28 agosto 2014

Inverno



Como todos os dias, levanto e olho o tempo pela janela. Nestes últimos dias de agosto, não existe possibilidade de chuva no Planalto Central. Ao contrário, em casa colocamos umidificadores para amainar a seca. Na falta, espalhamos bacias e toalhas molhadas. Crianças são as que mais sofrem.
Pertinho, verde grama irrigada. Mais à frente, suave névoa escondendo águas adormecidas do Paranoá. Ao fundo o horizonte vermelho.
Troco o pijama por uma camiseta e meias de lã por meias esportivas. Espreguiço-me e vou caminhar. Na porta de saída do bloco, recebo o impacto do frio no peito. Aceno para o empacotado porteiro e, em vez de esquerda, escolho a direita. Às vezes, temos que sair da rotina e mudar os nossos trajetos e rumos diários. Resolvi trocar calçada decorada com cocô de cachorro de madame por calçada marginal, no mato ralo, em superquadra ainda não construída.
Ando cem metros e ultrapasso a linha de alcance dos aspersores. A grama mudou de cor para sem cor. Mais adiante, formigas cruzam a calçada numa trilha de cavacos marrons desrespeitando o caminho urbanamente civilizado. Prosseguindo, levanto a vista para o céu sereno e desmaiado. Abro os braços com as palmas abertas para captar energia. A força vem tão forte que posso senti-la pousando nas mãos. Emocionado e incrédulo, eu quero ver para crer. Vejo partículas pretas. Apuro o olhar e constato fuligem. Para muito além da névoa seca, o fogo pinta o horizonte de vermelho. Na lonjura, a dor é suave e não dói.
É cedo. O dia acordou preguiçoso, não levantou. Está quase silencioso, ouço cachorros latirem distantes. Devem ser vira-latas, cachorros escovados latem mais tarde.
As árvores nativas são feias. Os galhos são tortos e retorcidos. São errados. Os troncos parrudos têm uma couraça de jacaré para sobreviver nas queimadas. E nesta época do ano, além de feias, estão nuas mostrando esqueletos de campos de concentração. Sem conhecê-las, não damos valor.
A cabeça antenada, recém-despertada, capta, sem chiados e sem interferências, o que me acerca. Passarinho não chia. Passarinho pia. O pio do sabiá está muito próximo.
Olha lá! Olha lá! Ouça, preste atenção! Faça da boca um assobio e repita. Repita assobiando: piedade sinhô... piedade... tem dó de nós... piedade... sinhô. Não é bonito? É apaixonante.
Continuo meu passo na quadra litigiosamente abandonada e vejo uma fumacinha. Ali não há muito mato para ser queimado. Entretanto o instinto de preservação, nesta época de seca, sugere que eu apague o fogo, enquanto estiver baixo. Sigo na direção da fumaça. Nem preciso caminhar muito. Em volta do fogo, vejo quatro boquinhas escancaradas de fome, dor, frio e morte. O pai oferece o desjejum caçado nas caçambas peçonhentas. Adiante da fogueira, há uma tenda de lona preta sob uma árvore de casca dura.
A única luz que há para aqueles miseráveis urbanos é o amarelo solar das flores do ipê.


Piedade sinhô...
   piedade...
        tendo de nós...
                                            piedade...
                                                              sinhô...


21 agosto 2014

Entre nós

Philip Roth

Companhia das Letras

172 páginas

R$ 35,00


O livro veio parar na minha estante porque, sendo escritor, vez por outra procuro ler um pouco de “teoria” literária. A atraente proposta da capa é um escritor entrevistando outros escritores sobre o ofício da escrita.

Já havia lido dois outros livros de Roth: A humilhação e A marca humana. Sei que ele conquistou o Pulitzer Prize e um monte de outros prêmios de prestígio. É o único escritor vivo cuja obra está sendo publicada pela Liberary of America. Este exemplar mostra uma outra face do autor a de entrevistador e crítico literário.

Já na orelha li, para a minha surpresa, que os temas predominantes em vez de serem técnicas literárias ou a literatura propriamente dita, o autor questiona a relação entre a vida e a literatura. Um tema muito mais abrangente do que aquele que eu esperava. Para a minha surpresa sete dos dez autores tem origem judia.

Para mim, o judaísmo é uma questão mal resolvida internamente. Tenho um problema de identificação pessoal. Fui criado numa comunidade alemã – onde o assunto era tratado de forma velada ou sublimado. Falavam mal dos judeus pelas costas como se pertencessem a uma seita ultrassecreta e guardavam um misterioso segredo. Desde sempre questionei essa postura. E entrando na maturidade descobri que o meu sobrenome tinha grandes probabilidades de ter origem judaica. Obviamente jamais resolverei a questão, entretanto quanto mais informações eu tiver melhor saberei lidar com as minhas contradições.

