27 agosto 2015
Literatura desalojada
A comunidade literária
brasiliense está em estado de choque!
O Núcleo de Literatura da Câmara
dos Deputados coordenado pelo Prof. Marco Antunes foi desalojado. Foi colocado
na sarjeta. Foi escorraçado como um cachorro sarnento.
O Núcleo teve início nem 2003 com
oficinas literárias gratuitas. De lá até os dias de hoje, com absoluta
regularidade, foram ministradas oficinas literárias com uma grade de 15 horas
semanais de aulas todas elas preparadas e ministradas por Marco Antunes.
Graças à persistência e doação de
Marco Antunes mais de 20 alunos escreveram e publicaram livros,
transformando-se em autores. Inúmeros servidores da casa, incluindo deputados,
tiveram aulas de retórica, milhares (milhares mesmo) de pessoas aplaudiram os quase
70 saraus produzidos. Também inovou ao criar uma oficina virtual chamada
Desafio dos Escritores onde autores de todo Brasil (e ainda de Portugal e do
Japão) participaram. Todos os eventos, saraus e Desafios tiveram o apoio da Câmara
dos Deputados, gesto sempre muito elogiado.
Agora, por uma necessidade de
agradar a liderança de um partido nanico, o Núcleo foi despejado sem receber
outro lugar para dar continuidade ao trabalho.
Marco Antunes jamais cobiçou
qualquer cargo. A única ambição foi e continua sendo: “tornar a literatura uma
atividade permanente na Câmara dos Deputados, auxiliar na formação do servidor
e promover eventos que divulguem a literatura, em especial a brasileira.”
Há dois anos, por reconhecimento
e serviços prestados, o Núcleo de Literatura foi oficializado no organograma dentro
do Centro Cultural da Câmara dos Deputados.
Agora, apesar do esforço
contrário da Diretora do Centro Cultural, Isabel de Flecha de Lima, o Núcleo é
sem teto.
Roberto Klotz
Aluno das oficinas
22 de agosto de 2015
25 agosto 2015
Limonada suíça
Ontem fui a uma reunião na casa de um amigo . Gente
finíssima. Casal muito
amável e receptivo ,
daqueles que não
seguem moda , fazem moda . Apartamento nobremente decorado. Poltronas
de couro , quadros
assinados e artesanato exclusivo.
Para eles, nada é simples .
Tudo tem valor
agregado . Sem
demagogia , sem
modéstia , com
esnobismo e com
muito miserê.
Chamou-me a atenção a grande mesa
decorada com originalidade .
Abóboras , rabanetes
e alface espalhada.
Logo fiquei sabendo que a abóbora não era abóbora . Era uma abóbora
premiada. Que os rabanetes
não eram rabanetes ,
eram rabanetes melhorados geneticamente.
Fiquei imaginando que a alface não era alface , era alface crespa alisada com
chapinha.
Devíamos
Ele pitava um cigarro
de palha em vez de cigarro ,
cachimbo ou
charuto. E aquela palha havia sido
trazida da Síria na última
viagem que
fizeram ao Oriente.
Até o pão do sanduíche
havia sido, conforme o casal , produzido especialmente
para aquele evento : sem nenhum aditivo químico . A sobremesa foi queijo minas com goiabada cascão . A goiabada
foi fervida em tachos
de cobre pela
avó do prefeito numa vila do nordeste
mineiro.
O que mais me
impressionou foi quando , ainda antes do sanduíche , a sede
apertou. Uísque? Nem pensar . Imaginei a cerveja glacial
descendo e aplacando desejos sedentos . Não me perguntaram o que
eu queria beber .
Apenas anunciaram que
a bebida já
estava na mesa.
Fui seco à jarra
de cristal . Julguei maravilhosa
caipirinha abrindo caminho
para a cerveja.
Servi um copo
grande , imaginando batida
comunitária .
Provei.
Impossível disfarçar minha desagradável surpresa .
Além de amarga, sem
açúcar.
dona de casa logo
agregou:
______________________________________
Se Deus lhe der um limão, faça uma caipirinha.
