27 agosto 2015

Literatura desalojada

A comunidade literária brasiliense está em estado de choque!

O Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados coordenado pelo Prof. Marco Antunes foi desalojado. Foi colocado na sarjeta. Foi escorraçado como um cachorro sarnento.

O Núcleo teve início nem 2003 com oficinas literárias gratuitas. De lá até os dias de hoje, com absoluta regularidade, foram ministradas oficinas literárias com uma grade de 15 horas semanais de aulas todas elas preparadas e ministradas por Marco Antunes.

Graças à persistência e doação de Marco Antunes mais de 20 alunos escreveram e publicaram livros, transformando-se em autores. Inúmeros servidores da casa, incluindo deputados, tiveram aulas de retórica, milhares (milhares mesmo) de pessoas aplaudiram os quase 70 saraus produzidos. Também inovou ao criar uma oficina virtual chamada Desafio dos Escritores onde autores de todo Brasil (e ainda de Portugal e do Japão) participaram. Todos os eventos, saraus e Desafios tiveram o apoio da Câmara dos Deputados, gesto sempre muito elogiado.

Agora, por uma necessidade de agradar a liderança de um partido nanico, o Núcleo foi despejado sem receber outro lugar para dar continuidade ao trabalho.

Marco Antunes jamais cobiçou qualquer cargo. A única ambição foi e continua sendo: “tornar a literatura uma atividade permanente na Câmara dos Deputados, auxiliar na formação do servidor e promover eventos que divulguem a literatura, em especial a brasileira.”

Há dois anos, por reconhecimento e serviços prestados, o Núcleo de Literatura foi oficializado no organograma dentro do Centro Cultural da Câmara dos Deputados.

Agora, apesar do esforço contrário da Diretora do Centro Cultural, Isabel de Flecha de Lima, o Núcleo é sem teto.

Roberto Klotz
Aluno das oficinas

22 de agosto de 2015 

25 agosto 2015

Limonada suíça

Ontem fui a uma reunião na casa de um amigo. Gente finíssima. Casal muito amável e receptivo, daqueles que não seguem moda, fazem moda. Apartamento nobremente decorado. Poltronas de couro, quadros assinados e artesanato exclusivo.

Para eles, nada é simples. Tudo tem valor agregado. Sem demagogia, sem modéstia, com esnobismo e com muito miserê.

Chamou-me a atenção a grande mesa decorada com originalidade. Abóboras, rabanetes e alface espalhada.

Logo fiquei sabendo que a abóbora não era abóbora. Era uma abóbora premiada. Que os rabanetes não eram rabanetes, eram rabanetes melhorados geneticamente. Fiquei imaginando que a alface não era alface, era alface crespa alisada com chapinha.

Devíamos ser umas dez pessoas. A conversa transcorria com naturalidade. O casal sempre agregando uma história para valorizar suas diferenças.

Ele pitava um cigarro de palha em vez de cigarro, cachimbo ou charuto. E aquela palha havia sido trazida da Síria na última viagem que fizeram ao Oriente.

Até o pão do sanduíche havia sido, conforme o casal, produzido especialmente para aquele evento: sem nenhum aditivo químico. A sobremesa foi queijo minas com goiabada cascão. A goiabada foi fervida em tachos de cobre pela avó do prefeito numa vila do nordeste mineiro.

O que mais me impressionou foi quando, ainda antes do sanduíche, a sede apertou. Uísque? Nem pensar. Imaginei a cerveja glacial descendo e aplacando desejos sedentos. Não me perguntaram o que eu queria beber. Apenas anunciaram que a bebida já estava na mesa.

Fui seco à jarra de cristal. Julguei maravilhosa caipirinha abrindo caminho para a cerveja.

Servi um copo grande, imaginando batida comunitária.

Provei.

Impossível disfarçar minha desagradável surpresa. Além de amarga, sem açúcar.

dona de casa logo agregou:

Limonada. Limonada suíça. Limonada suíça diet.





­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­______________________________________
Se Deus lhe der um limão, faça uma caipirinha.



