21 setembro 2017
A RESISTÊNCIA
A RESISTÊNCIA
Julián Fuks
144 páginas
Companhia das Letras
R$ 30,00
Poucos foram
os livros que li duas vezes. Este, li uma quase seguida da outra.
O romance é
ótimo. Tanto que recebeu merecidamente o Jabuti de melhor romance e segundo
colocado no Prêmio Oceanos de Literatura. Fuks também foi eleito um dos
melhores jovens escritores em 2012 além de ter sido finalista do Jabuti e do
Brasil Telecom em outras duas ocasiões. Tive a oportunidade de conhecê-lo num
bate-papo promovido pelo CCBB em Brasília. O cara é fera.
A mim, além da
história interessou-me a forma de contar. O livro é uma aula. É uma oficina
para quem se dispuser a ler como um escritor.
Narrado em
primeira pessoa, é autoficcional, inicia impactante na primeira frase: “Meu
irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado.“.
Fala sobre a desimportância
da necessidade dos laços sanguíneos para haver fraternidade. Relata inúmeros
casos que poderiam ter acontecido com qualquer filho de qualquer família,
adotado ou não. Só que o irmão adotado se descobre neto das Avós da Praça de Maio.
Em vez de
tentar fazer uma sinopse, passo a palavra ao autor no Capítulo 18.
O narrador em
busca do apartamento em que os pais moraram em Buenos Aires, ainda nos anos de
chumbo, sem discurso prévio, cria um interlocutor porteiro. “Procuro um casal
que morou aqui há muito tempo”. “Tiveram que partir de súbito”. Percebo a incompreensão. “Pero usted no sabe sus nombres?” “ Sim, eu sei, eles são meus pais,
o bebê é meu irmão, eu sei onde estão, eles não desapareceram”. “Só queria
conhecer o apartamento onde viveram porque estou escrevendo um livro a respeito”
e segue adiante “Um livro sobre meu irmão, sobre dores e vivências de infância,
mas também sobre perseguição e resistência, sobre terror, tortura e desaparecimentos.”.
Fuks toca a sensibilidade
do leitor sem ser piegas.
Há inúmeras resenhas
e aplausos na Internet. O meu foco vai para a escrita.
Fuks é mestre
nas aberturas de capítulos. O sétimo se inicia com “Isto não é uma história.
Isto é história.”. No vigésimo terceiro, assusta: “Hoje sonhei com a morte do
meu irmão.”.
No terceiro
capítulo, o narrador sabe da importância de um episódio, mas tem ciência da impossibilidade
de recordar os fatos exatamente como aconteceram. Então constrói o cenário.
“Ele é adotado
disse a uma prima”. ... “eu devia ter uns cinco anos” ... “Estávamos num carro”
... “Fez-se um silêncio imediato” ... “Posso ter levado um cutucão discreto da
minha irmã” ... “Tão contundente foi aquele silêncio que dele me lembro até
hoje.”.
“Na minha
lembrança os olhos do meu irmão estavam lacrimosos, mas desconfio que essa seja
uma nuance inventada, acrescida nas primeiras vezes que rememorei o episódio,
turvado já por algum remorso. Ele estava sentado no banco da frente. Se chorava,
decerto continha qualquer soluço e escondia as lágrimas com as mãos ou; ou
voltava o rosto para a janela, extraviava a vista em presumíveis pedestres. O
caso é que não me olharia, não viraria para trás. Talvez fossem os meus, os
olhos lacrimosos.”
Da mesma forma,
confira as cenas do jantar em que os convidados não apareceram ou quando os
pais participaram de uma convocação da resistência portenha em São Paulo.
Gosto
das reflexões e pensamentos do narrador, sobretudo porque não diz, não narra.
Mostra ou apresenta os fluxos de consciência nas cenas.
Ao
contrário de tantas biografias, este autor, sem constrangimentos, mostra as
ferramentas de escritor ao externar “vejo ou invento meu irmão” (capítulo 8) ou
outras como “especulo como meus avós reagiram”, “transito na imaginação”, “visito
o museu da memória”(pág 93), “um truque alternativo, a vontade de forjar
sentidos que a vida se recusa a dar.” (pág 95).
Na penúltima
linha do penúltimo capítulo, o narrador apresenta o seu nome: Sebastián. Com
acento no último “a” como Julián. Confessadamente um alterego do autor ou
heterônimo como preferem alguns poetas.
Finalizo
os comentários dizendo que recomendo a leitura com entusiasmo. Tanto que indiquei
ao grupo de leitura a que pertenço proporcionando-me a releitura.
Roberto Klotz
21 de setembro de 2017
22 agosto 2017
Ciúme é o bicho
Bem de noitezinha sái para comprar um descongestionante
nasal para a minha esposa.
Ao retornar, estacionei na garage e, na porta do
elevador, esperei um pouco pela manobra do vizinho do terceiro.