O livro tem como base o cenário em que cada autor cresce e vive e como essas circunstâncias influenciam a obra. É certo que é muito mais fácil e verossímil escrever sobre aquilo que se conhece ou vivencia do que optar a escrever sobre cenários e épocas estranhas. É preciso ser Júlio Verne para embarcar no Nautilus e mergulhar em fantásticas viagens ao fundo do mar a vinte mil léguas submarinas.

Grifei o comentário “A realidade é sempre mais forte do que a imaginação humana, Além disso, a realidade pode se dar ao luxo de ser inacreditável, inexplicável, desproporcional. A obra criada infelizmente, não tem esse direito.” – Seria louco o autor que criasse uma história baseada em Nova Iorque onde dois aviões se chocassem com dois prédios quase simultaneamente. Seria insano o autor que tivesse descrito em detalhes um robô pousando e tirando fotografias “selfie” na superfície de um cometa. Evento previsto para novembro de 2014. Mas o assunto não são torres gêmeas nem robôs cavalgando um asteroide. Trata-se da realidade do Holocausto que transcendeu qualquer imaginação.

Mais adiante um dos entrevistados afirma que “O que me preocupava, e até hoje me perturba, é esse antissemitismo do próprio judeu, um velho mal judaico que em tempos modernos vem assumindo manifestações diversas. Fui criado num lar judaico assimilado em que o alemão era valorizado. O alemão era considerado não apenas uma língua, mas também uma cultura, e a atitude em relação à cultura alemã era quase religiosa. Vivíamos cercados de judeus que falavam iídiche, mas na nossa casa o iídiche era terminantemente proibido. Cresci sentindo que tudo que era judeu era estigmatizado. Desde a minha primeira infância, meu olhar se voltava para a beleza dos não-judeus. Eles eram altos e louros e se comportavam de modo natural. Eram cultos e, quando não se comportavam como pessoas cultas, pelo menos agiam com naturalidade.”

Essa situação foi acentuada, imagino, pelo ministro da propaganda Joseph Goebbels que enaltecia as qualidades germânicas e provocava  bullying oficialmente contra a comunidade judia.

O entrevistado continua “os judeus também me pareciam estranhos. Levei anos para compreender até que ponto meus pais haviam internalizado todo mal que atribuíam aos judeus, e que, através deles, eu também internalizava. Havia uma repulsa implacável dento de cada um de nós.”

Ainda grifei muitas outras respostas dos escritores sempre sob o mesmo foco.

Posso afirmar que Philip Roth foi um ótimo entrevistador. Um perguntador profissional. Conseguiu extrair depoimentos fortíssimos dos seus entrevistados.

O livro, sob a ótica da aquisição – imaginei literatura ou técnicas literárias – foi uma decepção. Entretanto sob o prisma proposto pelo autor – reflexão sobre as origens – foi absolutamente prefeito.  Senti uma vontade enorme de colocar no papel todos os meus dilemas, questionamentos, respostas e dilemas pessoais á respeito do tema proposto por Philip Roth.

14 agosto 2014

Damas turcas
Carlos Castelo
Global Editora
156 páginas
R$ 31,00

Passar a manhã sentado na antessala do ortopedista só não é estressante se você estiver bem acompanhado. Eu estava mal acomodado entre duas senhoras gordas. Segurava a minha agenda, um livro e um enorme envelope contendo as imagens da ressonância magnética dos meus joelhos. A televisão barulhenta parecia mostrar São Paulo no verão, tantos eram os chuviscos. O lugar apinhado de pacientes era comprido e estreito. Às vezes eu precisava recolher os meus pés para não ser pisoteado por alguma muleta. Tudo seria terrível se eu não estivesse acompanhado de Damas turcas. Um livro policial com cenário paulistano.

Fazer um resumo da história é muito fácil: após um assassinato brutal um investigador levanta pistas e suspeitos inusitados para chegar ao criminoso.  Em nenhum lugar do livro diz em que escola o investigador estudou, mas acredito que tenha colado grau na mesma instituição de Ed Mort e de Xangô, de Baker Street.

Todos os personagens são figuras atípicas para não dizer bizarras. O investigador da polícia, um japonês do interior de São Paulo, está sempre acompanhado do seu cachorro Preto, um improvável e dócil poodle branco. Por sentir o cargo ameaçado resolve convidar um amigo para ajudar nas investigações. O amigo, um publicitário aposentado, não entende patavinas de crimes, mas resolve levantar pistas e suspeitos aplicando o mesmo método infalível para desenvolver comerciais.

