No gramado, debaixo do meu prédio, vi uma menina jogar bola, futebol. Isso já não me espanta mais. As mulheres já estão ocupando todos os espaços que eram de exclusividade masculina. Eu nunca dediquei meu tempo para observar a habilidade das mulheres no trato com a bola. Mas aquela garota merecia um olhar de admiração pela beleza e suavidade. Já a conhecia de alguns encontros dentro do elevador. Sou do tempo em que futebol era jogo de homem. Jogo duro, muito corpo a corpo. Muita brutalidade. A bola de couro era mais pesada que hoje. Para cabecear bola molhada tinha que ser macho. Coisa comum eram as brigas em campo. As mocinhas somente iam ver alguma partida ou pelada quando havia algum namorado que estivesse jogando. Nenhum interesse no jogo. Esporte absolutamente masculino. Os adolescentes estão misturados, meninos e meninas estão jogando juntos! A primeira coisa que me chamou a atenção foi que, da mesma forma como os garotos, ela usava um calção grande e deselegante. Naquela brincadeira de fazer gol por entre as árvores, observei que ela chutava com os dois pés e igualmente bem. Qualidade rara até entre garotos bons de bola. Quando algum garoto chutava a bola longe do gol e a bola rolava indo parar debaixo do carro estacionado, nenhum dos rapazes se prontificava, num gesto cavalheiro, a buscar a bola. Mudança de tempos. Fiquei boquiaberto quando em determinado momento ela pegou a bola e começou a fazer embaixadas. Eu não contei, foram mais de cinqüenta. Bola no pé, no joelho, de calcanhar, de cabeça, matada no peito. Essa menina leva jeito! Sabe tudo. A brincadeira continuava e a vi dividindo a bola como homem. E para meu espanto, xingando como homem. É, essas mulheres definitivamente estão tomando nosso lugar, até no futebol. Pensei que já tivesse visto tudo, mas não, ela cuspiu – raichput – como um bom moleque cospe. Agora só falta as mulheres aprenderem a coçar o saco como nós.
Sou robusto quando comparado aos meus colegas de trabalho. Não costumo tomar iniciativa, mas quando me dão pilha vibro com o meu ofício. Passo os dias trancado no escuro da segunda gaveta do criado-mudo. É um lugar privilegiado para escutar o que acontece na cama ao lado. Apesar da minha origem chinesa, ouço e entendo tudo. Às vezes falo, como agora. — O casal gay até que se entende bem para um casamento de interesses. Ele é um industriário bem sucedido e acredita que perderia o respeito se a diretoria soubesse das suas preferências sexuais. Enquanto isso, ela é descompromissada com as aparências. Tanto que, naquele dia fatídico, para atender a uma fantasia sexual da vizinha, a encontraria no banco vestindo uma ridícula roupa de faxineira. Sorte a minha fazer parte do ménage à trois. Eu estava escondido na sacola de compras. Respiro fundo para continuar a história. — Aquilo foi muito constrangedor. A porta giratória travou e ela teve que mostrar o que trazia na sacola. Ao contrário das outras vezes, senti a mão insegura me levantando. Ela explicou que eu era um simples massageador. Nunca fui tão humilhado! Quando estamos em momentos íntimos ela me alisa, acaricia, beija com prazer. A própria vizinha, também tão carinhosa, percebendo a falta de consideração comigo, se escondeu atrás do pilar. E o marido, aquele abobalhado, viu tudo e não me defendeu. Logo ele que me idolatra e me chama de deus grego.
Apolo era o deus da beleza, da perfeição, da harmonia do equilíbro e da razão. Apólogo é uma narrativa em que figuram seres inanimados, dotados de palavra.
Faltavam cinco minutos para a agência bancária fechar as portas quando a mulher curvilínea ficou presa na porta giratória. Estava visivelmente constrangida. Apesar do par de brincos de pérolas, da calça elegante e do nariz empinado, vestia uma blusa puída e um par de chinelos de dedo. O ridículo pano amarrado na cabeça sugeria que estivesse no meio da faxina quando lembrou de pagar o aluguel na última hora do último dia. Vestiu a primeira calça à vista e catou a cesta para uma compra depois de resolver o pagamento. Independentemente dos sentimentos da mulher, o guarda solicitou em voz alta que a mulher mostrasse o conteúdo da sacola. Com um olhar implorou discrição. Não foi atendida. Desejou ficar invisível. Instada a mostrar o conteúdo da sacola levantou timidamente um vibrador. O vigia, muito alienado, perguntou a serventia do objeto. Uma vizinha, testemunha do fato, um tanto constrangida, esconde-se atrás de um pilar. O guarda não conseguia entender os gestos da mulher nem ouvi-la. A mulher, ainda presa na porta giratória, com o pênis elétrico na mão, teve que gritar explicações enquanto o marido saia pela outra porta giratória fingindo desconhecimento.
