31 janeiro 2017
Panapaná
Curioso?
Também fiquei. Eu
tinha um
dicionário à mão .
Talvez você não tenha. Se tiver, não
precisa buscar ,
até o final
do texto desvendaremos esta charada .
Panapaná
não tem prefixo
nem sufixo .
E nem crucifixo
para quem não souber o significado.
Existe
um jogo
com centenas
de palavras , cada
uma associada a cinco
possibilidades, apenas uma verdadeira.
Os jogadores devem tentar
descobrir o significado
se não souberem a resposta
certa . Este
não é um
jogo , apenas
um breve
exercício mental.
Panapaná
não tem origem
grega nem
latina . Não
provém do francês , nem
do inglês . É produto
nacional , do bom .
Ascendência tupi .
Desta língua aprendemos e guardamos pouco . Ita é pedra .
Pira é peixe .
Boi é cobra
e açu é grande . Só conhece
quem se aventura
por palavras
cruzadas .
Com
estas dicas já
podemos deduzir que
panapaná não é nome
de palavra para
invento do homem
nem de coisa
relacionada a modernidades. É coisa da natureza ou de sentimento .
Panapaná
apesar de coletivo
não se encontra
nas cidades . Não
é coletivo de transportar
pessoas , é coletivo
de transportar sonhos .
Panapaná
não é uma borboleta ,
é um conjunto
delas refletindo a alegria do sol em devaneios coloridos.
23 janeiro 2017
Todas
as terças-feiras procuro postar um texto no aqui e no Facebook. Estou adiantando meu
expediente porque viajo amanhã extremamente cedo (eca) e ficarei ausente do
face por vários dias.
UM
DIA COMO CRONISTA CULINÁRIO
Bom dia, meus caros leitores. Hoje é a minha
estreia como cronista culinário. Pediram que eu preenchesse esse vazio no
jornal. Espero, sinceramente, que a minha despedida ocorra breve também.
O cara que escrevia gracinhas regularmente
neste espaço queimou a ponta dos dedinhos na tampa no forno e está
impossibilitada, digo impossibilitado de digitar. Por escrever artigos
políticos sérios e de importância para o desenvolvimento do país, argumentei
que o máximo que entendo de cozinha é reclamar do cafezinho fétido que servem
aqui na redação, porém o editor me convenceu (sob ameaça de desemprego) a
cobrir o coleguinha. Pensei em cobri-lo de porrada, mas isso não interessa a
você, leitor. Não é mesmo?
Antes de escrever as primeiras linhas me
informei que crônicas são narrativas diárias com o tamanho exato de um
retângulo predeterminado. Nem um apóstrofo a mais nem uma exclamação a menos.
Que a crônica é o relato de um flash, que é a manchete na alma do cronista ou
que é a literatura de bermudas.
Imagine, caro leitor deste cantinho de jornal,
se eu me sentiria à vontade em visitar os Ministérios, trajando sóbrio paletó
azul-marinho, uma gravata listrada sobre a camisa impecavelmente passada e uma
bermuda xadrez? Sem chances!
Antes mesmo de passar por esse constrangimento
eu telefonaria para agendar uma entrevista com a autoridade.
— Secretaria de Assuntos Estratégicos. Gabinete
do Dr. Peçanha, boa tarde.
— Por favor, eu gostaria de marcar uma hora com
o Sr. Secretário.
— Pois não, qual é o assunto?
— Eu preciso trocar umas receitas de bolo de
laranja. — Isso é ridículo, pensei. Ninguém merece!
Jamais escreverei uma crônica. Crônicas são
futilidades, pseudoartigos, inutilidades escritas por quem pensa pequeno, sem
objetivos na vida.
Às três e meia, o editor telefonou cobrando a
crônica, disse que deveria ser entregue diariamente até as quatro horas.
Aleguei desconhecer histórias dos bastidores da cozinha do Planalto.
O editor, sem rodeios, determinou que eu
escrevesse uma receita de pizza. Em meia hora.
Senti minha batata assar. Um tremendo objetivo
para escrever uma crônica. Isso me inspirou imediatamente.
Eu já havia lido que a origem da pizza é
questionada. Falam em egípcios, árabes e gregos. Os gregos, que eu saiba,
inventaram a democracia, um cavalo de pau e a filosofia com discussões
intermináveis. Aos napolitanos cabe a fama da descoberta só porque
acrescentaram tomates na cobertura. O que importa é a receita brasileira.