Extraído de Pepino e farofa – primeiro livro de Roberto Klotz



14 agosto 2015

COMO SUPORTAR JABS


COMO SUPORTAR JABS NO BAÇO E ENCARAR NOCAUTES

Vlado Lima

Editora Patuá

108 páginas

R$ 35,



Se você está no ar condicionado acomodado num sofá tomando Veuve Clicquot, se você for politicamente correto, se a bebida mais maléfica que você já tomou na vida foi uma coca quente sem gás e se nunca gargalhou por causa de um peido que soltou no meio dos amigos então definitivamente este livro não é para você.

Este livro ri, debocha ou morde. Sacaneia aquilo que está à nossa frente, mas que a sociedade de falsos pudores ignora ou finge ignorar.

O livro, de acordo com a ficha catalográfica, é de poesia. Esteticamente, são poemas. Na minha ignorância eu diria que são tiradas inteligentes, mordazes, bem-humoradas com ritmo, cadência e sonoridade. Foram escritas para ser interpretadas e aplaudidas em voz alta.

Eu conheci as sacadas do autor em Pop para-choque, livro emprestado em que não pude sublinhar, riscar nem dobrar orelhas. Este, adquiri no site da Patuá. É meu. Posso profanar, posso sacrilejar, posso tudo. Posso até elogiar: esse cara enxerga o mundo com originalidade. Conferi 20 orelhas dobradas. Uma orelha para cada poema gostado.

Em vez de continuar enchendo o autor de elogios, copei três poemas:

Conselho de mãe
o buraco do mundo é fundo!
disse minha mãe no dia em que saí d casa
costurou um beijo quente em minha testa
me deu um abraço de Kraken
7 cuecas novas
4 conselhos
e uma certeza:
não roube
não mate
respeite os mais velhos
e cuidado com puta
viado
preto
ateu
maconheiro
e comunista
(...)
essa gente não presta!

anos depois
no dia das minhas 26 luas
(com a casa cheia de amigos
cheiros
risadas
carnavais
e cores de Lautrec)
a velha me ligou pra dar os parabéns
alô, mãe! eu gritei
(entre os agudos & graves e um Led Zeppelin no talo)
lembra daquela galera que a senhora falou pra eu tomar cuidado?
tá toda aqui em casa!


Rodrigueanas no 4 –Almas gêmeas
5o anos de casados
4 filhos
7 netos
3 bisnetos
e brigas
muitas brigas
maiúsculas
insignificantes
homéricas

ela não apagou a luz
ele mijou fora da privada
ela queimou o feijão
ele não levou o cachorro pra cagar no quintal do vizinho

a última cizânia
foi por causa de um cemitério
queriam ser enterrados juntos
ela preferia aquele-um lá da Vila Galvão
ele, aquele-outro do Parque Continental
combinaram: quem morrer primeiro escolhe
não deu outra
só para atanzanar a coitada
ele bateu a caçoleta primeiro

no velório
ela (feito uma uva melancólica)
 sentada inconsolável ao lado direito do caixão
dizia aos prantos: eu queria que o meu velho estivesse aqui
eu queria que o meu velho estivesse aqui
só para ver o cemiteriozinho de merda que ele escolheu.

Se eu soubesse que você viria

Se Eu soubesse que você viria
eu teria feito um
bolo

Eu
não teria secado o meu estoque
de Red Label paraguaio
nem teria empalado carneirinhos de celulose
nas minhas madrugadas sem sono

Eu
não teria pendurado
essa bandeira negra na janela
nem teria quebrado a minha coleção
de LPs do Roberto

Eu
não teria sintonizado em UHF
meus cornos para-raios
nem teria vagado pelas noites da Rua Augusta
como um chihuahua-zumbi sem dono

Eu
não teia afogado na privada o teu ursinho lionella
nem teria deixado o desintegrador de ameba
assim
tão perto

se Eu soubesse que você viria
Eu teria feito um

bolo

10 agosto 2015

Paris


Minha tarefa diária de apontar todos os lápis é das mais importantes. Apesar do moderno apontador, faço questão de mostrar a arte, esculpindo as pontas com meu canivete vermelho. Os lápis têm a majestosa função de escrever petições, redigir ofícios, anotar depoimentos, rascunhar despachos e limpar orelhas.

