16 agosto 2018
VÉSPERA DE LUA
Rosângela
Vieira Rocha
Editora
Penalux
144 páginas
R$ 38,00
Acabo de terminar a leitura de Véspera de lua.
Amei o espetacular encerramento com a carta de Ester.
O homossexualismo continua tabu e com pessoas desinformadas e
preconceituosas.
Sou preconceituoso – dificilmente assumimos. Mas a palavra diz que é conceito adquirido
antes da razão. Assim, respeito e admiro quem tem força para assumir posturas perante
todos e ainda ajudar outros a entender mundos de cortinas fechadas.
Ensinar, falar, discutir , como você bem fez, é diferente de
impor ideias.
Continuo lutando contra meus preconceitos enraigados. São muitos e de toda ordem. Quanto mais conhecemos, melhor compreendemos.
Só o conhecimento pode atenuar. Razão e sentimento brigam
internamente.
Aprendi muito com o livro. Parabéns. Parabéns de verdade.
Em tempo – livro vencedor do Prêmio Nacional de Literatura
Editora UFMG 1988 – romance, agora reeditado pela Penalux.
19 abril 2018
Mary Shelley
Editora Darkside
304 páginas de terror
R$ 45,00
Uma das perguntas que eu me faço quando
termino um livro é: qual foi a mensagem que autor quis passar.
Neste Frankenstein, não precisei terminar para ter a resposta.
A análise na introdução do
romance sugere que Frankenstein seja uma história sobre a moral.
“A ambição desordenada, o desejo
não contido pelo conhecimento a qualquer preço, um senso de cumprimento do
destino e o perigo de isolar-se do amor e da amizade ameaçam transformar
qualquer homem em monstro.”
Tanto que (pág 44): “A vida ou a
morte de um homem seriam preços irrisórios a se pagar pela aquisição do
conhecimento que busco, pelo domínio que devo conquistar e legar sobre os
inimigos mais elementares de nossa
raça.”
E continua (pág 46): “Espero que
a gratificação de seus desejos não se transforme na serpente que o morderá.”
Esta não é a única mensagem, nem a
única questão que leva à reflexão. Pode-se questionar o abandono de filho
nascido com problemas, a influência da aparência física pela sociedade ou mesmo
a falta de um igual para troca de afinidades.
Mesmo que você não tenha lido o
livro ou visto uma das versões do romance nas telas do cinema, não é necessário
fazer uma sinopse, pois todos sabem que se trata da história de um ser
monstruoso criado por um cientista em seu laboratório. Assim como o altíssimo
monstro da família Adams, este tem uma alma dócil até ser contrariado. Talvez você
não se lembre do fim. Então farei a desgentileza de dizer que nesta história de
terror o monstro não morre para dar a impressão que pode estar por perto a
qualquer momento. Inclusive atrás da sua cadeira.
A estrutura do romance é
espetacularmente perfeita. A autora domina a arte de tecer a escrita, tanto que
inicia o capitulo IX dando uma receita de expectativa: “Nada é mais doloroso
para a mente humana, após os sentimentos serem instigados por uma sucessão
rápida de acontecimentos, que a calma mortal da inação e a certeza que se segue
e priva a alma tanto da esperança quanto do medo.”
O discurso da virada em que a
criatura se transforma de gentil apara agressivo, é ótimo e pode se resumido
(pág 113) em ”Em todo lugar vejo a felicidade que somente a mim é
irrevogavelmente negada. Fui benevolente e bom; A infelicidade transformou-me
em demônio. Faça-me feliz e serei virtuoso novamente.” Lentamente externado o
sentimento de vingança (pág 145) “Desde aquele momento, declarei guerra eterna
contra a espécie, sobretudo, contra aquele que me criou, abandonando-me nesta
angústia insuportável.” Que jorrou em fúria em (pág 153) “Se não puder inspirar
amor, causarei medo, e principalmente a você, meu arqui-inimigo pois meu
criador, juro um ódio inextinguível. “
A autora trabalha com a
imaginação e o pensamento sabendo que causam mais pavor que a confrontação com
a realidade lançando uma maldição e repetindo-a várias vezes.: “Estarei com
você em sua noite de núpcias.”
