02 fevereiro 2017

ODE AO CIGARRO

Este longo texto, para mim, tem um significado muito especial. Sempre fumei de forma alucinada e, tal qual todos fumantes, precisava parar. Nunca mais fumar era um compromisso muito forte. Parei numa espécie de acordo pessoal: ficaria sem fumar durante um ano. Ao se aproximar o vencimento do contrato fiquei paranoico. Eu estava louco de desejo para fumar, entretanto seria irracional voltar. Numa catarse escrevi “Ode ao Cigarro”. Ao chegar a data renovei o contrato por mais um ano. Hoje, exatos quinze anos depois, dia 02 de fevereiro de 2017, renovo meu contrato por mais um ano.
Dediquei ao Dr Dráuzio Varella que o divulgou no site durante dois anos.
De brinde, este texto despertou o prazer da escrita: foi meu primeiro texto no mundo das letras.

ODE AO CIGARRO

Alguns anos atrás li um artigo da Cláudia Raia em que ela fez uma verdadeira apologia ao cigarro. Jamais fui fã de la Raia. Mas aquelas palavras... – Ah... como gostaria que tivessem sido minhas. Era exatamente o que eu gostaria de ter dito: – Pô, deixem-me fumar, ora bolas!
Não guardei o texto, mas me lembro de que era contra aqueles caras inoportunos que se incomodavam com nossa fumaça nos restaurantes ou filas. Até na casa da gente vêm esses xiitas incomodar.
Acordar no meio da noite... Fumar um cigarrinho e voltar a dormir. Só quem é profissional sabe como isso é gostoso.
Acordar cedo e, antes mesmo do cafezinho, dar aquela tragadinha é indispensável.
Eu só sei falar ao telefone com um cigarro aceso. O cigarro me dá segurança. Além da segurança, ele me dá tempo de escolher melhor as palavras entre um trago e outro. As palavras estão difíceis? Acendo outro cigarro e, com charme, tenho a resposta pronta.
Paquerar com um cigarro é ótimo. A mão fica ocupada e a gente esconde a timidez atrás da fumaça. Na euforia, eu celebro fumando. Na tristeza, eu choro fumando. Sono? O cigarro me desperta. Tesão? O cigarro me deixa ainda mais ligado. Hoje estou nervoso, preciso de um tragada profunda. Almocei uma feijoada, ora, que delícia! (Tô falando do cigarro, logo após, e mais um após o café). Cara, é muito bom! Jogar pôquer sem cigarro, nem pensar. Temos de esvaziar o cinzeiro que começa a transbordar pela segunda vez. Eu me lembro, uma vez eu fui à casa de uma menina e estava literalmente apaixonado. Acendi meu cigarro adolescente. Ela reparou que eram três os cigarros simultâneos. Ah, meu Deus do céu, que mancada!
Quantas recordações! Sou profissional desde os 15 anos, e olha que já estou com quase 51.
Todos nós fumávamos. O incomodado que se mudasse. Os tempos mudaram. Muitos amigos traíram e largaram o cigarro. Mais de uma vez fumei em lugares proibidos, ostensivamente. Marcando território. Igual a cachorro mijando em poste.
A cigarrilha era mais charmosa ainda, era cara e a tragada era pesada. Não agüentei e voltei ao meu cigarro. Estou falando de cigarro, jamais usei o tal do baseado, nada contra, mas minha praia é outra. Sempre tive pavor de ficar viciado. Sempre gostei de tomar um chope. Jamais me viciaria em bebidas. Cachimbo: caramba, que charme! Fumei um período. Mas tinha muitas desvantagens. As pessoas reclamavam que produzia muita fumaça forte, o seu trago, quando chegava aos pulmões, não era muito bem recebido. O cachimbo tem de esfriar. Tem de ser limpo. Quanta pantomina! Quero fumar logo!
Eu tenho a minha marca. Marca é fundamental! Se você não tem marca, fuma o que te derem, você não é fumante. É um chato filador.
Uma coisa eu sempre detestei: fumar na frente do espelho, dar uma tragada profunda e ver que a cor da fumaça que desce é diferente da cor da fumaça que volta. Sempre acreditei que o filtro do cigarro retivesse as coisas ruins. É pra isso que serve o filtro.
Em outras épocas, acendia um cigarro no filtro do anterior.
            O trabalho estressante. Um telefonema. Um chope. Uma transa. Uma fossa. Uma alegria. Um funeral. Outro telefonema. Uma negociação. Um passeio de carro. Uma conversa. Nenhuma conversa. Cigarro, companheiro de todas horas.
Cigarro tem de ser aceso com isqueiro a gás. A tragada com gosto de fósforo é muito ruim.
Eu me lembro de um isqueiro Ronson dourado que meu pai me deu. Aquilo é que era isqueiro. Era o Rolls-Royce dos isqueiros. Dei para o meu irmão, que sempre desejou um isqueiro igual àquele, que, por outro lado tinha de ser recarregado de vez em quando e às vezes falhava. Isso me irritava profundamente. Nunca vou me esquecer do meu pai dando-me aquela maravilha. A cena foi funesta. Mas o isqueiro! Meu pai havia sofrido um enfarte e, na condução da maca, no hospital, deu-me aquela pequena jóia, com uma lágrima no olho. Ele ficou bom, nunca mais fumou, e também não se importava quando as pessoas fumavam.
Você fuma? Tem uma coisa que me incomoda no cigarro. Soltar a fumaça dos pulmões de encontro a um guardanapo de papel colado nos lábios. Puxa, que coisa mais asquerosa! O papel fica mais sujo que o filtro. Sempre acreditei que o filtro do cigarro retivesse as coisas ruins. É pra isso que serve o filtro.
Eu jamais deixo as pontas se acumularem no cinzeiro; além de ser antiestético, fede.
Escrever, ler, descansar, prosear, cagar, pensar, concentrar, diga qualquer verbo: o cigarro sempre é companheiro.
Com meus vinte e poucos anos, peguei uma hepatite B e praticamente fui desenganado pelo médico. Eu odeio médicos. Só vou em último caso. Eu já havia desmaiado duas vezes. Não precisei de exames: hepatite. Entre outras proibições, veio a do cigarro. Médicos sempre são contra. Fiquei de cama 75 longos e intermináveis dias. Lá pelo sexagésimo dia, na fossa, fumei escondido, às 4 da manhã. Não desceu fácil. O segundo desceu redondo. Companheirão.
No dia seguinte, estava em forma. Vinte cigarros, um maço. Profissional é assim. Não, não sou compulsivo, sou profissional.
