25 junho 2015

Ilhas, veredas e buritis



Ilhas, veredas e buritis

Eliane Lage

Editora Brasiliense

350 páginas


R$ 27,00 num sebo virtual


Que surpresa boa!

Nesta autobiografia Eliane Lage nos convidou para sentar, ao final de tarde, numa roda de prosa em uma varanda de fazenda. O clima de aconchego do pé descalço, do boi mugindo à distância e do café recém-coado soam um clichê que você só encontra nas palavras acima. Apesar de estreia, a escrita madura, quase poética resulta da leitura de centenas de livros.

Eliane foi uma atriz famosa. Protagonizou os primeiros filmes quando a Companhia Vera Cruz iniciou o cinema no Brasil em 1950. Por isso mesmo imaginei-a, como a caricatura de uma estrela – mulher de origem humilde colecionadora de galãs, vaidosa ao extremo, pródiga e atriz em escândalos amorosos envolvendo sexo e bebidas. Ledo engano. Exatamente o oposto. Ela não é clichê muito menos caricatura.

A família riquíssima e poderosa gostaria que ela se enquadrasse nos padrões da aristocracia, mas ainda adolescente começou a trabalhar com crianças na favela Dona Marta no Rio de Janeiro. Ciente da falta de conhecimentos estudou na Inglaterra. Aplicou muito mais do que aprendeu num retiro de crianças da Grécia logo após a Segunda Guerra. Voltou ao Brasil determinada a trabalhar com menores carentes, entretanto num jantar patrocinado pela família conheceu e se apaixonou por um diretor de cinema. Ele a convidou para ser protagonista de um filme. Casam-se no ano seguinte contrariando a família que desejavam um marido de posses e não um artista de carreira incerta.

Apesar do glamour do cinema procuraram uma vida diferenciada e mais próxima do campo. Em 1956, quando a Vera Cruz faliu mudaram-se para o Guarujá, cidadezinha do litoral de São Paulo e refúgio dos abastados nas férias de verão. A dupla, marido e mulher, montou um antiquário. Ele construiu e vendeu várias casas.

Antes de prosseguir é importante ressaltar o adjetivo riquíssima empregado algumas linhas acima. O tio Henrique Lage foi dono de cinco ilhas na Baía da Guanabara. Morava em uma enquanto noutra construíra o maior estaleiro brasileiro. Comandava a Companhia Costeira de Navegação (aquela dos itas da música), possuía salinas no Nordeste e minas de carvão em Santa Catarina. O parque Lage também era propriedade da família. Tudo foi confiscado pelo governo Getúlio Vargas antes da Segunda Grande Guerra. O que não significa que ficaram pobres.

Mais do que escrever um livro, a intenção de Eliane era deixar um registro da vida e da família para as gerações seguintes. Assim a primeira metade do livro é dedicada à genealogia e às lembranças familiares enquanto na outra metade relata sua irrequieta e interessante vida.

Eliana é da mesma geração dos meus pais, então reconheci algumas passagens ou fatos paulistas que somei a alguns pontos que marcaram a minha leitura:

A avó decidiu viajar para a Europa e levar Eliane. Saíram para fazer o passaporte no Rio. À página 73:

Era um prédio lúgubre no centro da cidade, sob um calor de 40 graus. Perambularam de seção em seção, de negativa em negativa, até chegarem, exaustas, à sala do chefe. O homem calvo e mal-encarado foi logo dizendo, seco: “Uma criança de 8 anos só viaja com o consentimento, por escrito, do pai ou da mãe”. E seguiu-se um diálogo no mínimo estranho: “Mas o pai e a mãe já estão na Europa. Eu vou justamente levá-la para eles”. “Então volte aqui com consentimento por escrito e a menina viaja.” “Não dá tempo. Já comprei as passagens e o navio sai daqui a dois dias. Não tenho com quem deixá-la“. “Não posso fazer nada.” “Pode, sim. O senhor fica com a menina. E eu viajo depois de amanhã.”

Virou as costas decidida e saiu porta afora.

Na cabeça do homem as ideias se atropelavam. Ficar com a menina? Essa estrangeira, que nem falar sabe, é capaz de sumir no mundo. Essas coisas acontecem. Com louco não se brinca. E de um pulo, já no corredor, gritou: “Ei, dona madame! Espera aí! Eu dou um jeito... “ E deu.

Elisabeth saiu triunfante, com o passaporte na bolsa e a neta pela mão.

“A vida é como um jogo de pôquer”, monologava, o olhar de aço vagando janela do táxi afora, “Há ganhadores e perdedores. Ganha o que souber encarar o adversário, descobrir o seu ponto fraco e, na hora certa, blefar.”

Rejeitada pela mãe e com um pai playboy irresponsável estudou em internatos mundo afora. Sentia-se um estorvo, “um problema para os adultos à sua volta”. Conheceu a mãe só aos 11 anos, recebida, sem abraços num frio comprimento. Nas férias seguintes foi convidada a passar um fim de semana na casa da mãe. Com medo de outra decepção: “Só de pensar sentia um frio na barriga, como se tivesse engolido centenas de borboletas esvoaçantes.”

