03 novembro 2015
PARIS - ANO 1000
“Qui habet aures audiendi audiat - Quem tem
ouvido para ouvir, ouça.
Patevotrix traduziu as palavras celtas ao latim e agora as gravava a fogo
no couro curtido do cordeiro nada cristão.
Isto foi em Paris a dois meses da virada do primeiro milênio.
Aos treze anos de idade Patevotrix queimou o lado esquerdo da face com
óleo fervente. Foi tratado por três anos por um sacerdote com chás e emulsões.
Agora, aos noventa e cinco anos, com postura ereta e apenas um olho na carne
disforme do rosto, Patevotrix continua nos estudos que o mestre lhe ensinara.
Herdou do druida centenas de vidros com os mais variados líquidos e pós.
Essências, temperos, ácidos, cristais, cascas, folhas, pelos e tudo que a mente
humana puder acondicionar em vidros pequenos, médios ou grandes. Herdou também
duas paredes de estantes de escritos com documentos romanos, gregos, celtas,
bretões e até papiros egípcios. À luz de vela, lia de tudo: filosofia,
medicina, astrologia, botânica, fauna, antropologia...
Entre os manuscritos encontrou a fórmula para a poção da longevidade.
Esta ele não traduziu. Desconfiava que a humanidade ainda não estivesse pronta.
“Na segunda noite da lua nova coloque sete cascos de tartarugas brancas
bem lavadas no interior de uma ânfora de azeite junto com uma ferradura usada,
acrescente pó de raiz de carvalho e um par de olhos de uma coruja da cor do
ébano. Deixe fechado por três dias enrolada num lenço de seda vermelha. No
quarto dia acrescente uma moeda de ouro. Das grandes. Embrulhe de novo no lenço
e guarde sob a terra até a quarta lua cheia. Coe com o lenço vermelho e
acrescente uma pitada de almíscar.”
“Tome duas colheres ao dia enquanto tiver lucidez. A primeira quando o
sol desperta e a segunda quando a noite adormece o sol.”
O recluso velho de barbas brancas passava o dia em um enorme espaço
iluminado por dezenas de tochas. Ele preferia aquele subterrâneo à luz solar.
Assim ele não precisava ver os homens e cachorros sarnentos disputando comida
nas feiras fétidas às margens do esgoto do rio Sena.
Para ele, aqueles eram os primeiros sinais do fim. Das trevas. Quando o
sol e a lua se fundirem num cometa incandescente fagulhando terror.
Patevotrix quase não dormia. Era inquieto e meditabundo. Parecia captar a
linguagem dos deuses sussurrada no crepitar da fogueira.
Paris, centro do mundo, fundada por celtas, invadida por romanos que a
nominaram Lu técia e depois foi
retomada pelos francos e passou a ser Paris. O destino de Paris é ter as ruas
cheias de estrangeiros falando línguas estranhas.
Os sinais estão claros para Patevotrix. O papa reinou apenas três anos e
faleceu. Escolheram um francês, Gerbert d’Aurillac, que, outrora, durante dois
invernos frequentou as estantes e misturou líquidos junto com Patevotrix. Agora
é o Papa Silvestre II. É ele que se entende com o frágil rei dos francos,
Roberto II, o Pio. Roberto II é filho de Hugo Capeto, da dinastia dos
capetinos.
Patevotrix resmungava baixinho: ninguém me engana – ejudus farinae – são
da mesma farinha. Qual deles será o anticristo?
Todos os dias, as palavras encontradas em um manuscrito datado de Lu técia, Anno Domini CCCXIV, martelam seus
pensamentos:
“E assim, com o novo milênio, tudo será anulado. Um dia, uma noite...
Paris será um apenas o resto de uma enorme fogueira.
O vento dará o sinal. Serão dois dias de vento assobiando a música de
satanás. No terceiro dia as árvores serão arrancadas aos céus. O céu as
mastigará e vomitará neve de carvão e alcatrão. O dia será noite. As trevas
darão lugar aos trovões e relâmpagos que, de tão fortes, iluminarão o interior
das casas. Para amainar o frio, a Terra
será rasgada e do ventre brotarão labaredas imensas. No sétimo dia água salgada
com cheiro de enxofre tomará as fendas abertas e apagará o fogo. Quando tudo
estiver acabado, no silêncio absoluto, a peste sairá em busca das almas
sobreviventes. Nem mesmo cadáveres putrefatos escaparão das doenças
purulentas.”
