das acusações anexou ao relatório um estudo científico que afirmava que o barulho do ambiente interferia na percepção do sabor e textura dos alimentos. Desta forma desembaraçou-se de incriminações e transferiu a culpa à deficiência no sistema carcerário. Finalizou o documento sugerindo a aquisição de protetores auriculares aos detentos na hora das refeições.


Este conto também não foi publicado no Estadão, Globo, Folha, Zero Hora, Estado de Minas ou Correio Braziliense. Nem em lugar algum. Pudera! Só agora estou colocando à disposição.
O texto da próxima semana poderá estar. Basta me contratar para escrever um conto semanal como este que é resultante de notícia publicada nesta semana no Correio Braziliense.
Os textos limitados entre 2958 e 2997 caracteres estarão no blog todas as quartas-feiras antes da 18h.

20 outubro 2010

Feliz aniversário, rainha

“Em tempos de austeridade econômica, a rainha Elizabeth II cancelou a festa de Natal que oferece a cada dois anos para os funcionários do Palácio de Buckingham. A comemoração, marcada para 13 de dezembro, permite que os cerca de 600 empregados confraternizem com a família real em uma situação mais informal.” CB – Mundo 15/10/2010.

Era uma vez um castelo onde vivia um rei muito bonzinho. A sua esposa, a rainha, era muito má. Sempre que ia a um aniversário de criança estourava os balões assim que chegava. Não satisfeita, mesmo antes da hora de cantar o parabéns comia vários brigadeiros. Só a convidavam por retribuição às festas que Sua Alteza promovia. E o rei gostava de festança.
Quase todos os meses a majestade inventava motivo para festejar. Na chegada da primavera todos os convidados recebiam flores e o castelo ficava perfumado. Na Páscoa, crianças e adultos procuravam ovos de chocolate escondidos nos jardins do palácio. No verão o rei permitia que tomassem banho no lago que ficava ao redor do castelo. Os empregados levavam as crianças para andar nos pedalinhos. Garçons ofereciam cerveja para os homens, fatias de bolo para as mulheres e taças de sorvete de chocolate para a criançada. Às vezes o rei inventava corrida de bicicleta. Outras, fazia concurso para ver quem pintava o quadro mais bonito. Havia jogo de futebol, gente pulando corda ou brincando de bambolê.
A rainha era a maior estraga prazeres sempre estava de mau humor e resmungava muito. Quando uma criança barulhenta estava por perto acertava uma bengalada na cabeça.
Numa tarde quando os pais e seus filhos empinavam pipas a rainha apareceu com uma enorme tesoura na mão. Foi um deus-nos-acuda. Ela corria com a tesoura na mão abrindo e fechando as lâminas de forma ameaçadora. Parecia uma bruxa. Antes que conseguissem recolher a pipa a tesoura cortava a linha. Era choro de um lado e gargalhada do outro.
O rei adorava crianças, mas não teve nenhum filho para chamá-lo de príncipe herdeiro por isso fazia grandes noites de Natal. Ele mesmo vestia uma roupa vermelha, colocava uma barba de algodão e distribuía bolas, bicicletas e bonecas. Muitos presentes. Presentes para todos os pequenos do reino. Nestas noites a rainha sempre ficava emburrada e atrapalhava o coro ao cantar Noite feliz. Precisava acabar com a alegria.
Um dia reuniu-se com o ministro das finanças, alegou excesso de despesas. Para cortar gastos decretou o fim do Natal.
Toda a população ficou muito triste. Adeus peru e pernil. Adeus vinho e refrigerante. Adeus panetone e rabanadas reais. Adeus presentes. Adeus alegria e confraternização.
Mas o rei que era muito esperto e gostava de festas não se deixou abater. Dois dias depois mandou publicar outra lei que dizia que a partir da publicação a rainha faria aniversário todos os meses. Assim festejou muitas vezes o rápido envelhecimento da rainha que logo logo foi para o beleléu.
E o reino voltou a ser feliz para sempre.
Moral da história: quem com festa fere com festa será ferido.