14 agosto 2015
COMO SUPORTAR JABS
COMO SUPORTAR JABS NO
BAÇO E ENCARAR NOCAUTES
Vlado Lima
Editora Patuá
108 páginas
R$ 35,
Se você está
no ar condicionado acomodado num sofá tomando Veuve Clicquot, se você for
politicamente correto, se a bebida mais maléfica que você já tomou na vida foi
uma coca quente sem gás e se nunca gargalhou por causa de um peido que soltou no
meio dos amigos então definitivamente este livro não é para você.
Este livro ri,
debocha ou morde. Sacaneia aquilo que está à nossa frente, mas que a sociedade
de falsos pudores ignora ou finge ignorar.
O livro, de
acordo com a ficha catalográfica, é de poesia. Esteticamente, são poemas. Na
minha ignorância eu diria que são tiradas inteligentes, mordazes, bem-humoradas
com ritmo, cadência e sonoridade. Foram escritas para ser interpretadas e
aplaudidas em voz alta.
Eu conheci as
sacadas do autor em Pop para-choque,
livro emprestado em que não pude sublinhar, riscar nem dobrar orelhas. Este,
adquiri no site da Patuá. É meu.
Posso profanar, posso sacrilejar, posso tudo. Posso até elogiar: esse cara enxerga
o mundo com originalidade. Conferi 20 orelhas dobradas. Uma orelha para cada
poema gostado.
Em vez de
continuar enchendo o autor de elogios, copei três poemas:
Conselho de mãe
o buraco do mundo é fundo!
disse minha mãe no dia em que saí d casa
costurou um beijo quente em minha testa
me deu um abraço de Kraken
7 cuecas novas
4 conselhos
e uma certeza:
não roube
não mate
respeite os mais velhos
e cuidado com puta
viado
preto
ateu
maconheiro
e comunista
(...)
essa gente não presta!
anos depois
no dia das minhas 26 luas
(com a casa cheia de amigos
cheiros
risadas
carnavais
e cores de Lautrec)
a velha me ligou pra dar os parabéns
alô, mãe! eu gritei
(entre os agudos & graves e um Led Zeppelin no talo)
lembra daquela galera que a senhora falou pra eu tomar
cuidado?
tá toda aqui em casa!
Rodrigueanas no 4 –Almas gêmeas
5o anos de casados
4 filhos
7 netos
3 bisnetos
e brigas
muitas brigas
maiúsculas
insignificantes
homéricas
ela não apagou a luz
ele mijou fora da privada
ela queimou o feijão
ele não levou o cachorro pra
cagar no quintal do vizinho
a última cizânia
foi por causa de um cemitério
queriam ser enterrados juntos
ela preferia aquele-um lá da
Vila Galvão
ele, aquele-outro do Parque
Continental
combinaram: quem morrer primeiro
escolhe
não deu outra
só para atanzanar a coitada
ele bateu a caçoleta primeiro
no velório
ela (feito uma uva melancólica)
sentada inconsolável ao lado direito do caixão
dizia aos prantos: eu queria que
o meu velho estivesse aqui
eu queria que o meu velho
estivesse aqui
só para ver o cemiteriozinho de
merda que ele escolheu.
Se eu soubesse que
você viria
Se Eu soubesse que você viria
eu teria feito um
bolo
Eu
não teria secado o meu estoque
de Red Label paraguaio
nem teria empalado carneirinhos de celulose
nas minhas madrugadas sem sono
Eu
não teria pendurado
essa bandeira negra na janela
nem teria quebrado a minha coleção
de LPs do Roberto
Eu
não teria sintonizado em UHF
meus cornos para-raios
nem teria vagado pelas noites da Rua Augusta
como um chihuahua-zumbi sem dono
Eu
não teia afogado na privada o teu ursinho lionella
nem teria deixado o desintegrador de ameba
assim
tão perto
se Eu soubesse que você viria
Eu teria feito um
bolo
10 agosto 2015
Paris
Minha tarefa diária de apontar todos os lápis é das mais importantes.
Apesar do moderno apontador, faço questão de mostrar a arte, esculpindo as
pontas com meu canivete vermelho. Os lápis têm a majestosa função de escrever
petições, redigir ofícios, anotar depoimentos, rascunhar despachos e limpar
orelhas.
Os jornais devem chegar donzelos. Intactos. Responsável que sou, sempre
chego antes do chefe pelo menos umas duas ou três horas para dar conta dos meus
árduos e rotineiros deveres. Nesta quarta-feira, li, pelo menos, a manchete do
jornal. E mais um pouquinho. Estava tão cedo. Política, internacional,
esportes, cultura. Lá no caderno de turismo anunciavam passagens para Paris.