Quando o criador está marcado de
terror pela perseguição do monstro, faz um juramento arrepiante (pág 209):
“Pelo solo sagrado em que me ajoelho, pelos espetros que pairam à minha volta,
pelo pesar profundo e eterno que sinto, eu prometo; e por você, oh, noite, e
pelos espíritos que a regem, juro perseguir o demônio que causou essa miséria
até que um de nós pereça em um embate mortal. Para tal propósito, resguardarei
minha vida. A fim de executar essa sentença tão cara, contemplarei novamente o
sol e trilharei as pastagens da terra que, de outro modo, deveriam apagar-se de
meus olhos para sempre. Invoco-lhes, espíritos dos mortos, e a vocês, prófugos ministros
da vindita, pra que me auxiliem e conduzam em meu labor. Deixem que o monstro
amaldiçoado e infernal sorva profunda agonia; deixem-lhe sentir o desespero que
ora me atormenta.”
16 janeiro 2018
Ovo frito
Conforme já havia escrito , o assunto
sobre a preparação
de ovos é por
demais extenso .
Assim , neste capítulo ,
vou expor a fritura
dos ovos . Muito
marmanjo pensa
tratar-se de sentar pelado
numa chapa quente .
Não , não
é nada disso.
Um japonês entra numa loja de lingerie
do shopping e pergunta à vendedora se ela tem sutiã .
A balconista pergunta qual o número
desejado. O oriental responde que
não sabe o número
usado pela esposa .
A moça , para auxiliar , pergunta se os seios dela teriam o tamanho
de dois melões .
O comprador retruca que
são menores .
Ela volta
a perguntar se os seios dela teriam o tamanho de duas laranjas .
E o comprador torna
a responder que
são menores .
A vendedora então pergunta
se os seios teriam o tamanho de dois ovos . O japonês
responde feliz que
sim , dois ovos fritos.
Esta pequena história
é apenas para
ilustrar e reavivar a memória , uma vez
que esta receita
não é acompanhada de fotografias coloridas.
Pensei em começar
a receita dizendo que
não se fazem omeletes
sem quebrar
os ovos , mas
a receita é sobre
ovos fritos ,
então não
cabe o dito popular.
Este é um dos meus
pratos prediletos .
Preparo e saboreio ovos
fritos desde
a adolescência . Esta é uma receita testada
e retestada em que
não existe o menor
perigo de erro .
Agora que
já passei dos cinquenta, posso afirmar que sou expert na arte de fritar ovos.
Em uma frigideira pré-aquecida
coloco quatro fatias
de beicon. Quando ameaçarem ficar crocantes, adiciono duas colheres
caprichadas de manteiga e espero até que derreta
e doure. Coloco dois ovos ,
preferencialmente caipiras ,
acrescento uma pitada de sal
e um pouco
de pimenta-do-reino em pó . Fecho
com uma tampa ,
para não engordurar o fogão.
Agora basta esperar
uns três minutinhos e terei os mais deliciosos
e apetitosos ovos
fritos da face
da terra . Separo um
pão francês ou então uma porção de arroz
para pousar a fritura . Enxugo a saliva
que está correndo pelo
canto da boca .
Abro a tampa .
Aargh! Socorro ! Fritei ovos e o que
aparece?
Colesterol! HDL! LDL!
Triglicerídeos!
Escrito para “Pepino e farofa”, época
em que os ovos ainda eram um terror, os vilões, do colesterol da humanidade.
Ah, - o livro não tem imagens , mas o blog pode ter.
19 dezembro 2017
A crista de festa
Nas minhas caminhadas
candangas encontrei objetos e pessoas improváveis: lâmpada mágica, pegada de
onça, tênis tarado, girafa barulhenta, cartomante, vendedor de mapas, velha
incendiária.
Hoje, dia chuvoso, quase
chutei uma crista de festa. Causou-me curiosidade. Parei, retornei e me
abaixei. Tomei-a em minhas mãos. Li uma palavra francesa antes de levá-la ao
nariz. O cheiro espumava festa.
Envolvo a rolha do
champanhe com as duas mãos para que saiba que percebo o seu poder secular.
Revela que propiciou
brindes de marechais de campo após vitórias nas batalhas de baionetas.
Incentivou condes a dançar valsas com plebeias. Coroou príncipes
transformando-os em reis.
Aliso-a com suavidade.
Trago-a mais perto do peito.
— O que dizes?
Com voz de uva espremida responde ser de safra
recente. Não frequentou castelos nem palacetes. Não preciso empolar a
linguagem. Vaidosa, confessa que ama ser o êxtase das comemorações.