Conto infantil não publicado na Folha nem no Estadão. Tampouco no Zero Hora ou Correio Braziliense. Poderia ter sido no Estado de Minas ou no Globo. Por enquanto só no blog.
Décimo primeiro publicado semanalmente, sempre às quartas, com tamanho pré determinado de caracteres e provocação resultante de artigo publicado no Correio Braziliense. Mostro o trabalho visando convite remunerado para ser colunista em grande jornal.





Imagem: Castelo de Mespelbrunn

13 outubro 2010

Greve do cão


“Lambidas de cachorro podem parecer carinho, mas na verdade são apenas uma forma que os animais têm de identificar por onde o dono andou, diz a pesquisa norte-americaana. Como são animais com muita sensibilidade a cheiros e sabores, os cães fazem a festa, experimentando novas sensações quando seus donos voltam da rua.” CB – Ciência 09/10/2010.

Todos estavam tensos. Nervosos. Temiam a presença de espiões entre eles. Ao entrarem no austero prédio foram vasculhados minunciosamente e sequer uma pulga foi encontrada.
Civilizadamente caminharam sobre o piso de granito de Assuã – o mesmo das pirâmidas egípcias – admirando as pinturas dos mestres Boticelli e Donatello do renascimento florentino, para se acomodarem na mesa de jacarandá doada por Rui Barbosa. Estava reunida em Haia, na Holanda, a cúpula dos cães farejadores do planeta. Era uma quarta-feira.
O artigo publicado nos jornais mundo afora encimava a pauta da reunião extraordinária.
A mesa redonda distribui o poder de forma equilibrada entre os presentes. O pastor alemão Lutero representa os farejadores de palavrões nos livros escolares. O labrador golden retriver Strongnose é o diretor de operaçãoe especias nos aeroportos da costa oeste dos Estados Unidos. É capaz de identificar a cidade de origem de qualquer americano pelo cheiro do chiclete. Batalão, é um premiado vira-latas da Rocinha: localizou um torcedor do América em dia de Maracanã lotado. Talmud é policial reformado do exército. Se aposentou antes de encontrar a paz no terrítório israelense. O mastiff Eticus nascido em Roma, é especialista em fungar políticos. Em doze anos de serviço foi capaz de localizar dois honestos.
Com o austrero cenário descrito, alguns personagens apresentados e o microfone do tradutor simultâneo desligado para evitar gravações, deu-se início à reunião.
Todos rosnaram simultaneamente.
– É um absurdo o que fazem conosco. Temos que dar um basta nesta situação abusiva.
– Exigimos o máximo de oito horas de trabalhos diárias.
– Precisamos de descanso semanal.
– Chega de ração. Exigimos comida decente.
– Também temos direito à sobremesa.
– Chega de banhos em quartos de empregada. Precisamos de banheiras com hidromassagem.
Apenas o sindicalista Arnoldo estava quieto no seu lugar. No momento certo latiu mais alto, silenciou todos. O pitbull conhecido por seu temperamento agressivo e apelido de Exterminador afirmou que precisavam de uma proposta única. Consequentemente todas as reinvindicações foram anotadas e por unanimidade foi votada e aprovada que iriam exigir o direito de lamber e cheirar bifes de filé minhão.
E agora sim, Arnoldo, com sua larga experiência apresentou a grande arma secreta, o único meio de persuadir os homens a terem boa vontade. Uma greve.
- Todos, até o cachorro do cafezinho, latiram em coro: Unidos unidos jamais seremos vencidos; unidos unidos jamais seremos vencidos.
Foi deflagrada a greve por tempo indeterminado. A partir do dia seguinte todos os cães da face da terra deixariam de abanar o rabo.



Conto não publicado em jornal. Nem Folha de São Paulo, nem Globo. Tampouco Zero Hora, Correio Braziliense ou Estado de Minas.
Décimo texto semanal consecutivo baseado em notícia publicada no Correio Braziliense. Aguardo convite para assinar contrato oficial de colunista.
Todos os textos tem tamanho pré definido (entre 2.959 e 2997 caracteres) , data (sempre às quartas-feiras) e hora (até 18h) para publicação no blog.

