06 junho 2017
Eixão dos vários nomes
Avenida, rua, alameda,
pista são palavras femininas, mas a mais importante via de Brasília é conhecida
por nome machista: Eixão.
Oficialmente batizado
de Eixo Rodoviário, é uma via expressa de 13 km de extensão, sem sinais, seis
pistas de tráfego veloz e intenso.
Une a ponta da Asa Sul
à ponta da Asa Norte. Ou separa o Plano Piloto em Leste e Oeste. Há quem veja religiosidade no traçado de
Brasília com a enorme cruz formada pelo Eixão com o Eixo Monumental, a pista da
Esplanada dos Ministérios. Pela
quantidade de acidentes e atropelamentos maldisseram-no Eixão da Morte.
Contrariando os pessimistas, nos fins de semana a pista é fechada aos veículos
e liberada para caminhadas, skate, bicicletas e vendedores de coco verde. Recebe
o carinhoso tratamento de Eixão do Lazer.
Foi neste Eixão do
Lazer que, no domingo, vi uma menininha, aprendendo a andar. Soltou-se das mãos
do pai, atravessando a pista. Concentrada, estendeu a mãozinha procurando
equilíbrio em passos trôpegos.
Vi um menino veloz,
pedalando a bicicleta no Eixão da Morte.
Eu estava próximo, mas
longe demais para interceder no destino.
Repentinamente o garoto
freou a bicicleta e parou. Colocou um pé no chão e, com um sorriso banguela,
gesticulou prioridade para a menininha.
Vi na ação uma imitação
daquilo que provavelmente seus pais fazem.
Freiam o carro antes das faixas de pedestres quando alguém acena com o
sinal de vida.
Continuei minha
caminhada matutando o futuro.
Eixão da Esperança é um
bom nome.
31 maio 2017
30 maio 2017
Receita de pudim de gelatina
As donas-de-casa certamente vão questionar : receita de pudim
de gelatina ?
Sim, pudim de gelatina .
Para pessoas
indecisas, é muito difícil
saber por onde começar . Existe gelatina em folha ou em pó . Existem pelo
menos meia
dúzia de sabores
artificiais e cores
igualmente artificiais :
framboesa , morango ,
limão , laranja ,
pêssego e sem
sabor . Este
é ótimo , gelatina
sabor sem
sabor . Vasculhei meus
compêndios culinários e descobri que a gelatina sabor sem sabor serve para dar consistência sem alterar o gosto . Já
imaginaram rabada com
gosto framboesa ?
Para realização completa , leve para casa no mínimo quatro caixinhas . Cores
e gostos ao sabor do freguês , no caso , você .
Esqueça a receita do rótulo.
Despeje o conteúdo de duas caixinhas , de mesmo
sabor e cor ,
em um
quarto de litro
de água fervente ,
metade do sugerido na embalagem , mexa bem e depois acrescente mais
outro quarto
de litro de água ,
ou 250 mililitros
para falar na linguagem correta .
Misture bem e despeje em
pirex redondo .
Comece de novo com
as outras duas caixinhas . Repita a operação e despeje em
pirex redondo
igual ao anterior .
É fundamental que
os dois pirex sejam idênticos . Coloque os dois pirex na geladeira .
Se não tiver paciência ,
coloque no frizer, para apressar
a operação .
Em aproximadamente duas horas você terá as gelatinas
no ponto.
É hora da diversão .
Pegue aquele cedê com
o samba-enredo da escola vencedora deste
ano . Aperte a tecla
repeat e ponha no volume máximo .
Da geladeira ou
frizer retire as gelatinas e emborque (eu sempre
desejei usar esta palavra ,
esta é minha oportunidade
não desperdiçada) ambas em cima de uma bandeja . Lado a
lado . Para enfeitar e aumentar o desejo masculino ,
coloque, na parte superior ,
uma tampinha de garrafa de cerveja
em cada
gelatina.
Está pronto . Peitos
de passarela do samba
sempre têm forma
de gelatina e não
têm acompanhamento, nem em cima nem em baixo . O
acompanhamento é apenas o da bateria da escola
de samba . É só
balançar a bandeja
no ritmo e teremos a mesma sensação
de estar na arquibancada
do sambódromo.
Para as mulheres , essas dúvidas não
existem. Jovens , maduras e passaditas.