— A farra foi boa, hem? —exclamei sorrindo solidário.
— Cacete! Até você! Não bastasse a minha mulher para
pegar no meu pé!
— Então dá uma ajeitada no cabelo e arrume os botões da
camisa que estão de casas trocadas.
Sacando a camisa da calça e desabotoando tudo. — Tirei a camisa para limpar o caldo de
feijão. Depois de meia dúzia de chopes,
um caldinho é bom para recuperar as forças.
— Depois de dormir no sofá, eu nunca mais limpei molhos
de tomate da camisa.
— Mulher ciumenta é o bicho.
— Nem me fale.
— Teve uma vez que a minha mulher encontrou um papelzinho
no bolso da minha calça na inspeção antes de ir para a máquina de lavar. Disse o
vizinho enquanto abotoava a camisa.
— E ai?
— Tava anotado o número do CREA. Mas ruminou bobagens o
dia inteiro antes que eu chegasse em casa para ouvir o mundo se acabar em trovoadas.
Não queria acreditar que a gostosa da Crea era Conselho Regional de Engenharia
e Agronomia. Parece que vive noutro planeta!
—
A minha vive em outro planeta. Nem tem perfil no Facebook.
O vizinho ainda deu mais uma ajeitada no cabelo antes de
apertar o 3.
— A minha também não tem Face. Imagine que noutro dia,
enquanto eu estava no banho, chegou alguma mensagem no celular e ela foi ver.
No segundo seguinte berrou no banheiro: — Quem é essa vagaba que quer saber o
que você está pensando?
O elevador chegou ao terceiro. Ele desceu e desejou-me boa-noite.
Eu desejei-lhe boa
sorte.
15 agosto 2017
Semana alienada
Eu me perdi de
mim mesmo. Vaguei sem rumo durante uma semana.
O espelho não
me informava o nome. Não dizia se eu era macho reprodutor, fêmea aposentada ou
criança curiosa. Não havia indícios de cabelos brancos, sobrancelhas
desenhadas, furos nas orelhas ou dentes de leite.
Não chorei
porque esqueci como se chora.
Não reclamei
porque não sabia se deveria reclamar em português, chinês, russo ou na língua
do pê.
Se eu soubesse
quem eram meus pais eu gritaria:
— Socorro
mamãe. — Socorro papai.
A minha
memória não foi afetada. Guardava fatos fundamentais como os nomes das luas de
Marte: Fobos e Deimos. Que Marilyn Monroe era canhota. E que aquele dia, em que
uma alma caridosa me ajudou, era uma quinta-feira.
Ela se disse
casada comigo. Sugeriu que eu fizesse exercícios. Que fosse caminhar como
sempre. Que o sol produziria milagres.
Minha mulher é
sábia.
O milagre
aconteceu quando coloquei o meu calção caminhante e encontrei a minha RG no
bolso.
01 agosto 2017
Sacola de supermercado
Não sou rico, não tenho carro do
ano, mas sou um privilegiado. A minha vizinha é um colosso. Só de vê-la, o sol
ilumina e aquece o hall de elevadores que não tem uma janelinha sequer.
O hall dos elevadores é o nosso
local de encontros secretos. Tão secretos que ela nem sabe que são encontros.
Fiz a assinatura do jornal só pelo
pretexto de pegá-lo bem cedinho na porta de casa e deparar com ela, casualmente,
quase todos os dias, quando sai vestida para a academia.
Embora ela nem sempre responda
aos meus bons dias, tenho certeza que se perfuma só para me enlouquecer ainda
mais.
Já fiz uma série de exercícios
mentais para tentar saber por que me ignora nesses três anos em que
praticamente vivemos sob o mesmo teto. Descartei os fatos de que sou casado, 30
anos mais velho e escritor sem Nobel de Literatura.
Ontem tudo foi diferente. Minhas
preces foram atendidas. Na hora do almoço, encontramo-nos na garagem e entramos
juntos no elevador. Eu segurava duas sacolas de compras de supermercado. Enquanto
ela pressionava o botão do nosso andar perguntou se eu cozinhava.
Em milissegundos enumerei
algumas possibilidades para a resposta:
a)
Ela vai me convidar para jantar;
b)
Ela vai me chamar para ver um programa culinário
na TV;
c)
Ela vai
me ensinar a fazer bolinhos de chuva.
Respondi
que gosto de cozinhar.
— Que bom. Lá na rua do açougue,
aos sábados pela manhã, tem uma feirinha. Tudo natural. Tudo fresquinho. Mais
barato que supermercado. Vai lá!
Quando chegamos ao nosso andar,
nem o sol apareceu.
18 julho 2017
Grande circular
Meus
pensamentos estão envoltos em neblina. Uma cerração de fim de tarde esconde
tudo à esquerda e à direita. Impossível saber se estou no campo ou na cidade. Nenhuma
música, buzina ou latido para me orientar nas brumas do silêncio. Não sei se
estou parado aqui, sozinho, no vazio, há um minuto ou há um dia.