Minha segunda tarefa é colocar o jornal sobre a escrivaninha do chefe.

Os jornais devem chegar donzelos. Intactos. Responsável que sou, sempre chego antes do chefe pelo menos umas duas ou três horas para dar conta dos meus árduos e rotineiros deveres. Nesta quarta-feira, li, pelo menos, a manchete do jornal. E mais um pouquinho. Estava tão cedo. Política, internacional, esportes, cultura. Lá no caderno de turismo anunciavam passagens para Paris. Mon Diê. Doze vezes, e ainda assim tá caro!

Paris é como uma virgem na flor da idade. Sonho passear por todos os seus cantos. Cheirar suas flores, atravessar suas pontes, caminhar nos seus jardins, sentir as bolhas do champanha no céu da boca. Se existe algum lugar com classe, esse lugar tem nome: Paris.  É desnecessário subir na Torre Eiffel para ficar junto das nuvens e sonhar.

Mona Lisa? Tenho hora marcada com você. Seu sorriso é minha alegria. 

Saímos juntos para um café na calçada coberta com as folhas douradas. Crepe Suzete, baguete, Lafayette, cotonete. Ah, o som, magnífico som: camembér, trotoá, voalá, peti puá, croassã, chantili, rende vu.

Mais um pouco de açúcar, Mona?

Na mesa vizinha, Voltaire, Sartre, um cavalo branco e Bonaparte. À direita, Jacques Cousteau, Débussy, Asterix e Brigitte Bardot. 

Bonsuá! 

Saio de braços dados. Todos me cumprimentam. Não é por mim, é por minha encantadora companhia que seduz com olhar emblemático e sorriso enigmático. 

Ela ajeita o véu, empunha a sombrinha e entramos na charrete. Sem nenhuma palavra margeamos o Sena. O chofer aumenta a música do rádio: La vie en rose. Na música seguinte ela olha para mim e canta em dueto com Piaf: Ne me quitte pas. Não me deixes. 

Nesse exato momento os sinos da catedral de Notre Dame badalam dez vezes.

O chefe entrou na sala.

— Bonjour!


— Que droga, von Silva! Quantas vezes preciso te dizer que odeio quando mexem ou dormem no meu jornal?!


Texto publicado no livro "Cara de crachá"

Prêmio edição da crônica “Dia e noite, Paris é um sonho” no Prêmio UFF de Literatura, promovido pela Universidade Federal Fluminense, Niterói – RJ.

04 agosto 2015

O amuleto de prata

Nevara na noite anterior. Apesar do sol mostrando os dentes, fazia frio. Muito frio. Andar na calçada congelada era dançar equilibrismo. Só muita necessidade ou ignorância faria alguém andar no comércio da Heimatstrasse naquela manhã. Maurício com joelhos e fundilhos molhados só não engatinhava para não perder a dignidade de vez.

Levantando-se mais uma vez, percebeu que era observado através do vidro da vitrine. Abanou sem graça para as mulheres que formavam uma plateia do lado de dentro da janelona. Arrastou-se mais três minutos até chegar ao trinco da porta da loja. Sentiu-se um náufrago alcançando uma boia flutuante.

Ao pisar no capacho recompôs a postura, ajeitou a mochila e abriu a porta. Interrompendo uma aula de tricô entrou na loja de armarinhos deixando um rastro de pegadas no carpete.

Uma senhora que parecia ser a dona da loja tomou a frente:

– Fühlen sie sich wohl? – O senhor está se sentindo bem?

Maurício ergueu os ombros, inclinou a cabeça para o lado e abriu as mãos espalmadas numa interrogação mímica. Ele não falava alemão. Nem francês nem inglês.

A mulher apontou para uma porta.

 – Möchten sie einen Handtuch? – O senhor quer uma toalha?

