29 novembro 2016
Nome do personagem
Estou orgulhoso com
a ótima aceitação do Manual do escritor.
Recebo inúmeras
encomendas do Brasil afora.
2.6.1 Nome do personagem
Os
nomes dos personagens são tão importantes nos livros que às vezes pulam das
páginas para a capa: Dom Casmurro, Lolita, Cinderela, Iracema, Hamlet, Ulysses.
Para os pais é difícil escolher um nome para o filho. O autor
vivencia responsabilidade semelhante.
Ao nomear um personagem você o está credenciando.
► Você batiza o personagem com o
intuito de representar suas características ou de reforçá-las.
Considere
a sonoridade do nome, a individualidade do personagem. Evite nomes semelhantes
no mesmo enredo (Os inúmeros Aurelianos Buendía de Cem anos de solidão confundiram a minha leitura!). Perceba que
apelidos derivativos e contrações facilitam a vida do escritor ao esquivar-se
de repeti-lo.
Na
vida real jamais soube de alguém chamado Caim. Certamente nenhum pai quis
atribuir a fama de assassino a um filho. Na escrita, Clara
nunca será negra. Jesus é contraditório para um assassino. Apelido de bandido
será sem diminutivo. Fritz não será índio, nem japonês.
Há
vários com simbologia marcante: Inocêncio (inocência), Júnior (filho), Joana
D’Arc (mártir), Cornélio (traído), Florêncio (afeminado), Modesto (modesto) ,
Ítalo (italiano), Moisés (profeta, libertador). Nem sempre as cargas são óbvias
ou perceptivas. Cuidado para não utilizar um nome “gasto” com simbolismos
diferentes daqueles do seu personagem.
No
conto Pai contra mãe de Machado de
Assis há quatro personagens:
Tia Mônica – derivativo de mono, mulher
solitária;
Cândido Neves – ironia e brancura;
Clara – uma mulher branca;
Arminda – a que tem armas.
Em Vidas Secas de
Graciliano Ramos há muita desgraça. Tanta desgraça que os personagens reagem
como bichos. Exceto o cachorro, Baleia, que tem caráter humano. Conforme Câmara
Cascudo, era comum que os cachorros fossem batizados, por superstição, com
nomes de peixes – Tubarão, Piranha, Cação, Toninha – intencionando afastar a raiva,
ou hidrofobia se preferir (peixe não tem medo de
água).
Fabiano é o chefe da família dos retirantes. Dele há apenas a
descrição modesta de ter barba ruiva e castigada pelo sol, mãos grossas e
calejadas, pés duros, mostrando assim um tipo exemplar
castigado pela rudeza do sertão. A característica de Fabiano é realçada pela
falta de sobrenome. Como um “cabra” que sequer tem nome de família.
Curiosamente Fabiano destoa no sertão. Graciliano sabia das coisas. O Dicionário Aurélio sugere sinônimos
possíveis da palavra fabiano: indivíduo
inofensivo e pobre-diabo.
Sinhá
Vitória, a mulher de Fabiano, sonha apenas ter uma cama de varas; sofre, mas
não esmorece, justificativa para o nome.
Os
filhos, tão desprezíveis pelo sofrimento, tão bichos selvagens, sequer têm
nomes.
Em
Dona Flor e seus dois maridos, de
Jorge Amado, as escolhas também são exemplares: Dona Flor, flor de pessoa,
feminina e cheirosa. O primeiro marido, o malandro e vadio, só poderia ser
Vadinho. O segundo marido, recatado, pacífico e respeitado farmacêutico, é o
Dr. Teodoro Madureira, sugerindo religiosidade (téo) e maturidade.
Branca de Neve
sugestiona inocência. Na história hollywoodiana os anões ganharam predicados do
bem. No original eram sete anões como também eram sete os pecados capitais.
Soneca (preguiça), o tímido Dengoso (luxúria),
Feliz (gula), Atchim (avareza), Mestre (soberba), Zangado (ira) e o mudo e
imberbe Dunga que invejava a fala e a barba dos outros anões.
Quadrilha – Carlos Drummond de Andrade – poema
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.
