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Personagem
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Referência
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Yolcault
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É o mais poderoso chefe do tráfico de drogas do México (significa
serpente venenosa/ cascavel)
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Tochtili
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É filho único de Yolcault (significa coelho – simboliza a inocência)
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Mazatzin
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Tutor de Tochtili. Professor. Desejou ser escritor. Cama Tochtili de
Usagi (no calendário maia, asteca e tolteca Mazatzin é um professor)
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Miztli
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Vigia. Pajem de Tochtili. Matador (significa puma)
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Chichilkuali
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Vigia. Matador (significa águia vermelha)
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Itzpapolotl
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Empregada (significa mariposa com asas de navalha que governava o
mundo do paraíso do deus Tomoachan)
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Azcatl
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Jardineiro – mudo (significa formiga vermelha responsável por manter
a evolução das raças)
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Itzcuautli
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Cuidador do zoo – mudo (significa águia real)
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Cinteotl
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Cozinheira (deus do milho – principal alimento azteca)
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Quecholli
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Amante do pai. Vegetariana – muda (significa pena, pluma preciosa)
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El Gober
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Governador (gobernador em espanhol é governador)
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Franklin Gómez
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Nome hondurenho do passaporte falso de Mazatzin
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Winston López
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Nome hondurenho do passaporte falso de Miztli
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Junior López
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Nome hondurenho do passaporte falso de Tochtili. Também Jota Erre
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John Kennedy Johnsson
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Guia na selva da Libéria
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Martin Luther King Taylor
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Motorista da van de carga na selva da Libéria
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Paul Smith
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Traficante americano
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Alotl
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Nova professora para Tochtili. Amante do pai. Arara – ave que fala.
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21 janeiro 2016
Festa no covil
Juan Pablo
Villalobos
Companhia das
letras
R$ 30,00
88 páginas
Deliciosamente
diferente de tudo que tenho lido. Leitura fácil e rápida. Difícil será resenhar
com originalidade uma vez que na capa traz um teaser perfeito: “Um poderoso romance sobre inocência e
bestialidade. Cômico e assustador.” Também no verso há um ótimo resumo e para
completar há um posfácio espetacular, não deixando muita coisa para acrescentar.
A história
lembra muito o filme A vida é bela de
Roberto Benigni, onde um pai faz o filho acreditar que o Holocausto é um jogo
sem que o menino perceba o horror no qual estão inseridos. No livro A festa no Covil o menino Tochtlili,
mimado, percebe que o pai é rico, pode tudo, mas não tem a menor ideia de que do
que o pai faz. Sabe que não pode chamá-lo de pai. Enquanto Yolcault é o maior
traficante mexicano, o menino só tem interesse, uma quase fixação, em acrescentar
um hipopótamo anão liberiano ao minizoológico.
Por segurança,
Tochtili não pode sair do palácio onde mora. Conhece apenas uma dúzia de
funcionários e seguranças que prestam serviços regulares na fortaleza. Está
sempre com a cabeça coberta. A cada dia usa um chapéu diferente e guarda a
enorme coleção no quarto dos chapéus. Quase todos os quartos da mansão tem
acesso proibido e ficam trancados. Cercado de violência a percebe com
naturalidade. Tem o momento de carinho com o pai assistindo juntos filmes de
samurais com suas espadas cortantes sangrando oponentes. Entende que os americanos
matam com tiros, os mexicanos com facões, os japoneses cortam cabeças com
sabres e que os franceses são mais evoluídos por terem inventado a guilhotina.
Com tanto
sangue e violência à volta, a inocência do menino que se julga esperto produz
um efeito de assustadora e bizarra comicidade.
O autor
conseguiu narrar uma história do mundo do narcotráfico a partir do ponto de
vista de um menino sem precisar se envolver com drogas, armas, dólares,
políticos e polícia. O bom de uma narrativa é quando o autor nos convence da
verossimilhança da história. O garoto presencia ou comete barbaridades com a
suavidade de quem come um sorvete.
É hilário
quando conta um jogo de que gosta de brincar com o pai.
“Uma das
coisas que aprendi com o Yolcaut é que às vezes as pessoas não viram cadáveres
com uma bala. Às vezes precisam de três balas ou até catorze. Tudo depende de
onde você atira. Se você atira duas balas no cérebro, com certeza eles morrem.