Celebra casamento, sobe
ao alto do pódio, junto com uma vela vê casal se beijar e os une ao prazer. Abre
caminho para as bolhas explodirem sorrisos. Também inaugura fábricas, batiza
navios e crianças. Diploma advogados e médicos. Consagra conquistas, mas embriaga
quem abusa dela.
Olhei em volta. Não há
nenhuma casa ou prédio próximo. Meus conhecimentos de balística deduzem que ela
não saltou de nenhuma janela libertando alegria.
Continuo a caminhar. Ela
sussurra dizendo-se talismã que escapou de bolso desleixado.
Convicta diz que odeia
clausura. Até consegui fugir de gaiola de aço no topo da garrafa. Gosta de
festa. Jamais serão capazes recolocá-la na garrafa.
12 dezembro 2017
Babaca do Eixão
Quando se vai
criar uma história, o mais difícil é encontrar o tema, o mote ou a inspiração para
desenvolver a escrita. Depois do mote definido, a criatividade se faz presente.
Imagine você
declarar que sabe falar grego. Logo surge o pedido.
—
Que legal! Fale uma frase!
Aí, você empaca
sem saber o que dizer. Seria mais fácil se pedissem: traduza para mim.
No meio do meu
blablablá solitário fui alcançado por um sujeito barbudo que me encarou de supetão:
— Estou
seguindo o senhor há mais de cinco minutos. Ouvi o senhor didático, depois
tenro e doce. Subitamente alterou a voz para bravo. Gesticulando como se
espantasse mosquitos. Agora que se acalmou novamente, tomei a liberdade de
abordá-lo. O senhor é peripatético?
Fiquei sem
saber se também o ofendia, se saía logo no tapa ou ficava na minha para saber
qual era a do cara.
Caprichei um
olhar enfastiado.
— Você me
desconcentrou! Perdi a minha linha de raciocínio!
O cara pediu desculpas
e apressou o passo.
Irritado, o
pensamento mudou de rumo. Desliguei o gravador.
O sujeitinho nem
me conhece e me chama de pateta da periferia! De idiota da região! De palerma do
pedaço! De bobo do trecho! Falta de respeito! Ele deve ser parlamentar. Usa um
pronome de tratamento respeitoso e em seguida xinga com palavras de dicionário
sem saber o significado.
Consigo imaginá-lo
na tribuna da Câmara dos Deputados, apontando o indicador para um colega.
— Vossa
Excelência é um bordalenga apandilhado.
Fiquei indignado.
Possesso! Perdi o prazer da caminhada. Precisei de um calmante e um dicionário.
Em casa, enquanto
engolia o Lexotan, consultava o Aurélio:
“Peripatético:
discípulos de Aristóteles. Em razão do hábito do filósofo de ensinar ao ar
livre, caminhando enquanto lia e dava preleções.”
De imediato, a
tentativa de diálogo e a imagem do barbudo intrometido modificaram-se na minha
mente.
— O senhor é
peripatético?
— Peripatético
é sua mãe.
— Não.
Peripatético é o mote que o senhor precisava para escrever sua crônica.
05 dezembro 2017
Monotonia
Durante um bate-papo
com um amigo, piloto de asa-delta, em determinada hora afirmou.
— Caminhar é
monótono.
Advogando em
causa em causa própria respondi que monótono é estar a um quilômetro de altura
sem estar inserido no cenário. Vê-se tudo pequenininho. Nem com binóculos
percebe-se os detalhes que tornam a vida exuberante.
Foi com esse
pensamento que iniciei a minha caminhada dominical no Eixão – uma enorme pista
de alta velocidade que uma vez por semana ao se transformar em Eixão do Lazer recebe
caminhantes, corredores, skatistas, ciclistas e todos que se propõem a acelerar
o coração.
— Será que é
monótono observar as pessoas?
Não creio.
Tanto que, naquela manhã sem sombras, notei que muitos usavam bonés, chapéus e
viseiras. Alguns poucos com óculos escuros como se fossem estrelas hollywoodianas
fingindo se esconder.
Comecei a me
divertir ao questionar as roupas dos atletas de fim de semana. Um senhorzinho
de um metro e sessenta passou correndo por mim com camiseta e calção cor de laranja
fosforescentes como os tênis. As meias brancas iam até o joelho e nas costas saltitava
uma mochila azul celeste.
Em seguida fui
ultrapassado por uma mocinha que balançava provocante rabinho de cavalo enquanto
no sentido oposto vinha um judeu com uma bermuda tão justa que percebi ser
circuncisado.
