Chego aos boxes, olho no monitor e vejo o acidente. Fixo as imagens, tiro o capacete e a balaclava, balanço a cabeça e me afasto. Terrível. O choque foi terrível. Acho que morreu.
O monitor dos boxes repete a cena em que o Fórmula 1 do austríaco Roland Ratzenberger se choca violentamente contra o guard-rail na pista de Ímola. Ayrton Senna se dirige a um carro da direção da prova enquanto médicos e para-médicos fazem a massagem cardíaca no acidentado.
Ontem foi o Rubens, gente boa. Ele me disse que estava ok.. Mas como pode estar bem? Todo esfolado, com a cara enfaixada e o nariz quebrado? Idiotas, queriam me barrar. É um absurdo ter que pular muros para ver um amigo no hospital. Será que querem tapar o sol com a peneira? Será que pensam que somos idiotas? O que eles querem? Querem enfiar feridos debaixo dos tapetes? E o Rolly, meu Deus, foi gravíssimo!
Senna rapidamente chega até o local do acidente, vê os restos mortais do carro sendo içado pelo guincho. Abre caminho entre jornalistas, bombeiros, fiscais de pista e em segundos o médico informa que não há esperanças. Sem dizer palavra, retorna ao carro que aguarda com as luzes do teto faiscando emergência. No paddock troca palavras ásperas com dirigentes da Federação Internacional de Automobilismo, se isola chorando atrás dos boxes e finalmente entra no motor home.
Tranco a porta. Malditos fotógrafos, me deixem em paz! Vocês só querem manchetes, agora eu não sou manchete. A primeira página está lá no asfalto, rodeado de destroços, pesadelos e aves de rapina. Xô, urubu, xô urubu! Morreu. O Rolly morreu. É isso que vocês querem, vocês querem vender jornal com as nossas vísceras! A tevê vai matar 200 vezes. Vai matar rápido, vai matar lento. Vai matar à distância, vai matar
Fecho os olhos, levanto a cabeça
Ave Maria,
cheia de graça,
o Senhor é convosco.
Bendita sois vós entre as mulheres
e bendito é o fruto do vosso ventre: Jesus.
Santa Maria, Mãe de Deus,
rogai por nós, pecadores,
agora e na hora da nossa morte.
Amém.
Julgam que tenho talento, talento tem o Michael... vocês não sabem, vocês não vêm minha dedicação, esforço, renúncia, treinos, concentração, repetição até a exaustão. Vocês não sabem das minhas preces, orações e agradecimentos. Vocês querem corrida? Vocês querem ver a platéia delirando? Vocês querem dinheiro? Vocês querem show? Eu, com ajuda de Deus, darei o que vocês querem. O campeonato, para mim, começa agora. Fiz a pole, farei a melhor volta e levarei os dez pontos. Não me entrego, estou de pé! Vocês vão sorrir de novo. A temporada de caça começou! Vou alcançar o coelho. Vou jantar o coelho. Depois da quadriculada, a brasileira vai tremular. Brasileira? Ah, Rolly, vou levar uma da Áustria, por você Rolly, por você!
Como de hábito, fecho os olhos, levanto a cabeça
Pai Nosso que estais no céu,
santificado seja o vosso nome,
vem a nós o Vosso reino,
seja feita a Vossa vontade
assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje,
perdoai-nos as nossas ofensas,
assim como nós perdoamos
a quem nos têm ofendido,
não nos deixei cair em tentação
mas livrai-nos do mal.
Amém.
A bandeira, por você Rolly e por mim. Já houve acidentes antes. Sempre haverá acidentes. Mesmo depois de batidas alguém vence. Sempre há um vencedor. Ninguém me segura na chuva, vou vencer tempestades. Se eu quiser vencer, e eu quero vencer, tenho que reunir todas as minhas forças, todos os meus limites. Vou...
Batem na porta.
— The interview! They're here!
Fuck! — I'm coming! Respondo seco.
De que me adianta chorar? Amanhã devo sentar no meu esquife e pilotar! Melhor lavar a cara com água fria e enfrentar logo a realidade.
Espalho água no rosto. Ensopo meus cabelos. Quando jogo a cabeça para o
alto — prendeu na torneira — Merda! Que merda... arrebentei o cordão.
Desolado. Recolheu a corrente e a medalha na mão.
Fecho os olhos, levanto a cabeça em desespero — Deus, não me abandone! Por favor Deus, não me abandone, eu Vos imploro!
Consertou a corrente e atendeu os jornalistas.





























