23 fevereiro 2008

Antologia


– Ó, von Silva, o que é antologia?

Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo não faria essa pergunta. Se eu fosse o Raimundo que amava Maria que amava Joaquim, eu também não saberia a resposta. O meu nome é von Silva, não tenho outro de pia.

Se eu estivesse na repartição seria normal este tipo de pergunta. Estou longe de qualquer dicionário porque hoje é sábado. Essa Rosa radioativa estúpida e inválida não deveria ter feito esse questionamento.

Perdido, sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos, procurando uma resposta. Desejei me esconder, desejei ir para Minas, Minas não há mais, quis morrer no mar, mas o mar secou. Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei. Volto para a minha terra que tem palmeiras onde canta o sabiá, que tem cadeiras onde posso sentá e procurar um desmancha-dúvidas. Meu reino por um dicionário!

Deus, ó Deus, onde estás que não respondes? Preciso urgente de um pai-dos-burros. Queixo-me da Rosa, mas a Rosa não fala, simplesmente perguntou o significado de antologia.

Para todas as coisas: dicionário, para que fiquem prontas: paciência. Rosa não tem paciência. Quer resposta. Tem uma pedra no meio do caminho, cadê o maldito tira-teimas?

Toda pedra no caminho você pode retirar. De repente, não mais que de repente surge o salvador e consulto o verbete:

“Coleção de trechos em prosa e/ou em verso.”

– Obrigado, Aurélio!Aurélio, garoto esperto, informa também que intertextualidade é a superposição de um texto a outro.

– Mais uma vez, obrigado, Aurélio!


Pesquisa para o texto Antologia

“Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima , não seria uma solução.” – O Gauche – Carlos Drummond de Andrade

“João que amava Tereza, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili.” – Quadrilha – Carlos Drummond de Andrade

“O meu nome é Severino. Não tenho outro de pia.” – Morte e Vida Severina – João Cabral de Melo Neto

“Porque hoje é sábado.” – O Dia da Criação – Vinícius de Moraes

“A rosa hereditária. A rosa radioativa estúpida e inválida.” – A Rosa de Hiroshima – Vinícius de Moraes

“Sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos.” – Alegria, alegria – Caetano Veloso

“Quero ir para Minas, Minas não há mais, quer morrer no mar, mas o mar secou.” – E agora, José? – Carlos Drummond de Andrade

“Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei.” – Vou-me Embora pra Pasárgada – Manuel Bandeira

“Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá.” – Canção do Exílio – Gonçalves Dias

“Meu reino por um cavalo!” – exclamou Ricardo III na Guerra das Duas Rosas, conforme William Shakespeare

“Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?” – Vozes d'África – Castro Alves

“Queixo-me às rosas mas que bobagem, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti, ai.” – As Rosas – Cartola

"Para todas as coisas: dicionário, para que fiquem prontas: paciência." – Diariamente – Nando Reis

“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.” – No meio do caminho – Carlos Drummond de Andrade

“Toda pedra no caminho você pode retirar.” – É preciso saber viver – Roberto Carlos e Erasmo Carlos

“De repente, não mais que de repente, fez-se de triste o que se fez amante.” – Soneto da Separação – Vinícius de Moraes

“Se você rouba de um autor, é plágio, se de vários, é pesquisa.” – Wilson Mizner

16 fevereiro 2008

Achados e perdidos

Quando abri a cortina para olhar o tempo, vi a minha vizinha andando e gesticulando muito. Tomei o café, li o jornal e coloquei minha bermuda caminhante. Iniciei meus exercícios diários descendo os cinco andares pela escada.
A vizinha, agora com as duas mãos na cabeça, continuava a caminhar agitada no calçamento entre verdes gramados.
Segui meu caminho solitário. Ainda olhei para trás por duas vezes. A mulher andava para lá e para cá no mesmo trecho, nos mesmos cem metros. Parecia desolada, balançando a cabeça de forma negativa.
A vizinha é uma senhora que já passou dos setenta anos, magrinha, magrinha. Cabelos brancos amarrados em coque. Blusinha abotoada até o pescoço e nenhuma maquiagem para disfarçar as olheiras profundas. Viúva. Mora sozinha, sem gato ou cachorro. A filha mora em algum país da América Central. Confidenciou-me o síndico que rareiam os seus alunos de piano e que ela está em débito com o condomínio por cinco meses. Contou também que a solitária professora deve estar com algum outro trabalho, uma vez que passa as tardes fora de casa ao contrário dos últimos dez anos. Pela falta de luz nos olhos parecia ser daquelas pessoas que foram esquecidas pela Dona Morte.
Enquanto eu seguia o meu caminho a Dona Ernestina, esse era o nome dela, balançava seu coque branco e os meus pensamentos.
– O que será que Dona Ernestina perdeu? Algum brinco ou broche familiar? Talvez alguma pulseira que a ligasse ao amado marido?
De longe, vejo a viúva de cabeça baixa procurando na calçada e na grama. A dor também aperta o meu peito. Uma vez perdi uma abotoadura com monograma que herdei do meu avô. Nenhuma outra jóia substitui o ouro e o brilho das pessoas amadas.
A angústia tomou-me o corpo e fui em direção ao desespero personificado naquela mulher.
Ela precisa de ajuda. Quem sabe se eu chamar o pessoal do prédio para auxiliar na busca? Com a ajuda do zelador e mais três faxineiros rapidamente encontraremos a jóia sumida no passeio público.
Dona Ernestina sentou-se no banco.
Aproximei-me e sentei-me ao seu lado. O rosto da Dona Ernestina estava molhado de lágrimas. Peguei suas mãos, tomei fôlego e perguntei:
– O que a senhora perdeu?
– O piano.
Eu me senti um idiota. Perde-se uma carteira, um guarda-chuva, um cachorro ou até um amante. Mas perder um piano?
– Acho que não entendi. A senhora perdeu um piano?
– Perdi o meu piano de trinta anos. Era um Steinway.
Olhei para a grama à esquerda, olhei para a grama à direita como se estivesse procurando o objeto perdido.
– Onde a senhora perdeu o seu piano?
– No bingo. No bingo, meu filho.
Desisti de pedir o auxílio aos funcionários do prédio.A Dona Ernestina perdeu as notas, ficou sem dó.