Como se chama mesmo aquela doença em que as pessoas não conseguem respirar? Eu ouvi falar pela primeira vez por um chefe de trabalho. Nossa, ele fumava demais, e tinha medo dessa tal doença, pois o pai dele havia morrido e ele presenciou o sofrimento do pai. Anos mais tarde o grande Ney faleceu com a mesma doença. A hereditariedade é fatídica.
Sempre adorei a água, e sempre fiz demonstrações de como meu fôlego é bom. Nos áureos tempos ficava dois minutos sem respirar. Estou meio fora de forma, mas acho que ainda consigo ficar um minuto nos dias de hoje. Apesar de profissional.
Sou capaz de escrever um livro: Meu Amigo: O Cigarro. Quantos momentos!
Quando minha mulher engravidou, teve uma grandeza enorme. Parou de fumar. Temporariamente. Na segunda gravidez, a mesma firmeza de caráter. Temporariamente parou. E lá se vão 19 anos. Pela primeira vez fiz algum esforço para parar.
Uma vez, meu irmão mais velho me perguntou quantos cigarros eu fumava por dia. Quanto custava o maço. Como bom engenheiro, fez as contas e castigou: “Com o dinheiro do cigarro, você já poderia ter comprado um carro zero”. Vai se danar! Cadê o seu carro zero? Você nunca fumou. Pois é, 16 anos de cigarro dão para comprar um carro novo. Já entrei no meu terceiro carro.
Você sabe o que é paixão? É amor desenfreado, irracional, ilógico.
Pois o que sinto pelo cigarro é paixão.
Compulsão... Um atrás do outro e quero mais.
Ilógico... Já fizemos as contas da grana que vai embora.
Irracional e irresponsável... Todo fumante sabe dos malefícios, não vou nem tentar relacionar. Odeio os médicos.
É por isso que fumo: PAIXÃO.
Sabe, tentei parar diversas vezes, diminuí inúmeras vezes. Mas a paixão é avassaladora, te devora e te leva para os prazeres do cigarro.
Foram tantas as tentativas! Foram tantas as derrotas! Meu Deus, como é gostoso fumar!
O pai do meu melhor amigo também foi fumante profissional. Ele já não conseguia respirar, por causa de um tal de enfisema (só de me lembrar dessa maldita palavra já deu vontade de tossir). Ele fumava escondido da esposa e dos filhos. Eu o visitei no seu último dia de vida. O Gus é de longe meu amigo mais querido. Mas muito chato, sempre foi um antitabagista militante. Muitas vezes fumei na casa dele. E ele sempre reclamou.
Chato mesmo foi a transformação da sociedade.
Repartições públicas, shopping centers, restaurantes, aviões, alguns hotéis, banheiros (até banheiros); elevadores, tudo bem; cinema e ônibus urbano nunca pôde. Escola pode. Criança também aprendeu a reclamar. Onde já se viu pirralho mandando contra cigarro de adulto? Os tempos mudaram.
Minha mulher deixou de fumar. Os filhos, incomodados, assumiram postura xiita intransigente, contra o cigarro, naturalmente. Naturalmente era fumar. Era.
Tentei parar outra dúzia de vezes. Uma vez eu me lembro de ter perguntado desesperadamente: o que um não fumante faz com as mãos?
De outra vez, fui diminuindo até o dia do embarque de nossa viagem internacional em família. Na hora do embarque, faltou o tal do último cigarro que eu pretendia filar no aeroporto. Maravilha! Passei oito, oito, repito oito meses sem fumar.
Numa roda de chope senti as pessoas fumarem deliciosamente seus cigarros e fumei um. Deu trabalho. O segundo e o terceiro desceram maravilhosamente bem.
Passei outros períodos menores sem fumar. Uma vez 10 dias, de outra vez 20 dias.
Eu me sinto traído pela minha família brasiliense, nós éramos seis fumantes. Só eu continuo. Meu irmão, paulistano, também profissional, já não tem o isqueiro dourado e nunca saiu desesperado para comprar cigarros pela noite afora. Bons profissionais: compramos de pacote.
Minha voz estava muito rouca. Ela vinha piorando muito. Até a poeira no meu trabalho me incomodava. Ninguém mais me ouvia. O médico disse que teria de fazer uma cirurgia, para tirar o calo das cordas vocais. Decretou: você tem de parar de fumar! Odeio médicos. Nos 15 dias que antecederam a cirurgia eu não fumei. Era páscoa de 2001. Aproveitei para fazer uma cirurgia que diminuísse o meu ronco. A cicatrização foi dolorosa e sem cigarros. O drama foi abrir o envelope com o resultado da biópsia. Câncer? Levei um dia para abrir o maldito envelope.
Negativo. Eu sabia, meu companheiro não iria me trair.
Eu deveria retornar depois de seis meses para nova laringoscopia. Sem fumar.
Jamais retornei ao médico, somente ao cigarro. 
Já tentei diversas formas. Combinação das diversas formas. Acho que existem tantas formas quantos existem de regimes para emagrecer.
Pouco importa. Juntei tudo, analisei minhas fraquezas e derrotas e marquei mais uma data. Sábado. Descobri depois que a data era cabalística ou metafísica: 02.02.2002.
Algumas coisas foram diferentes desta vez. Eu estava decidido a mudar muitas coisas na minha vida. Um livro me ajudou a ter auto-estima e trabalhar com metas.
Parei, fiz exercícios, não engordei, não substituí por comida, tomei muita água, comi muita cenoura.
Sou profissional. Já faz um ano que estou sem fumar. Mas continuo profissional. Muitas vezes já estive prestes a comprar um maço vermelho e branco. Aspirei a fumaça de vizinhos. Não me tornei xiita. Não senti melhora no meu fôlego, nem no meu bem-estar. O dentista já fez uma limpeza nos meus dentes. Tá bom, eu confesso, o meu olfato melhorou.
Sempre tive medo do vício. Sou profissional. Passei o pior ano da minha vida. Com pressões que não desejo ao meu pior inimigo. Separação, depressão, desemprego, solidão, vontade de ir ao Inferno, ansiedade, venda de casa própria. Mas não fumei.
Os artigos em que descrevem que as fábricas de cigarro escondem uma química viciante na fumaça dos cigarros me deu uma força enorme ao descobrir que não sou fraco. Minha luta é solitária contra uma poderosa e milionária máquina.
Nesse período de ausência de cigarro, teve um médico – odiosos médicos! – Dráuzio Varella, que me deu uma ajuda, ao mostrar que eu era do tipo especial: profissional, e por isso a minha luta seria inglória. Não sou profissional, o meu primeiro cigarro será o retorno ao vício. Sou um viciado.