Pegue-se um monte de gente indignada que exija
a solução de um assunto grave. Dê-lhes um banho de água fria. Misture sem fazer
muita força. Enrole e desenrole até formar uma massa homogênea. Faça uma bola
bem grande e amasse com um rolo até virar um disco chato como a Praça dos Três
Poderes. Cubra tudo com queijo até que não se veja mais nada da base inicial.
Deixe descansar por alguns dias. Ou semanas. Se a mídia cobrar resultados,
adicione rodelas de cebola, azeitonas e fatias de tomate, cebolas. Morte, digo,
presunto só se a pressão for muito grande. Salpique manjericão e orégano. Para
assar, procure um forno com o formato e tamanho da cúpula do Senado Federal.
Sirva com cerveja gelada para comemorar.
A autêntica pizza brasileira é produzida em
forno público. Trabalho em jornal, uma empresa privada, por isso nos próximos
dias retornarei com saborosas receitas como a vingança servida em prato frio.
09 janeiro 2017
Milton Hatoum
Companhia de Bolso
200 páginas
R$25,00
Hoje é estreia da minissérie homônima na TV
Globo. Li o livro em maio de 2016 e acho que postei a minha crítica. Entretanto,
tendo em vista o momento, republico.
O primeiro capítulo do livro é curtinho,
porém muito impactante. O autor recortou um trecho de altíssimo grau de emoção
da história e abriu o livro com ele.
Eis os dois últimos parágrafos deste
capítulo:
“Eu não a vi morrer, eu não quis vê-la
morrer. Mas alguns dias antes de sua morte, ela deitada na cama de uma clínica,
soube que ergueu a cabeça e perguntou em árabe para que só a filha e a amiga
quase centenária entendessem (e para que ela mesma não se traísse): “Meus
filhos já fizeram as pazes?”. Repetiu a pergunta com a força que lhe restava,
com a coragem que mãe aflita encontra na hora da morte”.
“Ninguém respondeu. Então o rosto quase
sem rugas de Zana desvaneceu; ela ainda virou a cabeça para o lado, à procura
da única janelinha da parede cinzenta, onde se apagava num pedaço do céu
crepuscular”.
O capítulo lança uma questão “Meus
filhos já fizeram as pazes?“ que mostra um enorme conflito e com a pergunta
atiça a curiosidade do leitor. Antes de responder sim ou não, somos provocados
à bisbilhotice, queremos saber que motivo é forte o suficiente para colocar em
lados opostos dois irmãos? Ansiamos por saber por que estão brigados.
A história se passa em Manaus de 1910 a 1968.
No período, o autor mostra a evolução da cidade enquanto inunda as páginas com
as águas do rio Negro e enreda a história de imigrantes libaneses com ramos das
seringueiras e sons dos pios de jaçanãs e jacu-ciganas.
Aos poucos somos apresentados aos irmãos
gêmeos Omar e Yaqub.
Em relação a Yaqub: “O que lhe faltava
no manejo do idioma sobrava-lhe no poder de abstrair, calcular, operar com
números”.
“E para isso”, dizia o pai orgulhoso,
“não é preciso língua, só cabeça. Yaqub tem de sobra o que falta no outro”.
O outro, o Caçula – referindo-se a Omar
– exagerava as audácias juvenis: gazeava lições de latim, subornava porteiros
sisudos do colégio dos padres e saía para a noite, fardado, transgressor dos
pés ao gogó, rondando os salões da Maloca dos Barés, do Acapulco, do Cheik
Clube, do Shangri-Lá. De madrugada, na hora do último sereno, voltava para
casa.
“Colhe a orquídea mais rara, mas também
arranca a aninga da lama”.
Apesar de narrado na primeira pessoa, durante
muito tempo ficamos sem saber quem é o narrador. “E a mim, sem me olhar, sem se
importar com a minha presença Na verdade, para Zana, a mãe dos gêmeos, eu só
existia como rastro dos filhos dela”.
No transcorrer da história descobrimos
que o narrador é filho de um dos gêmeos com a empregada índia que mora nos
fundos da casa. O narrador, desprezado pela família, quer saber quem é o pai.
Quem são os pais dos gêmeos?
Halim, marido de Zana e pai dos gêmeos
era comerciante. “Vendia coisas de qualquer um. Vendia sem prosperar muito, mas
atento à ameaça da decadência, que um dia ele me garantiu ser um abismo. Não
caiu nesse abismo, nem exigiu de si grandes feitos. O abismo mais temível
estava em casa, e este Halim não pode evitar”.