Antonio Carlos era sargento do exército, especialista em desarme de artefatos, bombas e explosivos. Ganhava um dinheiro extra como vigilante armado em agência bancária. Nos últimos meses estava excepcionalmente tenso devido aos três atentados à bomba em assaltos a bancos. Aquela terça-feira era dia de pagamento. A agência estava abarrotada de clientes. Qualquer uma daquelas pessoas podia ser um assaltante. Todos eram suspeitos. Em movimentos rápidos, os olhos controlavam todas as bolsas, mochilas e pastas executivas. A mão direita segurava o coldre do revólver desengatilhado. Um capacete de motoqueiro abandonado ao lado da garrafa térmica era mais um motivo de preocupação. Ouviu um clique. Virou-se assustado para a porta de entrada e viu uma mulher mal vestida, presa na porta giratória. O detector de metais travou a mulher. A sacola na mão era duvidosa. A grife estampada não era condizente com as roupas faxineiras. Apontou a arma para a porta, recuou dois passos para se posicionar estrategicamente. Gritou para todos se deitarem no chão. Acionou o alarme estridente. Esticou o braço horizontalmente mirando a testa da mulher apavorada. A mulher levantou os dois braços e começou a chorar e soluçar em pânico. Com a arma gesticulava pedindo para ver o conteúdo da sacola. Ela soluçava em desespero, mas negava. Uma cliente curiosa reconheceu a mulher como sendo sua vizinha. Com medo, se arrastou para trás de um pilar. O militar insistiu para que a mulher mostrasse o que trazia na sacola. Com voz firme avisou que iria atirar quando a contagem chegasse ao três. – Um! Uma velha deitada em frente do balcão dos caixas começou a orar. – Dois! A mulher, num movimento lento se agachou e enfiou a mão dentro da sacola. O sargento voltou a esticar o braço com a arma. A mulher, tremendo, levantou um vibrador ligado. O tiro acertou o alto da porta. Entre gritos e cacos de vidro surgiu o marido da mulher. Tomou-lhe o pênis elétrico da mão arremessando-o ao chão detonando outra guerra.
Eu estava lá, Praça Ramos de Azevedo, uma terça-feira, perto do final da tarde. Vi quando Maca chegou. Sentou-se tranquila e despreocupada na murada do chafariz. Mergulhou a mão esquerda na água dando as costas para um garoto que se aproximava empunhando um estilete. Vi tudo, mas estava longe. Ela virou-se lentamente enquanto o moleque gesticulava agitado. Maca acalmou o menino que se acomodou ao lado dela. Ela afagou a cabeça do pivete e, fazendo pente da mão, ajeitou-lhe os cabelos depois dividiu um pedaço de pão. Não fui para encontrar Macabéa, ela simplesmente chamou a minha atenção pela postura ereta. Parecia que a moça do casaquinho preto aconchegava Deus. Enquanto isso, um cantor famoso e lindo, desconhecido para ela. Dedilhava um violão. Quando terminou a exibição ofereceu cem reais a quem acertasse a música até a sétima nota tocada. Uma jovem sem dentes, uma barriguda de nove meses, um pretinho chapado, um office boy de gravata. Muitas tentativas frustradas. Quando o cantor desistiu Macabéa começou a cantar. A multidão parou. Os ônibus silenciaram. Até a fumaça se abriu para as notas da moça. Com o dinheiro na mão, procurou o garoto. O menino sumiu. Maca chorou. Eu também.
Faltam três dias para o casamento. O neon vermelho pisca frenesi do lado de fora. Do lado de dentro, no quarto, penumbra, música suave e lençóis amassados. Dois corpos suados conversam sobre o futuro. Com os olhos brilhantes, Ana Maria encara Cassiano. – Eu te amarei por toda a minha vida. Serei fiel até a hora da minha morte. Cassiano, sorrindo feliz, beija delicadamente os lábios de Ana Maria. Ela puxa a mão do amado para o seio entumecido. – Quero estar na sua vida e nos seus sonhos. Ele se aconchega mais um pouquinho, apertando a mão. Ela descobre parte do coprpo. – Você poderá me amar todos os dias que você quiser. Se conheceram há seis anos. Se desentenderam e voltaram dezenas de vezes. Ela gosta de cachoeiras. Ele prefere jogar xadrez. Na cama são insaciáveis. Mais que o perfume, as palavras atiçam Cassiano. Ana Maria cochicha no ouvido, encostando a língua provocativa. – Sempre estarei pronta e desejosa. Gestos assossiados a palavras excitam Cassiano. A língua desceu até os lábios. – Sempre serei sua. A volúpia chegou. As frases calaram. Vieram sussuros. Aconteceram gemidos. E finalmente o silêncio com um abraço apertado. Dormiram algumas horas. O sol ofuscou o neon vermelho. Já no carro, Cassiano perguntou para onde ela queria ir. Para o trabalho ou para a casa do noivo.
Trabalhamos na mesma repartição há pelo menos três anos. Cumprimentamos-nos no elevador. Às vezes trocamos frases maiores que “bom-dia” ou “até amanhã”. Algumas vezes, conversamos sobre o tempo ao buscar um cafezinho na copa. O dela sem açúcar. Engorda. O meu com muita fé. Crença de que não engorda. Aprendi o nome dela em uma das várias reuniões mensais. Eu gostaria imensamente de descrevê-la em detalhes. É impossível. Poste não tem detalhes. Às vezes, alguns cartazes colados: Faço tudo – eletricista, bombeiro e pedreiro. Resultado do jogo do bicho. Ou, conheça seu futuro nos búzios da Mãe Laura. Como os cartazes nos postes, os acessórios, na roupa feminina, são fundamentais. Não tenho a menor idéia do que se passa no alto da cabeça da Mônica. Se cabos de telefone ou muita energia. Tampouco reparei se no alto há transformador ou uma lâmpada luminosa. Não vi se os cabos estão organizados, ou encaracolados. Todas as mulheres no meu trabalho são postes. Faço questão de enxergá-las assim. A minha solteirice está convencida que se empregar com amigas do trabalho resulta em demissão por justa causa. Da mesma forma que se envolver com amigas da ex-mulher significa entrar no inferno pela porta da frente. A minha longa experiência de vida sugere que as colegas de trabalho podem ser de concreto, madeira ou metal. Jamais de carne e osso. Filé mignon, nem no melhor dos devaneios. Tenho um amigo boêmio que tem a mesma teoria que eu. Outro dia fomos a um boteco e tomamos uísque para