ODE AO CIGARRO. Ou seria ÓDIO AO CIGARRO?

31 janeiro 2017

Panapaná




Curioso? Também fiquei. Eu tinha um dicionário à mão. Talvez você não tenha. Se tiver, não precisa buscar, até o final do texto desvendaremos esta charada.
Panapaná não tem prefixo nem sufixo. E nem crucifixo para quem não souber o significado.
Existe um jogo com centenas de palavras, cada uma associada a cinco possibilidades, apenas uma verdadeira. Os jogadores devem tentar descobrir o significado se não souberem a resposta certa. Este não é um jogo, apenas um breve exercício mental.
Panapaná não tem origem grega nem latina. Não provém do francês, nem do inglês. É produto nacional, do bom. Ascendência tupi. Desta língua aprendemos e guardamos pouco. Ita é pedra. Pira é peixe. Boi é cobra e açu é grande.  Só conhece quem se aventura por palavras cruzadas.
Com estas dicas já podemos deduzir que panapaná não é nome de palavra para invento do homem nem de coisa relacionada a modernidades. É coisa da natureza ou de sentimento.
Panapaná apesar de coletivo não se encontra nas cidades. Não é coletivo de transportar pessoas, é coletivo de transportar sonhos.
Panapaná não é uma borboleta, é um conjunto delas refletindo a alegria do sol em devaneios coloridos.


23 janeiro 2017

Todas as terças-feiras procuro postar um texto no aqui e no Facebook. Estou adiantando meu expediente porque viajo amanhã extremamente cedo (eca) e ficarei ausente do face por vários dias.