Todas querem pudim de gelatina . Por enquanto elas
discutem apenas volume .
Haverá tempo de novos
lançamentos cor
jambo , cor
europeu ou
camarão , para
quem pegou sol
demais na praia . Se o namorado
for torcedor do Flamengo ,
uma gelatina vermelha
e outra preta ;
se ele for torcedor
do Fluminense , ponha três gelatinas .
Os sabores também
serão incrementados. Cerveja será o mais
popular , uísque ,
o mais sofisticado, laranja
com açaí
para os ecologistas
e vegetarianos , leite
para os conservadores
e Toddynho para menores
de dezoito.
A grande revolução
acontecerá no formato . As apaixonadas
terão suas gelatinas
em forma de coração , as políticas
escolherão a estrela do PT, as garotas
pit bull farão suas gelatinas
em forma de punhos fechados e haverá peitos
com formatos
de bundas .
Tudo irá evoluir até
a indústria lançar
a gelatina mais
sensual : ela
terá cor da pele ,
formato , tamanho
e consistência natural ,
como um
peito .
23 maio 2017
Elas batem um bolão
No gramado ,
debaixo do meu
prédio , vi uma menina
jogar bola , futebol . Isso já não me espanta mais . As mulheres
já estão ocupando todos
os espaços que
eram de exclusividade masculina . Eu nunca dediquei meu tempo para
observar a habilidade
das mulheres no trato
com a bola .
Mas aquela garota merecia um olhar de admiração pela beleza e suavidade. Já a conhecia de alguns
encontros dentro
do elevador.
Sou do tempo em que futebol
era jogo
de homem . Jogo
duro , muito
corpo a corpo .
Muita brutalidade .
A bola de couro
era mais
pesada que
hoje. Para cabecear bola
molhada tinha
que ser
macho . Coisa comum eram as brigas
em
campo . As mocinhas somente iam ver
alguma partida ou
pelada quando
havia algum namorado
que estivesse jogando. Nenhum interesse
no jogo . Esporte
absolutamente masculino .
Observo lá embaixo: os adolescentes estão misturados, meninos
e meninas estão jogando juntos ! A primeira coisa que me chamou a
atenção foi que ,
da mesma forma
como os garotos ,
ela usava um
calção grande
e deselegante. Naquela brincadeira de fazer gol por
entre as árvores, observei que ela chutava
com os dois
pés e igualmente bem. Qualidade rara até entre os profissionais da bola.
Quando algum garoto
chutava a bola longe
do gol e a bola
rolava indo parar debaixo
do carro estacionado, nenhum dos rapazes
se prontificava, num gesto cavalheiro , a buscar a bola . Mudança de tempos.
Fiquei boquiaberto quando
em determinado
momento ela
pegou a bola e começou a fazer
embaixadas . Eu
não contei, foram mais
de cinqüenta. Bola no pé , no joelho ,
de calcanhar , de cabeça ,
matada no peito .
Essa menina leva
jeito! Sabe tudo.
A brincadeira
continuava e a vi dividindo a bola como homem . E para meu espanto , xingando como
homem . É, essas mulheres
definitivamente estão tomando nosso
lugar, até no futebol .
Pensei que já
tivesse visto tudo ,
mas não ,
ela cuspiu – raichput – como um bom moleque
cospe.
Agora só falta as mulheres aprenderem a coçar
o saco como
nós.
16 maio 2017
Tainha recheada de recordações
Nesta semana conversei com o meu passado
duas vezes.
Férias na praia paulista. Outro século.
Tempo em que a energia falhava e não havia
asfalto nem telefone.
A praia ainda era dos pescadores.
A imagem do pescador com a agulha é de
André Klotz.
TAINHA RECHEADA DE RECORDAÇÕES
Jantar de gala no hotel cinco estrelas à
beira-mar. Duzentos dólares por cabeça, fora a bebida. Eles de gravata, elas de
salto alto. Comemoram sessenta anos de idade do banqueiro, Dr. Valter Junqueira.
Após variados drinques e canapés os
garçons com suas luvas brancas começaram a servir um peixe recheado.
