07 abril 2015

O decote no escritório




Sabe aqueles peitos das mulheres de filmes americanos? Pois é, a Patrícia tem um par desses. O generoso decote exibe muita volúpia, poder e alegria. Logicamente a alegria fica por conta, apenas, daquele que tiver o privilégio de brincar naquelas montanhas russas. Ou americanas. Ou brasileiras. Sei lá, JotaTê sempre se perde quando está cercado de pensamentos no vale.
            A Patrícia é da área de marketing e são raras as oportunidades que tem de encontrá-la no trabalho. A exuberância só fica disponível aos seus olhos nas reuniões semestrais. Ele até propôs que as reuniões semestrais fossem todos os meses. Mas a diretoria não quer que outras gerências se relacionem com o pessoal de propaganda e marketing.
            Na última reunião havia poucos presentes. Todos cientes, da importância da reunião com o diretor. Patrícia compareceu com uma blusa abotoada e saia. Uma saia comportada. Nem chamou à atenção, ao menos antes da reunião começar.
            As coisas começaram a se complicar quando o destino o colocou na mesa bem à frente da doutora Patrícia. Ele havia se preparado com afinco para a reunião de resultados. Uma boa apresentação respaldada em trabalho eficaz poderia definir uma promoção para alguém daquela sala. Ele queria ser o promovido.
            No momento em que percebeu que a exposição de motivos do departamento de marketing estava no botão da blusa que a doutora abrira abaixou a cabeça. Pensou em olhar e focar nos próprios apontamentos. Foi aí que perdeu a promoção.
Patrícia jogou com toda sua inteligência e capacidade. Ela estava em casa. O terreno era o dela. Sabia onde seria a reunião. Seria na sala com a enorme mesa de tampo de vidro. E se preparou muito melhor que ele. Usou de todos os artifícios para desconcentrá-lo e superá-lo. Veio sem calcinha.
JotaTê foi aplicado. Conferiu os pormenores e certificou-se que ela estava realmente, indubitavelmente, deliciosamente sem calcinha.
Ela rabiscou e empurrou um bilhete.
– Quer?
Era impossível olhar para os olhos da doutora Patrícia.
Limpou a baba que escorria pela lateral da boca e assentiu com a cabeça olhando para o decote.
A fama da doutora era de cumpridora de prazos e compromissos.
Na sexta-feira se encontraram e rumaram para o motel.
Tudo perfeito, Patty estava pleonasticamente divina. Os sonhos iriam se realizar. Era o sonho de dez entre dez funcionários da empresa.
Estavam a sós no quarto. Meia luz. O beijo. A agarração. A volúpia. Mãos acariciando e apalpando. Mãos despindo corpos. Corpos nus se pegando e se esfregando. Libido nos céus. Os enormes e rígidos seios eram dele, tudo dele. Dele e da sua boca.
A língua descreveu meio círculo no mamilo de Patty e na mesma hora Patrícia, de prazer, cravou e arrastou as dez unhas nas costas de JotaTê. O sangue correu nas trilhas dos dez punhais.
O candidato a gerente brochou. Perdeu a promoção, o tesão e a vantagem de dizer que tinha comido a Patrícia, a nova gerente.

28 março 2015

Tia velha


Quando era menininho eu odiava aquelas tias velhas, amigas da minha avó, que chegavam apertando bochechas falando que me viram nascer.

Hoje eu sou a tia velha.

24 março 2015

A máquina fantástica


Título original: A invenção de Morel
Adolpho Bioy Casares
Editora Expresso e Cultura – esgotado em todas as editoras
128 páginas
 
Participar de um grupo de leitura foi uma das melhores coisas que me aconteceu depois que resolvi viajar no mundo literário. Saí da rota comercial dos best sellers para navegar horizontes desconhecidos. A bússola são os colegas marinheiros do grupo de leitura que, via de regra, sugerem embarcações diferentes para destinos, para mim, sempre inexplorados.

Quando propuseram um autor argentino torci o nariz como o brasileiro que acompanha o futebol.

Ainda precisei comprar o livro numa livraria virtual uma vez que o livro está esgotado.  Recebi o livro amarelado reencadernado com algumas marcas de fita durex. Cheirava ligeiramente a mofo ao contrário de um novo que recende a tinta gráfica.