Ele repetiu o gesto. Estava constrangido. Era turista. Escolheu a época errada para viajar. Não falava a língua. De calças tão molhadas, parecia mijado. Sentia frio. Estava sem dinheiro num ambiente requintado e repleto de senhoras. O que fazia ali?

Maurício era de Araçatuba, interior de São Paulo. Desde que ganhara a moeda de prata sentia-se o maior felizardo do mundo. Faturou uma grana na loteria. Mais do que comprar um carro, catou a namorada e saiu para viajar o mundo. Inglaterra, França, Espanha, Itália, Alemanha. Até que foi assaltado. Sobrou apenas a mochila.

Na manhã seguinte, antes do café, foi expulso do hotel e a namorada o trocou por um indiano. Precisa registrar a queixa e tentava caminhar até o consulado brasileiro quando recobrou o equilíbrio na loja de armarinhos fazendo o papel de um animal exótico num jardim zoológico.

Uma mulher curvilínea foi até ele com uma enorme toalha aberta num abraço.

Aconchegando-se na toalha e braços murmurou obrigado.

A mulher respondeu “bitte schön” – de nada – numa voz masculina.

Maurício teve certeza. A sorte o abandonara.


Com a mão no bolso procurou o amuleto. Em pagamento, ofereceu a moeda de prata.

14 julho 2015



09 julho 2015

Estreia na calçada


Puxa, como está frio nesta esquina. Eu poderia ter colocado a minha calça azul. Esta saia chama mais a atenção dos homens. Ou devo chamá-los de clientes? Sinto falta do cachecol. Preciso destacar meus peitos e um cachecol poderia servir para me estrangular. Xô, pensamento ruim! Será que algum carro vai parar? Será que vai demorar? Será que meu primeiro cliente vai ser gostoso ou velho e barrigudo? Lá vem um carro devagarinho. Botou farol alto para me examinar. Fiquei cega, seu filho da puta.

Dois rapazotes! Quero não. É fria. Vai. Vai embora, vai.

Será que eles queriam um programa ou só olhar? Bem que a Zeca disse que muitos caras só querem olhar. Nem sei se quero ser olhada. Nem sei se quero programa. Preciso de grana. Tô com fome. Um mês de gororoba. A Zeca quebrou a minha essa semana. Maçã e chocolate. Vidão. Disse que podia passar fome, mas jamais sem tomar a pílula. Meu Deus, obrigado pela cartelinha. Outro carro. É melhor ficar debaixo da luz. Detesto farol alto.

Babaca, nem olhou.

E se me reconhecerem? Hahaha, sem chance. Isso aqui é bairro de rico. Minha turma fica a duas horas de ônibus daqui. Só o Rubão tem carro. Mato esse filho da puta se ele passar por aqui.

Os carros passam rápidos. Fingem que não me veem, que não existo. Que não sou gente. Que não valho nada. Que sou lixo. Que sou puta. Sou não. Meu baixinho vai comer hoje. Os rapidinhos me desprezam. Os devagarinho querem me comer. Tô sabendo. Neguim passa devagarinho junto do meio fio e me come com os olhos.

Vem aqui, gostoso. Para o carro. Pergunta quanto é o michê, safado!

Quanto eu cobro? 100? 200? E se ele disser que só tem 50?

Passou reto. Desgraçado!

E se parasse? E aí gatinha? Qual seu nome? Que vou dizer? Shirleide? Nunca. Leide nem pensar. Se papai fosse vivo ia me encher de porrada. Preciso inventar um rápido. Keila? Charlene? Chaiane? Diabos. Será que preciso ser outra pessoa? Gosto de Leide, que nem a princesa. Papai sempre me chamou de princesinha. Minha Cinderela.

Porra, meus pés estão doendo. Merda de salto alto. Eu devia saber. Melhor colocar um tênis e voltar pro balcão da papelaria. Salário de merda. Chefe de merda. Mas meu baixinho comia.

Vem mais um. De mansinho.


E se esse carro preto parar e abrir a porta? Entro nessa vida?

