Misteriosa figura de chapéu coco, calada em seu olfato e emudecida no olhar por uma pomba branca. Quem é você? Olho para sua imagem e não tenho respostas, apenas mais perguntas e questões. Por que se esconde atrás do símbolo da paz? Ou foi a paz que o deixou sem sentidos? Você está triste com a rápida passagem da pomba ou alegre por ela ter chegado? O que você oculta? Debocha das minhas dúvidas ou está feliz por encontrar alguém questionador? Você já se olhou no espelho? Reparou que a sua gravata é de uma cor indefinida? Hoje de manhã você levantou, tomou banhou, barbeou-se, vestiu-se com aprumo e colocou gravata cor de incógnita só para me provocar? Ou faltaram vermelhos ao pintor? Ou será que o artista escolheu um acessório discreto para que todo o impacto do quadro ficasse na pomba? Impacto? Impossível. Não há impacto. A pomba voa livre, nada sugere colisão com a não moldura. Ao artista você posou imóvel durante horas para que seu retrato ficasse perfeito. A pomba infeliz não posou nem pousou. Talvez devesse sujar seus trajes para você sair ultrajado da posição estática. A sua negra passividade contrasta com a mobilidade branca da pacífica pomba. E daí? Daí, se mexesse, eu poderia vê-lo. Mas não, permanece oculto e continuo sem saber quem é você. Procuro mundo afora. Reviro canções, vasculho temperos, questiono peixes, apalpo nuvens, farejo um álbum de fotografias. Estranha figura de chapéu coco, eu o encontrei. Você é um brincalhão que olha um ovo e pinta uma ave, vê uma ave e faz um óleo da Eva. Descobriu muito antes dos publicitários que um simples símbolo pode significar uma idéia. Dois dedos em vê podem significar a vitória, uma cruz identifica o cristianismo, uma pomba com um ramo de oliveira expressa a paz e um homem sem rosto e de chapéu coco pode perfeitamente representar René Magritte. Assim sendo, prezado monsieur Magritte, me engana que eu gosto, uma pomba na frente de um rosto não é a paz à sua frente. É apenas uma tela com uma pomba ocultando o rosto de um homem de chapéu coco.
As profundezas do oceano sugerem frio, escuridão, tristeza, silêncio, trevas e claustrofobia. Exatamente o oposto do que acontece na Atlântida. Dentro da enorme bolha submersa vive um povo dançante, iluminado, extrovertido, corajoso e autoconfiante.
A enorme ilha afundou intacta num terremoto de outras eras. Intactos também ficaram a pirâmide, a ciência e a filosofia dos habitantes daquele pedaço de terra afastado do mundo.
Ao naufragar, arrastou consigo uma enorme bolha de oxigênio e quando tocou o fundo do mar desencalhou uma jazida de rocha de fogo. As pedras irradiavam luz e calor. Em pouco tempo os trabalhadores grudaram milhares de fragmentos da rocha na superfície da abóbada que se transformou em céu de lua cheia. Os cientistas desenvolveram sistemas de irrigação e colheita para as terras férteis. Graças à comida fácil e abundante os ilhéus aplicaram o tempo disponível na educação e na cultura. Ampliaram conhecimentos e retiraram energia a partir do movimento do mar. Em algumas gerações de união, perseverança e isolamento construíram uma fabulosa e fantástica vila. Todos moram em casas espaçosas, ventiladas e iluminadas. A pirâmide é reservada ao comandante e aos cientistas, a elite de Atlântida. As máquinas realizam todos os serviços desagradáveis ou que demandam esforço físico. Tudo é meticulosamente organizado e limpo. Tampouco há desperdício. Iluminação, transportes e comunicações funcionam com precisão e pontualidade. Os atlantes têm uma vida confortável.
Os trabalhadores são muito animados. Amam as segundas-feiras, o único dia em que podem sair da bolha, após a ginástica, para colher algas e crustáceos. Dedicam três dias ao desmonte de navios e aviões e à manutenção dos equipamentos da bolha e enquanto os três dias restantes da semana são destinados à música e à dança. Os cientistas preocupados com o bem estar da população temem que alguma revolta por mais espaço e por mais filhos resulte no fim da qualidade de vida. Formularam as leis decretadas pelo comandante. Leis inflexíveis e severas. Todos devem que segui-las à risca de pesados castigos. À distância Atlântida parece ser o Éden. Não é.
O problema de Atlântida é o espaço fisco. Conforme os estudos e a experiência chegaram à conclusão que o limite máximo é de 5.000 habitantes sob pena de perda na qualidade de vida. Sempre que a cifra tétrica é atingida, alguém deve ser sacrificado. E esta escolha é decidida entre as paredes da pirâmide. Os cientistas se preocupam com a melhoria genética. Os escolhidos invariavelmente são portadores de alguma deficiência. No passado, a miopia ou a calvície justificavam a sentença. Devido às inúmeras uniões consangüíneas dentre a pequena população, mais recentemente a situação se agravou com o surgimento de uma misteriosa doença que, paulatinamente, enrijece e enfraquece primeiro pernas e depois braços, além de afetar a postura em geral e, em menor intensidade, a visão e a fala. Todos são alegres, todos dançam, porém os sacrifícios são constantes e ultimamente afetam inúmeros recém-nascidos. A música diminuiu o volume.
A solução, todos sabem, está acima da superfície do mar. Há três séculos capturam navios e mais recentemente fisgam também aeronaves que trafegam na região conhecida por Triângulo das Bermudas. Exceto homens, aproveitam tudo que encontram nas embarcações. Documentos, metais, combustíveis e alimentos. Os navios e aviões invariavelmente têm tripulação masculina o que levou os cientistas, nos últimos 50 anos, a desenvolverem técnicas de retirada de sêmen para inseminação artificial visando à melhoria genética do povo submerso. A solução é paliativa. A única saída para a salvação de Atlântida é o aumento da área. É a conquista de novos territórios.
Com a captura das aeronaves atuais, os cientistas confirmam a evolução muito grande dos terráqueos. Breve, muito breve, eles, os homens da superfície, terão condições de localizar a bolha e descobrir onde são desmontados os jatos. Saberão onde está e quem a habita. Não os deixarão em paz. Enviarão sondas e submarinos. A bolha será furada. Será a destruição. Será o fim.