Ultimamente estou meio ressabiado com as apresentações, orelhas e contracapas que tenho lido. Todas são elogiosas. Aliás, é por isso que estão ali.

Então, foi assim, cheio de desconfianças, que li a apresentação de Jorge Luís Borges, o Maradona da literatura portenha.

Borges afirma que nenhuma outra época possui novelas de argumentos tão admiráveis quanto The turn of the screw, Der Prozess, The invisible man, Le voyageur sur la terre  ou como o desta , escrita em Buenos Aires por Adolpho Bioy Casares.

Ou seja, que acima de tudo, eu, como leitor, deveria prestar atenção no argumento da história. Foi o que eu fiz.

Trata-se da história de um condenado à morte que foge para uma ilha afastada. A ilha apesar de deserta possui algumas poucas edificações improváveis: um museu, uma igreja e uma piscina.

O fugitivo é prevenido por um italiano que vendia tapetes em Calcutá, que as construções datavam de 1924 e que nem os piratas chineses nem o navio do Instituto Rockefeller ousavam ir até lá. Que a ilha era um foco de enfermidade, ainda misteriosa, que matava de fora para dentro. Caem as unhas e o cabelo, a pele e as córneas morrem e o corpo só resiste de oito a dez dias.

Com esse início de mistério e quase de terror sabemos também que o fugitivo pela centésima noite anota suas sensações, medos e descobertas. E tomamos conhecimento da história justamente a partir das anotações do caderno do fugitivo.

Também, desde o início, o autor lança notas de rodapé de página que são absolutamente geniais, pela sutileza, quando questiona a veracidade do narrador ao prestar  algumas informações como a primeira nota que diz que as Ilhas Ellice são baixas e sem árvores ao contrário do narrador que diz que ali havia um morro e árvores.

 A história ganha vulto quando o condenado passa a ter companhia na ilha. Não sabemos se são alucinações, delírios, fantasmas ou pessoas de verdade. Cabendo ao leitor especular o mistério como num enredo policial.

Entre os vultos se destacam um homem, Malthus e uma mulher, Faustine, pela qual o protagonista e narrador se apaixona.

Estes são os cenários e personagens que o autor utiliza para divagar sobre a vida, sobre a morte e sobre a eternidade enquanto tenta descobrir se a origem dos vultos são fantasmas, se ele está morto ou até se são provenientes das alucinações provocadas pelas raízes que come.

O fechamento da história apresenta uma resposta verossímil às indagações e podemos aceitá-la mais do que sendo fantástica, mas de ficção científica.

E, por isso mesmo o argumento é genial, Borges tem razão, principalmente para as explicações para a Máquina de Morel.



Finalizando, sou grato por pertencer a esse grupo de leitura e assim, como o protagonista, ter a oportunidade de explorar terras por mais fantásticas ou fantasiosas que sejam.

17 março 2015

Palestra de autoajuda


Esta semana recebi três comunicações circulares relembrando a palestra com o prestigiado conferencista de renome nacional, o escritor de cinco best sellers, Dr. Tiago Neves de Melo Costa. Mesmo quem nunca ouviu falar em Melo Costa passou a enaltecê-lo após propagandearem a manada de informações.

O RH ressalta que as falas do Dr. Tiago superlotam auditórios. Que é muito importante se inscrever, apesar da gratuidade, e confirmar a presença, tendo em vista que o auditório comporta apenas trezentos felizardos. Que a palestra Melhorando a autoestima está contida na filosofia de valorização dos funcionários públicos. Que é restrita aos funcionários desta repartição. Vetada a presença de parentes.

Há vários dias, a figura do Dr. Melo Costa nos recebe com um sorriso de boas-vindas na entrada do nosso prédio. O tamanho do sorriso quase ultrapassa as margens do enorme banner multicolorido.

No hall dos elevadores, os cartazes informam que o Dr. Melo Costa já realizou mais de duzentas palestras de sucesso e que já vendeu mais de três milhões de livros. Que os seus livros “É mole ganhar dinheiro”, “Tenha amigos no lugar certo”, “Valorize-se e suba na vida”, “O mundo é dos vivos” e “O que o outro quer ouvir” estarão à venda.