mais de meio metro. Na saída, trôpego, o amigo esqueceu todos os preceitos para fazer juras de amor a um poste público. Para contar a minha história achei muito importante descrever detalhadamente quem era a personagem e qual o interesse que ela representava para mim até que, sempre existe um até que. No final do ano, como em todas as repartições houve uma festa de confraternização. Sentamos um do lado do outro. Ela separada e eu divorciado. Tudo a favor para resultar em diálogos sedutores. Descobrimos que tínhamos as mesmas afinidades que pode ter um elefante com uma agulha. Ela contou-me que tiraria o recesso viajando com todos os parentes. Eu disse que ficaria na cidade, seria o responsável pela seção. Os olhos dela brilharam. — Jura que vai ficar em Brasília? Enchi o peito e respondi que sou muito responsável. Falei, e no exato momento em que terminei a frase, percebi que eu havia falado demais. — Que bom, encontrei alguém para regar as minhas plantinhas. Antes de me refazer do susto, ela se levantou dizendo que ligaria para mim, combinando os detalhes da minha responsabilidade. Dois dias depois, recebo um telefonema em que ela me informou que saiu correndo de casa, já estava no aeroporto e que a chave do apê estava sob o capacho. Eu deveria regar as plantinhas ainda hoje. Foi muito constrangedor virar a chave. Para quem eu pediria licença antes de entrar? Penetrei no apartamento. Em vez de violar, eu estava sendo violado. Constrangido, tive olhos apenas para procurar plantas e vasos. Encontrei um papel sobre a mesa da sala com as instruções detalhadas para cada espécime a cada dois dias. Finalizava com agradecimentos e um endereço eletrônico. Fui até a cozinha peguei uma panela e enchi de água. Segui todas as instruções detalhadamente, inclusive bombando o spray sobre elas. Confesso que tomei liberdade não concedida: verifiquei se a torneirinha do gás estava fechada. Maldito juízo. Por causa de uma planta não relacionada enviei um e-mail perguntando se a planta entre a mesa da sala de jantar e a cozinha — aquela que parece um capim comprido verde escuro sobre umas pedras brancas — deveria e ser regada. Ela respondeu-me que a planta que mencionada é fake... kkkkkk...é de plástico. Amore, mude as lentes dos óculos. Quem gosta de verde é quadrúpede ruminante. Prefiro e convivo com dois quadrúpedes latidores. Só voltei a enviar outro e-mail após a segunda rega. “Estive em sua casa. Ao contrário da outra vez, hoje suas plantinhas nem latiram muito quando cheguei. A violeta chegou a abanar a folhinha. E a orquídea pulou no meu colo. Muito bacana. Já se afeiçoaram a mim. Aquela do pescoço comprido, perto da violeta, está muito saudosa. Chorou perguntando por você. Dei um biscoito e ela se acalmou. Before que eu esqueça, aquela planta que você chamou de fake ficou ofendidíssima. Disse que fake é a sua mãe. E até me mostrou a carteira de identidade e o CPF.” Na minha quarta missão regadeira, eu continuava tão constrangido de entrar no apartamento alheio como se fosse a primeira vez. Aliás, na minha primeira ida ao apartamento fiquei bem impressionado com uma planta que parecia árvore de natal, de tantas frutinhas vermelhas. Agora estava triste, cabisbaixa e com a pele amarelada. Deve ter sido a inveja de alguma das outras coleguinhas. Lançaram um olhar de seca pimenteira. Acabei por enviar outro e-mail informando que a de brinquinhos vermelhos estava moribunda enquanto outra verde clara insistia em escalar as minhas pernas. Ela respondeu que a pimenteira já estava batendo as botas quando saiu. Logo a substituiria por outra. Disse estranhar o comportamento da planta assanhada, uma vez que não havia nenhuma trepadeira no apartamento. Informou que já estava fechando as malas para retornar. O dia seguinte amanheceu ventoso ameaçando tempestades. Voltei para a missão derradeira com o objetivo de verificar se havia alguma a janela aberta. Não passou pela minha cabeça entra no dormitório. Autorizei-me a entrar no escritório. Mãos às costas, avancei sorrateiro como se estivesse abrindo correspondência alheia. Sem olhar para os lados fui direto à janela. Estava fechada. Quando me virei, meu coração acelerou subitamente ao reparar a enorme estante de livros. Um tesouro. A minha curiosidade se manifestou e desandei a ler lombadas e avançando na intimidade e conhecendo o perfil psicológico de um poste através de suas preferências literárias. Jorge Amado, Guimarães Rosa, Maquiavel, Lacan, Sarte, João Ubaldo, Carlos Eduardo Novaes, Carlos Eduardo Novaes, Carlos Eduardo Novaes, êpa! Uma coleção inteira do Novaes! Meu cronista predileto! Nunca vi algo parecido. Na adolescência comprava o jornal só por causa das crônicas. Senti ímpetos de tocá-los, de pegá-los, de levá-los. Eu queria os livros para mim. Eu precisava possuí-los. Mônica sempre fora um poste. Agora a percebo como um semáforo que acendeu a luz verde. Quer casar comigo?
Charles Darwin não se importava em usar meias furadas. Marlyn Monroe comprovadamente, enquanto filmava nua na piscina, soltou um pum. Antoine de Saint-Exupéry respirava sem a ajuda de aparelhos. Salvador Dali esporadicamente, após as refeições, palitava os dentes. Vinícius de Moraes cortava as unhas semanalmente. Cecília Meireles fechava os olhos enquanto beijava. Alberto Santos Dumont se molhava todo na hora do banho. Léon Tolstói foi alfabetizado em russo. Joe Nobody é josé ninguém. Antonio Banderas olha o relógio quando quer saber as horas. Jesus Cristo nunca andou de bicicleta. Nelson Rockfeller, apesar de bilionário, jamais comprou uma tevê de 40 polegadas. Derci Gonçalves, pouco antes de morrer, confidenciou que, para escovar os dentes, usava uma pasta dental de cor branca. Roberto Carlos quando desabotoa as camisas azuis usa as duas mãos. Gisele Bündchen geme quando se depila com cera quente. e que Rui Barbosa, quando escrevia, só quando escrevia, abusava da letra A.
Crônica é tudo o que o autor chamar de crônica. – Fernando Sabino
A crônica é o relato de um flash.