Observei e
analisei uma revoada de pessoas. Quando me perguntava qual seria o coletivo
correto para esportistas, alcancei uma senhora de porte elegante com um
acompanhante nu em pelo. As minhas luzes de alerta piscaram vermelho. Fixei bem
o olhar e não era roupa cor da pele tampouco usava tênis para se proteger do
asfalto. Estava pelado. Total e indubitavelmente nu.
Eu não estava
alucinando por excesso de sol. Nem havia sol. Em vez dos óculos escuros sem
grau, meus óculos eram os de sempre, com grau: eu via a nudez nitidamente.
Além do
estranhamento e perplexidade da ousadia, causou-me estranheza a falta de choque
ou mesmo curiosidade e comentários dos passantes. Tudo parecia normal como se o
Eixão fosse um tradicional campo de nudismo.
Ouvi o barulho
de uma moto. Era um policial montado numa Harley-Davidson. Na mesma hora
imaginei que iria prender o maluco por atentado ao pudor. Mas não, nem
advertência nem olhar. Para novo espanto, passou reto como se nada houvera.
Pensei que Brasília,
afinal, tornara-se uma cidade cosmopolita como Londres ou Nova Iorque onde
cidadãos de cabelos lilás com corte moicano passam despercebidos na multidão.
— Como sou
tolo! Não é nada disso. Certamente é o inverso da história da “Roupa nova do
rei” de Andersen. Lá todos elogiavam a magnífica roupa real de sedas e veludos.
Apenas um meninote se atreveu a gritar “o rei está nu”. Aqui é o oposto. Todos
estamos pelados e apenas eu que enxergo roupas nas pessoas.
Olho novamente
para a dupla.
Mesmo de
costas para mim, eu enxergava o porte elegante e vestido da moça enquanto o
companheiro balançava a genitália desavergonhada entre as pernas. Um horror!
Apressei o
passo para encarar e desaprovar a figura atrevida.
Ele respondeu com um latido nada monótono.
21 novembro 2017
O QUE ELES NÃO DISSERAM
Quando eu finalizava meu livro Pepino e farofa – aventuras
culinárias resultantes de 50 anos de inexperiência culinária – pesquisei inúmeros
versos de livros e observei que continham frases elogiosas publicadas por
grandes jornais ou ditas por pessoas famosas ou destacados autores literários.
— O que fazer?
Como anônimo, usei a criatividade e inseri frases de famosos
com o título
O QUE ELES NÃO DISSERAM
Carlos
Drumonnd de Andrade – No meio de
Pepino e farofa havia inteligência .
Havia Inteligência no meio
de Pepino e farofa.
Napoleão
Bonaparte – Do alto de Pepino e farofa 50 anos
de inexperiência culinária vos contemplam.
Ernesto Che Guevara – Hay que ler Pepino e farofa, pero sin perder
la ternura jamás.
Dorival Caymmi – Quem
não gosta
de Pepino e farofa, bom sujeito não é. É ruim
da cabeça ou
totalmente lelé.
Antoine de Saint-Exupéry – Pepino e farofa é eternamente
responsável por aquilo
que cativa.
William
Shakespeare – Há muito mais coisas em Pepino e
farofa do que pode sonhar
tua vã filosofia .
Cristóvão
Colombo e Pedro Álvares Cabral – Humor à vista .
Neil Armstrong – Um pequeno livro para o homem , um grande livro para a humanidade .
Charles
de Gaulle – Pepino e farofa não é um livro sério .
Jânio Quadros – Li-lo porque
qui-lo.
Esfinge – Leia Pepino
e farofa ou te
devoro.
Bônus:
Frases
que não couberam no verso do livro que inicialmente se chamaria Aventuras Culinárias:
Frederick
Taylor - O livro certo , no lugar
certo e na hora
certa .
Vinícius
de Morais
– Olha que
coisa mais linda , mais cheia de graça é
Aventuras que
vem e estilhaça no doce
balanço caminho
do lar .
Chico
Buarque de Holanda- Estava
à toa na vida ,
o meu amor
me chamou pra ler
Aventuras contando coisas
de humor .
Pepino e farofa — R$ 30,00 , inclui
dedicatória e postagem nacional.
Contato por e-mail r-klotz@uol.com.br
ou inbox no Facebook
14 novembro 2017
Guarujá revisitada
Voltei
à Enseada depois de 44 anos. Mudou tudo. Não pertenço mais àquele lugar.