Nos corredores e nas rodas de cafezinho o assunto é único: a vinda do idolatrado professor Melo Costa. Repentinamente, todos conhecem alguma tia ou vizinho que melhorara de vida após ler um dos livros dele. Os colegas citam frases selecionadas nos livros de Melo Costa: “Ajuda o teu semelhante a levantar a carga, mas não a levá-la.”, “A sorte ajuda os audazes.”, “As pessoas que vencem neste mundo são as que procuram as circunstâncias de que precisam e, quando não as encontram, as criam.”. Uma catarse coletiva estava em andamento e a palestra seria só à tarde.

Às 11h30, recebi mais uma circular informando que os funcionários que não conseguiram se inscrever teriam uma nova oportunidade dentro de 40 dias, porque o RH encontrou uma brecha na agenda do disputado conferencista.

À tarde, meia hora depois do combinado, o professor se instala atrás do microfone e, com a desenvoltura de um bispo evangélico, cativa a plateia extasiada.

Em resumo, enaltece o trabalho dos funcionários públicos, afirma que todos são eficientes e eficazes. Eles é que levam o País para frente. Se há alguma deficiência nas repartições públicas é culpa dos malfalados políticos que transferem a má imagem aos trabalhadores da burocracia.

Incomodei-me ao perceber que o discurso estava de acordo com o título do livro mais recente: “O que o outro quer ouvir”. Quando ele pronunciou com orgulho a própria sabedoria: “Todos os dias fazemos muitas coisas que não são importantes. Mas é muito importante que as façamos.” Um alarme soou na minha cabeça. Essa frase é de Mahatma Gandhi.

Peguei a agenda e passei a anotar outras frases de efeito até o término do teatro, quando todos aplaudiram entusiasmados.

Evitei o lanche de confraternização após a conferência. Fui para a minha sala checar as anotações. Não fiquei surpreso ao consultar a Internet e confirmar que Melo Costa, sem constrangimentos, se apossara de pensamentos do Dalai Lama, de Shakespeare, Pitágoras, Sófocles, Paulo Coelho.

Em outra pesquisa, descobri que todas as palestras aconteciam em órgãos públicos: secretarias estaduais, prefeituras, estatais, câmaras municipais e até no Senado Federal. Procurei em listas de mais vendidos e nada encontrei. Todos os livros foram adquiridos pelo governo para distribuição nas escolas e bibliotecas públicas. Sem dúvidas, o Dr. Tiago Neves de Melo Costa aplicava na prática o que ensinava nos títulos dos livros. Tendo amigos no lugar certo é mole ganhar dinheiro. Pena que não tenha escrito nenhum livro sobre honestidade e ética.

Em casa, foi difícil adormecer. Três provérbios giravam velozes na minha insônia: "Quem encobre ladrão é ladrão e meio." “Não existe almoço de graça.”; “Ladrão que não é apanhado, passa por homem honrado."

No dia seguinte, mesmo sem ter a quem apontar os fatos na repartição, juntei a documentação. Lacrei anonimamente um envelope pardo. Dirigi-me ao Ministério Público.

Quando entrei, pediram que me identificasse na portaria. Passei a porta giratória e a figura do Dr. Melo Costa me recebeu com um sorriso de boas-vindas estampado num enorme banner multicolorido.

A porta girou novamente para a minha saída. Entrei em parafuso.

10 março 2015

Mesas com sotaque

Prezado Klotz,

Ficamos felizes em lhe informar que sua história foi selecionada no Concurso Cultural 25 anos do Feitiço Mineiro e assim você é um dos ganhadores de um voucher de 25 chopps!



Escrever ainda não paga o aluguel nem a gasolina, mas paga a cerveja.


Mesas com sotaque

Ao lado da churrasqueira da minha casa havia uma mesa rústica com jeitão de galinhada domingueira de família.

Minha mulher a desprezava. Expulsou-a ao relento, substitui-a por outra de mármore.

Nos separamos, a mesa não teve nada a ver com a separação, entretanto na hora de ir embora escolheu os estofados da sala e desdenhou apontando:

– Nem para lenha serve.