Mas você pode atirar até mil vezes no cabelo que não acontece nada, apesar de
que deve ser bem divertido de ver. Eu sei dessas coisas por causa de um jogo
que eu e o Yolcaut costumamos jogar. O jogo é de perguntas e respostas. Um fala
uma quantidade de tiros e uma parte do corpo, e o outro responde: vivo, cadáver
ou diagnóstico reservado.
— Um tiro no
coração.
— Cadáver.
— Trinta tiros
na unha do dedo mindinho do pé esquerdo.
— Vivo.
— Três tiros
no pâncreas.
— Diagnóstico
reservado.”
O
texto é muito bem trabalhado. Por ter sido escrito pela ótica de um menino
inocente parece superficial. Não é. Há reflexões geniais como quando sugere:
“Alguém
devia inventar um livro que dissesse o que está acontecendo neste momento,
enquanto você lê. Deve ser mais difícil de escrever que os livros futuristas
que adivinham o futuro. Por isso não existe. E aí a gente tem que investigar na
realidade.”.
Por
curiosidade, pesquisei os nomes escolhidos pelo autor para as personagens e
tive confirmada a suspeita de que nada no livro é por acaso.
Espero que
você goste tanto do livro quanto eu gostei.
19 janeiro 2016
Recenseador perde o boné e a coragem
Recenseador perde o boné
e a coragem
Nota do jornal: “Grupo
de 360 pesquisadores faz censo da vida marinha em todo o planeta e revela parte
da riqueza de um mundo ainda misterioso.”
José Osmar Clarindo foi o quinto colocado no
concurso nacional para agente censitário do IMGE, o Instituto Marinho de
Geografia e Estatística. Finalmente chegou o seu primeiro dia como recenseador
das águas ensolaradas do Atlântico brasileiro.
Recebe um colete com o logotipo do IMGE estampado
no peito, crachá, um computador portátil além, naturalmente, de todo o
equipamento para mergulho.
O dia de Jotaô não é um mar de rosas. Começa com
problemas de locomoção sem vale-transporte e a descoberta que não há linhas
regulares de ônibus para a região para onde foi escalado. Teve que pedir carona
a um barco pesqueiro.
Conferiu e confirmou a exata localização com um
pequeno GPS. Apertou a campainha da primeira porta que encontrou pela frente.
Foi atendido por uma estrela marinha com um monte de bobis no cabelo oxigenado.
Esta informou que naquele domicílio morava com o maquiador e seis filhos. Três
dela, um dele e outros dois, menorzinhos, em conjunto com o namorado. Informou
que era atriz desde pequena e que fez a primeira ponta num comercial para pasta
de dentes. Seu nome era Marynalva Souza Ferreira, mas que no formulário
preferia Marylin di Mônaco.
Em seguida entrevistou a quelônia Affonsina
Austragésila Clementina Teóphila Junqueira conhecida por Tatá. Negou que o
apelido era uma forma carinhosa por ser uma tartaruga. O tataraneto a chamava
assim. Na hora de preencher o quadradinho com a idade, duvidou quando ela disse
ter 278 anos. Mulheres costumam reduzir a idade.
– E a casa?
– Olhe para mim – mostrou um anel de diamantes –
e diga se tenho cara de quem tem imóvel cedido ou alugado? É apertado, mas é
meu.
– Quantos quartos? Quantos banheiros? A senhora
tem televisão, geladeira e aspirador de pó?
Dona Tatá achou tudo muito indiscreto. Quando
perguntada se morava sozinha, fingiu atender uma chamada ao telefone, pediu
licença e terminou a conversa.
A manhã avançava rápida e ainda precisava
preencher seis formulários para atender a meta diária imposta pelo IMGE.
Já começava a decorar as perguntas. Nome, idade,
quantos moravam naquele domicílio? A casa tem energia elétrica? O lixo é
recolhido, queimado ou jogado no mar? Tem rede de abastecimento de água ou a
água vem do poço ou de algum do rio?
O próximo endereço era soturno. Ouviu latidos
antes de ler a placa que avisava peixe bravo. Consultava o relógio, 12h25,
quando a porta se abriu e um enorme tubarão branco abriu a porta. A fera estava
com um garfo na nadadeira direita, uma faca na esquerda e um guardanapo
amarrado no pescoço.