O comandante, apoiado pelos estudos dos cientistas, reúne a população para, num discurso, informar que é chegada a hora de sair da defensiva e partir para a ofensiva. Confirma o sucesso absoluto do último teste realizado na região da Indonésia onde uma ilhota foi afundada trazendo consigo uma bolha de oxigênio. A ilha pousou suavemente no fundo do oceano exterminando todos os habitantes com a elevada pressão. Cem trabalhadores serão contemplados para fazer a viagem exploratória para conhecer nosso triunfo. Estes felizardos também terão a oportunidade de comprovar como os terráqueos são uma ameaça pelo modo como se refizeram da tsunami e rapidamente repovoarem toda a região afetada.
O comandante continuou o discurso com palavras sobre o futuro. Precisamos abalar profundamente o poder e a força dos seres da superfície além de provocar enormes baixas na população. Confirmo o fim dos testes, comprovamos nossa capacidade de provocar uma bolha do tamanho da nossa necessidade. E, por questões estratégicas planejamos duas novas moradias para o povo atlante. Ao afundarmos as ilhas simultaneamente, provocaremos ondas gigantes para abalar todos os poderosos do planeta. Afundaremos Cuba e Hondo, a maior ilha do Japão.
A contagem regressiva para a nossa expansão começa agora. Viva!
Face anterior do sarcófago de Fedra. Data: AD 290. Paris, Musée du Louvre. Foto: Marie –Lan Nguyen
Apresentação das personagens
Fedra nasceu em berço de ouro, não era uma suburbana qualquer, tinha árvore genealógica repleta de gente da alta sociedade. Era de linhagem nobre com descendência direta do Rei Sol. Sempre teve tudo o que quis. Bela, exercia grande fascínio sobre os homens. Habituou-se a exercer sua magia para conquistar o que desejava. Caprichosa, passional, fútil, ninfomaníaca. Ainda muito cedo descobriu que o que interessava aos meninos estava um palmo abaixo do seu próprio umbigo. Usou esse conhecimento para obter vantagens e livrar-se dos inimigos. Rumores dão conta de que teria sofrido abuso sexual na primeira infância o que explicaria algumas de suas atitudes adultas. Freud, sem constrangimento, a rotularia de perversa.
Teseu, viúvo, era jogador inveterado. Somou fortuna arrasando seus adversários, tomando-lhes automóveis, casas e mulheres. Compulsivo fumante de charutos cubanos e uísque escocês. Exibia as mulheres mais bonitas do planeta. Gostava da companhia das mulheres, dizia que eram amuletos. Usava-as como um colecionador, mantendo-as intocadas, talvez para não estragá-las. Mantinha uma suíte nupcial especialmente para as suas conquistas. Os empregados diziam que a suíte era freqüentada apenas mensalmente. Freud, certamente diria que Teseu, apesar do sugestivo nome, era impotente.
Hipólito, filho de Teseu e Antíopa. Possuía cachos dourados e um corpo de abalar Atenas. Freqüentava academias de ginástica e dança moderna. Com seus discursos a favor da castidade repelia as investidas femininas. Vaidoso a ponto de gastar horas modelando os cabelos anelados protegidos por uma redinha sempre que saía com a Porshe amarela conversível, presente do pai. Visionário, triunfou como produtor musical, sendo responsável pelo sucesso de grupos como ABBA e Village People. Dizem que foi precursor no uso de anabolizantes e depilação completa para homens.
Breve resumo dos fatos — surge o conflito
Conheceram-se em Nova Iorque numa das noitadas promovidas no Studio 54 por Andy Warhol. Fedra foi ao encontro de Teseu com um Valentino negro, sóbrio, poderoso e colante. Estava arrasadora. Teseu exibiu Fedra durante uma semana antes de se casarem. A lua-de-mel foi inesquecível: a esposa, em casa, na Califórnia e o marido em um cassino no Arizona. Durante uma semana a fogosa e entediada mulher aproveitou para conhecer e explorar toda a mansão levada pela doce mão de Hipólito.
Alegando negócios, Teseu estava sempre ausente de casa. Enquanto isso Fedra ensinava os mistérios da maquiagem ao enteado que retribuia com massagens. Fedra se apaixonou e presenteou Hipólito com uma coleção de barbies.
Apesar da maravilhosa esposa, Teseu visitava o quarto nupcial apenas uma vez por mês, quando não estava viajando, de modo que a única alegria de Fedra era apreciar o corpo bronzeado e escultural de Hipólito na beira da piscina. Não havia mulher que não se apercebesse da fome da paixão nos olhos de Fedra,
Teseu passou o Natal de 2004 na Indonésia e não voltou. Fedra concluiu que a grande tsunami matou Teseu, e se declarou a Hipólito.
O conflito se agrava — anuncia-se a tragédia
Uma noite Fedra entrou silenciosa no quarto de Hipólito. Acendeu uma luz suave ao som do rouco Joe Cocker cantando “You can leave your hat on”. Tirou todas as peças devagar, mordendo os lábios, movendo os quadris em “Nove e meia semanas de amor”. Nenhum homem resistiria àquela boca carnuda implorando desejos. Hipólito jogou-a em cima da cama. Fedra antecipa o prazer imaginando uma longa noite de lascívia selvagem. Entrega-se.
Antes do tapa explodir em seu rosto ouviu-o, aturdida, mandando-a embora e ameaçando contar tudo ao pai.
Epílogo — A tragédia se consuma
A reação de Hipólito lançou-a num mar de medo, rejeição e ódio.
Sentiu-se a mais vil das criaturas, desprezada e repelida como um cão sarnento. A dor da rejeição transformou amor e tesão em medo e ódio mortal.
Assim que Teseu chegou de viagem, Fedra acusou Hipólito de tê-la violado sem chances de defesa.
Furioso, Teseu reuniu amigos que lhe deviam favores e encomendou a morte do filho.
Os jornais do dia seguinte estamparam, na primeira página, fotos da Porshe amarela caída num penhasco. A nota apontava que uma overdose teria sido a causa do acidente, uma vez que a polícia encontrou dois papelotes no porta-luvas e outro no bolso do morto.
Fedra presenciou o enterro com um sorriso misterioso antes de tomar 150 comprimidos de Lexotan ao som do piano de Ravel interpretando “Pavane pour une enfante défunte”.