11 fevereiro 2008

A corrida por um beijo

– Oi, vô, posso caminhar com você?
– Lógico, meu filho. Não era você que estava empinando pipa ontem à tarde?
– Era sim. Você viu como ela estava alta?
– Eu só vi quando você estava com a pipa na mão, correndo para subir. Uma beleza de amarelo! Se você vier comigo pode chegar atrasado na escola...
– Ainda está cedo. Minha aula só começa às oito.
Achei estranho que aquele menino quisesse caminhar comigo. Eu só o tinha visto meia dúzia de vezes, nos gramados que ficam em volta dos edifícios onde moramos. Ele estava visivelmente querendo falar comigo, sentado na escadaria do prédio esperando eu passar.
O menino colocou-se à minha esquerda e seguimos juntos o meu trajeto rotineiro.
– E qual é seu nome?
– Pedro.
– Eu vi você jogando bola outro dia. Você leva jeito. Mas o chamavam por outro nome. Não era?
– Tico. Tico é nome de criança. Prefiro Pedro. Pedro é meu nome e é de homem. Já fiz onze anos, véi.
– Maravilha. E o Pedro torce para que time?
– Torço para o Botafogo. E o senhor?
– Ah, meu filho, o Senhor está lá no céu. Sou Fluminense. – Certamente o menino não quer discutir futebol, ele está tenso. Resolvo arriscar. – E as meninas?
– Pois é vô, você não se importa se eu chamá-lo de vô. Não é?
Parece que acertei, pensei comigo, ele está com algum problema em relação a alguma menina.
– Gosto que me chamem vô. Não gosto quando me chamam de seu isso ou seu aquilo. Em que posso ajudá-lo?
– É que eu gosto da Carolzinha. Já pedi pra namorar com ela e agora apareceu o Joca e quer atrapalhar tudo. Ele também quer namorar ela.
– A Carolzinha deve ser muito bonita...
– Ela é linda. E eu acho que ela gosta de mim enquanto a turma acha que sou muito pirralho pra ela.
– Pirralho?
– Ela tem doze anos e é um pouco maior que eu. Mas só um pouquinho.
– E porque você acha que o vovô pode ajudá-lo?
– É que a síndica falou que você é mó namorador.
– Mas isso é fofoca. Era só o que me faltava. Ela não tem mais o que fazer?
– Eu já vi você caminhando de mãos dadas com várias mulheres diferentes...
– Tá bem, espertinho, vamos retomar a conversa da Carolzinha, isso é o que interessa. Se a Carolzinha gosta de você e você gosta dela por que o Joca iria atrapalhar tudo?
– O Joca é mó bom. È ele que tira par ou ímpar para escolher os times. È só ele que sabe andar de bike na roda de trás. È ele que tira mó onda de sabe-tudo. As meninas só querem saber dele. A turma toda já tá torcendo para ele.
– Então a coisa tá preta. E você acha que a Carolzinha vai cair na onda dele?
– Acho. A Zeca me sacaneou. Inventou uma corrida. E quem ganhar, ganha um beijo da Carolzinha. Mó sacanagem! Tô afim da Carol há muito mais tempo e o Joca é bem maior do que eu e corre mais. Tô ferrado!
Nem perguntei mais detalhes do Joca nem da Zeca para não tirar o foco da preocupação do menino.
– A corrida já está marcada?
– Já. É na semana que vem. A Zeca disse que assim eu teria tempo de treinar. E deu mó gargalhada na minha cara!
– Quer dizer que quem ganhar a corrida ganha um beijo como se fosse aquela medalha olímpica? É isso?
– É isso, vô. Tô ferrado!
– E o Joca, com aquela cara de maioral, ainda disse que me dava 3 metros de vantagem. Filho da mãe!
– E onde vai ser a corrida?
– A Zeca disse que eu poderia escolher qualquer lugar, que o Joca vai ganhar mesmo.
– O Joca também estuda aqui na escola?
– Estuda. Por que? Você não vai falar com as tias, vai?
– Jamais. Isso é coisa de homem. Coisa de homem para resolver como homem.
– O Joca nem quer namorar com a Carolzinha, ele só quer tirar onda e mostrar que ele é o bonzão, o fodão.
– Eu acho que você deve marcar o dia e hora lá na escola.
– Isso é tudo o que ele quer. Aparecer!
– Você deve escolher a hora que tiver mais gente para ver a corrida.
– Para gritarem o nome do Joca? É campeão! É campeão! É campeão! Beija! Beija! Beija! Nunca. È muita humilhação.
– E se for o contrário?
– Contrário como? Não existe a menor chance de eu ganhar a corrida.
– Faça o seguinte: diga que topou o desafio e marque com a turma o dia e a hora na escola. Ainda faça uma provocação que você já está treinando para beijar. Deixe para dizer aonde será a corrida para a última hora.
– Eu hein? Na escola só tem o pátio. Não tem jeito.
– Você quer ou não quer ganhar aquela medalha olímpica?
– Claro, né, vô. Eu amo a Carolzinha.
– Você tem a vantagem de 3 metros não tem?
– Tenho, mas é muito pouco.
– Na última hora diga que é na escadaria da escola. Escada acima. São apenas três andares. E comece a treinar desde já.
Pedro abriu mó sorriso e saiu correndo.– Valeu, véi.

05 fevereiro 2008

Homo brasiliensis

– Cobogó? Que diabos é isso?
Eu não sou de prestar atenção na conversa alheia. Entretanto, às vezes é impossível não ouvir.
Eu estava voltando para Brasília sentado na poltrona do meio. Logo atrás de mim, naquele vôo lotado, estava uma mulher vistosa dos seus trinta anos. Entendi que ela não conhecia Brasília e recebeu convite para trabalhar na capital. Ela queria saber como as pessoas moram em Brasília e encontrou na poltrona vizinha um candango falante que deve ter sido guia turístico. Ambos falavam alto, o que tirou a atenção da minha leitura.
A primeira frase que ouvi foi dele.
– Os ricos, moram no lago. Os bem ricos, numa ponta de picolé.
– Como é? – Indagou a mulher formando rima.
– As pessoas mais endinheiradas moram próximas do lago e os terrenos enormes que ficam nas margens são chamados pontas de picolé. Somente esses têm o privilégio do acesso à água. Acredito que o melhor lugar para morar é no Plano.
– As margens do lago são muito íngremes?
– Não. Por que?
– Você disse que preferia morar em lugar plano.
O vizinho, imagino, deu um sorriso, explicou que se referia ao Plano Piloto e falou das asas Sul e Norte arrematando que as melhores quadras eram as cem e as trezentos.
Naturalmente ela deve ter feito cara de dúvida, pois ele tornou a explicar que as quadras cem e trezentos ficavam a oeste do Eixão.
Continuei sentado no meu lugar, preso ao cinto de segurança, mas com uma enorme vontade de olhar para trás para ver a cara de interrogação da mulher.
– Eixão?
O avião deu uma chacoalhada de modo que perdi aquela explicação. Ouvi outra, já pela metade.
– ... os melhores apartamentos são os mais antigos, são amplos e vazados.
– E o que é um apartamento vazado?
O candango chegou a ser irritante com sua longa e apaixonada explicação.
– Os prédios, conhecidos por blocos, ficam deitados. São compridos em vez de altos. O que faz com que haja maior número de apartamentos no mesmo andar e provoca menos áreas externas, logo há muitos apartamentos com apenas uma frente. Os antigos têm frente e fundo do lado oposto. São os vazados. Todos os apês antigos têm cobogó.
– Cobogó? Que diabos é isso?
Adoro essa palavra formada pela primeira sílaba de três engenheiros que criaram uma parede de tijolos decorativos que permite ventilação e entrada de luz natural. De modo que só ouvi o final da frase do vizinho falante.
– ... além do que, são impressões digitais da cidade.
Daí, ela perguntou qual era o prato típico da cidade.
E ele foi muito criativo na resposta.
– Não há nenhum prato típico porque os moradores têm origens em todas as regiões brasileiras. Na cidade encontramos todos os temperos. Não há prato nem forma comum de preparar alguma iguaria. È usual a reunião das pessoas em torno de uma churrasqueira. Cada um preparando a carne, ou peixe, por que não, a seu modo. Quase todas as casas do Lago têm churrasqueiras. Quase todos os clubes têm churrasqueiras e também há muitas espalhadas nos parques públicos. O churrasco agrega as pessoas. O brasiliense aprendeu que para sobreviver ali deve unir-se com os outros, respeitando e ultrapassando barreiras regionais.
– Uau! Falou bonito! Só ouço as pessoas falarem mal de Brasília, que é onde todos os corruptos se reúnem para roubar o resto dos brasileiros...
Nesse momento a forasteira acertou o fígado de todos os brasilienses com um poderoso golpe direto.
– Pois é, esse lamentável rótulo pertencia ao Rio, enquanto capital. Mineiros pão-duros, baianos preguiçosos, paulistas trabalhadores. Rótulos servem apenas para garrafas. A corrupção está espalhada por todos os cantos do nosso país. Não se salva nenhum enquanto permanecer a impunidade. A diferença é que em Brasília as somas são maiores e a mídia está mais atenta.
A mulher percebeu que cometeu uma gafe ao falar mal de Brasília a um brasiliense. E procurou mudar de assunto:
– Faz muito tempo que você mora em Brasília?
Aliviado, o candango respondeu:
– Agora você já está falando como uma brasiliense legítima...
– Não entendi...
– Quando duas pessoas se conhecem, a primeira pergunta é: há quanto tempo mora na cidade? e a segunda, invariavelmente, é: de onde você veio? Agora, com o passar do tempo e o nascimento de uma geração de nascidos na capital, a coisa mudou um pouco. De qualquer forma, as perguntas sempre são bem-vindas para o início de uma conversa.
– E, há quanto tempo, afinal, você mora na cidade?
– Fui para lá no início da década de 70. No tempo em que a lenda dizia que quem se mudava para Brasília passava pelo estágio dos três dês. Deslumbramento, decepção e desespero. Deslumbramento com as largas avenidas, arquitetura monumental e proximidade com o poder. Decepção ao perceber que morar próximo ao poder não os transforma em nobres. Desespero por não se adaptar à cidade e querer ir embora.
– Era tão ruim assim?
– É uma cidade de gente guerreira. Os perdedores sempre reclamam. O tempo incorporou outro dê. O dê da demência.
– Como assim? Não entendi...
– É quando as pessoas se acostumam, se entrosam e passam a amar Brasília.
– Interessante essa lenda...
– Particularmente, adotei ainda os dês da devoção e defesa da cidade que tão bem me acolheu.
Nesse momento a conversa dos dois foi interrompida pelo forte barulho do retrocesso das turbinas no pouso do avião.
O avião taxiou e estacionou.
Abri a porta do compartimento acima da cabeça, peguei minha sacola e olhei para os que me proporcionaram um vôo mais agradável.Ainda pensei em falar ao conterrâneo que as sílabas de cobogó foram formadas a partir dos nomes de Coimbra, Boekmann e Góis, mas apenas me despedi com um gesto de cabeça.