Com voz de trovão cumprimentou amistosamente:
– Veio em boa hora, amigo. Vamos entrar! Vou
começar meu almoço agora.
Na fuga rápida largou o laptop e o boné caiu da
cabeça.
Estas águas ainda guardarão muitos mistérios.
Precisou voltar para a superfície, faltou-lhe oxigênio para terminar a
pesquisa.
12 janeiro 2016
Banco chinês devora moedas e machuca fundos
“Os chineses da província
de Shangdon terão de pagar para sentar em bancos do Parque de Yantai. Eles vêm
com uma espécie de pinos pontiagudos que só se retraem quando o usuário coloca
moedas em uma caixa instalada debaixo dele.”
Construa mentalmente a
cena de um domingo numa praça de cidade do interior. O sino chamando para a
missa. Um casal de velhinhos, silenciosos, de mãos dadas, sentados no banco, de
frente para o coreto. Na sombra de uma jaqueira, um balão de gás vermelho, amarrado
no carrinho empurrado pela mamãe. Uma menininha de vestidinho branco, com a
boca lambuzada de sorvete, brincando com uma formiga no chão. Um cachorro
deitado na grama com a cabeça entre as patas. Uma abelha escolhendo uma flor.
Os vendedores de balão, sorvete e bolas agrupados na esquina da avenida. Tudo
muito calmo e sereno como as nuvens brancas estacionadas no céu azul.
Essa história aconteceu
na China e não aqui. Lá é tudo muito semelhante ao Brasil. Ou quase. A cidadezinha
do interior deve ter uns 30 milhões de moradores, todos com os olhinhos
semicerrados e falando uma língua que nós não entendemos. Provavelmente a plaça
tem uma igleja, um coleto e gente em plofusão – brincadeira de contador de
histórias.
A praça de Chan Ti Li
fica no topo da cidadezinha de Mo lan Go e está sempre lotada de gente.
Precisaram colocar um placar luminoso limitando o número de pessoas.
Há
vagas para dois adultos e uma criança ou um gordo e uma criança.
A situação beirava o
caos. Para aumentar a área útil aos cidadãos, o administrador do parque
eliminou todos os espaços onde havia grama, substituiu-os por um cimentado
verde. Quase todas as árvores foram retiradas. Em compensação plantou postes com
luminárias para que a população pudesse se revezar e praticar passeios
noturnos.
Os recursos para a
manutenção da praça provinham de máquinas de refrigerante adaptadas para grãos
de milho. Por algumas moedas, se recebia um copo para alimentar pombas. Com o
passar do tempo as aves sumiram, porque deixou de haver pista suficiente para
pousos e decolagens.
Necessitando de caixa, o
criativo administrador readaptou os caça-níqueis aos banheiros públicos.
Logicamente a queixa dos usuários era esperada. Surpreendeu-se, porém, ao
descobrir que a população, por falta de outro lugar para sentar, usava os
banheiros para descansar as pernas.
Empreendedor, rapidamente
adaptou bancos com pinos pontiagudos e limitadores de tempo da forma descrita
no jornal. Mesmo contrariados, os habitantes da Shangdon sentaram-se. A
novidade, entretanto, mudou hábitos de tal sorte que o ganancioso administrador
despertou para mais uma forma de arrecadar dinheiro fácil: alugava pequenos
fones de ouvido que emitiam sinais sonoros 30 segundos antes dos bancos
cutucarem as bundas distraídas. A garotada fazia fila para disputar os fones.
Curtiam saber, com antecedência, qual velhinho iria pular com cutucadas pontudas.
05 janeiro 2016
Puxando papo
Se estivermos
sentados na antessala de um ortopedista é provável que, em função do ambiente, perguntemos
ao vizinho:
— O que foi
que você quebrou?
A pergunta não
é ofensiva. É óbvio que ele não quebrou uma vidraça, nem algum vaso. Provavelmente fraturou um osso.
Se estivermos
ladeando alguém na sala de embarque do aeroporto é razoável perguntarmos:
— Vai a
serviço ou a passeio?
Será o início
de uma viagem na conversa.
Para puxar
papo com estranhos, muitas vezes, contextualizamos as perguntas quanto ao
cenário.
Fui a uma
palestra de incentivos fiscais para a cultura. O auditório estava repleto de
artistas de todos os segmentos em busca de patrocínio. Ainda faltavam 15
minutos para o início quando perguntei à vizinha de poltrona:
— Qual a é sua
área de atuação?