Um
ônibus, sem emitir um único ruído, para à minha frente. A porta dianteira se
abre num convite para a luz e o calor. Subo lentamente os três degraus.
Parece-me mais frio do que do lado de fora. A luz púrpura e o cheiro de éter se
espalham no ônibus. Estranho a poltrona desocupada do motorista.
Na
primeira cadeira um homem pálido, ereto, estático, de pupilas dilatadas, não se
move com a minha presença. A vizinha de cadeira é uma mulher de rosto coberto
com véu rendado. Suas mãos alvas e enrijecidas seguram um terço. Ela também não
se mexe.
Do outro lado
do corredor, também na primeira fila, um sujeito horripilante. Apenas em calças
de pijama expõe as próprias vísceras num enorme corte na barriga. Ao lado dele
há um lugar vazio, como que reservado para mim.
Não quero
sentar ali. Nem mais para trás onde só vislumbro silêncio e rostos cadavéricos.
Pensando em
sair, recuo um passo quando a porta se fecha. Desesperado, procuro outra saída.
O ônibus se coloca em movimento. A cadeira do motorista continua vazia.
— Quero
descer! Grito numa voz muda.
Não há
cordinha para sinalizar minha necessidade de parar.
Preciso frear
o ônibus.
Jogo-me atrás
do volante do motorista, piso o freio com violência. Instintivamente olho no
espelho retrovisor.
Vejo uma
imagem terrível. Meu rosto está rasgado, disforme, ensanguentado.
Compreendi
tudo.
Sou um deles.
06 junho 2017
Eixão dos vários nomes
Avenida, rua, alameda,
pista são palavras femininas, mas a mais importante via de Brasília é conhecida
por nome machista: Eixão.
Oficialmente batizado
de Eixo Rodoviário, é uma via expressa de 13 km de extensão, sem sinais, seis
pistas de tráfego veloz e intenso.
Une a ponta da Asa Sul
à ponta da Asa Norte. Ou separa o Plano Piloto em Leste e Oeste. Há quem veja religiosidade no traçado de
Brasília com a enorme cruz formada pelo Eixão com o Eixo Monumental, a pista da
Esplanada dos Ministérios. Pela
quantidade de acidentes e atropelamentos maldisseram-no Eixão da Morte.
Contrariando os pessimistas, nos fins de semana a pista é fechada aos veículos
e liberada para caminhadas, skate, bicicletas e vendedores de coco verde. Recebe
o carinhoso tratamento de Eixão do Lazer.
Foi neste Eixão do
Lazer que, no domingo, vi uma menininha, aprendendo a andar. Soltou-se das mãos
do pai, atravessando a pista. Concentrada, estendeu a mãozinha procurando
equilíbrio em passos trôpegos.
Vi um menino veloz,
pedalando a bicicleta no Eixão da Morte.
Eu estava próximo, mas
longe demais para interceder no destino.
Repentinamente o garoto
freou a bicicleta e parou. Colocou um pé no chão e, com um sorriso banguela,
gesticulou prioridade para a menininha.
Vi na ação uma imitação
daquilo que provavelmente seus pais fazem.
Freiam o carro antes das faixas de pedestres quando alguém acena com o
sinal de vida.
Continuei minha
caminhada matutando o futuro.
Eixão da Esperança é um
bom nome.
31 maio 2017
30 maio 2017
Receita de pudim de gelatina
As donas-de-casa certamente vão questionar : receita de pudim
de gelatina ?
Sim, pudim de gelatina .
Para pessoas
indecisas, é muito difícil
saber por onde começar . Existe gelatina em folha ou em pó . Existem pelo
menos meia
dúzia de sabores
artificiais e cores
igualmente artificiais :
framboesa , morango ,
limão , laranja ,
pêssego e sem
sabor . Este
é ótimo , gelatina
sabor sem
sabor . Vasculhei meus
compêndios culinários e descobri que a gelatina sabor sem sabor serve para dar consistência sem alterar o gosto . Já
imaginaram rabada com
gosto framboesa ?
Para realização completa , leve para casa no mínimo quatro caixinhas . Cores
e gostos ao sabor do freguês , no caso , você .
Esqueça a receita do rótulo.
Despeje o conteúdo de duas caixinhas , de mesmo
sabor e cor ,
em um
quarto de litro
de água fervente ,
metade do sugerido na embalagem , mexa bem e depois acrescente mais
outro quarto
de litro de água ,
ou 250 mililitros
para falar na linguagem correta .
Misture bem e despeje em
pirex redondo .
Comece de novo com
as outras duas caixinhas . Repita a operação e despeje em
pirex redondo
igual ao anterior .