*Foto de Carlos Vieira

02 fevereiro 2008

Lâmpada mágica dos meus sonhos

Abaixei-me para pegar a lâmpada. Parecia vinda dos sonhos do oriente. Nunca tinha visto um objeto assim, só em filmes, desenhos animados ou livrinhos infantis com histórias mágicas. A forma da lâmpada sugeria cruzamento de bule com açucareiro de latão.
Essas coisas só acontecem comigo!
Olho em volta para conferir se não há ninguém olhando para mim. Isso está parecendo um trote. Qualquer mortal que eu conheço se encheria de sonhos e desejos, esfregaria a lateral, levaria um susto como o mago esfumaçado imaginário e teria o direito de formular três pedidos por libertar o gênio aprisionado por dois milênios.
Imagine se eu iria me dar ao trabalho de ficar elucubrando bobagens como essa?
Caminhão de dinheiro? Mulheres? Uma viagem ao redor do mundo? A paz entre os homens? Eternidade? Não, eu não vou perder tempo com isso. Ainda tenho algumas coisas para fazer antes do sol se por. A primeira é me desviar desse monte de meninos zunindo de bicicleta pela calçada.
Essa lâmpada vai ficar bonita em cima da cômoda na sala. Combina bem com o porta incenso e a caixinha de marchetaria. A quem perguntar, contarei que a ganhei de um xeique árabe por ter vencido uma corrida de camelos.
Olhando a lâmpada vejo que ela está bem sujinha. Está precisando de um polimento antes de ter o direito de ser defumada pelo incenso.
– Você que está lendo, já estava adivinhando que eu iria esfregar a lâmpada. Não é verdade?
Cinco passos adiante comecei a limpar a lâmpada com a barra da camisa.
– Pergunto a você, leitor, o que aconteceu?
Ouvi uma voz atrás de mim. Uma voz infantil, uma voz de menino.
Atrás de mim estava um garoto de uns dez anos de idade com um turbante na cabeça.
– Oi vô. Que bom que você achou minha lâmpada. Ela caiu da bicicleta.
Olhei desconfiado para aquele turbante carnavalesco.
– Bicicleta? Cadê a sua bicicleta menino?
– Tá ali, ó! Devolve a minha lâmpada.
O menino falou com tanta convicção que entreguei o objeto e os meus sonhos infantis.
O garoto pegou a lâmpada e voltou em direção da bicicleta.
Retomei o meu caminho debochando os meus absurdos devaneios. Onde já se viu uma lâmpada idiota provocar tantas fantasias. Melhor assim. Voltar ao meu caminho, à minha realidade.
Enquanto o velho caminhava para um lado, o garoto com a lâmpada na mão, voava no seu tapete para o outro lado.

29 janeiro 2008

Entre quatro paredes

A excitação entra no elevador.
O desejo também entra.
Desce o zíper.
Sobe a saia.
Desce a calcinha.
Sobe a volúpia.
Línguas entrelaçadas.
Isso vai ser uma loucura.
Pensa o ascensorista
enquanto aperta o 22.

19 janeiro 2008

Taturana detalhada

Eu me abaixei na calçada para amarrar o tênis e vi uma taturana.

Não era uma taturana qualquer. Era uma bichinha cheia de detalhes.

Tinha sete centímetros de comprimento e um centímetro de diâmetro. Era gordinha, bem rechonchuda. Era um roliço colar de contas alternados em verde e preto cobertos por enormes pelos negros. Na frente: duas antenas. Embaixo, dos dois lados, uma série de perninhas cabeludas escuras. O rabinho terminava em ponta enquanto a cabeça era redonda e com um par de olhos amendoados.

Vi todos esses pormenores na lagarta que começava a atravessar a rua na faixa de pedestres.

Ela estava na faixa branca quando um carro passou zunindo tirando um fininho da sua orelha.

Levantei a vista e vi outro carro se aproximando veloz. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, os pneus do carro tiraram outro fino da lagarta que prosseguia corajosamente seu rumo ao outro lado da rua.

Olhei novamente para a taturana. A rua tem nove metros de largura. A faixa tem doze listras brancas e outras tantas negras. Calculo que na velocidade em que ela segue o caminho deverá levar oito minutos até chegar do outro lado. È muito tempo. Mais de trinta carros vão passar ali antes que ela chegue do outro lado.

Agora seis carros se aproximam. Tenho que tomar alguma providência para alterar o destino da taturana.

Em Brasília os carros param na faixa de pedestres.

Tomo a única decisão possível naquela fração de segundos.

