30 abril 2008

Torpedos desclassificados

No sábado recebi um torpedo no meu celular:

“mae vo viajar com uma miga dumingo volto”

Li duas vezes. E, apesar de não ser espelho, refleti que não sou mãe, que meus filhos estão reunidos comigo e que eles não cometeriam tantos crimes ao vernáculo em apenas uma linha. Conclui que aquela mensagem não era para mim. Era um engano.
Deixei por isso mesmo.
Hoje, segunda-feira, recebo outro torpedo telefônico:
“Vo almoca com uma amigas”

Pela linguagem capenga, julgo que seja a mesma pessoa.
Ameaço ignorar, entretanto a ironia coçou e se fez presente.

“Você já almoçou. Comeu um U, uma cedilha e um S.”

Enviei e, para surpresa minha, veio a resposta:

“Nao fui ainda”

Achei que eu não deveria ser desagradável só porque ela comeu, de sobremesa, o til.

15 abril 2008

O vôo fatal de Isabella

No final do expediente, o pessoal do trabalho parou para tomar um cafezinho. O assunto poderia ser a derrota do Flamengo, poderia ser mais um flagrante de corrupção na cúpula do governo ou até a nova cor vermelha da cobiçada secretária Shirlei. Mas não, o assunto é o mesmo que toda a imprensa escrita e televisiva traz em manchetes nos últimos dez dias: o vôo fatal da menina lançada pelos próprios pais através da janela do sexto andar.
Adultos, crianças e velhos, todos estamos chocados por mais uma tragédia. A história é esmiuçada em detalhes sórdidos. Uma criança indefesa é espancada e asfixiada justamente por aqueles que deveriam dar conforto e segurança. O local do crime é a própria moradia, o lugar onde seria seu porto seguro. A verdadeira mãe não demonstra a dor desesperada pela perda da filha. Há provas da premeditação de crime devido ao corte da tela de proteção da janela antes do arremesso. O terrível estigma de ódio e ciúmes de uma madrasta pela enteada é resgatado e multiplicado. O choque de imagens da família feliz nas horas que antecedem o crime se superpõe ao cadáver da criança na grama. Aparentemente não há indícios que outras pessoas estievesem no apartamento na mesma hora da bárbarie. De onde, facilmente, qualquer leigo, conclui que os assassinos só podem ser os próprios pais.
O crime aconteceu na última sexta-feira do mês de março e até agora a polícia ainda não divulgou o nome dos criminosos. Meia centena de pessoas foi interrogada. Os pais foram presos por flagrante e soltos por habeas corpus. Quase linchados e presos novamente. A população tem ânsias de justiça. Tudo parece óbvio. Mas não é.
Se a justiça brasileira não está externando os resultados das investigações é porque deve haver outras razões misteriosas e ocultas.
Talvez o pai seja um agente russo infiltrado no Edifício London. Talvez a perícia tenha descoberto um túnel subterrâneo ligando o apartamento a uma agência do Banco do Brasil localizada a apenas três quadras de distância. Talvez os pais da Isabella quisessem enviar a filha para estudar no exterior. Talvez a madrasta tenha contribuído com enormes somas de dinheiro, oriunda de lavagem de dinheiro, para a campanha eleitoral de um deputado influente. Talvez o casal faça parte da rede de internacional de traficantes de cocaína e por isso tenha proteção de algum governo vizinho com o qual nosso país deseja manter as ótimas relações.
Não, nem eu, nem ninguém, consegue inventar qualquer desculpa plausível que justifique a não acusação formal do casal. No nosso país ninguém, que não tenho bons advogados, é incriminado.
Brasileiros não punem falta de respeito, falta de ética ou de moral e a conseqüência é a impunidade também para todos os tipos de crimes. As autoridades mentem, ameaçam, chantageam, insultam, enriquecem de ilícitos e não são castigados. São os nossos exemplos.
E, daqui a quinze dias, ao final do expediente, no cafezinho discutiremos como fomos obrigados a acreditar que a pequena Isabella caiu da janela ao tentar pegar um vaga-lume que pisca-piscava alegria e inocência.
Agora só falta Isabella cair no esquecimento.

04 abril 2008

Pão com tertúlias

No intervalo entre uma crônica e um conto de Machado de Assis, durante a oficina literária, levantei-me e servi ao grupo umas fatias de pão caseiro trazidas de casa.

Dizem que tenho que sair da minha zona de conforto, sempre escrevendo crônicas bem humoradas. Foi exatamente o que resolvi fazer. Não levei nenhuma crônica para o encontro. Saí do escritório e fui à cozinha. Deixei meu público restrito e atirei-me às massas. Massa de pão mais especificamente. Levei dois recipientes com 16 contadas fatias de pão. Destampei ambos e estendi para o grupo da esquerda e logo em seguida ofereci para o grupo da direita.

Na verdade devo informar aos leitores que era à minha direita ou à minha esquerda, ninguém ali estava preocupado com posições políticas. Machado ensinou-nos que às vezes devemos lembrar ao leitor que ele não faz parte da história, para ele não se condoer de dores por algum personagem e também que não adianta salivar, pois não vai provar nenhuma fatia do cheiroso pão que está sendo compartilhado por vorazes bocas famintas de onze horas da manhã.

Aos olhares femininos, preocupados com a redonda forma, do pão, é lógico, externei, brincalhão, que aquele alimento era light. Em vez das previstas três xícaras de óleo na receita, eu havia colocado apenas meia xícara.

Mais importante que a receita é o momento certo e modo certo de servir. O momento é bem próximo da hora do almoço e a quantidade deve ser tal que todos possam provar, mas apenas alguns possam repetir. O que deixará em todos a sensação de desejo não totalmente satisfeito. A sensação do prazer, próximo do orgasmo, porém sem o gozo.

O mestre, na posição de líder, deu-se ao direito de comer uma segunda fatia para retornar energizado a leitura de outra crônica. Saboreamos Machado enquanto o odor do pão fresco ainda persistia no ambiente e nas mentes.

Ao final da aula, desta vez, não ouvi nenhuma crítica em relação aos meus textos. Nem positiva nem negativa. Várias colegas, gentilmente pediram a receita. Percebi como elogio ao meu trabalho.