É fundamental que
os dois pirex sejam idênticos . Coloque os dois pirex na geladeira .
Se não tiver paciência ,
coloque no frizer, para apressar
a operação .
Em aproximadamente duas horas você terá as gelatinas
no ponto.
É hora da diversão .
Pegue aquele cedê com
o samba-enredo da escola vencedora deste
ano . Aperte a tecla
repeat e ponha no volume máximo .
Da geladeira ou
frizer retire as gelatinas e emborque (eu sempre
desejei usar esta palavra ,
esta é minha oportunidade
não desperdiçada) ambas em cima de uma bandeja . Lado a
lado . Para enfeitar e aumentar o desejo masculino ,
coloque, na parte superior ,
uma tampinha de garrafa de cerveja
em cada
gelatina.
Está pronto . Peitos
de passarela do samba
sempre têm forma
de gelatina e não
têm acompanhamento, nem em cima nem em baixo . O
acompanhamento é apenas o da bateria da escola
de samba . É só
balançar a bandeja
no ritmo e teremos a mesma sensação
de estar na arquibancada
do sambódromo.
Para as mulheres , essas dúvidas não
existem. Jovens , maduras e passaditas.
Todas querem pudim de gelatina . Por enquanto elas
discutem apenas volume .
Haverá tempo de novos
lançamentos cor
jambo , cor
europeu ou
camarão , para
quem pegou sol
demais na praia . Se o namorado
for torcedor do Flamengo ,
uma gelatina vermelha
e outra preta ;
se ele for torcedor
do Fluminense , ponha três gelatinas .
Os sabores também
serão incrementados. Cerveja será o mais
popular , uísque ,
o mais sofisticado, laranja
com açaí
para os ecologistas
e vegetarianos , leite
para os conservadores
e Toddynho para menores
de dezoito.
A grande revolução
acontecerá no formato . As apaixonadas
terão suas gelatinas
em forma de coração , as políticas
escolherão a estrela do PT, as garotas
pit bull farão suas gelatinas
em forma de punhos fechados e haverá peitos
com formatos
de bundas .
Tudo irá evoluir até
a indústria lançar
a gelatina mais
sensual : ela
terá cor da pele ,
formato , tamanho
e consistência natural ,
como um
peito .
23 maio 2017
Elas batem um bolão
No gramado ,
debaixo do meu
prédio , vi uma menina
jogar bola , futebol . Isso já não me espanta mais . As mulheres
já estão ocupando todos
os espaços que
eram de exclusividade masculina . Eu nunca dediquei meu tempo para
observar a habilidade
das mulheres no trato
com a bola .
Mas aquela garota merecia um olhar de admiração pela beleza e suavidade. Já a conhecia de alguns
encontros dentro
do elevador.
Sou do tempo em que futebol
era jogo
de homem . Jogo
duro , muito
corpo a corpo .
Muita brutalidade .
A bola de couro
era mais
pesada que
hoje. Para cabecear bola
molhada tinha
que ser
macho . Coisa comum eram as brigas
em
campo . As mocinhas somente iam ver
alguma partida ou
pelada quando
havia algum namorado
que estivesse jogando. Nenhum interesse
no jogo . Esporte
absolutamente masculino .
Observo lá embaixo: os adolescentes estão misturados, meninos
e meninas estão jogando juntos ! A primeira coisa que me chamou a
atenção foi que ,
da mesma forma
como os garotos ,
ela usava um
calção grande
e deselegante. Naquela brincadeira de fazer gol por
entre as árvores, observei que ela chutava
com os dois
pés e igualmente bem. Qualidade rara até entre os profissionais da bola.
Quando algum garoto
chutava a bola longe
do gol e a bola
rolava indo parar debaixo
do carro estacionado, nenhum dos rapazes
se prontificava, num gesto cavalheiro , a buscar a bola . Mudança de tempos.
Fiquei boquiaberto quando
em determinado
momento ela
pegou a bola e começou a fazer
embaixadas . Eu
não contei, foram mais
de cinqüenta. Bola no pé , no joelho ,
de calcanhar , de cabeça ,
matada no peito .
Essa menina leva
jeito! Sabe tudo.
A brincadeira
continuava e a vi dividindo a bola como homem . E para meu espanto , xingando como
homem . É, essas mulheres
definitivamente estão tomando nosso
lugar, até no futebol .
Pensei que já
tivesse visto tudo ,
mas não ,
ela cuspiu – raichput – como um bom moleque
cospe.
Agora só falta as mulheres aprenderem a coçar
o saco como
nós.
16 maio 2017
Tainha recheada de recordações
Nesta semana conversei com o meu passado
duas vezes.
Férias na praia paulista. Outro século.
Tempo em que a energia falhava e não havia
asfalto nem telefone.
A praia ainda era dos pescadores.
A imagem do pescador com a agulha é de
André Klotz.