Mon Diê. Doze vezes, e ainda assim tá caro!
Paris é
Saímos juntos
para um café na calçada
coberta com
as folhas douradas. Crepe
Suzete, baguete , Lafayette, cotonete . Ah, o som, magnífico som: camembér, trotoá,
voalá, peti puá, croassã, chantili , rende
vu.
Na mesa
vizinha, Voltaire, Sartre, um cavalo branco e
Bonaparte. À direita, Jacques Cousteau, Débussy, Asterix e Brigitte Bardot.
Bonsuá!
Saio de braços dados . Todos me cumprimentam. Não
é por mim ,
é por minha
encantadora companhia que seduz com olhar emblemático
e sorriso enigmático.
Nesse exato momento os sinos
da catedral de Notre Dame badalam dez
vezes.
O chefe entrou na sala.
— Bonjour!
— Que
droga, von Silva! Quantas vezes preciso te dizer que odeio quando mexem ou
dormem no meu jornal?!
Texto publicado no livro "Cara de crachá"
Prêmio edição da crônica “Dia e noite, Paris é um sonho” no
Prêmio UFF de Literatura, promovido pela Universidade Federal Fluminense, Niterói
– RJ.
04 agosto 2015
O amuleto de prata
Nevara na
noite anterior. Apesar do sol mostrando os dentes, fazia frio. Muito frio.
Andar na calçada congelada era dançar equilibrismo. Só muita necessidade ou
ignorância faria alguém andar no comércio da Heimatstrasse naquela manhã. Maurício
com joelhos e fundilhos molhados só não engatinhava para não perder a dignidade
de vez.
Levantando-se
mais uma vez, percebeu que era observado através do vidro da vitrine. Abanou sem
graça para as mulheres que formavam uma plateia do lado de dentro da janelona. Arrastou-se
mais três minutos até chegar ao trinco da porta da loja. Sentiu-se um náufrago
alcançando uma boia flutuante.
Ao pisar no
capacho recompôs a postura, ajeitou a mochila e abriu a porta. Interrompendo
uma aula de tricô entrou na loja de armarinhos deixando um rastro de pegadas no
carpete.
Uma senhora
que parecia ser a dona da loja tomou a frente:
– Fühlen sie
sich wohl? – O senhor está se sentindo bem?
Maurício
ergueu os ombros, inclinou a cabeça para o lado e abriu as mãos espalmadas numa
interrogação mímica. Ele não falava alemão. Nem francês nem inglês.
A mulher
apontou para uma porta.
– Möchten sie einen Handtuch? – O senhor quer
uma toalha?
Ele repetiu o
gesto. Estava constrangido. Era turista. Escolheu a época errada para viajar. Não
falava a língua. De calças tão molhadas, parecia mijado. Sentia frio. Estava sem
dinheiro num ambiente requintado e repleto de senhoras. O que fazia ali?
Maurício era
de Araçatuba, interior de São Paulo. Desde que ganhara a moeda de prata
sentia-se o maior felizardo do mundo. Faturou uma grana na loteria. Mais do que
comprar um carro, catou a namorada e saiu para viajar o mundo. Inglaterra,
França, Espanha, Itália, Alemanha. Até que foi assaltado. Sobrou apenas a mochila.
Na manhã
seguinte, antes do café, foi expulso do hotel e a namorada o trocou por um indiano.
Precisa registrar a queixa e tentava caminhar até o consulado brasileiro quando
recobrou o equilíbrio na loja de armarinhos fazendo o papel de um animal exótico
num jardim zoológico.
Uma mulher
curvilínea foi até ele com uma enorme toalha aberta num abraço.
Aconchegando-se
na toalha e braços murmurou obrigado.
A mulher
respondeu “bitte schön” – de nada – numa voz masculina.
Maurício teve
certeza. A sorte o abandonara.
Com a mão no
bolso procurou o amuleto. Em pagamento, ofereceu a moeda de prata.
