Em vez de escrever uma crônica lembrando o dia ou histórias da nossa convivência no Porto Seguro, fui mais longe um pouquinho para relembrar que o que nos une não foi apenas o convívio.
Gostaria de anotar a história com um pedaço de giz no quadro negro de uma sala de aula do colégio.
No início do século XX a Europa estava em ebulição com guerras para todos os lados. No início da Primeira Grande Guerra a minha avó, Elly Steinert, uma jovem fazendeira, teve que sair do campo para se apresentar em Berlin para prestar serviços comunitários como enfermeira. Por outro lado, Franz Skaliks, o noivo, um jovem artista plástico, também fazendeiro de Tilsit, teve que se alistar no exército. Vestiu o uniforme e foi para a frente de batalha. Em apenas uma semana foi preso pelos russos e deportado para a Sibéria. Lá, naquele país de língua estranha, o burguês, passou fome e frio. Conseguiu fugir na quinta tentativa, porém o trem, que era o único meio de transporte para sair de lá, era muito vigiado e por isso só conseguiu retornar à Prússia Oriental dois anos depois de terminada a guerra. Casou-se com a noiva esperançosa que ainda o aguardava apesar de nunca terem trocado uma única correspondência no período.
Com a Alemanha derrotada, fragilizada e humilhada, os franceses e belgas a invadiram pelo centro-oeste. Poloneses tomaram um naco do leste. E os russos invadiram o país ao norte justo onde eram as fazendas dos recém-casados.
A guerra, as invasões, o confisco de imóveis e terras, a falta de liberdade, a hiperinflação e o desemprego criaram um clima de ceticismo, incerteza, insegurança e terror na Alemanha.
Por outro lado o Brasil procurava mão-de-obra barata e qualificada para todos os setores do campo e da cidade. Propagandeava boas condições de trabalho, segurança, paz, liberdade e clima ameno, provocando e estimulando ousadias e aventuras ao desconhecido.
Em 1923, com os russos nos calcanhares, o jovem casal fugiu de Tilsit, vizinha a Königsberg, hoje Kalinigrado, para Hamburgo com a intenção de pegar um navio para a América do Sul.
É curioso lembrar que a mãe de um colega da foto de 1958 do Kindergarten (jardim de infância), Hans Jürgen Ludwig, veio da mesma cidade na mesma época.
Na fuga e insegurança, meus avós, por amor, embarcaram deixando o filhinho de dois anos de idade para trás.
No mesmo navio, Antonio Delfino, havia outro alemão, Walther Jank, avô de outra colega da mesma foto. Nem sei se ela, Renata Richter, conhece essa história.
Meus avós maternos quando chegaram a São Paulo ficaram na hospedaria Floresta, no Largo São Francisco que era dos bisavós de John Willis Mc Quade e Roberto Klotz ambos presentes na mesma foto de 58.
Dois anos mais tarde uma outra imigrante, Lyta Scherwitz trouxe o filho de volta da Alemanha, para junto dos pais. Essa mulher era parente de outros colegas da foto do quinto ano primário: Cláudia e Ingeborg Caspari.
Contei essa pequena história apenas para ilustrar que nós, que nos reunimos no sábado, depois de 40 anos de formados, não somos apenas colegas de colégio. Somos muito mais do que isso. Somos uma grande família com passado e origens semelhantes que se entrelaçaram durante décadas. Nós somos descendentes dos imigrantes que vieram até pouco antes da Segunda Guerra por isso temos histórias e origens comuns. Nossos antepassados se uniram para se fortalecer diante do desconhecido.
Nossos pais conheceram, freqüentaram, estudaram, trabalharam ou se divertiram em lugares como o Esporte Clube Germânia, o Deutscher Segel-Club e a Olinda Schule. Respectivamente Clubes Pinheiros, Iate Clube Santo Amaro e Colégio Visconde de Porto Seguro.
Moro em Brasília desde 72, desde então perdi o convívio com parentes e amigos de São Paulo. No período descobri que a distância afasta para sempre pessoas com as quais não temos afinidade ou laços mais fortes. É muito gratificante voltar a São Paulo e sentir no coração que, mesmo depois de tanto tempo, ainda guardamos tantos amigos como uma grande família.

De pé
1 – Horst Hübbe, 2 – , 3 – Carlos Guilherme Soares dos Reis, 4 – Eric, 5 – Theodomiro Pacheco Rosenstock, 6 - , 7 - , 8 - , 9 – Kurt Dreyer, 10 – Holguer Stade, 11 – Luis London, 12 – Heinrich Kiep, 13 – John Willis McQuade, 14 - , 15 – Karin Frei, 16 – Lia Rosa Wenda, 17 – Dana Modercin, 18 – Eduardo Utescher, 19 – Sonia Gehre, 20 – Alex Welther, 21 – Ricardo Schiesser,
Sentados no banco
22 – Ingo Hoffman, 23 – Jorge Gjurekowick, 24 – João José Eder, 25 – Roberto Klotz, 26 – Fernando de Castro Freund, 27 – Walter Scharlitz, 28 – Cláudio Lothar Fatio, 29 – Francisco, 30 – Monica Selma Flues, 31 – Stephanie Pfeifer, 32 - , 33 – Renate Polisaitis, 34 - , 35 – Ruth da Silva Löwenstein, 36 – Irene Müller, 37 - , 38 – Lisa Öerberg, 39 – Maria Luzia Celeste Rodrigues, 40 - , 41 – Lia Pereira da Silva, 42 – Vera Helena Frucci, 43 – Monica Woserow, 44 – Lílian Kunze, 45 – Ricardo, 46 – Henrique
Sentados no chão
47 – Ian Peter Searby, 48 – Marcelo Villares, 49 - , 50 - , 51 – Ricardo Villares
52 – André Cláudio Bürgui, 53 - , 54 – Heidi Hause, 55 - , 56 – Hans Jürgen Ludwig, 57 – Horst Witmaack, 58 – Silvia Ferreira de Oliveira, 59 – Vivian Dreifuss, 60 – Renata Richter, 61 – Vivian Nipper, 62 – Ana Maria Stickel, 63 – Erica Vogt, 64 – Cristina Andrea Eloed, 65 - , 66 – Verena Magalhães Erismann, 67 – Maria Monica Nico, 68 – Vera Lúcia Capello
Professora Nilse à esquerda e Tante Waltraut à direita.





