Reparei que o professor correu para pegar a derradeira fatia. Foi meu melhor elogio, o gesto demonstrou que gostou de eu ter saído da minha zona de conforto.

Os ingredientes:

2 tabletes de fermento biológico (30g) – utilizei 3 envelopes de 11g com validade vencida e mesmo assim deu certo

1 colher (sopa) de açúcar

1½ xícara de água morna

½ xícara de óleo

1 embalagem de creme de cebola

3 xícaras de farinha de trigo

O modo de fazer:

Unte uma forma de pão. – É bom que a forma seja das grandes (28x11cm) porque a massa cresce um bocado e depois transborda no fogão provocando uma lambança federal além da fedentina de pão queimado. Na dúvida, use duas formas. Um pão você oferece na aula e a outro você come antes da aula

Em uma tigela grande, misture o fermento com o açúcar. Depois acrescente a água, o óleo e o creme de cebolas. Misture.

Adicione a farinha e misture até formar uma massa mole.

Preaqueça o forno em temperatura média – 180ºC

Ponha a massa na forma e deixe crescer por 30 min ou até dobrar de volume.

Leve ao forno por 25 minutos ou até dourar.

Tertúlias são o complemento ideal ao pão.

Quando for levar o pão para a aula não esqueça de deixar o recipiente semi-aberto para impregnar a sala com aroma de desejo.

16 março 2008

Ausente



Estarei fora do mundo onde haja internet até o final de março. Se, nesse período, eu não responder suas mensagens não brigue comigo.

Existe um camarada nada ético que colocou um feed no meu blogue. Basta haver uma postagem nova que aparece um span nos comentários. Veja o exemplo abaixo.

14 março 2008

Desfolhando a rosa dos ventos


O urbanista Lúcio Costa visitou meus sonhos.
Os jornais fervilham notícias do novo bairro – Noroeste – em final de gestação e eu, como brasiliense apaixonado pela cidade, participo da torcida pela construção com bons resultados para a qualidade de vida dos futuros moradores e que o grande Lúcio Costa tenha orgulho de ter assinado o anteprojeto.
Quando o urbanista pensou Brasília focou o bem-estar do homem. Os prédios teriam altura limitada para não apagar o horizonte nem esconder o céu. A disposição dos blocos nas quadras seria de tal sorte que a fachada principal de um prédio não estivesse de frente com a fachada posterior do outro prédio. A proximidade dos blocos só aconteceria fundos com fundos com a privacidade protegida por elementos vazados denominados cobogós. Todos os apartamentos, por menores que fossem sempre teriam duas frentes para permitir a circulação do ar. Os cobogós atendiam com inteligência e baixo custo a função da iluminação, ventilação natural e privacidade.
Na época da construção existia muita pressa por isso vários prédios foram construídos sem subsolo e sem garagens. Havia poucos veículos. Agora recaem ao governo as cobranças de soluções para a falta de vagas de estacionamento e conseqüentes congestionamentos em muitas vias. Hoje a situação se agravou, temos um veículo para cada 2,5 habitantes. Os financiamentos facilitaram tanto a aquisição de automóveis que podemos observar que mesmo no comércio local é muito comum haver um ou até dois veículos por quitinete. Alerto que o projeto do Noroeste autoriza a construção de quitinetes em cima das áreas comerciais. Duvido que determine subsolos para abrigar automóveis.
Em algum lugar eu li que outro problema existente tanto no Sudoeste quanto no Plano Piloto, e que não existirá no Noroeste, é a instalação de escolas próximas a quadras residência. Isso, conforme a leitura, gera congestionamentos no trânsito. O urbanista Lúcio Costa pensou de forma oposta quando planejou Brasília com as escolas-classe dentro das quadras de forma que não fossem necessários veículos.
Em números redondos é possível estimar que para os 40 mil habitantes, estimados para o bairro, serão necessárias pelo menos 16 mil vagas. A conta se agrava quando o local é projetado para a classe alta onde a relação veículo/habitante é maior. Será que os prédios terão vários subsolos para absorver a demanda? Acho pouco provável. Os empreendedores, visando o lucro, dirão que atenderam ao projeto. Sem alardear que o projeto saiu do papel graças a um convênio firmado entre o GDF e a Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi).
A pressão das construtoras e imobiliárias é enorme, tanto que recentemente uma imobiliária de outro estado adquiriu o controle de duas imobiliárias tradicionais da cidade.
Em 2007, o MP – Ministério Público – entrou como uma ação na Justiça pedindo a readequação do plano urbanístico do bairro, que previa 80 mil moradores, apesar do Estudo de Impacto Ambiental autorizar apenas 40 mil.
O plano urbanístico foi refeito para 40 mil moradores, entretanto criaram uma brecha através de uma reserva destinada a urbanização futura onde cabem outros 40 mil moradores. Ou mais.
A propaganda existe para atrair. Por isso a campanha publicitária do Noroeste informa que será o primeiro bairro verde. O nome “verde” foi escolhido para sugerir construções ecologicamente corretas e não a derrubada de uma área verde, pois o terreno de 4 milhões de metros quadrados fica na Área de Preservação Ambiental (APA) do Planalto Central e foi preciso uma Licença especial de Instalação do Ibama para regularizar a expansão da cidade.
O nome verde está associado a ecologia e a um partido político. No Noroeste, conforme eu li, o verde estará presente na urbanização do Parque Burle Max e na promessa de bom aproveitamento da água, no uso de energia solar, com ventilação e iluminação natural, ciclovias e coleta inovadora de lixo.
A propaganda induz a pensar que todos os prédios serão equipados com coletores de energia solar. Este é um enorme investimento das construtoras que eu duvido que se realize. O máximo que vai acontecer será a iluminação de alguns pontos com investimentos bancados pelo governo, digo pagadores de impostos.Por favor, me belisquem, me acordem , digam que tudo não passa de um engano, de um enorme pesadelo.