Eu não quero ficar aqui. Aqui só tem cachorro! Pouco me importa se fedem a latões de lixo ou se estão limpos, cheirosos, perfumados ou engravatados. Continuam cachorros. Eu detesto essa correria, o monte de latidos e a falta de educação nas refeições. Sempre disseram que o céu era cheio de anjinhos, só vejo cães. Idealizei criancinhas barrocas de cabelos encaracolados e bundinhas aparentes. Antevi a felicidade de olhos azuis com asinhas brancas. Sonhei em brincar de bola e correr atrás de auréolas. Mas qual o quê, aqui só tem cachorro! Grande, pequeno, peludo, careca, de raça ou desgraçado. Só cachorros. Com quem eu vou conversar? Quem é que vai me pegar no colo? Quem vai me levar para dormir? Quem vai me dar um biscoitinho na boca? O que é que eu estou fazendo aqui? Ó, São Pedro, me tire daqui. Vocês se enganaram. Meu nome não está na lista. Pode conferir. Está em ordem alfabética? Meu nome é Riobaldo. Riobaldo Grande Sertão, mas pode me chamar de Baldo. A Ana, minha dona, escolheu esse nome porque gostava de Guimarães Rosa. Nunca leu. Ela viu um livro com uma foto do moço e gostou. Ela escolheu bem. Pensou se fosse Diadorim? Diadô! Pensou? Se tivesse escolhido Diadorim eu não estaria aqui no céu. Estaria? Diadorim seria um bom nome para um dobermann preto, bravo e dentes afiados. Para mim, não, eu sou gente. Acho constrangedor andar pelado aqui no meio das nuvens. A Ana, quando saia comigo, colocava uma roupinha em mim. É verdade que eu sempre reclamei. Eram apertadas e muitas vezes atrapalhavam a corrida atrás de alguma chiuaua mais redondinha. Agora, nos últimos tempos, ela inventou de colocar uns sapatos em mim. No começo achei ruim, depois me acostumei e cá entre nós, São Pedro, nunca mais gripei. Diga-me, devo descer as escadas ou tem elevador? Toda vida desci e subi pelo social. Fico no térreo, tá bom. Não quero ir até o subsolo. Posso fazer uma pergunta? Cachorro vai à igreja? Não, né? Só nas piadas. Pois eu ia. Quase todos os domingos eu ia à missa com a Ana. Ela me enfiava dentro da bolsa e eu ficava ali, bem quieto, prestando atenção nas rezas. Teve uma vez, quando eu ainda era adolescente, que eu comunguei. Ela ficou muito brava comigo, mas deu mole com aquele biscoitinho e eu detonei rapidinho. Foi só uma vez. Ela falava para mim que eu não podia comungar porque eu era um pecador. Pecador? Logo eu? Eu sei muito bem o que a Ana faz trancada no quarto com o namorado. Sei porque vi duas vezes antes do namorado me expulsar. Preciso falar com a Ana. Ela precisa me buscar. Ó, São Pedro, tem algum telefone por aqui? Não? Um celular, quem sabe? Hoje todos têm celular, você não tem um celular? O orelhão é de ficha ou cartão? Também não tem orelhão? Todo shopping center tem orelhão. Nem tudo está perdido. Você pode me informar se aqui tem alguma lan house? Não sabe o que é uma lan house? Como é que vocês se comunicam aqui em cima? Será que preciso achar um pai-de-santo para falar com a Ana? Preciso descer agora, daqui a pouco é hora da janta.
Chego aos boxes, olho no monitor e vejo o acidente. Fixo as imagens, tiro o capacete e a balaclava, balanço a cabeça e me afasto. Terrível. O choque foi terrível. Acho que morreu.
O monitor dos boxes repete a cena em que o Fórmula 1 do austríaco Roland Ratzenberger se choca violentamente contra o guard-rail na pista de Ímola. Ayrton Senna se dirige a um carro da direção da prova enquanto médicos e para-médicos fazem a massagem cardíaca no acidentado.
Ontem foi o Rubens, gente boa. Ele me disse que estava ok.. Mas como pode estar bem? Todo esfolado, com a cara enfaixada e o nariz quebrado? Idiotas, queriam me barrar. É um absurdo ter que pular muros para ver um amigo no hospital. Será que querem tapar o sol com a peneira? Será que pensam que somos idiotas? O que eles querem? Querem enfiar feridos debaixo dos tapetes? E o Rolly, meu Deus, foi gravíssimo!
Senna rapidamente chega até o local do acidente, vê os restos mortais do carro sendo içado pelo guincho. Abre caminho entre jornalistas, bombeiros, fiscais de pista e em segundos o médico informa que não há esperanças. Sem dizer palavra, retorna ao carro que aguarda com as luzes do teto faiscando emergência. No paddock troca palavras ásperas com dirigentes da Federação Internacional de Automobilismo, se isola chorando atrás dos boxes e finalmente entra no motor home.
Tranco a porta. Malditos fotógrafos, me deixem em paz! Vocês só querem manchetes, agora eu não sou manchete. A primeira página está lá no asfalto, rodeado de destroços, pesadelos e aves de rapina. Xô, urubu, xô urubu! Morreu. O Rolly morreu. É isso que vocês querem, vocês querem vender jornal com as nossas vísceras! A tevê vai matar 200 vezes. Vai matar rápido, vai matar lento. Vai matar à distância, vai matar em close. Vão pra lá, urubus, lá está o cadáver que vocês querem. Jogo o boné azul em cima da mesa. Patrocinadores. Patrocinadores, vocês fazem parte deste jogo sórdido. Neste momento, algum de vocês pede foco no logotipo do carro içado com um anzol entre os olhos. Dinheiro. Dinheiro. Dinheiro. O chefão manda que não divulguem fotos com a marca da equipe. O Rolly morreu. O Rolly morreu, meu Deus! Cadê nossa segurança? Dirigentes só querem money. Money. Just money. Crápulas. Idiotas. Sanguinários. Digo pros filhos-da-puta que precisamos ter mais segurança e o que ouço? Que a minha função é pilotar! Morreu, o Rolly morreu! De que me adianta a minha luta, minha garra, minha determinação? Deus, Você é maior, dá-me a mão para pilotar. Vocês diabos, pegam minha mão para assinar contratos. Só me resta tirar o dinheiro dos diabos e entregar aos pobres.
