23 fevereiro 2016
Suprema decisão
A definição de raça agora é sacramentada por um tribunal de pureza racial
que entrevista os candidatos a vestibular ou concursos públicos e define os que
podem ou não ser enquadrados nas cotas dos negros. Na escola aprendi que raça
era uma coisa e cor era outra.
Negros e mulatos: 40%; deficientes físicos: 20%; egressos de escolas
públicas: 35%; pobres: 20%; indígenas: 15%; asiáticos: 4,5%; judeus: 3%;
desafinados: 5%; macrobióticos: 2%; órfãos: 1%; analfabetos: 18,37%.
O nosso caso não necessitará de nenhuma comissão especial para
confirmação. Dispensaremos atestado de pobreza e exame de DNA. A identidade
será o suficiente para provar nosso enquadramento na cota. Particularmente
tenho K por parte de pai e de mãe.
Feliz mesmo vai ser um amigo meu Zibgniev Chlowinsky, é pobre, estudou em
escola pública do nordeste, não aprendeu a escrever, é preto de pai e indígena
de vizinho, sem amídalas, careca, míope e na casa dele não tem televisão
colorida.
Zib com certeza vai entrar na faculdade, pois somando todas as cotas
estará com 127, 38%, o problema é que irá direto para o laboratório de
antropologia.
16 fevereiro 2016
Precisamos falar sobre o Kevin
PRECISAMOS
FALAR SOBRE O KEVIN
LIONEL SHRIVER
Editora Intrínseca
464 páginas
R$ 45,00
É um
fantástico romance ficcional escrito em forma de sucessivas cartas como se
fossem capítulos. Ao contrário das manchetes e notícias sangrentas que escorrem
de jornais populares é palatável, muito bem escrito e nada superficial ao falar
sobre o desenvolvimento de um serial killer.
A mãe, uma
americana escreve alucinadamente cartas ao marido narrando a própria
transformação de executiva bem sucedida em mãe de um Assassino sequencial. As
cartas são depoimentos convincentes de angústias, sofrimentos, sentimento de
culpa e inocência, acusações sofridas e punições impostas pela sociedade, além
de lembranças boas e más.
Nas
histórias policiais é comum sabermos de início que houve um crime e só
descobrimos quem é o criminoso na última linha. Nesta história, de cara sabemos
que Kevin assassinou vários colegas de escola. Aqui e em todos esses
assassinatos sequencias a mãe do criminoso, os pais das crianças mortas, os
vizinhos, os professores, os juízes e toda população mundial quer saber o por
quê.
Tentando entender
a razão a mãe relembra a vida do menino desde antes do nascimento até o dia da
barbaridade. Nas longas cartas demonstra que há uma somatória de atos, como
numa queda de avião, que sozinhos não provocariam o desastre, mas que somados
fatalmente levam à tragédia.
A mãe, que questiona
a própria culpa apesar da condenação implacável da sociedade, mostra como
qualquer família pode a qualquer tempo, aparentemente, sem mais nem menos,
gerar um filho assassino. Isto é, com verossimilidade e altas doses de ironia a
situa e identifica o leitor como pai ou mãe do personagem assassino.
Em todas as
histórias ficcionais há momentos em que identificamos passagens que poderiam
ser autobiográficas, ou seja, verídicas e que se passaram com o autor. Mas em
um livro chocante e mórbido como este, será que há alguma semelhança entre
criatura e criador? Afirmo que sim. Não me refiro a nenhuma crueldade. O
perverso Kevin Khatchadourian e a premiada Lionel Shriver planejaram
detalhadamente e dissimularam suas ações. A autora foi incrivelmente capaz de
posicionar as cartas apresentando um episódio cada vez mais comprometedor. Em
vez de nominar os capítulos com títulos enumerando perversidades batizou-os com
datas como se fossem meras cartas sequenciais. Nada mais camuflado. Em muitas
das passagens a autora conseguiu me chocar com as atitudes sádicas do
protagonista. Apesar de sabermos desde o início aonde a história iria chegar,
fui surpreendido várias vezes, principalmente com o final.
