29 junho 2026

Zodíaco da procrastinação

 

    Hoje é um daqueles dias em que estou sem uma provocação — leigamente chamado de inspiração — para a escrita. Estou apenas enrolando na frente do monitor.

    Eu me lembrei de ter visto uma tabelinha com nomes de artistas da música brasileira ladeados das idades correspondentes. Confirmei que a tabelinha estava desatualizada. Fugindo da escrita, brinquei de procurar as datas de nascimento. Depois, enganando o tempo, resolvi procurar mais nomes, e mais nomes, e mais nomes. Sempre de artistas vivos com mais de 70. Observei que a turma que alegra o nosso viver é bem grande.


    Como em tudo na vida, a gente de alguma forma se identifica. Será que tem alguém que nasceu no mesmo dia que eu? Ou próximo? Só encontrei seis nomes nascidos em março. Entretanto me chamou a atenção que havia nove nascidos em junho, nove em julho e nove em agosto.

    Será que tem alguma coisa a ver com signo? Nunca dei a menor bola para a astrologia.

    Mas como é prazeroso matar o tempo brincando com tabelas do Word e do Excel,  pedi  auxílio ao Gemini para chegar a uma conclusão definitiva para a seleção natural de dons de acordo com o zodíaco.

    Para não influenciar a pesquisa, antes de cruzar os dados, perguntei à AI, quais os signos que, oficialmente, possuem mais o menos aptidão musical.

    A resposta foi que, de acordo com a astrologia a afinidade com as artes e a música está muito ligada aos planetas regentes (Vênus e Netuno) e aos elementos Água e Terra.

    Então, os Signos mais artísticos seriam Touro, Libra e Peixes. Em contrapartida, os menos dotados seriam: Virgem, Capricórnio e Gêmeos — com a ressalva de que nenhum signo é considerado incapaz de criar arte.

 

    Se ao meu universo amostral tem 68 entradas e existem 12 possibilidades zodiacais, posso afirmar, estatisticamente, que cada signo terá 68/12 (= 5,66) possibilidades, com margem de erro de mais ou menos 7 (ironia aos institutos de pesquisa).

    Vejamos os resultados:  Áries: 4; Touro: 5; Gêmeos: 5; Câncer: 11; Leão: 8; Virgem: 9; Libra: 6; Escorpião: 6; Sagitário: 2; Capricórnio: 3; Aquário: 4; Peixes:5.

    Sabe o que pode ser concluído com a pesquisa?

    Significa que escrevi um monte de bobagens apenas para procrastinar a escrita.

    
Ah, também significa que um dia quero ter o meu nome incluído numa lista de escritores vivos, ativos e lúcidos aos 100 anos de idade.
 

18 junho 2026

 

A SOBREMESA COLORIDA

 

Vovô está aposentado há muito tempo e já não é mais a mesma pessoa: desenterra as mesmas frases e falas, conta os mesmos episódios dezenas de vezes. Mesmo assim, a gente dá risada, ou se espanta com as mesmas histórias, fingindo que estamos ouvindo pela primeira vez, como se tudo fosse novidade.

Outro dia, quando ele estava saindo para a farmácia, eu alertei:

Vô, essa camisa não combina com a calça do pijama.

— Bobagem, ninguém me conhece na rua. Além disso, ganhei essa camisa, com as minhas iniciais, da sua vó quando eu fiz cinquenta anos.

Insisti que ele estava indo para a farmácia de sempre, onde todos o conhecem. Aí, ele se defendeu.

— Lá tem um balcão separando o cliente do vendedor. Não vão ver as minhas pernas, mas vão elogiar a minha camisa.

Além da farmácia, ele bate ponto no supermercado. É próximo. Vai a pé. Levando uma cesta.  Como vai quase todo dia, volta com a sacola leve. É muito importante ocupar o velhinho. Fazê-lo caminhar, vencer a inércia, respirar outros ares.

A gente anota para ele o que comprar. Ele, lembrando outras épocas, traz sabão de coco em vez de detergente. Uma vez ele me estendeu a lista de compras reclamando que não entendia patavinas daquela letra. Segurei o riso ao lembrar que a letra era dele.  

Noutro dia surgiu com uma ração para cães.

— Olha aqui — anunciou vitorioso. — Comida para cães de pequeno porte em promoção.

— Mas, vô... o Balzac morreu há dois anos. Não temos mais cachorro.

Ele coçou a cabeça, disfarçando.

  É para o cachorro da vizinha do terceiro. - E mudou de assunto com a agilidade de um garoto de dez anos.  