06 março 2008

Quando pintei o urubu


Hoje acordei atleta e artista plástico. Acordei, mas não levantei. Apenas fiquei pensando em como é louca a nossa mente. Considerar atleta alguém que caminha quarenta minutos diários por recomendação do cardiologista jamais pode ser considerado atleta. Mas na poderosa e imaginativa mente ainda sou capaz de escalar montanhas e chegar ao outro continente com meia dúzia de braçadas. Para não me chamarem mentiroso eu diria que, tudo bem, uma dúzia de braçadas e chego à África. O mais engraçado é me achar artista plástico. Logo eu, que de artista, sei apenas que Miguelângelo pintou a Mona Lisa.
Enquanto escovo os dentes vou à janela ver como está o tempo.
– Decepcionante.
Aquela deliciosa moça do tempo diria com um sorriso que o tempo está encoberto com nuvens carregadas com o dia sujeito a trovoadas e temporais. Não acho nada sensual um dia carregado de tempestades.
Tenho que fazer alguma coisa, além de guardar a escova de dentes e tirar a espuma da boca. Vão me confundir com algum louco babando pela moça do tempo.
Minha primeira providência é procurar os meus baldes de tinta aquarela que guardo no armário da garagem junto com a árvore de Natal e junto com os meus esquis para neve.
Levo as tintas, a palheta e o pincel para a minha varanda. E abro a minha escada expansível.
Começo da esquerda para a direita. Ou do norte para leste, como preferirem. Pinto o céu de azul e as nuvens de branco. Como há nuvens demais, pinto várias de azul para se transformarem em céu. Mudo a escada de lugar girando para o leste. Apago as nuvens pretas e faço um círculo amarelo com um sol brilhante. Do meio das nuvens surge um avião cujo piloto acena um agradecimento pela melhoria das condições de vôo.
Com a minha rapidez de atleta rapidamente deixo todo o céu azul e várias nuvens branquinhas. Eu fui tão rápido e ágil que agora tenho que me desculpar com o urubu que pintei de branco. O urubu, para minha alegria, não ficou ofendido, ao contrário, disse que esse era o grande sonho dele e que não adiantava ficar apenas alisando o cabelo. Agora sentia-se uma verdadeira garça.
Eu, hem!
Guardo a escada e troco meu jaleco de artista por um calção de atleta. Lambuzo pernas, braços e rosto com protetor solar. Afinal, somente malucos caminham sob um sol abrasador como o de hoje.
Na rua, além do sol quente, percebo poeira, árvores secas e plantas sedentas. Minha consciência dói. Meu egoísmo se retrai e volto para casa como um atleta legítimo: correndo.
Como desfazer? Não tenho tinta preta? Nem sei desenhar raios e trovões.
Sento na frente do micro e aponto o mouse para aquele xizinho do canto superior direito.
– Deseja salvar as alterações em “hoje acordei atleta e artista plástico? Sim? Não? Ou Cancelar?
Apontei o mouse para não e cliquei.
Ah, como é bom poder dormir mais um pouco nos dias chuvosos.

23 fevereiro 2008

Antologia


– Ó, von Silva, o que é antologia?

Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo não faria essa pergunta. Se eu fosse o Raimundo que amava Maria que amava Joaquim, eu também não saberia a resposta. O meu nome é von Silva, não tenho outro de pia.

Se eu estivesse na repartição seria normal este tipo de pergunta. Estou longe de qualquer dicionário porque hoje é sábado. Essa Rosa radioativa estúpida e inválida não deveria ter feito esse questionamento.

Perdido, sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos, procurando uma resposta. Desejei me esconder, desejei ir para Minas, Minas não há mais, quis morrer no mar, mas o mar secou. Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei. Volto para a minha terra que tem palmeiras onde canta o sabiá, que tem cadeiras onde posso sentá e procurar um desmancha-dúvidas. Meu reino por um dicionário!

Deus, ó Deus, onde estás que não respondes? Preciso urgente de um pai-dos-burros. Queixo-me da Rosa, mas a Rosa não fala, simplesmente perguntou o significado de antologia.

Para todas as coisas: dicionário, para que fiquem prontas: paciência. Rosa não tem paciência. Quer resposta. Tem uma pedra no meio do caminho, cadê o maldito tira-teimas?

Toda pedra no caminho você pode retirar. De repente, não mais que de repente surge o salvador e consulto o verbete:

“Coleção de trechos em prosa e/ou em verso.”

– Obrigado, Aurélio!Aurélio, garoto esperto, informa também que intertextualidade é a superposição de um texto a outro.

– Mais uma vez, obrigado, Aurélio!


Pesquisa para o texto Antologia

“Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima , não seria uma solução.” – O Gauche – Carlos Drummond de Andrade

“João que amava Tereza, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili.” – Quadrilha – Carlos Drummond de Andrade

“O meu nome é Severino. Não tenho outro de pia.” – Morte e Vida Severina – João Cabral de Melo Neto

“Porque hoje é sábado.” – O Dia da Criação – Vinícius de Moraes

“A rosa hereditária. A rosa radioativa estúpida e inválida.” – A Rosa de Hiroshima – Vinícius de Moraes

“Sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos.” – Alegria, alegria – Caetano Veloso

“Quero ir para Minas, Minas não há mais, quer morrer no mar, mas o mar secou.” – E agora, José? – Carlos Drummond de Andrade

“Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei.” – Vou-me Embora pra Pasárgada – Manuel Bandeira

“Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá.” – Canção do Exílio – Gonçalves Dias

“Meu reino por um cavalo!” – exclamou Ricardo III na Guerra das Duas Rosas, conforme William Shakespeare

“Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?” – Vozes d'África – Castro Alves

“Queixo-me às rosas mas que bobagem, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti, ai.” – As Rosas – Cartola

"Para todas as coisas: dicionário, para que fiquem prontas: paciência." – Diariamente – Nando Reis

“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.” – No meio do caminho – Carlos Drummond de Andrade

“Toda pedra no caminho você pode retirar.” – É preciso saber viver – Roberto Carlos e Erasmo Carlos

“De repente, não mais que de repente, fez-se de triste o que se fez amante.” – Soneto da Separação – Vinícius de Moraes