A história é
densa e tensa, envolvente e emocionante. Muitas ações e histórias paralelas
constroem um romance para ser lido em um só fôlego, sem interrupções. Não é à
toa que recebeu elogios da crítica internacional e desponta entre os grandes
best sellers americanos. Até virou premiado filme.
09 fevereiro 2016
Telhas assassinas
Leitor
compulsivo que sou, meus olhos leem paisagens buscando palavras e letras.
Outdoors
poluem a cidade. Placas de trânsito infestam as ruas. Letreiros iluminam as
lojas. Cartazes alugam e vendem.
Entre todos os
letreiros meus olhos são particularmente atraídos pelas intervenções urbanas
diferenciadas: “Brasília expande a distância entre os corpos.”; “Atenção isto
pode ser um poema.”; ”Alimente os pássaros imaginários.”; ”Liberte seus cachos,
amarre o preconceito.”.
Aquilo é no
mínimo estranho. Não consigo captar a mensagem. A estaca está próxima a um poste
rodeado de mato alto.
— Será que existe
uma pilha de telhas sob o mato?
Mas continuo a
caminhada e a mente muda de assunto quando os olhos flagram o anúncio do posto
de gasolina com o novo preço dos combustíveis.
Só volto a pensar brevemente nas perigosas telhas no dia seguinte. Com o
quebra-cabeças não resolvido lembro-me de outra frase lida: “ Alfaiate. Paletós
sob medida para almas pequenas.”
Acho
sensacional a criatividade e a disposição desses poetas para ir às ruas
pintar, desenhar ou colar paredes. Ao contrário dos artistas que provocam o
pensar e o riso há os que agridem com rabiscos indecifráveis nos topos dos
prédios e em todas as paredes públicas ou privadas desrespeitando monumentos,
pontos turísticos e a urbanidade.
É lógico que
prefiro a criatividade causada, por exemplo, quando estou de carro a caminho de
casa. Há uma passagem estreita sob uma avenida (carinhosamente chamada Eixinho),
onde de cada lado da entrada da passagem pintaram uma enorme perna feminina. Numa
erótica provocação entramos de carro no túnel entre as pernas escancaradas.
Deixando as
pernas de lado, volto para a minha trilha matinal ainda matutando sobre o
perigo que as telhas poderiam oferecer. Questiono a necessidade de comunicação dos
homens. Eletricista. Bombeiro. Faço buracos para secador. Lava-se sofá. Chaveiro
24 horas. Cristo salva. Vende-se kitchinete. Marido de aluguel. Fazemos seu churrasco.
Trago seu amor de volta em 3 dias. Confecciono cartazes.
— Será que no
meio do matagal há algum fosso coberto por telhas?
— Sabe de uma
coisa? Hoje, no caminho de volta vou tirar isso a limpo.
E assim foi
que ao me aproximar do enigmático cartaz troquei o meu passo descansado por uma
corrida desenfreada ao decifrar a charada: ”Cuidado abelhas.”
02 fevereiro 2016
Clichê
Em março ou abril
lançarei o
Manual do escritor
Só faltam o copidesque e
a revisão.
Segue um aperitivo
Clichê
É
repetição. É o oposto de criatividade.
Pessoas comentam
orgulhosos de sabedoria: “filho de peixe, peixinho é” ou “quem brinca com fogo
acaba se queimando” ou “em briga
de marido e mulher, ninguém mete a colher” e depois olham com cara de
superiores e narizes empinados como se tivessem dito a coisa mais sábia do
universo.
Sábio foi o primeiro que disse a frase antes de virar ditado. Os outros
são meros repetidores. E, para a literatura, nada pior que a previsibilidade.
Além dos ditos populares há vários outros lugares comuns que devem ser
evitados. É o caso do agente de viagens que afugenta clientes ao informar que a
cidade é hospitaleira, tem praias paradisíacas de areia branca e água
cristalina.