Todos os dias logo depois do almoço, repete o ritual, espalha cinco comprimidos coloridos na palma da mão, engole com um gole de água e decreta:

— Sou o único nesta casa que ganha sobremesa.

Completa com um sorrisinho miúdo, saboreando a piada como se a tivesse inventado naquela hora.

Quando eu o vejo ele arrastando os chinelos, digo que ele pode cair, precisa levantar os pés, fazer exercício. Ir à academia.

— Eu fui na quarta-feira.

— Isso foi no mês passado, vô.

Eu insisto no assunto da saúde.

— Precisa se alimentar melhor. Passa o dia comendo balas, salgadinhos e tomando Coca-Cola. 

— Então não comprem essas bobagens. Se tiver em casa, eu como - Ele me adverte, esperto.

— Mas quem faz as compras é você, vô!

Ele apenas devia o olha com um risinho irônico.

Sabe, o vô é uma figuraça. Dias atrás eu insisti de que ele deveria sempre colocar a plaquinha de preferencial ao estacionar na vaga de idoso.

Em vez de assumir esquecimento, alega: - Não preciso não. Meus cabelos brancos são o documento.

Mas se você não estiver lá, o guarda vai multar.

— Não vai não, o carro também é idoso.

Ao menos o vovô é um idoso bem-humorado. Em um almoço, quiseram saber qual era a fórmula de tanto vigor, da sua energia, da sua disposição. Ele, sério, garantiu que o segredo vinha do banho frio às cinco e meia da manhã.

O homem voltou a perguntar:

— E o senhor faz essa loucura há quanto tempo?

  Eu nunca fiz. Por isso que estou bem - e gargalhou, gostosamente.

É difícil conviver diariamente com uma pessoa assim, mas faz parte do nosso caminho, da nossa trajetória. Apesar de tudo amo esse velho, ainda mais que esse velho sou eu.

08 junho 2026

JURO QUE SOU INOCENTE


Não fui eu que peguei o chocolate.

Nem gosto de chocolate.

Tomei só uma latinha de cerveja.

Não fui eu que derramei café na toalha.

Nunca tirei nota vermelha nos meus tempos de escola.

Não desliguei. Acabou a bateria.

Sempre levanto a tampa na hora de fazer xixi!

Tá bem, vou começar a academia amanhã.

Pum? Nunquinha que fui eu.

Juro que eu não olhei para a bunda maravilhosa daquela mulher.


23 outubro 2020

VIAJANDO COM OS LIVROS


Curiosamente, sempre pensei na minha estante de livros como um comboio de trens.

Tem o vagão dos romances, o vagão dos contos, o vagão da poesia, o vagão das artes, o vagão dos dicionários e enciclopédias.

Cada março... agosto... setembro... é como uma estação onde a locomotiva para e novos livros sobem para ocupar os lugares marcados.

O meu trem segue pelos trilhos há bastante tempo com poucos passageiros deixando a viagem.
Durante a pandemia me mudei para o apartamento da minha mulher deixando o trem descansando no meu apartamento.

Por amor, sensatez e economia, decidimos morar juntos todos os dias e não apenas nas noites.

Mas o aclive para o apartamento dela é muito íngreme e o trem não conseguiu subir.
Precisei conversar com os dois mil passageiros e reacomodar apenas seiscentos para que a locomotiva desse conta do recado.

Bifurcações levaram passageiros para novas paisagens.

Foi uma semana dolorosa, de despedidas. De choro contido.

Para a minha surpresa apareceu uma estação Paranavaí, onde uma Barriguda foi ocupar um espaço especial no vagão dos troféus. Chorei de alegria.


PARANAVAÍ DIVULGOU OS TRABALHOS ESCOLHIDOS
Um dos mais tradicionais festivais de música e poesia do país, o FEMUP - Festival de Música e Poesia de Paranavaí conjuntamente e o 52º Concurso Literário de Contos receberam 1132 inscrições (382 de contos) de 25 estados brasileiros e de outros quatro países.

O troféu Natividade, mais conhecido por Barriguda, é dos mais cobiçados por poetas, contistas e músicos. Estou felicíssimo e honrado por ter o meu nome entre os grandes da literatura.
Sou um raro homem que quer uma Barriguda mesmo sem saber se o filho é meu.

Por causa da pandemia, o festival em vez de presencial será virtual com a interpretação de todas as músicas, poemas e contos selecionados.


Parabéns a Paranavaí por incentivar a arte.