TAINHA RECHEADA DE RECORDAÇÕES
Jantar de gala no hotel cinco estrelas à
beira-mar. Duzentos dólares por cabeça, fora a bebida. Eles de gravata, elas de
salto alto. Comemoram sessenta anos de idade do banqueiro, Dr. Valter Junqueira.
Após variados drinques e canapés os
garçons com suas luvas brancas começaram a servir um peixe recheado.
O Dr. Otávio Portobello, diretor
financeiro, proferiu quinze minutos de elogiosas palavras ao homenageado. Explicou
que a tainha era um dos peixes mais nobres do litoral brasileiro e, para
finalizar, levantou a taça de vinho branco, brindou e praticamente coagiu o
aniversariante a se manifestar. O Dr. Junqueira olhou agradecendo um a um os
convidados e com leve gesto de cabeça convidou-os a apreciar a iguaria.
Como em todos os jantares, houve breve
silêncio para a prova daquela vistosa e cheirosa carne branca.
Dr. Valter Junqueira delicadamente, com os
talheres de prata, separou um naco de peixe e segurou-o entre o indicador e o
polegar e levou-o à boca. Fechou os olhos para acionar todos os outros sentidos:
paladar, olfato, audição, tato e memória. Fechou os olhos e abriu a memória.
Valtinho adorava conversar e aprender com
mestre Benedito.
Mestre Benedito tinha uma casa na faixa de
areia onde o rio desembocava no mar. Casa ampla, de tábuas e piso vermelho.
Fogão de lenha e uma enorme mesa sob um frondoso chapéu-de-sol. Pescador
respeitado por todos e que, além da generosa barriga, era dono da maior rede da
praia.
Era ali, debaixo do chapéu-de-sol, que
mestre Benedito, com a agulha e a régua, fechava os buracos nas malhas da rede.
Os bagres, além de feios, só serviam para sopa e estragos na rede.
Teve uma vez que seu Benedito abriu a rede
em toda sua extensão na praia. Era para uma verificação mais detalhada.
Percorri com ele, quando ele repôs algumas chumbadas do fundo emparelhando com
o mesmo tanto de cortiças na parte de cima. Eram uns anéis gordos, bem maiores
que o tamanho do meu pulso, que faziam a rede flutuar. Até hoje ainda me lembro
de que fui correndo para casa para dizer para a minha mãe que contei
quatrocentos e doze passos. Era muita rede, toda de barbante.
Foi com paciência que ele me ensinou a
fazer um puçá, uma pequena rede de malha fina em forma de saco. Depois
costurou-o num aro de arame.
De peso, amarrou
a pedra que escolhi e esticou uma corda mais grossa no aro, de um lado ao
outro, para prender a isca. Depois laçou mais três cordinhas no arco e juntou
as pontas, dali saiu a corda maior, pra gente puxar o puçá para fora d’água.
Com ele, fui
pescar siri. Lá na curva do rio havia uma árvore caída onde a gente sentava. De
cima podíamos ver o fundo do rio quando algum caranguejo mordiscava o chamariz.
Aí, era só puxar e pronto! Pronto nada! Eu não tinha coragem de tirá-lo do puçá. Seu Benedito
pegava o siri por trás, com a mão rápida, e jogava no balaio. Ele dizia que não
deveríamos pegar mais de dez. Era o número certo que a gente dava conta de
comer. Eu levava para casa, pedia para a dona Olga ferver e no fim de tarde
levava tudo para a casa do mestre Benedito. Era uma festa.
Muitas vezes o caranguejo só abria o
apetite.
– Seu Benedito vamos puxar picaré?
– Vá perguntar ao seu pai, vê se ele
deixa.
Eu ia para casa e invariavelmente ouvia
que mais tarde chegaria alguma visita importante ou que ele iria jantar com a
mamãe na casa de algum amigo, lá na cidade. Mas, que eu poderia ir e deveria levar
o lampião. Era o máximo.
Eu ainda era pequeno e fracote, no
linguajar deles, por isso procurava outro adulto para puxar o picaré com o seu
Benedito. Era preciso força para puxar o cabo de madeira do tamanho de um
homem. Eu normalmente suplicava para o seu
Agenor, marido da dona Olga ajudar. Dona Olga o incentivava prometendo
fritar os peixinhos assim que nós voltássemos. Inocente, eu dizia que não havia
nada para eles fazerem à noite. Nem tinham tevê.
O seu Benedito arrastava o varão além da
arrebentação. Seu Agenor ficava no raso, com a água na cintura. A rede presa
entre os dois paus verticais formava um enorme saco. Seu Benedito às vezes
gritava:
– Agenô, cê tá rastando o pau na areia?
Como se seu Agenor não soubesse que a rede precisava ficar bem coladinha no
fundo para os peixes não escaparem por baixo. Somente anos mais tarde entendi a
graça da fala.