UM DIA COMO CRONISTA CULINÁRIO

Bom dia, meus caros leitores. Hoje é a minha estreia como cronista culinário. Pediram que eu preenchesse esse vazio no jornal. Espero, sinceramente, que a minha despedida ocorra breve também.
O cara que escrevia gracinhas regularmente neste espaço queimou a ponta dos dedinhos na tampa no forno e está impossibilitada, digo impossibilitado de digitar. Por escrever artigos políticos sérios e de importância para o desenvolvimento do país, argumentei que o máximo que entendo de cozinha é reclamar do cafezinho fétido que servem aqui na redação, porém o editor me convenceu (sob ameaça de desemprego) a cobrir o coleguinha. Pensei em cobri-lo de porrada, mas isso não interessa a você, leitor. Não é mesmo?
Antes de escrever as primeiras linhas me informei que crônicas são narrativas diárias com o tamanho exato de um retângulo predeterminado. Nem um apóstrofo a mais nem uma exclamação a menos. Que a crônica é o relato de um flash, que é a manchete na alma do cronista ou que é a literatura de bermudas.
Imagine, caro leitor deste cantinho de jornal, se eu me sentiria à vontade em visitar os Ministérios, trajando sóbrio paletó azul-marinho, uma gravata listrada sobre a camisa impecavelmente passada e uma bermuda xadrez? Sem chances!
Antes mesmo de passar por esse constrangimento eu telefonaria para agendar uma entrevista com a autoridade.
— Secretaria de Assuntos Estratégicos. Gabinete do Dr. Peçanha, boa tarde.
— Por favor, eu gostaria de marcar uma hora com o Sr. Secretário.
— Pois não, qual é o assunto?
— Eu preciso trocar umas receitas de bolo de laranja. — Isso é ridículo, pensei. Ninguém merece!
Jamais escreverei uma crônica. Crônicas são futilidades, pseudoartigos, inutilidades escritas por quem pensa pequeno, sem objetivos na vida.
Às três e meia, o editor telefonou cobrando a crônica, disse que deveria ser entregue diariamente até as quatro horas. Aleguei desconhecer histórias dos bastidores da cozinha do Planalto.
O editor, sem rodeios, determinou que eu escrevesse uma receita de pizza. Em meia hora.
Senti minha batata assar. Um tremendo objetivo para escrever uma crônica. Isso me inspirou imediatamente.
Eu já havia lido que a origem da pizza é questionada. Falam em egípcios, árabes e gregos. Os gregos, que eu saiba, inventaram a democracia, um cavalo de pau e a filosofia com discussões intermináveis. Aos napolitanos cabe a fama da descoberta só porque acrescentaram tomates na cobertura. O que importa é a receita brasileira.
Pegue-se um monte de gente indignada que exija a solução de um assunto grave. Dê-lhes um banho de água fria. Misture sem fazer muita força. Enrole e desenrole até formar uma massa homogênea. Faça uma bola bem grande e amasse com um rolo até virar um disco chato como a Praça dos Três Poderes. Cubra tudo com queijo até que não se veja mais nada da base inicial. Deixe descansar por alguns dias. Ou semanas. Se a mídia cobrar resultados, adicione rodelas de cebola, azeitonas e fatias de tomate, cebolas. Morte, digo, presunto só se a pressão for muito grande. Salpique manjericão e orégano. Para assar, procure um forno com o formato e tamanho da cúpula do Senado Federal.
Sirva com cerveja gelada para comemorar.

A autêntica pizza brasileira é produzida em forno público. Trabalho em jornal, uma empresa privada, por isso nos próximos dias retornarei com saborosas receitas como a vingança servida em prato frio.

09 janeiro 2017

DOIS IRMÃOS

Milton Hatoum

Companhia de Bolso

200 páginas

R$25,00

Hoje é estreia da minissérie homônima na TV Globo. Li o livro em maio de 2016 e acho que postei a minha crítica. Entretanto, tendo em vista o momento, republico.


O primeiro capítulo do livro é curtinho, porém muito impactante. O autor recortou um trecho de altíssimo grau de emoção da história e abriu o livro com ele.

Eis os dois últimos parágrafos deste capítulo:

“Eu não a vi morrer, eu não quis vê-la morrer. Mas alguns dias antes de sua morte, ela deitada na cama de uma clínica, soube que ergueu a cabeça e perguntou em árabe para que só a filha e a amiga quase centenária entendessem (e para que ela mesma não se traísse): “Meus filhos já fizeram as pazes?”. Repetiu a pergunta com a força que lhe restava, com a coragem que mãe aflita encontra na hora da morte”.

“Ninguém respondeu. Então o rosto quase sem rugas de Zana desvaneceu; ela ainda virou a cabeça para o lado, à procura da única janelinha da parede cinzenta, onde se apagava num pedaço do céu crepuscular”.
           
O capítulo lança uma questão “Meus filhos já fizeram as pazes?“ que mostra um enorme conflito e com a pergunta atiça a curiosidade do leitor. Antes de responder sim ou não, somos provocados à bisbilhotice, queremos saber que motivo é forte o suficiente para colocar em lados opostos dois irmãos? Ansiamos por saber por que estão brigados.
           
A história se passa em Manaus de 1910 a 1968. No período, o autor mostra a evolução da cidade enquanto inunda as páginas com as águas do rio Negro e enreda a história de imigrantes libaneses com ramos das seringueiras e sons dos pios de jaçanãs e jacu-ciganas.