Faltava apenas um mês para o novo milênio. Ao entardecer, Patevotrix,
pela primeira vez, não tomou uma colher de azeite temperada com almíscar.
14 outubro 2015
Hibisco roxo
Chimamanda
Ngozi Adichie
Companhia
das Letras
R$
37,00
324
páginas
10
dias de leitura
Impossível ler Hibisco roxo e permanecer indiferente.
Inúmeros sentimentos nos tocam durante a leitura: estranheza, pena, raiva, dor,
curiosidade, ignorância, incompreensão, identificação.
É a história da adolescente
Kambili cujo pai, Eugene, empresário bem sucedido, impõe o catolicismo e a cultura
inglesa à família e a quem os cerca. Por renegar as fortes tradições regionais
o pai provoca inúmeros conflitos.
Eu queria penetrar de cabeça na
história, por isso, no início da leitura anotei os nomes dos principais
personagens imaginando que teria dificuldades para guardar os nomes africanos,
tão longes da nossa familiaridade: Kambili e o irmão Jaja; o pai Eugene e a mãe
Beatrice; a tia Ifeoma e os três filhos: Amaka, Obiora e Chima; padre Amadi, a
empregada Sisi e o editor Ade Coker. Nem precisava, pois rapidamente assimilei
todos. Mas eu ainda não estava à vontade.
A estranheza é óbvia por
desconhecermos a língua, os costumes, a política, a geografia e o que acontece
na Nigéria. Depois de algumas páginas a curiosidade me cutucou e consultei a Internet
para conhecer um pouco mais sobre o país.
A Nigéria está situada ao norte do Equador,
abaixo do Saara, no Golfo da Guiné. É o
país mais populoso da África com 250 etnias e mais de 500 línguas. A língua
oficial é herança da colonização inglesa até 1960.
Conforme a pesquisa, 50% da
população pratica o islamismo e habita o norte do país enquanto 40% segue o
cristianismo e habita a região sul. Regiões do norte são frequentemente
atacados por guerrilheiros cruéis do grupo fundamentalista religioso Boko
Haram.
A capital, Abuja, não está entre
as dez maiores cidades. A história se desenvolve nas cidades medianas Enugu e
Nsukka localizadas a 600k a oeste de Lagos, maior cidade nigeriana.
A protagonista, Kambili fala
igbo, língua e um dos principais grupos étnicos do país.
E é deste idioma que inúmeras
palavras habitam as páginas do livro, nos inserindo no habitat africano. A
narração em primeira pessoa engrandece e dramatiza ainda mais a história. Mas o
pai determina que em casa se fale inglês. Preferencialmente se pense e sonhe em
inglês também. Exige que os filhos sejam os primeiros nas suas respectivas
salas de aula. Mas o rigorismo é mais acentuado ainda quando o assunto é
religião.
A pressão sobre os filhos é
enorme. Para eles há uma escala de horários para estudar, rezar, refeições, leitura
e família. O diálogo nas refeições é permitido somente aos adultos.
A opressão sobre as crianças é
absurda. Tanto que não é difícil a comparação das crianças com um cachorro
criado numa casa de paredes altas e quintal cimentado. Esse cachorro ao sair do portão pela primeira
vez estranhará pisar na grama, não saberá como reagir ao ver um passarinho, um
gato ou outra pessoa que não as da casa. Repentinamente irá descobrir que há variedades
de cheiros e outras possibilidades além do prato de ração.
A vida dos irmãos sofre uma
mudança quando a tia Ifeoma entra na história.
“Sua risada flutuou até a sala
do segundo andar”. “Tia Ifeoma era tão alta quanto Papa, com um corpo bem-proporcionado.
Andava rápido, como alguém que sabia exatamente aonde ia e o que ia fazer lá. E
falava da mesma maneira que andava, como se quisesse dizer o máximo de palavras
no menor espaço de tempo possível.”
A presença da tia foi como se o
portão da casa fosse aberto ao cachorro. A liberdade estava presa a uma longa
corrente chamada “costume adquirido” durante a vida.
Como no momento em que o avô
pagão estava doente e a filha de Ifeora, Amaka cuidava dele. “Eu quis me
aproximar de Papa-Nnukwu, tocar os tufos de cabelos brancos em que Amaka
passava óleo, alisar a pele enrugada de seu peito. Mas não ousei.”