Observe os nomes e a relação entre eles. Leia de novo. São comuns como
gente comum. Apenas J. Pinto Fernandes não tem prenome, porém dois sobrenomes,
um deles evocando virilidade, por isso conquistou e casou-se. E por ter nome
diferente é que não havia entrado na história.
A
escolha, preferencialmente, deve guardar uma relação com as características dos
personagens, identificação por região, etnia, profissão ou o que o autor inventar:
• Sertanejos:
Severino, Capistrano, Zé da Caatinga, Maria da Zefa;
• Judeus: Abrão,
Ester, Raquel, Moisés, Jacó, Sara;
• Interplanetários:
Zagt Lobxdyp, Mestre Jedi Ikrit, Spock e o irmão Sybok;
• Burgueses
brasileiros: Albuquerque do Porto, Junqueira do Nascimento e Silva – com
sobrenomes duplos ou triplos unidos por elementos de ligação;
• Índios
brasileiros e norte-americanos: Acauã, Guaraci,
Janaína, Pena Branca, Touro Sentado, Pequeno Lobo;
• Franceses:
Pierre, Jean-Marie, François, Nicole, Olivier;
• Bíblicos:
Sansão, Dalila, Abel, Adão, Eva, Madalena;
• Marcas
físicas: Cicatriz, Japa, Cabeção, Ferrugem, Loiruda.
► Faça do nome uma escolha inteligente.
Peça
o seu exemplar inbox ou por r-klotz@uol.com.br apenas R$ 40,00
28 novembro 2016
Liturgia
do fim
Marília
Arnaud
Editora
Alaúde – selo Tordesilhas
R$
30,00
250
páginas
Há
quem goste de rabada com agrião. Há quem considere buchada de bode um prato dos
deuses. Aos vegetarianos a picanha mal
passada é um sacrilégio. Para outros, o camarão ao alho e óleo causa urticária.
Cada comensal tem seu próprio paladar. Assim, posso dizer que este livro não é
um bife com arroz, ovo e batatas fritas. Não é um prato para o dia a dia, não é
um prato comum e de gosto consensual.
É
para quem gosta de comida com muito condimento. E a cozinheira, digo autora, salpica
poesia em todas as páginas, parágrafos, linhas. Em alguns lugares, para o meu paladar, parece
que a tampa do vidro da especiaria caiu e exagerou o sabor. “Costumávamos fazer longos passeios pela
praia, afundando na areia dourada os pés descalços, lambidos de espuma,
sentindo na pele a calidez do sol, escutando o estrugi monótono do quebrar das
ondas.”.
Em
resumo trata-se de história onde Inácio é expulso da casa da fazenda pelo pai. Ele
se forma em Letras, se casa com Ieda, tem uma filha Isabel, mas, introvertido,
jamais consegue lidar com as pessoas à sua volta. Está ensimesmado com o passado
na fazenda Perdição. O motivo da expulsão não fica claro para o leitor. Tampouco
está totalmente resolvido para o protagonista. A história, mistura de recordações
e fluxos de pensamentos, avança lentamente. A cada dez passos para frente, voltam-se
nove passos. São muitas as pistas fornecidas para conhecermos a motivação para o
desentendimento. Marília Arnaud nos conduz com maestria e só nas últimas páginas
revela todo o segredo. A originalidade do final é estarrecedora. Vale todo o
sacrifício de uma leitura floreada de vais e voltas.
Ao
falar do protagonista, Inácio Boaventura, a linguagem parece-me muito feminina,
não me convence para um narrador masculino, mesmo que escritor e poeta de
profissão. Ao lirismo acrescentou dezenas de adjetivos e advérbios.
“Rasgou-me
o peito súbita vontade de chorar, por mamãe e Ifigênia, por todas as coisas que
tinham deixado de ver, o brilho das manhãs, as ondas verdes nas encostas, o voo
nupcial da rainhas ao entardecer, o
debrum alaranjado do sol se pondo atrás das serras, a imensidão das noites
enluaradas, por tudo o que não mais podiam sentir, o vento no rosto, o perfume
das catleias, o calor do sangue a lhe correr nas veias, pelo que tinham deixado
de ser e no que se transformariam, pedaços de carnes devorados pelos vermes,
húmus a nutrir o solo.”.