O publicitário sofre de TOC – transtorno obsessivo compulsivo – e lava as mãos e escova os dentes mais vezes que eu preciso recolher os pés na antessala do doutor.  Ele é casado com uma mulher bipolar que quando deprimida dorme e quando eufórica compra. O ajudante do investigador é um sujeito religioso que costuma saltar de paraquedas para sentir a presença de Deus.

Em vez de um crime, outros claramente relacionados se sucedem.

E, é claro, que as vítimas e os suspeitos também são figuras nada convencionais, entretanto o herói consegue desvendar o crime graças à inteligência, ao bom conhecimento cultural, à dedução e à astúcia.

Tenho vontade de contar algumas passagens engraçadas como aquela em que... mas não conto porque é falta de respeito com o autor. Mas a coceira na língua, que me desculpe o autor, eu não vou resistir. Ri de montão no momento em que o investigador, conduzido na maca por dois policiais, chega à cena do crime e dá voz de prisão.


Eu precisava contar para justificar que apesar das horas passadas na antessala do ortopedista eu ainda encontrava motivos para rir.

08 agosto 2014

Polar


POLAR

Autor: Renato Fino

Editora: Siglaviva

Preço: imagino ser de uns R$ 30,00

Encontrável no Senhoritas Café, na 408N de Brasília

Páginas: 136


Ganhei o livro do Renato Fino. Foi para a prateleira dos que eu quero, gostaria, preciso ler. Lá estão outros 97, contados, necessitados de leitura. Às vezes um ou outro fura a fila. Polar nem pegou muito pó, talvez uns seis meses. Eu saí de um livro parrudo de páginas e conteúdo e queria algo leve e rápido. Leitura suave (me enganei).

Imaginei um romance que eu abandonaria numa lanchonete, porque santo de casa não faz milagres. Embora eu não canse de rezar e prestigiar os santos da casa.

Sentei-me com a intenção de apenas ler o prefácio, a apresentação e as orelhas do livro. Mas só havia um curto parágrafo arrebatador no verso.
“Creio que foi na infância que ergui as minhas descrenças todas. A família, sem meu pai, me parecia uma ave a qual faltasse uma asa e que, por isso, não poderia alçar voo jamais. A escola sempre me pareceu um campo de refugiados para onde as crianças eram encaminhadas por não terem outro caminho a seguir. O governo fazia o papel de um deus tirano, enquanto as religiões se perdiam de Deus”.

Um bom indicativo sobre o estilo e conteúdo. Orelhas limpas de letras. Observei o nome da editora. Chequei o número de páginas. Avaliei que em uma semana terminaria o livro. Sem apresentação nem prefácio. Um lembrete informa que foi a história que o autor diz que não queria ter escrito. Então me pus a ler como quem tira os sapatos para molhar os pés na beira-mar. “Só tenho olhos para o meu abandono. A vida é feita de abandonos e a minha vida não poderia ser diferente”. Poucas páginas depois de molhada a bainha da calça, a água salgada foi aos joelhos. “Soube que meu pai era, então, um jovem forte e bem disposto, com implacável saúde, mas por dentro um morto à procura de outra vida. Fazia parte da tripulação de um navio prestes a mergulhar na guerra já iniciada, quando desertou da morte e saltou para o mar, sem rumo certo, desesperado como um urso polar que não conseguiu alimento às vésperas do inverno”. E, sem perceber fui tragado por uma onda de páginas marinhas: “me pus a observá-la mais profundamente, porque agora eu tentava adivinhar não o que sua carne me dizia, mas o que seus olhos me confessavam”. Encharquei-me de Polar e disposto a me afogar no livro.

Com linguagem acessível, informa que é uma história de abandonos. Logo descobrimos que é mais do que isso, Renato Fino criou metáforas inteligentes para colocar em paralelo a vida de renúncia dos personagens e a vida de abandonos dos ursos polares.

O tema é tão pesado quando pode ser um iceberg, mas há pedras de gelo lúdicas quando traz uma série de informações sobre os nomes de todos os personagens. Magna “é forte e poderosa”. Bárbara “uma estrangeira, uma forasteira uma estranha em minha vida”. Amanda “era amante dos livros”. Em determinado momento da ficção o autor se lança num realismo fantástico e transforma-se em personagem e analisa também seu nome Renato/Renê que significa renascido e é o que tem vivido desde que veio ao mundo, um eterno renascimento.