Eis a barriguda na entrada do auditório:








04 julho 2020

Sem perdão Frederick Forsyth




Sem Perdão

Frederick Forsyth

Editora Record
242 páginas






Houve um tempo em que eu lia pouco, mas me sentia confortável por saber que havia algum Forsyth me aguardando na prateleira.
Assim li “Quarto protocolo”, “O dossiê Odessa”, o insuperável “O dia do Chacal”, ”Cães de guerra”, “O negociador”, “O punho de Deus” (o mais fraco de todos), “Alternativa do diabo”.
Também li “Sem perdão”, mas eu não me lembrava disso quando comprei esse exemplar num sebo virtual após o escritor Chico Lopes (ou terá sido o Claudio França?) apontar, no Facebook, o livro como um dos seus preferidos. Dizia no comentário que era um livro ótimo livro de contos.
Contos são a minha praia e Frederick Forsyth é a praia onde gosto de nadar.
Desde que resolvi me reinventar e ser escritor, em 2003, larguei os best-sellers e passei a ler os clássicos ou livros escritos por conhecidos. Nunca mais li Forsyth, Ken Follett, Dan Brawn ou thrillers do gênero.
O comentário aguçou os meus sentidos de prosador de contos e crônicas e, de imediato, fiz a minha encomenda virtual.
Quando o meu exemplar chegou eu me preparei para ler com o mesmo apetite do glutão que amarra um guardanapo no pescoço antes de encarar a macarronada.
Pela primeira vez leria um Forsyth como escritor e não apenas como um leitor.
O primeiro conto, que dá nome ao livro, começa com “Mark Sanderson gostava das mulheres. Da mesma forma como gostava dos steaks do gado de corte Aberdeen Angus, sempre ao ponto, acompanhados por uma salada de alface. Consumia a ambos com igual prazer, se bem que passageiro. E cada vez que se sentia um pouco esfomeado, por uma coisa ou outra, telefonava para o fornecedor apropriado e encomendava o que precisava no momento.”
Interrompi para sublinhar a magnífica abertura.
Em seguida lança um conflito: Mark Sanderson tinha três vidas: a vida pública, a vida particular e a vida secreta. Impossível ficar imune à curiosidade.
Do protagonista informa que “Aprendera as regras do jogo em dois anos. E, o que era ainda mais importante, aprendera também a violá-las legalmente.”
A partir destas informações lança uma história fascinante de um homem poderoso que alcança tudo o que deseja até se apaixonar. Tudo perfeitamente verossímil com um fechamento arrebatador.
O final é tão impactante e original que naquele instante tive a certeza de ter lido o conto e o livro antes. Que delícia voltar a comer um prato de que se gosta!
O título do conto seguinte “Não há cobras na Irlanda” me chamou a atenção porque eu gravei mentalmente essa “informação inútil” sem saber de onde ou por quê. No conto, o autor em vez de apenas mencionar uma cobra indiana, a descreve fisicamente, detalha hábitos alimentares e a letalidade do veneno. Nada é excessivo ou cansativo. Pelo contrário, nos convence que a cobra existe e é daquela forma. Muito provavelmente um autor comum apenas mencionaria um nome conhecido de cobra o que por si só seria o suficiente para provocar medo. Aqui as informações não são inúteis. Todas têm devida importância para a sequência e consequência da história. Forsyth, preza os detalhes minuciosos, resultado de pesquisa profunda. Assim são as descrições de ações, lugares ou até objetos, dependendo da importância de cada um para cada conto. O autor, pelas descrições insere o leitor com uma verossimilhança absoluta e contagia com uma escrita ágil e envolvente.
Tanto que no conto seguinte, “O imperador”, somos levados para uma pescaria em alto mar numa traineira. Os relatos e emoções da pescaria são próximos da proeza em que Hemingway conseguiu ao pescar um Nobel com “O velho e o mar”.
Esqueci de dizer que o conto começa com um conflito que fisga o leitor:
 “– E tem mais uma coisa – disse a Sra. Murgatroyd.
Ao lado dela, no táxi, o marido disfarçou um pequeno suspiro. Com a Sra. Murgatroyd, sempre havia mais uma coisa. Não importava o quanto tudo estivesse correndo bem. Edna Murgatroyd passava pela vida sob o acompanhamento de um rosário de queixas, uma litania interminável de insatisfação. Em suma, ela importunava o marido incessantemente, sem lhe dar um minuto de descanso.”
“Usado como prova” é um conto que nunca saiu da minha cabeça. Simplesmente genial. Trata-se de uma investigação policial em que somos instigados o desde a primeira linha e ficamos em suspense até o ponto final. Fiquei muito feliz de reencontrar esse conto.
Apesar dos contos serem longos não há excessos. Os personagens são bem construídos e muito bem credenciados. Narrativas com reviravoltas e fechamentos surpreendentes, sem o posicionamento emocional, tanto que inexistem lados bons ou ruins, apenas ações e reações.
Não é à toa que Frederick Forsyth tem tantos fãs mundo afora.
Hoje mesmo vou procurar outros títulos do mestre.