O Dr. Otávio Portobello, diretor
financeiro, proferiu quinze minutos de elogiosas palavras ao homenageado. Explicou
que a tainha era um dos peixes mais nobres do litoral brasileiro e, para
finalizar, levantou a taça de vinho branco, brindou e praticamente coagiu o
aniversariante a se manifestar. O Dr. Junqueira olhou agradecendo um a um os
convidados e com leve gesto de cabeça convidou-os a apreciar a iguaria.
Como em todos os jantares, houve breve
silêncio para a prova daquela vistosa e cheirosa carne branca.
Dr. Valter Junqueira delicadamente, com os
talheres de prata, separou um naco de peixe e segurou-o entre o indicador e o
polegar e levou-o à boca. Fechou os olhos para acionar todos os outros sentidos:
paladar, olfato, audição, tato e memória. Fechou os olhos e abriu a memória.
Valtinho adorava conversar e aprender com
mestre Benedito.
Mestre Benedito tinha uma casa na faixa de
areia onde o rio desembocava no mar. Casa ampla, de tábuas e piso vermelho.
Fogão de lenha e uma enorme mesa sob um frondoso chapéu-de-sol. Pescador
respeitado por todos e que, além da generosa barriga, era dono da maior rede da
praia.
Era ali, debaixo do chapéu-de-sol, que
mestre Benedito, com a agulha e a régua, fechava os buracos nas malhas da rede.
Os bagres, além de feios, só serviam para sopa e estragos na rede.
Teve uma vez que seu Benedito abriu a rede
em toda sua extensão na praia. Era para uma verificação mais detalhada.
Percorri com ele, quando ele repôs algumas chumbadas do fundo emparelhando com
o mesmo tanto de cortiças na parte de cima. Eram uns anéis gordos, bem maiores
que o tamanho do meu pulso, que faziam a rede flutuar. Até hoje ainda me lembro
de que fui correndo para casa para dizer para a minha mãe que contei
quatrocentos e doze passos. Era muita rede, toda de barbante.
Foi com paciência que ele me ensinou a
fazer um puçá, uma pequena rede de malha fina em forma de saco. Depois
costurou-o num aro de arame.
De peso, amarrou
a pedra que escolhi e esticou uma corda mais grossa no aro, de um lado ao
outro, para prender a isca. Depois laçou mais três cordinhas no arco e juntou
as pontas, dali saiu a corda maior, pra gente puxar o puçá para fora d’água.
Com ele, fui
pescar siri. Lá na curva do rio havia uma árvore caída onde a gente sentava. De
cima podíamos ver o fundo do rio quando algum caranguejo mordiscava o chamariz.
Aí, era só puxar e pronto! Pronto nada! Eu não tinha coragem de tirá-lo do puçá. Seu Benedito
pegava o siri por trás, com a mão rápida, e jogava no balaio. Ele dizia que não
deveríamos pegar mais de dez. Era o número certo que a gente dava conta de
comer. Eu levava para casa, pedia para a dona Olga ferver e no fim de tarde
levava tudo para a casa do mestre Benedito. Era uma festa.
Muitas vezes o caranguejo só abria o
apetite.
– Seu Benedito vamos puxar picaré?
– Vá perguntar ao seu pai, vê se ele
deixa.
Eu ia para casa e invariavelmente ouvia
que mais tarde chegaria alguma visita importante ou que ele iria jantar com a
mamãe na casa de algum amigo, lá na cidade. Mas, que eu poderia ir e deveria levar
o lampião. Era o máximo.
Eu ainda era pequeno e fracote, no
linguajar deles, por isso procurava outro adulto para puxar o picaré com o seu
Benedito. Era preciso força para puxar o cabo de madeira do tamanho de um
homem. Eu normalmente suplicava para o seu
Agenor, marido da dona Olga ajudar. Dona Olga o incentivava prometendo
fritar os peixinhos assim que nós voltássemos. Inocente, eu dizia que não havia
nada para eles fazerem à noite. Nem tinham tevê.
O seu Benedito arrastava o varão além da
arrebentação. Seu Agenor ficava no raso, com a água na cintura. A rede presa
entre os dois paus verticais formava um enorme saco. Seu Benedito às vezes
gritava:
– Agenô, cê tá rastando o pau na areia?
Como se seu Agenor não soubesse que a rede precisava ficar bem coladinha no
fundo para os peixes não escaparem por baixo. Somente anos mais tarde entendi a
graça da fala.