14 julho 2015
09 julho 2015
Estreia na calçada
Puxa, como está frio nesta esquina. Eu poderia ter colocado a
minha calça azul. Esta saia chama mais a atenção dos homens. Ou devo chamá-los
de clientes? Sinto falta do cachecol. Preciso destacar meus peitos e um
cachecol poderia servir para me estrangular. Xô, pensamento ruim! Será que
algum carro vai parar? Será que vai demorar? Será que meu primeiro cliente vai
ser gostoso ou velho e barrigudo? Lá vem um carro devagarinho. Botou farol alto
para me examinar. Fiquei cega, seu filho da puta.
Será que eles queriam um programa ou só olhar? Bem que a Zeca
disse que muitos caras só querem olhar. Nem sei se quero ser olhada. Nem sei se
quero programa. Preciso de grana. Tô com fome. Um mês de gororoba. A Zeca
quebrou a minha essa semana. Maçã e chocolate. Vidão. Disse que podia passar
fome, mas jamais sem tomar a pílula. Meu Deus, obrigado pela cartelinha. Outro
carro. É melhor ficar debaixo da luz. Detesto farol alto.
Babaca, nem olhou.
E se me reconhecerem? Hahaha, sem chance. Isso aqui é bairro
de rico. Minha turma fica a duas horas de ônibus daqui. Só o Rubão tem carro.
Mato esse filho da puta se ele passar por aqui.
Os carros passam rápidos. Fingem que não me veem, que não
existo. Que não sou gente. Que não valho nada. Que sou lixo. Que sou puta. Sou
não. Meu baixinho vai comer hoje. Os rapidinhos me desprezam. Os devagarinho
querem me comer. Tô sabendo. Neguim passa devagarinho junto do meio fio e me
come com os olhos.
Vem aqui, gostoso. Para o carro. Pergunta quanto é o michê,
safado!
Quanto eu cobro? 100? 200? E se ele disser que só tem 50?
Passou reto. Desgraçado!
E se parasse? E aí gatinha? Qual seu nome? Que vou dizer?
Shirleide? Nunca. Leide nem pensar. Se papai fosse vivo ia me encher de
porrada. Preciso inventar um rápido. Keila? Charlene? Chaiane? Diabos. Será que
preciso ser outra pessoa? Gosto de Leide, que nem a princesa. Papai sempre me
chamou de princesinha. Minha Cinderela.
Porra, meus pés estão doendo. Merda de salto alto. Eu devia
saber. Melhor colocar um tênis e voltar pro balcão da papelaria. Salário de
merda. Chefe de merda. Mas meu baixinho comia.
Vem mais um. De mansinho.
E se esse carro preto parar e abrir a porta? Entro
nessa vida?
25 junho 2015
Ilhas, veredas e buritis
Eliane Lage
Editora
Brasiliense
350 páginas
R$ 27,00 num
sebo virtual
Que surpresa boa!
Nesta autobiografia
Eliane Lage nos convidou para sentar, ao final de tarde, numa roda de prosa em
uma varanda de fazenda. O clima de aconchego do pé descalço, do boi mugindo à
distância e do café recém-coado soam um clichê que você só encontra nas
palavras acima. Apesar de estreia, a escrita madura, quase poética resulta da
leitura de centenas de livros.
Eliane foi uma
atriz famosa. Protagonizou os primeiros filmes quando a Companhia Vera Cruz
iniciou o cinema no Brasil em 1950. Por isso mesmo imaginei-a, como a
caricatura de uma estrela – mulher de origem humilde colecionadora de galãs, vaidosa
ao extremo, pródiga e atriz em escândalos amorosos envolvendo sexo e bebidas.
Ledo engano. Exatamente o oposto. Ela não é clichê muito menos caricatura.
A família riquíssima
e poderosa gostaria que ela se enquadrasse nos padrões da aristocracia, mas
ainda adolescente começou a trabalhar com crianças na favela Dona Marta no Rio
de Janeiro. Ciente da falta de conhecimentos estudou na Inglaterra. Aplicou muito
mais do que aprendeu num retiro de crianças da Grécia logo após a Segunda
Guerra. Voltou ao Brasil determinada a trabalhar com menores carentes,
entretanto num jantar patrocinado pela família conheceu e se apaixonou por um
diretor de cinema. Ele a convidou para ser protagonista de um filme. Casam-se
no ano seguinte contrariando a família que desejavam um marido de posses e não
um artista de carreira incerta.