“Confinado
atrás de muros intransponíveis de raiva e impotência, eu ousava me comparar a
eles, na medida em que o fogo secreto, a sarça ardente que os iluminava e
aquecia era a mesma que me esbraseava a raiz mais funda da vida, ali onde
principiava a angústia da carne, onde latejava o mistério da alma, alma minha,
de onde me fora arrancada uma fatia significante – é verdade que nos
acostumamos com qualquer coisa, com qualquer situação, por mais dura, mais
aflitiva ou humilhante que seja, e na noite mais espessa acabamos por enxergar
pontos luminosos.”.
Entretanto,
Marília Arnaud é espetacular em algumas descrições, como quando apresenta o
cenário de Joaquim Boaventura, o pai de Inácio.
“Sobre o centro, o tabuleiro de gamão e a
Bíblia aberta nos salmos. Pendurado num armador de rede, um macacão de
apicultor. E a cadeira de balanço de papai, trono de um rei sombrio, soberano
de um país perdido nas brenhas de uma serra, senhor de todas as coisas existentes
em derredor e a partir de si, a casa e as pessoas que a habitavam, a terra e a água,
as pedras e as árvores, o animais e as lavouras, as flores e as abelhas, e
ainda o silêncio e a palavra, a última palavra.”.
Depois
de um parágrafo como esse. Precisamos aplaudir.
E
assim, com alguns açúcares na receita, vamos digerindo a narrativa.
Marília
Arnaud, a cozinheira, sem que percebêssemos, acrescentou folhas de erva-santa
ao prato. A erva-santa ou erva-do-bicho confere sabor amargo. Primeiro algumas
poucas folhas esmigalhadas. E, por fim, quando já estávamos familiarizados com
o paladar, imaginando o café sem açúcar, ela se utilizou de várias folhas da
erva, causando um desfecho surpreendente onde, passados alguns dias ainda sentimos
o gosto amargo.
Se
eu recomendo? Sim se você for poeta ou gosta muito de literatura. Caso
contrário, tente entender a história, pule algumas páginas e se surpreenda com
o desfecho.
09 novembro 2016
A obra tem texto leve e fluido. Veja, abaixo, algumas ferramentas
divulgadas pelo escritor
postado em
09/112016 07:00
Isabella de Andrade – Especial para o
Correio
"A técnica não
serviria de nada para a pessoa sem talento, mas aumenta o alcance de quem a
possui" Roberto Klotz, escritor.
Com um texto leve, fluido e
bem-humorado, Roberto Klotz escreveu seu sexto livro, o Manual
do escritor, para compartilhar suas experiências literárias com
novos escritores. Ao longo das páginas, o leitor encontra, além de dicas e
ferramentas para melhorar cada vez mais sua escrita, alguns caminhos que podem
facilitar a publicação do tão desejado primeiro livro.
A ideia básica é de que pequenas mudanças fazem diferença entre autores bem-sucedidos e que a técnica de nada serviria sem talento, sendo apenas um meio para potencializar o alcance de quem o possui. A leitura de seu manual é convidativa e promete sinalizar caminhos importantes para o bom uso das palavras. Em cada rodapé das páginas, o leitor encontra um pensamento ou curiosidade sobre a escrita, ditos por uma grande variedade de autores através do tempo.
A ideia básica é de que pequenas mudanças fazem diferença entre autores bem-sucedidos e que a técnica de nada serviria sem talento, sendo apenas um meio para potencializar o alcance de quem o possui. A leitura de seu manual é convidativa e promete sinalizar caminhos importantes para o bom uso das palavras. Em cada rodapé das páginas, o leitor encontra um pensamento ou curiosidade sobre a escrita, ditos por uma grande variedade de autores através do tempo.
Em seus títulos anteriores o humor se
mostra como uma de suas características recorrentes. Roberto Klotz já lançou Pepino e
farofa(crônicas), Quase pisei! (crônicas), Cara de crachá (conto), A
bruxinha que queria ser fada (infantil), O
monstro da caixa azul (infantil)
e afirma que escrever ficção é algo que vem da vontade humana em imaginar
outras vidas, outros personagens, transformando as ideias em histórias.