Eu a comprara numa garage sale e ao situá-la junto à churrasqueira procurei respeitar sua tradição de agregadora de pessoas, de reunir amigos, de motivar encontros. Assim, ao calor das brasas, ela carregou alegria, copos de cerveja, bolos de aniversário,

História não se joga fora. Pensei.

Decidi vender a casa para uma família. Eu precisava me desvencilhar de muitos móveis e objetos que não caberiam num apartamento. Por questão de orgulho ferido, eu precisava provar o valor da mesa. Procurei os vendedores de antiguidades e só consegui sorrisos ou ofertas desprezíveis.

Próximo da mudança fui almoçar no Feitiço Mineiro e observei externamente duas mesas com estilo próximas à da minha e várias outras destoando do ambiente do restaurante. Eu achara o lar para a mesa.

O caixa apontou-me o proprietário do restaurante.

– É o seu Jorge.

Conversamos. Mais que o dono do Feitiço Mineiro, conheci uma pessoa atenciosa, gentil, inteligente. Agendamos um encontro.

Ele veio com um amigo para avaliar o móvel. No jardim, Jorge deliciou-se com as amoras e as mangas. Sem pressa, chegamos à churrasqueira onde uma solitária orquídea branca valorizava o tampo maciço.

O avaliador atestou a qualidade e elogiou a peroba rosa. Jorge concordou, mas apontou que a mesa precisava de reparo, que estava com a superfície desgastada e que talvez fosse um pouco mais alta do que gostaria.

Jorge estava acostumado a comprar e vender. Desvalorizou o objeto e, sabendo da minha pressa para mudar, mostrou-se o dono do tempo. Por outro lado eu havia notado o sorriso de aprovação, percebera também que dinheiro não era problema. A questão era a diferença entre o quanto eu queria e o quanto que ele se dispunha a pagar. A diferença era pequena, mas ambos fincamos pé. Criou-se um impasse.


Abri uma cerveja e conversamos até o escurecer sem negociar. Na despedida, Jorge confirmou seu valor e somou três jantares no restaurante com acompanhante.

Jorge Ferreira foi o meu primeiro convidado num almoço na nossa mesa no Feitiço Mineiro. Ele poetou dizendo que as mesas antigas não se estranharam com a mais recente: falavam com o mesmo sotaque.

26 fevereiro 2015

Ginástica


Tééééééé. Odioso despertador. Antigamente, os abomináveis despertadores faziam triiiiim. E com apenas uma pancada paravam de tocar. Os atuais são espertos, aceitam parar de tocar após um toque delicado, mas voltam a incomodar dez minutos depois.

Mentalmente abro meu surrado livro da Real Força Aérea Canadense e inicio meus sagrados exercícios físicos. Nãonada mais sagrado do que cuidar do físico. Começo com os abdominais. É da barriga que tenho de cuidar. Ontem mesmo foram oito chopes e ainda dúzia e meia de quibes.

Um, dois, três... Jamais gastaria dinheiro numa academia. Se bem que tem umas popozudas... oito, nove, dez... Onde será a academia da Lili?  Dezesseis, dezessete, dezoito...  A Lili naquela malha colada... vintetrês, vintequatro... Flexões, sou bom nas flexões.

A Lili é ótima pulando na aeróbica. Seis, sete, oito... Os cabelos da Lili estão sempre atrasados no ritmo. Quando Lili está no alto, os cabelos estão em baixo, quando ela está em baixo seus cabelos estão em cima; é uma dança dentro da outra dança. Trintaedois, trintaetrês... Malditos médicos. Sempre dizem que devemos checar o colesterol, que estamos proibidos de comer pastel, que não devemos fumar; e eu parei de fumar... quarentaecinco, quarentaeseis... ridículos desenhos antiquados do meu real livro.

Eu deveria fazer exercícios de alongamento. Os desenhos são muito mais prazerosos. Se fossem coloridos e tivessem uma parceira, seriam o Kama Sutra. Polichinelo! Como seria o polichinelo no Kama Sutra? Onze, doze, treze... Lili sobe, eu desço, os cabelos descem, Lili desce, os cabelos sobem, eu subo... vintenove, trinta, trintaeum... Sobe. Será que arrumaram o elevador? Quarenteoito, quarentenove... Será que terei de subir todos aqueles três andares de escada? Sessentaesete, sessentaeoito, seesentaenove... Lili, Kama Sutra, sobe...