É singular – pág. 236 – a competência com que a autora resumiu a decadência da Vera Cruz e do cinema brasileiro:

Todos os circuitos de cinemas do Brasil afora eram ligados por contratos de exclusividade às grandes companhias produtoras americanas, que se encarregavam da distribuição. Qualquer cinema que quebrasse esse contrato, lançando um filme nacional independente, sofreria um boicote dessas distribuidoras. As companhias cinematográficas nacionais, por sua vez, produziam poucos filmes por ano. Apesar de já conquistarem a preferência do público, além de prêmios no exterior, tinham que, para verem seus filmes exibidos aqui, vender os direitos aos gigantes da indústria cinematográfica americana, que ficavam responsáveis pela distribuição. Era uma batalha inglória. O filme da vera Cruz tornava-se propriedade da Columbia Pictures, que o repassava aos cinemas de todo o Brasil, fazendo parte de um pacote obrigatório de dez filmes americanos classe C e D, enfim, os piores! Então, apesar das filas na frente dos cinemas dobrarem as esquinas, o lucro não ia nem para os donos dos cinemas nem para a Vera Cruz.

Em outra passagem, à página 266, menciona que em 1954 quando nasceu a filha Vivien, mudaram-se para um sobradinho conjugado na Avenida Lavandisca no bairro de Moema em São Paulo. Curiosamente meus pais moraram na mesma Lavandisca em 1952 quando eu nasci. Na mesma época só havia carros importados e caros. Compraram uma exceção, como meus pais: uma caminhonete alemã Hansa Borgward. Mas a frase que mais chamou à minha atenção veio à página 281:

“De volta à praia do Tombo notamos uma certa efervescência. Era a campanha política de Jânio Quadros. O prefeito nos procurou e pediu que o ajudasse me candidatado a vereadora. Tom ( o marido) achou boa ideia, amarrou uma vassoura no jipe, símbolo do Jânio, e eu passei a escrever discursos e a falar de cima de caminhões.” Provocou as minhas lembranças porque esse jipe, cor de laranja, havia sido do meu tio onde passávamos as férias na praia da Enseada, Guarujá.

Há inúmeras deliciosas histórias de cinema, como foram inúmeros os endereços de Eliane, mas ela queria a fertilidade da terra, o bem-estar e o ar puro do campo. Então em 1977, aos 50 anos mudou-se para Pirenópolis no Centro-Oeste goiano onde reside ativa e lúcida até hoje.

         E, felicidade adicional, pós leitura, é que terei a oportunidade de conhecê-la na próxima reunião do nosso clube de leitura.

08 junho 2015

Um dia na vida de um carteiro


Quando prestei concurso para carteiro imaginei que fosse distribuir cartas em bairro de rico. Não neste bairro de ruas enlameadas, repleta de cachorros sujos e barracos sem número. 

Não há caixas de correio. Odeio bater palmas e gritar para entregar os envelopes.

A próxima casa vai ser mais fácil. A porta está entreaberta.

- Ó, de casa. – Bato com os nós dos dedos na porta.

- Ó, de casa – chamo três vezes e abro lentamente a porta.

Não vejo ninguém e avanço uns passos. 

Chama-me à atenção a mesinha na frente do sofá. O tampo é mistura de balcão e cemitério. Quatro pratos empilhados com restos de arroz e ossos de frango. Uma mamadeira caída com leite derramado ressecado. Uma chapinha desgastada.  Um joy stick. Um controle remoto.  O cinzeiro transbordando guimbas está ao lado de três latas vazias de cerveja bem defronte do lado direito do sofá que está mais afundado e onde também há marcas de queimaduras de cigarro. Do lado esquerdo do sofá há um travesseiro indicando que é cama de um dos moradores.

Acima do sofá, na parede há um recorte de página central de revista com o time do Botafogo, campeão estadual de 2006. No prego, logo acima, há um boné provocativo com o escudo do Flamengo.

Dei mais um passo para largar a correspondência sobre a mesinha quando reparei rastros de pneu de bicicleta perto de um par de havaianas destroçadas e um cachorro morto.

Saí correndo.


02 junho 2015

Teoria da conspiração


Não acredite em tudo o que lê, vê e ouve. Quantas vezes nós já ouvimos essa frase?

Talvez uma centena.

Hoje, com a tecnologia acessível, sabemos que tudo pode ser alterado de acordo com as conveniências. Até em filmes caseiros, produzidos por adolescentes cheios de espinhas, os homens voam, tiranossauros são ressuscitados e tsunamis são cenários possíveis.

Antigamente só as grandes potências dispunham de tecnologia de ponta, equipamento sofisticado e pessoal especializado para manipular cenas em grande escala como a chegada do homem à Lua. Aposto que você também acreditou nas pegadas do Neil Armstrong.