Aceno com a mão direita a minha intenção de atravessar a rua na faixa destinada aos pedestres e os carros respeitosamente param, um atrás do outro. A minha angústia é maior que a da taturana.Vou em direção à lagarta e a esmago impiedosamente.


Moral da fábula: Detalhes podem encurtar a história.

14 janeiro 2008

Navegando


Fui mordido pela rocha,

o vento cozinhou estrela,

a mangueira ficou a vê-la,

defendeu-me a galocha.


Bebo água com canivete,

o telefone se retrata,

no discurso do vira-lata,

sola do pé mais três dá sete.


Máquina de caldo-de-cana,

picolé sorriu com cautela,

sábado acende a chama.


Jacaré tropeçou na goela,

até Baco Ana profana,

tudo é possível com ela.

08 janeiro 2008

A noite em que brochei



Sabe aqueles peitos das mulheres de filmes americanos? Pois é, a Patrícia tem um par desses. O generoso decote exibe muita energia, poder e alegria. Logicamente a alegria fica por conta, apenas, daquele que tiver o privilégio de brincar naquelas montanhas russas. Ou americanas. Ou brasileiras. Sei lá, eu sempre me perco quando estou cercado no vale.
A Patrícia é da área de marketing e são raras as oportunidades que tenho de encontrá-la no trabalho. Aquela exuberância só fica disponível aos meus olhos nas reuniões semestrais. Até propus que as reuniões semestrais fossem todos os meses. Mas parece que a diretoria não quer que outras gerências se relacionem com o pessoal de propaganda e marketing.
Na última reunião além do decote ela veio de saia. Uma saia comportada. Nem chamou a minha atenção, ao menos antes da reunião começar.
As coisas começaram a se complicar quando o destino me colocou na mesa bem à frente da doutora Patrícia. Eu havia me preparado com afinco para aquela reunião de resultados. Uma boa apresentação respaldada em trabalho eficaz poderia definir uma promoção para alguém daquela sala. E eu queria ser promovido.
No momento em que percebi que a exposição de motivos do departamento de marketing estava naquele decote resolvi abaixar a cabeça e concentrar o meu olhar nos meus apontamentos. Foi aí que eu perdi minha promoção.
Patrícia jogou com toda sua capacidade. Ela estava em casa. O terreno era o dela. Ela já sabia onde seria a reunião. Seria na sala com a enorme mesa de tampo de vidro. E ela se preparou muito melhor que eu. Usou de todos os artifícios para me constranger e me desconcentrar. Ela estava sem calcinha. Fui aplicado, conferi direitinho e me certifiquei que ela realmente, deliciosamente, estava sem calcinha. Ela empurrou um bilhete para mim.
– Quer?
Limpei a baba que escorreu pela lateral da minha boca e assenti com a cabeça olhando para o decote. Era impossível olhar para os olhos da doutora Patrícia.
A fama da doutora era de cumpridora de prazos e compromissos.
Na sexta-feira nos encontramos e fomos ao motel.
Tudo perfeito, Patty estava pleonasticamente divina. Meus sonhos iriam se realizar. Era o sonho de dez entre dez funcionários da empresa.
Só nós dois no quarto. Meia luz. O beijo. A agarração. A volúpia. Mãos acariciando e apalpando. Mãos despindo corpos. Corpos nus se pegando e se esfregando. Libido nos céus. Os enormes e rígidos seios eram meus, todos meus. Meus e da minha língua.
Minha língua descreveu meio círculo no mamilo de Patty e na mesma hora Patrícia, de prazer, cravou as dez unhas nas minhas costas. O sangue correu da perfuração de dez punhais.Brochei. Perdi a promoção, o tesão e a vantagem de dizer que tinha comido a Patrícia.

04 janeiro 2008

O dia em que a banheira transbordou

Relaxar na água calma e morna da banheira é tornar ao útero. É muito melhor do que sentar no chão duro e frio com as pernas cruzadas zen pensar.
Foi nisso que pensei quando levantei da cama.
Escovei os dentes, penteei a juba e liguei toda a água quente e um tequinho da fria. Enfiei um calção, uma camiseta e meu pisante de atleta. Não tenho paciência para ficar deitado numa banheira, prefiro um rápido chuveiro. Entretanto, uma vez por outra, quando estou tenso, faço como fazem com as batatas: deito na água fervente até me desfazer.
Tranquei a porta meti a chave do apê no bolso esquerdo e desci as escadas. Cinco andares.
Faço minha caminhada em quarenta minutos e a banheira leva cinqüenta para encher. Quando agitado, tenso ou preocupado costumo ir a passos mais velozes e retorno do percurso em tempo menor.
Estava muito ansioso. Havia recebido oferta de trabalho, tentadora, fora de Brasília. Sempre é bom ser reconhecido e ser valorizado. Porém, as mudanças tiram-nos de uma situação de conforto e acomodação. São desafiadoras e misteriosas. Já tinha feito tantas mudanças. Mudei de carro, de casa, mudei de penteado e mudei de namorada. Este, na verdade era meu problema. Trocar de namorada. Nunca fico satisfeito. O mundo está cheio de mulheres maravilhosas. Só encontro as erradas. Quando são bonitas, não sabem conversar. Quando sabem conversar não sabem parar de falar. Quando param de falar não são liberadas no amor. Quando são ótimas no amor não sabem fritar um ovo.
Eu estava namorando com a Cláudia, uma mulher que podia ser capa ou a página do meio da Playboy. Deliciosamente culta que argumentava Freud, almoçava Sartre, bordava Machado de Assis, dormia Nelson Rodrigues e cozinhava Neruda. Porém, sempre há um porém, ela era altamente invasiva. Quando eu menos esperava, lá estava ela, metendo o nariz onde não foi chamada. Mas isso já é outra história.
Para mim, importava caminhar enquanto ponderava sobre o convite de trabalho e todas as suas conseqüências, boas e ruins enquanto a banheira enchia para o arremate de uma reflexão.
Pensava no salário, no aluguel de imóvel, na realização profissional e no distanciamento dos filhos quando sem mais nem menos surgiu a figura do síndico que bloqueou meus passos e pensamentos.
Falou-me da reforma da portaria, de taxas extras, do eterno problema do vizinho do 207 que toca saxofone às duas da manhã. Encheu meus ouvidos com o caso do garoto do 405 que belisca todas as empregadas. Auto-elogiou sua administração com a redução de despesas e solicitou meu voto para a reeleição próxima.
A conversa mole me incomodou e procurei uma desculpa para me desvencilhar do maçante síndico. Quando me lembrei da banheira.
Em pânico levei as duas mãos à cabeça e gritei:
– Meu Deus! Deixei a banheira enchendo! – e saí correndo.
Cheguei em cinco minutos e logo vi que a sala, ao menos, continuava seca.
O corredor também estava seco. E nem havia água sob a porta do banheiro.
Que diabos? – pensei – meu filho está viajando e eu deixei a porta aberta...
Abri a porta e espantado vi Cláudia na banheira de espuma.
– Como você entrou aqui?
– Pedi a chave ao seu filho.
Apesar do alívio por não encontrar enchente e apesar da beldade na minha banheira desisti do banho irritado com a invasão da minha privacidade.
Fui para o quarto, sentei no chão duro, assumi posição de ioga e contei até mil antes de fazer amor.