Os chavões refletem ausência de
pensamento:
Aluno exemplar; amargo destino; campos verdejantes; céu infinito;
coração estúpido; cortina de ferro; em última análise; dever indeclinável;
dramática situação; fim amargo; forte como touro; influência avassaladora;
ironia do destino; manto negro da noite; morrer como um passarinho; por
incrível que pareça; primeiro e único; rua da amargura; sem sombra de dúvida;
sério candidato; silêncio sepulcral, vil metal.
Inclua ponto
final na lista.
Ao revisar
fique atento às duplinhas. Se tiver dúvidas se o termo é ou não clichê
verifique o número de ocorrências assinaladas no Google.
Ironia do destino apresentou aproximadamente 560.000 resultados.
Coração estúpido apresentou aproximadamente 678.000 resultados.
Sério candidato apresentou aproximadamente 3.160.000 resultados.
Mesmo que
sejam “apenas” 10 mil ocorrências é um baita clichê.
Baita clichê apresentou aproximadamente 271.000 resultados.
O clichê de ideia é como o parente previsível
que no Natal nos presenteia com canetas, gravatas ou um par de meias. É o cidadão
que reclama dos políticos corruptos, é o filho que declara o amor incondicional
à mãe, é o leitor que fala mal da literatura de Paulo Coelho sem ter lido um
único livro, é o sujeito que sempre cumprimenta o Humberto perguntando se é
irmão do Doisberto.
Sabemos
que roubar um tênis é um mal. Isso é sabido desde sempre, sem que ninguém nos diga.
Deixemos que o juiz o julgue. Cabe ao autor simplesmente mostrar que tipo de
gente rouba tênis.
O gesto clichê é tão indesejável na literatura quanto ganhar
um porta-retratos. Clichês físicos e gestos chavões
inundam a escrita medíocre.
Sabe, ele me ganhou com aquele olhar de soslaio.
— É mesmo?
— Convidei-o para vir na minha casa. Meus batimentos estavam a
mil por hora e minhas mãos também estavam úmidas.
— E vocês chegaram às vias de fato?
— Nem te conto, amiga, do hálito quente sussurrado no ouvido até
a mão grande com pegada forte, ele é tudo de bom.
— E depois?
— Ele é um amor. No café da manhã, pegou o pote de margarina e
desenhou um coração.
— Vocês se acharam, se completam. Formaram o par perfeito: Clichê e Chavão.
26 janeiro 2016
Endereços que ninguém encontra
Nota do jornal: “Com
poucas placas de sinalização e identificação de lugares, região pertencente a
Águas Claras traz dor de cabeça aos moradores, que encontram dificuldade em
receber correspondência, contas e até visitas.”
Três batidas secas com o nó do dedo médio no
vidro do carro acordaram Antônio Rezende P. Silveira. O sol começava a se
esconder atrás de alguns barracos de madeira. O vento frio uivava no meio da
poeira.
O fiscal da receita estadual empurrou um boleto
de cobrança de IPTU – Imposto Predial e Territorial Urbano – janela adentro.
Com a cara amassada de um dia mal dormido Antonio
reclamou que não entendia aquela cobrança.
— O senhor está morando neste lugar há uma
semana, fixou residência, logo deve pagar o IPTU.
— Eu estou perdido.
— Não tem dinheiro para pagar?
— Vim para este maldito lugar e não encontrei o
endereço para entregar uma cesta de café da manhã. Procurei, procurei e rodei
tudo que é rua. Depois deu o desespero e tentei encontrar a saída. Aí acabou a
gasolina. Ninguém sabe que rua é essa! Estou perdido neste fim de mundo.
***
A Companhia de Eletricidade terminou de plantar
oito postes de iluminação sob o olhar atento de José de Arimatéia Rodrigues. É
a primeira rua do bairro onde as mariposas podem enlouquecer em volta da
lâmpada.
— Eu gostaria de agradecer o trabalho de vocês.
Ficou brilhante.
— Agradeça ao Deputado Chico Daluz.