30 junho 2020

Loira de farmácia




           

O que foi isso no seu olho?

— Foi uma ironia.

Essas foram as duas primeiras frases, na vídeo conversa, com meu amigo Joca, cronista de um grande jornal.

— Aposto que esse olho roxo é resultado de briga com a mulher.

— Pois é, detesto clichês. Se eu dissesse que era olho roxo você e o resto do mundo  comentariam padronizadamente que foi briga com a mulher.

— Brigar com ela virou clichê?

— Clichê é o lugar comum. Uma coisa repetitiva que faz feliz quem diz ou faz.

— Entrou um clichê no olho?

— Não. Vou contar. Ela chegou em casa loiríssima vindo do cabeleireiro e perguntou se gostei. Respondi: “Clichê”. Quando deveria ter juntado as mãos, feito um coraçãozinho e dito “Amei”.

— Ainda não entendi.

— Ela, de imediato, também não entendeu a ironia. Expliquei que clichê era lugar-comum, ideia ou ato tão repetido que já perdeu a graça.

— Mas isso não seria motivo para um soco no olho.

07 janeiro 2020

Ressaca do réveillon



O ano recém começara e nos encontramos num barzinho para reabastecer o tanque que já estava na reserva.
Nós éramos em cinco embora Lúcio afirmasse sermos nove e Toninha apostar no número sete.
— Então vamos contar de novo.  — sugeri.   — Neco, Paulinha, Lúcio, eu, Zé e Toninha.
Lúcio bateu a mão na mesa. — Eu num falei! Somos sete!
— Peraí! Pediu a Toninha. — Exijo recontagem.  A gente começa com a Paulinha para não contar duas vezes.
O Lúcio apontou para a Paulinha e depois foi seguindo o dedo para o lado e todos, em coro, contaram.
— Um , dois, três , quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze...
Neco interrompeu a contagem.
— Para. Para. Para.  —Tu seguiu — e apontou para o pessoal da outra mesa.
— Só tão sentados na outra mesa. Mas quem é que não conhece a Lili, o Paulão, a Fê e os outros quatro que estão com eles?
 Interrompi com autoridade: — Aquela não é a Fê. A Fê tem uma boquinha carnuda deliciosa. Essa á a irmã dela. Ainda não sei se a boca carnuda é deliciosa. E tem mais, além da Lili, do Paulão e da irmã da Fê são só mais dois e não mais quatro.
— Bora contá de novo — sugeriu Neco.
Vamos não, — cortou Toninha. — hoje é dia de prometer, comprometer, de se engajar nas promessas. Assumir responsabilidades. Esquecer medos. Anunciar um projeto para melhorar o mundo.
Lúcio ergueu o copo num brinde às palavras da Toninha e perguntou qual era a sua resolução salvadora para o ano nascente.
— Vou pintar meu cabelo. Serei loira. Serei a loira mais gostosa do planeta.
Lúcio sem desmentir a gostosura da Toninha: — Mas o seu cabelo já é loiro.
— É que eu prometo retocar de 15 em 15 dias. E tu Lúcio, o que vai ser?
— Caraca, nem pensei. Acho que eu tenho que terminar a faculdade.
O garçom, de passagem, pensou que deveria cobrar os dez por cento antes de o pessoal começar a beber.
A Lili, sem ser perguntada, ajeitou os peitões no decote e disse que a sua resolução era não mais usar calcinha mesmo de vestido.
Paulão, lá da outra mesa, levantou-se com olhar vermelho e sedento:
— Eu prometo solenemente, para quem quiser registrar em cartório, que neste ano, semana a semana comprarei uma saia para a nossa querida Lili.
A irmã da Fê beliscou o Paulão na barriga.
Paulinha cutucou o Neco que já estava com o tanque cheio.
— Eu prometo que vou começá a procurá emprego.
— Essa é velha. Não pode. Mande outra.
— Tá bem. Prometo bebê menos.
 O garçom palpitou que o Neco poderia ao menos prometê pagar suas contas.
Olhei em volta. Todos os cinco, ou sete ou nove já haviam externado decisões para o novo ano. Era a minha vez.
Eu já estava tomando água fazia duas horas.  Disse que tomara a resolução firme e forte, encantava a vida ou desencantava a morte: vou acabar com meus cabelos brancos, extinguir a barriga, eliminar as rugas da face. É irreversível: vou rejuvenescer.