“Se você rouba de um autor, é plágio, se de vários, é pesquisa.” – Wilson Mizner

16 fevereiro 2008

Achados e perdidos

Quando abri a cortina para olhar o tempo, vi a minha vizinha andando e gesticulando muito. Tomei o café, li o jornal e coloquei minha bermuda caminhante. Iniciei meus exercícios diários descendo os cinco andares pela escada.
A vizinha, agora com as duas mãos na cabeça, continuava a caminhar agitada no calçamento entre verdes gramados.
Segui meu caminho solitário. Ainda olhei para trás por duas vezes. A mulher andava para lá e para cá no mesmo trecho, nos mesmos cem metros. Parecia desolada, balançando a cabeça de forma negativa.
A vizinha é uma senhora que já passou dos setenta anos, magrinha, magrinha. Cabelos brancos amarrados em coque. Blusinha abotoada até o pescoço e nenhuma maquiagem para disfarçar as olheiras profundas. Viúva. Mora sozinha, sem gato ou cachorro. A filha mora em algum país da América Central. Confidenciou-me o síndico que rareiam os seus alunos de piano e que ela está em débito com o condomínio por cinco meses. Contou também que a solitária professora deve estar com algum outro trabalho, uma vez que passa as tardes fora de casa ao contrário dos últimos dez anos. Pela falta de luz nos olhos parecia ser daquelas pessoas que foram esquecidas pela Dona Morte.
Enquanto eu seguia o meu caminho a Dona Ernestina, esse era o nome dela, balançava seu coque branco e os meus pensamentos.
– O que será que Dona Ernestina perdeu? Algum brinco ou broche familiar? Talvez alguma pulseira que a ligasse ao amado marido?
De longe, vejo a viúva de cabeça baixa procurando na calçada e na grama. A dor também aperta o meu peito. Uma vez perdi uma abotoadura com monograma que herdei do meu avô. Nenhuma outra jóia substitui o ouro e o brilho das pessoas amadas.
A angústia tomou-me o corpo e fui em direção ao desespero personificado naquela mulher.
Ela precisa de ajuda. Quem sabe se eu chamar o pessoal do prédio para auxiliar na busca? Com a ajuda do zelador e mais três faxineiros rapidamente encontraremos a jóia sumida no passeio público.
Dona Ernestina sentou-se no banco.
Aproximei-me e sentei-me ao seu lado. O rosto da Dona Ernestina estava molhado de lágrimas. Peguei suas mãos, tomei fôlego e perguntei:
– O que a senhora perdeu?
– O piano.
Eu me senti um idiota. Perde-se uma carteira, um guarda-chuva, um cachorro ou até um amante. Mas perder um piano?
– Acho que não entendi. A senhora perdeu um piano?
– Perdi o meu piano de trinta anos. Era um Steinway.
Olhei para a grama à esquerda, olhei para a grama à direita como se estivesse procurando o objeto perdido.
– Onde a senhora perdeu o seu piano?
– No bingo. No bingo, meu filho.
Desisti de pedir o auxílio aos funcionários do prédio.A Dona Ernestina perdeu as notas, ficou sem dó.

11 fevereiro 2008

A corrida por um beijo

– Oi, vô, posso caminhar com você?
– Lógico, meu filho. Não era você que estava empinando pipa ontem à tarde?
– Era sim. Você viu como ela estava alta?
– Eu só vi quando você estava com a pipa na mão, correndo para subir. Uma beleza de amarelo! Se você vier comigo pode chegar atrasado na escola...
– Ainda está cedo. Minha aula só começa às oito.
Achei estranho que aquele menino quisesse caminhar comigo. Eu só o tinha visto meia dúzia de vezes, nos gramados que ficam em volta dos edifícios onde moramos. Ele estava visivelmente querendo falar comigo, sentado na escadaria do prédio esperando eu passar.
O menino colocou-se à minha esquerda e seguimos juntos o meu trajeto rotineiro.
– E qual é seu nome?
– Pedro.
– Eu vi você jogando bola outro dia. Você leva jeito. Mas o chamavam por outro nome. Não era?
– Tico. Tico é nome de criança. Prefiro Pedro. Pedro é meu nome e é de homem. Já fiz onze anos, véi.
– Maravilha. E o Pedro torce para que time?
– Torço para o Botafogo. E o senhor?
– Ah, meu filho, o Senhor está lá no céu. Sou Fluminense. – Certamente o menino não quer discutir futebol, ele está tenso. Resolvo arriscar. – E as meninas?
– Pois é vô, você não se importa se eu chamá-lo de vô. Não é?
Parece que acertei, pensei comigo, ele está com algum problema em relação a alguma menina.
– Gosto que me chamem vô. Não gosto quando me chamam de seu isso ou seu aquilo. Em que posso ajudá-lo?
– É que eu gosto da Carolzinha. Já pedi pra namorar com ela e agora apareceu o Joca e quer atrapalhar tudo. Ele também quer namorar ela.
– A Carolzinha deve ser muito bonita...
– Ela é linda. E eu acho que ela gosta de mim enquanto a turma acha que sou muito pirralho pra ela.
– Pirralho?
– Ela tem doze anos e é um pouco maior que eu. Mas só um pouquinho.
– E porque você acha que o vovô pode ajudá-lo?
– É que a síndica falou que você é mó namorador.
– Mas isso é fofoca. Era só o que me faltava. Ela não tem mais o que fazer?
– Eu já vi você caminhando de mãos dadas com várias mulheres diferentes...
– Tá bem, espertinho, vamos retomar a conversa da Carolzinha, isso é o que interessa. Se a Carolzinha gosta de você e você gosta dela por que o Joca iria atrapalhar tudo?
– O Joca é mó bom. È ele que tira par ou ímpar para escolher os times. È só ele que sabe andar de bike na roda de trás. È ele que tira mó onda de sabe-tudo. As meninas só querem saber dele. A turma toda já tá torcendo para ele.
– Então a coisa tá preta. E você acha que a Carolzinha vai cair na onda dele?
– Acho. A Zeca me sacaneou. Inventou uma corrida. E quem ganhar, ganha um beijo da Carolzinha. Mó sacanagem! Tô afim da Carol há muito mais tempo e o Joca é bem maior do que eu e corre mais. Tô ferrado!
Nem perguntei mais detalhes do Joca nem da Zeca para não tirar o foco da preocupação do menino.
– A corrida já está marcada?
– Já. É na semana que vem. A Zeca disse que assim eu teria tempo de treinar. E deu mó gargalhada na minha cara!
– Quer dizer que quem ganhar a corrida ganha um beijo como se fosse aquela medalha olímpica? É isso?
– É isso, vô. Tô ferrado!
– E o Joca, com aquela cara de maioral, ainda disse que me dava 3 metros de vantagem. Filho da mãe!
– E onde vai ser a corrida?
– A Zeca disse que eu poderia escolher qualquer lugar, que o Joca vai ganhar mesmo.
– O Joca também estuda aqui na escola?
– Estuda. Por que? Você não vai falar com as tias, vai?
– Jamais. Isso é coisa de homem. Coisa de homem para resolver como homem.
– O Joca nem quer namorar com a Carolzinha, ele só quer tirar onda e mostrar que ele é o bonzão, o fodão.
– Eu acho que você deve marcar o dia e hora lá na escola.
– Isso é tudo o que ele quer. Aparecer!
– Você deve escolher a hora que tiver mais gente para ver a corrida.
– Para gritarem o nome do Joca? É campeão! É campeão! É campeão! Beija! Beija! Beija! Nunca. È muita humilhação.
– E se for o contrário?
– Contrário como? Não existe a menor chance de eu ganhar a corrida.
– Faça o seguinte: diga que topou o desafio e marque com a turma o dia e a hora na escola. Ainda faça uma provocação que você já está treinando para beijar. Deixe para dizer aonde será a corrida para a última hora.
– Eu hein? Na escola só tem o pátio. Não tem jeito.
– Você quer ou não quer ganhar aquela medalha olímpica?
– Claro, né, vô. Eu amo a Carolzinha.
– Você tem a vantagem de 3 metros não tem?
– Tenho, mas é muito pouco.
– Na última hora diga que é na escadaria da escola. Escada acima. São apenas três andares. E comece a treinar desde já.
Pedro abriu mó sorriso e saiu correndo.– Valeu, véi.