18 dezembro 2007

Por favor deixe seu recado...


Estarei ausente por alguns dias. Retorno antes da virada do ano se o avião não cair. No Natal, desejo que o Papai Noel traga bastante sexo para você.
Minha secretária estará de plantão peça para ela anotar seus recados, solicitei que ela organizasse meu escritório na minha ausência.

16 dezembro 2007

Pombos carnívoros

Nestes tempos de Tsunamis, o Correio Braziliense não publicou, acredito que por falta de espaço, a grande desgraça acontecida aqui na nossa casa. A revista Veja, conforme fonte segura, já está com seus repórteres preparando uma grande matéria e procurando a causa da mutação. Columbófilos consultados disseram que já houve antecedentes tanto numa praça de Versalhes, Paris, quanto em Washington, no Capitólio. O motivo da mutação, ainda conforme o presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Pombas – ABCP, José Carlos Paloma Filho, é a proximidade com o poder que transforma as delicadas aves em agressivas pombas carnívoras.
Abraços,
Klotz

Brasília Urgente – Hoje de manhã, na Praça dos Três Poderes, pombos carnívoros atacaram turistas. A primeira vítima foi uma menina de 5 anos, MDM, que ao oferecer milho aos símbolos da paz teve o dedo anular devorado pelas aves mutantes. Logo em seguida um turista, Severino Morais Silva de 56 anos, vindo do interior da Paraíba teve uma orelha decepada pelas feras voadoras. A imagem da turista estrangeira foi feita por fotógrafo amador pouco antes de Elisabeth Bourbon, 27 anos, ser devorada pelos 17 pombos.

06 dezembro 2007

A bunda de Darwin

O Brasil é um país maravilhoso por abraçar as diferenças raciais com naturalidade.
Eu estava na fila do cinema quando vi, um pouco à frente, um casal diferente. Ela de traços orientais. Olhos puxados, pele amarelada, cabelos negros escorridos, peitos semelhantes a ovos fritos e ausência de bunda. Ele de traços africanos. Pele cor de ébano, lábios grossos, nariz achatado e bundão.
Achei engraçados os dois traseiros ladeados.
Atiçou-me a curiosidade. A mesma curiosidade que teve Darwin ao desembarcar em Galápagos e observar as diferentes espécies de animais.
Lá, em Galápagos, ele desenvolveu a Teoria da Evolução em que, na luta pela vida, os organismos desenvolvem características que favorecem a sobrevivência da espécie. Assim a girafa alongou o pescoço para alcançar as folhas mais altas das árvores e o camelo dos desertos, para armazenar água, consegue beber até 120 litros de água de uma única vez. Nenhum destes animais estava em Galápagos como o filme que eu veria pouco depois também não se passava naquela ilha.
Aquelas bundas e a teoria da evolução me fizeram refletir que, lá no passado distante, a cópula humana devia ser como a dos outros quadrúpedes, naquela posição em que Napoleão perdeu a guerra.
E se o oriental, é o que dizem, tem um bilau pequeno então a fêmea oriental de geração em geração, teve sua poupança diminuída para que houvesse a fecundação.
Por outro lado, isto é, pelo mesmo lado, o traseiro, as fêmeas africanas, com o passar das gerações tiveram sua poupança aumentada para evitar as espetadas doloridas das enormes – é o que dizem – espadas africanas.
Coitada daquela japonesa namorando o negão.

02 dezembro 2007

Quase pisei!

Nenhuma novidade. Todos os dias caminho. Todos os dias desvio de cocôs caninos. Todos os dias fico estressado. Hoje resolvi não me estressar.
Tenho lido algumas revistas e artigos de auto-ajuda. E li algo parecido com o provérbio que diz: “Se Deus lhe der um limão faça um limonada”. Agora que estréio pisante novo, branquinho, fico mais preocupado ainda em não batizá-lo com cores marrons. Dizem que marrom dá azar. Pura superstição. Mas, voltando ao provérbio e o mal que me aflige nas manhãs caminhantes, imagino que fazer limonada de titica de cachorro não é exatamente a proposta do provérbio. Nos livros de auto-ajuda os exemplos e os resultados sempre são imediatos e de facílima aplicação. Está difícil imaginar-me fazendo limonada tão insólita.
Nem sei se os livros de auto-ajuda estão preparados para ensinar seus dogmas aos caminhantes. Dizem que para estimular a estima e confiança devemos caminhar com o olhar acima da linha do horizonte. Olhar para baixo deprime. Em São Paulo, com aquele monte de edifícios, todos ficarão com torcicolo. E tem mais, se eu olhar para cima enquanto bato pernas, como fazer para desviar das lembranças caninas? Meu estimado tênis vai ficar deprimido e sujo.
Se Deus lhe der um limão faça uma limonada. O que é que isso tem a ver com as fezes caninas? Não foi o Todo Poderoso que as espalhou calçadas afora. Se tivesse sido teria realizado um trabalho perfeito. Não teríamos como escapar. A cada passo estaríamos xingando e blasfemando. O Divino não iria provocar a ira dos homens contra sua Pessoa.
Acredito que o provérbio sugira que devo pegar o cocô, literariamente é claro, e transformá-lo em algo agradável e que, ao invés de provocar aborrecimentos traga alegria.Paro em frente à primeira marca canina e observo a longa calçada. O desenho do cimentado é curioso, lembra um longo jogo de amarelinha. Um pé, depois dois pés, um pé novamente, depois dois pés, seguindo até onde o olhar alcança. Abro um largo sorriso, vou tomar a minha limonada, recolho o pé esquerdo, imitando saci pererê, e salto de amarelinha evitando os quadrados já ocupados.