— Hoje mesmo falarei com o filho dele que mora
naquela casa, na rua vizinha.
— Na outra rua? Não é aqui? Virgem Maria! Erramos
a rua!
***
Por causa de histórias como essas a comunidade,
liderada pela parteira Mari Cesária e pelo escriturário Zé Bic, convocaram a
população para uma reunião e colocaram em discussão os nomes das ruas.
A babilônia das ruas marcou presença na reunião.
— Vamos colocar nomes de países? Noruega,
Alemanha, Estados Unidos, Suíça, Inglaterra. Quem sabe essas nações adotam
nossas ruas?
— Duque de Caxias, Almirante Tamandaré, General
Mascarenhas de Morais, Marechal Deodoro foram as opções do major aposentado.
— Acho que devemos valorizar a nossa terra, nosso
povo, nossas origens. Proponho botocudo, tupinambá, nhambiquara, goytacaz,
tremembé.
— Você gosta de polissílabos? Prefiro mais
curtos!
O contador sugeriu numerar as ruas. A
bibliotecária contestou sugerindo uma codificação alfanumérica.
A mocinha apaixonada levantou a mão pedindo a
palavra e opinou Avenida do Amor, Alameda da Saudade, Rua do Aconchego, Praça
dos Sonhos, Esquina do Flerte, Travessa Abraço Feliz...
— E as minorias? Agora é lei. Temos que reservar
espaço para eles. Rua dos Deficientes Auditivos, Quadra da Melhor Idade,
Ladeira dos Cadeirantes...
— Proponho o nome do ilustre presidente, do
dinâmico governador, dos nobres senadores, de alguns devotados deputados. Do
nosso querido prefeito!
— Aí, seu baba-ovo, não se esqueça do nome da
avó!
— Acalma! Sossega! Aquieta!
— Não gostei dessas sugestões! – reclamou um
desatento.
— Não são nomes de rua, apenas estou pedindo paz
aos exaltados.
A reunião terminou em beco sem saída.
21 janeiro 2016
Festa no covil
Juan Pablo
Villalobos
Companhia das
letras
R$ 30,00
88 páginas
Deliciosamente
diferente de tudo que tenho lido. Leitura fácil e rápida. Difícil será resenhar
com originalidade uma vez que na capa traz um teaser perfeito: “Um poderoso romance sobre inocência e
bestialidade. Cômico e assustador.” Também no verso há um ótimo resumo e para
completar há um posfácio espetacular, não deixando muita coisa para acrescentar.
A história
lembra muito o filme A vida é bela de
Roberto Benigni, onde um pai faz o filho acreditar que o Holocausto é um jogo
sem que o menino perceba o horror no qual estão inseridos. No livro A festa no Covil o menino Tochtlili,
mimado, percebe que o pai é rico, pode tudo, mas não tem a menor ideia de que do
que o pai faz. Sabe que não pode chamá-lo de pai. Enquanto Yolcault é o maior
traficante mexicano, o menino só tem interesse, uma quase fixação, em acrescentar
um hipopótamo anão liberiano ao minizoológico.
Por segurança,
Tochtili não pode sair do palácio onde mora. Conhece apenas uma dúzia de
funcionários e seguranças que prestam serviços regulares na fortaleza. Está
sempre com a cabeça coberta. A cada dia usa um chapéu diferente e guarda a
enorme coleção no quarto dos chapéus. Quase todos os quartos da mansão tem
acesso proibido e ficam trancados. Cercado de violência a percebe com
naturalidade. Tem o momento de carinho com o pai assistindo juntos filmes de
samurais com suas espadas cortantes sangrando oponentes. Entende que os americanos
matam com tiros, os mexicanos com facões, os japoneses cortam cabeças com
sabres e que os franceses são mais evoluídos por terem inventado a guilhotina.
Com tanto
sangue e violência à volta, a inocência do menino que se julga esperto produz
um efeito de assustadora e bizarra comicidade.