Fecho os olhos, levanto a cabeça em devoção. Com a mão direita pego minha Cruz de Cristo, levo-a aos lábios e beijo.
Ave Maria,
cheia de graça,
o Senhor é convosco.
Bendita sois vós entre as mulheres
e bendito é o fruto do vosso ventre: Jesus.
Santa Maria, Mãe de Deus,
rogai por nós, pecadores,
agora e na hora da nossa morte.
Amém.
Julgam que tenho talento, talento tem o Michael... vocês não sabem, vocês não vêm minha dedicação, esforço, renúncia, treinos, concentração, repetição até a exaustão. Vocês não sabem das minhas preces, orações e agradecimentos. Vocês querem corrida? Vocês querem ver a platéia delirando? Vocês querem dinheiro? Vocês querem show? Eu, com ajuda de Deus, darei o que vocês querem. O campeonato, para mim, começa agora. Fiz a pole, farei a melhor volta e levarei os dez pontos. Não me entrego, estou de pé! Vocês vão sorrir de novo. A temporada de caça começou! Vou alcançar o coelho. Vou jantar o coelho. Depois da quadriculada, a brasileira vai tremular. Brasileira? Ah, Rolly, vou levar uma da Áustria, por você Rolly, por você!
Como de hábito, fecho os olhos, levanto a cabeça em devoção. Com a mão direita pego minha Cruz de Cristo, levo-a aos lábios e beijo.
Pai Nosso que estais no céu,
santificado seja o vosso nome,
vem a nós o Vosso reino,
seja feita a Vossa vontade
assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje,
perdoai-nos as nossas ofensas,
assim como nós perdoamos
a quem nos têm ofendido,
não nos deixei cair em tentação
mas livrai-nos do mal.
Amém.
A bandeira, por você Rolly e por mim. Já houve acidentes antes. Sempre haverá acidentes. Mesmo depois de batidas alguém vence. Sempre há um vencedor. Ninguém me segura na chuva, vou vencer tempestades. Se eu quiser vencer, e eu quero vencer, tenho que reunir todas as minhas forças, todos os meus limites. Vou...
Batem na porta.
— The interview! They're here!
Fuck! — I'm coming! Respondo seco.
De que me adianta chorar? Amanhã devo sentar no meu esquife e pilotar! Melhor lavar a cara com água fria e enfrentar logo a realidade.
Espalho água no rosto. Ensopo meus cabelos. Quando jogo a cabeça para o
alto — prendeu na torneira — Merda! Que merda... arrebentei o cordão.
Desolado. Recolheu a corrente e a medalha na mão.
Fecho os olhos, levanto a cabeça em desespero — Deus, não me abandone! Por favor Deus, não me abandone, eu Vos imploro!
Já passei dos 30 anos, ok, passei dos 40. Você quer que eu seja totalmente honesto e franco, e externe a minha idade inteira? Todinha? Quilômetros, metros e centímetros? Este bem, já me chamaram de velho sem vergonha algumas vezes. Então, eu assumo. Estou com, aham, cinco meia. E daí? Onde você quer chegar? Mais alguma cantada criativa? Quer que comente o comportamento adequado a uma pessoa na sua idade? Bom, é que pessoas, assim como eu, passados dos 30, que não têm muita intimidade com a informática, apenas com a informática, quando ousamos criar um blogue e não recebemos comentários, imaginamos que ninguém visita, ninguém lê, ninguém entra no blogue. Desânimo total. Ficamos tristes e desestimulados. Quase o abandonei num arquivo morto, lá no fundo de uma gaveta escura do meu micro. Ele até já estava descolorido quando a juventude apareceu na forma de um contador. Uau! Quanta energia! Em vez das 3 visitas mensais imaginadas, o contador mostrou em torno de 32, 5 visitas diárias mesmo sem anúncios ou divulgação. É lógico que tirei o blogue do fundo da gaveta e botei cor. Isso merece comentários.
Fui acordado com o duelo de dois sabiás disputando uma fêmea sob a primeira garoa anunciando a redenção da seca. Em seguida o jornal anunciou a letra do passarinho mais galante: “Não se assuste se acordar sendo carregado por formigas. Se isso acontecer, é porque você é um doce.” Obrigado, meu dia já está completo.
Depois do expediente eu estava com vontade de comer alguma coisa, por isso quando entrei no barzinho, em vez das pessoas, procurei olhar para os pratos. Ainda era cedo, poucos mastigavam, até havia alguns lugares para sentar. Passei por três mesas repletas de cervejas, velas coloridas, cachacinhas de alambique e amendoins em pequenas vasilhas transparentes. Na quarta mesa havia uma pizza. Quatro taças de café e uma pizza individual recém-entregue. Uma pizza de morangos com queijo derretido escorrendo do prato. A repugnância provocou-me contrações mal disfarçadas. Olhei para o dono do prato. Era de uma mulher que combinava com pizza de morango. Uma refeição estranha para uma pessoa estranha. Não há o que descrever na estranhíssima comida, mas a moça já passou dos vinte anos, madura, isso é certo.
Cabelos negros com cachos cuidadosamente esculpidos pelo vento. Um delicado brinco sobressai na sobrancelha bem cuidada que emoldura olho de alegria faiscante. O rosto comprido e os cabelos curtos revelam dois piercings na parte superior da orelha. No lóbulo, uma pedra sinaliza verde para mim.
Sentei-me numa mesa favorável ao voyeurismo explícito à dona dos piercings e morangos
Sob a manga comprida do casaco, perto do pulso direito, traços escuros sugerem uma tatuagem. A postura ereta denota pessoa de personalidade forte - fiz tatoo, botei piercing, falo palavrão e faço careta - ela exerce um certo domínio na conversa, uma espécie de liderança. As três amigas da mesa são mais jovens que ela. É deselegante falar em idade após os vinte. Após os trinta, há, é falta, de educação.
Ela percebe que eu a observo e sorri discretamente sem interromper a fala.
Acho graça. Como posso simpatizar com alguém que come pizza de morangos? E se delicia lascivamente?
Ela é uma mulher diferente com seus atrativos metálicos. É extrovertida e expansiva apesar do olhar carente.