Ela fez uma
cara assustadíssima. Afastou o ombro do meu ombro como se eu fosse um leproso.
— Não
entendi...
— Qual é a sua
área de atuação? — perguntei de novo.
Ela arregalou
os olhos. Parece que a pergunta a deixou mais perturbada ainda.
— Hã?
—Perguntei qual
é a sua área de atuação?
Percebi um
relaxamento. O desconforto transformou-se lentamente em sorriso amigável.
— Pensei que
tivesse perguntado qual era a minha orientação.
Rimos juntos e
conversamos mais 14 minutos, afinal eu não era leproso nem inconveniente.
Talvez um pouquinho.
29 dezembro 2015
Metas e ações para o Ano Novo
Meta –
Emagrecer 15 kg. Cortar pastéis, salgadinhos e batatas fritas.
Ação –
Procurar um barzinho que sirva cenouras, rabanetes e pepinos para acompanhar a
cerveja. Se não houver legumes, levar uma faca para cortar as frituras em
pedaços menores.
Meta –
Ser promovido na empresa.
Ação – Nem
que para isso tenha que trabalhar.
Meta –
Ser pontual.
Ação –
Comprar um relógio novo.
Meta –
Viajar para a Europa por 30 dias, atendendo antigo sonho da esposa.
Ação –
Jogar mais vezes na Mega-sena.
Meta - Ser
mais companheiro, amigo e generoso com a mulher.
Ação – Ir
ao happy hour no máximo quatro vezes
por semana e, se sobrar algum, levar quibes para casa.
Meta – Ser
mais atencioso com a mulher.
Ação – Ao
menos olhar para ela quando estiver bronqueando por chegar bêbado.
Meta – Frequentar
a academia de musculação.
Ação – Estudar
inglês para comprar um tênis americano na Internet.
Meta – Fazer
as pazes com a sogra.
Ação –
Levá-la para dançar no clube dos aposentados e dançar com ela. Pagar a cerveja.
Meta –
Quitar as dívidas (aluguel, empório, prestação do carro)
Ação – Pedir
novo empréstimo à sogra.
22 dezembro 2015
24 de dezembro
Como em todas as repartições, hoje é dia de trabalho. É bem verdade que
as coisas estão lentas, quase paradas. O número de funcionários está reduzido à
metade, ou menos. Muito menos.
Depois de dezenas de reuniões e acaloradas discussões, elaboraram o mapa
de responsabilidades e presenças para o final de ano. Tudo começou em agosto,
quando os que têm visão de futuro programaram suas férias somando Natal, réveillon e férias escolares. Os ajustes
continuaram em todas as rodas de conversa. Na época, todas as premissas foram
analisadas com muita dedicação. Quem vai viajar? Para onde? Quem vai receber
visitas de parentes? Quem vai visitar parentes? Quem vai tirar recesso de
Natal? Quem vai fazer o recesso do Ano Novo? Quem diz que vai trabalhar e na
última hora diz que teve dentista? Quem não cumpriu o combinado do outro ano?
Era hora de blefar, dizendo que fez um monte de horas extras durante o ano e
que agora não queria nem saber: vai tirar uma folga compensatória, mais que
justa e merecida. Quarenta dias! Assim mesmo: quarenta por extenso. De 17 de
dezembro, uma segunda-feira, até o dia 26 de fevereiro, uma quinta-feira, logo
após o carnaval.
Misturando a lógica, justos argumentos e chantagens emocionais, tudo foi
acertado verbalmente: cada um por si e Deus por todos. Azar de quem está
iniciando no serviço público e crê que todos cumprirão palavras e compromissos.
Mesmo em dias como hoje, sempre fui responsável e cônscio dos meus
deveres e obrigações. Chego cedo, penduro o paletó no cabide, aponto meus lápis
com meu canivete vermelho, leio o jornal do chefe e tomo cafezinho nos mesmos e
rotineiros horários.
O dia está diferente. O telefone toca silêncios. Não há entra e sai de
gente. No caminho da sala ouvi as pessoas se cumprimentando e, mecanicamente,
desejando Feliz Natal. Alguns se queixaram por ainda terem de comprar
presentes. José disse que irá, como todos os natais, cear com os pais até as
dez e meia e depois deverá atravessar a cidade e cear novamente, agora com os
sogros.