Particularmente leio livros como um escritor e não apenas como um leitor. Por isso abro a minha lupa à procura de contradições e pontos criticáveis. Renato Fino passou com nota altíssima no meu crivo, só não ficou com a nota máxima por um detalhe que considero estímulo para que seu próximo livro seja ainda melhor. Entendo que mesmo a ficção deve ser verossímil nos detalhes. Em determinado momento é citado um posto de estudo científico de ursos polares em Murmansk na região polar da Rússia. Verifiquei que a “vila” tem mais de 300 mil habitantes e que lá só vivem ursos pardos.

      Terminei o livro em três dias confirmando que a história é de abandono, mas o livro não pode ser deixado de lado sem leitura e aplauso.

15 julho 2014

Batata-doce



Bom mesmo é variar o menu. Um dia pizza, no outro miojo, no terceiro dia vem a lasanha congelada, tudo acompanhado de uma deliciosa e saudável Coca-Cola. , o que você faz? Varia o cardápio. Num dia lasanha congelada, noutro dia pizza e depois o miojo. Acompanhados de saudável guaraná. Sempre tem alguém, além da sua consciência, para sugerir que sua alimentação não é saudável e que precisa variar. O que você faz? Vai ao supermercado e compra pizza de calabresa em vez de muçarela, lasanha de frango em vez de quatro queijos e miojo de carne no lugar de miojo de frango. E o que mais? Passeia com o carrinho entre frutas e verduras e resolve extrapolar ao ver a gôndola cheia de batatas-doces.
Como escolher batata-doce? Este é o primeiro dilema. Aborde quem estiver selecionando mais criteriosamente. A abordagem deve ser de acordo com quem estiver escolhendo. Se mulher mocreia, diga que sua esposa mandou você comprar, para ficar claro que aquela é apenas uma abordagem para aquisição de batatas e nada mais do que isso. Se mulher maravilha, diga que sabe declamar poesia, fazer massagem nos pés e escolher um bom restaurante, mas que não tem a menor ideia de como selecionar batata-doce. Se for homem, não aborde, ele provavelmente irá sugerir alguma coisa indecorosa. Para uma dieta balanceada some uns bifes ao carrinho.
É lógico que as batatas vão ficar uma semana envelhecendo, porque sempre é mais fácil colocar uma lasanha no micro-ondas a descobrir alguma receita para preparar as saudáveis batatas-doces.
Você olhou para as batatas e elas olharam para você. O desafio foi lançado. Lixo e arrependimento ou panela e orgulho?
O que fazer com as batatas-doces? Geleia?
Rapidamente consulte a internet e descubra que você vai ter de se virar sozinho. Ninguém diz como fazer para fritar batata-doce. Mil receitas de doces e até de glacês. A única que achei sugeria batata-doce frita em rodelas ou palito.
Dúvidas. Mil dúvidas. Tem de cozinhar antes ou não? Tem de descascar antes ou não? Põe sal ou põe na panela de pressão? Açúcar ou frigideira?
Lasanha.
Nesse momento temos de ser fortes. Não podemos fraquejar à frente de simples batatas. Vamos à luta sem regras. não vale golpe abaixo da cintura. Peguei uma faca e sem medo me atraquei com as batatas. Descasquei todas as duas. Observei que as doces são mais duras e consistentes do que as inglesas. Pelo menos as batatas. Para fritar vão demorar muito, muito mais. Eu não vou ficar uma hora na frente da frigideira fritando estas saudáveis e doces batatas. Minha frigideira não comporta nem metade dessas rodelas.
Então, vou fritar durante duas horas? Sem chances.
Pego uma assadeira de alumínio, faço uma base milimétrica de óleo e taco no forno. Forno de fogo alto. Ainda pensei em colocar sal. Deixo para colocar depois de fritoIsto é, assado. Tá na cara que vai demorar. Dá tempo de fritar uns bifes.
Devo dizer que as batatas levaram uns noventa minutos para ficar bronzeadas e crocantes. Devo dizer também que ficaram deliciosas. Melhor do que espetar com o garfo foi pegar com a mão. Acompanhou uma cervejinha gelada.

Agora atenção, muita atenção, nenhum livro de receitas informa que batatas-doces não devem ser servidas em eventos prolongados ou com intenções amorosas.
Batatas-doces são alimento para machos: provocam aerofagia.