26 novembro 2019

Finais diferentes






FINAL FELIZ
João foi traído e abandonado pela mulher.
Queria se suicidar.
Procurava desesperadamente o revolver no armário.
Fuçou gavetas, prateleiras, cofres, escaninhos.
No canto escuro encontrou a munição.
A arma estava no bolso de um paletó.


FINAL INFELIZ
João foi traído e abandonado pela mulher.
Queria se suicidar.
Procurava desesperadamente o revolver no armário.
Fuçou gavetas, prateleiras, cofres, escaninhos.
No canto escuro encontrou a munição para a arma.
Era um versículo sobre o perdão.

FINAL CONTINUADO
João foi traído e abandonado pela mulher.
Queria se suicidar.
Procurava desesperadamente o revolver no armário.
Fuçou gavetas, prateleiras, cofres, escaninhos.
No canto escuro encontrou mais uma traição.
A arma também foi levada pela mulher.



Dia 9 de dezembro lançamento do meu livro Agora pisei – Carpe Diem da 104 Sul – Brasília
Venda antecipada R$ 40 – peça inbox, frete incluso


25 novembro 2019

Agora pisei - lançamento





Agora pisei

Publiquei Quase pisei! há dez anos. Naquelas cônicas, vi lâmpada mágica, conversei com um cara que vendia o Brasil, enxerguei pegadas de onça, conferi uma taturana atravessando a rua na faixa de pedestres e quase fui atropelado por um saxofone.
Pediram mais histórias, então Agora pisei.
Calcei os tênis e saí para caminhar. O planeta pulsou mais forte e as crônicas incríveis aconteceram:

Tubarões ameaçaram na calçada.
Peixes pularam do céu.
Janelas discutiram entre si.
Pedras filosofaram.
A caneta se recusou a anotar as histórias,
Mas eu publiquei para divertir o leitor.



13 setembro 2019

Folha triste



 
Neste outono, me deparei com uma folha solitária no alto de uma árvore.

Ela me olhou seca e deprimida.

Lembrando-me de como eu era ótimo para pegar as mangas mais altas, subi na arvorezinha.

Peguei a folhinha. Desci da árvore e gentilmente a depositei no chão com as colegas e familiares.

Ela, agradecida, confessou que estava com medo de saltar.

04 dezembro 2018

Dicionário – o jogo das palavras
Convidaram-me para elaborar questões de português para o ENEM.
(Observaram o pronome após o verbo? – só prof usa)
Selecionei dez palavras e sugeri alguns significados. Será que você acerta o verdadeiro? Só uma resposta é verdadeira.

1 — Turba
aa) Adereço de cabeça, de origem oriental, formado por longa faixa de tecido.
bb)  Forma do fanho falar turma.
cc)  Instrumento musical.
dd)  Multidão revoltada.
ee)  As alternativas b e d estão corretas.

2 – Madeicha
aa) Porção de algodão ou fios de seda;
bb) Pequena quantidade de cabelos juntos.
cc) Boneca feita com sabugo de milho.
dd) Fibra vegetal para tecer alpercatas.
ee) Nenhuma das anteriores. Madeixa se escreve com x.

3 – Compulsório
aa)  O mesmo que compulsivo.
bb)  Quando não há alternativa. Obrigatório.
cc)  Regime político liberal.
dd)  Quem desconhece suspensório.
ee)  Dor de cabeça de eleitores.

4 – Burrinho
aa)  Menino desprovido de inteligência.
bb)  Burro jovem ou de pequenas dimensões; burrego, burrico, burriquete.
cc)  Nos automóveis, bomba de freio hidráulico.
dd)  Na engenharia mecânica, bomba de aspirar líquidos.
ee)  Todas as alternativas estão corretas. Talvez não politicamente.

5 – Alternativas
aa)  Opções.
bb)  Possibilidades.
cc)   Escolhas.
dd)  Conceitualmente é quando só há duas únicas possibilidades de opção. Certo/errado; Dia/noite; acordado/dormindo. Popularizou-se como sendo sinônimo de opções, escolhas e possibilidades.
  e) Todas as alternativas acima.