Apesar do
glamour do cinema procuraram uma vida diferenciada e mais próxima do campo. Em
1956, quando a Vera Cruz faliu mudaram-se para o Guarujá, cidadezinha do litoral
de São Paulo e refúgio dos abastados nas férias de verão. A dupla, marido e
mulher, montou um antiquário. Ele construiu e vendeu várias casas.
Antes de
prosseguir é importante ressaltar o adjetivo riquíssima empregado algumas linhas acima. O tio Henrique Lage foi
dono de cinco ilhas na Baía da Guanabara. Morava em uma enquanto noutra construíra
o maior estaleiro brasileiro. Comandava a Companhia Costeira de Navegação (aquela
dos itas da música), possuía salinas no Nordeste e minas de carvão em Santa Catarina.
O parque Lage também era propriedade da família. Tudo foi confiscado pelo
governo Getúlio Vargas antes da Segunda Grande Guerra. O que não significa que
ficaram pobres.
Mais do que
escrever um livro, a intenção de Eliane era deixar um registro da vida e da
família para as gerações seguintes. Assim a primeira metade do livro é dedicada
à genealogia e às lembranças familiares enquanto na outra metade relata sua irrequieta
e interessante vida.
Eliana é da
mesma geração dos meus pais, então reconheci algumas passagens ou fatos paulistas
que somei a alguns pontos que marcaram a minha leitura:
A avó decidiu
viajar para a Europa e levar Eliane. Saíram para fazer o passaporte no Rio. À página
73:
Era um prédio
lúgubre no centro da cidade, sob um calor de 40 graus. Perambularam de seção em
seção, de negativa em negativa, até chegarem, exaustas, à sala do chefe. O
homem calvo e mal-encarado foi logo dizendo, seco: “Uma criança de 8 anos só
viaja com o consentimento, por escrito, do pai ou da mãe”. E seguiu-se um
diálogo no mínimo estranho: “Mas o pai e a mãe já estão na Europa. Eu vou
justamente levá-la para eles”. “Então volte aqui com consentimento por escrito
e a menina viaja.” “Não dá tempo. Já comprei as passagens e o navio sai daqui a
dois dias. Não tenho com quem deixá-la“. “Não posso fazer nada.” “Pode, sim. O
senhor fica com a menina. E eu viajo depois de amanhã.”
Virou as costas
decidida e saiu porta afora.
Na cabeça do
homem as ideias se atropelavam. Ficar com a menina? Essa estrangeira, que nem falar
sabe, é capaz de sumir no mundo. Essas coisas acontecem. Com louco não se
brinca. E de um pulo, já no corredor, gritou: “Ei, dona madame! Espera aí! Eu
dou um jeito... “ E deu.
Elisabeth saiu
triunfante, com o passaporte na bolsa e a neta pela mão.
“A vida é como
um jogo de pôquer”, monologava, o olhar de aço vagando janela do táxi afora, “Há
ganhadores e perdedores. Ganha o que souber encarar o adversário, descobrir o
seu ponto fraco e, na hora certa, blefar.”
Rejeitada pela mãe e com um pai playboy irresponsável estudou em internatos mundo afora. Sentia-se um estorvo, “um problema para os adultos à sua volta”. Conheceu a mãe só aos 11 anos, recebida, sem abraços num frio comprimento. Nas férias seguintes foi convidada a passar um fim de semana na casa da mãe. Com medo de outra decepção: “Só de pensar sentia um frio na barriga, como se tivesse engolido centenas de borboletas esvoaçantes.”
É singular – pág.
236 – a competência com que a autora resumiu a decadência da Vera Cruz e do
cinema brasileiro:
Em outra
passagem, à página 266, menciona que em 1954 quando nasceu a filha Vivien, mudaram-se
para um sobradinho conjugado na Avenida Lavandisca no bairro de Moema em São Paulo.
Curiosamente meus pais moraram na mesma Lavandisca em 1952 quando eu nasci. Na
mesma época só havia carros importados e caros. Compraram uma exceção, como
meus pais: uma caminhonete alemã Hansa Borgward. Mas a frase que mais chamou à minha
atenção veio à página 281:
“De volta à
praia do Tombo notamos uma certa efervescência. Era a campanha política de
Jânio Quadros. O prefeito nos procurou e pediu que o ajudasse me candidatado a
vereadora. Tom ( o marido) achou boa ideia, amarrou uma vassoura no jipe,
símbolo do Jânio, e eu passei a escrever discursos e a falar de cima de
caminhões.” Provocou as minhas lembranças porque esse jipe, cor de laranja,
havia sido do meu tio onde passávamos as férias na praia da Enseada, Guarujá.