09 julho 2014

Batismo

Sempre achei interessante o carma, o peso, a responsabilidade e os significados que um nome carrega. Em certo período remexi listas de vestibulares, resultados de concursos, relações de atletas nos campeonatos de futebol, lista de funcionários e qualquer referência em que houvesse a possibilidade de encontrar algum nome marcante. Com certeza não sou o primeiro a escrever sobre este polêmico assunto e tampouco serei o último. Aliás, considero este tema tão forte que recorro a ele sempre que surge a oportunidade. O estudo sério ou curioso tem até nome: antroponímia.

Um dos nomes que me instigou a curiosidade foi João Né. Operário em uma obra. Tive a oportunidade de conhecê-lo e perguntar a origem do curioso sobrenome. Juro, pelo que há de mais sagrado, a resposta foi que, ao ser registrado, o funcionário do cartório teria perguntado qual o nome da criança, ao que o pai mineiro teria respondido é João, né. Para o azar do garoto.
Outro caso curioso aconteceu durante a Segunda Grande Guerra. Naquele período era proibido falar alemão. O pai tentou registrar o filho Hans Jordan. O escrevente argumentou que se era proibido falar alemão, muito mais grave seria registrar com nome alemão. O pai não se fez de rogado e pipocou o brasileiríssimo nome de Hans Caramuru Jordan.
O melhor amigo de papai era Darcy, nome de gênero dúbio: masculino e feminino, Darcy Pinto da Rocha Campos. Ao se apresentar gracejava que o Pinto era da mãe. E não é o único caso. O artista Picasso, aliás, Pablo Diego Jose Francisco de la Paula Juan Nepomuceno Maria de los Remedios Cipriano de la Santissima Trindade Ruiz y Picasso, era Picasso por parte de mãe.
Ainda tem uma conhecida que ao casar não quis o sobrenome dele. Motivo pelo qual até hoje não tem filhos. Ela não quis o Pinto do marido. Mas isso é outra história.
Conheci uma infeliz que foi batizada Maria do Rego Virgem Santos e não tive a ousadia de perguntar porquê o pai dela escolheu aquele nome. Seria alguma vingança contra a mãe da infeliz? Ou desejo para o futuro da filha?
Outro dia, no programa do Jô, um cuidador de carros disse que nomeu o filho Hilux em homenagem à caminhonete do mesmo modelo, que achava linda.
Há famosos da literatura de relação de nomes estranhos: Maria Prostituta do Brasil, Rodo Metálico e Cafiaspirina.
O Congresso Nacional cooperou com algumas curiosidades: Um Dois Três de Oliveira Quatro, Pinga Fogo, Onaireves  (Severiano ao contrário) de Moura, Lavoisier Maia, Inocêncio (que de inocente nada tem) Oliveira, Íris Resende e esposa Íris Resende, Dr. Rosinha, Ursicino Queiroz, Ronivon Santigo.
Se lhe perguntarem qual dos irmãos bíblicos matou o outro, a resposta é facílima. Você conhece alguém homenageando Caim?
Freqüentes também são os nomes que trazem homenagem a personagens famosos: Confúcio, Hitler, Lincoln, Maicon (sic Jackson), Rommel, Gutenberg, Temístocles, Jesus, Joana D’Arc, Lenine, Mozart. Existe até um esdrúxulo Jatoperi, ou algo assim, numa homenagem de um inglês ao ataque da Seleção Brasileira da Copa do Mundo em 1970: Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino.
O sobrenome representa a continuidade familiar. O filho, às vezes, tem a vida facilitada, outras vezes, nem tanto.
Considero um fardo a escolha impensada. Na dúvida não ultrapasse. Consulte. 