6 – Tatuagem
aa)  Esconder alguma coisa debaixo da terra.
bb)  Cicatriz voluntária.
cc)  Desenho indelével na pele humana.
dd)  Indelével significa que não sai. Letra C.

7 – Klotz
aa)  Palavra de origem alemã, significa cepo.
bb)  Pessoa bem-humorada.
cc)  Autor de livros de contos e crônicas: Pepino e farofa; Quase pisei!; Cara de crachá.
dd)  Autor do Manual do escritor.
ee)  Vende os próprios livros.
f f)  Todas as alternativas estão corretas.

8 – Prato  (Questão para que nenhum estudante tire zero e seja desclassificado do ENEM)
aa)   Louça para apoiar comida.
bb) Jogador de futebol do Bayern de Munich.
cc)   Masculino de prata.
dd)  Galináceo palmípede que faz qrúem qrúem.
ee)  Objeto arremessado por esposas dóceis.
f f)  Utensílio que deve ser lavado apenas por mulheres (se assinalar letra f, será expulso da comunidade feminista).

9 – Palangana (Questão para que só nerds consigam nota máxima no ENEM)
aa)  Tabuleiro onde são levados os assados à mesa.
bb)   Jogador de futebol do Boca Juniors.
cc)    Feminino de palangano.
dd)  Faca para trinchar patos.
ee)  Objeto ofertado por maridos apaixonados.
ff )  Utensílio que deve ser lavado apenas por mulheres (se assinalar letra f, também será expulso da comunidade feminista).

10 – Game
a a) Verbo gamar na terceira pessoa do pretérito subjuntivo.
bb)     Atividade que impulsiona os estudos.
cc)    Professor sofre para criar alternativas.
dd)   Palavra que quando associada a vídeo significa empolgar pelos estudos.
   e)  Palavra de origem Atari, que ao ser sucedida de over significa fim de prova ou de jogo. 

16 novembro 2018

A LOUCA
DA CASA
Rosa Montero
Editora Harper Collins
176 páginas
R$ 30,00


Quando o livro foi sugerido no Clube de Leitura eu não estava prestando atenção.
Intuí, erradamente, tratar-se de uma autora brasileira no topo de best sellers.
Santa ignorância!!!
Em vez de Monteiro é Rosa Montero, autora espanhola. O livro é de 2013, publicado no Brasil em 2016 e a temática é o ofício do escritor.