Abro dois envelopes com bonitas mensagens de Natal. Antigamente os
fornecedores entregavam cestas de Natal, depois agendas ou garrafas de vinho.
Agora, cartões. Amanhã, apenas um e-mail.
Hoje, não há escola. Muitas mães levam as crianças para o serviço. É
impossível concentrar-se no trabalho com tantas crianças correndo e gritando
pelos corredores. Particularmente, deixo minha porta fechada. Todos sabem que
tenho muito a fazer. À minha frente, uma enorme lista de amigos e parentes.
Ligo para todos, um por um, desejando boas-festas. Na maioria das vezes,
respondem sem originalidade, desejando o dobro. Ao telefonar para os celulares,
alcanço as pessoas no trânsito, à beira do fogão ou nas compras desesperadas.
Todos muito atarefados e estressados com as últimas providências natalinas.
Enquanto isso, as odiosas crianças continuam agitando gritarias perto da
minha sala. Murmuro baixinho minha prece para afastar moleques arteiros.
Diabos, será que tenho de berrar ao telefone para transmitir mensagens de paz?
Lembro-me da minha infância. No Natal, reuníamos a família. Fazíamos uma
oração. Trocávamos lembranças. Nada comprado. Essa regra era fundamental.
Tínhamos que fazer o presente para cada pessoa. Era nossa maneira de demonstrar
amor e carinho. Foi assim que eu me lambuzei com um vidro de geleia de
jabuticaba, só para mim. Tia Juliana costurou o meu pijama predileto. Para o
meu melhor estilingue, o Tio Alberto usou a borracha de uma câmara de pneu de bicicleta.
Nós, que éramos crianças, cantávamos as canções de Natal.
Acho que o espírito natalino desapareceu. A magia foi apagada pelo
egoísmo, pela propaganda e pela falta de tempo.
Agora, do corredor, ouço os gritos do Tonim. Fico arrepiado. Garoto irrequieto.
Pirralho atrevido. Moleque arteiro.
Não deu
outra. Minha porta é escancarada e...
— Tiooooooooooô, Feliiiiiiz Nataaaaaaaal! Hô, hô, hô!
Era o Tonim em carne e osso e gorro de Papai Noel, correndo ao meu
encontro e tascando um delicioso beijo lambuzado.
Rápido como um cometa: veio, deixou a luz e saiu.
Uma lágrima rolou.
O espírito natalino ainda vive!
15 dezembro 2015
Salada russa
Salada russa
Outro dia fui a um jantar na casa de amigos .
A dona da casa
serviu um jantar
impecável e delicioso .
Leitão , batata
palha , farofa ,
salpicão , arroz
e autêntica salada
russa. Saxofone , bateria
e piano embriagavam inclusive
os abstêmios . Alegria
e descontração no ar .
Noite memorável !
Me morável
porque recordou-me a salada que minha mãe
aprendeu com minha
avó: salada russa.
Durante décadas a salada russa foi a contribuição
da minha mãe ,
sucedendo minha avó, para
a ceia natalina. Esta salada é tradição
familiar . As garfadas
trazem recordações de tios e tias, parentes queridos .
Muitos nasceram, cresceram e também aprenderam a saborear
a salada russa. Alguns
já se foram. Todos
envelheceram.
No ano passado ,
pela primeira
vez fiz a refrescante
salada para o
Natal em
casa . Foi aprovada . É muito
simples e rápida .
15 vagens picadas
cozida
1 maçã crocante ou 2, se forem pequenas
1 lata de ervilhas
– hoje existem ervilhas
congeladas, são muito
mais saborosas
½ vidro de pepinos
em conserva
ou o vidro
inteiro
2 ovos cozidos
1 cebola grande
os ingredientes devem ser picados como
se fosse para um vinagrete
½ xícara de vinagre
3 colheres de maionese
misture tudo e enfeite
a vasilha, em uma das laterais, com uma folha
de alface
Assim como está, é a receita que consta
na página 37 do meu
caderno . Traduzi das receitas da minha
mãe . O caderno
materno é escrito
em alemão , parcialmente com
caneta tinteiro .
Letra redonda
e caprichada. Curiosamente , ela anotou datas
logo abaixo
do nome do prato .