“A intimidade com os filhos, isso o
Halim nunca teve. Uma parte de sua história, a valentia de uma vida, nada disso
ele contou aos gêmeos”.
“Mas acreditava, bêbado de idealismo, no
amor excessivo, extático, com suas metáforas lunares. Um romântico tardio, um
tanto deslocado ou anacrônico, alheio às aparências poderosas que o ouro e o
roubo propiciam. Talvez pudesse ter sido poeta, um flâneur da província; não
passou de um modesto negociante possuído de fervor passional”.
E quem era a esposa Zana?
“Era possuída por uma teimosia
silenciosa, matutada, uma insistência em fogo brando; depois, armada por uma
convicção poderosa, golpeava ferinamente e decidia tudo, deixando o outro
estatelado.”
E a pergunta lançada o primeiro
capítulo?
“O duelo entre os irmãos era uma
centelha que prometia explodir”.
“Duelo? Melhor chamar de rivalidade,
alguma coisa que não deu certo ente os gêmeos ou entre nós e eles, revelou-me
Halim, mirando a seringueira centenária no quintal.”
Antes que eu, nas transcrições, revele
mais do que deveria, adianto que se trata de uma história triste, uma história
sem advertências ou opiniões de moral. É história de seduções consanguíneas. É
história de incestos, paixões e ódios.
Em vez de responder a pergunta, elaboro
outra: porque levei tanto tempo para conhecer a escrita de Milton Hatoum?
06 janeiro 2017
ALEGRIA
— Quer saber de alguém feliz?
— Eu.
— Por que?
— Há quase dois meses lancei o Manual do escritor e ele já viajou pra tudo que é lugar do Brasil. Está nas cinco regiões. Em 12 estados e 27 municípios brasileiros. Mas também já tem exemplar na Argentina e nas longínquas ilhas Cabo Verde na costa africana.
Os Correios – impresso simples sem registro – entregam para as capitais em até três dias. Demora uma semana para as outras cidades. É bem verdade que por causa do volume das entregas do Papai Noel algumas demoraram mais do que o previsto. Mas chegaram.
— Como é que sei disso?
— É porque detenho o monopólio das vendas e controlo tudinho, tudinho.
— Realizado?
— Tem mais alegria. Já recuperei o investimento da gráfica, revisor, diagramador...
Agora é tomar chope e brindar. TCHIM TCHIM.
— Eu.
— Por que?
— Há quase dois meses lancei o Manual do escritor e ele já viajou pra tudo que é lugar do Brasil. Está nas cinco regiões. Em 12 estados e 27 municípios brasileiros. Mas também já tem exemplar na Argentina e nas longínquas ilhas Cabo Verde na costa africana.
Os Correios – impresso simples sem registro – entregam para as capitais em até três dias. Demora uma semana para as outras cidades. É bem verdade que por causa do volume das entregas do Papai Noel algumas demoraram mais do que o previsto. Mas chegaram.
— Como é que sei disso?
— É porque detenho o monopólio das vendas e controlo tudinho, tudinho.
— Realizado?
— Tem mais alegria. Já recuperei o investimento da gráfica, revisor, diagramador...
Agora é tomar chope e brindar. TCHIM TCHIM.
02 janeiro 2017
Titivillus
PARTE DO CAPÍTULO 6.7 – Titivillus – do “Manual do escritor”
Titivillus
é o nome de um demônio surgido na época dos escribas medievais. Provocava
equívocos nas cópias de manuscritos e códices.
Segundo
anotações dos clérigos nos pergaminhos, Titivillus sempre aproveitava os
vacilos e as distrações dos monges copistas para comer letras, engolir sílabas
ou devorar linhas inteiras. Com o desenvolvimento da espécie, passou a se
divertir às custas dos copistas. Trocava letras e palavras doces por outras
menos saborosas.
No
Renascimento, aposentaram os copistas, mas o diabinho voou alegremente para as
tipografias, onde, entre prensas e caixas de tipos, sentia-se animado para
continuar as diabruras. Apesar dos avanços da tecnologia ainda não terem criado
vacina ou antídoto eficaz contra a praga. Hoje, com a internet, com os
corretores ortográficos dos celulares e processadores de texto, está feliz e
disposto a cometer confusões ainda maiores e com maior rapidez.
O
Titivillus moderno ataca quando preenchemos os enormes formulários virtuais e,
ao invés de clicarmos no botão enviar, eles embaralham nossos dedinhos gordos e
clicamos delete.
Ele
está mais vivo do que nunca.