Ser cronista é viver em voz alta. – Manuel Bandeira
Crônica é a literatura de bermuda. – Joaquim Ferreira dos Santos
A crônica é um vício. Quando gostamos do modo de escrever de algum cronista, assumimos uma parceria com ele. – José Maria
Quando não é aguda, é crônica. – Rubem Braga.
A crônica é uma narração do tempo, do cotidiano versando sobre acontecimentos reais, fatos ou idéias de teor artístico, político, esportivo etc ou relativos à vida quotidiana. Apesar de ser divulgado em jornal costuma ter valor literário. Enquanto o jornalismo tem no fato seu objetivo, seu fim, para a crônica o fato só vale, nas vezes em que ela o utiliza, como meio ou pretexto, de que o artista retira o máximo partido, com as virtuosidades de seu estilo, de seu espírito, de sua graça, de suas faculdades inventivas. A crônica é na essência uma forma de arte, arte da palavra, a que se liga forte dose de lirismo. É um gênero altamente pessoal, uma reação individual, íntima, ante ao espetáculo da vida, as coisas, os seres. O cronista é solitário com ânsia de comunicar-se. Nada mais literário do que a crônica, que não pretende informar, ensinar, orientar. Apesar da publicação nos periódicos, não é indissoluvelmente ligada ao jornal, e o prazer da sua leitura decorre mesmo em livro, construindo ‘uma vida além notícia’.
O conto é breve narrativa, devendo contar unidade dramática, concentrando-se a ação num único ponto de interesse. O conto deve ter um só conflito, uma só ação. Deve ser narrado em terceira pessoa e ter epílogo surpreendente, boa trama linear. O diálogo é imprescindível no conto. E deve ter objetividade de ação, de lugar e de tempo.
Crônica – características • Narrativa curta – os cronistas normalmente têm um espaço fixo numa coluna de jornal. Nem mais, nem menos. • É um relato do cotidiano. • Narrado em primeira pessoa. • Opinião e interferência do autor sobre a observação. (o jornalista não deve opinar) • Não contém diálogos (LFVerissimo adora cronicar usando diálogos) • Normalmente com bom humor – o autor procura cativar o leitor para outras leituras. • É a narrativa a partir de um flash. Um artigo no jornal, uma conversa, um fato, uma particularidade. • Identificação com o leitor. O cronista, no fundo, deseja que seu leitor seja um co-autor. • Dizem que a grande inspiração do cronista é o prazo do editor. • A crônica abre uma discussão, uma polêmica, um questionamento. • Normalmente o suporte é o jornal. • Finais surpreendentes.
Conto – características • Narrativa curta. Menor que a novela e muito menor que o romance. • Narrada em terceira pessoa. • Um só conflito. • Contém diálogos • Tem final surpreendente ou moral. Diferentemente de um artigo jornalístico, por exemplo. • O conto fecha uma questão, uma história, uma polêmica, um questionamento. • Quase sempre nos livros.
Não há regras fixas – estas são apenas diretrizes para ajudar a diferenciar os tipos de prosa.
Primeira crônica brasileira – A carta de Pero Vaz de Caminha. Opinou: em se plantando tudo dá. (ele não plantou para saber), As índias expunham suas vergonhas (isso é opinião), ainda pediu emprego para o sobrinho. Rubem Braga. entra para a história literária exclusivamente como cronista. A coluna do jornal é um complemento salarial cobiçado. Livros não rendem dinheiro aos autores. Por isso quase todos os grandes escritores foram ou são também cronistas.
Cronistas: Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Rezende, Machado de Assis, Clarice Lispector, João do Rio, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Danuza Leão, Caio Fernando de Abreu, Conceição Freitas, Rubem Braga, Carlos Eduardo Novaes, Artur da Távola, entre outros.
Ajeito-me na cadeira. Puxo o teclado para mais perto. O monitor exibe uma tela com o Maracanã lotado de bandeiras tricolores. Sobre o estádio estão vários ícones, não do futebol, mas dos meus programas de maior uso. O meu predileto, a minha ferramenta mais freqüente, fica no canto inferior direito com o singelo nome de Paz. Ninguém da face da terra vai imaginar que sob aquele ícone travam-se as mais ferrenhas batalhas entre o computador e eu. Basta clicar e a máquina me desafia para mais uma disputa de pesos desproporcionais. Sete montinhos de cartas se perfilam para outra contenda de paciência. Era exatamente isso, deitando um cinco de paus sobre um seis de copas, que eu estava fazendo, no meio da tarde, quando atendo ao telefone. — Repartição, boa tarde. — É você von Silva? — À sua disposição... — Você se lembra de mim? Ser interrompido numa empolgante partida de paciência é ruim. Mais grave é quando uma pergunta constrangedora interrompe nosso raciocínio exigindo concentração e reflexos rápidos alternando instantaneamente para jogo de adivinhação. — Você me pegou de surpresa! Você cortou o cabelo não foi? Mas lembro muito bem da sua voz. — Respondi oferecendo uma oportunidade à interlocutora de revelar seu nome. Ao invés de desvendar o mistério, ela opta por oferecer uma pista. — Não está me reconhecendo, von Silva? Nós nos falamos há menos de um mês. Essa mulher quer complicar a minha vida! Preciso fazer com que ela fale um pouco mais. — É que o meu aparelho está chiando muito, e não consigo ver você direito! — Brinco procurando ganhar tempo. — Puxa, von Silva, imaginei que eu fosse uma pessoa mais importante para você. Nesse momento me senti acuado. A fala foi muito curta, não percebi qualquer sotaque. Chamou-me de você, nem doutor nem senhor, tampouco pelo prenome. A voz doce e sensual fala com intimidade. Como posso ser grosseiro com alguém que fala com voz de lábios vermelhos carnudos? E se for uma amiga ou sobrinha da madame? Deus me livre! Que fria! — Quem sabe você diz só o primeiro nome? — Você foi tão encantador... me chamou de mocinha. Era só o que me faltava, encantei alguém por chamá-la mocinha. Chamo todas as mulheres de mocinha ou menina, é só um jeito de falar, moças ou velhas cambaleantes, todas gostam e não preciso