“Conhecer as regras é fundamental. Entender os processos e as técnicas, mesmo
sem usá-las, abre oportunidades. Entretanto, cada autor institui suas próprias
normas de criação.” Klotz disponibilizou tudo o que conhece e que considera
mais importante para um escritor, não apenas técnicas literárias: os
profissionais necessários à publicação, editores, mercado editorial,
autopublicação, marketing, vendas.
O autor brasiliense nunca havia escrito um conto ou crônica até 2003, quando resolveu entrar no mundo da escrita. Desde então, Klotz considerava que era preciso ter uma base sólida e conhecimento literário. Ele iniciou os estudos específicos e começou a arquivar aquilo que considerava mais importante para o crescimento pessoal na escrita, além de ler o maior número possível de clássicos e participar de oficinas literárias. “Quando me dei conta, havia escrito apostilas para ministrar palestras e oficinas. Precisei elaborar uma cartilha e, quando percebi, tinha redigido um manual com mais de 200 páginas”, conta.
O autor brasiliense nunca havia escrito um conto ou crônica até 2003, quando resolveu entrar no mundo da escrita. Desde então, Klotz considerava que era preciso ter uma base sólida e conhecimento literário. Ele iniciou os estudos específicos e começou a arquivar aquilo que considerava mais importante para o crescimento pessoal na escrita, além de ler o maior número possível de clássicos e participar de oficinas literárias. “Quando me dei conta, havia escrito apostilas para ministrar palestras e oficinas. Precisei elaborar uma cartilha e, quando percebi, tinha redigido um manual com mais de 200 páginas”, conta.
Possibilidades
O ponto mais importante de qualquer obra literária, de acordo com o autor, seria o ser humano, o desenvolvimento do personagem. Existem inúmeras possibilidades para criar personagens: características físicas, personalidade, meio social, ambiente geográfico, época, sendo ele sempre rico em possibilidades. Klotz dá a dica para a criação de bons seres literários: “Ao criar um personagem imagine que ele tenha um segredo. O diretor da escola esconde que foi mau aluno; a gerente de supermercado suprimiu do currículo a condenação por furto; o marido sublima a atração pela cunhada... Estas serão as fraquezas dos personagens. Personagem forte é o que tem qualidades e defeitos”.
O autor destaca que o aprendizado e o conhecimento da escrita não engessarão os modelos de criação, e sim, pode oferecer ferramentas para somar e aprimorar estilos de escrita já presentes. “Existem academias para aprimorar os dançarinos, conservatórios para ensinar as técnicas aos músicos, escolas de belas artes para desenvolver a pintura dos artistas plásticos. Assim é com a escrita: pode e deve ser aprimorada com a técnica”, afirma.
Fique de olho
·
A pesquisa evita que escrevamos bobagens.
·
O personagem precisa ter motivação. Objetivos
provocam conflitos e conflitos movem a narrativa.
·
Todos os personagens têm vulnerabilidades.
·
Credenciar é habilitar o personagem antes do
conflito em que alguma característica seja importante.
·
Na literatura pode-se mentir; é proibido
falsificar. Parte do trabalho do escritor é tornar plausível o que não é
razoável.
·
Conflito é a questão que motiva a narrativa.
·
A palavra certa é meio caminho para transmitir o
subtexto.
·
Tenha meta e prazo.
·
Vários autores, por descuido na revisão, em vez de
orgulho, passaram a ter vergonha dos próprios livros após a publicação.
Trecho
Você precisa dar o primeiro passo, mas com um plano para chegar ao destino. Escrever é como entrar numa guerra. Exige estratégia, planejamento e arsenal. Saiba as táticas. Camufle a estratégia. Conheça o cenário da luta. Tenha inúmeras armas literárias. Estude antes de entrar na luta: descubra como são e como pensam os protagonistas e os antagonistas. E, principalmente, saiba com profundidade qual é o motivo da guerra, digo, do conflito entre os personagens. Na vida e na escrita, “quando se ignora para onde ir, qualquer caminho serve”. Então, quanto mais detalhar a história, melhor poderá visualizá-la e realizá-la.