Preste
atenção na cara do Titivillus. Não é à toa que no jargão dos revisores a
revisão final é chamada cata piolho.
Pois,
vou contar o que aconteceu comigo:
Tive
um mês exaustivo para entregar a tempo os escritos relidos e revisados à
gráfica para atender ao cronograma exigido pela editora. Era o resultado de
seis longos anos de pesquisas sobre lendas e mitologias grega, romana, celta,
nórdica e germânica. Finalmente estava pronto. Saiu do virtual e foi para o
papel.
Apesar
de ter outros livros publicados, passei a semana sem dormir aguardando ansioso
o nascimento do mais recente.
Fui
até a gráfica na hora combinada e o diretor solicitou ao estagiário trazer da
oficina um dos 3.000 exemplares impressos.
Segurei-o
nas mãos e fiquei vermelho como a capa do livro.
A
capa cinza e preta foi alterada sem minha autorização. Abri o livro e num
relance encontrei meia dúzia de erros de português.
O
estômago revirou-se recordando-me do capítulo sobre um demônio medieval, o
legendário Titivillus. O capetinha havia chegado ao extremo. Trocou as cores da
capa, alterou título, mudou até o nome do autor.
Antes
que eu vomitasse revoltado, o diretor ordenou ao estagiário:
— Meu
filho, o livro não é esse. Traga aquele com a capa cinza e preta.
Vários autores, por descuido na
revisão,
em vez de orgulho
passaram a ter vergonha
dos próprios livros após a
publicação.
|
Quer um exemplar do Manual do escritor? Custa R$ 40,00 – correio incluso. Faça seu
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23 dezembro 2016
Caixas de natal
Há vários dias eu procuro uma mensagem que traduza
meus sentimentos do Natal.
O amigo Marco Antunes colocou-os em versos.
E, com esses versos desejo que nesse dia especial
todos desembrulhem o espírito natalino encaixotado desde janeiro passado. Feliz Natal!
CAIXAS DE NATAL
Poema de Marco Antunes.
A verdade é que já não sei mais
tirar das caixas o Natal
como fazíamos anos atrás.
como fazíamos anos atrás.
Era um não mais parar de descer caixas
guardadas em lugares altos da casa
durante os meses tristes do ano.
E todas eram caixas de sonhos:
redondas, compridas, largas
ou em formas improváveis de estrelas,
mas sempre cada uma revestida
de flores, de cestas de flores,
de pássaros que voavam fitas,
de anjinhos instrumentistas,
de formas natalinas e brilhos e
de moças antigas com sombrinhas de renda...
As caixas em si já eram o Natal
ou seu presságio e, quando abertas,
libertavam todas as esperanças
de frutos de cristal e pinhas de ouro.
A primeira delas,
pouco maior que uma caixa de sapatos,
revestida de estrelinhas, luas e sóis,
guardava lampadinhas coloridas
e era dever e privilégio de meu pai abrir.
Abrir e desenrolar o novelo de fio verde
que escorria pela sala até o corredor
enquanto, na outra ponta,
meu pai, muito sério, solene e preocupado,
fazia o primeiro teste na tomada...
ou seu presságio e, quando abertas,
libertavam todas as esperanças
de frutos de cristal e pinhas de ouro.
A primeira delas,
pouco maior que uma caixa de sapatos,
revestida de estrelinhas, luas e sóis,
guardava lampadinhas coloridas
e era dever e privilégio de meu pai abrir.
Abrir e desenrolar o novelo de fio verde
que escorria pela sala até o corredor
enquanto, na outra ponta,
meu pai, muito sério, solene e preocupado,
fazia o primeiro teste na tomada...
Ah! Que bonito que era!
Porque em menos de um segundo,
as dezenas de cores se acendiam
como um rio de felicidade
que corria pela sala e lambia o corredor,
convidando o resto da casa para a festa que começava.
Claro que, no percurso da luz,
sempre uma ou outra morrera
durante o ano no silêncio dos armários,
mas a doce providência daquele homem,
tirava dos bolsos novos lumes e a festa prosseguia.
A segunda caixa era imensa,
talvez a mais feia delas,
porque de um reles papelão
onde apenas se lia "Made in England"
mas de dentro, saía ainda encolhida,
ramos tímidos, amassados,
a velha árvore de tantos natais.
Depois de despertada do seu sono,
revividos os ramos, desamassadas as folhinhas,
ela se revelava frondosa e de um verde perfeito
que para sempre, onde surgisse, seria dela
o verde da velho pinheiro inglês
que nos floria os natais.