Há inúmeras deliciosas
histórias de cinema, como foram inúmeros os endereços de Eliane, mas ela queria
a fertilidade da terra, o bem-estar e o ar puro do campo. Então em 1977, aos 50
anos mudou-se para Pirenópolis no Centro-Oeste goiano onde reside ativa e lúcida até
hoje.
E,
felicidade adicional, pós leitura, é que terei a oportunidade de conhecê-la na próxima
reunião do nosso clube de leitura.
08 junho 2015
Um dia na vida de um carteiro
Quando prestei
concurso para carteiro imaginei que fosse distribuir cartas em bairro de rico.
Não neste bairro de ruas enlameadas, repleta de cachorros sujos e barracos sem
número.
A próxima casa
vai ser mais fácil. A porta está entreaberta.
- Ó, de casa.
– Bato com os nós dos dedos na porta.
- Ó, de casa –
chamo três vezes e abro lentamente a porta.
Não vejo
ninguém e avanço uns passos.
Acima do sofá,
na parede há um recorte de página central de revista com o time do Botafogo,
campeão estadual de 2006. No prego, logo acima, há um boné provocativo com o
escudo do Flamengo.
Dei mais um
passo para largar a correspondência sobre a mesinha quando reparei rastros de
pneu de bicicleta perto de um par de havaianas destroçadas e um cachorro morto.
Saí correndo.
02 junho 2015
Teoria da conspiração
Não acredite
em tudo o que lê, vê e ouve. Quantas vezes nós já ouvimos essa frase?
Talvez uma
centena.
Hoje, com a
tecnologia acessível, sabemos que tudo pode ser alterado de acordo com as
conveniências. Até em filmes caseiros, produzidos por adolescentes cheios de
espinhas, os homens voam, tiranossauros são ressuscitados e tsunamis são
cenários possíveis.
Antigamente só
as grandes potências dispunham de tecnologia de ponta, equipamento sofisticado e
pessoal especializado para manipular cenas em grande escala como a chegada do
homem à Lua. Aposto que você também acreditou nas pegadas do Neil Armstrong.
Talvez a maior
fraude produzida pelos estúdios da CIA sejam as imagens repetidas à exaustão em
que o presidente americano é baleado quando acenava para população.
O relatório
Warren, agora inteiramente disponível na Internet, comprova detalhadamente que
John Fitzgerald Kennedy estava de saco cheio de Fidel, de Khrushchev e de Jackie.
Resolveu sumir no mundo. Montou numa Harley Davidson e rumou para uma ilha no
sul da Flórida.
Hoje, de dia passeia
na praia com seu cachorro e de mãos dadas com Marylin. À noite joga pôquer com
Onassis, Charles Lindberg, Elvis Presley e um assassino de nome Oswald.
25 maio 2015
Noturno do Chile
Roberto Bolaño
Companhia das letras
R$ 30,00
118 páginas
Roberto Bolaño
é um autor consagrado. Me animei quando o livro foi sugerido no clube de
leitura. Seria uma ótima oportunidade de conhecer um pouco da obra do afamado
escritor chileno.
Quando terminei
de ler o livro questionei sobre o que era esse livro? Qual foi a mensagem que o
escritor quis passar?
Lembrei-me de
uma frase de professores de oficina literária: “não é porque você tem uma
história que acha superinteressante que isso será um livro interessante."
O autor escreve
bem, tem estilo, mas contou uma história sem grandes ações, reviravoltas,
suspenses ou emoções. O começo poderia ter sido o meio ou fim. Como o fim
poderia ter sido o meio ou o começo. Foi como se alguém entrasse no meu escritório
e relatasse o episódio da aventura comprando um sanduíche e um refrigerante e
como mastigou 32 vezes antes de engolir.
É lógico que
exagerei um pouquinho na falta de emoções.