22 novembro 2007

Calção sem elástico

– Quer ir comigo? Perguntou a apetitosa balzaquiana dentro do elevador.
Antes da pergunta minha resposta já estava pronta: por essa vizinha faço qualquer coisa, até derrubo o presidente e a promovo rainha.
Nossos encontros no elevador não são nada casuais, eu sou apreciador das coisas boas da natureza, chamo o elevador exatamente às 7h15, justo na hora em que ela sai para malhar na academia usando roupinhas coloridas. Prefiro caminhar próximo de casa, em torno da quadra, considero um contra-senso pegar o carro para fazer exercícios. Algumas vezes trocamos olhares e bons-dias quando me atrevo a caminhar até o parque situado a três mil passos de casa. Hoje estou usando meu calção mais antigo. Sempre achei que ele fosse sensual. Agora tenho a prova definitiva. O calção faz a diferença.
Hoje ela está mais cheirosa do que nunca e me pergunta se eu quero ir com ela. Será que devo me ajoelhar e agradecer o atendimento às minhas preces ou simplesmente dizer sim? Será que devo responder que prefiro caminhar perto de casa desviando de cocôs caninos camuflando meu longo compromisso com a namorada? Respondo numa linha defensiva.
– Será um prazer acompanhá-la, se você tiver paciência com os passos lerdos de alguém da minha idade. – Com certeza dirá que não estou velho, que estou enxuto e outros elogios mais...
– Eu já reparei que seus passos são rápidos. O senhor não está tão velho assim. Eu amo esses cabelinhos brancos que o senhor tem nas têmporas...
Enquanto me derretia com as doces palavras ela continuou: – O senhor é tão meigo, tão suave, posso chamá-lo vovô?
Quase desisti de ir ao parque.
Chegamos à garagem e fomos direto à vaga onde estava o carrinho da jovem.
Até o parque não trocamos palavras.
Do lado de fora do carro tirei a camisa antes de fechar a porta. Não são apenas as plantas que fazem fotossíntese.
Na entrada do parque coloquei o celular num bolso, o molho de chaves no outro bolso e perguntei se ela vinha com regularidade ao parque para caminhar.
– Gosto de vir aqui. É sossegado, não tem bicicletas zunindo nem cachorros latindo. – Ela respondeu provocando meu assunto recorrente.
– A grande vantagem do parque é caminhar despreocupadamente, pois não há cocôs nas trilhas. Nem grandes nem pequenos. Nem recentes nem ressecados. Até o ar é mais limpo.
Não gostei da minha abordagem escatológica e resolvi mudar de assunto. Na verdade eu já estava arrependido de ter vindo. Ser chamado de vovô é até carinhoso. Beldades como aquela podem me chamar como quiserem, contanto que me chamem. O que me incomoda mesmo é o meu calção. Todos os calções estavam para lavar e assim peguei um velho, do fundo da gaveta, que sempre gostei de usar, mas nem me lembrava porque deixara de usar. Agora redescubro o elástico frouxo. E o calção em vez de se fixar na cintura prefere se acomodar nos joelhos. É lógico que o assunto não poderia ser a falta de elástico.
– Estes ipês estão muito bonitos. Qual deles você prefere? O amarelo ou o rosa?
– Prefiro o amarelo. Pena que as flores estão caindo como se fosse chuva.
Pensei que ela fosse dizer: flores caindo como se fossem calções sem elástico.
Dali para frente, a caminhada que era para ser prazerosa tornou-se um martírio. Passei a segurar as calças com as duas mãos. O peso do celular e das chaves multiplicou o poder da gravidade e para piorar, a nossa conversa entrou em queda livre. A inflação cai, o ministro cai, caem os aviões, cai a ligação, peitos e bundas caem. Qualquer que fosse o assunto, caía na vala comum das coisas que caem. A caminhada seguia em passo forte no sol quente. O suor que rolava pela testa era de preocupação em disfarçar o calção cadente.
– O senhor tem filhos?
Com a resposta positiva perguntou se aquele moço forte, loiro, de olhos azuis que estava comigo no elevador ontem era o meu filho. Em vez do calção caiu minha ficha.

17 novembro 2007

Juro que não sou ímpio


Outro dia fiquei indignado ao me chamarem ímpio. Tenho fé, eu acredito e penso que cada um tem o direito de escolher no quê acreditar: trevo de quatro folhas, pé de coelho, figa, Papai Noel, estrela cadente, Nossa Senhora da Pá Virada, patuá, vudu espetado, quadrados mágicos ou o poder estimulante da casca de amendoim torrado.
Na minha cozinha tenho um santuário. É um cantinho no meio dos armários que forma um pequeno triângulo onde acomodo velas, folhas de arruda, três búzios e uma garrafa de Coca-Cola. É um exemplar adquirido em um antiquário. Disse-me o vendedor, conferindo legitimidade à minha imagem, que a aquele exemplar foi resgatado sob a poeira de um bar falido da Rota 66, em pleno deserto do Arizona.
Sempre termino meus dias com uma oração à minha santa, agradecendo o lado Coca-Cola da nossa vida.
Esse refrigerante faz parte da minha vida. Ainda pequeno eu consumia Coca-Cola família que rendia quatro copos ou mais. Anos depois, bebia de uma enorme garrafa com um litro. Que foi superada pelo litrão, com 1,2 litros. Que por sua vez foi substituída pela outra de um litro e meio. Nem me lembro quando substituíram o vidro pelo plástico. O que importa é que a garrafa pet, de dois litros domina o mercado embora eu prefira o vasilhame de dois litros e meio. Mas confesso que o meu sonho de consumo, é ter em casa, uma torneira com Coca-Cola gelada encanada.
Já recebi pela internet várias correntes anunciando o poder milagroso do liquido marrom. Dizem que ele faz desaparecer um osso, quando imerso por dois dias e que um dente-de-leite some em uma semana. Informam também que é um poderoso anti-séptico (ou será anticéptico) na limpeza dos motores de caminhões. Informam que o milagre mais comum acontece com os patrulheiros rodoviários americanos que têm à disposição dois galões do precioso liquido no porta-malas para apagar vestígios de sangue nas estradas após acidentes. É por essas e outras que eu acredito no poder da Coca-Cola.
A Coca-Cola é um santo remédio. Quando estamos solitários nos faz companhia e quando estamos em grupo transmite alegria.
Na minha cozinha tenho um local destinado aos vasilhames do refrigerante. Infelizmente só disponho de espaço para três dúzias de pets. A base do armário é sensível ao peso. Eu explico: quando o peso for menor que seis quilos, equivalente a três pets, uma luz vermelha se acende. E quando o peso é menor que quatro quilos, além da luz vermelha, um alarme sonoro agudo dispara indicando alerta máximo. É necessário repor o estoque imediatamente por ameaça de colapso.
Contei toda esta história para que não haja dúvidas de minha religiosidade e fé.
Ontem aconteceu uma tragédia. Eu ia receber visitas logo mais à noite e a cozinha estava brilhando limpeza. Só faltava alimentar a geladeira e os armários com as compras do supermercado empilhadas pelo chão da cozinha. Num ritual de prêmio, sempre abro um refri ao chegar em casa após a realização da cansativa tarefa das compras. Foi o início da tragédia. A Coca recém adquirida explodiu como vulcão quente molhando a minha cara, a camisa, a calça, o armário e todas as compras. Nem nos desenhos animados existe tsunami tão catastrófica.
Sempre fui temente aos deuses e agora recebi a prova definitiva: a deusa Coca-Cola é vingativa. Provoquei a ira da deusa tomando um gole de Pepsi no supermercado.
Na lava marrom escorrida no armário branco ficou a mensagem: “Não terás outros deuses além de mim.”
Apavorado, ajoelhei-me e jurei não ser ímpio: Coca-Cola, isso é que é.

13 novembro 2007

Dança do acasalamento

Somente o vento do final de tarde de verão domingueiro me resgata da preguiça. Apesar do calor que amoleceu a minha inteligência vou para a rua fazer uma caminhada e levantar as mãos aos céus agradecendo o vento forte e repentino.
O calor nos deixa fracos e cansados. O suor cai da testa, molha o peito e desenha desconforto sob as axilas. O vento sopra alívio. O vento é o ar apressado, é o ar que marca presença. Gira cata-ventos multicoloridos e revira guarda-chuvas. Festeiro é quem convida as roupas a dançar nos varais, levanta saias e, querendo algo mais, desnuda as árvores e levanta pipas.
O vento forte provoca desconforto para as aves menores enquanto as maiores aproveitam para fazer mil acrobacias aéreas.
Bem à minha frente, distante, há uma enorme ave pousada. A cor branca se destaca na folhagem verde escura da árvore. Observo que a ave dança em ritmo frenético como se estivesse provocando o vento para alguma aventura. Pelo tamanho do porte não é uma a pomba. Jamais seria uma gaivota, Brasília fica muito longe do mar. Estamos longe de rios ou lagoas, mesmo assim, acredito ser uma garça numa dança de acasalamento.
Caminho na direção da árvore e conforme me aproximo mais curioso fico tentando decifrar o ritmo do pássaro balançante.Agora, com os meus óculos, e a dez passos reconheço um plástico de supermercado, preso no último galho, sorrindo debochado.