Talvez a maior fraude produzida pelos estúdios da CIA sejam as imagens repetidas à exaustão em que o presidente americano é baleado quando acenava para população.

O relatório Warren, agora inteiramente disponível na Internet, comprova detalhadamente que John Fitzgerald Kennedy estava de saco cheio de Fidel, de Khrushchev e de Jackie. Resolveu sumir no mundo. Montou numa Harley Davidson e rumou para uma ilha no sul da Flórida.  


Hoje, de dia passeia na praia com seu cachorro e de mãos dadas com Marylin. À noite joga pôquer com Onassis, Charles Lindberg, Elvis Presley e um assassino de nome Oswald.

25 maio 2015

Noturno do Chile

Noturno do Chile

Roberto Bolaño

Companhia das letras
R$ 30,00
118 páginas


Roberto Bolaño é um autor consagrado. Me animei quando o livro foi sugerido no clube de leitura. Seria uma ótima oportunidade de conhecer um pouco da obra do afamado escritor chileno.
Quando terminei de ler o livro questionei sobre o que era esse livro? Qual foi a mensagem que o escritor quis passar?
Lembrei-me de uma frase de professores de oficina literária: “não é porque você tem uma história que acha superinteressante que isso será um livro interessante."
O autor escreve bem, tem estilo, mas contou uma história sem grandes ações, reviravoltas, suspenses ou emoções. O começo poderia ter sido o meio ou fim. Como o fim poderia ter sido o meio ou o começo. Foi como se alguém entrasse no meu escritório e relatasse o episódio da aventura comprando um sanduíche e um refrigerante e como mastigou 32 vezes antes de engolir.
É lógico que exagerei um pouquinho na falta de emoções.
Noturno do Chile é a história de um escritor chileno e como ele vivencia a literatura. O protagonista e narrador é um padre escritor com bases teóricas sólidas que enxerga com suavidade, sem opinar, sobre a podridão do mundo literário que o cerca. Na amizade sincera que busca num poeta e crítico literário percebe que o crítico é rodeado de poetas que apenas almejam aplausos e elogios. Em outro momento o protagonista frequenta os saraus na casa de uma premiada escritora iniciante. Comenta que a premiação talvez não fosse merecida. Descobre que a autora é esposa de poderosa autoridade da ditatura chilena. O cenário sugere que o prêmio foi resultado de uma homenagem ao marido e não às suas qualidades literárias.
Depois de ter escrito as linhas acima me senti capaz de responder a pergunta que eu mesmo formulei: “sobre o que era esse livro?”
Trata-se da falsidade das pessoas em seus meios. Frente à frente, homens, para não magoar, só elogiam. Lamentavelmente, ninguém aponta os defeitos do outo cara à cara, olho no olho. Apenas de longe são sinceros.
Conforme li na biografia, Bolaño ganhou notoriedade por sua atuação como militante de esquerda. Não me arrependo de ter lido o livro, também não gosto quando os autores inventam de escrever usando um único parágrafo. Entretanto, lendo, sempre se aprende alguma lição. Só não recomendo para que não se perca tempo. Talvez por não conhecer o autor nem estar cara a cara com ele, opino que é uma pena que talvez tenha lido o livro errado de Bolaño. Ele foi ganhador do Prêmio Rómulo Gallegos por seu romance Os detetives Selvagens. Talvez este outro livro merecesse meus aplausos ou será que o prêmio venezuelano também terá sido uma homenagem militante?


28 abril 2015

Fábula


Era uma vez uma formiga que caminhava sobre a bancada da minha pia.
Antes de tudo, alguns esclarecimentos são absolutamente necessários:
1– As histórias que começam comera uma vezsão contos infantis com final feliz e esta é uma fábula adulta e sem final feliz.
2 – A bancada da minha pia é preta. Entretanto, para que a gente possa ver a formiga da minha história, vou fazer de conta que a bancada é branca.
Então, como eu ia dizendo, era uma vez uma formiguinha que caminhava sobre o mármore branco da bancada da minha cozinha. Caminhava para e caminhava para . Ela estava trabalhando.
– Todas as formigas das fábulas são muito trabalhadeiras.
Ela empurrava um carrinho de supermercado, à procura de sobras comestíveis. No carrinho, até agora só havia supérfluos: uma fatia de pizza de muçarela e dois fios enrolados de macarrão miojo sabor carne. Da prateleira inferior da gôndola, ela retirou duas pipocas de micro-ondas. No corredor seguinte, topou com a cigarra e perguntou:
– Fazendo compras tão cedo? Você não está mais trabalhando na casa de shows de São Paulo?
Não, querida, aquela cigarra é outra, é a do La Fontaine. Sou muito mais bonita e charmosa. Arrumei um maridão maravilhoso, não preciso trabalhar.
Sem graça pela mancada, a formiga continuou, apressada, seu caminho. Encontrou o leão e o rato e disparou:
– Bom-dia, Majestade! Vejo que está acompanhado do seu ajudante de ordens.
Ao que o leão respondeu:
Mocinha, deixe de ser fofoqueira e vá trabalhar. O rato que roeu a rede para o leão escapar é personagem do Lobato. Este ratinho é meu novo amigo de todas as horas.
A formiga considerou que teria sido melhor ter ficado em casa, dormindo debaixo das cobertas até mais tarde.
Formiga de fábula, independentemente do autor, tem que ser trabalhadeira e falante. Voltou a empurrar seu carrinho e consultou a lista de compras: geleia, açúcar, leite condensado, bolo de chocolate, quindim, torta de morango com suspiro e creme chantili.
Da lista solicitada constava também café de garrafa térmica. Mas esta formiga não procurou por preferir chá de hortelã.
A formiga seguiu seu caminho sem torrão de açúcar e sem barra de chocolate. E deparou-se com outra formiga pilotando um carrinho mais vazio ainda.
Desta vez nada perguntou, imaginando existir alguma fábula de Esopo que tenha duas formigas conversando.