Tééééééééééé. Odioso despertador.


Preciso urgente pensar mais vezes em cuidar do meu físico.

09 fevereiro 2015

A sonata a Kreutzer

A SONATA
A KREUTZER
Lev Tolstói
Editora 34
Reimpressão de 2013
R$ 32,00
120 páginas

2 dias de leitura

Sensacional ensaio à loucura! Lev Tolstói, autor de Guerra e paz e Ana Karenina,  exemplificou os transtornos dos ciúmes como nenhum dicionário, enciclopédia ou tratado de Freud foram capazes. Melhor que descrever foi contextualizar os ciúmes a partir da ótica de um homem, em uma história de tensão crescente.

Toda a história é contada em primeira pessoa o que dá força e credibilidade ao protagonista.
Numa viagem de trem iniciada ao anoitecer, Pózdnichev narra a um passageiro como era o relacionamento tumultuado dele com a esposa e que, assumidamente, devido aos preconceitos, às convenções sociais, a falta de diálogo, também por amor e ódio, viveu sentimentos crescentes de posse e principalmente ciúme. No escuro do vagão, ao leitor só é mostrada uma face do envolvimento, a do homem, que apesar de nenhuma prova ou de circunstância conclusiva contra a esposa, confidencia os motivos para assassiná-la num momento de crise. As motivações são tão íntimas só poderiam ser segredadas a um confidente ou a um estranho sob o escudo da escuridão.          
Ainda no começo do relato o viajante assume o assassinato, entretanto o autor provoca a nossa curiosidade instigando-nos a descobrir as circunstâncias do crime e a posterior absolvição no julgamento.

Exemplificando os costumes machistas relata: “todos esses senhores e eu, uns devassos de trinta anos, tendo a seu crédito centenas dos mais terríveis crimes contra as mulheres, entrávamos, bem-lavados, barbeados, perfumados, de roupas limpas, de fraque ou uniforme de gala, numa sala de visitas ou num baile, éramos um símbolo de pureza, um verdadeiro encanto.” (pág. 26)

E ainda: “não abandonando por um instante sequer a intenção de me casar e de estabelecer para mim a mais elevada e pura vida familiar, e procurava uma jovem adequada a esse objetivo – prosseguiu ele – Eu chafurdava no pus da devassidão e, ao mesmo tempo, examinava moças, procurando as que fossem dignas de mim, pela sua pureza.” (pág. 27)

Por outro lado, afirmava “que as moças estão ocupadas unicamente com a caça ao noivo.” Mal comparando também disse que procediam como os judeus: “Ah, vocês querem que nós sejamos apenas comerciantes. Está bem, nós comerciantes, havemos de dominar vocês” – dizem os judeus. “Ah, vocês querem que nós sejamos apenas objeto de sensualidade, está bem, nós, justamente na qualidade de objeto de sensualidade, havemos de dominar vocês” – dizem as mulheres. (pág. 34) E ainda apontando a força feminina:

“– Onde está o poderio? Mas por toda a parte, em tudo. Percorra as lojas de qualquer cidade grande. Ali há milhões de rublos, não se consegue avaliar o trabalho humano assim empregado, mas veja: existe em nove décimos dessas lojas pelo menos algo para uso masculino? São as mulheres que exigem e sustentam todo o luxo da existência. Faça um cômputo de todas as fábricas. Uma parte imensa produz enfeites inúteis, carruagens, móveis, brinquedos de mulher. Milhões de pessoas, gerações inteiras de escravos, aniquilam-se nesses trabalhos forçados nas fábricas, unicamente para satisfazer os caprichos femininos. As mulheres, qual rainhas, mantêm na prisão do trabalho penosos e escravo nove décimos da espécie humana. E tudo isso porque foram humilhadas, privadas de direitos iguais aos do homem. E ei-las que se vingam atuando sobre a nossa sensualidade, prendendo-nos em suas redes. (pág. 35)