Com a rede já fora da água a minha tarefa
consistia em segurar o balaio para os peixes e com a outra mão alumiar a rede
para os dois pescadores. As corvinas iam para a frigideira da Dona Olga e os
linguados iam para a casa do mestre Benedito. Eu gostava do baiacu. Não era
para comer, era para fazer cosquinha na barriga e ver inchar até fazer uma
enorme bola branca. Uma farra.
O seu Me ssias
era o homem do tempo. Era capaz de predizer chuvas e ventos. Calmaria e sol.
Uma vez ele me mostrou como as formigas estavam agitadas aumentando a altura do
formigueiro para a água não entrar: era sinal de chuva. E choveu. Outra vez ele
me mostrou a lua e disse que a mudança da lua somada com o vento sul traria mar
bravo. No outro dia o mar se agitou em ondas de ressaca. Mais de uma vez ele percebeu
tempestades debaixo de calmarias e sol forte:
– Fale para seu pai tirar a lancha da
água. Vai ter temporal daqui a pouco.
Seu
Messias acertava sempre.
Enquanto a temporada das tainhas não
chegava, mestre Benedito saia com a canoa para deitar a rede de espera ou armar
o espinhel.
Meu pai dizia que fartura de tainha, para
os pescadores, significava poupança para o resto do ano.
As tainhas chegavam junto com a corrente
de água fria do sul em julho, mês de férias.
Nesta época a canoa ficava de prontidão na
areia aguardando o aviso. Quatro remos grandes, duas latas para tirar água,
muita corda e a rede cuidadosamente dobrada para ser lançada aos poucos na
velocidade da canoa.
A capela ficava próxima à canoa. Curioso,
entrei algumas vezes. Havia um pequeno altar com uma santa coroada, um ramo de
planta na mão e uma taça na outra. Alguns tocos de velas. Às vezes alguma vela
acessa invocando proteção. Eu ouvia as orações dos irmãos Flávio e Hélio:
“Santa Bárbara, que sois mais forte que as
torres das fortalezas e a violência dos furacões, fazei que os raios não me
atinjam, fazei que os trovões não me assustem, fazei que o troar dos canhões
não me abalem a coragem e a bravura.”
“Santa Bárbara, rogai por nós.”
Seu Maneco, um preto velho manquitolava
por ali com a muleta. Faltava-lhe uma parte da perna. Contava que a perdeu numa
luta com um tubarão. Nunca duvidei. Homem respeitado. Já não podia remar. Era
olheiro. Passava o dia no costão com a mão sobre os olhos para enxergar melhor.
Era o responsável por captar a presença do cardume e avisar a vila. Diziam que
tinha olhos de albatroz. Melhor que qualquer outro, descobria a agitação do mar,
a mancha avermelhada, a esperança da fartura. Além dos olhos, seo Maneco era
bom de sopro. Visualizava o cardume e soprava o berrante. Os sinos chamam os
homens para a fé. O berrante chama os pescadores para a esperança.
Um a um, homens fortes largavam o que
estivessem fazendo e corriam para o barco. Serafim, Benedito, Aristides e Cristino
normalmente eram os primeiros a chegar. Moravam mais perto. Tiravam a lona da
canoa e colocavam os roletes para descer o barco até o mar. Faziam o sinal da
cruz, pediam proteção à Santa Bárbara e remavam determinados contra a
quebração. Na praia ficavam os roletes e uma ponta da corda.
Três pescadores remavam enquanto que o
quarto, na popa, soltava a corda no ritmo dos remadores.
Da praia o seu Maneco orientava o rumo do
barco e pedia para soprarem o berrante mais uma vez. Espertamente começavam a largar
a rede e contornando o cardume. A sorte estava lançada.
A vila ouvira o berrante. Homens, mulheres
e crianças surgiam de todos os lados.
Metade se juntava próxima à ponta da corda deixada pelos canoeiros
enquanto outra metade aguardava a canoa chegar com a outra extremidade da corda.
Depois de duas horas a canoa voltava à
praia e era novamente colocada sobre roletes onde todos ajudavam a levá-la
sobre os roletes até a origem.
O povo começa a puxar as cordas. Um a um,
as pessoas vão ao mar agarram a corda e a arrastam até um ponto longe da beira.