Na ficha catalográfica o livro é rotulado como romance, mas no meu entender é um delicioso bate-papo com uma escritora que tem o que dizer e contar e ensinar e fazer pensar com originalidade sobre o próprio ofício.
É como se fosse um programa de televisão com uma entrevistada envolvente e inteligente. As conversas não são lineares como numa narrativa, então em vez de opinar como seria de se esperar sobre uma resenha, resolvi recortar e colar trechos que me pareceram construtivos ou marcantes.
Pág 62 – “Vale a pena ser continuar sendo criança em alguma região de si mesmo. Vale a pena não crescer demais.”.
Pág 63 – “A qualidade literária é um dos valores mais subjetivos e mais dificilmente mensuráveis que conheço; ”. “A história demonstra que nem o sucesso em vida nem os prêmios, nem, ao contrário, o fracasso e a contrariedade dos críticos foram alguma vez a prova confiável da qualidade de uma obra. E nem sequer o tempo põe as coisas em seu lugar, como gostaríamos de acreditar por precisarmos de certezas; algumas vezes, caíram por puro acaso em minhas mãos  romances de autores antigos totalmente esquecidos e fora de catálogo, que, no entanto, achei ótimos, e previsivelmente eles nunca mais regressarão do cemitério.”
Pág 75 – “Escrever ficção é expor à luz um fragmento muito profundo do inconsciente.”.
Pág 80 – “Para ser um bom escritor, é preciso desejar sê-lo, e desejar, aliás, de maneira febril. Sem a disparatada e soberba ambição de criar uma grande obra não se consegue escrever sequer um romance médio.”.
Pág 100 – “O romance é o único gênero literário em que reinam a mesma imprecisão e falta de limites que reinam na existência humana. É um gênero sujo, híbrido, agitado. Escrever romances é um ofício sem glamour; somos os operários da literatura e precisamos colocar tijolo por tijolo, manchar as mãos e exaurir nossas costas no esforço de construir uma humilde parede de palavras que, quem sabe, vai acabar desmoronando.”.
Pág 101 – “Mesmo os melhores romances da história, os grandes romanções maravilhosos, têm páginas fracas, perdas de tensão, carências óbvias. Eu gosto disso. E me reconheço nisso; isto é, reconheço o fôlego hesitante das coisas.”.
E é lógico que uma autora mulher sempre é questionada sobre a escrita feminina.
Pág 108 – “Quando uma mulher escreve um romance protagonizado por uma mulher, todo mundo considera que está falando das mulheres; mas se um homem escreve sobre um romance protagonizado por um homem, todo mundo considera que está falando do gênero humano?
Não tenho nenhum interesse, absolutamente nenhum, de escrever sobre mulheres. Quero escrever sobre o gênero humano, mas por acaso 51 por cento da Humanidade é do sexo feminino; e como eu pertenço a esse grupo, a maioria dos meus protagonistas absolutos são mulheres, da mesma maneira que os romancistas geralmente criam personagens principais masculinos. E já é hora de os leitores homens se identificarem com as protagonistas mulheres, da mesma maneira que durante séculos nós nos identificamos com os protagonistas masculinos, que  eram nossos únicos modelos literários; porque essa permeabilidade, essa flexibilidade do olhar nos tornará a todos mais sábios e mais livres.”.
Pág 112 – “Se os homens tivessem regras, a literatura universal estaria cheia de metáforas do sangue.”
A autora aborda outro tema tão caro aos brasileiros: a escrita politizada.
Pág 109 – “Detesto a literatura utilitária e militante, os romances feministas, ecológicos pacifistas ou qualquer ista que se possa pensar, porque escrever para passar uma mensagem trai a função primordial da narrativa, seu sentido essencial, que é o da busca do sentido. Escreve-se, então para aprender, para saber; e não é possível empreender essa viagem de conhecimento levando previamente as respostas.”.
Pág 39 – “Para mim, o famoso compromisso do escritor não consiste em engajar suas obras a favor de uma causa (o utilitarismo panfletário é a traição máxima ao ofício; a literatura é um caminho do conhecimento que precisamos percorrer carregados de perguntas, não de respostas), e sim em permanecer sempre alerta contra o senso comum, contra o preconceito próprio, contra todas as ideias herdadas e não questionadas que se infiltram insidiosamente em nossa cabeça, venenosas como o cianeto, inertes como o chumbo, más ideias que induzem à preguiça intelectual. Para mim, escrever é uma maneira de pensar; e deve ser o pensamento mais limpo, mais livre e mais vigoroso possível.”.
Pág 113 – “É raríssimo um escritor que cultive um único gênero”.
Pág 127 – “A morte também é leitora, por isso, recomendo ter sempre algum livro na mão, porque assim, quando a morte chega e vê o livro, se espicha toda para ver o que você está lendo, como eu faço no ônibus, e então se distrai. “.
Pág 167 – “O que o romancista faz é desenvolver múltiplas alterações, essas irisações da realidade.”. “O escritor pega um grumo autêntico da existência, um nome, uma cara, um pequeno episódio, e começa a modificá-lo mil e uma vezes, substituindo os ingredientes ou dando-lhes outra forma, como se estivesse rodando indefinidamente os mesmos fragmentos para construir mil figuras diferentes.”.
Esse fragmento é importante porque traduz o que Rosa Montero fez como fio condutor do livro ao contar três vezes a mesma história com mesmos cenários e personagens, porém ingredientes variados levaram a fechamentos verossímeis, mas absurdamente diferentes.
Eu questionei se o romance era um bate-papo descontraído, agora deixo para você questionar se esta resenha é um resumo.
Além de delicioso, o livro passa a ser um livro de consultas.
Recomendo para você que escreve e para você que tem prazer em ler.

16 agosto 2018




VÉSPERA DE LUA


Rosângela Vieira Rocha

Editora Penalux
144 páginas
R$ 38,00




Acabo de terminar a leitura de Véspera de lua.

Amei o espetacular encerramento com a carta de Ester.

O homossexualismo continua tabu e com pessoas desinformadas e preconceituosas.

Sou preconceituoso – dificilmente assumimos.  Mas a palavra diz que é conceito adquirido antes da razão. Assim, respeito e admiro quem tem força para assumir posturas perante todos e ainda ajudar outros a entender mundos de cortinas fechadas.

Ensinar, falar, discutir , como você bem fez, é diferente de impor ideias.

Continuo lutando contra meus preconceitos enraigados.  São muitos e de toda ordem.  Quanto mais conhecemos, melhor compreendemos.

Só o conhecimento pode atenuar. Razão e sentimento brigam internamente.

Aprendi muito com o livro. Parabéns. Parabéns de verdade.