Desapertá-lo era uma tarefa de todos
e a ela nos dedicávamos alvoroçados
felizes de, enfim, sermos chamados a ajudar.
A terceira caixa, muito fina, mas larguíssima,
se recobria de um papel prateado
com desenhos infinitos de flocos de neve,
dentro, os lamentos ficavam congelados
à espera desse dia em que viriam, depois das lâmpadas,
adornar nosso pinheiro dando-lhe uma remota
aparência de neve, neve da lembrança dos avós,
neve que não havia em nosso Natal.
Esses lamentos de prata
eram a delícia dos dedos nessa festa
porque nada, nunca em nossa vida
jamais seria tão macio
quanto aqueles fios
de leveza imponderável...
e a ela nos dedicávamos alvoroçados
felizes de, enfim, sermos chamados a ajudar.
A terceira caixa, muito fina, mas larguíssima,
se recobria de um papel prateado
com desenhos infinitos de flocos de neve,
dentro, os lamentos ficavam congelados
à espera desse dia em que viriam, depois das lâmpadas,
adornar nosso pinheiro dando-lhe uma remota
aparência de neve, neve da lembrança dos avós,
neve que não havia em nosso Natal.
Esses lamentos de prata
eram a delícia dos dedos nessa festa
porque nada, nunca em nossa vida
jamais seria tão macio
quanto aqueles fios
de leveza imponderável...
E chamavam-se lamentos!
(Tudo era poesia em nosso Natal!)
A quarta caixa, grande e redonda,
tinha moças antigas em fundo rosa
passeando como num romance antigo
ou se balançando em lindos cordões de flores.
Essa era a mais aguardada das caixas,
porque não regateava cores e brilhos
todos impossíveis depois do Natal.
Minha mãe sabia desse potencial mistério
e demorava, e demorava muito
em nos presentear de vez,
abrindo a tampa com descabido cuidado,
como se um descuido qualquer
pudesse pôr tudo a perder,
ansiosos, todos nós, inclusive meu pai,
que nunca deu pelo estratagema,
abaixávamos a cabeça
para ver já pela primeira fresta
uma miríade de bolas coloridas reluzentes
que eram frutos transcendentais desse pomar natalino.
(Tudo era poesia em nosso Natal!)
A quarta caixa, grande e redonda,
tinha moças antigas em fundo rosa
passeando como num romance antigo
ou se balançando em lindos cordões de flores.
Essa era a mais aguardada das caixas,
porque não regateava cores e brilhos
todos impossíveis depois do Natal.
Minha mãe sabia desse potencial mistério
e demorava, e demorava muito
em nos presentear de vez,
abrindo a tampa com descabido cuidado,
como se um descuido qualquer
pudesse pôr tudo a perder,
ansiosos, todos nós, inclusive meu pai,
que nunca deu pelo estratagema,
abaixávamos a cabeça
para ver já pela primeira fresta
uma miríade de bolas coloridas reluzentes
que eram frutos transcendentais desse pomar natalino.
Nossos olhos de criançadescobriam-se refletidos em rostos redondos
nos globinhos soprados em vidro tão fino
que se diria poderem pairar entre os galhos
sem auxílio de fios.
Ah! Que tristeza pelas bolas que se quebraram
e curiosidade pelos caquinhos restados,
como se, de repente, víssemos a anatomia dos sonhos!
Minha avó, sentada em sua cadeira de balanço,
ia pondo o fio de linha dourada em cada uma das bolas
e de suas mãos colhíamos a felicidade para dispor nos galhos.
os mais altos meu pai alcançava sozinho,
mas para lá iam somente as bolinhas
pequenas, dessas que as crianças não disputavam!
A essa altura, já era a toda prova, uma árvore de Natal
e nós nos afastávamos todos
para ver de longe como estava ficando a obra.
Maria vinha da cozinha com guaraná e biscoitos
que eram um modo de convidar o paladar
à alegria!
A sexta caixa era a dos pássaros e fitas
e nela se guardavam os enfeites variados
sua abertura era o requinte da euforia:
pássaros de vidro, pingentes de cristal,
sinos dourados, bengalinhas listradas,
anjinhos de porcelana, soldadinhos de madeira,
janelinhas enfeitadas, guirlandas de flores,
corações de rendas pedras preciosas,
pombinhos de purpurina branca,
igrejinhas, casinhas, trenós, renas e Papai Noel.
A árvore resplandecia então de mil histórias
com que a fomos enfeitando em cada peça.
era o melhor do mundo em nossa sala de estar!