Com a rede já fora da água a minha tarefa
consistia em segurar o balaio para os peixes e com a outra mão alumiar a rede
para os dois pescadores. As corvinas iam para a frigideira da Dona Olga e os
linguados iam para a casa do mestre Benedito. Eu gostava do baiacu. Não era
para comer, era para fazer cosquinha na barriga e ver inchar até fazer uma
enorme bola branca. Uma farra.
O seu Me ssias
era o homem do tempo. Era capaz de predizer chuvas e ventos. Calmaria e sol.
Uma vez ele me mostrou como as formigas estavam agitadas aumentando a altura do
formigueiro para a água não entrar: era sinal de chuva. E choveu. Outra vez ele
me mostrou a lua e disse que a mudança da lua somada com o vento sul traria mar
bravo. No outro dia o mar se agitou em ondas de ressaca. Mais de uma vez ele percebeu
tempestades debaixo de calmarias e sol forte:
– Fale para seu pai tirar a lancha da
água. Vai ter temporal daqui a pouco.
Seu
Messias acertava sempre.
Enquanto a temporada das tainhas não
chegava, mestre Benedito saia com a canoa para deitar a rede de espera ou armar
o espinhel.
Meu pai dizia que fartura de tainha, para
os pescadores, significava poupança para o resto do ano.
As tainhas chegavam junto com a corrente
de água fria do sul em julho, mês de férias.
Nesta época a canoa ficava de prontidão na
areia aguardando o aviso. Quatro remos grandes, duas latas para tirar água,
muita corda e a rede cuidadosamente dobrada para ser lançada aos poucos na
velocidade da canoa.
A capela ficava próxima à canoa. Curioso,
entrei algumas vezes. Havia um pequeno altar com uma santa coroada, um ramo de
planta na mão e uma taça na outra. Alguns tocos de velas. Às vezes alguma vela
acessa invocando proteção. Eu ouvia as orações dos irmãos Flávio e Hélio:
“Santa Bárbara, que sois mais forte que as
torres das fortalezas e a violência dos furacões, fazei que os raios não me
atinjam, fazei que os trovões não me assustem, fazei que o troar dos canhões
não me abalem a coragem e a bravura.”
“Santa Bárbara, rogai por nós.”
Seu Maneco, um preto velho manquitolava
por ali com a muleta. Faltava-lhe uma parte da perna. Contava que a perdeu numa
luta com um tubarão. Nunca duvidei. Homem respeitado. Já não podia remar. Era
olheiro. Passava o dia no costão com a mão sobre os olhos para enxergar melhor.
Era o responsável por captar a presença do cardume e avisar a vila. Diziam que
tinha olhos de albatroz. Melhor que qualquer outro, descobria a agitação do mar,
a mancha avermelhada, a esperança da fartura. Além dos olhos, seo Maneco era
bom de sopro. Visualizava o cardume e soprava o berrante. Os sinos chamam os
homens para a fé. O berrante chama os pescadores para a esperança.
Um a um, homens fortes largavam o que
estivessem fazendo e corriam para o barco. Serafim, Benedito, Aristides e Cristino
normalmente eram os primeiros a chegar. Moravam mais perto. Tiravam a lona da
canoa e colocavam os roletes para descer o barco até o mar. Faziam o sinal da
cruz, pediam proteção à Santa Bárbara e remavam determinados contra a
quebração. Na praia ficavam os roletes e uma ponta da corda.
Três pescadores remavam enquanto que o
quarto, na popa, soltava a corda no ritmo dos remadores.
Da praia o seu Maneco orientava o rumo do
barco e pedia para soprarem o berrante mais uma vez. Espertamente começavam a largar
a rede e contornando o cardume. A sorte estava lançada.
A vila ouvira o berrante. Homens, mulheres
e crianças surgiam de todos os lados.
Metade se juntava próxima à ponta da corda deixada pelos canoeiros
enquanto outra metade aguardava a canoa chegar com a outra extremidade da corda.
Depois de duas horas a canoa voltava à
praia e era novamente colocada sobre roletes onde todos ajudavam a levá-la
sobre os roletes até a origem.
O povo começa a puxar as cordas. Um a um,
as pessoas vão ao mar agarram a corda e a arrastam até um ponto longe da beira.
Largam a corda e voltam para pegar noutro ponto dentro d’água. Homens ou mulheres,
ninguém se importa em molhar as roupas na água salgada. Eu e as crianças gostávamos
de mergulhar para pegar a corda mais no fundo. Era mais uma brincadeira.
No movimento contínuo a rede surgia. Sempre
se preocupavam em fazer a chumbada se arrastar na areia do fundo para não
deixar os peixes escaparem por baixo. Era mais desconfortável puxar a corda junto
com a rede, em compensação víamos os peixes se brilhando.
Os pescadores retiravam os peixes da rede
conforme surgiam. Sacodia daqui sacodia de lá e a tainha se desprendia. As
pilhas se formavam. Havia também cações, ventos-leste e, com sorte, linguados.