Quanto ao casamento foi pragmático: “Eu então não sabia ainda que 99% dos esposos vivem no mesmo inferno em que eu vivia, e que isso não pode ser diferente.” (pág. 61)

Em relação à música – Sonata a Kreutzer – parece que provoca o delírio coletivo – “todos sabem que justamente por meio dessas mesmas ocupações, e em particular da música, é que se dá o maior número de adultérios em nossa sociedade.” (pág. 77); “Ela não eleva nem rebaixa a alma, ela a excita.” (pág. 82). E, finalmente, sobre o ciúme provocado pelas elucubrações: “Não pude mais dominar a imaginação, e ela começou a desenhar para mim, incessantemente, com uma nitidez extraordinária, quadros que me excitavam o ciúme, cada qual mais cínico, e todos sobre o esmo tema, sobre o que sucedia lá, na minha ausência, como ela me traía.” (pág. 89)

No posfácio o tradutor tece elogios – insuperável – à obra e acerta em cheio ao afirmar que nos dias de hoje não dá mais para aceitar o que Tolstói disse sobre a relação entre os sexos e opina que a exasperação que aparece no romance parece adiantar em alguns anos a famosa crise existencial do autor.

Para finalizar, repito o início da resenha: – sensacional ensaio à loucura.

03 fevereiro 2015

Dez formas de fugir de casa



1 – Humilhar-se em pó. Ser varrido para fora pela empregada.

2 – Esperar o amanhecer e escalar o raio de sol.

3 – Pular na lareira, misturar-se com o carvão e esfumaçar-se pela chaminé.

4 – Ajoelhar-se perdoando. Aguardar a santificação.

5 – Esconder-se na saboneteira do box. Esperar a mulher entrar no banho, percorrer suas intimidades e sair espumando pelo ralo.

6 – Contrair-se ao máximo até formar o desenho de uma arroba. Deitar no e-mail e enviar-se num e-mail em cópia oculta.

7 – Vestir-se com a roupa da babá e escafeder-se pelos fundos.

8 – Selar uma mosca e cavalgar janela afora.

9 – Esconder a mágoa no bolso. Jurar que não foi você e bater a porta da frente.


10 – Limpar o sangue da faca e entrar no camburão.

13 janeiro 2015

Jogo de palavras


Um dia me explicaram um jogo com vários participantes, ao redor de uma mesa, em que alguém escolhe, com o auxílio de um dicionário, uma palavra e anota o seu significado.
Todos são instados a sugerir o significado da palavra escolhida.
Aquele que chegar mais perto ganha 10 pontos. Se nenhum acertar, ganha 5 pontos aquele que sugerir o significado mais criativo. 
Ri de montão.

Independentemente de estarmos sentados ao redor da mesa, ou na frente de um teclado, selecionei dez palavras e sugeri alguns significados. Será que você acerta? Só uma resposta é verdadeira.

                      1- Priodonte
a)  Extração do primeiro dente de leite.
b) Gênero de mamíferos desdentados da América do Sul. Tatu.
c) Gênero de mamíferos fósseis da época terciária. Antepassado do elefante.
d) Nome comum a animais herbívoros, assemelhados ao porco, com 2 presas salientes. Antepassado do javali.
e) Implante dentário do canino.

                      2- Machacaz
a) Planta que tem flores masculinas.
b) Instrumento da medicina. Placa metálica para praticar a percussão digital.
c) Homem corpulento, desajeitado, pesadão.
d) Indivíduo nascido nas tundras europeias.
e) Apito para atrair capivaras.

                      3- Tílburi
a) Carruagem de quatro rodas para duas pessoas; Carro mais ou menos desconjuntado.
b) Carruagem rústica que se usava nas fazendas e nas cidades do interior antes da introdução do automóvel.
c) Carro de duas rodas e dois assentos, sem boleia, com capota, e tirado por um só animal. Era o taxi de antigamente.
d) Carro de feira ou parque de diversões.
e) Piloto, guia. Mestre que leva as embarcações por canais ou recifes.