Noturno do
Chile é a história de um escritor chileno e como ele vivencia a literatura. O protagonista
e narrador é um padre escritor com bases teóricas sólidas que enxerga com
suavidade, sem opinar, sobre a podridão do mundo literário que o cerca. Na
amizade sincera que busca num poeta e crítico literário percebe que o crítico é
rodeado de poetas que apenas almejam aplausos e elogios. Em outro momento o protagonista
frequenta os saraus na casa de uma premiada escritora iniciante. Comenta que a
premiação talvez não fosse merecida. Descobre que a autora é esposa de poderosa
autoridade da ditatura chilena. O cenário sugere que o prêmio foi resultado de
uma homenagem ao marido e não às suas qualidades literárias.
Depois de ter
escrito as linhas acima me senti capaz de responder a pergunta que eu mesmo
formulei: “sobre o que era esse livro?”
Trata-se da
falsidade das pessoas em seus meios. Frente à frente, homens, para não magoar, só
elogiam. Lamentavelmente, ninguém aponta os defeitos do outo cara à cara, olho
no olho. Apenas de longe são sinceros.
Conforme li na
biografia, Bolaño ganhou notoriedade por sua atuação como militante de esquerda.
Não me arrependo de ter lido o livro, também não gosto quando os autores
inventam de escrever usando um único parágrafo. Entretanto, lendo, sempre se
aprende alguma lição. Só não recomendo para que não se perca tempo. Talvez por
não conhecer o autor nem estar cara a cara com ele, opino que é uma pena que talvez
tenha lido o livro errado de Bolaño. Ele foi ganhador do Prêmio Rómulo Gallegos
por seu romance Os detetives Selvagens.
Talvez este outro livro merecesse meus aplausos ou será que o prêmio venezuelano
também terá sido uma homenagem militante?
28 abril 2015
Fábula
Era uma vez
uma formiga que
caminhava sobre a bancada
da minha pia.
– Antes
de tudo , alguns
esclarecimentos são absolutamente
necessários:
1– As histórias
que começam com
“era uma vez ”
são contos
infantis com final
feliz e esta é uma fábula
adulta e sem
final feliz .
2 – A bancada
da minha pia
é preta . Entretanto ,
para que a gente possa ver
a formiga da minha
história , vou fazer
de conta que
a bancada é branca.
Então, como
eu ia dizendo, era
uma vez uma formiguinha que caminhava sobre
o mármore branco
da bancada da minha
cozinha . Caminhava para
cá e caminhava para
lá . Ela
estava trabalhando.
– Todas as formigas
das fábulas são
muito trabalhadeiras.
Ela empurrava um
carrinho de supermercado ,
à procura de sobras
comestíveis . No carrinho ,
até agora
só havia supérfluos : uma fatia de pizza
de muçarela e dois fios
enrolados de macarrão miojo sabor carne . Da
prateleira inferior
da gôndola , ela
retirou duas pipocas de micro-ondas. No corredor seguinte ,
topou com a cigarra
e perguntou:
– Fazendo compras
tão cedo ?
Você não está
mais trabalhando na casa
de shows de São
Paulo?
– Não ,
querida , aquela cigarra
é outra , é a do La Fontaine. Sou muito mais bonita e charmosa .
Arrumei um maridão maravilhoso ,
não preciso
trabalhar.
Sem graça
pela mancada ,
a formiga continuou, apressada , seu caminho . Encontrou o leão
e o rato e disparou:
– Bom-dia, Majestade !
Vejo que está acompanhado do seu ajudante de
ordens .
Ao que
o leão respondeu:
– Mocinha ,
deixe de ser fofoqueira
e vá trabalhar . O rato
que roeu a rede
para o leão escapar é personagem
do Lobato. Este ratinho é meu novo amigo de todas as horas.
A formiga
considerou que teria sido melhor ter ficado em casa ,
dormindo debaixo das cobertas até mais tarde.
Formiga de fábula ,
independentemente do autor , tem que ser trabalhadeira e falante .
Voltou a empurrar seu
carrinho e consultou a lista
de compras : geleia, açúcar, leite condensado, bolo de chocolate , quindim, torta
de morango com
suspiro e creme
chantili.
Da
A formiga
seguiu seu caminho
sem torrão
de açúcar e sem
barra de chocolate .
E deparou-se com outra formiga pilotando um carrinho mais
vazio ainda.
Desta vez
nada perguntou, imaginando existir alguma fábula
de Esopo que tenha duas formigas conversando.
Moral da história
1:
Não se meta
em cozinha
de homem : só
tem comida salgada.
Moral da história
2:
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