À criançada cabia fazer a limpeza da rede repleta de sargaços, caramujos e
estrelas.
Naquele dia a rede veio farta. Centenas de
tainhas, talvez mais de um milhar.
Ainda me lembro do mestre Benedito separando
os montes. Uma parcela para o dono da rede, uma parcela para o dono da canoa,
outra parcela para os remadores e o restante para os que ajudaram a puxar a
rede. Todos felizes. Homens com duas ou três tainhas, mulheres com uma ou duas.
Até eu ganhei uma tainha. Foi a primeira vez que ganhei um peixe. Uma tainha.
Saí correndo para casa e pedi para dona
Olga prepará-la.
À noite com a família reunida tivemos
tainha recheada. Papai fez uma oração de agradecimento e permitiu que
começássemos a comer.
Houve breve silêncio para a prova daquela
vistosa e cheirosa carne branca. Com um garfo separei um naco de peixe e
segurei-o entre o indicador e o polegar e levei-o à boca. Fechei os olhos,
mastiguei e me engasguei.
– Dr. Valter, está passando bem? Foi um
espinha?
– Não se preocupe, estou ótimo. Foi uma
pérola.
28 abril 2017
Greve do cão
A nota do jornal dizia “Lambidas
de cachorro podem parecer carinho, mas na verdade são apenas uma forma que os
animais têm de identificar por onde o dono andou, diz a pesquisa
norte-americaana. Como são animais com muita sensibilidade a cheiros e sabores,
os cães fazem a festa, experimentando novas sensações quando seus donos voltam
da rua.”
Cronista
que sou, embaladao pelo clima de hoje, imaginei a cena abaixo:
Todos estavam tensos. Nervosos. Temiam a presença de
espiões entre eles. Ao entrarem no austero prédio foram vasculhados
minunciosamente e sequer uma pulga foi encontrada.
Civilizadamente caminharam sobre o piso de granito de Assuã
– o mesmo das pirâmidas egípcias – admirando as pinturas dos mestres Boticelli
e Donatello do renascimento florentino, para se acomodarem na mesa de jacarandá
doada por Rui Barbosa. Estava reunida em Haia, na Holanda, a cúpula dos cães
farejadores do planeta.
O artigo publicado nos jornais mundo afora encimava a pauta
da reunião extraordinária.
A mesa redonda distribui o poder de forma equilibrada entre
os presentes. O pastor alemão Lutero representa os farejadores de palavrões nos
livros escolares. O labrador golden
retriver Strongnose é o diretor de operaçãoe especias nos aeroportos da
costa oeste dos Estados Unidos. É capaz de identificar a cidade de origem de
qualquer americano pelo cheiro do chiclete. Batalão, é um premiado vira-latas
da Rocinha: localizou um torcedor do América em dia de Maracanã lotado. Talmud
é policial reformado do exército. Se aposentou antes de encontrar a paz no
terrítório israelense. O mastiff Eticus,
nascido em Roma, é especialista em fungar políticos. Em doze anos de serviço foi
capaz de localizar dois honestos.
Com o austrero cenário descrito, alguns personagens
apresentados e o microfone do tradutor simultâneo desligado para evitar
gravações, deu-se início à reunião.
Todos rosnaram simultaneamente.
– É um absurdo o que fazem conosco. Temos que dar um basta
nesta situação abusiva.
– Exigimos o máximo de oito horas de trabalhos diárias.
– Precisamos de descanso semanal.
– Chega de ração. Exigimos comida decente.
– Também temos direito à sobremesa.
– Chega de banhos em quartos de empregada. Reinvindicamos
banheiras com hidromassagem.
Apenas o sindicalista Arnoldo estava quieto no seu lugar.
No momento certo latiu mais alto, silenciou todos. O pitbull conhecido por seu temperamento agressivo e apelido de Exterminador
afirmou que precisavam de uma proposta única. Consequentemente todas as
reinvindicações foram anotadas e por unanimidade foi votada e aprovada que
iriam exigir o direito de lamber e cheirar bifes de filé mignon.
E agora sim, Arnoldo, com sua larga experiência apresentou
a grande arma secreta, o único meio de persuadir os homens a terem boa vontade.
Uma greve.
– Todos, até o cachorro do cafezinho latiram em coro:
Unidos unidos jamais seremos vencidos; unidos unidos jamais seremos vencidos.
Foi deflagrada a greve por
tempo indeterminado. A partir do dia seguinte todos os cães da face da terra
deixariam de abanar o rabo.
18 abril 2017
Quando eu morri
Quando eu morri
Levei três tiros antes mesmo do amanhecer. O primeiro, por trás, na nuca,
base do pescoço.