Moral da história 1:
Não se meta em cozinha de homem: tem comida salgada.
Moral da história 2:
Não se meta em história de autor não consagrado.





20 abril 2015

Homo brasiliensis




— Cobogó? Que diabos é isso?
Evito prestar atenção à conversa alheia. Entretanto, às vezes é impossível não ouvir.
Eu voltava para Brasília sentado na poltrona do meio. Logo atrás de mim, naquele voo lotado, estava uma mulher vistosa, nos seus trinta anos. Entendi que ela desconhecia Brasília e recebeu um convite para trabalhar na Capital. Ela queria saber como as pessoas moram em Brasília e encontrou na cadeira vizinha um candango falante que deve ter sido guia turístico. Ambos falavam alto, o que tirou a atenção da minha leitura.
A primeira frase que ouvi, foi dele.
— Os ricos moram no lago. Os bem ricos, numa ponta de picolé.
— Como é? — Indagou a mulher, formando rima.
— As pessoas mais endinheiradas moram próximas do lago. Os terrenos enormes que ficam nas margens são chamados pontas de picolé. Somente esses têm o privilégio do acesso à água. Acredito que o melhor lugar para morar é no Plano.
— As margens do lago são muito íngremes?
— Não. Por quê?
— Você disse que preferia morar em lugar plano.
O vizinho, imagino, deu um sorriso, explicou que se referia ao Plano Piloto e falou das Asas Sul e Norte, arrematando que as mais valorizadas eram as 100 e as 300.
Naturalmente, ela deve ter feito cara de dúvida, pois ele disse que as quadras 100 e 300 ficam a oeste do Eixão.
Continuei sentado no meu lugar, preso ao cinto de segurança, mas com uma enorme vontade de olhar para trás para ver a cara de interrogação da mulher.
— Eixão?
O avião deu uma chacoalhada, de modo que perdi aquela explanação. Ouvi outra, já pela metade.
— ... os melhores apartamentos são os mais antigos, são amplos e vazados.
— E o que é um apartamento vazado?
O candango chegou a ser irritante com sua longa e apaixonada explicação.
— Os prédios, conhecidos por blocos, ficam deitados. São compridos em vez de altos. O que faz com que haja maior número de apartamentos no mesmo andar e provoca menos áreas externas, logo há muitos apartamentos com apenas uma frente. Os antigos são ventilados: têm frente e fundo do lado oposto. São os vazados. Todos os apês antigos têm cobogó.
— Cobogó? Que é isso? Tenha dó! — Exclamou em nova rima.
Adoro essa palavra formada pela primeira sílaba dos nomes de três engenheiros que criaram uma parede de tijolos decorativos que permite ventilação e entrada de luz natural. De modo que só ouvi o final da frase do vizinho falante.
— ... além do quê, são impressões digitais da cidade.
Daí, ela perguntou qual era o prato típico da cidade.
E ele foi muito criativo na resposta.
— Não há nenhum prato típico porque os moradores têm origem em todas as regiões brasileiras. Na cidade, encontramos todos os temperos. Não há prato nem forma comum de preparar alguma iguaria. É usual a reunião das pessoas em torno de uma churrasqueira. Cada um assando a carne ou peixe a seu modo.
Em quase todas as casas do Lago há churrasqueiras. Quase todos os clubes construíram churrasqueiras e também há muitas espalhadas nos parques públicos. O churrasco agrega as pessoas. O brasiliense aprendeu que, para sobreviver ali, deve unir-se aos outros, respeitando e ultrapassando barreiras regionais.
— Uau! Falou bonito! Só ouço as pessoas falarem mal de Brasília, que é onde todos os corruptos se reúnem para roubar o resto dos brasileiros...
Nesse momento, a forasteira acertou o fígado de todos os brasilienses com um poderoso golpe direto.
— Pois é, esse lamentável rótulo pertencia ao Rio, enquanto Capital. Mineiros: pão-duros; baianos: preguiçosos; paulistas: trabalhadores. Rótulos servem apenas para garrafas. Os corruptos estão espalhados por todos os cantos do nosso país. Não se salva nenhum enquanto permanecer a impunidade. A diferença é que de Brasília saem as verbas federais, as somas são maiores e a mídia está mais atenta.
A mulher percebeu que cometeu uma gafe ao falar mal de Brasília a um brasiliense. E procurou mudar de assunto:
— Faz muito tempo que você mora em Brasília?
Aliviado, o candango respondeu:
— Agora você já está falando como uma brasiliense legítima...
— Não entendi...
— Quando duas pessoas se conhecem, a primeira pergunta é: há quanto tempo mora na cidade? E a segunda, invariavelmente, é: de onde você veio? Agora, com o passar do tempo e o surgimento de uma geração de nascidos na capital, a coisa mudou um pouco. De qualquer forma, as perguntas sempre são bem-vindas para o início de uma conversa.
— Há quanto tempo, afinal, você mora na cidade?
— Fui para lá no início da década de 70. No tempo em que a lenda dizia que quem se mudava para Brasília passava pelo estágio dos três dês. Deslumbramento, decepção e desespero. Deslumbramento com as largas avenidas, arquitetura monumental e proximidade com o poder. Decepção ao perceber que morar próximo ao poder não os transforma em nobres. Desespero por não se adaptar à cidade e querer ir embora.
— Era tão ruim assim?
— É uma cidade de gente guerreira. Os perdedores sempre reclamam. — Pigarreou com desdém.  — O tempo incorporou outro dê. O dê da demência.
— Como assim? Não entendi...
— É quando as pessoas se acostumam, se entrosam e passam a amar Brasília.
— Interessante essa lenda...
— Particularmente, adotei ainda os dês da devoção e defesa da cidade que tão bem me acolheu.
Nesse momento, a conversa dos dois foi interrompida pelo forte barulho do retrocesso das turbinas no pouso do avião.
O avião taxiou e estacionou.
Abri a porta do compartimento acima da cabeça, peguei minha sacola e olhei para os que me proporcionaram um voo mais agradável.
Ainda pensei em falar ao conterrâneo que as sílabas de cobogó foram formadas a partir dos nomes de Coimbra, Boekmann e Góis, mas apenas me despedi com um gesto de cabeça.