A salada russa consta com data de 21
de dezembro de 1949, Muschka. Curioso ? Muschka era como minha mãe chamava
carinhosamente minha avó. Isto faz supor
que este
deve ter sido o ano
em que
minha avó teria passado
a incumbência e responsabilidade
para minha mãe para as então solenes reuniões natalinas. Ainda
lembro que , no início
dos anos sessenta, o traje
era terno
e gravata para
os homens e meninos .
Longo para as
senhoras e senhoritas .
E eu considerava aquilo
absolutamente natural !
Conversei reminiscências com minha mãe e ela pegou
uma desbotada caixa de papelão
do fundo do armário .
Lembranças . Me dalhas de natação ,
uma rosa vermelha
seca pelo tempo , um crucifixo de prata ,
cartas amarradas com
uma fita verde ,
várias fotos em
preto e branco
da minha avó com
meu avô e seu
inseparável charuto .
Uma foto amarelada dos meus avós a bordo
de navio na migração para
o Brasil. Livro de poesias
com dedicatória
do meu pai
para minha mãe e o caderno
de receitas da minha
avó.
Era isso que
eu buscava. Minha
mãe , com
mais de oitenta anos
de experiência , não
teve dificuldade em
localizar na letra
gótica a receita
de Russische Salat. Percebi de onde minha mãe aprendeu a anotar data e origem
das receitas . Russische Salat, Franzl,
28 April 1920. Minha mãe contou que
a mãe dela fez a salada
a pedidos dele no aniversário
do meu avô, quando
ficaram noivos . Franzl era a forma amorosa como ela o chamava.
– Que bonito ,
mãe !
– Aqui, junto da foto do noivado, tem uma anotação do seu avô dizendo que
ele aprendeu esta salada
quando esteve na Rússia, na primeira guerra
mundial. Esta é a receita em russo com a letra dele. Tem até
carimbo do ministério
do czar .
Não tenho mais
dúvidas : esta sim
é que é a autêntica
salada russa.
08 dezembro 2015
Número na cabeça
Publicado no jornal:
Na Estrutural, uma das cidades mais carentes
do Distrito Federal, a inspiração dos jovens ao mudar o visual passa longe das
celebridades dos campos e palcos. Agora, os pedidos mais comuns nas barbearias
da região são artigos do Código Penal, números que representam a incredulidade
– como o 666 –, além de listras que servem para identificá-los como integrantes
de determinados grupos criminosos. CB – Comportamento – 16/01/2011
Por volta das seis horas da tarde de
uma quarta-feira, a viatura encostou no meio-fio ainda com as luzes piscando e
a sirene ligada. Parece que encontraram o grupo que constrange e ameaça com
apologia ao crime. São facilmente identificados pelo corte de cabelo curtíssimo
formando desenhos tribais. Os agentes saltaram empunhando armas e ordenando que
os rapazes, que corriam na calçada, levantassem as mãos.
– Quietos aí. Não se movam! De costas!
Encostem na parede! Mãos pra cima!
– É para não se mover ou levantar as
mãos?
Sob a ameaça da arma de um dos policiais,
os outros dois começaram a revistar os quatro elementos imobilizados.
– Documentos! – Gritou o homem com a
ponto 40 destravada apontando o meliante mais próximo.
Habituado à falta de gentileza, o
garoto de pele parda estava mais calmo que os agentes. – Posso botar a mão no
bolso para pegar o documento?
Sem responder o
policial consentiu gesticulando com arma.
O agente de
polícia observa a cabeça raspada em recortes imitando as tatuagens agressivas e
assustadoras.
– O que é isso na
sua cabeça?
– É a moda.
– O que significa
esse 666?
– Besta.
O policial dá um
safanão na boca do delinquente. – Me respeita!
– 666 é o número do
apocalipse. Da Besta.
– E tu? – Cutucando
com a pistola – Pensa que me assusta com esse 148 recortado no cabeção? Tô
sacando! Código Penal, Artigo 148: Sequestro e cárcere privado.
– Que é isso seu
guarda, tá me estranhando? Sou da paz. Eu moro naquela casa, aí da frente. Pode
olhar: número 148.
– E tu? – Cutucando
o terceiro – Exibindo terror para cima da comunidade? Tô de olho! 155 de um
lado e 121 do outro. Não nasci ontem. Furto e homicídio.