Aos poucos somos apresentados aos irmãos gêmeos Omar e Yaqub.

Em relação a Yaqub: “O que lhe faltava no manejo do idioma sobrava-lhe no poder de abstrair, calcular, operar com números”.

“E para isso”, dizia o pai orgulhoso, “não é preciso língua, só cabeça. Yaqub tem de sobra o que falta no outro”.

O outro, o Caçula – referindo-se a Omar – exagerava as audácias juvenis: gazeava lições de latim, subornava porteiros sisudos do colégio dos padres e saía para a noite, fardado, transgressor dos pés ao gogó, rondando os salões da Maloca dos Barés, do Acapulco, do Cheik Clube, do Shangri-Lá. De madrugada, na hora do último sereno, voltava para casa.

“Colhe a orquídea mais rara, mas também arranca a aninga da lama”.

Apesar de narrado na primeira pessoa, durante muito tempo ficamos sem saber quem é o narrador. “E a mim, sem me olhar, sem se importar com a minha presença Na verdade, para Zana, a mãe dos gêmeos, eu só existia como rastro dos filhos dela”.  

No transcorrer da história descobrimos que o narrador é filho de um dos gêmeos com a empregada índia que mora nos fundos da casa. O narrador, desprezado pela família, quer saber quem é o pai.

Quem são os pais dos gêmeos?

Halim, marido de Zana e pai dos gêmeos era comerciante. “Vendia coisas de qualquer um. Vendia sem prosperar muito, mas atento à ameaça da decadência, que um dia ele me garantiu ser um abismo. Não caiu nesse abismo, nem exigiu de si grandes feitos. O abismo mais temível estava em casa, e este Halim não pode evitar”.

“A intimidade com os filhos, isso o Halim nunca teve. Uma parte de sua história, a valentia de uma vida, nada disso ele contou aos gêmeos”.

“Mas acreditava, bêbado de idealismo, no amor excessivo, extático, com suas metáforas lunares. Um romântico tardio, um tanto deslocado ou anacrônico, alheio às aparências poderosas que o ouro e o roubo propiciam. Talvez pudesse ter sido poeta, um flâneur da província; não passou de um modesto negociante possuído de fervor passional”.

E quem era a esposa Zana?

“Era possuída por uma teimosia silenciosa, matutada, uma insistência em fogo brando; depois, armada por uma convicção poderosa, golpeava ferinamente e decidia tudo, deixando o outro estatelado.”

E a pergunta lançada o primeiro capítulo?

“O duelo entre os irmãos era uma centelha que prometia explodir”.

“Duelo? Melhor chamar de rivalidade, alguma coisa que não deu certo ente os gêmeos ou entre nós e eles, revelou-me Halim, mirando a seringueira centenária no quintal.”

Antes que eu, nas transcrições, revele mais do que deveria, adianto que se trata de uma história triste, uma história sem advertências ou opiniões de moral. É história de seduções consanguíneas. É história de incestos, paixões e ódios.


Em vez de responder a pergunta, elaboro outra: porque levei tanto tempo para conhecer a escrita de Milton Hatoum?

06 janeiro 2017

ALEGRIA

— Quer saber de alguém feliz?

— Eu.

— Por que?

— Há quase dois meses lancei o Manual do escritor e ele já viajou pra tudo que é lugar do Brasil. Está nas cinco regiões. Em 12 estados e 27 municípios brasileiros. Mas também já tem exemplar na Argentina e nas longínquas ilhas Cabo Verde na costa africana. 

Os Correios – impresso simples sem registro – entregam para as capitais em até três dias. Demora uma semana para as outras cidades. É bem verdade que por causa do volume das entregas do Papai Noel algumas demoraram mais do que o previsto. Mas chegaram. 

— Como é que sei disso? 


— É porque detenho o monopólio das vendas e controlo tudinho, tudinho. 


— Realizado?


— Tem mais alegria. Já recuperei o investimento da gráfica, revisor, diagramador...
Agora é tomar chope e brindar. TCHIM TCHIM.





02 janeiro 2017

Titivillus

PARTE DO CAPÍTULO 6.7 – Titivillus – do “Manual do escritor”

Titivillus é o nome de um demônio surgido na época dos escribas medievais. Provocava equívocos nas cópias de manuscritos e códices.
Segundo anotações dos clérigos nos pergaminhos, Titivillus sempre aproveitava os vacilos e as distrações dos monges copistas para comer letras, engolir sílabas ou devorar linhas inteiras. Com o desenvolvimento da espécie, passou a se divertir às custas dos copistas. Trocava letras e palavras doces por outras menos saborosas.
No Renascimento, aposentaram os copistas, mas o diabinho voou alegremente para as tipografias, onde, entre prensas e caixas de tipos, sentia-se animado para continuar as diabruras. Apesar dos avanços da tecnologia ainda não terem criado vacina ou antídoto eficaz contra a praga. Hoje, com a internet, com os corretores ortográficos dos celulares e processadores de texto, está feliz e disposto a cometer confusões ainda maiores e com maior rapidez.
O Titivillus moderno ataca quando preenchemos os enormes formulários virtuais e, ao invés de clicarmos no botão enviar, eles embaralham nossos dedinhos gordos e clicamos delete.
Ele está mais vivo do que nunca.
Preste atenção na cara do Titivillus. Não é à toa que no jargão dos revisores a revisão final é chamada cata piolho.