Então, meu avô e só ele, abria a caixa grande
dos anjinhos instrumentistas e de lá tirava
uma a uma com respeito e reverência as
figuras da natividade
e todo ano
Com a mesma paciência
nos contava a história do menino Jesus,
o último a ir para o presépio
e todo ano ouvíamos como se fosse a primeira vez.
Por fim de uma caixa comprida
revestida de flores,
saía, ainda coberta de papel de seda
a longa e bela ponteira,
que era o auge e o fim da festa.
Meu pai pegava um de nós
"ao acaso"
e naquele ano,
suspendia para glória o felizardo
que a colocava no topo da árvore
e minha mãe ligava as luzes
enquanto vovó e vovô já
cantavam baixinho "Noite Feliz".
Procuro entre minhas lembranças esses tesouros
guardados em caixas no meu coração
como se fossem minhas Rosebuds
onde foram parar as caixas
em que ainda estão guardados todos aqueles natais
Onde?
Onde foram parar as caixas em que ainda ontem
Nós guardamos pela última vez a felicidade?
13 dezembro 2016
Precisa-se advogado
Coloquei anúncios e solicitei currículos a meus
amigos. Eu precisava de um outro advogado para o meu escritório. Passei a
peneira e selecionei apenas alguns poucos candidatos.
Eu buscava algum relativamente novo, com alguma
experiência em análise e elaboração de contratos. Queria alguém estudioso, que
tivesse passado no exame da ordem. Tanto fazia homem ou mulher. Pouco me
importavam os conceitos alto, gordo, moreno, nariguda ou elegante.
O primeiro foi muito eloquente dentro de um
terno impecável.
O segundo, que trajava uma gravata listrada
azul e vermelha, se mostrou experiente, trabalhara um bom período defendendo
uma empresa dos consumidores.
Em terceiro se apresentou uma moça com saltos finos e vestido pouco
acima dos joelhos, usava óculos discretos que confirmavam a seriedade no
linguajar de advogada experiente.
O quarto candidato, um sujeito que nem pensei
que viera para a entrevista. Combinava a bermuda preta com a camiseta estampada
com a cara de morcego do Gene Simmons do Kiss.
— O que deseja?
A resposta veio direta, objetiva, seca, na
lata, sem rodeios.
Apontou para o chão com o indicador em riste.
— Trabalhar aqui.
Apavorado com a ideia de um roqueiro hard rock
numa casa clássica, perguntei:
— O que tem na cabeça?
Com a mesma segurança e desenvoltura voltou as
duas mãos para cima.
— Cabelos verdes, uma tatoo tribal na testa, um
piercing na narina e dois alargadores nas orelhas.
— Sinto muito. Advogado não é nome de banda. — Abri a porta. — Próximo por,
favor.
11 dezembro 2016
Entrevista na Rádio Senado
Foi ar hoje a minha
entrevista à Rádio Senado.
De tão boa, rendeu e-mails
para aquisição do Manual do escritor.
Obrigado, Margarida
Patriota.
Autores e Livros
Entrevistas sobre o mundo
da literatura na Rádio Senado
Apresentação: Margarida Patriota
Produção: Samara Sadeck e Marina
Domingos
Sábado,
às 17h, com reprise no domingo, às 9h
http://www12.senado.leg.br/radio/1/autores-e-livros
05 dezembro 2016
Ousei participar de um
Festival de Contação de Histórias em Goiás.
Mandei um vídeo e
minha interpretação foi classificada entre os finalistas.
Meu prêmio foi
conseguir decorar um texto e dizê-lo em público.
Eu me diverti e fiquei
orgulhoso por perder para uma interpretação para o Apólogo, um conto do Machado
de Assis.
Eis o conto:
A velha e o fogo
A velha ateava fogo em alguns
papéis. Numa das mãos, um jornal servindo de tocha e na outra um galho para
cutucar a papelada. Foi só no que reparei.
Não. Eu reparei que ela usava
umas roupas estranhas, algo como um vestido sobre outro. Talvez um vestido
sobre uma camisola. Usava uma touca artesanal, de crochê claro. Não pude ver o
rosto. As mãos eram bem alvas, assim como os tornozelos acima das meias brancas
que calçavam um par de sandálias de dedo.
Passei
por ela e segui o meu caminho. Para mim, foi apenas uma figura esquisita em
roupas azuis desbotadas queimando pertences num local afastado, um atalho entre
o meu prédio e a larga avenida.