Largam a corda e voltam para pegar noutro ponto dentro d’água. Homens ou mulheres,
ninguém se importa em molhar as roupas na água salgada. Eu e as crianças gostávamos
de mergulhar para pegar a corda mais no fundo. Era mais uma brincadeira.
No movimento contínuo a rede surgia. Sempre
se preocupavam em fazer a chumbada se arrastar na areia do fundo para não
deixar os peixes escaparem por baixo. Era mais desconfortável puxar a corda junto
com a rede, em compensação víamos os peixes se brilhando.
Os pescadores retiravam os peixes da rede
conforme surgiam. Sacodia daqui sacodia de lá e a tainha se desprendia. As
pilhas se formavam. Havia também cações, ventos-leste e, com sorte, linguados.
À criançada cabia fazer a limpeza da rede repleta de sargaços, caramujos e
estrelas.
Naquele dia a rede veio farta. Centenas de
tainhas, talvez mais de um milhar.
Ainda me lembro do mestre Benedito separando
os montes. Uma parcela para o dono da rede, uma parcela para o dono da canoa,
outra parcela para os remadores e o restante para os que ajudaram a puxar a
rede. Todos felizes. Homens com duas ou três tainhas, mulheres com uma ou duas.
Até eu ganhei uma tainha. Foi a primeira vez que ganhei um peixe. Uma tainha.
Saí correndo para casa e pedi para dona
Olga prepará-la.
À noite com a família reunida tivemos
tainha recheada. Papai fez uma oração de agradecimento e permitiu que
começássemos a comer.
Houve breve silêncio para a prova daquela
vistosa e cheirosa carne branca. Com um garfo separei um naco de peixe e
segurei-o entre o indicador e o polegar e levei-o à boca. Fechei os olhos,
mastiguei e me engasguei.
– Dr. Valter, está passando bem? Foi um
espinha?
– Não se preocupe, estou ótimo. Foi uma
pérola.
28 abril 2017
Greve do cão
A nota do jornal dizia “Lambidas
de cachorro podem parecer carinho, mas na verdade são apenas uma forma que os
animais têm de identificar por onde o dono andou, diz a pesquisa
norte-americaana. Como são animais com muita sensibilidade a cheiros e sabores,
os cães fazem a festa, experimentando novas sensações quando seus donos voltam
da rua.”
Cronista
que sou, embaladao pelo clima de hoje, imaginei a cena abaixo:
Todos estavam tensos. Nervosos. Temiam a presença de
espiões entre eles. Ao entrarem no austero prédio foram vasculhados
minunciosamente e sequer uma pulga foi encontrada.
Civilizadamente caminharam sobre o piso de granito de Assuã
– o mesmo das pirâmidas egípcias – admirando as pinturas dos mestres Boticelli
e Donatello do renascimento florentino, para se acomodarem na mesa de jacarandá
doada por Rui Barbosa. Estava reunida em Haia, na Holanda, a cúpula dos cães
farejadores do planeta.
O artigo publicado nos jornais mundo afora encimava a pauta
da reunião extraordinária.
A mesa redonda distribui o poder de forma equilibrada entre
os presentes. O pastor alemão Lutero representa os farejadores de palavrões nos
livros escolares. O labrador golden
retriver Strongnose é o diretor de operaçãoe especias nos aeroportos da
costa oeste dos Estados Unidos. É capaz de identificar a cidade de origem de
qualquer americano pelo cheiro do chiclete. Batalão, é um premiado vira-latas
da Rocinha: localizou um torcedor do América em dia de Maracanã lotado. Talmud
é policial reformado do exército. Se aposentou antes de encontrar a paz no
terrítório israelense. O mastiff Eticus,
nascido em Roma, é especialista em fungar políticos. Em doze anos de serviço foi
capaz de localizar dois honestos.
Com o austrero cenário descrito, alguns personagens
apresentados e o microfone do tradutor simultâneo desligado para evitar
gravações, deu-se início à reunião.
Todos rosnaram simultaneamente.
– É um absurdo o que fazem conosco. Temos que dar um basta
nesta situação abusiva.
– Exigimos o máximo de oito horas de trabalhos diárias.
– Precisamos de descanso semanal.
– Chega de ração. Exigimos comida decente.
– Também temos direito à sobremesa.
– Chega de banhos em quartos de empregada. Reinvindicamos
banheiras com hidromassagem.