SERVIÇO
Manual do escritor
Lançamento do livro, hoje, no Carpe Diem da 104 Sul, a partir das 18h30. O livro estará à venda por R$ 40 e as vendas seguem, após o lançamento, apenas diretamente com o autor. Para adquirir o livro basta entrar em contato: r-klotz@uol.com.br.
Lançamento do livro, hoje, no Carpe Diem da 104 Sul, a partir das 18h30. O livro estará à venda por R$ 40 e as vendas seguem, após o lançamento, apenas diretamente com o autor. Para adquirir o livro basta entrar em contato: r-klotz@uol.com.br.
01 novembro 2016
Lançamento do Manual do escritor
Mais uma amostra do MANUAL DO ESCRITOR
5.1 Abertura
As
regras da escrita foram estabelecidas para facilitar a vida do leitor assim
como as regras do trânsito foram desenvolvidas para evitar o caos nas ruas.
Esqueça
as literatices. Crie parágrafos e recue os inícios de parágrafos.
As
primeiras linhas devem seduzir. Deve-se criar um clima emocional logo no início
da narrativa. Evite incluir informações que sobrecarreguem. Provoque a
curiosidade através de emoções como assombro, desejo, repulsa, ódio, coragem,
alegria, medo, vergonha, raiva, felicidade, orgulho, inveja. Crie uma tensão.
Metamorfose – Franz Kafka – novela
Certa
manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua
cama metamorfoseado num inseto monstruoso.
O tcheco revolucionou ao abrir a
história com uma proposta fantástica. Criou um paradigma assustador e precisou
convencer os leitores da sua verossimilhança.
Vidas secas – Graciliano Ramos – romance
Na planície avermelhada os
juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham
caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos.
Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do
rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam
uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos da catinga
rala.
Com palavras áridas, Graciliano mostrou
a falta de perspectivas da família. A grande meta a ser atingida é a modesta
sombra de um juazeiro.
O estrangeiro – Albert Camus – romance
O pensamento hesitante sobre a data da
morte materna leva-nos a questionar o amor pela mãe e a perguntar,
secretamente, por que não deveria amar a mãe.
O túnel – Ernesto Sábato – romance
Bastará dizer que sou Juan
Pablo Castel, o pintor que matou a María Iribarne; suponho que o
processo está na lembrança de todos e que não se precisam maiores explicações
sobre minha pessoa.
Dificilmente as pessoas assumem os
erros, quanto mais um assassinato. Neste caso, a provocação é que todos
conhecem a causa menos o leitor.
A humilhação – Philip Roth – romance
Ele perdera a magia. O impulso
se esgotara. Ele nunca havia fracassado no teatro, tudo o que fizera sempre
fora vigoroso e bem-sucedido, e então aconteceu esta coisa terrível: ele não
conseguia representar. Subir ao palco tornou-se uma agonia. Em vez da certeza
de que teria um desempenho maravilhoso, sabia que ia fracassar. A coisa
aconteceu três vezes seguidas, e na última vez ninguém mostrou interesse,
ninguém foi. Ele não conseguia se comunicar com a plateia. Seu talento havia
morrido.
O
romancista norte-americano comparou a instalação do fracasso de um ator à
instalação do desastre sexual masculino. Ao comparar potencializou a situação
desesperadora.
Cem anos de solidão – Gabriel García Márquez – romance
Muitos anos depois, diante do
pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela
tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era
então uma aldeia com vinte casas de pau a pique e telhados de sapé construídos na
beira do rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras
polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão
recente que muitas coisas careciam de nome, e para mencioná-las era
preciso apontar com o dedo.
A
morte sempre é chocante. Ainda mais se sabemos a hora em que ela vai ocorrer.
No exato momento do fim, procura recordar tudo o que aconteceu com as gerações
dos Buendía desde os tempos da era do gelo, numa espetacular antítese.
Ana Karênina – Leon Tolstói – romance
Todas as famílias felizes se
parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.
O
questionamento é imediato: porque infelizes?