O autor
conseguiu narrar uma história do mundo do narcotráfico a partir do ponto de
vista de um menino sem precisar se envolver com drogas, armas, dólares,
políticos e polícia. O bom de uma narrativa é quando o autor nos convence da
verossimilhança da história. O garoto presencia ou comete barbaridades com a
suavidade de quem come um sorvete.
É hilário
quando conta um jogo de que gosta de brincar com o pai.
“Uma das
coisas que aprendi com o Yolcaut é que às vezes as pessoas não viram cadáveres
com uma bala. Às vezes precisam de três balas ou até catorze. Tudo depende de
onde você atira. Se você atira duas balas no cérebro, com certeza eles morrem.
Mas você pode atirar até mil vezes no cabelo que não acontece nada, apesar de
que deve ser bem divertido de ver. Eu sei dessas coisas por causa de um jogo
que eu e o Yolcaut costumamos jogar. O jogo é de perguntas e respostas. Um fala
uma quantidade de tiros e uma parte do corpo, e o outro responde: vivo, cadáver
ou diagnóstico reservado.
— Um tiro no
coração.
— Cadáver.
— Trinta tiros
na unha do dedo mindinho do pé esquerdo.
— Vivo.
— Três tiros
no pâncreas.
— Diagnóstico
reservado.”
O
texto é muito bem trabalhado. Por ter sido escrito pela ótica de um menino
inocente parece superficial. Não é. Há reflexões geniais como quando sugere:
“Alguém
devia inventar um livro que dissesse o que está acontecendo neste momento,
enquanto você lê. Deve ser mais difícil de escrever que os livros futuristas
que adivinham o futuro. Por isso não existe. E aí a gente tem que investigar na
realidade.”.
Por
curiosidade, pesquisei os nomes escolhidos pelo autor para as personagens e
tive confirmada a suspeita de que nada no livro é por acaso.
|
Personagem
|
Referência
|
|
Yolcault
|
É o mais poderoso chefe do tráfico de drogas do México (significa
serpente venenosa/ cascavel)
|
|
Tochtili
|
É filho único de Yolcault (significa coelho – simboliza a inocência)
|
|
Mazatzin
|
Tutor de Tochtili. Professor. Desejou ser escritor. Cama Tochtili de
Usagi (no calendário maia, asteca e tolteca Mazatzin é um professor)
|
|
Miztli
|
Vigia. Pajem de Tochtili. Matador (significa puma)
|
|
Chichilkuali
|
Vigia. Matador (significa águia vermelha)
|
|
Itzpapolotl
|
Empregada (significa mariposa com asas de navalha que governava o
mundo do paraíso do deus Tomoachan)
|
|
Azcatl
|
Jardineiro – mudo (significa formiga vermelha responsável por manter
a evolução das raças)
|
|
Itzcuautli
|
Cuidador do zoo – mudo (significa águia real)
|
|
Cinteotl
|
Cozinheira (deus do milho – principal alimento azteca)
|
|
Quecholli
|
Amante do pai. Vegetariana – muda (significa pena, pluma preciosa)
|
|
El Gober
|
Governador (gobernador em espanhol é governador)
|
|
Franklin Gómez
|
Nome hondurenho do passaporte falso de Mazatzin
|
|
Winston López
|
Nome hondurenho do passaporte falso de Miztli
|
|
Junior López
|
Nome hondurenho do passaporte falso de Tochtili. Também Jota Erre
|
|
John Kennedy Johnsson
|
Guia na selva da Libéria
|
|
Martin Luther King Taylor
|
Motorista da van de carga na selva da Libéria
|
|
Paul Smith
|
Traficante americano
|
|
Alotl
|
Nova professora para Tochtili. Amante do pai. Arara – ave que fala.
|
Espero que
você goste tanto do livro quanto eu gostei.
19 janeiro 2016
Recenseador perde o boné e a coragem
Recenseador perde o boné
e a coragem
Nota do jornal: “Grupo
de 360 pesquisadores faz censo da vida marinha em todo o planeta e revela parte
da riqueza de um mundo ainda misterioso.”