31 outubro 2007

Osteoporose infantil

Quando vi que a menininha estava de capacete, joelheiras e cotoveleiras caminhando pela calçada comentei com a minha namorada que a garotinha era uma coitada, que eu estava com muita pena daquela pálida figurinha frágil. A doença dela deveria ser muito grave, provavelmente uma espécie osteoporose infantil em estado muito adiantado de forma que os pais da moleca, para protegê-la obrigavam-na a usar aquela indumentária para não perdê-la para sempre, que ela deveria sofrer muito com aquela roupa quente, e que aquela débil figura deveria ser atormentada impiedosamente com as brincadeiras maldosas dos coleguinhas da escola. Quase derramo uma lágrima salgada de compaixão quando minha companheira interveio.
– Você não viu que ela deixou a bicicleta ali naquela casa?

22 outubro 2007

Dormiu homem, acordou mulher

Almeida muito suado afastou o lençol e se ajeitou melhor no travesseiro. A cabeça estava doendo e havia alguma coisa incomodando a orelha. Sem abrir os olhos tentou tirar o que parecia um botão. O quarto estava escuro e silencioso. Almeida sempre dormiu nu e estranhou que, apesar de ter afastado o lençol, sentia-se vestido. E pior, a roupa apertava-lhe as partes.
A dor de cabeça era mais forte que a curiosidade. Assim, voltou a dormir.
Passadas três horas voltou a se revirar. Sentia-se desconfortável com aquela coisa na orelha e a roupa apertada. Abriu os olhos, enrugando a testa com medo da luz. Não havia luz. Virou-se então para a mesinha de cabeceira a fim de ver as horas. O despertador estava apagado. Almeida, com a cabeça pesada, imaginou que devia ter deixado o livro na frente daqueles números brilhantes na hora de apagar a luz.
Optou por acender o abajur e esticou o braço lerdo. Não encontrou nada. Tateou novamente. Não encontrou o interruptor nem o criado-mudo. Com a outra mão tateou para o lado da esposa e antes de perceber que estava só, estranhou um bolo de cabelos bem no meio da cama. – Que bicho seria aquele? – pensou.
Uma nesga de luz entrava por um cantinho da cortina. Almeida sentou-se e percebeu que aquele não era o seu quarto. O lugar lhe era estranho. Levou as mãos à nuca, como se o gesto pudesse amainar as dores. O paladar acusava gosto de alho, coentro e óleo diesel. Tudo ao mesmo tempo.
Mansamente colocou os pés para fora da cama posicionando-se em direção à janela. Um passo e meio foram suficientes para alcançá-la. Com medo de explodir a própria cabeça, tanta era a dor, empurrou vagarosamente a cortina para o lado. Encontrou vidros sujos de uma janela porca de um quarto imundo.
Virou-se lentamente para examinar o ambiente. Uma cama de casal com lençóis rasgados, uma cadeira de palhinha com um buraco no lugar do assento, uma mesinha com um copo e uma garrafa d’água, um espelho pequeno pendurado na parede próximo da porta e sapatos de salto alto jogados próximos à cadeira. Não havia banheiro. Usava roupas de mulher desqualificada.
Almeida sentiu nojo do lugar e de si. Arrancou o vestido do próprio corpo. Não reconheceu como sua a cueca que usava, olhou melhor e percebeu que estava de calcinha. Procurou suas roupas pelo quarto e não viu nenhuma. Estava sem relógio. Estava sem o seu Rolex de ouro. Olhou novamente para os lençóis e reconheceu no bolo de cabelos uma peruca loira. Constrangido, não sabia se tirava a calcinha ou se ficava com ela. Não sabia o que era pior: ficar de pé no carpete encardido ou sentar na cama do prostíbulo.
Apalpou-se e confirmou um par de brincos. Foi até o espelho para tirar os enfeites e levou mais um susto com a maquiagem borrada.
Almeida estava muito desconfortável. Não estava entendendo nada.
– Por que estou com essa calcinha ridícula? Onde estão minhas roupas? O que estou fazendo aqui? Onde estive ontem à noite? Por que estou me sentindo tão mal? O que houve? O que está havendo? Assalto? Extorsão? Seqüestro?
As pernas tremeram. Sentou-se na cama para reavivar a memória e somou mais um desconforto. Sentiu dores.
Teve ganas de sair da própria pele.
Levantou-se e arrancou a calcinha ensangüentada. Teve ânsias de vômito. Sentiu-se invadido, ultrajado, humilhado. Foi até a mesinha, afastou com asco o copo de geléia e abriu a garrafa de água mineral. Esvaziou no gargalo a água quente e gasosa que não melhorou em nada seu estado desolador.
Almeida sequer tentou abrir a porta. Suas opções eram terríveis: sair nu ou com roupa de mulher.
Voltou a se acomodar na cama. Deitou-se de lado, encolhido em posição fetal.
A cabeça girava, o ânus doía, estava psicologicamente arrasado e agora começou uma dor de barriga.
Procurou lembrar-se da véspera. Não se recordava de nada diferente. Levou as crianças para a escola e, como sempre, foi o primeiro a chegar ao escritório. Almoçou com um cliente e à tarde reuniu-se com os sócios. Rotineiramente, saiu do trabalho às oito horas e pegou o carro no estacionamento. Sentiu um vazio, um branco na memória. Pegou o carro ou não pegou o carro? Para onde foi? Ainda se recordou que precisava abastecer a caminho de casa. Fechou os olhos e começou a refazer seus os passos. Mentalmente desceu o elevador, cumprimentou o zelador, atravessou o pequeno jardim, caminhou à direita na calçada. Lembrou-se que a loja de calçados estava fechada, com a vitrine iluminada. Quando passou em frente da farmácia pensou em pesar-se, não entrou, deixaria para iniciar o regime no outro dia. Atravessou a rua na faixa de pedestres. Quando se aproximou do carro foi abordado por um estranho. – Aquele camarada deve ter me sedado. – Difícil saber o que dói mais. A cabeça, o sentador, a barriga ou a humilhação.
A nossa vítima apurou os ouvidos. Parecia ouvir um telefone. Era o toque abafado de um celular. Encontrou o aparelho dentro do sapato, sob a cadeira.
Antes de atender viu uma coleção de zeros indicando ligação não identificada. Almeida estava apavorado, construiu uma sólida, ética e vencedora carreira judicial, sempre foi pai dedicado e marido fiel. A sociedade reverenciava seu trabalho e desprendimento como fundador de um orfanato de crianças carentes. Era professor honoris causa em duas universidades. Não estava acostumado a tratar com gente de baixo nível.
– Alô. – atendeu seco e desconfiado.
– Eu vi que a Cinderela abriu a cortina. Já encontrou suas fotos embaixo da cama? Com qual deles teve mais prazer?
Num pulo, Almeida saltou para o lado da cama e encontrou quatro fotos impressas em papel de computador, bem diferentes daquelas das colunas sociais.
– O que você quer de mim, seu filho-da-mãe? – Disse com muita raiva, porém medindo as palavras, pois estava em clara desvantagem.
– Eu não quero nada de ratos. Enviei e-mails com as fotos para todos os seus amigos, eles vão adorar ver você sendo amado naquelas posições grotescas.
Almeida colérico, totalmente tomado de ódio, gritou:
– Por que eu?
Do outro lado a voz respondeu segura e acusativa:
– Você deveria ter perguntado isso para a pequena Gabriela. Aquela menina doce, do terceiro andar, que você leva para a escola junto com seu filho.
A vítima transformou-se em réu, o tom agressivo amansou e a ira virou pavor.
– E daí?
– Daí que advogados iguais a você sempre conseguem liminares, habeas corpus e mil artifícios para fugir das penas.
– Aonde você quer chegar?
– Não quero chegar a lugar nenhum. – E cheio de ironia, completou: – Apenas retribuí todo amor que você deu à indefesa Gabriela.
– Quem é você?
– Sou tio dela, delegado de polícia e exterminador de ratos. Você gostou da água gasosa?Antes de cair no chão o condenado contorceu-se de dor e arrependimento. Depois sentiu mais uma forte pontada no estômago causada por raticida.