Somente pais com mente perversa, irresponsável ou absolutamente ingênua escolhem nomes como Cornélio, Florindo, Florêncio, Modesto. Existem aqueles que invariavelmente levam a gracinhas repetitivas: ao Humberto sempre perguntam se o irmão dele é o Doisberto; O Tadeu sempre ouvirá pergunta se forma dupla com Tadando; ao Wilmar sempre informam que vi o céu; a infeliz Raimunda é sempre associada à rima nada profunda.
Outras vezes os pais realmente não tem mérito nenhum e os filhos são abençoados com nomes que aparecem em canções maravilhosas. Luíza do Tom Jobim para ficar no exemplo. O problema é quando acontece o inverso. Quando a Aids surgiu o governo encampou propaganda onde os homens deveriam proteger o Bráulio. Chico Buarque depois de difundir e propagar Carolinas jogou pedras em todas as Genis da face Terra. Houve música da década de 70 em que depois de muita insinuação de opção sexual encerrava com o refrão e o nome dele é Waldemar. Todos os Aurélios em algum momento são chamados de pai dos burros. E até hoje todos os Zezés sofrem com a pergunta será que ele é? será que ele é?
No mínimo é curioso quando os pais resolvem homenagear alguma nação: Ítalo, Germano, Israel, Franco.
Nosso país é fantástico, temos liberdade de expressão. E, por direito adquirido, os pais resolveram criar moda juntando e criando novos e originais nomes. Pega a primeira sílaba do nome dele, junta com a última sílaba do nome dela, uma pitadinha do nome dos sogros e pronto está criado mais um mágico e singular prenome: Auricélia, Raimurildo, Josicléia, Edylcea, Loresmar, Marconeisson, Rosialva, Rosineide, Derlopidas, Altomires, Jaminsom, Jorzely, Flavamario, Sonijardo, Eilovir e o tudo mais que a imaginação puder criar.
A outra moda é estrangeirar usando e abusando ipsilones, kas e dabliús, além de trocar a grafia de acordo com a temperatura ou qualquer parâmentro ou nenhum parâmentro. Antigamente ficávamos apenas com meia dúzia de combinações de Terezas e Heloísas. É sempre desagradável ter que explicar:
 – Olha, é Denise com , viu!
Numa reportagem recente, li que um zeloso escrivão disponibilizou um cardápio com dezoito grafias diferentes para Washington. Por favor, gostaria do número nove combinado com o sete de Roosevelt .
Nos países nórdicos, ao escolherem nomes para os filhos eles não acrescentam Filho nem Júnior, justapõe filho na língua deles: son. Daí Johnsson, Davidson, Cristianson e Williamson. Entretanto Emerson, Wilson e Creysson não tem nada a ver com isso.
Na França há um livro com todos os nomes e ninguém pode ser registrado por outro além daqueles. Por isso que todo francês é Pierre, Jean Marie ou François. Este último serve para homens ou mulheres. Melhor que em Portugal que tem dois nomes: Joaquim e Manuel.
Em Nova Iorque havia um sujeito que queria que seu filho fosse o primeiro da lista telefônica e pagou ao escrevente um extra e batizou o filho com o sobrenome Aaabrahan issso meeesmo com treees aaas. Será o primeiro até que sobrevenha algum Aaaabraham. 
Recentemente li que os norte-americanos também usufruem a liberdade de criação no batismo dos new americans. Estou louco para conhecer algum Iemanjá Lee ou Tucunaré Jones.
Aliás, nossa herança indígena legou vários nomes bonitos e significativos, pena estarem em desuso: Ubiratan, Ubirajara, Ibaté, Jurandir, Jandira, Iraci, Iracema, a virgem dos lábios de mel, Capitu do Machado de Assis, Moacir, Irajá, Jussara, Murici, Sinara, Tabajara, Itupi, Moema, Oberdan, Gilmar, Valdeci, Guaraci, Jacira, Juvenal, Peri, Ceci e Iara.