guardar nomes. Desconfio que a mocinha seja um trubufu solitário sem desconfiômetro. — Agora que já sei com quem estou falando ficou mais fácil, mocinha. Em que posso ajudá-la? — Você está muito ocupado? Não, não pode ser! Isso é uma brincadeira de mau gosto! Ninguém merece. Nem para a minha consciência eu admitiria estar na quarta partida. Tenho que tomar cuidado com as minhas palavras e preciso descobrir quem é essa poderosa jararaca cabeluda. Será que ela precisa de alguma consultoria? Será que quer apenas que eu a chame de mocinha novamente? Será que precisa que eu descubra o destino de algum processo na repartição? Será que quer testar meus nervos? E se for alguém da auditoria? — Estou analisando essa pilha de processos que está na minha frente. Tenho muito trabalho. — E se a jararaca for apenas uma cobrinha risonha? — Mas, posso fazer uma pausa. — Será que pode me ajudar? Isso é um novo tipo de tortura! Um interrogatório onde o algoz coloca a vítima em um pau de arara, venda os olhos e queima o prisioneiro com pontas de cigarro primeiro nos braços e pernas indo até a genitália. Não posso me entregar! Não vou delatar meus companheiros de repartição. Somos inocentes! Estou nas mãos da inquiridora. Serei simpático antes que me corte a língua: — Posso ajudar sim, contanto que não seja nada de ilegal. — Hahahahaha (foi a risada mais satânica que já ouvi). Bem que o Zé diz que você sempre está bem humorado. Ufa! Afinal uma abertura. — De qual Zé você está falando? — Do meu marido. Que maravilha, passei da posição de interrogado para interrogador. Na primeira oportunidade me vingarei dessa víbora peçonhenta. Farei um cinto de pele de cascavel e o meu telefone em vez de tocar vai chacoalhar guizos. — Aposto que só você o chama de Zé. — Arrisquei. — É verdade. Aí na repartição todos só o chamam pelo sobrenome ou simplesmente de chefinho. Filhada mãe! Então é a senhora, dona Altamira? Espero que ela não tenha percebido a minha dúvida. Baixei a guarda. E fui quase subserviente. — Afinal, no que posso ajudá-la? — Eu quero saber onde você comprou para a madame aquele vestido com flores azuis e também que você vai fazer no sábado? De novo não! Socorro. Vai começar outra seção de tortura! — Desculpe mocinha, a secretária me avisou que devo descer imediatamente para falar com o diretor. — E, desliguei.
Meu caro Roberto, só umas linhas para te dizer que estou terminando teu livro e que gostei muito de tuas crônicas, vivas, bem humoradas, bem escritas. Recebe os parabens e o abraço do Moacyr Scliar
Na quinta-feira o Scliar esteve aqui em Brasília para uma palestra no T-Bone. Busquei uma dedicatória para um livro recém adquirido. Eu já havia trocado breves e-mails com ele. Conversamos ligeiramente. Presentei-o com Quase pisei!. Hoje recebi o retorno estufa ego.
Moacyr Scliar - 80 livros publicados; 3 prêmios Jabuti; escreve para vários jornais; É da Academia Brasileira de Letras.
Tem escritores que escrevem para burro. Scliar escreve para Jabuti.
Estávamos arrumando a cama quando ela falou. – Que horror estou perdendo muitos cabelos! – Isso é só o começo! Respondi incisivo. – Como assim? – Hoje cabelos. Amanhã orelhas, braços, pernas...
Sentou-se no alto do penhasco tendo a noite, o mar e o vento frio por companhia. Olhou o infinito de estrelas oferecidas piscando sorrisos, requebrando brilhos ou ostentando poderosos decotes como estrelas holiúdianas. Elas sempre estiveram tão próximas que podia pegá-las com a mão. O alforje acumulava constelações de perdidas. Ele só queria um amor. A lua espiou no horizonte, cresceu no seu desejo, tomou-o de paixão. Por amor, jogou-se ao mar, nadando esforços, para possuí-la.
Eram exatas oito horas. Horário em que ela chegava do trabalho e se preparava para o banho. Ansioso, diariamente eu esperava o momento com o binóculo na mão. Nesta terça-feira o marido entrou no quarto e a esbofrteou antes de atirar no rosto a um metro de distância. Em seguida puxou a cortina.
Após dois dias de jipe, a estrada serpenteia em ascensão. A neblina espessa que umedece a minha camisa é a mesma que alimenta a vegetação. Mais um dia de trilha e estarei, dizem, num escondido povoado quilombola que ainda fala o iorubá como seus ancestrais. Será que conseguirei decifrar a envelhecida carta do lendário rei nagô?
É genial observar como, com o passar do tempo, as regras inflexíveis são alteradas. Há muito pouco tempo atrás, todas as farmácias traziam tabelas junto das balanças, que, num quadrinho, informavam que o peso ideal do homem seria a altura em centímetros menos cem, dependendo da a ossatura que poderia ser pequena, média ou grande. Para a mulher seria da mesma forma menos dez quilos. Hoje o peso ideal é calculado pelo IMC - Índice da Massa Corporal em que o peso, em quilos, é dividido pelo quadrado da altura, em metros. O índice varia dentro de limites máximos e mínimos de acordo com a idade. É fantástico por ser mais flexível. Acredito sinceramente que o melhor índice é o da auto-avaliação com generosas doses de auto-estima em que o paciente se examina frente ao espelho e pergunta se faria amor com uma pessoa com aquele físico. Tire toda a roupa, amor se faz sem roupa. Olhe bem. Belisque-se. Falta? Sobra? Acaricie-se. Faça uma pose. Valorize e admire o que há de bom. Melhore o que pode ser melhorado. Pergunte-se o quê ou como alguém faria para ficar mais interessante aos seus olhos. Copie. Não se preocupe tanto com a opinião dos outros, o principal é você se amar. A tarefa é muito grande? Parece impossível? Nada é impossível. Comece! Comece já! Use artifícios para se amar e se valorizar. Cuide das unhas, as dos pés também, mude o corte de cabelo, use um cheirinho gostoso, faça a barba ou se depile, aposente aquele velho pijama, use algo mais sensual, mesmo que esteja sozinho. Lembre-se que você está se produzindo para você. Fique ereto. A postura é fundamental. Pessoas que olham para o alto vêem o céu, o futuro, a alegria e a luz.