05 fevereiro 2008

Homo brasiliensis

– Cobogó? Que diabos é isso?
Eu não sou de prestar atenção na conversa alheia. Entretanto, às vezes é impossível não ouvir.
Eu estava voltando para Brasília sentado na poltrona do meio. Logo atrás de mim, naquele vôo lotado, estava uma mulher vistosa dos seus trinta anos. Entendi que ela não conhecia Brasília e recebeu convite para trabalhar na capital. Ela queria saber como as pessoas moram em Brasília e encontrou na poltrona vizinha um candango falante que deve ter sido guia turístico. Ambos falavam alto, o que tirou a atenção da minha leitura.
A primeira frase que ouvi foi dele.
– Os ricos, moram no lago. Os bem ricos, numa ponta de picolé.
– Como é? – Indagou a mulher formando rima.
– As pessoas mais endinheiradas moram próximas do lago e os terrenos enormes que ficam nas margens são chamados pontas de picolé. Somente esses têm o privilégio do acesso à água. Acredito que o melhor lugar para morar é no Plano.
– As margens do lago são muito íngremes?
– Não. Por que?
– Você disse que preferia morar em lugar plano.
O vizinho, imagino, deu um sorriso, explicou que se referia ao Plano Piloto e falou das asas Sul e Norte arrematando que as melhores quadras eram as cem e as trezentos.
Naturalmente ela deve ter feito cara de dúvida, pois ele tornou a explicar que as quadras cem e trezentos ficavam a oeste do Eixão.
Continuei sentado no meu lugar, preso ao cinto de segurança, mas com uma enorme vontade de olhar para trás para ver a cara de interrogação da mulher.
– Eixão?
O avião deu uma chacoalhada de modo que perdi aquela explicação. Ouvi outra, já pela metade.
– ... os melhores apartamentos são os mais antigos, são amplos e vazados.
– E o que é um apartamento vazado?
O candango chegou a ser irritante com sua longa e apaixonada explicação.
– Os prédios, conhecidos por blocos, ficam deitados. São compridos em vez de altos. O que faz com que haja maior número de apartamentos no mesmo andar e provoca menos áreas externas, logo há muitos apartamentos com apenas uma frente. Os antigos têm frente e fundo do lado oposto. São os vazados. Todos os apês antigos têm cobogó.
– Cobogó? Que diabos é isso?
Adoro essa palavra formada pela primeira sílaba de três engenheiros que criaram uma parede de tijolos decorativos que permite ventilação e entrada de luz natural. De modo que só ouvi o final da frase do vizinho falante.
– ... além do que, são impressões digitais da cidade.
Daí, ela perguntou qual era o prato típico da cidade.
E ele foi muito criativo na resposta.
– Não há nenhum prato típico porque os moradores têm origens em todas as regiões brasileiras. Na cidade encontramos todos os temperos. Não há prato nem forma comum de preparar alguma iguaria. È usual a reunião das pessoas em torno de uma churrasqueira. Cada um preparando a carne, ou peixe, por que não, a seu modo. Quase todas as casas do Lago têm churrasqueiras. Quase todos os clubes têm churrasqueiras e também há muitas espalhadas nos parques públicos. O churrasco agrega as pessoas. O brasiliense aprendeu que para sobreviver ali deve unir-se com os outros, respeitando e ultrapassando barreiras regionais.
– Uau! Falou bonito! Só ouço as pessoas falarem mal de Brasília, que é onde todos os corruptos se reúnem para roubar o resto dos brasileiros...
Nesse momento a forasteira acertou o fígado de todos os brasilienses com um poderoso golpe direto.
– Pois é, esse lamentável rótulo pertencia ao Rio, enquanto capital. Mineiros pão-duros, baianos preguiçosos, paulistas trabalhadores. Rótulos servem apenas para garrafas. A corrupção está espalhada por todos os cantos do nosso país. Não se salva nenhum enquanto permanecer a impunidade. A diferença é que em Brasília as somas são maiores e a mídia está mais atenta.
A mulher percebeu que cometeu uma gafe ao falar mal de Brasília a um brasiliense. E procurou mudar de assunto:
– Faz muito tempo que você mora em Brasília?
Aliviado, o candango respondeu:
– Agora você já está falando como uma brasiliense legítima...
– Não entendi...
– Quando duas pessoas se conhecem, a primeira pergunta é: há quanto tempo mora na cidade? e a segunda, invariavelmente, é: de onde você veio? Agora, com o passar do tempo e o nascimento de uma geração de nascidos na capital, a coisa mudou um pouco. De qualquer forma, as perguntas sempre são bem-vindas para o início de uma conversa.
– E, há quanto tempo, afinal, você mora na cidade?
– Fui para lá no início da década de 70. No tempo em que a lenda dizia que quem se mudava para Brasília passava pelo estágio dos três dês. Deslumbramento, decepção e desespero. Deslumbramento com as largas avenidas, arquitetura monumental e proximidade com o poder. Decepção ao perceber que morar próximo ao poder não os transforma em nobres. Desespero por não se adaptar à cidade e querer ir embora.
– Era tão ruim assim?
– É uma cidade de gente guerreira. Os perdedores sempre reclamam. O tempo incorporou outro dê. O dê da demência.
– Como assim? Não entendi...
– É quando as pessoas se acostumam, se entrosam e passam a amar Brasília.
– Interessante essa lenda...
– Particularmente, adotei ainda os dês da devoção e defesa da cidade que tão bem me acolheu.
Nesse momento a conversa dos dois foi interrompida pelo forte barulho do retrocesso das turbinas no pouso do avião.
O avião taxiou e estacionou.
Abri a porta do compartimento acima da cabeça, peguei minha sacola e olhei para os que me proporcionaram um vôo mais agradável.Ainda pensei em falar ao conterrâneo que as sílabas de cobogó foram formadas a partir dos nomes de Coimbra, Boekmann e Góis, mas apenas me despedi com um gesto de cabeça.