Uma rosa de sangue sujou meu colarinho. Procurei olhar no espelho, mas não
enxerguei nada. Eu me sentia bem, anotei o endereço peguei o carro e fui para a
casa. Desconhecidos me vestiram um pijama e pediram que eu fosse para a
varanda. Mandaram que eu me deitasse no chão. Levei os outros dois tiros. Foram
nas costas. Entre as costelas, na altura dos pulmões.
O sangue do pescoço já estava escuro e um enorme e pavoroso hematoma
assinalava a violência sofrida. Agora o sangue saía também por dois buracos do
meu pijama. O líquido, que imaginei ser quente, escorria gelado pelas costas
manchando o piso empoeirado.
A varanda era enorme, talvez uns trezentos metros quadrados. Churrasqueira,
bar. Os banheiros masculino e feminino
serviam também de apoio para a piscina e para a sauna. A varanda era o cenário
perfeito para grandes festas com políticos, jogadores de futebol, modelos e colunistas
sociais disputarem espaços e champanhes. Deduzi que a mesa espelhada fosse o
suporte para fileiras do pó da alegria. Ao lado da varanda havia um enorme
jardim assinado por um paisagista renomado. Observei que, apesar do sol já
estar no alto, as luzes do gramado permaneciam acesas.
É muito desconfortável morrer num chão duro e sob um sol escaldante.
A ambulância estacionou no meio do jardim. O carro da perícia também parou
no gramado da casa desenhando trilhas de pneus na grama japonesa. As luzes
estroboscópicas em cima da viatura anunciavam o fim da festa. Em vez de DJ, o
rádio berrava palavrões do delegado.
Os policiais e os paramédicos não deram a mínima importância. Ninguém
veio verificar meu pulso.
Minha mulher também levou três tiros e agora, ao invés da cama, dividia o
mesmo granito quente e empoeirado. Estava a um metro e meio de mim. O rosto
inchado pela bala estampada na têmpora direita a deixava pavorosamente irreconhecível.
Os olhos azuis contrastavam com o violeta da pele. Os cabelos loiros e cheirosos
estavam empapados de sangue endurecido. Mesmo estirada, ela continuava sensual
naquela camisola de seda branca maculada de púrpura brutal. Parecia lançar moda
de horror.
O nosso filho estava junto de nós, eterno egoísta, tinha sua própria poça
de sangue, resultado de três tiros no peito e um na testa. Nossa família,
sempre unida, estava agora, sujando um pequeno espaço do piso da varanda.
Ficar naquela posição defunta era muito desconfortável.
Perguntei para minha esposa se ela estava pronta para ser colocada no
saco preto e ser lacrada com um zíper. Como sempre, não respondeu.
Minha posição, deitado de lado, não permitia um bom ângulo de visão. Além
disso, não sabia onde foram parar meus óculos. No máximo, via os sapatos
daqueles que nos rodeavam. Muitos sapatos diferentes.
O sol de meio-dia esturricava nossa pele. O suor se misturou ao sangue. Estávamos
sem protetor solar.
Um moço de tênis cotelê verde providenciou três guarda-sóis. O alívio foi
imediato. Desejei que aquele moço fosse um eunuco e então providenciasse
ventinho com um enorme abano de plumas.
Apareceu uma sandália havaiana. A dona se abaixou e perguntou se eu
queria uma água de coco.
Respondi, irônico, que naquela posição só poderia tomar água de coco se
me arrumasse um canudinho. A sandália não voltou mais.
Dizem que o sangue é doce. E eu acreditei. As formigas começaram a fazer
fila indiana nas minhas costas.
Um par de sapatos pretos com solado grosso se aproximou e começou a me
fotografar. Os flashes pipocavam e minhas pupilas acusavam o incômodo.
— Puxa, quando será vão me deixar em paz? – resmunguei baixinho.
Atrás de mim ouvi um diálogo:
— São só esses três?
— Não. Tem mais um ali, na ambulância.
Eu reconheci aquelas vozes: Selton Mello e Carlos Alberto Riccelli.
Então a morte é lírica com canto de passarinhos e vozes de atores
globais. Concluo que morrer pode ser interessante.
O par de sapatos pretos com solado grosso retornou e voltou a pipocar
flashes. As vozes de Selton e Riccelli repetiram o mesmo diálogo mais umas três
vezes.
— São só esses três?
— Não. Tem mais um ali, na ambulância.
Morrer pode ser interessante, mas muito repetitivo.
Agora apareceu um sapato marrom. O dono do sapato se abaixou e com uma
fita crepe marcou no chão a minha posição. Quando os contornos estavam
assinalados ordenou:
— Preste bem atenção para retomar sua posição depois. Agora os atores vão
descansar e depois retomaremos a filmagem no mesmo ponto. E cuidado para não
melar a casa com a gelatina vermelha.
● Resultado da minúscula participação
no filme “O Federal”
● Premiado no concurso de contos de São João da Boa
Vista - 2009
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