A mesma prima, Amaka, apresenta
a música nigeriana a Kimbila. Fela, Osadebe e Onyeka tocam ritmos pagãos
proibidos dentro de casa. Eu, como sou curioso, baixei algumas músicas e
continuei a leitura embalado pelo magnético som africano:
Com os portões abertos, conhecemos
junto com a protagonista um pouco da realidade do país e passamos ao sentimento
de identificação: pobreza, corrupção, censura, autoritarismo. Kambili e o irmão descobrem um novo mundo, já
não são mais os mesmos, mas não se atrevem a comentar o que veem. Apenas veem. A
história evolui com a crescente opressão paterna, entretanto nem a mãe nem os
filhos ousam criticar os atos entre si.
Só depois de um longo tempo e
longe de casa, o irmão Jaja descobre que não só pode perguntar como é
encorajado a questionar a vida.
A história é de uma força tão
incrível que não temos vontade de parar a leitura. Apesar do final pouco
decepcionante, recomendo a leitura com entusiasmo.
08 outubro 2015
Antologia
— Ó, von Silva, o que é antologia ?
Mundo, mundo , vasto mundo , se
eu me
chamasse Raimundo não faria essa pergunta . Se eu fosse
o Raimundo que amava Maria que amava Joaquim, eu
também não
saberia a resposta . O meu nome é von
Silva, não tenho outro
de pia .
Se eu estivesse na repartição seria normal
esse tipo de pergunta .
Estou longe de qualquer
dicionário, porque hoje
é sábado . Essa Rosa
radioativa estúpida
e inválida não
deveria ter feito
esse questionamento.
Perdido, sem lenço
e sem documento ,
nada no bolso
ou nas mãos ,
procuro uma resposta . Desejei me esconder , desejei ir para Minas. Minas não há mais. Quis morrer
no mar , mas
o mar secou. Vou-me embora
pra Pasárgada, lá sou amigo do rei .
Volto para a minha
terra que tem
palmeiras onde
canta o sabiá ,
que tem cadeiras
onde posso sentar e procurar
um desmancha-dúvidas.
Meu reino por
um dicionário !
Queixo-me da Rosa , mas a Rosa não fala , simplesmente perguntou o que é antologia.
“Coleção ou seleção de trechos em prosa e/ou em verso .”
— Obrigado, Aurélio!
Aurélio, garoto esperto , informa também
que intertextualidade é a superposição
de um texto
a outro .
— Mais uma vez ,
obrigado, Aurélio!
Pesquisa
para o texto Antologia
“Mundo, mundo, vasto
mundo . Se eu
me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução .”
— O gauche — Carlos
Drummond de Andrade
“João que
amava Tereza, que amava Raimundo, que amava Maria, que
amava Joaquim, que amava Lili.” — Quadrilha —
Carlos Drummond de Andrade
“O meu
nome é Severino. Não
tenho outro de pia .”
— Morte e vida severina — João Cabral de Melo Neto
“Porque
hoje é sábado .”
— O dia da criação — Vinícius de
Moraes
“A rosa
hereditária . A rosa
radioativa estúpida
e inválida .” — A rosa de Hiroshima — Vinícius de Moraes
“Sem lenço e sem documento , nada
no bolso ou
nas mãos .” — Alegria , alegria
— Caetano Veloso
“Quer morrer no mar , mas o mar secou; quer ir
para Minas , Minas não há
mais.” — E agora, José? — Carlos
Drummond de Andrade
“Vou-me embora
pra Pasárgada, lá sou amigo do rei .” —
Vou-me embora pra Pasárgada — Manuel Bandeira
“Minha
terra tem palmeiras ,
onde canta
o sabiá , as aves
que aqui
gorjeiam, não gorjeiam como lá .” — Canção do exílio — Gonçalves Dias
“Meu reino por um cavalo !” —
exclamou Ricardo III na Guerra das Duas Rosas , conforme
William Shakespeare
“Deus ,
ó Deus , onde
estás que não
respondes?” — Vozes d'África — Castro Alves
“Queixo-me às rosas, mas
que bobagem, as rosas
não falam, simplesmente
as rosas exalam o perfume
que roubam de ti, ai.” — As rosas não falam — Cartola
"Para todas
as coisas : dicionário. Para que fiquem prontas: paciência ."
— Diariamente — Nando Reis
“No meio
do caminho tinha
uma pedra , tinha
uma pedra no meio
do caminho .” — No meio do caminho — Carlos Drummond de Andrade
“Toda pedra no caminho
você pode retirar .” — É preciso
saber viver — Roberto
Carlos e Erasmo Carlos
“De repente ,
não mais
que de repente, fez-se de triste o que se
fez amante.” — Soneto da separação — Vinícius de Moraes
“Se você rouba de um autor , é plágio , se de vários ,
é pesquisa .” — Wilson Mizner.