*Foto de Carlos Vieira

02 fevereiro 2008

Lâmpada mágica dos meus sonhos

Abaixei-me para pegar a lâmpada. Parecia vinda dos sonhos do oriente. Nunca tinha visto um objeto assim, só em filmes, desenhos animados ou livrinhos infantis com histórias mágicas. A forma da lâmpada sugeria cruzamento de bule com açucareiro de latão.
Essas coisas só acontecem comigo!
Olho em volta para conferir se não há ninguém olhando para mim. Isso está parecendo um trote. Qualquer mortal que eu conheço se encheria de sonhos e desejos, esfregaria a lateral, levaria um susto como o mago esfumaçado imaginário e teria o direito de formular três pedidos por libertar o gênio aprisionado por dois milênios.
Imagine se eu iria me dar ao trabalho de ficar elucubrando bobagens como essa?
Caminhão de dinheiro? Mulheres? Uma viagem ao redor do mundo? A paz entre os homens? Eternidade? Não, eu não vou perder tempo com isso. Ainda tenho algumas coisas para fazer antes do sol se por. A primeira é me desviar desse monte de meninos zunindo de bicicleta pela calçada.
Essa lâmpada vai ficar bonita em cima da cômoda na sala. Combina bem com o porta incenso e a caixinha de marchetaria. A quem perguntar, contarei que a ganhei de um xeique árabe por ter vencido uma corrida de camelos.
Olhando a lâmpada vejo que ela está bem sujinha. Está precisando de um polimento antes de ter o direito de ser defumada pelo incenso.
– Você que está lendo, já estava adivinhando que eu iria esfregar a lâmpada. Não é verdade?
Cinco passos adiante comecei a limpar a lâmpada com a barra da camisa.
– Pergunto a você, leitor, o que aconteceu?
Ouvi uma voz atrás de mim. Uma voz infantil, uma voz de menino.
Atrás de mim estava um garoto de uns dez anos de idade com um turbante na cabeça.
– Oi vô. Que bom que você achou minha lâmpada. Ela caiu da bicicleta.
Olhei desconfiado para aquele turbante carnavalesco.
– Bicicleta? Cadê a sua bicicleta menino?
– Tá ali, ó! Devolve a minha lâmpada.
O menino falou com tanta convicção que entreguei o objeto e os meus sonhos infantis.
O garoto pegou a lâmpada e voltou em direção da bicicleta.
Retomei o meu caminho debochando os meus absurdos devaneios. Onde já se viu uma lâmpada idiota provocar tantas fantasias. Melhor assim. Voltar ao meu caminho, à minha realidade.
Enquanto o velho caminhava para um lado, o garoto com a lâmpada na mão, voava no seu tapete para o outro lado.

29 janeiro 2008

Entre quatro paredes

A excitação entra no elevador.
O desejo também entra.
Desce o zíper.
Sobe a saia.
Desce a calcinha.
Sobe a volúpia.
Línguas entrelaçadas.
Isso vai ser uma loucura.
Pensa o ascensorista
enquanto aperta o 22.

19 janeiro 2008

Taturana detalhada

Eu me abaixei na calçada para amarrar o tênis e vi uma taturana.

Não era uma taturana qualquer. Era uma bichinha cheia de detalhes.

Tinha sete centímetros de comprimento e um centímetro de diâmetro. Era gordinha, bem rechonchuda. Era um roliço colar de contas alternados em verde e preto cobertos por enormes pelos negros. Na frente: duas antenas. Embaixo, dos dois lados, uma série de perninhas cabeludas escuras. O rabinho terminava em ponta enquanto a cabeça era redonda e com um par de olhos amendoados.

Vi todos esses pormenores na lagarta que começava a atravessar a rua na faixa de pedestres.

Ela estava na faixa branca quando um carro passou zunindo tirando um fininho da sua orelha.

Levantei a vista e vi outro carro se aproximando veloz. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, os pneus do carro tiraram outro fino da lagarta que prosseguia corajosamente seu rumo ao outro lado da rua.

Olhei novamente para a taturana. A rua tem nove metros de largura. A faixa tem doze listras brancas e outras tantas negras. Calculo que na velocidade em que ela segue o caminho deverá levar oito minutos até chegar do outro lado. È muito tempo. Mais de trinta carros vão passar ali antes que ela chegue do outro lado.

Agora seis carros se aproximam. Tenho que tomar alguma providência para alterar o destino da taturana.

Em Brasília os carros param na faixa de pedestres.

Tomo a única decisão possível naquela fração de segundos.

Aceno com a mão direita a minha intenção de atravessar a rua na faixa destinada aos pedestres e os carros respeitosamente param, um atrás do outro. A minha angústia é maior que a da taturana.Vou em direção à lagarta e a esmago impiedosamente.


Moral da fábula: Detalhes podem encurtar a história.

14 janeiro 2008

Navegando


Fui mordido pela rocha,

o vento cozinhou estrela,

a mangueira ficou a vê-la,

defendeu-me a galocha.