14 abril 2015

O homem que amava os cachorros

O HOMEM
QUE AMAVA
OS CACHORROS

LEONARDO PADURA

Editora Boitempo

590 páginas

R$ 60,00



Nesta primeira dezena de abril de 2015 as manchetes de todos os jornais destacaram o restabelecimento das relações entre Cuba e Estados Unidos após 62 anos de embargo comercial.
A poderosa Globo ao perceber o movimento de aproximação enviou rapidamente um repórter para colher depoimentos cubanos sobre o viver na ilha. A maioria dos entrevistados era de anônimos até que, para a minha surpresa, conversaram com Leonardo Padura que falou com clareza e impressionante liberdade sobre as dificuldades e perspectivas de morar em Cuba.
Não foi à toa.
Ele foi escolhido pelo seu recente reconhecimento e premiações literárias na Espanha, França, Itália além da própria Cuba.
No romance O homem que amava os cachorros, Padura aparentemente sem cerceamento de expressão, reconstrói a figura do polêmico líder soviético Leon Trotski, do seu assassino e de um frustrado escritor cubano nos tempos atuais. O romance ficcional entrelaça com maestria a biografia dos três personagens, desvenda os crimes da União Soviética de Joseph Stalin, penetra na guerra civil da Espanha e comenta sobre a vida em Cuba nos dias atuais.
Por sorte não fui interrogado por nenhum membro da NKVD*, entretanto tenho a confessar que a leitura foi pesada em todos os sentidos. Pela quantidade de páginas e principalmente por causa das severas revelações dos métodos do tirano Stalin.
Não sei se por medo de interrogatórios, mas os russos de forma geral são conhecidos por vários nomes e apelidos. Trostki foi batizado Liev Davidovich Bronstein. Stalin recebeu o nome de Iossif Vissarionvitch Djugashvili. Lenin era Vladimir Ilitch Ulianov. O assassino espanhol, Jaime Ramón Mercader del Rio Hernández, a cada capítulo se escondia atrás de outro codinome. Além dos nomes, codinomes e apelidos impronunciáveis na maioria das vezes, conhecermos pouco as figuras do passado soviético o que tornou a leitura um desvendamento de um código secreto.
Exterminando esse problema que é nosso e não do livro, a leitura ficou palatável e em vários momentos verdadeiramente saborosa.
O autor desde o início nos previne que “fanatismos não se discutem, pois encerram em si mesmos um diagnóstico.” E de uma forma geral sugere que os seguidores de Karl Marx foram também seguidores de Maquiavel ao aplicar a máxima que o fim justifica os meios.
O resumo, bem resumido da história, é a revelação do segredo de um homem que encontra outro numa praia deserta. Ele diz ter sido treinado para executar Trotski quando este estava exilado no México.
Entretanto como o autor foi tão generoso ao escrever centenas de páginas eu seria deselegante se apresentasse um resumo de apenas três linhas.
Então, retribuindo a gentileza, faço um resumo estendido a partir de frases sublinhadas.
Mercader foi um rebelde espanhol que rompeu com o pai burguês pela causa socialista. Na Revolução Espanhola – movimento grevista com saldo de 1.400 mortos e mais de 30.000 detidos – convenceu-se de que a piedade não existe nem pode existir na luta de classes. Vive numa Madrid cansada desencantada, assediada pela escassez e ansiosa por regressar a uma normalidade destruída pela guerra e pelos sonhos revolucionários mesmo que ao preço infame da rendição. Embrenhou-se nas reuniões políticas a ponto de se destacar e ser cooptado pelo Partido para ações mais significativas para a causa da revolução que a simples panfletagem ou explosão de prédios.
Simultaneamente Stalin impera na União Soviética com um rebenque numa mão e um chocolate na outra. Por exemplo, para construir o canal que ligava o mar Branco ao Báltico chicoteou 200 mil prisioneiros, dos quais mais de 25 mil morreram, e presenteou com um bombom ao escritor Máximo Gorgki  quando este documentou para o mundo que o Canal demonstrava a supremacia da engenharia socialista e que se propunha a transformar os prisioneiros em modelos resplandecentes do Novo Homem Soviético.
Ao comunista madrileno que sonhava com a utopia, que todos fossem felizes, alimentados, abrigados, cheios de direitos e sem obrigações é ensinado que não se atacam os inimigos quando estão de pé, mas quando estão de joelhos. E é nesta posição, submissa pelo medo, que precisa estar a população opositora. Ele é doutrinado, não precisa entender nada, deve submeter-se à santíssima trindade: obediência, fidelidade e discrição. É apresentado e estuda a biografia, reescrita e publicada, de Trotski.