                      4 - Prebenda
a) Coisa que não se leva a sério; disparate; tolice, desconchavo.
b) Corda ou cabo que iça a vela no mastro de jangadas.
c) Forma para alargar sapatos.
d) Diz-se da palha de milho quando seca ou amarelada.
e) Emprego ou cargo rendoso que exige pouco trabalho; sinecura, veniaga.
                     
                    5 - Ilharga
a) Orifício circular por onde se passam fitas.
b) Flanco, lado (do homem, mulher ou animal).
c) Espécie de gancho de ferro, ferramenta de marceneiros.
d) Barco à deriva.
e) Pessoa desleixada.

                      6 - Mondrôngo
a) Estuprador, violentador.
b) Indivíduo disforme; mostrengo.
c) Pessoa desprovida de inteligência.
d) Que se alimenta de comida malcheirosa.
e) Que enriquece com os bens ou trabalho dos outros.

                      7 – Epigrama
a) Resumo, sinopse.
b) Composição poética em que todas as palavras começam pela mesma letra.
c) Poesia breve, satírica; sátira.  Dito mordaz e picante.
d) Verso decomposto em seus elementos métricos.
e) Palavra ou frase que qualifica pessoa ou coisa.

                      8 – Dislate
a) Asneira, bobagem, despautério, tolice.
b) Atrasado.
c) Incapacidade canina de emitir sons.
d) Repetir latido.
e) Incapacidade de fixar fatos recentes na memória.

                      9 – Gafaria
a) Sucessão de ações inconvenientes, mancadas, ratas.
b) Ambiente comercial com pista de dança.
c) Cabelo em desalinho; grenha.
d) Leprosário.
e) Gaveta para anzóis.

                      10 – Empós
a) Camponês; Indivíduo rústico, grosseiro; aldeão.
b) Burguês; Indivíduo arrogante;
c) Que tem título nobiliárquico, fidalgo, nobre.
d) Que trabalha em ambiente onde há muita poeira.
e) Após, depois; atrás - empós de... depois de...



Não vale olhar a resposta antes de tentar...


1 - Priodonte – b) Gênero de mamíferos desdentados da América do Sul. Tatu.

2 - Machacaz  – c) Homem corpulento, desajeitado, pesadão.

3 - Tílburi – c) Carro de duas rodas e dois assentos, sem boleia, com capota, e tirado por um só animal. Era o taxi de antigamente.

4 - Prebenda – e) Emprego ou cargo rendoso que exige pouco trabalho; sinecura, veniaga.

5 - Ilharga – b) Flanco, lado (do homem, mulher ou animal).

6 - Mondrôngo – b) Indivíduo disforme; mostrengo.

7 - Epigrama – c) Poesia breve, satírica; sátiraDito mordaz e picante.

8 - Dislate a)  Asneira, bobagem, despautério, tolice.

9 - Gafaria – d) Leprosário

10 - Empós – e) Após, depois; atrás - empós de... depois de...





Diga quantas acertou.
Sugira um significado criativo.
Ou proponha outras palavras.