Nota do editor:
Você se lembra do alerta: “É desastroso autores
forçarem situações para expor o resultado de toda a pesquisa realizada.”?
— Aqui há exemplos demais!
Mais uma amostra do MANUAL DO ESCRITOR
Lançamento dia 09 de novembro – quarta-feira – no Carpe Diem
da Asa Sul.
Livros só com o autor.
r-klotz@uol.com.br
31 outubro 2016
Juan Gómez Bárcena
Alfaguara
246 páginas
R$ 40,00
Escrever uma crítica
literária é desagradável quando o livro desagrada. Neste caso, com O céu de Lima foi prazeroso opinar.
Em 1904, dois sonhadores
poetas peruanos que idolatram um poeta espanhol – Juan Ramón Jiménez, cujo mais
recente livro não está disponível no país. Acham que se escrevessem uma carta ao
autor para solicitar um exemplar não seriam atendidos, então resolvem criar uma
personagem, Georgina Hübner, para seduzir o espanhol e, aí sim, encomendar o
livro. Recebem o livro, festejam e
contam vantagem entre os amigos também admiradores do europeu. Em vez de se
darem por satisfeitos, resolvem dar continuidade à sedução com o objetivo de
conseguir um poema dedicado à personagem inventada.
Logo de cara
eu amei a faísca que impulsionou o autor a escrever. Depois, confirmei que o mote
que originou a história é verdadeiro e Juan Ramón Jiménez veio a ganhar o Nobel
de literatura em 1956.
Juan Gómez
Bárcena nos conduz por uma história riquíssima, repleta de surpresas,
expectativas e realismo.
Além de
desenvolver a história, revela deliciosamente a personalidade, modo de vida e
entrelaçamento dos diversos personagens
Em resumo, José
Gálvez Barrenechea, de família ilustre, é bastante objetivo para conseguir o almejado
poema, enquanto Carlos Rodríguez, filho de empresário que venceu ao explorar índios
nos seringais, redige com letra feminina as cartas desenvolvidas em conjunto e
praticamente incorpora Georgina na tentativa de sedução.
O conjunto de
cartas, estimulado por um escriba de cartas, se transforma também para a redação de um romance.
O
narrador relata a sua versão ambientada cem anos atrás. É uma história de vida, de amor, de relacionamentos
e de literatura. De literatura porque insere dezenas de informações para
produzir um romance.
Construção de
personagem: para seduzir, o escriba de cartas sugere que “o que se mostra pela
metade sempre sugere mais do que o que se mostra por completo.” E completa: “porque
mostrar-se demais é tão pouco sedutor como não se mostrar em absoluto.” E
hilário informa que para se fingir de mulher “basta acrescentar uns quantos ‘não
sei’, ‘acho que ‘, e ‘tenho a impressão’, porque as mulheres hesitam muito. E
reticências também; todas que puder. E depois a questão da caligrafia: mais
complicada do que parece. Mas fora isso... sabe qual é o segredo? Imaginar-se
uma mulher que você amou. E como todos os homens somos parecidos, é de esperar
que o sujeito a quem escrevemos compartilhe a nossa maneira de ver as coisas...”
Algumas
páginas depois põe em prática a sugestão.
“Georgina é a
mesma prostituta polaca outra vez.
A prostituta
polaca se ainda fosse virgem seis anos depois.
A prostituta
polaca se não fosse prostituta nem polaca; se em vez de ter nascido na Galícia
e ter sido vendida por vinte copeques, tivesse nascido numa mansão de
Miraflores e recebido presentes de quatrocentos dólares em sua festa de
debutante.”
Páginas adiante,
vale conferir, mostra como seria Georgina na imaginação de José.
Ainda fornece a
receita estrutural que “nas páginas centrais de todo romance deve acontecer
algo extraordinário.”.
Faltando vinte
páginas ensina que: “o final precisa de um efeito dramático, porque os melhores
romances de amor terminam em tragédia.”.
Mas o autor faz
muito melhor do que recomenda. Surpreende com um final imprevisto.
É certo que o meu
olhar de escritor observa atentamente as técnicas do escritor, mas muito mais
do que isso, quem se manifesta em aplausos é o meu sentimento de leitor.