Ela leva as duas mãos para o botão superior do casaco. Abre e segue suavemente para o segundo botão. Ela não olha para mim e abre provocativamente. Uma blusa preta apertada surge por debaixo do casaco. Quando as mãos abrem o terceiro e último botão ela, tira o casaco sensualmente livrando os ombros e desnudando enormes tatuagens multicoloridas em ambos os braços. Recebo uma piscadinha maliciosa e em seguida os botões rapidamente voltam para suas casas e enclausuram surpresas.
O impacto foi devastador. Tão excitante quanto uma cruzada de pernas sem calcinhas.
– Uma cerveja, bem gelada e – estalei os dedos – por favor, um cardápio. – Pedi ao garçom.
Ela é uma mulher de vanguarda, lança moda e modismos. Não tenho dúvida nenhuma. É uma líder. Se ela criar uma expressão nova, o grupo vai imitar. Se ela usar um capacete de bombeiros, passará a ser o uniforme da empresa no dia seguinte. Depois que ela pediu pizza de morangos e lambeu os dedos será destronada, perderá o trono de rainha. Será apenas uma louca sem paladares que come pizza de morangos acompanhada de café. Argh!
Prefiro comer comida salgada. Procuro por pizzas no cardápio. Encontro empadas, crepes e coxinhas recheadas. Nada de pizzas. Nenhuma única pizza.
– Ó, garçom! Por favor eu quero comer uma pizza, traga-me o cardápio das pizzas.
– Não servimos pizzas aqui.
– Mas naquela mesa – apontei com o nariz – estão comendo uma.
– Aquele prato, senhor, é nosso carro-chefe, waffle com sorvete de creme e morangos. Aparências enganam.
No dia 25 de dezembro o policial chegou ao vigésimo quinto andar e abriu a porta, nem precisou arrombar. A negra cortina do escritório balançava ao vento transformando meio-dia em caverna. Apesar dos telefones nas dezenas de mesas, o silêncio era ensurdecedor, ninguém na sala, só uma folha de papel jazia no chão. Dr. Paulo, o senhor queria que eu desse meu sangue para a empresa. Conseguiu. O brilho de um monitor de computador sugeria ter sido aquela a penúltima janela do morto no térreo.
José Rubens Borba de Oliveira, 28 anos, brasileiro, casado, engenheiro mecânico. Batalhador, ético e conseqüente. José Rubens trabalha há dois anos numa empresa que desenvolve sistemas de aproveitamento de energia solar. A estabilidade conquistada permitiu mais um passo no planejamento familiar. A esposa está grávida do primeiro filho. Apesar da segurança, o salário é insuficiente para devaneios. Na busca de fontes alternativas, bem ao estilo de quem trabalha com energia, descolou aulas noturnas de física em um colégio da redondeza. A fama do colégio não é exatamente exemplar. Muitos dos alunos foram repetentes em outras escolas e agora, nesta, buscam o certificado de conclusão do segundo grau sem muito esforço. A realidade do mercado de trabalho sugere que o conhecimento não é tão importante quanto o diploma. O diretor da escola ofereceu uma turma para o professor estreante com promessa de mais turmas e, consequentemente, melhor remuneração no segundo semestre, conforme o desempenho no ofício. No primeiro dia de aula, digo na primeira noite, o professor estreou um jaleco branco com as iniciais JRO bordadas sobre o bolso e, de acordo com o programa, lecionou termologia. O número de presentes correspondia a aproximadamente 25% daqueles da relação de matriculados. Começo de ano letivo é frio, depois esquenta, julgou. Iniciou morno sobre os estados físicos dos elementos e revisou conceitos de solidificação, liquefação, fusão, vaporização e sublimação. Na aula seguinte a presença de alunos cresceu vertiginosamente para 40%. Destes, apenas quatro trouxeram o livro recomendado. José Rubens trabalhou duro no fim de semana a tempo de elaborar e digitar, por sua conta, um resumo do tópico. Levou exatas 50 cópias. Apesar de dispor da relação de nomes, ainda não dispunha da lista de presença. Estranhou que somente 19 cópias foram pegas, apesar dos 23 presentes. Ao perceber a dificuldade da rapaziada em transformar graus centígrados em graus Fahrenheit ou Kelvin, não mediu esforços para ensinar a base matemática, a conhecida e manjada regra de três. A minoria trabalhava durante o dia, entretanto todos alegavam a mesma desculpa para não fazerem os deveres de casa. O resultado da primeira prova foi insatisfatório, só dois estudantes obtiveram notas acima de cinco. O tempo era curto e o programa longo. Mesmo com a termologia não aprendida, foi necessário seguir para a cinemática com as inevitáveis equações do segundo grau, aquelas que têm um dois sobre um xis. O professor preocupou-se porque os aprendizes continuavam com a mesma dificuldade, agora para transformar quilômetros por hora em metros por segundo. Quando falou em movimento retilíneo uniformemente variado e escreveu a fórmula S = S0 + v0t + ½ at2 no quadro-negro recebeu uma vaia do tamanho da equação. Foi acusado formalmente de exigir conhecimentos de física quântica dos pupilos. Coisa que nem a sapiência do diretor ouvira falar. José Rubens sentiu a pressão. Sonhou com as três ou quatro turmas prometidas pelo mandante supremo e preveniu a turma que a aula seguinte seria importantíssima pois daria o bizu para a prova. Escreveu cinco questões na lousa, resolveu-as paciente e didaticamente. Ninguém externou qualquer dúvida. Encheu-se de satisfação e segurança para elaborar a prova com as mesmas cinco questões onde alterara apenas os números. Para sua surpresa e desespero, o resultado foi tão devastador quanto da primeira prova. Indignado com o desinteresse, levou o assunto à diretoria. Foi surpreendido com uma reprimenda. Conforme o diretor, os pais dos alunos pagam o colégio e, portanto devem ser oferecidas aos alunos oportunidades reais de lograr boas notas e passar de ano. Para mostrar generosidade, deu-lhe mais uma chance de se redimir com as crianças, afinal bom mestre que era, deveria ser capaz de aplicar outra prova, esta sim, com resultados satisfatórios. A noite foi longa. Muito longa. José Rubens questionou valores e juízos. Pensou na escola, nos estudantes e nos pais deles. Remoeu significados de ética e moral. Vivenciou a educação do filho ainda não nascido. Pesou o significado de três ou quatro turmas no semestre seguinte. De manhã, antes do sol raiar, sentou-se à frente do computador, com o modelo nas mãos, digitou a mesma prova, igualzinha, desta vez para ser respondida por meio de múltipla escolha. O trabalho foi rápido e terminado com um sorriso de orgulho. Tanto orgulho serviu para escrever uma cartinha pensando no filho. Chegada a hora da aula, observou que pela primeira vez a sala estava cheia, abarrotada. A secretaria telefonou aos alunos, um a um, avisando que naquela quinta-feira haveria uma nova prova, pois a anterior tinha sido anulada por uma falha conceitual em uma das questões. O professor, em seu jaleco impecavelmente branco distribuiu as provas e solicitou que esperassem um pouco antes de iniciar. Foi ao quadro-negro, enumerou de 1 a 5 e anotou uma letra ao lado. Virou-se para o grupo, comunicou que aquele era o gabarito da prova, desejou boa sorte e solicitou o início da prova, porém que aguardassem o resultado da correção antes de saírem da sala. O zum-zum-zum foi enorme e não levou 10 minutos para os alunos devolverem as provas respondidas. Após a correção – ainda houve três avoados que não obtiveram a nota máxima – anunciou que entregaria a sua demissão e que aquele tinha sido seu último dia na escola porque breve teria a quem educar.