06 outubro 2010

Gato rosa choque

“Já imaginou encontrar um gato cor-de-rosa andando pela rua? Foi o que os moradores de Swindon, Reino Unido, viram na última semana. O animal foi levado para uma veterinária, que chegou a lavá-lo para remover a tinta, mas não conseguiu. O responsável pelo abuso? A própria dona do felino, Natasha Gregory. 22anos”. CB – Você sabia... 04/10/2010

Romário Dantas Albuquerque e Silva é um gato com árvore genealógica nobérrima. Nos tempos do Império, sua trisavó miava em colo de condessa e mastigava perdiz francesa. De geração em geração os tempos mudaram. Acrescentarem Silva ao sobrenome. Em vez de doutor Romário, chamam-no simplesmente Romrom. Para piorar a situação a dona pintou-o cor-de-rosa.
Os amigos do beco riem e caçoam do rosado Romrom. As fêmeas o desprezam. O rei do pedaço virou princesa.
Mas o felino esperto, conhecedor das leis e dos seus direitos digitou um longo ofício e, com o pelo ouriçado, dirigiu-se ao Juizado Especial de Pequenas Causas.
Solicitou indenização por danos morais. Sua honra fora ofendida. Fora posto em situações vexatórias. Afirmava-se constrangido, humilhado, ultrajado, vilipendiado, aviltado, rebaixado e outros ados que não valia a pena relacionar. Além dos danos morais exigiu indenização por danos materiais. Questionou se sabem quanto cobra um coiffer de shopping center. Primeiro descolorir, depois reidratar. Pintar novamente. Ainda é preciso fazer escova progressiva. Perguntou pela reconstituição do desenho da mancha peitoral. Garantiu ser a característica que identifica a família a séculos. Jamais será o mesmo Romário. Foi descaracterizado. Acredita que nem em duzentas sessões de psicoterapia recuperará a auto-estima. Em vez de caminhar nas cumeeiras dos telhados passou a rastejar junto aos rodapés.
Quando se esgueirava pelos cantos observou sua foto estampada nas revistas expostas nas bancas de jornal. Estava em todos os exemplares. Jornais sérios e revistas fofoqueiros. Elitistas e populares. Sempre ele, com a detestável cor pink. Colocou-se de pé, apoiado apenas nas patas traseiras para enxergar melhor. Lembrou-se da entrevista que dera a um jornalista. Informou idade. Escondeu a identidade. Deixou-se fotografar somente após muita insistência. E um pratinho de leite gelado sobre uma nota de cem dólares.
Antes de ler todas as manchetes foi cercado por uma legião de adoradores e meia dúzia de repórteres caçadores.
– É verdade que já tentou o suicídio?
– Mais uma foto só para garantir?
– Você vai à reunião do seu fã clube?
– Qual a marca da sua escova de dentes?
– Para onde você vai viajar quando ganhar a indenização?
– Me dá um autógrafo?
– Qual a mensagem que o senhor gostaria de dizer sobre as sociedades mais atrasadas que fazem churrasquinho de gato?
– É verdade que a sua dona o deixava trancada no quarto?
– Quantas bonecas tem sua coleção de Barbies?
Romrom estava acuado com todo aquele assédio. Só não recuou diante de outra pergunta.
– Porque todo esse ódio à sua dona?
– Minha cor predileta sempre foi azul turquesa.







Conto não publicado em jornal. Nem Folha de São Paulo, nem Globo. Tampouco Zero Hora, Correio Braziliense ou Estado de Minas.
Nono texto semanal consecutivo inspirado em notícia publicada no Correio Braziliense. Aguardo convite para assinar contrato oficial de colunista.
Todos os textos tem tamanho pré definido, dia e hora limite para publicação no blog.