Pois, vou contar o que aconteceu comigo:

Tive um mês exaustivo para entregar a tempo os escritos relidos e revisados à gráfica para atender ao cronograma exigido pela editora. Era o resultado de seis longos anos de pesquisas sobre lendas e mitologias grega, romana, celta, nórdica e germânica. Finalmente estava pronto. Saiu do virtual e foi para o papel.
Apesar de ter outros livros publicados, passei a semana sem dormir aguardando ansioso o nascimento do mais recente.
Fui até a gráfica na hora combinada e o diretor solicitou ao estagiário trazer da oficina um dos 3.000 exemplares impressos.
Segurei-o nas mãos e fiquei vermelho como a capa do livro.
A capa cinza e preta foi alterada sem minha autorização. Abri o livro e num relance encontrei meia dúzia de erros de português.
O estômago revirou-se recordando-me do capítulo sobre um demônio medieval, o legendário Titivillus. O capetinha havia chegado ao extremo. Trocou as cores da capa, alterou título, mudou até o nome do autor.
Antes que eu vomitasse revoltado, o diretor ordenou ao estagiário:
— Meu filho, o livro não é esse. Traga aquele com a capa cinza e preta.


Vários autores, por descuido na revisão,
em vez de orgulho
passaram a ter vergonha
dos próprios livros após a publicação.



Quer um exemplar do Manual do escritor?  Custa R$ 40,00 – correio incluso. Faça seu pedido por e-mail:  r-klotz@uol.com.br ou no Facebook  Roberto Klotz , inbox. 

23 dezembro 2016

Caixas de natal

Há vários dias eu procuro uma mensagem que traduza meus sentimentos do Natal.
O amigo Marco Antunes colocou-os em versos.
E, com esses versos desejo que nesse dia especial todos desembrulhem o espírito natalino encaixotado desde janeiro passado.  Feliz Natal!


CAIXAS DE NATAL



Poema de Marco Antunes.

A verdade é que já não sei mais 
tirar das caixas o Natal
como fazíamos anos atrás. 

Era um não mais parar de descer caixas
guardadas em lugares altos da casa
durante os meses tristes do ano.

E todas eram caixas de sonhos:
redondas, compridas, largas
ou em formas improváveis de estrelas,
mas sempre cada uma revestida
de flores, de cestas de flores,
de pássaros que voavam fitas,
de anjinhos instrumentistas,
de formas natalinas e brilhos e
de moças antigas com sombrinhas de renda... 

As caixas em si já eram o Natal
ou seu presságio e, quando abertas,
libertavam todas as esperanças
de frutos de cristal e pinhas de ouro.

A primeira delas,
pouco maior que uma caixa de sapatos,
revestida de estrelinhas, luas e sóis,
guardava lampadinhas coloridas
e era dever e privilégio de meu pai abrir.
Abrir e desenrolar o novelo de fio verde
que escorria pela sala até o corredor
enquanto, na outra ponta,
meu pai, muito sério, solene e preocupado,
fazia o primeiro teste na tomada... 

Ah! Que bonito que era! 
Porque em menos de um segundo,
as dezenas de cores se acendiam
como um rio de felicidade
que corria pela sala e lambia o corredor,
convidando o resto da casa para a festa que começava.

Claro que, no percurso da luz,
sempre uma ou outra morrera
durante o ano no silêncio dos armários,
mas a doce providência daquele homem,
tirava dos bolsos novos lumes e a festa prosseguia.

A segunda caixa era imensa,
talvez a mais feia delas,
porque de um reles papelão
onde apenas se lia "Made in England"
mas de dentro, saía ainda encolhida,
ramos tímidos, amassados,
a velha árvore de tantos natais.

Depois de despertada do seu sono,
revividos os ramos, desamassadas as folhinhas,
ela se revelava frondosa e de um verde perfeito
que para sempre, onde surgisse, seria dela
o verde da velho pinheiro inglês
que nos floria os natais. 
 
Desapertá-lo era uma tarefa de todos
e a ela nos dedicávamos alvoroçados
felizes de, enfim, sermos chamados a ajudar. 


A terceira caixa, muito fina, mas larguíssima, 
se recobria de um papel prateado 
com desenhos infinitos de flocos de neve, 
dentro, os lamentos ficavam congelados 
à espera desse dia em que viriam, depois das lâmpadas, 
adornar nosso pinheiro dando-lhe uma remota
aparência de neve, neve da lembrança dos avós, 
neve que não havia em nosso Natal. 

Esses lamentos de prata 
eram a delícia dos dedos nessa festa
porque nada, nunca em nossa vida 
jamais seria tão macio 
quanto aqueles fios
de leveza imponderável... 