25 junho 2015

Ilhas, veredas e buritis



Ilhas, veredas e buritis

Eliane Lage

Editora Brasiliense

350 páginas


R$ 27,00 num sebo virtual


Que surpresa boa!

Nesta autobiografia Eliane Lage nos convidou para sentar, ao final de tarde, numa roda de prosa em uma varanda de fazenda. O clima de aconchego do pé descalço, do boi mugindo à distância e do café recém-coado soam um clichê que você só encontra nas palavras acima. Apesar de estreia, a escrita madura, quase poética resulta da leitura de centenas de livros.

Eliane foi uma atriz famosa. Protagonizou os primeiros filmes quando a Companhia Vera Cruz iniciou o cinema no Brasil em 1950. Por isso mesmo imaginei-a, como a caricatura de uma estrela – mulher de origem humilde colecionadora de galãs, vaidosa ao extremo, pródiga e atriz em escândalos amorosos envolvendo sexo e bebidas. Ledo engano. Exatamente o oposto. Ela não é clichê muito menos caricatura.

A família riquíssima e poderosa gostaria que ela se enquadrasse nos padrões da aristocracia, mas ainda adolescente começou a trabalhar com crianças na favela Dona Marta no Rio de Janeiro. Ciente da falta de conhecimentos estudou na Inglaterra. Aplicou muito mais do que aprendeu num retiro de crianças da Grécia logo após a Segunda Guerra. Voltou ao Brasil determinada a trabalhar com menores carentes, entretanto num jantar patrocinado pela família conheceu e se apaixonou por um diretor de cinema. Ele a convidou para ser protagonista de um filme. Casam-se no ano seguinte contrariando a família que desejavam um marido de posses e não um artista de carreira incerta.

Apesar do glamour do cinema procuraram uma vida diferenciada e mais próxima do campo. Em 1956, quando a Vera Cruz faliu mudaram-se para o Guarujá, cidadezinha do litoral de São Paulo e refúgio dos abastados nas férias de verão. A dupla, marido e mulher, montou um antiquário. Ele construiu e vendeu várias casas.

Antes de prosseguir é importante ressaltar o adjetivo riquíssima empregado algumas linhas acima. O tio Henrique Lage foi dono de cinco ilhas na Baía da Guanabara. Morava em uma enquanto noutra construíra o maior estaleiro brasileiro. Comandava a Companhia Costeira de Navegação (aquela dos itas da música), possuía salinas no Nordeste e minas de carvão em Santa Catarina. O parque Lage também era propriedade da família. Tudo foi confiscado pelo governo Getúlio Vargas antes da Segunda Grande Guerra. O que não significa que ficaram pobres.

Mais do que escrever um livro, a intenção de Eliane era deixar um registro da vida e da família para as gerações seguintes. Assim a primeira metade do livro é dedicada à genealogia e às lembranças familiares enquanto na outra metade relata sua irrequieta e interessante vida.

Eliana é da mesma geração dos meus pais, então reconheci algumas passagens ou fatos paulistas que somei a alguns pontos que marcaram a minha leitura:

A avó decidiu viajar para a Europa e levar Eliane. Saíram para fazer o passaporte no Rio. À página 73:

Era um prédio lúgubre no centro da cidade, sob um calor de 40 graus. Perambularam de seção em seção, de negativa em negativa, até chegarem, exaustas, à sala do chefe. O homem calvo e mal-encarado foi logo dizendo, seco: “Uma criança de 8 anos só viaja com o consentimento, por escrito, do pai ou da mãe”. E seguiu-se um diálogo no mínimo estranho: “Mas o pai e a mãe já estão na Europa. Eu vou justamente levá-la para eles”. “Então volte aqui com consentimento por escrito e a menina viaja.” “Não dá tempo. Já comprei as passagens e o navio sai daqui a dois dias. Não tenho com quem deixá-la“. “Não posso fazer nada.” “Pode, sim. O senhor fica com a menina. E eu viajo depois de amanhã.”

Virou as costas decidida e saiu porta afora.