– Sou sangue bom!
Trabalhador. Dou um duro danado para sustentar a minha lôra. Tenho que levantar
às 4 da matina, preparar a matula e pegar o busão às 4 e meia. 155 é o número
da linha na ida. Na volta pego o 121. Tudo lotado.
O quarto elemento
nem se mexia, parecia mais assustado.
– Tira o capacete!
– Que diabos de
números são esses? 4348? Se reponder cavalo e elefante vai levar um catiripapo
no pé do escutador, só para ficar esperto.
– Pega leve. Sou
motobói. Entrego pizzas.
– Agora só falta me
dizer que a pizzaria tem 4.348 opções. – Ou vai me dizer que 4348 é o número da
pizza calabresa tamanho grande?
– Eu estava dizendo
que sou entregador de telepizza e esse é o número do telefone.
– 4348? Tá gozando
com a minha cara?
– São quatro 3 e
quatro 8. 3333-8888.
Os homens
uniformizados se entreolharam, aquele que parecia ser o chefe da operação
ordenou:
– Três três um.
Todos presos por desacato à autoridade.
01 dezembro 2015
Chatô o rei do Brasil
Esta
foi a primeira vez que ousei comentar sobre um livro lido,
a
data acusa 30/01/2005
Chatô
o rei do Brasil
Fernando
Morais
Companhia
das Letras
736
páginas
Não
anotei o valor da compra.
O
polêmico Chatô na escrita de F. Morais
Sempre tive muita curiosidade em
saber dos mistérios de poder do Velho Capitão. Guardava na memória um registro
dele trajando elegante fraque encimado por brilhante cartola. Como paulistano
passei na frente da Casa Amarela várias vezes. Uma vez parei para admirar os
colibris confinados numa enorme gaiola. Ele era um mito. Tive a oportunidade de
vê-lo uma vez.
O que mais aguçava minha
curiosidade, foi ter visto no MASP, ainda na Rua 7 de Abril, uma obra de Manet
com uma nota de agradecimento à família Lundgren pela doação. Fiquei impactado.
Mesmo menino eu sabia quanto valia um quadro de um mestre. Os Lundgren são
parentes e meu pai teve convívio com eles bastante próximo na década de 50. Ao
voltar para casa elogiei o desprendimento na doação desta magnífica obra. Meu
pai protestou. Disse que não se tratara de benemerência e sim de resultado de
chantagem. E que dessa forma Chateubriand teria montado o maior museu do
hemisfério sul. Um dia eu precisava tirar isso a limpo. O livro confirmou as
palavras do meu pai.
Por essas e outras amei conhecer
tanto sobre a figura.
Que aula de história! Chateubriand
conseguia estar presente em todos bastidores dos momentos importantes. Fazia o
mundo girar na velocidade e sentido que lhe interessavam.
Ele, conforme o título do livro era
o rei do Brasil. Era poderoso, sem escrúpulos e dono da opinião na imprensa e
na televisão nascente. Sem constrangimentos, comprava pessoas e anunciava ter
comprado.
Na leitura descobri que ele também foi
um grande incentivador da aviação no Brasil. Percebendo os conflitos
internacionais criou dezenas de aero clubes, inclusive o de Marília onde papai
tirou brevê aos 17 anos.
Fiquei estarrecido com a cara de pau
e estratégias montadas para assistir à coroação da rainha Elisabeth, à qual não
fora convidado.
Além da fantástica biografia,
chamaram-me à atenção no livro o volume da pesquisa, a quantidade de entrevistas
e a profusão de colaboradores. O senso de organização, trabalho e acima de tudo
contatos são destaque merecedores de aplausos. Trabalho complexo de pesquisa e montagem
de equipe tão grande e multidisciplinar em diversos cantos. Destaco ainda o genial
e divertido vocabulário léxico do polêmico Chateubriand que Fernando Morais
resgatou. Nauseabundo, poltrão, sacripanta, celerado, torvo, flibusteiro,
bufarinheiro e frascário foram alguns dos adjetivos nada delicados aplicados
pelo protagonista aos que atrapalhavam seu caminho.
Gosto muito de pesquisa e percebo
neste livro um rico veio de preciosidades.
Meu livro orgulhosamente tem
dedicatória do autor.
Agora, passados dez anos continuo
empolgado para ver o filme.
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