27 setembro 2007

O telefone

Triiiiiimmm, pausa, triiiiiimmm, pausa, triiiiiimmm, pausa, triiiiiimmm.
Era assim que o telefone tocava até recentemente. Hoje qualquer som pode ser de telefone: mugidos bovinos, coachares de rãs, latidos de cães, hinos do time de futebol, um clássico de Beethoven, um hit brega, grito de mãããããe atende o telefone e até o velho e desgastado triiiiiimmm às vezes persiste.
Nós sempre estamos fazendo alguma coisa. Trabalhando, cozinhando, tomando banho, fazendo amor, digitando um texto. Mesmo que estejamos fazendo nada, estamos fazendo alguma coisa. Ver televisão é fazer nada. Somos interrompidos abruptamente por chamada urgente. Todas chamadas são urgentes, devemos largar o que estivermos fazendo para atender a ligação. Largar a refeição, largar o banheiro molhado, largar o chefe falando sozinho, largar a concentração no amor.
– Alô!
– João?
– Não é aqui senhor.
– Té, té, té, te,....
Isto é uma falta de educação grave. Gravíssima. Total falta de respeito para com o próximo que interrompeu uma atividade para dar atenção àquela pessoa desconhecida. A gratidão é um telefone desligado na cara.
Na linguagem dos telefones, quando duas pessoas discutem e uma delas desliga o telefone é o mesmo que uma agressão. Quando o telefone é desligado sem aviso prévio sentimo-nos agredidos.
Muitos fazem isso escondidos no anonimato. – Aquele cara não sabe mesmo quem eu sou e ainda vou ficar pagando ligação de celular para um desconhecido? Desligo mesmo!

Isto já aconteceu inúmeras vezes. Inúmeras vezes perdi o humor por agressão gratuita de um telefone desligado sem explicação.

Mudei minha atitude quando ligam para o meu celular. Retorno o telefonema e educadamente explico a falta de respeito cometida pelo anônimo, o tempo que ele me tomou para atender o telefonema e o tempo que está me tomando para este retorno e mostro minha indignação desligando o telefone na cara deste desgraçado. Desopilo o fígado numa gostosa gargalhada vingativa!

Por conta da internet, nos tempos da linha discada, instalei uma segunda linha de telefone em casa. Pelo fato de morar sozinho não costumava necessitar falar em duas linhas simultaneamente. Em caso de absoluta necessidade ainda havia o celular. Por estes e outros trezentos e quarenta e sete motivos ninguém tinha o número da segunda linha. Às vezes a internet ficava conectada baixando músicas e eu ficava sabendo se a linha caiu ou foi desconectada. Instalei um telefone à antiga que emitia ruído típico ao ser desligado. Problema resolvido. Surgiu problema novo. O telefone tocava. – Diabos! Não dei o número para ninguém! Logo é engano ou vendedor de cotas para um lugar no céu se contribuísse com módicos valores mensais para alguma instituição de caridade.
Dezenas de vezes abandonei atividades para educadamente atender telefonemas indesejados.
Perdi a paciência com uma moça que insistiu por oito vezes que aquele era o número do telefone do novo namorado, que havia feito promessas de amor sob os lençóis suados.
Resolvi contra atacar e pegar desprevenidos os incautos que resolvessem ligar para interromper a minha ocupação.

Triiiiiimmm, pausa, triiiiiimmm, pausa, triiiiiimmm
Atendo com voz lenta, grave e funesta.
– Funerária Já Vai Tarde! Em que posso servi-lo?
– Té, té, té, té...
As pessoas ficam sem graça e desligam. Há os persistentes:

Triiiiiimmm, pausa, triiiiiimmm, pausa, triiiiiimmm
– Funerária Já Vai Tarde! Em que posso servi-lo?
Eu queria falar com o João.
– O João não está mais entre os nossos.
– Té, té, té, té...
A brincadeira por repetitiva ficava sem graça. Renovei o prazer em atender telefone!

Triiiiiimmm, pausa, triiiiiimmm, pausa, triiiiiimmm
– Pensão Dona Júlia, boa noite!
– A Márcia está?
– Vai demorar só uns vinte minutos, acabou de subir com um cliente.
– Té, té, té, té...

– Triiiiiimmm, pausa, triiiiiimmm, pausa, triiiiiimmm
– Pensão Dona Júlia, boa noite!
– De onde?
– Pensão Dona Júlia. Temos apartamentos com e sem banheiro. Servimos farto café da manhã com biscoitinhos caseiros e pão de queijo. Temos janta diariamente. Hoje teremos rabada com agrião, macarronada com molho de tomate, salada de alface e rúcula, a sobremesa o senhor pode escolher entre goiabada e....
– Té, té, té, té... Ninguém agüenta uma pessoa desconhecida com incontinência verbal.
Triiiiiimmm, pausa, triiiiiimmm, pausa, triiiiiimmm
– Pensão Dona Júlia, boa noite!
– Bom. Eu pensei que era da casa da Heleninha. Tô encostando meu caminhão aqui na Terceira Avenida e tô querendo um quarto. Quanto é, hem?
– Té, té, té, té.... Desliguei só de imaginar o tamanho do negão do outro lado da linha.

Triiiiiimmm, pausa, triiiiiimmm, pausa, triiiiiimmm
– Farmácia Saúde Total, boa tarde!
– Farmácia? Não é da casa da tia Jurema?
– Para casos de falta de memória temos Memorex. Quantos vidros senhor?
– Vai te catar mal criado...Té, té, té, té....

Triiiiiimmm, pausa, triiiiiimmm, pausa, triiiiiimmm
– Farmácia Saúde Total, boa tarde!
– A Cristina está?
– Não senhor. Posso ajudá-lo em mais alguma coisa?
– Ela me deu este telefone há vinte dias. A que horas ela volta?
– Ela foi despedida, senhor... não acredito que volte.
– Despedida?
– Ela não aprendeu a aplicar supositórios e ainda estava vendendo preservativos usados e ...
– Té, té, té, té....

Não entendo este mundo. Tenho procurado conversar com as pessoas e elas sempre desligam o telefone na minha cara. Sou um incompreendido.
– Deve ser a minha voz!
 
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