Na cabeça do homem as ideias se atropelavam. Ficar com a menina? Essa estrangeira, que nem falar sabe, é capaz de sumir no mundo. Essas coisas acontecem. Com louco não se brinca. E de um pulo, já no corredor, gritou: “Ei, dona madame! Espera aí! Eu dou um jeito... “ E deu.

Elisabeth saiu triunfante, com o passaporte na bolsa e a neta pela mão.

“A vida é como um jogo de pôquer”, monologava, o olhar de aço vagando janela do táxi afora, “Há ganhadores e perdedores. Ganha o que souber encarar o adversário, descobrir o seu ponto fraco e, na hora certa, blefar.”

Rejeitada pela mãe e com um pai playboy irresponsável estudou em internatos mundo afora. Sentia-se um estorvo, “um problema para os adultos à sua volta”. Conheceu a mãe só aos 11 anos, recebida, sem abraços num frio comprimento. Nas férias seguintes foi convidada a passar um fim de semana na casa da mãe. Com medo de outra decepção: “Só de pensar sentia um frio na barriga, como se tivesse engolido centenas de borboletas esvoaçantes.”

É singular – pág. 236 – a competência com que a autora resumiu a decadência da Vera Cruz e do cinema brasileiro:

Todos os circuitos de cinemas do Brasil afora eram ligados por contratos de exclusividade às grandes companhias produtoras americanas, que se encarregavam da distribuição. Qualquer cinema que quebrasse esse contrato, lançando um filme nacional independente, sofreria um boicote dessas distribuidoras. As companhias cinematográficas nacionais, por sua vez, produziam poucos filmes por ano. Apesar de já conquistarem a preferência do público, além de prêmios no exterior, tinham que, para verem seus filmes exibidos aqui, vender os direitos aos gigantes da indústria cinematográfica americana, que ficavam responsáveis pela distribuição. Era uma batalha inglória. O filme da vera Cruz tornava-se propriedade da Columbia Pictures, que o repassava aos cinemas de todo o Brasil, fazendo parte de um pacote obrigatório de dez filmes americanos classe C e D, enfim, os piores! Então, apesar das filas na frente dos cinemas dobrarem as esquinas, o lucro não ia nem para os donos dos cinemas nem para a Vera Cruz.

Em outra passagem, à página 266, menciona que em 1954 quando nasceu a filha Vivien, mudaram-se para um sobradinho conjugado na Avenida Lavandisca no bairro de Moema em São Paulo. Curiosamente meus pais moraram na mesma Lavandisca em 1952 quando eu nasci. Na mesma época só havia carros importados e caros. Compraram uma exceção, como meus pais: uma caminhonete alemã Hansa Borgward. Mas a frase que mais chamou à minha atenção veio à página 281:

“De volta à praia do Tombo notamos uma certa efervescência. Era a campanha política de Jânio Quadros. O prefeito nos procurou e pediu que o ajudasse me candidatado a vereadora. Tom ( o marido) achou boa ideia, amarrou uma vassoura no jipe, símbolo do Jânio, e eu passei a escrever discursos e a falar de cima de caminhões.” Provocou as minhas lembranças porque esse jipe, cor de laranja, havia sido do meu tio onde passávamos as férias na praia da Enseada, Guarujá.

Há inúmeras deliciosas histórias de cinema, como foram inúmeros os endereços de Eliane, mas ela queria a fertilidade da terra, o bem-estar e o ar puro do campo. Então em 1977, aos 50 anos mudou-se para Pirenópolis no Centro-Oeste goiano onde reside ativa e lúcida até hoje.

         E, felicidade adicional, pós leitura, é que terei a oportunidade de conhecê-la na próxima reunião do nosso clube de leitura.

08 junho 2015

Um dia na vida de um carteiro


Quando prestei concurso para carteiro imaginei que fosse distribuir cartas em bairro de rico. Não neste bairro de ruas enlameadas, repleta de cachorros sujos e barracos sem número. 

Não há caixas de correio. Odeio bater palmas e gritar para entregar os envelopes.