Em tempo – livro vencedor do Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG 1988 – romance, agora reeditado pela Penalux.

19 abril 2018


Frankenstein
    
Mary Shelley
       
Editora Darkside

304 páginas de terror

R$ 45,00


Uma das perguntas que eu me faço quando termino um livro é: qual foi a mensagem que autor quis passar.

Neste Frankenstein, não precisei terminar para ter a resposta.

A análise na introdução do romance sugere que Frankenstein seja uma história sobre a moral.

“A ambição desordenada, o desejo não contido pelo conhecimento a qualquer preço, um senso de cumprimento do destino e o perigo de isolar-se do amor e da amizade ameaçam transformar qualquer homem em monstro.”

Tanto que (pág 44): “A vida ou a morte de um homem seriam preços irrisórios a se pagar pela aquisição do conhecimento que busco, pelo domínio que devo conquistar e legar sobre os inimigos mais elementares  de nossa raça.”

E continua (pág 46): “Espero que a gratificação de seus desejos não se transforme na serpente que o morderá.”

Esta não é a única mensagem, nem a única questão que leva à reflexão. Pode-se questionar o abandono de filho nascido com problemas, a influência da aparência física pela sociedade ou mesmo a falta de um igual para troca de afinidades.

Mesmo que você não tenha lido o livro ou visto uma das versões do romance nas telas do cinema, não é necessário fazer uma sinopse, pois todos sabem que se trata da história de um ser monstruoso criado por um cientista em seu laboratório. Assim como o altíssimo monstro da família Adams, este tem uma alma dócil até ser contrariado. Talvez você não se lembre do fim. Então farei a desgentileza de dizer que nesta história de terror o monstro não morre para dar a impressão que pode estar por perto a qualquer momento. Inclusive atrás da sua cadeira.

A estrutura do romance é espetacularmente perfeita. A autora domina a arte de tecer a escrita, tanto que inicia o capitulo IX dando uma receita de expectativa: “Nada é mais doloroso para a mente humana, após os sentimentos serem instigados por uma sucessão rápida de acontecimentos, que a calma mortal da inação e a certeza que se segue e priva a alma tanto da esperança quanto do medo.”

O discurso da virada em que a criatura se transforma de gentil apara agressivo, é ótimo e pode se resumido (pág 113) em ”Em todo lugar vejo a felicidade que somente a mim é irrevogavelmente negada. Fui benevolente e bom; A infelicidade transformou-me em demônio. Faça-me feliz e serei virtuoso novamente.” Lentamente externado o sentimento de vingança (pág 145) “Desde aquele momento, declarei guerra eterna contra a espécie, sobretudo, contra aquele que me criou, abandonando-me nesta angústia insuportável.” Que jorrou em fúria em (pág 153) “Se não puder inspirar amor, causarei medo, e principalmente a você, meu arqui-inimigo pois meu criador, juro um ódio inextinguível. “

A autora trabalha com a imaginação e o pensamento sabendo que causam mais pavor que a confrontação com a realidade lançando uma maldição e repetindo-a várias vezes.: “Estarei com você em sua noite de núpcias.”

Quando o criador está marcado de terror pela perseguição do monstro, faz um juramento arrepiante (pág 209): “Pelo solo sagrado em que me ajoelho, pelos espetros que pairam à minha volta, pelo pesar profundo e eterno que sinto, eu prometo; e por você, oh, noite, e pelos espíritos que a regem, juro perseguir o demônio que causou essa miséria até que um de nós pereça em um embate mortal. Para tal propósito, resguardarei minha vida. A fim de executar essa sentença tão cara, contemplarei novamente o sol e trilharei as pastagens da terra que, de outro modo, deveriam apagar-se de meus olhos para sempre. Invoco-lhes, espíritos dos mortos, e a vocês, prófugos ministros da vindita, pra que me auxiliem e conduzam em meu labor. Deixem que o monstro amaldiçoado e infernal sorva profunda agonia; deixem-lhe sentir o desespero que ora me atormenta.”

A leitura é um pouco cansativa pelo estilo romântico da época. Nem assusta ou aterroriza, mas é um clássico da literatura mundial, que praticamente inaugurou e é a base do gênero de terror. Desde pequenos recebemos as mensagens numa tela enorme com mil peripécias sonoras. Na época não havia televisão, nem imagens em 3D, nem sequer havia energia elétrica.  A mente era provocada apenas pelo virar de páginas.  Tem muita qualidade, merece ser lido ainda mais na primorosa edição comentada da Darkside.
 
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