Olhe no espelho de novo, você deu o primeiro passo. Você se enxergou com um pequeno sorriso. Você se valorizou. Pequenos atos trazem grandes modificações, inércia não traz nada. Transforme em rotina os pequenos gestos que cuidam do seu corpo.
Não se acomode, caminhe. Coma com moderação. Isso vale para os gordos e para os magros. Tenha refeições criativas. Varie! Crie um horário para se amar, para fazer algo que seja para o seu prazer. Mude, pare de se queixar da vida e de se acomodar. Chegue em casa e ao invés de ligar a televisão, troque uma lâmpada, pregue um botão, adube o vaso, vá à cozinha e prepare alguma coisa diferente, uma farta salada ou uma panqueca. Arrume aquelas fotografias da gaveta. Organize uma pasta com as contas. Mexa-se. Deixe a panela cintilante, lustre seus sapatos. Dê um brilho no seu ânimo.
Qualquer gesto diferente vai trazer um resultado benéfico para você, você vai se amar mais.
Altere as regras inflexíveis.
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O Regime - Comentário
Este texto é resultado de um desafio.
Eu estava num barzinho, já devidamente calibrado, e externando com a namorada meu desejo de crescer na escrita. Provoquei que seria capaz de escrever sobre qualquer assunto proposto. Julguei-me muito esperto, pois teria ao menos um dia para pensar e desenvolver o texto se ela apresentasse alguma sugestão naquele momento. Ela, inteligente, perguntou-me se eu seria capaz de apresentar o texto até as dez horas da manhã do dia seguinte. Raciocinei que apesar do álcool eu já poderia ir desenvolvendo o tema mentalmente. E de manhã bastaria digitar o texto. Topei. Aí ela disse: – Pegue a Veja na sua casa e leia o assunto da página 37, propaganda ou não, e desenvolva o texto. Este foi um desfio de verdade. E, por conta do adiantado da hora e dos efeitos etílicos só li o artigo sobre regime alimentar às oito horas do dia seguinte. Às nove, enviei o e-mail com o texto acima. Orgulhosamente, senti-me vencedor.
Às vezes necessitamos de estímulos e provocações. É o que eu procurei transmitir no texto.
Você se conectou com a secretária de Roberto Klotz.
Apesar dela ser bonita, simpática, inteligente e gostosa é apenas uma reles secretária eletrônica.
Depois de apreciar o decote e as curvas deixe o seu recado.
Estarei ausente até o final deste ano.
O Papai Noel não vai passar em Brasília, o pessoal daqui não foi bom. As meias e cuecas já estão cheias de corrupção. Vou passar as festas em outro lugar.
Eu comemoraria a rapidez com que a Justiça ordenou a desocupação da Câmara Legislativa se a mesma Justiça ordenasse com a mesma rapidez a desocupação da sede do Buritinga.
Hora e meia recebemos elogios por textos escritos. Alguns sinceros, outros nem tanto.
A gente acaba se acostumando, embora o ego seja voraz por mais e mais tapinhas de incentivo.
No dia 5 de novembro recebi uma homenagem sem nenhuma palavra. Apenas um gesto. Um gesto de carinho de um dos caras que mais admiro na comunidade Bar do Escritor.
Na imagem do orkut se mostra lendo meu livro Quase pisei!.
Fiquei emocionado.
Zulmar Lopes, conhecido em alguns bares duvidosos de Copacabana como Lameque Eros Hyde da Silva, é duca!
Vou ficar rico. Vou ficar muito rico. Descobri a fórmula para fazer chover. É infalível. Descobri através de uma teoria que eu desenvolvi por conta da observação e prática graças à minha larga vivência. Em primeiro lugar vou oferecer meus préstimos ao nordeste, particularmente à zona do agreste. Depois que todos os açudes estiverem a ponto de sangrar oferecerei meu amparo à região árida da África. Naquelas bandas muita gente também sofre com as agruras da seca. Uma vez atendidas as regiões carentes passarei a cobrar meus serviços. Em euros. Portugal, França, Itália e Grécia também sofrem muito com as secas. Dos americanos, lá da Califórnia, também cobrarei em euros. Valem mais que dólar. Difícil vai ser transportar meu carro para todos estes lugares. Não abro mão. Preciso estar sempre com o meu carro. Aqui em Brasília já estávamos com clima arrasadoramente seco. A umidade chegou a 14%. Gramados esturricados e lábios rachando. Vocês sabem o que fiz?– Lavei meu carro. O que aconteceu? – Choveu e sujou meu carro de novo. – E daí? Daí que lavei o carro de novo. E choveu de novo. Este método é infalível.
Chego emcasadepois de maisum estafante dia de trabalho e a confusão está instalada: madame chora na frente do fogão.
Sempre a tratei muitobem. Quasenãolhefaltanada. Hoje, como nos últimos 35 anos, acordei-a comumdelicadobeijo na testa, preparei o café e misturei colherinha e meia de açúcar. Beijei-a na saída. Melhor dizendo, beijei-a na boca, ao sair. Senti saudades e retornei direto do trabalho para casa ao fim do dia.