A próxima casa vai ser mais fácil. A porta está entreaberta.

- Ó, de casa. – Bato com os nós dos dedos na porta.

- Ó, de casa – chamo três vezes e abro lentamente a porta.

Não vejo ninguém e avanço uns passos. 

Chama-me à atenção a mesinha na frente do sofá. O tampo é mistura de balcão e cemitério. Quatro pratos empilhados com restos de arroz e ossos de frango. Uma mamadeira caída com leite derramado ressecado. Uma chapinha desgastada.  Um joy stick. Um controle remoto.  O cinzeiro transbordando guimbas está ao lado de três latas vazias de cerveja bem defronte do lado direito do sofá que está mais afundado e onde também há marcas de queimaduras de cigarro. Do lado esquerdo do sofá há um travesseiro indicando que é cama de um dos moradores.

Acima do sofá, na parede há um recorte de página central de revista com o time do Botafogo, campeão estadual de 2006. No prego, logo acima, há um boné provocativo com o escudo do Flamengo.

Dei mais um passo para largar a correspondência sobre a mesinha quando reparei rastros de pneu de bicicleta perto de um par de havaianas destroçadas e um cachorro morto.

Saí correndo.


02 junho 2015

Teoria da conspiração


Não acredite em tudo o que lê, vê e ouve. Quantas vezes nós já ouvimos essa frase?

Talvez uma centena.

Hoje, com a tecnologia acessível, sabemos que tudo pode ser alterado de acordo com as conveniências. Até em filmes caseiros, produzidos por adolescentes cheios de espinhas, os homens voam, tiranossauros são ressuscitados e tsunamis são cenários possíveis.

Antigamente só as grandes potências dispunham de tecnologia de ponta, equipamento sofisticado e pessoal especializado para manipular cenas em grande escala como a chegada do homem à Lua. Aposto que você também acreditou nas pegadas do Neil Armstrong.

Talvez a maior fraude produzida pelos estúdios da CIA sejam as imagens repetidas à exaustão em que o presidente americano é baleado quando acenava para população.

O relatório Warren, agora inteiramente disponível na Internet, comprova detalhadamente que John Fitzgerald Kennedy estava de saco cheio de Fidel, de Khrushchev e de Jackie. Resolveu sumir no mundo. Montou numa Harley Davidson e rumou para uma ilha no sul da Flórida.  


Hoje, de dia passeia na praia com seu cachorro e de mãos dadas com Marylin. À noite joga pôquer com Onassis, Charles Lindberg, Elvis Presley e um assassino de nome Oswald.

25 maio 2015

Noturno do Chile

Noturno do Chile

Roberto Bolaño

Companhia das letras
R$ 30,00
118 páginas


Roberto Bolaño é um autor consagrado. Me animei quando o livro foi sugerido no clube de leitura. Seria uma ótima oportunidade de conhecer um pouco da obra do afamado escritor chileno.
Quando terminei de ler o livro questionei sobre o que era esse livro? Qual foi a mensagem que o escritor quis passar?
Lembrei-me de uma frase de professores de oficina literária: “não é porque você tem uma história que acha superinteressante que isso será um livro interessante."
O autor escreve bem, tem estilo, mas contou uma história sem grandes ações, reviravoltas, suspenses ou emoções. O começo poderia ter sido o meio ou fim. Como o fim poderia ter sido o meio ou o começo. Foi como se alguém entrasse no meu escritório e relatasse o episódio da aventura comprando um sanduíche e um refrigerante e como mastigou 32 vezes antes de engolir.
É lógico que exagerei um pouquinho na falta de emoções.
Noturno do Chile é a história de um escritor chileno e como ele vivencia a literatura. O protagonista e narrador é um padre escritor com bases teóricas sólidas que enxerga com suavidade, sem opinar, sobre a podridão do mundo literário que o cerca. Na amizade sincera que busca num poeta e crítico literário percebe que o crítico é rodeado de poetas que apenas almejam aplausos e elogios. Em outro momento o protagonista frequenta os saraus na casa de uma premiada escritora iniciante. Comenta que a premiação talvez não fosse merecida. Descobre que a autora é esposa de poderosa autoridade da ditatura chilena. O cenário sugere que o prêmio foi resultado de uma homenagem ao marido e não às suas qualidades literárias.
Depois de ter escrito as linhas acima me senti capaz de responder a pergunta que eu mesmo formulei: “sobre o que era esse livro?”
Trata-se da falsidade das pessoas em seus meios. Frente à frente, homens, para não magoar, só elogiam. Lamentavelmente, ninguém aponta os defeitos do outo cara à cara, olho no olho. Apenas de longe são sinceros.
Conforme li na biografia, Bolaño ganhou notoriedade por sua atuação como militante de esquerda. Não me arrependo de ter lido o livro, também não gosto quando os autores inventam de escrever usando um único parágrafo. Entretanto, lendo, sempre se aprende alguma lição. Só não recomendo para que não se perca tempo. Talvez por não conhecer o autor nem estar cara a cara com ele, opino que é uma pena que talvez tenha lido o livro errado de Bolaño. Ele foi ganhador do Prêmio Rómulo Gallegos por seu romance Os detetives Selvagens. Talvez este outro livro merecesse meus aplausos ou será que o prêmio venezuelano também terá sido uma homenagem militante?