11 outubro 2016
Turista
Vai escrever um conto, uma crônica? Um romance?
Nem pense que acrescentando tchê, uai ou meu rei às falas transforma os personagens em gaúchos, mineiros ou baianos. Tampouco situando-os numa roda de chimarrão, na arquibancada do Mineirão ou comendo acarajé na porta da igreja de Nosso Senhor do Bonfim realizará o milagre da transformação.
Pesquise para convencer o leitor.
Se o personagem é surfista, entre na onda.
Se é malandro, suba o morro.
Se é velho, pegue um bonde e visite-o no asilo.
Da mesma forma, estude e entre no cenário onde ocorre a história. Sinta sede no sertão árido, coloque um quipá para rezar numa sinagoga, apavore-se numa cela do terceiro distrito.
De preferência escreva sobre o que está ao seu redor, aquilo que você conhece, pensa ou vive. Sobretudo a respeito daquilo que lhe importa.
Grandes autores não foram turistas, nem precisaram viajar. Guimarães Rosa estava em casa no sertão mineiro. Franz Kafka nem precisou transformar-se para falar de assédio moral. Camus era estrangeiro na própria pele.
Neste Manual do escritor precisei pesquisar, entrevistar e ler muito para me aproximar da verdade, se é que ela existe.
19 setembro 2016
Tempero de família
Cozinheiro sofre. Principalmente com a concorrência dos reality’s cooker's.
Sofre só até achar o prato certo.
Precisa ser
saudável, fácil, sem frescuras e preferencialmente econômico. Ser gostoso e boa
apresentação são condições para todos os pratos, então não carecem ser
mencionados. Mas um nome sofisticado, francês, agrega valor.
Se você não
quiser a receita, leia só os dois últimos parágrafos.
Para os
parisienses é frango com quiabo, um prato caipira. Mas, para mim, analfabeto
culinário, acho até difícil de pronunciar, ratatuille, é sofisticação em
primeiro grau.
Fui até a
mercearia perto de casa. Providenciei quatro tomates vermelhos escuros, bem
maduros, outros três tomates italianos por serem mais compridos que redondos,
uma abobrinha, uma berinjela e quatro cebolas médias – três roxas para dar um
colorido legal. Pedi ao atendente um raminho de alecrim, um de manjericão e
outro de tomilho. Alho eu não precisava comprar.
Em casa
coloquei o avental que me transforma de leigo em cozinheiro.
Comecei com o
molho. Na panela aqueci meia xícara de azeite, acrescentei rodelas da cebola comum.
Piquei dois
dentes de alho e juntei às cebolas
Descartei as
sementes dos três tomates maduros e cortei em pedaços pequenos.
Quando a
cebola estava amarelando somei os tomates à panela. Acrescentei os ramos
desfolhados de alecrim, tomilho e manjericão.
— Não conte
para ninguém, mas em vez de sal usei dois cubinhos de bacon.
A minha
páprica picante acabou, mas como gosto de pimenta juntei meio dedo-de-moça
picado.
Esperei
desmanchar o tomate, desliguei o fogo, esperei esfriar um pouco e coloquei no
processador. Depois voltei o molho para
a panela para engrossar um cadinho.
— Caraca! Quase esqueci de colocar o vinho na geladeira (poderia ter sido a cerva no freezer).
Fatiei os tomates italianos, as cebolas roxas. Deixei para fatiar a abobrinha e a berinjela para a última hora porque escurecem.
Despejei o molho num refratário e dispus as rodelas alternando os legumes.
— Bem que eu poderia ter comprado um pimentão amarelo!
Fotografei com o celular, antes e depois de assar e disparei a imagem via whatsapp para Santa Catarina.
Nos 40 minutos
que assava 200oC lavei a
louça, estendi a toalha branca na mesa, tomei uma chuveirada, fiquei cheiroso.
Mentalmente amarrei o Rodrigo Hilbert e acendi uma vela para a Fernanda Lima.
13 setembro 2016
O que fazer nos dias de chuva?
Questionei minha vida. Repensei trabalho, vícios, saúde, amor, atitudes,
amizades, laser. Passei a caminhar diariamente e refletir mudanças.