Quando fui chamado politicamente incorreto passei a noite sem dormir. Virei-me para um lado e para o outro até as quatro da manhã. Levantei-me e enchi um copo com três dedos de conhaque. Os pensamentos estavam opacos como a fumaça. Joguei a ponta do cigarro pela janela e decidi naquele momento que eu deveria mudar meus valores. Fui até o computador, abri minha planilha intitulada trânsito. Aumentei a pontuação de atropelamentos em 50%.
a) Adulto: 300 pontos b) Adolescente: 500 pontos c) Velho: 800 pontos d) Criança: 1000 pontos e) Casal de namorados: também 1000 pontos f) Torcedor com a camisa do Flamengo: zero, zero pontos. O dobro ou o triplo de zero continua zero. Não há como valorizar torcedor do Flamengo. g) Casal de cachorros fazendo sexo: 300 pontos e uma bela história para contar h) Taturana: 10 pontos. Já sacanearam a bichinha outras vezes. i) Criancinha com ursinho de pelúcia: 1200 pontos j) Cadeirante 3000 pontos. E ainda acham que não valorizo cadeirante. Cadeirante tem de valer muitos pontos, pois faz um estrago danado no pára-choque. k) Cego. Cego não vale nada, não tem graça, é muito fácil de atropelar: 200 pontos. l) Cego com guia: 1000 pontos m) Mendigo: 100 pontos n) Mendigo sóbrio 5000, porque não existe. o) Babá com carrinho de bebê: 400 pontos p) Babá com carrinho de criança, com o bebê: 4300 pontos
Se o atropelamento ocorrer na faixa de pedestres, some 1000 pontos. Se ocorrer em cima da calçada some 2000 pontos.
Fui à farmácia comprar protetor solar e xampu. Reparei que uma senhora comprava todo o estoque de fraldas descartáveis. Eram dezenas de caixas espalhadas nos balcões e no chão. Espantei-me com a quantidade e comentei com o vendedor. – Nossa, não seria mais em conta comprar uma rolha? Pra quê eu fui dizer isso? A senhora virou-se para mim, com uma cara azedíssima – Meu filho é deficiente! Levei um susto enorme com aquela senhora tentando morder a minha jugular. – Julguei que estivesse comprando esta quantidade por causa da promoção! – foi só o que me ocorreu para amenizar o clima tempestuoso. – Pois o senhor dobre a língua quando falar do meu filho! – gritou para que todo o bairro ouvisse. Olhei em volta, não vi nenhuma criança deficiente, também nada vi que indicasse que ela fosse portadora de uma criança deficiente. Abaixei minha cabeça humildemente, paguei as minhas compras. Senti uma pena enorme da criança. Não pela doença, mas pelo mau humor materno. Caminhei até a saída , virei-me, e, em voz alta, solicitei a um balconista do fundo da farmácia:– Moço, por favor, dê-me uma caixa de antiácidos. Esta senhora nasceu com azia!
A pichação de muros e paredes é uma agressão. Quando era moleque, lembro que os tapumes de toda São Paulo traziam uma mensagem estranhíssima: CÃO FILA KM 23. Todos os paulistanos em algum momento leram a frase. O enigma foi notícia de rádio e televisão. Todos palpitavam no significado da charada, a voz corrente dizia que era jogada publicitária de vendedor de cachorros. Em outra época, não lembro se antes ou depois, as paredes amanheceram cobertas de tinta escorrida com palavras de protesto: ABAIXO A DITADURA, ELEIÇÕES DIRETAS, YANKEES GO HOME. Eram tempos sombrios e os militares de plantão julgaram que CELECANTO PROVOCA TERREMOTO, fosse outra provocação. Houve inquéritos e perseguições, mas jamais soubemos o sentido daquele aviso. Depois do piche veio a tinta. Hoje em dia, raros são os prédios, que escapam dos sprays. As gangues rabiscam os lugares mais inalcançáveis para marcar força, poder e território. Recentemente, letras vermelhas marcaram o fundo azul de uma banca de jornais: A LIBERDADE VEM EMBALADA EM PLÁSTICO, É COLORIDA E TEM GOSTO DE ISOPOR. Naquele dia, meus quarenta minutos de caminhada foram de muita curiosidade sem resposta. Pareceu-me vir de alguém questionando a sociedade de consumo. Algum tempo depois, no Eixão, deparei com enormes letras negras escritas no mármore branco de um viaduto: TAMOS DE OVÁRIO CHEIO DE VIOLÊNCIA. Meus pensamentos caminhantes transformaram-se em reflexão e questionamentos. Andei ontem meu longo percurso até a rodoviária, onde o Eixão se cruza com o Eixo Monumental. Lá fica o Buraco do Tatu, passagem subterrânea, que liga a Asa Sul à Norte. O túnel destinado apenas aos automóveis tem calçadas muito estreitas sob a poluída parede de cerâmica clara. Apenas nos fins de semana, quando o trânsito é fechado, é possível caminhar por ali. Foi uma surpresa muito agradável, pois alguns artistas em vez de picharem, removeram a fuligem e através de contrastes brancos desenharam animais remotos, guerreiros em caça e armas primitivas ressuscitando a arte dos homens nas cavernas. Mesmo nas trevas ainda temos luzes.