05 janeiro 2015

Reprodução


REPRODUÇÃO
BERNARDO CARVALHO

Editora Companhia das Letras

167 páginas

R$ 37,00

Prêmio Jabuti: melhor romance de 2014




O prêmio foi o motivador para a indicação do livro para o nosso Clube de Leitura. Ainda não fizemos a nossa reunião por isso desconheço a opinião dos outros leitores do grupo. Acredito que será uma das raras reuniões com unanimidade. Lastimavelmente contra, como foi com “Desejo” de Elfried Jelinek. Autora premiada com um Nobel de Literatura. Ou seja, prêmio não é necessariamente premissa para aplausos.
Fiz um esforço supremo para ir até o fim. O livro é monótono e por ser um monólogo lembrou-me de uma viagem de avião em que desejamos ler um romance e o vizinho de poltrona desata a falar omitindo opinião ininterrupta sobre todos os assuntos que possa desenvolver em quatro horas de voo. Honestamente, torço para que um dos colegas do clube de leitura descubra e externe para nós o merecimento do prêmio.
O protagonista deste romance, o “estudante de chinês”, tem a paranoia de que a China, brevemente dominará o planeta. Para integrar as fileiras da nova classe dominante pretende aprender chinês e conhecer a China. Na sala de embarque do aeroporto ele aborda uma jovem chinesa acusada de contrabando o que motiva sua detenção para interrogatório pela polícia federal.
O autor ousou originalidade ao apresentar o romance em três monólogos que acontecem na delegacia do aeroporto. O do protagonista seguido pelo monólogo de uma delegada e finalizando com outro do protagonista. O problema é que a fala é repetitiva de tal forma que soubemos pelo menos umas trinta vezes que o “estudante de chinês” lê jornais e que foi abandonado pela professora de chinês no meio da lição 22 do quarto livro do curso intermediário.
O “estudante de chinês”, que não tem nome, tem um insuportável conhecimento enciclopédico sobre assuntos que pouco ou nada interessam, ainda mais quando jogados entre argumentos. Por exemplo, que o tomate tem mais genes que o homem ou que as igrejas, todas juntas, faturam no Brasil mais de vinte bilhões de por ano ou ainda que os setenta deputados mais ricos do PCC – Partido Comunista Chinês – detêm uma fortuna de setenta bilhões de euros. O protagonista imagina-se com sabedoria maior que a soma dos conhecimentos de Míriam Leitão (economia), Artur Xexéo (cultura), Gerson Camarotti (política) e Caetano Veloso (generalista).
Não está clara a intenção do autor em batizar o livro de Reprodução. Deduzo que seja porque o personagem principal reproduz, sem ter a própria opinião, o que leu nos jornais.

Mais de uma vez já ouvi dizer que “se você não for capaz de falar bem de uma pessoa então cale-se”. E é de praxe escritor só falar bem dos colegas. Eu não falei mal do autor, só não gostei da obra. Do mesmo autor li e elogio “O filho da mãe”, publicado pela mesma editora.

29 dezembro 2014

Metas e ações para o Ano Novo


Meta – Emagrecer 15 kg. Cortar pastéis, salgadinhos e batatas fritas.
Ação – Procurar um barzinho que sirva cenouras, rabanetes e pepinos para acompanhar a cerveja. Se não houver legumes, levar uma faca para cortar as frituras em pedaços menores.

Meta – Ser promovido na empresa.
Ação – Nem que para isso tenha que trabalhar.

Meta – Ser pontual.
Ação – Comprar um relógio novo.

Meta – Viajar para a Europa por 30 dias, atendendo antigo sonho da esposa.
Ação – Jogar mais vezes na Mega-sena.

Meta - Ser mais companheiro, amigo e generoso com a mulher.
Ação – Ir ao happy hour no máximo quatro vezes por semana e, se sobrar, levar uns quibes para casa.

Meta – Frequentar a academia de musculação.
Ação – Estudar inglês para comprar um tênis americano na Internet.

Meta – Fazer as pazes com a sogra.
Ação – Levá-la para dançar no clube dos aposentados e dançar com ela. Pagar a cerveja.

Meta – Quitar as dívidas (aluguel, empório, prestação do carro)

Ação – Pedir novo empréstimo à sogra. 

11 dezembro 2014

Sequestro relâmpago




Socorro! Como dói a minha cabeça. Filhos da mãe! Me acertaram de jeito.

Na sexta à noite, eu voltava do caixa automático com um dinheirinho para o fim de semana.  Depois de dez passos, abria a porta do meu carro quando um sujeito mal encarado apontou uma faca para mim. Apesar da minha idade, ainda sabia me defender. Chutei o braço do marginal e a faca voou longe. Em seguida levei uma pancada na cabeça. Outro bandido estava atrás de mim. Filhos da mãe!

De que adianta um carro blindado à prova de balas e de marginais quando se está fora do carro?

Não sei para onde me arrastram, nem para onde me levaram. Sei que está tudo escuro e que a minha cabeça continua a doer. E muito. Não consigo me mexer. O cativeiro é super apertado.  Um cheiro terrível de flores podres infesta o espaço. Nada ouço. O silêncio é aterrador. O gosto de sangue está entalado na garganta.  Não consigo gritar. Mexo as mãos e arranho a madeira sobre mim, tudo faz sentido.

Fui enterrado vivo.


 
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