Trotski que havia sido um dos principais líderes e teóricos da Revolução Russa, foi derrotado e exilado por Stalin. Mesmo assim, de países distantes, consegue ser um combatente ferrenho escrevendo artigos. Por isso, na biografia reescrita deixa de ser russo para ser ucraniano. É chamado falso profeta, renegado, inimigo do povo. Dizem que é a maldade ideológica personificada elevada à enésima potência.
O exilado parece se alimentar e crescer com a difamação. Escreve pra vários jornais apontando a política de um governo que adota a perseguição e a mentira como recursos do Estado e estilo de vida para o conjunto da sociedade.
Baseado em minuciosa pesquisa o autor não deixa que o livro se transforme em maçante aula de história política. Mostra por exemplo, como os jovens são facilmente aliciados, como o assassino, e são convencidos para a grande missão. Que os homens do futuro terão um mundo mais seguro e melhor graças a pessoas como ele. Mostra também como o escritor é envolvido para escrever o romance.  A simultaneidade das histórias torna o resultado em leitura digna de aplausos ruidosos.
Sem dúvida e sem trocadilho, foi um dos grandes livros que li.




* NKVD – Narodnyi Komissariat Vnutrennikh Del ou Comissariado do Povo para Assuntos Internos.

07 abril 2015

O decote no escritório




Sabe aqueles peitos das mulheres de filmes americanos? Pois é, a Patrícia tem um par desses. O generoso decote exibe muita volúpia, poder e alegria. Logicamente a alegria fica por conta, apenas, daquele que tiver o privilégio de brincar naquelas montanhas russas. Ou americanas. Ou brasileiras. Sei lá, JotaTê sempre se perde quando está cercado de pensamentos no vale.
            A Patrícia é da área de marketing e são raras as oportunidades que tem de encontrá-la no trabalho. A exuberância só fica disponível aos seus olhos nas reuniões semestrais. Ele até propôs que as reuniões semestrais fossem todos os meses. Mas a diretoria não quer que outras gerências se relacionem com o pessoal de propaganda e marketing.
            Na última reunião havia poucos presentes. Todos cientes, da importância da reunião com o diretor. Patrícia compareceu com uma blusa abotoada e saia. Uma saia comportada. Nem chamou à atenção, ao menos antes da reunião começar.
            As coisas começaram a se complicar quando o destino o colocou na mesa bem à frente da doutora Patrícia. Ele havia se preparado com afinco para a reunião de resultados. Uma boa apresentação respaldada em trabalho eficaz poderia definir uma promoção para alguém daquela sala. Ele queria ser o promovido.
            No momento em que percebeu que a exposição de motivos do departamento de marketing estava no botão da blusa que a doutora abrira abaixou a cabeça. Pensou em olhar e focar nos próprios apontamentos. Foi aí que perdeu a promoção.
Patrícia jogou com toda sua inteligência e capacidade. Ela estava em casa. O terreno era o dela. Sabia onde seria a reunião. Seria na sala com a enorme mesa de tampo de vidro. E se preparou muito melhor que ele. Usou de todos os artifícios para desconcentrá-lo e superá-lo. Veio sem calcinha.
JotaTê foi aplicado. Conferiu os pormenores e certificou-se que ela estava realmente, indubitavelmente, deliciosamente sem calcinha.
Ela rabiscou e empurrou um bilhete.
– Quer?
Era impossível olhar para os olhos da doutora Patrícia.
Limpou a baba que escorria pela lateral da boca e assentiu com a cabeça olhando para o decote.
A fama da doutora era de cumpridora de prazos e compromissos.
Na sexta-feira se encontraram e rumaram para o motel.
Tudo perfeito, Patty estava pleonasticamente divina. Os sonhos iriam se realizar. Era o sonho de dez entre dez funcionários da empresa.
Estavam a sós no quarto. Meia luz. O beijo. A agarração. A volúpia. Mãos acariciando e apalpando. Mãos despindo corpos. Corpos nus se pegando e se esfregando. Libido nos céus. Os enormes e rígidos seios eram dele, tudo dele. Dele e da sua boca.
A língua descreveu meio círculo no mamilo de Patty e na mesma hora Patrícia, de prazer, cravou e arrastou as dez unhas nas costas de JotaTê. O sangue correu nas trilhas dos dez punhais.
O candidato a gerente brochou. Perdeu a promoção, o tesão e a vantagem de dizer que tinha comido a Patrícia, a nova gerente.