Meu nome é tão comum, Roberto, origem latina, nenhum significado especial. Será? Após longos e tediosos estudos descobri o enigma que carrego. Meu nome foi gerado algum tempo após o assim denominado eixo, Itália, Alemanha e Japão guerrearem contra o resto do mundo. O meu nome foi composto pela primeira sílaba de cada uma das capitais daqueles países: Roma, Berlim e Tóquio.

10 maio 2014

Carência de mãe

Eu estava em uma roda de amigos quando o tema da comida dos naturalistas e vegetarianos surgiu. Houve um ataque violento desferido contra as carnes vermelhas. Elevam a pressão arterial, aumentam a taxa de ácido úrico e engrandecem a taxa de colesterol, além de representar o sacrifício de milhares de animais indefesos. A defesa dos carnistas foi imediata e veemente, afinal, as milhares de plantinhas indefesas também não escapam do sacrifício. Sem a carne não estaríamos reunidos aqui em torno da churrasqueira e não estaríamos discutindo o futuro da humanidade.
No começo da noite cheguei em casa, solitário, e ainda com aquela conversa da comida saudável martelando na cabeça.
Vinho é bom para o coração. Chá de boldo e de carqueja aliviam os trabalhos do fígado. Chá de erva-doce é digestivo e evita gases. Berinjela combate o colesterol. Amendoim com casca é afrodisíaco. Alho afasta a gripe e vampiros. Chá de folha de nabo é indicado para aliviar as hemorroidas enquanto o nabo inteiro as prejudica. Acredito que a aguardente é fantástica para arrumar emprego. É muito comum o alcoólatra chegar em casa dizendo que estava procurando emprego. A lista é enorme. Não estou pensando em nada que resolva problemas como espinhela caída ou unha encravada. Meu problema é carência.
Não é o que você está pensando! Tenho namorada e namoramos ontem à noite, depois do cinema. Refiro-me à carência de mãe. Do afeto maternal. Aquela coisa de colo, de cafuné na cabeça e palavras ditas bem baixinho.
Qual será a comida que combate ausência de mãe? Minha mãe está muito distante, um telefonema é muito pouco. E não enche barriga nem coração.
Pizza, miojo e lasanha resolvem problemas imediatos de falta de cozinheira. Nossa Senhora dos Solitários Abandonados, além de não ser erva medicinal, não tem o calor da nossa mãe.
Preciso descobrir urgente qual é a comida terapêutica para carência maternal. Não é menino que sente falta do aconchego da mãe.
Na cozinha, abro armários e potes. Olho caixas e pacotes. Procuro aqui. Procuro acolá.
Açúcar? Humm. Isso lembra infância. Doces da mamãe, geleias e bolos.
Na geladeira vejo alface e lembro dela dizer que “tem de comer, é bom para os intestinos”.
A respeito do café, minha mãe sempre dizia que eu não deveria tomar à noite, senão eu não dormiria.
Volto para o armário e continuo procurando. Chocolate em , salsichas, sardinhas, sabão em , aspargos.
Sabão em ? O que esta caixa está fazendo aqui?
Sopa de ervilhas, macarrão, goiabada, pipoca de micro-ondas, arroz, maisena, outro pacote de macarrão, batata palha, leite condensado, creme de leite.
Volta ! Achei! É isso, maisenaMingau de maisena!
Mingau de maisena é mãe servida em prato de sopa!




Extraído de “Pepino e farofa” – Aventuras culinárias resultantes de 50 anos de inexperiência no comando de um fogão.