28 abril 2015

Fábula


Era uma vez uma formiga que caminhava sobre a bancada da minha pia.
– Antes de tudo, alguns esclarecimentos são absolutamente necessários:
1– As histórias que começam com “era uma vez” são contos infantis com final feliz e esta é uma fábula adulta e sem final feliz.
2 – A bancada da minha pia é preta. Entretanto, para que a gente possa ver a formiga da minha história, vou fazer de conta que a bancada é branca.
Então, como eu ia dizendo, era uma vez uma formiguinha que caminhava sobre o mármore branco da bancada da minha cozinha. Caminhava para cá e caminhava para lá. Ela estava trabalhando.
– Todas as formigas das fábulas são muito trabalhadeiras.
Ela empurrava um carrinho de supermercado, à procura de sobras comestíveis. No carrinho, até agora só havia supérfluos: uma fatia de pizza de muçarela e dois fios enrolados de macarrão miojo sabor carne. Da prateleira inferior da gôndola, ela retirou duas pipocas de micro-ondas. No corredor seguinte, topou com a cigarra e perguntou:
– Fazendo compras tão cedo? Você não está mais trabalhando na casa de shows de São Paulo?
– Não, querida, aquela cigarra é outra, é a do La Fontaine. Sou muito mais bonita e charmosa. Arrumei um maridão maravilhoso, não preciso trabalhar.
Sem graça pela mancada, a formiga continuou, apressada, seu caminho. Encontrou o leão e o rato e disparou:
– Bom-dia, Majestade! Vejo que está acompanhado do seu ajudante de ordens.
Ao que o leão respondeu:
– Mocinha, deixe de ser fofoqueira e vá trabalhar. O rato que roeu a rede para o leão escapar é personagem do Lobato. Este ratinho é meu novo amigo de todas as horas.
A formiga considerou que teria sido melhor ter ficado em casa, dormindo debaixo das cobertas até mais tarde.
Formiga de fábula, independentemente do autor, tem que ser trabalhadeira e falante. Voltou a empurrar seu carrinho e consultou a lista de compras: geleia, açúcar, leite condensado, bolo de chocolate, quindim, torta de morango com suspiro e creme chantili.
Da lista solicitada constava também café de garrafa térmica. Mas esta formiga não procurou por preferir chá de hortelã.
A formiga seguiu seu caminho sem torrão de açúcar e sem barra de chocolate. E deparou-se com outra formiga pilotando um carrinho mais vazio ainda.
Desta vez nada perguntou, imaginando existir alguma fábula de Esopo que tenha duas formigas conversando.

Moral da história 1:
Não se meta em cozinha de homem: só tem comida salgada.
Moral da história 2:
Não se meta em história de autor não consagrado.





 
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