E chamavam-se lamentos!
(Tudo era poesia em nosso Natal!)

A quarta caixa, grande e redonda,
tinha moças antigas em fundo rosa
passeando como num romance antigo
ou se balançando em lindos cordões de flores.

Essa era a mais aguardada das caixas,
porque não regateava cores e brilhos
todos impossíveis depois do Natal.

Minha mãe sabia desse potencial mistério
e demorava, e demorava muito
em nos presentear de vez,
abrindo a tampa com descabido cuidado,
como se um descuido qualquer
pudesse pôr tudo a perder,
ansiosos, todos nós, inclusive meu pai,
que nunca deu pelo estratagema,
abaixávamos a cabeça
para ver já pela primeira fresta
uma miríade de bolas coloridas reluzentes
que eram frutos transcendentais desse pomar natalino. 



Nossos olhos de criança
descobriam-se refletidos em rostos redondos
nos globinhos soprados em vidro tão fino
que se diria poderem pairar entre os galhos
sem auxílio de fios.

Ah! Que tristeza pelas bolas que se quebraram
e curiosidade pelos caquinhos restados,
como se, de repente, víssemos a anatomia dos sonhos!

Minha avó, sentada em sua cadeira de balanço,
ia pondo o fio de linha dourada em cada uma das bolas
e de suas mãos colhíamos a felicidade para dispor nos galhos.
os mais altos meu pai alcançava sozinho,
mas para lá iam somente as bolinhas
pequenas, dessas que as crianças não disputavam!

A essa altura, já era a toda prova, uma árvore de Natal
e nós nos afastávamos todos
para ver de longe como estava ficando a obra.
Maria vinha da cozinha com guaraná e biscoitos
que eram um modo de convidar o paladar
à alegria!

A sexta caixa era a dos pássaros e fitas
e nela se guardavam os enfeites variados
sua abertura era o requinte da euforia:
pássaros de vidro, pingentes de cristal,
sinos dourados, bengalinhas listradas,
anjinhos de porcelana, soldadinhos de madeira,
janelinhas enfeitadas, guirlandas de flores,
corações de rendas pedras preciosas,
pombinhos de purpurina branca,
igrejinhas, casinhas, trenós, renas e Papai Noel.

A árvore resplandecia então de mil histórias
com que a fomos enfeitando em cada peça.
era o melhor do mundo em nossa sala de estar!

Então, meu avô e só ele, abria a caixa grande
dos anjinhos instrumentistas e de lá tirava
uma a uma com respeito e reverência as
figuras da natividade
e todo ano
Com a mesma paciência
nos contava a história do menino Jesus,
o último a ir para o presépio
e todo ano ouvíamos como se fosse a primeira vez. 


Por fim de uma caixa comprida

revestida de flores,
saía, ainda coberta de papel de seda
a longa e bela ponteira,
que era o auge e o fim da festa.

Meu pai pegava um de nós
"ao acaso"
e naquele ano,
suspendia para glória o felizardo
que a colocava no topo da árvore
e minha mãe ligava as luzes
enquanto vovó e vovô já
cantavam baixinho "Noite Feliz".


Procuro entre minhas lembranças esses tesouros
guardados em caixas no meu coração
como se fossem minhas Rosebuds
onde foram parar as caixas
em que ainda estão guardados todos aqueles natais
Onde?
Onde foram parar as caixas em que ainda ontem
Nós guardamos pela última vez a felicidade?

13 dezembro 2016

Precisa-se advogado



Coloquei anúncios e solicitei currículos a meus amigos. Eu precisava de um outro advogado para o meu escritório. Passei a peneira e selecionei apenas alguns poucos candidatos.

Eu buscava algum relativamente novo, com alguma experiência em análise e elaboração de contratos. Queria alguém estudioso, que tivesse passado no exame da ordem. Tanto fazia homem ou mulher. Pouco me importavam os conceitos alto, gordo, moreno, nariguda ou elegante.

O primeiro foi muito eloquente dentro de um terno impecável.

O segundo, que trajava uma gravata listrada azul e vermelha, se mostrou experiente, trabalhara um bom período defendendo uma empresa dos consumidores.

Em terceiro se apresentou  uma moça com saltos finos e vestido pouco acima dos joelhos, usava óculos discretos que confirmavam a seriedade no linguajar de advogada experiente.

O quarto candidato, um sujeito que nem pensei que viera para a entrevista. Combinava a bermuda preta com a camiseta estampada com a cara de morcego do Gene Simmons do Kiss.

— O que deseja?


A resposta veio direta, objetiva, seca, na lata, sem rodeios.
Apontou para o chão com o indicador em riste.

— Trabalhar aqui.

Apavorado com a ideia de um roqueiro hard rock numa casa clássica, perguntei:

— O que tem na cabeça?

Com a mesma segurança e desenvoltura voltou as duas mãos para cima.

— Cabelos verdes, uma tatoo tribal na testa, um piercing na narina e dois alargadores nas orelhas.


— Sinto muito. Advogado não é nome de banda. — Abri a porta. —  Próximo por, favor. 