29 março 2014

A máquina de fazer espanhóis

A máquina de fazer espanhóis


Valter Hugo Mãe

Editora Cosac Naify

256 páginas

R$ 39,00

             A máquina de fazer espanhóis é a história de Antonio Jorge da Silva no período que se inicia pouco antes da esposa falecer, passa durante a internação num asilo de idosos em Portugal – Feliz Idade – e termina com a inevitável finitude. As pessoas são levadas a viver no asilo, só que lá não são esperadas grandes ações e os únicos projetos de vida são as queixas da morte. Assim a história se arrasta na velocidade de um octogenário estimulado por uma bengala tétrica.      
Eu poderia resumir o livro em duas palavras: triste, tristíssimo. Entretanto o romance tem inquestionáveis qualidades literárias e mais do que isso, traz uma história de subjugação de um povo na metáfora de um asilo de velhos. O jogo de ideias é espetacular, tornando inevitáveis as comparações.
Na pele do texto está o retiro dos velhinhos com suas doenças, dores e fraquezas enquanto que nas rugas estão incrustrados símbolos pátrios como Fernando Pessoa, Lusíadas, Lisboa, Eusébio, Amália Rodrigues, Salazar, Almada Negreiros e o Benfica. E instalada na carne está o amargor de algumas décadas de opressão.
Como quando diz que “Salazar foi como uma visita que recebemos em casa de bom grado, que começou por nos ajudar, mas que depois não quis mais ir-se embora e que nos fez sentir visita sua, até que nos tirou das mãos tudo quanto pôde e nos apreciou amaciados pela exaustão. A maioria silenciosa terá de emergir um dia, tudo era para que não praticássemos cidadania nenhuma e nos portássemos como uma engrenagem de uma máquina a passar por cima dos nossos ombros, complexa e grande demais para lhe percebermos o início, o fim e o fito de cultivar a soberba de um só homem.”
Quando eu leio um livro, gosto de sublinhar palavras, frases, anotar nas beiradas, dobrar orelhas. Já que eu cometi essas maldades com o meu exemplar eu gostaria de compartilhar o que destaquei.
“Eu sou daqueles que a vida doeu.”
Sobre a consequência da morte da esposa amada: “Vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante.”
Sobre o internamento: “Meus filhos se haviam antecipado no tempo de me arquivarem.”
Ainda sobre o internamento: “Um problema com o ser velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade, estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento.”
Sobre o asilo: “O Lar da Feliz Idade, assim se chama o matadouro para onde fui metido.”
Sobre as caminhadas diárias: “Escoltado por alguém a levar-me como um cachorro a passeio.”
            Sobre desprezo com os ícones da igreja, em relação à imagem da Nossa Senhora de Fátima: “Coitada da rapariga, que até lhe põem uma expressão com vontade, mas depois não reage, fica como se a casa de banho estivesse ocupada.”
            Ao se comparar como cidadão submisso: “considerei depois que fui um hóspede bem fácil de dominar.”
Sobre o fascismo: “Queria que a política não fosse um assunto lá em casa. Haveríamos de apreciar a poesia, o folclore e uns fados, haveríamos de ter passeios aos domingos e brincar com os miúdos a crescerem e era assim a nossa vida, sem beliscar os tubarões que nos podiam ferrar.”
Sobre a rotatividade: “O lar da Feliz Idade estava sempre de luto, como um lar de idosos foi feito para estar.”
Num raro momento de humor considerou que uma das internas “ficou com expressão de quem comia chocolates sozinha.”
Ainda sobre a ditadura: “Somos um país de cidadãos não praticantes.”
À respeito do momento econômico: “Somos estuporados por todo o lado, pagamos o mesmo que a Europa paga por qualquer coisa, mas ganhamos três vezes menos, temos salário de rato. Salário de humanos de segunda.”
Aqui a metáfora é quase óbvia: “Seguramente alegravam-se os dois por o tolo do velho estar mais amansado como convinha para não levantar problemas nem criar angústias grandes a quem tem ainda uma vida, não podia parar de o odiar um pouco e saber que algum mal se mantinha no meu íntimo.”
Comparou o regime: “a morte era, afinal, a mais organizada das instituições. Cheia de afazeres e detalhes, mas muito competente e certeira.”
Sobre a opressão: “Enquanto houver um Salazar em cada família, estamos entregues ao inimigo.”
Francamente eu não gostaria de digitar tantas passagens, mas o autor, como pensador merece os registros e muito outros mais como: “Inventamos Deus porque temos de nos policiar uns aos outros, é verdade. É tão mais fácil gerir os vizinhos se compactuarmos com a hipótese de existir um indivíduo sem corpo que atravessa as casas e escuta tudo quanto dizemos e vê tudo quanto fazemos. É tão mais fácil se esta ideia for vendida a cada pessoa com a agravante de se lhe dizer que, um dia, quando morrer, esse mesmo sinistro ser virá ao seu encontro para punir ou premiar pelo comportamento que houver tido em todo o tempo que gastou.” E ainda: “Quanto menos acreditarmos uns nos outros, mais solicitamos o policiamento, e se o policiamento divino entra em crise, porque as mentes se libertam e o jugo glutão da igreja já não funciona, é preciso que se solicite do estado esse policiamento.”
            Em determinado momento o livro me puxou para baixo, me derrubou na lata da tristeza. Eu parei e procurei analisar o que o escritor fez. Sublinhei à página 76: 17 vezes a palavra não, além de dois nada, quatro conjugações de chorar, duas lágrimas e duas velho. Risquei quatro variações de morte e observei que o autor abriu um dicionário com cheiro de velório ao empregar: dor, coisa, nem, coitada, secar, abdicar, secar o corpo à fome, suportar, maldição, ridiculamente, escuro, afundando-se, tristes, insondáveis, desrespeito e inferno. Quase parei a leitura. Mas o esforço de superação valeu a pena.
Cada povo sofre, sofreu ou sofrerá com o poder dos governantes.
Entre brasileiros e portugueses há muito mais semelhanças que diferenças. Mudo de assunto, mas faço disso o gancho para dizer que por sermos brasileiros imaginamos que teremos alguma dificuldade em entender a escrita do autor pelas diferenças das línguas faladas no Brasil e em Portugal. Mas a maior diferença que há entre as duas línguas está na pronúncia e no sotaque. Na linguagem escrita é tudo muito próximo. Às vezes nos deparamos com alguma ou outra palavra que causa ligeira estranheza, mas nada mais que isso. Anotei subtileza, carácteres, acto inaceitável, higiénico, parvo em vez de idiota, húmido, fita-cola, gelado e a curiosa paneleiro que entendemos perfeitamente o sentido no contexto.

Ah, sim, eu já ia me esquecendo. O autor opta por não utilizar recuos de parágrafos nem utilizar letras maiúsculas, nem travessões para os diálogos. Não é nada que impeça a leitura, mas torna a leitura mais lenta e atrapalhada. É como instalar usar trilhos de trenó num carro. O carro vai se locomover, porém mais lento e desengonçado. As normas da escrita não são opções literárias. Eles foram desenvolvidas para agilizar a leitura.
E também quase ia me esquecendo de elogiar mais um belíssimo trabalho gráfico da Editora.
Concluo que os prêmios literários foram merecidos pelo autor. O romance é ótimo, mas exige muito sacrifício para a leitura.
 
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