Caminhar é bom. Caminhar acompanhado é melhor. Caminhar acompanhado de companhia inteligente é ótimo. Eu me lembro de tudo como se tivesse acontecido agora. Dois minutinhos atrás, ou três. Foi num quente final de tarde de março. Estávamos na trilha do Parque de Olhos D’Água, aqui em Brasília, pertinho de casa. A conversa das duas ia animada. Ana Beatriz e Rafaela comentavam a influência da obra de Shakespeare na escrita de Machado da Assis. Apesar de o assunto ser inesgotável, falaram em Nietzsche antes de descobrirem afinidades com Schubert. Perguntaram minha opinião sobre o niilismo e eu disse que tinha acabado de lanchar. O riso maroto das duas sugeriu que era melhor continuar calado. O diálogo entre as minhas companheiras versou sobre o existencialismo, passou por discussão sobre a exploração alternativa de fontes energéticas e, quando estávamos sobre a ponte, Ana Beatriz encostou-se na amurada, ergueu o indicador para o céu e afirmou que aquela nuvem parecia o mapa do mar Adriático. Rafaela concordou com ressalvas dizendo que o Golfo de Veneza era um pouco mais fechado e em seguida apontou para outra nuvem, mais à direita. – Veja. Lá está a Pietá de Michelangelo. Ana Beatriz assentiu e perguntou-me o que eu via. Olhei para o céu. Examinei as nuvens detidamente e encontrei uma nuvem linda, muito branca, parecia um coelhinho. Olhei de novo e depois olhei para o rosto das minhas amigas. Achei melhor dizer que não encontrei nada. Concluí que às vezes é melhor caminhar só do que bem acompanhado.
Li duas vezes. E, apesar de não ser espelho, refleti que não sou mãe, que meus filhos estão reunidos comigo e que eles não cometeriam tantos crimes ao vernáculo em apenas uma linha. Conclui que aquela mensagem não era para mim. Era um engano. Deixei por isso mesmo. Hoje, segunda-feira, recebo outro torpedo telefônico:
“Vo almoca com uma amigas”
Pela linguagem capenga, julgo que seja a mesma pessoa. Ameaço ignorar, entretanto a ironia coçou e se fez presente.
“Você já almoçou. Comeu um U, uma cedilha e um S.”
Enviei e, para surpresa minha, veio a resposta:
“Nao fui ainda”
Achei que eu não deveria ser desagradável só porque ela comeu, de sobremesa, o til.
No final do expediente, o pessoal do trabalho parou para tomar um cafezinho. O assunto poderia ser a derrota do Flamengo, poderia ser mais um flagrante de corrupção na cúpula do governo ou até a nova cor vermelha da cobiçada secretária Shirlei. Mas não, o assunto é o mesmo que toda a imprensa escrita e televisiva traz em manchetes nos últimos dez dias: o vôo fatal da menina lançada pelos próprios pais através da janela do sexto andar. Adultos, crianças e velhos, todos estamos chocados por mais uma tragédia. A história é esmiuçada em detalhes sórdidos. Uma criança indefesa é espancada e asfixiada justamente por aqueles que deveriam dar conforto e segurança. O local do crime é a própria moradia, o lugar onde seria seu porto seguro. A verdadeira mãe não demonstra a dor desesperada pela perda da filha. Há provas da premeditação de crime devido ao corte da tela de proteção da janela antes do arremesso. O terrível estigma de ódio e ciúmes de uma madrasta pela enteada é resgatado e multiplicado. O choque de imagens da família feliz nas horas que antecedem o crime se superpõe ao cadáver da criança na grama. Aparentemente não há indícios que outras pessoas estievesem no apartamento na mesma hora da bárbarie. De onde, facilmente, qualquer leigo, conclui que os assassinos só podem ser os próprios pais. O crime aconteceu na última sexta-feira do mês de março e até agora a polícia ainda não divulgou o nome dos criminosos. Meia centena de pessoas foi interrogada. Os pais foram presos por flagrante e soltos por habeas corpus. Quase linchados e presos novamente. A população tem ânsias de justiça. Tudo parece óbvio. Mas não é. Se a justiça brasileira não está externando os resultados das investigações é porque deve haver outras razões misteriosas e ocultas. Talvez o pai seja um agente russo infiltrado no Edifício London. Talvez a perícia tenha descoberto um túnel subterrâneo ligando o apartamento a uma agência do Banco do Brasil localizada a apenas três quadras de distância. Talvez os pais da Isabella quisessem enviar a filha para estudar no exterior. Talvez a madrasta tenha contribuído com enormes somas de dinheiro, oriunda de lavagem de dinheiro, para a campanha eleitoral de um deputado influente. Talvez o casal faça parte da rede de internacional de traficantes de cocaína e por isso tenha proteção de algum governo vizinho com o qual nosso país deseja manter as ótimas relações. Não, nem eu, nem ninguém, consegue inventar qualquer desculpa plausível que justifique a não acusação formal do casal. No nosso país ninguém, que não tenho bons advogados, é incriminado. Brasileiros não punem falta de respeito, falta de ética ou de moral e a conseqüência é a impunidade também para todos os tipos de crimes. As autoridades mentem, ameaçam, chantageam, insultam, enriquecem de ilícitos e não são castigados. São os nossos exemplos. E, daqui a quinze dias, ao final do expediente, no cafezinho discutiremos como fomos obrigados a acreditar que a pequena Isabella caiu da janela ao tentar pegar um vaga-lume que pisca-piscava alegria e inocência. Agora só falta Isabella cair no esquecimento.
No intervalo entre uma crônica e um conto de Machado de Assis, durante a oficina literária, levantei-me e servi ao grupo umas fatias de pão caseiro trazidas de casa.