Apenas o sindicalista Arnoldo estava quieto no seu lugar.
No momento certo latiu mais alto, silenciou todos. O pitbull conhecido por seu temperamento agressivo e apelido de Exterminador
afirmou que precisavam de uma proposta única. Consequentemente todas as
reinvindicações foram anotadas e por unanimidade foi votada e aprovada que
iriam exigir o direito de lamber e cheirar bifes de filé mignon.
E agora sim, Arnoldo, com sua larga experiência apresentou
a grande arma secreta, o único meio de persuadir os homens a terem boa vontade.
Uma greve.
– Todos, até o cachorro do cafezinho latiram em coro:
Unidos unidos jamais seremos vencidos; unidos unidos jamais seremos vencidos.
Foi deflagrada a greve por
tempo indeterminado. A partir do dia seguinte todos os cães da face da terra
deixariam de abanar o rabo.
18 abril 2017
Quando eu morri
Quando eu morri
Levei três tiros antes mesmo do amanhecer. O primeiro, por trás, na nuca,
base do pescoço.
Uma rosa de sangue sujou meu colarinho. Procurei olhar no espelho, mas não
enxerguei nada. Eu me sentia bem, anotei o endereço peguei o carro e fui para a
casa. Desconhecidos me vestiram um pijama e pediram que eu fosse para a
varanda. Mandaram que eu me deitasse no chão. Levei os outros dois tiros. Foram
nas costas. Entre as costelas, na altura dos pulmões.
O sangue do pescoço já estava escuro e um enorme e pavoroso hematoma
assinalava a violência sofrida. Agora o sangue saía também por dois buracos do
meu pijama. O líquido, que imaginei ser quente, escorria gelado pelas costas
manchando o piso empoeirado.
A varanda era enorme, talvez uns trezentos metros quadrados. Churrasqueira,
bar. Os banheiros masculino e feminino
serviam também de apoio para a piscina e para a sauna. A varanda era o cenário
perfeito para grandes festas com políticos, jogadores de futebol, modelos e colunistas
sociais disputarem espaços e champanhes. Deduzi que a mesa espelhada fosse o
suporte para fileiras do pó da alegria. Ao lado da varanda havia um enorme
jardim assinado por um paisagista renomado. Observei que, apesar do sol já
estar no alto, as luzes do gramado permaneciam acesas.
É muito desconfortável morrer num chão duro e sob um sol escaldante.
A ambulância estacionou no meio do jardim. O carro da perícia também parou
no gramado da casa desenhando trilhas de pneus na grama japonesa. As luzes
estroboscópicas em cima da viatura anunciavam o fim da festa. Em vez de DJ, o
rádio berrava palavrões do delegado.
Os policiais e os paramédicos não deram a mínima importância. Ninguém
veio verificar meu pulso.
Minha mulher também levou três tiros e agora, ao invés da cama, dividia o
mesmo granito quente e empoeirado. Estava a um metro e meio de mim. O rosto
inchado pela bala estampada na têmpora direita a deixava pavorosamente irreconhecível.
Os olhos azuis contrastavam com o violeta da pele. Os cabelos loiros e cheirosos
estavam empapados de sangue endurecido. Mesmo estirada, ela continuava sensual
naquela camisola de seda branca maculada de púrpura brutal. Parecia lançar moda
de horror.
O nosso filho estava junto de nós, eterno egoísta, tinha sua própria poça
de sangue, resultado de três tiros no peito e um na testa. Nossa família,
sempre unida, estava agora, sujando um pequeno espaço do piso da varanda.
Ficar naquela posição defunta era muito desconfortável.
Perguntei para minha esposa se ela estava pronta para ser colocada no
saco preto e ser lacrada com um zíper. Como sempre, não respondeu.
Minha posição, deitado de lado, não permitia um bom ângulo de visão. Além
disso, não sabia onde foram parar meus óculos. No máximo, via os sapatos
daqueles que nos rodeavam. Muitos sapatos diferentes.
O sol de meio-dia esturricava nossa pele. O suor se misturou ao sangue. Estávamos
sem protetor solar.
Um moço de tênis cotelê verde providenciou três guarda-sóis. O alívio foi
imediato. Desejei que aquele moço fosse um eunuco e então providenciasse
ventinho com um enorme abano de plumas.