15 setembro 2015
A reunião
A/C: Dr. von Silva
• Aprovação
das contas do primeiro
semestre ;
• Medidas
visando melhorar atendimento ao público ;
• Contenção de custos : restrições
no uso do telefone ;
• Reforma dos banheiros ;
• Assuntos
gerais.
A Chefia
Sempre era
assim . Assim
é sempre . Assim
sempre será. Diabos !
Reunião de manhã. Reunião
à tarde . Reunião
para discutir a pauta da próxima
reunião . Reunião
para reunir . Reunião para definir
data para outra reunião.
— Doutor Nestor, poderia explicar o motivo do
atraso?
— Eu estava em
reunião no quarto andar, tratando dos interesses coletivos .
— Que
reunião foi essa? Porque
não me
chamaram? Penso que
estão me boicotando!
Discutimos as novas cores para os crachás.
— E qual
a conclusão ?
— Ainda estamos na definição sobre
a cor do cordão
para prender o crachá .
Claudinha mostrou-se interessada
na questão.
— Qual é a cor
que está predominando para
a escolha dos crachás ?
Eu
prefiro verde, combina com meus olhos... —
suspirou.
O chefe
interrompeu a conversa.
— Eu penso
sinceramente que
hoje é sexta-feira
e devemos agilizar esta reunião para
sairmos daqui antes da meia-noite . E eu penso em pegar um cineminha...
— Qual
é o filme que
você vai ver ? — perguntou Claudinha.
Com um olhar de desaprovação,
começou.
— Senhores ,
o primeiro item é a aprovação
das contas da repartição
referentes ao primeiro
semestre ...
— Chefe, temos que adiar este ponto, pois esqueci de
pedir que
os convocados trouxessem suas calculadoras ...
Aliviado, o chefe passou para o
segundo item.
— Bem ,
em relação
ao atendimento ao público, penso que eles não devem interromper nossas reuniões .
Fora isso, penso
que são
muito bem atendidos. Podemos dar sequência: a contenção
no uso dos telefones .
— Chefinho, eu
já tomei as providências .
Inclusive vai atender também à sua vontade de ser menos interrompido nas reuniões ,
externou Claudinha.
— Como
assim?
— Eu já
mandei tirar os telefones
da portaria . Assim
eles não
podem perguntar se as pessoas podem subir . E conforme suas ordens , só podem subir as pessoas autorizadas.
— Muito
bem, Claudinha. Aproveitando o próximo assunto , da reforma dos banheiros ,
penso em
fazer uma pausa
para visita
ao local . Volto já .
— O cafezinho ainda não
chegou? — perguntou Chico.
O chefe
retornou com as mãos
ainda úmidas, disposto a encerrar a
agenda do final de sexta-feira.
— Eu penso
que faltam vinte minutos para
as seis horas. Alguém ainda tem alguma pergunta ?
— Chefe ,
o ar-condicionado está mal regulado . Na reunião em
que foi definida
a temperatura, nem todos
os parâmetros foram devidamente
analisados.
— Como
assim, von Silva? Penso que foi você quem mais fortemente argumentou que
teríamos que baixar
a temperatura por
causa do gradiente térmico
do sol poente
nas janelas . Qual
parâmetro não
foi analisado?
— Paulinha.
— Continuo sem entender...
— É que
ela está se agasalhando demais e escondendo o decote .
— Penso
que segunda-feira
poderemos discutir isso .
Vamos descer?
— Ainda
temos uma rápida reunião com Chico. Bom
fim de semana !
— Até
segunda !
Apenas o chefe saiu.
— E aí, Chico, quem acertou o bolão? — perguntou Nestor.
— Foi o von Silva, ele cravou dezoito vezes !
O chefe repetiu ‘penso ’
dezoito vezes .
Extraído de Cara de crachá de Roberto Klotz
08 setembro 2015
Quanto mais alto, pior
A editora do
jornal não se interessou
“Que continuemos a nos omitir da
política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem.” ― Brecht
Há anos estou
incomodado com a existência de uma imobiliária e de uma lanchonete no Eixinho
Norte. Estão na EQN 208/209 desde 2001. Aos poucos, discretamente, a
imobiliária edifica mais um show room
mordendo nacos da área destinada a um clube vizinhança.
Não acredito,
ou melhor, duvido que o comércio e os outdoors nas margens dos Eixinhos
estivessem nos projetos de Lúcio Costa.