Dizem que tenho que sair da minha zona de conforto, sempre escrevendo crônicas bem humoradas. Foi exatamente o que resolvi fazer. Não levei nenhuma crônica para o encontro. Saí do escritório e fui à cozinha. Deixei meu público restrito e atirei-me às massas. Massa de pão mais especificamente. Levei dois recipientes com 16 contadas fatias de pão. Destampei ambos e estendi para o grupo da esquerda e logo em seguida ofereci para o grupo da direita.
Na verdade devo informar aos leitores que era à minha direita ou à minha esquerda, ninguém ali estava preocupado com posições políticas. Machado ensinou-nos que às vezes devemos lembrar ao leitor que ele não faz parte da história, para ele não se condoer de dores por algum personagem e também que não adianta salivar, pois não vai provar nenhuma fatia do cheiroso pão que está sendo compartilhado por vorazes bocas famintas de onze horas da manhã.
Aos olhares femininos, preocupados com a redonda forma, do pão, é lógico, externei, brincalhão, que aquele alimento era light. Em vez das previstas três xícaras de óleo na receita, eu havia colocado apenas meia xícara.
Mais importante que a receita é o momento certo e modo certo de servir. O momento é bem próximo da hora do almoço e a quantidade deve ser tal que todos possam provar, mas apenas alguns possam repetir. O que deixará em todos a sensação de desejo não totalmente satisfeito. A sensação do prazer, próximo do orgasmo, porém sem o gozo.
O mestre, na posição de líder, deu-se ao direito de comer uma segunda fatia para retornar energizado a leitura de outra crônica. Saboreamos Machado enquanto o odor do pão fresco ainda persistia no ambiente e nas mentes.
Ao final da aula, desta vez, não ouvi nenhuma crítica em relação aos meus textos. Nem positiva nem negativa. Várias colegas, gentilmente pediram a receita. Percebi como elogio ao meu trabalho.
Reparei que o professor correu para pegar a derradeira fatia. Foi meu melhor elogio, o gesto demonstrou que gostou de eu ter saído da minha zona de conforto.
Os ingredientes:
2 tabletes de fermento biológico (30g) – utilizei 3 envelopes de 11g com validade vencida e mesmo assim deu certo
1 colher (sopa) de açúcar
1½ xícara de água morna
½ xícara de óleo
1 embalagem de creme de cebola
3 xícaras de farinha de trigo
O modo de fazer:
Unte uma forma de pão. – É bom que a forma seja das grandes (28x11cm) porque a massa cresce um bocado e depois transborda no fogão provocando uma lambança federal além da fedentina de pão queimado. Na dúvida, use duas formas. Um pão você oferece na aula e a outro você come antes da aula
Em uma tigela grande, misture o fermento com o açúcar. Depois acrescente a água, o óleo e o creme de cebolas. Misture.
Adicione a farinha e misture até formar uma massa mole.
Preaqueça o forno em temperatura média – 180ºC
Ponha a massa na forma e deixe crescer por 30 min ou até dobrar de volume.
Leve ao forno por 25 minutos ou até dourar.
Tertúlias são o complemento ideal ao pão.
Quando for levar o pão para a aula não esqueça de deixar o recipiente semi-aberto para impregnar a sala com aroma de desejo.
Agora pisei - Quando caminho o mundo acerta o passo comigo. Tudo acontece, tudo vejo, tudo anoto. Nascem histórias curtas, criativas e com finais surpreendentes. Vi tubarões na calçada, telhas assassinas, a perda filosofal. 164 páginas a R$ 40, - dedicatória e correio nacional inclusos.
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Aprender a técnica literária potencializará seu talento. O conhecimento não serviria de nada para a pessoa sem talento, mas aumenta o alcance de quem a possui.
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Cara de crachá - São 44 histórias vivas, rápidas, inquietas. Capazes de renovar fígados envenenados com tristeza. O protagonista, von Silva, é envolvente. Com ele descobrimos oque há por trás do crachá de um funcionário público. De humor particular aponta o lápis na direção do cotidiano de um usuário de carimbos, há 35 anos na mesma repartição. Esse funcionário só podia mesmo ter Cara de crachá.
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Pepino e farofa são crônicas bem humoradas resultantes de 50 anos de inexperiência no comando de um fogão onde a comida é o prato principal.
No divã do psicanalista convence que o milho afasta a depressão e a solidão. Uma formiga em cima da bancada é motivo para uma fábula. Explica como um violão pode influenciar na preparação do almoço.
Só foi possível escrever o livro graças à minha mãe que, na infância, incentivou-me a brincar de carrinho em vez de comidinhas e panelinhas.
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Quase pisei!é um livro de crônicas com temática andante. Os mortais caminham, Klotz viaja na criatividade. Com escrita na primeira pessoa do singular, convence os leitores de que tudo é verdade e que aconteceu com ele. Também nos dá a impressão que o mundo só começa a acontecer quando calça o tênis e sai para a rua. Seu olhar de cronista sempre está atento através de lentes irônicas, bem humoradas e às vezes poéticas, quando coloca os óculos líricos. O entusiasmo e a alegria do autor são contagiantes.
160 páginas ao preço de R$ 30,00
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Roberto Klotz é um engenheiro que saltou do topo do prédio recém-construído e estilhaçou-se em parágrafos. Nasceu no século passado. Bem-humorado, crítico, vacinado, analfabeto, irônico, paulistanamente canadango. Suas histórias muitas vezes têm finais surpreendentes. Enquanto aprendia a cozinhar, escreveu Pepino e farofa, um livro de aventuras culinárias, engordou de tantas pizzas encomendadas. Para perder peso, o médico recomendou que caminhasse. Durante as caminhadas encontrou elefante, lâmpada mágica, cão bravo, pegadas de onça e 45 motivos para exercitar o bom humor em Quase pisei! A vida continua e aí, o álter ego, von Silva tornou-se personagem de Cara de crachá, um funcionário público que carimba bom humor dentro e fora do expediente.De tantas anotações de oficinas literárias, ora sentado prestando atenção, ora de pé ministrando aulas, resultou o pedido de partilhar o conhecimento que gerou o Manual do escritor.Conquistou mais de 40 prêmios literários. Foi Conselheiro de Cultura na Secretaria de Cultura do DF. É jurado de concursos literários e promove oficinas de escrita. Saltou do prédio por saber-se imortal. Ocupa uma cadeira na Academia de Letras do Brasil – DF.