Vejo que há uma série de xícaras espalhadas pela mesa da cozinha, um pacote de massa para bolo, um termômetro, a calculadora, alguns ovos de codorna, várias colheres de tamanhos diferentes, a jarra de leite, o pote de margarina derretida e o velho despertador barulhento.
Tomo-a emmeusbraços e pergunto o que foi que aconteceu.
Soluçando, responde que desejava preparar uma festinha só para nós dois, mas a receita do pacote estava por demais complicada:
BOLO DE CHOCOLATE
Ingredientes:
1
pacote de massa de bolo de chocolate
¾
de xícara de leite
3
ovos
2
colheres de margarina à temperatura ambiente
Misture tudo até formar massa homogênea; Unte e enfarinhe uma forma redonda com furo no meio; preaqueça o forno em temperatura média por quinze minutos; Não abra o forno antes de 30 minutos; após esfriar por 15 minutos, desenforme e sirva.
– Veja só quantas xícaras diferentes nós temos aqui: a do seu café, aquela outra de plástico, a do jogo de porcelana que ganhamos no nosso casamento... e todas têm tamanhos diferentes, – Ovos podem ser de codorna, de pata, de galinha caipira, brancos, de páscoa e... Enxugando as lágrimas. Qual dessas colheres? Uso a do diário ou devo usar a do faqueiro de prata?
Segurei-a pelamão, arrastando-a até a sala. Acomodei-a no sofá. E fui buscardoiscálices. Enquanto servia umporto, protestei:
– A culpa é da impunidade! Neste país as pessoas fazem o que querem e ninguém é responsabilizado pornada. Passam nossinaisvermelhos, assaltam, não fecham as pastas de dentes... Todosessescalhordas deveriam serexemplarmente punidos! Paraque serve o InstitutoNacional de Pesos e Medidas? Vou entrarcommedida cautelar, seja lá o queisso queira dizer!
Irado, continuo meuprotesto:
– Cientistas do mundointeiro se reúnem, estudam e definem quequilograma é a massa do protótipointernacional constituído porumcilindro de platina e 10% de irídio depositado no BureauInternacional de Pesos e Medidas, e ainda que o metro é igual ao comprimento do trajeto percorrido pelaluz no vácuoduranteumintervalo de tempo de 1/299 792 458 de segundo e...que diabos!
Virei o cálice de vinhoparalubrificar a garganta e continuei:
– Estes fazedores de receitas culinárias estão nos cozinhando! Como vamos definir o que é uma pitada? Quantas gramas? Uma colher rasa de farinha? Então, além das colheres de chá, sopa e sobremesa, ainda podem ser cheias, bem cheias e rasas? Aí, ainda tem a história de meia xícara, três quartos de xícara ao invés de dizerem que se trata de tantos mililitros. Tenham a santa paciência! Forno à temperatura média. Estes escritores de receita deveriam cumprir pena com trabalhos forçados.
Sirvo-me de outra tacinha de porto, viro de umsógole e continuo no meudiscurso:
– A falta de uniformização das medidas é umretrocessopara a nossanação. Sucrilhos, macarrãoinstantâneo, molho de tomate, geléia, coco ralado, sapatos... Nada está padronizado. Estamos a léguas de distância dos povosdesenvolvidos!
Resolvi respirar e dar umdedo de prosa:
– Querida, vocêsempre soube prepararcomidas maravilhosas. Jamais precisou de enciclopédias para preparar um simples bolo de chocolate. O que foi que houve? De verdade?
– Bom, eu só tinha ovos de codorna. Então quis saber quantos ovos de codorna seriam equivalentes a um de galinha. E, principalmente queria saber onde você havia escondido a garrafa de vinho do porto.
– Ó, von Silva, o que é antologia? Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo não faria essa pergunta. Se eu fosse o Raimundo que amava Maria que amava Joaquim, eu também não saberia a resposta. O meu nome é von Silva, não tenho outro de pia. Se eu estivesse na repartição seria normal este tipo de pergunta. Estou longe de qualquer dicionário porque hoje é sábado. Essa Rosa radioativa estúpida e inválida não deveria ter feito esse questionamento. Perdido, sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos, procuro uma resposta. Desejei me esconder, desejei ir para Minas, Minas não há mais, quis morrer no mar, mas o mar secou. Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei. Volto para a minha terra que tem palmeiras onde canta o sabiá, que tem cadeiras onde posso sentá e procurar um desmancha-dúvidas. Meu reino por um dicionário! Deus, ó Deus, onde estás que não respondes? Preciso urgente de um pai-dos-burros. Queixo-me da Rosa, mas a Rosa não fala, simplesmente perguntou o significado de antologia. Para todas as coisas: dicionário, para que fiquem prontas: paciência. Rosa não tem paciência. Quer resposta. Tem uma pedra no meio do caminho, cadê o maldito tira-teimas? Toda pedra no caminho você pode retirar. De repente, não mais que de repente surge o salvador e consulto o verbete: “Coleção de trechos em prosa e/ou em verso.” – Obrigado, Aurélio! Aurélio, garoto esperto, informa também que intertextualidade é a superposição de um texto a outro. – Mais uma vez, obrigado, Aurélio!