28 março 2015

Tia velha


Quando era menininho eu odiava aquelas tias velhas, amigas da minha avó, que chegavam apertando bochechas falando que me viram nascer.

Hoje eu sou a tia velha.

24 março 2015

A máquina fantástica


Título original: A invenção de Morel
Adolpho Bioy Casares
Editora Expresso e Cultura – esgotado em todas as editoras
128 páginas
 
Participar de um grupo de leitura foi uma das melhores coisas que me aconteceu depois que resolvi viajar no mundo literário. Saí da rota comercial dos best sellers para navegar horizontes desconhecidos. A bússola são os colegas marinheiros do grupo de leitura que, via de regra, sugerem embarcações diferentes para destinos, para mim, sempre inexplorados.

Quando propuseram um autor argentino torci o nariz como o brasileiro que acompanha o futebol.

Ainda precisei comprar o livro numa livraria virtual uma vez que o livro está esgotado.  Recebi o livro amarelado reencadernado com algumas marcas de fita durex. Cheirava ligeiramente a mofo ao contrário de um novo que recende a tinta gráfica.

Ultimamente estou meio ressabiado com as apresentações, orelhas e contracapas que tenho lido. Todas são elogiosas. Aliás, é por isso que estão ali.

Então, foi assim, cheio de desconfianças, que li a apresentação de Jorge Luís Borges, o Maradona da literatura portenha.

Borges afirma que nenhuma outra época possui novelas de argumentos tão admiráveis quanto The turn of the screw, Der Prozess, The invisible man, Le voyageur sur la terre  ou como o desta , escrita em Buenos Aires por Adolpho Bioy Casares.

Ou seja, que acima de tudo, eu, como leitor, deveria prestar atenção no argumento da história. Foi o que eu fiz.

Trata-se da história de um condenado à morte que foge para uma ilha afastada. A ilha apesar de deserta possui algumas poucas edificações improváveis: um museu, uma igreja e uma piscina.

O fugitivo é prevenido por um italiano que vendia tapetes em Calcutá, que as construções datavam de 1924 e que nem os piratas chineses nem o navio do Instituto Rockefeller ousavam ir até lá. Que a ilha era um foco de enfermidade, ainda misteriosa, que matava de fora para dentro. Caem as unhas e o cabelo, a pele e as córneas morrem e o corpo só resiste de oito a dez dias.

Com esse início de mistério e quase de terror sabemos também que o fugitivo pela centésima noite anota suas sensações, medos e descobertas. E tomamos conhecimento da história justamente a partir das anotações do caderno do fugitivo.

Também, desde o início, o autor lança notas de rodapé de página que são absolutamente geniais, pela sutileza, quando questiona a veracidade do narrador ao prestar  algumas informações como a primeira nota que diz que as Ilhas Ellice são baixas e sem árvores ao contrário do narrador que diz que ali havia um morro e árvores.

 A história ganha vulto quando o condenado passa a ter companhia na ilha. Não sabemos se são alucinações, delírios, fantasmas ou pessoas de verdade. Cabendo ao leitor especular o mistério como num enredo policial.

Entre os vultos se destacam um homem, Malthus e uma mulher, Faustine, pela qual o protagonista e narrador se apaixona.

Estes são os cenários e personagens que o autor utiliza para divagar sobre a vida, sobre a morte e sobre a eternidade enquanto tenta descobrir se a origem dos vultos são fantasmas, se ele está morto ou até se são provenientes das alucinações provocadas pelas raízes que come.

O fechamento da história apresenta uma resposta verossímil às indagações e podemos aceitá-la mais do que sendo fantástica, mas de ficção científica.