29 setembro 2010

Mexiriqueiro


Meu analisador estatístico é para lá de enxerido. E fofoqueiro.
Disse para mim, que além dos brasileiros, recebo visita das estranjas. Dedurou que nos últimos 30 dias só de Portugal recebi 15 visitas. Lisboa(4), Portimão(2), Porto(2), Amadora, São João da Madeira, Pombal, Setúbal, Espinho,Vila do Conde e outro município não identificado. Entregou que dois leitores de Luanda, em Angola, também me visitaram.
Pressupôs que um que um leitor de Fresno, na Califórnia se viciou nos meus textos. Disse que percorreu meu blog durante 47 longos minutos. – Vai gostar assim lá no meu blog!
O analisador ainda relacionou 77 municípios brasileiros onde há leitores. Em número de acessos Brasília está em primeiro lugar seguido de perto por São Paulo. Isso é o que dá ter amigos aqui e acolá!
E você, de onde é?

Dinossauros exibem multichifres


“Escavações em uma remota região do sul do estado norte-americano de Utah descobrem série de dinossauros com vários ornamentos na cabeça. Os chifres serviam não só para luta com outros animais, mas como forma de atração para as fêmeas.” CB – Ciência 25/09/2010

Kosmoceratops Richardsoni com seus 15 chifres e Utahceratops Gettyi com seus cinco cornos revezavam-se frente a um espelho do shopping center. O espelho era muito pequeno para os dois simultaneamente.
Utah, o menorzinho, media 3 metros de orelha a orelha. Admirava as próprias guampas. Virava-se para a direita, depois para a esquerda. Meio de ladinho, empinava um chifre de cada vez, sentindo-se o rei do pedaço. Pensava seriamente em pintar um de cada cor. Estava cansado do mesmo tom de azul. Kosmo sugeria passar na Adelaide, a chifrecure do terceiro piso. Foi ela que lhe sugeriu o amarelo por transmitir calor, luz e descontração.
Kosmo e Utah, bons dinossauros que são, carimbam protocolos na mesma repartição. Aos sábados de manhã jogam futebol e sábados à noite se esbaldam num pagode.
Quando o sol se põe, vaidosíssimos, experimentam meia dúzia de camisas. Calça justa de cintura baixa. Cinto com fivelão. Combinam a meia com a cor da camisa. Reclamam dos sapatos. Dizem que estão apertados, que a indústria de calçados é incapaz de produzir sapatos resistentes. Passam brilhantina nos cornos. Kosmo lança moda com o primeiro chifre tatuado da turma: um homem de paletó e gravata segurando uma pasta de executivo. Se perfumam com âmbar francês. Antes de virar a chave para sair de casa pegam um chiclete, pois tudo acontece no interior dos Estados Unidos.
Estão prontos para paquerar e exibir as vastas ponteiras coloridas.
Sentam-se numa mesa perto da entrada para melhor observar e escolher as dinas. Enquanto os enroladinhos de alface não chegam, invariavelmente conversam e debocham dos antepassados de outras eras que se utilizavam dos chifres para brigar com rivais na disputa das melhores fêmeas. Que falta de civilização! Agora não, basta exibi-los para conquistar as mais formosas e curvilíneas fêmeas. Orgulhosamente concluem serem uma espécie evoluída. Conhecem de cor e salteado o discurso feminino. A elas pouco importa o tamanho da calosidade no cocuruto. O principal é a quantidade de adornos. Quanto mais cornos, melhor. Gargalham felizes e inocentes balançando as cabeças premiadas.
As fêmeas chegam aos barzinhos de saia curta balançando os rabinhos e contando cuidadosamente o número de bicos nas cabeças dos pretendentes. Nem querem conversa. Pouco se importam se são pontudos, retorcidos, compridos, furados, galhados, grossos, rombudos ou coloridos. Desejam profusão. Os machos cegos de futilidade, ostentam, além das cores e piercings, chifres com luzinhas nas pontas.
Ao contrário do que concluíram os cientistas, as fêmeas não consideram excitante a grande quantidade de chifres. Elas preferem parceiros muito chifrudos apenas porque significa que são tolerantes e certamente terão maior liberdade sexual. Simples assim!

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