Bebo água com canivete,

o telefone se retrata,

no discurso do vira-lata,

sola do pé mais três dá sete.


Máquina de caldo-de-cana,

picolé sorriu com cautela,

sábado acende a chama.


Jacaré tropeçou na goela,

até Baco Ana profana,

tudo é possível com ela.

08 janeiro 2008

A noite em que brochei



Sabe aqueles peitos das mulheres de filmes americanos? Pois é, a Patrícia tem um par desses. O generoso decote exibe muita energia, poder e alegria. Logicamente a alegria fica por conta, apenas, daquele que tiver o privilégio de brincar naquelas montanhas russas. Ou americanas. Ou brasileiras. Sei lá, eu sempre me perco quando estou cercado no vale.
A Patrícia é da área de marketing e são raras as oportunidades que tenho de encontrá-la no trabalho. Aquela exuberância só fica disponível aos meus olhos nas reuniões semestrais. Até propus que as reuniões semestrais fossem todos os meses. Mas parece que a diretoria não quer que outras gerências se relacionem com o pessoal de propaganda e marketing.
Na última reunião além do decote ela veio de saia. Uma saia comportada. Nem chamou a minha atenção, ao menos antes da reunião começar.
As coisas começaram a se complicar quando o destino me colocou na mesa bem à frente da doutora Patrícia. Eu havia me preparado com afinco para aquela reunião de resultados. Uma boa apresentação respaldada em trabalho eficaz poderia definir uma promoção para alguém daquela sala. E eu queria ser promovido.
No momento em que percebi que a exposição de motivos do departamento de marketing estava naquele decote resolvi abaixar a cabeça e concentrar o meu olhar nos meus apontamentos. Foi aí que eu perdi minha promoção.
Patrícia jogou com toda sua capacidade. Ela estava em casa. O terreno era o dela. Ela já sabia onde seria a reunião. Seria na sala com a enorme mesa de tampo de vidro. E ela se preparou muito melhor que eu. Usou de todos os artifícios para me constranger e me desconcentrar. Ela estava sem calcinha. Fui aplicado, conferi direitinho e me certifiquei que ela realmente, deliciosamente, estava sem calcinha. Ela empurrou um bilhete para mim.
– Quer?
Limpei a baba que escorreu pela lateral da minha boca e assenti com a cabeça olhando para o decote. Era impossível olhar para os olhos da doutora Patrícia.
A fama da doutora era de cumpridora de prazos e compromissos.
Na sexta-feira nos encontramos e fomos ao motel.
Tudo perfeito, Patty estava pleonasticamente divina. Meus sonhos iriam se realizar. Era o sonho de dez entre dez funcionários da empresa.
Só nós dois no quarto. Meia luz. O beijo. A agarração. A volúpia. Mãos acariciando e apalpando. Mãos despindo corpos. Corpos nus se pegando e se esfregando. Libido nos céus. Os enormes e rígidos seios eram meus, todos meus. Meus e da minha língua.
Minha língua descreveu meio círculo no mamilo de Patty e na mesma hora Patrícia, de prazer, cravou as dez unhas nas minhas costas. O sangue correu da perfuração de dez punhais.Brochei. Perdi a promoção, o tesão e a vantagem de dizer que tinha comido a Patrícia.

04 janeiro 2008

O dia em que a banheira transbordou

Relaxar na água calma e morna da banheira é tornar ao útero. É muito melhor do que sentar no chão duro e frio com as pernas cruzadas zen pensar.
Foi nisso que pensei quando levantei da cama.
Escovei os dentes, penteei a juba e liguei toda a água quente e um tequinho da fria. Enfiei um calção, uma camiseta e meu pisante de atleta. Não tenho paciência para ficar deitado numa banheira, prefiro um rápido chuveiro. Entretanto, uma vez por outra, quando estou tenso, faço como fazem com as batatas: deito na água fervente até me desfazer.
Tranquei a porta meti a chave do apê no bolso esquerdo e desci as escadas. Cinco andares.
Faço minha caminhada em quarenta minutos e a banheira leva cinqüenta para encher. Quando agitado, tenso ou preocupado costumo ir a passos mais velozes e retorno do percurso em tempo menor.
Estava muito ansioso. Havia recebido oferta de trabalho, tentadora, fora de Brasília. Sempre é bom ser reconhecido e ser valorizado. Porém, as mudanças tiram-nos de uma situação de conforto e acomodação. São desafiadoras e misteriosas. Já tinha feito tantas mudanças. Mudei de carro, de casa, mudei de penteado e mudei de namorada. Este, na verdade era meu problema. Trocar de namorada. Nunca fico satisfeito. O mundo está cheio de mulheres maravilhosas. Só encontro as erradas. Quando são bonitas, não sabem conversar. Quando sabem conversar não sabem parar de falar. Quando param de falar não são liberadas no amor. Quando são ótimas no amor não sabem fritar um ovo.
Eu estava namorando com a Cláudia, uma mulher que podia ser capa ou a página do meio da Playboy. Deliciosamente culta que argumentava Freud, almoçava Sartre, bordava Machado de Assis, dormia Nelson Rodrigues e cozinhava Neruda. Porém, sempre há um porém, ela era altamente invasiva. Quando eu menos esperava, lá estava ela, metendo o nariz onde não foi chamada. Mas isso já é outra história.
Para mim, importava caminhar enquanto ponderava sobre o convite de trabalho e todas as suas conseqüências, boas e ruins enquanto a banheira enchia para o arremate de uma reflexão.
Pensava no salário, no aluguel de imóvel, na realização profissional e no distanciamento dos filhos quando sem mais nem menos surgiu a figura do síndico que bloqueou meus passos e pensamentos.
Falou-me da reforma da portaria, de taxas extras, do eterno problema do vizinho do 207 que toca saxofone às duas da manhã. Encheu meus ouvidos com o caso do garoto do 405 que belisca todas as empregadas. Auto-elogiou sua administração com a redução de despesas e solicitou meu voto para a reeleição próxima.
A conversa mole me incomodou e procurei uma desculpa para me desvencilhar do maçante síndico. Quando me lembrei da banheira.
Em pânico levei as duas mãos à cabeça e gritei:
– Meu Deus! Deixei a banheira enchendo! – e saí correndo.
Cheguei em cinco minutos e logo vi que a sala, ao menos, continuava seca.
O corredor também estava seco. E nem havia água sob a porta do banheiro.
Que diabos? – pensei – meu filho está viajando e eu deixei a porta aberta...
Abri a porta e espantado vi Cláudia na banheira de espuma.
– Como você entrou aqui?
– Pedi a chave ao seu filho.
Apesar do alívio por não encontrar enchente e apesar da beldade na minha banheira desisti do banho irritado com a invasão da minha privacidade.
Fui para o quarto, sentei no chão duro, assumi posição de ioga e contei até mil antes de fazer amor.