Apareceu uma sandália havaiana. A dona se abaixou e perguntou se eu
queria uma água de coco.
Respondi, irônico, que naquela posição só poderia tomar água de coco se
me arrumasse um canudinho. A sandália não voltou mais.
Dizem que o sangue é doce. E eu acreditei. As formigas começaram a fazer
fila indiana nas minhas costas.
Um par de sapatos pretos com solado grosso se aproximou e começou a me
fotografar. Os flashes pipocavam e minhas pupilas acusavam o incômodo.
— Puxa, quando será vão me deixar em paz? – resmunguei baixinho.
Atrás de mim ouvi um diálogo:
— São só esses três?
— Não. Tem mais um ali, na ambulância.
Eu reconheci aquelas vozes: Selton Mello e Carlos Alberto Riccelli.
Então a morte é lírica com canto de passarinhos e vozes de atores
globais. Concluo que morrer pode ser interessante.
O par de sapatos pretos com solado grosso retornou e voltou a pipocar
flashes. As vozes de Selton e Riccelli repetiram o mesmo diálogo mais umas três
vezes.
— São só esses três?
— Não. Tem mais um ali, na ambulância.
Morrer pode ser interessante, mas muito repetitivo.
Agora apareceu um sapato marrom. O dono do sapato se abaixou e com uma
fita crepe marcou no chão a minha posição. Quando os contornos estavam
assinalados ordenou:
— Preste bem atenção para retomar sua posição depois. Agora os atores vão
descansar e depois retomaremos a filmagem no mesmo ponto. E cuidado para não
melar a casa com a gelatina vermelha.
● Resultado da minúscula participação
no filme “O Federal”
● Premiado no concurso de contos de São João da Boa
Vista - 2009
04 abril 2017
Indigestão
Chamam-me
verme.
Tenho
orgulho em ser verme. Ofendido ficaria se me chamassem homem.
Sou
feliz. O destino colocou-me num sebo, no paraíso. Farto-me com livros antigos.
A minha dieta são livros saudáveis, produzidas com celulose importada. Evito os
atuais que têm gosto de petróleo plastificado.
Nessa
semana mudei de prateleira. Delicio-me com O
Cruzeiro, revista semanal ilustrada. Comecei roendo uma moça de batom
vermelho e cabelos encaracolados na altura dos ombros. Fiz um furinho no quepe
da enfermeira. A capa da revista era macia como a cútis da moça.
Em
seguida encontrei o cardápio que percorri na diagonal. Apenas o número da
página e o nome do prato ou matéria, como os homens dizem, eram insuficientes. Resolvi
mordiscar diversas páginas como se fosse rodízio de antepasto.
Desprezei
a página que informava que em 1942 os submarinos alemães torpedearam 24 navios
mercantes na costa brasileira e que 767 homens morreram.
Poupei
o bebê ensaboado com Eucalol.
Adiante
uma imagem de um homem me chocou. Deveria estar triste por causa da guerra.
Mas, não. A legenda dizia que era o desalento pelo estado de inércia
carnavalesca. Nos anos anteriores os pré-festejos se alastravam desde o centro
até à orla. por causa da guerra, deram lugar ao desânimo carnavalesco.
Eu
queria provocar o paladar. Não apenas uma escolha bonita. Por isso não dei bola
para o sabor fútil do desfile de modas no Copacabana Palace.
Sei
que a gente não deve falar de boca cheia. Fiz pior. Chorei com um desenho num
cenário de exposição. Uma senhora segura um vaso e comenta que fora feito há 75
anos. Ao lado, metido num summer
branco, o Amigo da Onça pergunta se foi ela que fez.
Depois
roí as cordas do violão do Tonico ou do Tinoco. Não me lembro! Recordo que a
dupla de sucesso era formada pelo fotógrafo Jean Mazon e pelo jornalista David
Nasser. Na imagem em preto e branco, um homem de bigodinho fino, camisa listrada
dentro das calças folgadas e de chapéu de palha, segurava um instrumento
próximo de uma fogueira. A legenda completava: “Nesta cena, os tamborins de
pele de gato sendo retesados. Os gatos do morro do Rio de Janeiro viviam
alarmados com a incessante busca.”
Evitei
mastigar a página venenosa com um homem empunhando uma bombinha Flit assassinando
baratas e mosquitos.