Lenta e
silenciosa, mas arrasadora, a sanha das construtoras derruba os padrões
estabelecidos originalmente para a cidade.
Exemplificando,
na EQS 212/213 foi erguido um gigantesco templo da igreja Universal. Certamente
a legislação foi modificada para atender os interesses da igreja. A mesma
instituição que driblou a lei para a construção do mega Templo de Salomão em
São Paulo.
Outro exemplo
é a edificação erguida e alugada para a Secretaria de Comércio Exterior – Secex
– pertencente ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
Foi instalada no início de 2013 em moderno prédio construído na EQN 102/103. Sem
dúvidas a legislação também foi modificada para atender interesses não
comunitários.
Não acabou.
Preciso exercer
a minha indignação. Sem nenhuma oposição ou constrangimento, constrói-se um
prédio de seis andares na EQN 204/205. A edificação que extrapola a altura
originalmente permitida para as entrequadras será ocupada por órgão público sem
fins comunitários.
Isto é um atentado
à cidadania! Está lá nos parâmetros urbanísticos e de preservação: “As
Entrequadras são caracterizadas por edificações de baixa altura, dispostas
isoladamente no lote.”
Parece que o
brasileiro perdeu a sensibilidade para o absurdo.
O que fazer?
Acredito que o
jornal tem poder para mobilizar a população. Deve alertar visando modificar e
corrigir atitudes de políticos e administradores da cidade, nesta e em outras
situações.
Um jornal
existe para servir, antes de tudo, ao conjunto de valores mais ou menos
consensuais que orientam o aperfeiçoamento da sociedade.
É mais cômodo
e barato ficar na redação a procurar a verdade, a ser muito provavelmente
perturbado pelos ricos e poderosos. Esta matéria não é como um release que está digitado e pronto para
ser diagramado. Os ricos e poderosos não têm interesse na publicação. Mas os
que se identificam como cidadãos têm. E o jornal deve se posicionar ao lado dos
interesses dos cidadãos, seus leitores.
O brasileiro e
o brasiliense, em especial, procura um líder para modificar o status quo. O Correio pode e deve ocupar
esse espaço.
Não são apenas
puxadinhos, o precedente das edificações ilegais ou “legalizadas” está aberto.
O Correio Braziliense não pode rejeitar a investigação e a reportagem. Precisamos
reverter a tendência.
Qual é o
caminho?
São palavras
do Superintendente do IPHAN, Carlos Madson, publicadas no CB de hoje (25/07/15):
“Brasília quer ser moderna? Então faça as coisas de forma moderna. Discuta com
a sociedade. As cidades que melhor estão resolvendo os problemas urbanos são as
mais democráticas.”
Além de
levantar a questão e apenas criticar, sugiro que o jornal promova uma
mobilização da comunidade candanga para a ocupação saudável da EQN208/209.
Que tal
promover a construção de um parque calendário?
Seria plantada
uma fileira de árvores da mesma espécie que floresça em janeiro/fevereiro. Na
fileira seguinte seria plantada outra espécie que floresça em março/abril. Na
sequência outra fileira com espécie diferente que floresça exuberância.
Uma das
características de Brasília são árvores floridas proporcionadas por estações do
ano bem definidas. Outra característica é o planejamento da cidade. Seria uma
ótima oportunidade de unir características e interesses com o incentivo do
jornal.
O processo de
crescimento da árvore é lento. Imaginem nossos filhos e netos fotografando linhas
de flamboyants, ipês, quaresmeiras, sapucaias, sibipirunas, manacás,
espatódeas, paineiras, acácias, jacarandás...
Um paisagista
desenvolveria o projeto e a comunidade mobilizada arrecadaria as mudas. Seria
encantador ver crianças plantando as arvorezinhas.
A proteção da
cidade é o respeito da cidadania, é a defesa da qualidade de vida
orgulhando-nos de sermos brasilienses.
O brasiliense
está cansado de ser atropelado pelo desrespeito.
A
população quer saber qual é o órgão responsável pela mudança do gabarito. Quer
saber qual é o órgão fiscalizador. Desejamos opinar sobre a ocupação dos
espaços. Não queremos praças de alimentação, shopping centers ou prédios
públicos porque interferem no trânsito, produzem barulho e atraem insegurança.
O que a população,
numa enquete, desejaria para estas áreas? Quadras poliesportivas? Parque? Clube
vizinhança? Escola pública? Gramado?
Por favor,
estimulem o brasilense a encontrar uma solução.
Atenciosamente,
Roberto Klotz
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