José Osmar Clarindo foi o quinto colocado no
concurso nacional para agente censitário do IMGE, o Instituto Marinho de
Geografia e Estatística. Finalmente chegou o seu primeiro dia como recenseador
das águas ensolaradas do Atlântico brasileiro.
Recebe um colete com o logotipo do IMGE estampado
no peito, crachá, um computador portátil além, naturalmente, de todo o
equipamento para mergulho.
O dia de Jotaô não é um mar de rosas. Começa com
problemas de locomoção sem vale-transporte e a descoberta que não há linhas
regulares de ônibus para a região para onde foi escalado. Teve que pedir carona
a um barco pesqueiro.
Conferiu e confirmou a exata localização com um
pequeno GPS. Apertou a campainha da primeira porta que encontrou pela frente.
Foi atendido por uma estrela marinha com um monte de bobis no cabelo oxigenado.
Esta informou que naquele domicílio morava com o maquiador e seis filhos. Três
dela, um dele e outros dois, menorzinhos, em conjunto com o namorado. Informou
que era atriz desde pequena e que fez a primeira ponta num comercial para pasta
de dentes. Seu nome era Marynalva Souza Ferreira, mas que no formulário
preferia Marylin di Mônaco.
Em seguida entrevistou a quelônia Affonsina
Austragésila Clementina Teóphila Junqueira conhecida por Tatá. Negou que o
apelido era uma forma carinhosa por ser uma tartaruga. O tataraneto a chamava
assim. Na hora de preencher o quadradinho com a idade, duvidou quando ela disse
ter 278 anos. Mulheres costumam reduzir a idade.
– E a casa?
– Olhe para mim – mostrou um anel de diamantes –
e diga se tenho cara de quem tem imóvel cedido ou alugado? É apertado, mas é
meu.
– Quantos quartos? Quantos banheiros? A senhora
tem televisão, geladeira e aspirador de pó?
Dona Tatá achou tudo muito indiscreto. Quando
perguntada se morava sozinha, fingiu atender uma chamada ao telefone, pediu
licença e terminou a conversa.
A manhã avançava rápida e ainda precisava
preencher seis formulários para atender a meta diária imposta pelo IMGE.
Já começava a decorar as perguntas. Nome, idade,
quantos moravam naquele domicílio? A casa tem energia elétrica? O lixo é
recolhido, queimado ou jogado no mar? Tem rede de abastecimento de água ou a
água vem do poço ou de algum do rio?
O próximo endereço era soturno. Ouviu latidos
antes de ler a placa que avisava peixe bravo. Consultava o relógio, 12h25,
quando a porta se abriu e um enorme tubarão branco abriu a porta. A fera estava
com um garfo na nadadeira direita, uma faca na esquerda e um guardanapo
amarrado no pescoço.
Com voz de trovão cumprimentou amistosamente:
– Veio em boa hora, amigo. Vamos entrar! Vou
começar meu almoço agora.
Na fuga rápida largou o laptop e o boné caiu da
cabeça.
Estas águas ainda guardarão muitos mistérios.
Precisou voltar para a superfície, faltou-lhe oxigênio para terminar a
pesquisa.
12 janeiro 2016
Banco chinês devora moedas e machuca fundos
“Os chineses da província
de Shangdon terão de pagar para sentar em bancos do Parque de Yantai. Eles vêm
com uma espécie de pinos pontiagudos que só se retraem quando o usuário coloca
moedas em uma caixa instalada debaixo dele.”
Construa mentalmente a
cena de um domingo numa praça de cidade do interior. O sino chamando para a
missa. Um casal de velhinhos, silenciosos, de mãos dadas, sentados no banco, de
frente para o coreto. Na sombra de uma jaqueira, um balão de gás vermelho, amarrado
no carrinho empurrado pela mamãe. Uma menininha de vestidinho branco, com a
boca lambuzada de sorvete, brincando com uma formiga no chão. Um cachorro
deitado na grama com a cabeça entre as patas. Uma abelha escolhendo uma flor.