A
minha sobremesa foram as frutas do chapéu da Carmem Miranda. Eu preferiria que
as frutas estivessem com as cores vibrantes, tropicais, exuberantes. As frutas
estavam um pouco amareladas, como o sorriso da atriz por causa do contrato com
o estúdio que a forçava a aparecer em eventos com seus figurinos extravagantes.
Depois de tudo preciso de um licor, um
digestivo.
21 março 2017
Antologia
Sentado num barzinho, fui fulminado com uma pergunta.
— Ó, Klotz, o que é antologia ?
Mundo, mundo , vasto mundo , se
eu me
chamasse Raimundo não faria essa pergunta . Se eu fosse
o Raimundo que amava Maria que amava Joaquim, eu
também não
saberia a resposta . O meu nome é Klotz,
não tenho outro
de pia .
Se eu estivesse na repartição seria normal
esse tipo de pergunta .
Estou longe de qualquer
dicionário, porque hoje
é sábado . Essa Rosa
radioativa estúpida
e inválida não
deveria ter feito
esse questionamento.
Perdido, sem lenço
e sem documento ,
nada no bolso
ou nas mãos ,
procuro uma resposta . Desejei me esconder , desejei ir para Minas. Minas não há mais. Quis morrer
no mar , mas
o mar secou. Vou-me embora
pra Pasárgada, lá sou amigo do rei .
Volto para a minha
terra que tem
palmeiras onde
canta o sabiá ,
que tem cadeiras
onde posso sentar e procurar
um desmancha-dúvidas.
Meu reino por
um dicionário !
Queixo-me da Rosa , mas a Rosa não fala , simplesmente perguntou o que é antologia.
“Coleção ou seleção de trechos em prosa e/ou em verso .”
— Obrigado, Aurélio!
Aurélio, garoto esperto , informa também
que intertextualidade é a superposição
de um texto
a outro .
— Mais uma vez ,
obrigado, Aurélio!
Publicado em “Cara de crachá”
Pesquisa
para o texto Antologia
“Mundo, mundo, vasto
mundo . Se eu
me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução .”
— O gauche — Carlos
Drummond de Andrade
“João que
amava Tereza, que amava Raimundo, que amava Maria, que
amava Joaquim, que amava Lili.” — Quadrilha —
Carlos Drummond de Andrade
“O meu
nome é Severino. Não
tenho outro de pia .”
— Morte e vida severina — João Cabral de Melo Neto
“Porque
hoje é sábado .”
— O dia da criação — Vinícius de
Moraes
“A rosa
hereditária . A rosa
radioativa estúpida
e inválida .” — A rosa de Hiroshima — Vinícius de Moraes
“Sem lenço e sem documento , nada
no bolso ou
nas mãos .” — Alegria , alegria
— Caetano Veloso
“Quer morrer no mar , mas o mar secou; quer ir
para Minas , Minas não há
mais.” — E agora, José? — Carlos
Drummond de Andrade
“Vou-me embora
pra Pasárgada, lá sou amigo do rei .” —
Vou-me embora pra Pasárgada — Manuel Bandeira
“Minha
terra tem palmeiras ,
onde canta
o sabiá , as aves
que aqui
gorjeiam, não gorjeiam como lá .” — Canção do exílio — Gonçalves Dias
“Meu reino por um cavalo !” —
exclamou Ricardo III na Guerra das Duas Rosas , conforme
William Shakespeare
“Deus ,
ó Deus , onde
estás que não
respondes?” — Vozes d'África — Castro Alves
“Queixo-me às rosas, mas
que bobagem, as rosas
não falam, simplesmente
as rosas exalam o perfume
que roubam de ti, ai.” — As rosas não falam — Cartola
"Para todas
as coisas : dicionário. Para que fiquem prontas: paciência ."
— Diariamente — Nando Reis
“No meio
do caminho tinha
uma pedra , tinha
uma pedra no meio
do caminho .” — No meio do caminho — Carlos Drummond de Andrade
“Toda pedra no caminho
você pode retirar .” — É preciso
saber viver — Roberto
Carlos e Erasmo Carlos
“De repente ,
não mais
que de repente, fez-se de triste o que se
fez amante.” — Soneto da separação — Vinícius de Moraes
“Se você rouba de um autor , é plágio , se de vários ,
é pesquisa .” — Wilson Mizner
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