E, por isso mesmo o argumento é genial, Borges tem razão, principalmente para as explicações para a Máquina de Morel.



Finalizando, sou grato por pertencer a esse grupo de leitura e assim, como o protagonista, ter a oportunidade de explorar terras por mais fantásticas ou fantasiosas que sejam.

17 março 2015

Palestra de autoajuda


Esta semana recebi três comunicações circulares relembrando a palestra com o prestigiado conferencista de renome nacional, o escritor de cinco best sellers, Dr. Tiago Neves de Melo Costa. Mesmo quem nunca ouviu falar em Melo Costa passou a enaltecê-lo após propagandearem a manada de informações.

O RH ressalta que as falas do Dr. Tiago superlotam auditórios. Que é muito importante se inscrever, apesar da gratuidade, e confirmar a presença, tendo em vista que o auditório comporta apenas trezentos felizardos. Que a palestra Melhorando a autoestima está contida na filosofia de valorização dos funcionários públicos. Que é restrita aos funcionários desta repartição. Vetada a presença de parentes.

Há vários dias, a figura do Dr. Melo Costa nos recebe com um sorriso de boas-vindas na entrada do nosso prédio. O tamanho do sorriso quase ultrapassa as margens do enorme banner multicolorido.

No hall dos elevadores, os cartazes informam que o Dr. Melo Costa já realizou mais de duzentas palestras de sucesso e que já vendeu mais de três milhões de livros. Que os seus livros “É mole ganhar dinheiro”, “Tenha amigos no lugar certo”, “Valorize-se e suba na vida”, “O mundo é dos vivos” e “O que o outro quer ouvir” estarão à venda.

Nos corredores e nas rodas de cafezinho o assunto é único: a vinda do idolatrado professor Melo Costa. Repentinamente, todos conhecem alguma tia ou vizinho que melhorara de vida após ler um dos livros dele. Os colegas citam frases selecionadas nos livros de Melo Costa: “Ajuda o teu semelhante a levantar a carga, mas não a levá-la.”, “A sorte ajuda os audazes.”, “As pessoas que vencem neste mundo são as que procuram as circunstâncias de que precisam e, quando não as encontram, as criam.”. Uma catarse coletiva estava em andamento e a palestra seria só à tarde.

Às 11h30, recebi mais uma circular informando que os funcionários que não conseguiram se inscrever teriam uma nova oportunidade dentro de 40 dias, porque o RH encontrou uma brecha na agenda do disputado conferencista.

À tarde, meia hora depois do combinado, o professor se instala atrás do microfone e, com a desenvoltura de um bispo evangélico, cativa a plateia extasiada.

Em resumo, enaltece o trabalho dos funcionários públicos, afirma que todos são eficientes e eficazes. Eles é que levam o País para frente. Se há alguma deficiência nas repartições públicas é culpa dos malfalados políticos que transferem a má imagem aos trabalhadores da burocracia.

Incomodei-me ao perceber que o discurso estava de acordo com o título do livro mais recente: “O que o outro quer ouvir”. Quando ele pronunciou com orgulho a própria sabedoria: “Todos os dias fazemos muitas coisas que não são importantes. Mas é muito importante que as façamos.” Um alarme soou na minha cabeça. Essa frase é de Mahatma Gandhi.

Peguei a agenda e passei a anotar outras frases de efeito até o término do teatro, quando todos aplaudiram entusiasmados.

Evitei o lanche de confraternização após a conferência. Fui para a minha sala checar as anotações. Não fiquei surpreso ao consultar a Internet e confirmar que Melo Costa, sem constrangimentos, se apossara de pensamentos do Dalai Lama, de Shakespeare, Pitágoras, Sófocles, Paulo Coelho.

Em outra pesquisa, descobri que todas as palestras aconteciam em órgãos públicos: secretarias estaduais, prefeituras, estatais, câmaras municipais e até no Senado Federal. Procurei em listas de mais vendidos e nada encontrei. Todos os livros foram adquiridos pelo governo para distribuição nas escolas e bibliotecas públicas. Sem dúvidas, o Dr. Tiago Neves de Melo Costa aplicava na prática o que ensinava nos títulos dos livros. Tendo amigos no lugar certo é mole ganhar dinheiro. Pena que não tenha escrito nenhum livro sobre honestidade e ética.

Em casa, foi difícil adormecer. Três provérbios giravam velozes na minha insônia: "Quem encobre ladrão é ladrão e meio." “Não existe almoço de graça.”; “Ladrão que não é apanhado, passa por homem honrado."

No dia seguinte, mesmo sem ter a quem apontar os fatos na repartição, juntei a documentação. Lacrei anonimamente um envelope pardo. Dirigi-me ao Ministério Público.

Quando entrei, pediram que me identificasse na portaria. Passei a porta giratória e a figura do Dr. Melo Costa me recebeu com um sorriso de boas-vindas estampado num enorme banner multicolorido.

A porta girou novamente para a minha saída. Entrei em parafuso.

 
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