Houve o dia em que senti que era o momento de reviver a chuva. Será que a
chuva provoca resfriado? Será que me energiza? É verdade que chuva lava a alma?
Ou será que com a chuva somos igual a um tênis que leva uma semana para secar?
Saí e me encharquei de vida. Senti-me como uma criança perguntadeira que ao
chegar em casa levou bronca por participar de ações radicais ao querer entender
o mundo com a própria experiência.
Então? O que fazer
nos dias de chuva?
Aos 12 anos – comprar uma briga
com a mãe, se recusar de ir para a escola e ficar na cama.
Quando apaixonada – recolher uma
cesta de pingos e fritar bolinhos de chuva.
Quando bem acompanhado – colocar
a capinha antes de fazer amor.
Se mulher – amaldiçoar os deuses
do Olimpo que inventaram o cabelo indócil.
Se esquecido – procurar na agenda
de telefones o número do disq guarda-chuvas.
Aos 32 anos – Trocar beijos
carinhosos com a esposa, em casa, ao invés de trocar apertos de mãos com colegas
no trabalho.
Se morador da periferia –
espalhar baldes sob as goteiras.
Se vendedor ambulante – aumentar
o tamanho da barraca e trocar o filtro solar por guarda-chuvas.
Quando de bem com a vida – ir
para a janela e olhar as gotas apostarem corrida na vidraça.
Quando escoteiro – rezar para
nunca mais chover nos dias de acampamento.
05 setembro 2016
Amor em demasia
Levanto-me depois do despertador tocar pela terceira vez. Abro a janela e
a luz não chega até minha casa. Meu quarto está escuro, a casa está escura.
Minha vida é escura.
Se eu não precisasse fazer o café, eu ficaria deitada para sempre. As
crianças precisam de força para encarar mais um dia e João fica muito bravo se
eu me atrasar.
Todos saem para trabalhar. Cabe-me lavar a louça de hoje e a de ontem à
noite. Lavar, enxugar e guardar. Deixar tudo limpo e impecável para ser usado
de novo. Todos os dias são iguais, sempre são a mesma coisa. Deixar tudo limpo
e impecável para ser usado de novo. A pior sujeira é aquela que os olhos não
veem. Os vestígios estão na cozinha, na sala e nos lençóis.
As xícaras não falam. O sofá não fala. Os travesseiros não falam. Mas eu
escuto todos os gritos da casa.
João é forte, bonito e maravilhoso. Quase sempre traz um doce ou uma
bijuteria para mim. Ele é insaciável. Quer me presentear todos os dias.
João não estudou. Trabalha duro e jamais faltou feijão na panela ou
dinheiro para o aluguel. Dependemos dele. A única coisa que pede é amor. Diariamente.
Estou muito fraca. Já não consigo satisfazê-lo todos os dias. Ele se
diverte com as crianças.
Já se passaram 20 anos de quando Joãozinho chorou pela primeira vez.
Quando Nicinha completou 5 anos, também chorou. João nos amava.
Hoje, todos estão na rua trabalhando. Jamais ganhei um centavo, nem sei o
que é ter patrão. Fico em casa enxugando louça e lágrimas.
Uma vez contei para uma vizinha. Mudamos de casa depois de uma semana.
Carreguei geladeira e fogão mesmo toda enfaixada da surra que eu levei.
Já pensei em denunciar. Já pensei em envenenar João. E
daí? Quem vai pagar o aluguel? Quem vai trazer pão e leite? Quem vai me vestir?
Quem vai me dar pulseiras?
Já pensei em apagar a minha luz. Quem vai proteger Nicinha? Quem vai
proteger Joãozinho?
Nossa casa é pequena. Nicinha e Joãozinho dividem o quarto e o pai.
Nicinha coleciona brincos e Joãozinho está gordo de tantos doces.
Silenciosamente, nos revezamos para repartir e amenizar o sofrimento. Somos
prisioneiros e cúmplices do amor.
O despertador toca mais uma vez. A luz da janela não
chega até minha casa. Tudo está escuro. Nossa vida é escura
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