18 dezembro 2007

Por favor deixe seu recado...


Estarei ausente por alguns dias. Retorno antes da virada do ano se o avião não cair. No Natal, desejo que o Papai Noel traga bastante sexo para você.
Minha secretária estará de plantão peça para ela anotar seus recados, solicitei que ela organizasse meu escritório na minha ausência.

16 dezembro 2007

Pombos carnívoros

Nestes tempos de Tsunamis, o Correio Braziliense não publicou, acredito que por falta de espaço, a grande desgraça acontecida aqui na nossa casa. A revista Veja, conforme fonte segura, já está com seus repórteres preparando uma grande matéria e procurando a causa da mutação. Columbófilos consultados disseram que já houve antecedentes tanto numa praça de Versalhes, Paris, quanto em Washington, no Capitólio. O motivo da mutação, ainda conforme o presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Pombas – ABCP, José Carlos Paloma Filho, é a proximidade com o poder que transforma as delicadas aves em agressivas pombas carnívoras.
Abraços,
Klotz

Brasília Urgente – Hoje de manhã, na Praça dos Três Poderes, pombos carnívoros atacaram turistas. A primeira vítima foi uma menina de 5 anos, MDM, que ao oferecer milho aos símbolos da paz teve o dedo anular devorado pelas aves mutantes. Logo em seguida um turista, Severino Morais Silva de 56 anos, vindo do interior da Paraíba teve uma orelha decepada pelas feras voadoras. A imagem da turista estrangeira foi feita por fotógrafo amador pouco antes de Elisabeth Bourbon, 27 anos, ser devorada pelos 17 pombos.

06 dezembro 2007

A bunda de Darwin

O Brasil é um país maravilhoso por abraçar as diferenças raciais com naturalidade.
Eu estava na fila do cinema quando vi, um pouco à frente, um casal diferente. Ela de traços orientais. Olhos puxados, pele amarelada, cabelos negros escorridos, peitos semelhantes a ovos fritos e ausência de bunda. Ele de traços africanos. Pele cor de ébano, lábios grossos, nariz achatado e bundão.
Achei engraçados os dois traseiros ladeados.
Atiçou-me a curiosidade. A mesma curiosidade que teve Darwin ao desembarcar em Galápagos e observar as diferentes espécies de animais.
Lá, em Galápagos, ele desenvolveu a Teoria da Evolução em que, na luta pela vida, os organismos desenvolvem características que favorecem a sobrevivência da espécie. Assim a girafa alongou o pescoço para alcançar as folhas mais altas das árvores e o camelo dos desertos, para armazenar água, consegue beber até 120 litros de água de uma única vez. Nenhum destes animais estava em Galápagos como o filme que eu veria pouco depois também não se passava naquela ilha.
Aquelas bundas e a teoria da evolução me fizeram refletir que, lá no passado distante, a cópula humana devia ser como a dos outros quadrúpedes, naquela posição em que Napoleão perdeu a guerra.
E se o oriental, é o que dizem, tem um bilau pequeno então a fêmea oriental de geração em geração, teve sua poupança diminuída para que houvesse a fecundação.
Por outro lado, isto é, pelo mesmo lado, o traseiro, as fêmeas africanas, com o passar das gerações tiveram sua poupança aumentada para evitar as espetadas doloridas das enormes – é o que dizem – espadas africanas.
Coitada daquela japonesa namorando o negão.

02 dezembro 2007

Quase pisei!

Nenhuma novidade. Todos os dias caminho. Todos os dias desvio de cocôs caninos. Todos os dias fico estressado. Hoje resolvi não me estressar.
Tenho lido algumas revistas e artigos de auto-ajuda. E li algo parecido com o provérbio que diz: “Se Deus lhe der um limão faça um limonada”. Agora que estréio pisante novo, branquinho, fico mais preocupado ainda em não batizá-lo com cores marrons. Dizem que marrom dá azar. Pura superstição. Mas, voltando ao provérbio e o mal que me aflige nas manhãs caminhantes, imagino que fazer limonada de titica de cachorro não é exatamente a proposta do provérbio. Nos livros de auto-ajuda os exemplos e os resultados sempre são imediatos e de facílima aplicação. Está difícil imaginar-me fazendo limonada tão insólita.
Nem sei se os livros de auto-ajuda estão preparados para ensinar seus dogmas aos caminhantes. Dizem que para estimular a estima e confiança devemos caminhar com o olhar acima da linha do horizonte. Olhar para baixo deprime. Em São Paulo, com aquele monte de edifícios, todos ficarão com torcicolo. E tem mais, se eu olhar para cima enquanto bato pernas, como fazer para desviar das lembranças caninas? Meu estimado tênis vai ficar deprimido e sujo.
Se Deus lhe der um limão faça uma limonada. O que é que isso tem a ver com as fezes caninas? Não foi o Todo Poderoso que as espalhou calçadas afora. Se tivesse sido teria realizado um trabalho perfeito. Não teríamos como escapar. A cada passo estaríamos xingando e blasfemando. O Divino não iria provocar a ira dos homens contra sua Pessoa.
Acredito que o provérbio sugira que devo pegar o cocô, literariamente é claro, e transformá-lo em algo agradável e que, ao invés de provocar aborrecimentos traga alegria.Paro em frente à primeira marca canina e observo a longa calçada. O desenho do cimentado é curioso, lembra um longo jogo de amarelinha. Um pé, depois dois pés, um pé novamente, depois dois pés, seguindo até onde o olhar alcança. Abro um largo sorriso, vou tomar a minha limonada, recolho o pé esquerdo, imitando saci pererê, e salto de amarelinha evitando os quadrados já ocupados.
 
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