Pesquisa para o texto Antologia
“Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução.” – O gauche – Carlos Drummond de Andrade “João que amava Tereza, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili.” – Quadrilha – Carlos Drummond de Andrade “O meu nome é Severino. Não tenho outro de pia.” –Morte e vida severina – João Cabral de Melo Neto “Porque hoje é sábado.” – O dia da criação – Vinícius de Moraes “A rosa hereditária. A rosa radioativa estúpida e inválida.” – A Rosa de Hiroshima – Vinícius de Moraes “Sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos.” – Alegria, alegria – Caetano Veloso “Quero ir para Minas, Minas não há mais, quer morrer no mar, mas o mar secou.” – E agora, José? – Carlos Drummond de Andrade “Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei.” – Vou-me embora pra Pasárgada – Manuel Bandeira “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá.” – Canção do exílio – Gonçalves Dias “Meu reino por um cavalo!” – exclamou Ricardo III na Guerra das Duas Rosas, conforme William Shakespeare “Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?” – Vozes d'África – Castro Alves “Queixo-me às rosas, mas que bobagem, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti, ai.” – As rosas – Cartola "Para todas as coisas: dicionário, para que fiquem prontas: paciência." – Diariamente – Nando Reis “No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.” – No meio do caminho – Carlos Drummond de Andrade “Toda pedra no caminho você pode retirar.” – É preciso saber viver – Roberto Carlos e Erasmo Carlos “De repente, não mais que de repente, fez-se de triste o que se fez amante.” – Soneto da separação – Vinícius de Moraes “Se você rouba de um autor, é plágio, se de vários, é pesquisa.” – Wilson Mizner
Os vidros são claros: nada tenho a esconder. Tem ar condicionado: não preciso de desculpa para ventilar perfumes diferentes do seu. A cadeirinha da nenê mostra meu orgulho de ser pai. O crucifixo pendurado no espelho indica que meu carro é um local sagrado.
Quanto ao brinco encontrado, tenho certeza que você o colocou aí só para testar a minha fidelidade.
Já conversei com uma viúva. Anteontem faleceu uma amiga de amiga. A gripe suína está entre nós. O governo não está preparado e não tem plano contra a gripe. O Brasil rico que empresta dinheiro para o FMI não tem grana para adquirir as vacinas e está economizando. Deveriam imunizar os pacientes suspeitos na primeira consulta. Brigar contra a gripe. Atacar os focos em vez de permanecer na defensiva, poupando vacinas e esperando a gripe atingir toda a população. Que esqueçam o sonho do Présal e cuidem da realidade. Há motivos para alarme, sim. Esta também não é nenhuma marolinha. Se não há vacinas, agora, para os poucos pacientes, teremos o caos instalado muito breve quando os pacientes contagiados se multiplicarem feito moscas. Apodreceremos nas calçadas e o governo não terá de quem cobrar impostos
Agora pisei - Quando caminho o mundo acerta o passo comigo. Tudo acontece, tudo vejo, tudo anoto. Nascem histórias curtas, criativas e com finais surpreendentes. Vi tubarões na calçada, telhas assassinas, a perda filosofal. 164 páginas a R$ 40, - dedicatória e correio nacional inclusos.
Manual do escritor – Dicas e ferramentas para quem quer escrever e publicar um livro.
Aprender a técnica literária potencializará seu talento. O conhecimento não serviria de nada para a pessoa sem talento, mas aumenta o alcance de quem a possui.
A prática comprova que pequenas mudanças e melhorias fazem a diferença entre competidores e vitoriosos.
Com bom humor, o autor procurou reunir e compartilhar o que considera mais significativo para o desenvolvimento do ofício da escrita até a publicação do seu livro.
224 páginas a R$ 40,00
Cara de crachá - São 44 histórias vivas, rápidas, inquietas. Capazes de renovar fígados envenenados com tristeza. O protagonista, von Silva, é envolvente. Com ele descobrimos oque há por trás do crachá de um funcionário público. De humor particular aponta o lápis na direção do cotidiano de um usuário de carimbos, há 35 anos na mesma repartição. Esse funcionário só podia mesmo ter Cara de crachá.
160 páginas ao preço de R$ 30,00
Livro: Pepino e Farofa
Pepino e farofa são crônicas bem humoradas resultantes de 50 anos de inexperiência no comando de um fogão onde a comida é o prato principal.
No divã do psicanalista convence que o milho afasta a depressão e a solidão. Uma formiga em cima da bancada é motivo para uma fábula. Explica como um violão pode influenciar na preparação do almoço.
Só foi possível escrever o livro graças à minha mãe que, na infância, incentivou-me a brincar de carrinho em vez de comidinhas e panelinhas.
160 páginas ao preço de R$ 30,00
Quase pisei!é um livro de crônicas com temática andante. Os mortais caminham, Klotz viaja na criatividade. Com escrita na primeira pessoa do singular, convence os leitores de que tudo é verdade e que aconteceu com ele. Também nos dá a impressão que o mundo só começa a acontecer quando calça o tênis e sai para a rua. Seu olhar de cronista sempre está atento através de lentes irônicas, bem humoradas e às vezes poéticas, quando coloca os óculos líricos. O entusiasmo e a alegria do autor são contagiantes.
160 páginas ao preço de R$ 30,00
Quer um livro(s)? Por favor, envie seu endereço para robertoklotz@gmail.com
Roberto Klotz é um engenheiro que saltou do topo do prédio recém-construído e estilhaçou-se em parágrafos. Nasceu no século passado. Bem-humorado, crítico, vacinado, analfabeto, irônico, paulistanamente canadango. Suas histórias muitas vezes têm finais surpreendentes. Enquanto aprendia a cozinhar, escreveu Pepino e farofa, um livro de aventuras culinárias, engordou de tantas pizzas encomendadas. Para perder peso, o médico recomendou que caminhasse. Durante as caminhadas encontrou elefante, lâmpada mágica, cão bravo, pegadas de onça e 45 motivos para exercitar o bom humor em Quase pisei! A vida continua e aí, o álter ego, von Silva tornou-se personagem de Cara de crachá, um funcionário público que carimba bom humor dentro e fora do expediente.De tantas anotações de oficinas literárias, ora sentado prestando atenção, ora de pé ministrando aulas, resultou o pedido de partilhar o conhecimento que gerou o Manual do escritor.Conquistou mais de 40 prêmios literários. Foi Conselheiro de Cultura na Secretaria de Cultura do DF. É jurado de concursos literários e promove oficinas de escrita. Saltou do prédio por saber-se imortal. Ocupa uma cadeira na Academia de Letras do Brasil – DF.