Quando
entrei no Eixão, o sol esquentou e revi mentalmente aquela senhora incendiária.
Prestei atenção na figura e passei a divagar.
Primeiro,
sorri com ternura imaginando que a meiga anciã devia estar enviando mensagens
para o céu com a fumaça. Julguei que seriam poemas saudosos, escritos com
letrinhas tremidas, após a dolorosa separação quando o marido partiu em viagem
para o infinito. Imaginei recordações em longas cartas lembrando o nascimento
dos três filhos, a alegria da viagem ao Rio de Janeiro, quando juntos rezaram
ao pé do Cristo no alto da cidade. Imaginei a frágil senhora enviando aos céus
a receita das empadinhas de palmito, favoritas do finado, para que algum anjo
cozinheiro lhe recordasse as delícias terrenas. Fantasiei procurando captar o
sonho da paixão de um jubileu dourado.
Quase
fui atropelado por uma bicicleta que vinha em sentido contrário. O susto
acordou-me dos devaneios e levou-me a refletir que os papéis queimados poderiam
ter sido escritos pelo saudoso marido. Quem sabe agora, às vésperas de mudança
de endereço, quisesse evitar que os filhos soubessem como o casal se amara com
volúpia, ao contrário da inocência dos filhos, que sempre julgaram ter pais
pudicos por terem praticado sexo apenas nas três únicas vezes em que geraram os
três únicos filhos. Ninguém mais acredita em Papai Noel , mas os
filhos sempre acreditam em pais castos, puros e assexuados.
Naquele
momento também ri. Ri de mim, por acreditar em Papai Noel e em
sinceras declarações apaixonadas. A mulher devia estar apagando o passado de
fogo ardente. Isso faria muito mais sentido. Passei a imaginar confissões de lascívia
e luxúria de um amor adolescente. Não, isto não justificaria sair de casa num
domingo de manhã, para atear fogo nas relíquias, longe dos olhos da família. A
velhinha, pensei, deve querer ocultar, para sempre, pecados mais fortes.
Decerto, cartas do amante. Manuscritos que revelavam promessas, desejos e
realizações. Linhas anunciando palavras ditas sob as cobertas. Ali estaria o
envelope com o nome e endereço completo do amante. Ali estaria uma fotografia
do casal adúltero, numa tarde de outono. A família e a sociedade jamais
poderiam saber daqueles poentes escaldantes. Ali, no meio da fogueira, estaria
a carta com a surpresa e alegria do amante ao saber que seria pai.
A
cada passo que eu avançava a velhinha rejuvenescia nos meus pensamentos. Ficava
mais bonita, sensual e atraente.
Agora,
idosa e dependente, às vésperas de mudar para a casa do filho bastardo, todos
os seus pertences ficariam expostos. Inclusive a verdade, guardada na caixa de
papelão rosa. O receio da rejeição e o temor de ser enviada para um asilo a
faziam queimar o passado.
Durante
uma hora e meia caminhei pensando na velhinha e nos seus doces ou picantes
segredos matrimoniais. Quando saí do Eixão, a curiosidade era tão grande que
resolvi verificar se sobrara alguma coisa legível naquelas cinzas.
Durante uma hora
e meia caminhei pensando na velhinha e nos seus doces ou picantes segredos
matrimoniais. Quando saí do Eixão, a curiosidade era tão grande que resolvi
verificar se sobrara alguma coisa legível naquelas cinzas.
— Foi aí que o senhor, seu delegado, apareceu e me flagrou com aquele
crânio fumegante nas mãos.
29 novembro 2016
Nome do personagem
Estou orgulhoso com
a ótima aceitação do Manual do escritor.
Recebo inúmeras
encomendas do Brasil afora.
2.6.1 Nome do personagem
Os
nomes dos personagens são tão importantes nos livros que às vezes pulam das
páginas para a capa: Dom Casmurro, Lolita, Cinderela, Iracema, Hamlet, Ulysses.
Para os pais é difícil escolher um nome para o filho. O autor
vivencia responsabilidade semelhante.
Ao nomear um personagem você o está credenciando.
► Você batiza o personagem com o
intuito de representar suas características ou de reforçá-las.
Considere
a sonoridade do nome, a individualidade do personagem. Evite nomes semelhantes
no mesmo enredo (Os inúmeros Aurelianos Buendía de Cem anos de solidão confundiram a minha leitura!). Perceba que
apelidos derivativos e contrações facilitam a vida do escritor ao esquivar-se
de repeti-lo.