11 dezembro 2016

Entrevista na Rádio Senado

Foi ar hoje a minha entrevista à Rádio Senado.
De tão boa, rendeu e-mails para aquisição do Manual do escritor.
Obrigado, Margarida Patriota.


Autores e Livros
Entrevistas sobre o mundo da literatura na Rádio Senado
Apresentação: Margarida Patriota
Produção: Samara Sadeck e Marina Domingos

Sábado, às 17h, com reprise no domingo, às 9h

http://www12.senado.leg.br/radio/1/autores-e-livros

05 dezembro 2016

Ousei participar de um Festival de Contação de Histórias em Goiás.
Mandei um vídeo e minha interpretação foi classificada entre os finalistas.
Meu prêmio foi conseguir decorar um texto e dizê-lo em público.
Eu me diverti e fiquei orgulhoso por perder para uma interpretação para o Apólogo, um conto do Machado de Assis.
Eis o conto:



A velha e o fogo

A velha ateava fogo em alguns papéis. Numa das mãos, um jornal servindo de tocha e na outra um galho para cutucar a papelada. Foi só no que reparei.
Não. Eu reparei que ela usava umas roupas estranhas, algo como um vestido sobre outro. Talvez um vestido sobre uma camisola. Usava uma touca artesanal, de crochê claro. Não pude ver o rosto. As mãos eram bem alvas, assim como os tornozelos acima das meias brancas que calçavam um par de sandálias de dedo.
            Passei por ela e segui o meu caminho. Para mim, foi apenas uma figura esquisita em roupas azuis desbotadas queimando pertences num local afastado, um atalho entre o meu prédio e a larga avenida.
            Quando entrei no Eixão, o sol esquentou e revi mentalmente aquela senhora incendiária. Prestei atenção na figura e passei a divagar.
            Primeiro, sorri com ternura imaginando que a meiga anciã devia estar enviando mensagens para o céu com a fumaça. Julguei que seriam poemas saudosos, escritos com letrinhas tremidas, após a dolorosa separação quando o marido partiu em viagem para o infinito. Imaginei recordações em longas cartas lembrando o nascimento dos três filhos, a alegria da viagem ao Rio de Janeiro, quando juntos rezaram ao pé do Cristo no alto da cidade. Imaginei a frágil senhora enviando aos céus a receita das empadinhas de palmito, favoritas do finado, para que algum anjo cozinheiro lhe recordasse as delícias terrenas. Fantasiei procurando captar o sonho da paixão de um jubileu dourado.
            Quase fui atropelado por uma bicicleta que vinha em sentido contrário. O susto acordou-me dos devaneios e levou-me a refletir que os papéis queimados poderiam ter sido escritos pelo saudoso marido. Quem sabe agora, às vésperas de mudança de endereço, quisesse evitar que os filhos soubessem como o casal se amara com volúpia, ao contrário da inocência dos filhos, que sempre julgaram ter pais pudicos por terem praticado sexo apenas nas três únicas vezes em que geraram os três únicos filhos. Ninguém mais acredita em Papai Noel, mas os filhos sempre acreditam em pais castos, puros e assexuados.
            Naquele momento também ri. Ri de mim, por acreditar em Papai Noel e em sinceras declarações apaixonadas. A mulher devia estar apagando o passado de fogo ardente. Isso faria muito mais sentido. Passei a imaginar confissões de lascívia e luxúria de um amor adolescente. Não, isto não justificaria sair de casa num domingo de manhã, para atear fogo nas relíquias, longe dos olhos da família. A velhinha, pensei, deve querer ocultar, para sempre, pecados mais fortes. Decerto, cartas do amante. Manuscritos que revelavam promessas, desejos e realizações. Linhas anunciando palavras ditas sob as cobertas. Ali estaria o envelope com o nome e endereço completo do amante. Ali estaria uma fotografia do casal adúltero, numa tarde de outono. A família e a sociedade jamais poderiam saber daqueles poentes escaldantes. Ali, no meio da fogueira, estaria a carta com a surpresa e alegria do amante ao saber que seria pai.
            A cada passo que eu avançava a velhinha rejuvenescia nos meus pensamentos. Ficava mais bonita, sensual e atraente.
            Agora, idosa e dependente, às vésperas de mudar para a casa do filho bastardo, todos os seus pertences ficariam expostos. Inclusive a verdade, guardada na caixa de papelão rosa. O receio da rejeição e o temor de ser enviada para um asilo a faziam queimar o passado.
            Durante uma hora e meia caminhei pensando na velhinha e nos seus doces ou picantes segredos matrimoniais. Quando saí do Eixão, a curiosidade era tão grande que resolvi verificar se sobrara alguma coisa legível naquelas cinzas.
Durante uma hora e meia caminhei pensando na velhinha e nos seus doces ou picantes segredos matrimoniais. Quando saí do Eixão, a curiosidade era tão grande que resolvi verificar se sobrara alguma coisa legível naquelas cinzas.
— Foi aí que o senhor, seu delegado, apareceu e me flagrou com aquele crânio fumegante nas mãos.

 
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