Os vendedores de balão, sorvete e bolas agrupados na esquina da avenida. Tudo
muito calmo e sereno como as nuvens brancas estacionadas no céu azul.
Essa história aconteceu
na China e não aqui. Lá é tudo muito semelhante ao Brasil. Ou quase. A cidadezinha
do interior deve ter uns 30 milhões de moradores, todos com os olhinhos
semicerrados e falando uma língua que nós não entendemos. Provavelmente a plaça
tem uma igleja, um coleto e gente em plofusão – brincadeira de contador de
histórias.
A praça de Chan Ti Li
fica no topo da cidadezinha de Mo lan Go e está sempre lotada de gente.
Precisaram colocar um placar luminoso limitando o número de pessoas.
Há
vagas para dois adultos e uma criança ou um gordo e uma criança.
A situação beirava o
caos. Para aumentar a área útil aos cidadãos, o administrador do parque
eliminou todos os espaços onde havia grama, substituiu-os por um cimentado
verde. Quase todas as árvores foram retiradas. Em compensação plantou postes com
luminárias para que a população pudesse se revezar e praticar passeios
noturnos.
Os recursos para a
manutenção da praça provinham de máquinas de refrigerante adaptadas para grãos
de milho. Por algumas moedas, se recebia um copo para alimentar pombas. Com o
passar do tempo as aves sumiram, porque deixou de haver pista suficiente para
pousos e decolagens.
Necessitando de caixa, o
criativo administrador readaptou os caça-níqueis aos banheiros públicos.
Logicamente a queixa dos usuários era esperada. Surpreendeu-se, porém, ao
descobrir que a população, por falta de outro lugar para sentar, usava os
banheiros para descansar as pernas.
Empreendedor, rapidamente
adaptou bancos com pinos pontiagudos e limitadores de tempo da forma descrita
no jornal. Mesmo contrariados, os habitantes da Shangdon sentaram-se. A
novidade, entretanto, mudou hábitos de tal sorte que o ganancioso administrador
despertou para mais uma forma de arrecadar dinheiro fácil: alugava pequenos
fones de ouvido que emitiam sinais sonoros 30 segundos antes dos bancos
cutucarem as bundas distraídas. A garotada fazia fila para disputar os fones.
Curtiam saber, com antecedência, qual velhinho iria pular com cutucadas pontudas.
05 janeiro 2016
Puxando papo
Se estivermos
sentados na antessala de um ortopedista é provável que, em função do ambiente, perguntemos
ao vizinho:
— O que foi
que você quebrou?
A pergunta não
é ofensiva. É óbvio que ele não quebrou uma vidraça, nem algum vaso. Provavelmente fraturou um osso.
Se estivermos
ladeando alguém na sala de embarque do aeroporto é razoável perguntarmos:
— Vai a
serviço ou a passeio?
Será o início
de uma viagem na conversa.
Para puxar
papo com estranhos, muitas vezes, contextualizamos as perguntas quanto ao
cenário.
Fui a uma
palestra de incentivos fiscais para a cultura. O auditório estava repleto de
artistas de todos os segmentos em busca de patrocínio. Ainda faltavam 15
minutos para o início quando perguntei à vizinha de poltrona:
— Qual a é sua
área de atuação?
Ela fez uma
cara assustadíssima. Afastou o ombro do meu ombro como se eu fosse um leproso.
— Não
entendi...
— Qual é a sua
área de atuação? — perguntei de novo.
Ela arregalou
os olhos. Parece que a pergunta a deixou mais perturbada ainda.
— Hã?
—Perguntei qual
é a sua área de atuação?
Percebi um
relaxamento. O desconforto transformou-se lentamente em sorriso amigável.
— Pensei que
tivesse perguntado qual era a minha orientação.
Rimos juntos e
conversamos mais 14 minutos, afinal eu não era leproso nem inconveniente.
Talvez um pouquinho.
Assinar:
Postagens (Atom)