Na
vida real jamais soube de alguém chamado Caim. Certamente nenhum pai quis
atribuir a fama de assassino a um filho. Na escrita, Clara
nunca será negra. Jesus é contraditório para um assassino. Apelido de bandido
será sem diminutivo. Fritz não será índio, nem japonês.
Há
vários com simbologia marcante: Inocêncio (inocência), Júnior (filho), Joana
D’Arc (mártir), Cornélio (traído), Florêncio (afeminado), Modesto (modesto) ,
Ítalo (italiano), Moisés (profeta, libertador). Nem sempre as cargas são óbvias
ou perceptivas. Cuidado para não utilizar um nome “gasto” com simbolismos
diferentes daqueles do seu personagem.
No
conto Pai contra mãe de Machado de
Assis há quatro personagens:
Tia Mônica – derivativo de mono, mulher
solitária;
Cândido Neves – ironia e brancura;
Clara – uma mulher branca;
Arminda – a que tem armas.
Em Vidas Secas de
Graciliano Ramos há muita desgraça. Tanta desgraça que os personagens reagem
como bichos. Exceto o cachorro, Baleia, que tem caráter humano. Conforme Câmara
Cascudo, era comum que os cachorros fossem batizados, por superstição, com
nomes de peixes – Tubarão, Piranha, Cação, Toninha – intencionando afastar a raiva,
ou hidrofobia se preferir (peixe não tem medo de
água).
Fabiano é o chefe da família dos retirantes. Dele há apenas a
descrição modesta de ter barba ruiva e castigada pelo sol, mãos grossas e
calejadas, pés duros, mostrando assim um tipo exemplar
castigado pela rudeza do sertão. A característica de Fabiano é realçada pela
falta de sobrenome. Como um “cabra” que sequer tem nome de família.
Curiosamente Fabiano destoa no sertão. Graciliano sabia das coisas. O Dicionário Aurélio sugere sinônimos
possíveis da palavra fabiano: indivíduo
inofensivo e pobre-diabo.
Sinhá
Vitória, a mulher de Fabiano, sonha apenas ter uma cama de varas; sofre, mas
não esmorece, justificativa para o nome.
Os
filhos, tão desprezíveis pelo sofrimento, tão bichos selvagens, sequer têm
nomes.
Em
Dona Flor e seus dois maridos, de
Jorge Amado, as escolhas também são exemplares: Dona Flor, flor de pessoa,
feminina e cheirosa. O primeiro marido, o malandro e vadio, só poderia ser
Vadinho. O segundo marido, recatado, pacífico e respeitado farmacêutico, é o
Dr. Teodoro Madureira, sugerindo religiosidade (téo) e maturidade.
Branca de Neve
sugestiona inocência. Na história hollywoodiana os anões ganharam predicados do
bem. No original eram sete anões como também eram sete os pecados capitais.
Soneca (preguiça), o tímido Dengoso (luxúria),
Feliz (gula), Atchim (avareza), Mestre (soberba), Zangado (ira) e o mudo e
imberbe Dunga que invejava a fala e a barba dos outros anões.
Quadrilha – Carlos Drummond de Andrade – poema
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.
Observe os nomes e a relação entre eles. Leia de novo. São comuns como
gente comum. Apenas J. Pinto Fernandes não tem prenome, porém dois sobrenomes,
um deles evocando virilidade, por isso conquistou e casou-se. E por ter nome
diferente é que não havia entrado na história.
A
escolha, preferencialmente, deve guardar uma relação com as características dos
personagens, identificação por região, etnia, profissão ou o que o autor inventar:
• Sertanejos:
Severino, Capistrano, Zé da Caatinga, Maria da Zefa;
• Judeus: Abrão,
Ester, Raquel, Moisés, Jacó, Sara;
• Interplanetários:
Zagt Lobxdyp, Mestre Jedi Ikrit, Spock e o irmão Sybok;
• Burgueses
brasileiros: Albuquerque do Porto, Junqueira do Nascimento e Silva – com
sobrenomes duplos ou triplos unidos por elementos de ligação;
• Índios
brasileiros e norte-americanos: Acauã, Guaraci,
Janaína, Pena Branca, Touro Sentado, Pequeno Lobo;
• Franceses:
Pierre, Jean-Marie, François, Nicole, Olivier;
• Bíblicos:
Sansão, Dalila, Abel, Adão, Eva, Madalena;
• Marcas
físicas: Cicatriz, Japa, Cabeção, Ferrugem, Loiruda.
► Faça do nome uma escolha inteligente.
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