Continua linda, mas é outra.
Antes
de ir, visitei pelo Google maps todos os cantos da minha memória praiana de
1954 a 1972.
Emotivo
que sou, chorei de montão ao recordar. Futebol na praia. Esqui. Jacaré. Guerra
de areia. Nadar até o Samambaia. Sinuca. Primos, vizinhos, paqueras. Sorvetes. Johnny
Rivers. Dançar coladinho. Liberdade.
As
imagens da Internet e o espelho comprovaram que o tempo passou.
Quando pisei naquela praia, não nos emocionamos, ela não me reconheceu.
Só mais tarde, deitado na areia, de olhos fechados ouvi o mar conversando comigo. Nós nos reconhecemos. Aí sim, nos abraçamos com força.
07 novembro 2017
Pílulas contra o mau humor
Eu estava na sala dos estagiários. Eram nove horas da manhã quando José
Geraldo entrou. Passou direto pela secretária, por seus dois colegas de
trabalho e dirigiu-se à sua mesa.
— A idiota da faxineira esqueceu a garrafa de álcool na minha mesa. Ó,
mulherzinha avoada!
Pedro, vizinho de mesa, suavizou.
— Bom dia! Ainda é bom costume cumprimentar. Em vez de ofender a dona
Antônia, deveria ligar para ela, agradecer por ela ter limpado seu espaço e
informar que guardou o produto de limpeza.
— Tá de caso com ela?
— É impressionante como você começa o dia de forma grosseira,
desrespeitosa, mal-humorada e sem educação.
José Geraldo, ignorando a observação: — Já leu o jornal?
Pedro vira a página. — Não, ainda não terminei de ler.
José Geraldo, sem nenhum constrangimento, enfia a mão no meio da leitura
de Pedro e puxa o caderno de esportes.
— Peraí! Eu ainda não li esse caderno!
— Que egoísmo, você é incapaz de ler tudo ao mesmo tempo. Cadê sua
generosidade?
— Aposto que sua namorada dormiu de calça jeans.
— Seja criativo. Pare com suas piadinhas repetitivas. Todo dia você diz
a mesma coisa!
Evitando conflito, Pedro silenciou.
Na antessala, a secretária, responsável pelo jornal, murmura palavrões
imaginando a bronca do chefe ao descobrir o jornal bagunçado.
Passados dez minutos, Pedro comenta a nota policial.
— Viu só? O ladrão entrou na casa durante a madrugada, separou a
televisão e o micro, depois se encheu de comida da geladeira, esvaziou uma
garrafa de uísque e adormeceu no sofá.
— Como é que eu veria? A notícia está na sua mão. Você não quis me dar
todo o jornal.
— Apenas comentei, tentando um diálogo.
— Diálogo? — Resmungou feito velha — Como posso dialogar com alguém que toda
hora atrapalha a leitura?
Como só acontece em novelas, o figurante com a bandeja surge na hora exata
para amenizar o clima de hostilidades.
— Bom-dia — diz, enquanto distribui os copos descartáveis. — O que vai
ser hoje? Ovos estrelados, sucrilhos ou omelete com bacon?
— Obrigado, seu Zezinho. Tem antiácido para o Jotagê?
José Geraldo, sem tirar os olhos do caderno de esportes:
— Sirva um copo de raticida para meu colega.
Seu Zezinho caminhou em direção ao ventilador.
— Eitcha ambiente carregado... Vou aumentar a velocidade para o vento
levar o mau humor.
José Geraldo olha com reprovação.
— Aumente não. Já basta o barulho insuportável das cigarras gritando nas
árvores.
Como que fugindo de uma nuvem pesada, seu Zezinho empurra o carrinho
para a saída. Fecha a porta, enquanto Pedro faz cara de quem está curtindo
violinos da orquestra sinfônica.
— Isso que você chama de barulho é o canto das cigarras. É a perpetuação
da espécie. É o anúncio das chuvas. É a mudança de estação. Já viu como os flamboyants estão floridos?
— Vai se tratar, Pedrinho! — diz, colocando o queixo sobre o ombro e
piscando rapidamente os olhos. — Isso de gostar de florzinha vermelhinha é pra
flamboiólas. Acho que você escorregou nalguma flor cor-de-rosa e caiu na
bichice.
— É, Jotagê, se você fosse mulher, eu diria que foi mal comida.
— Outra vez você vem com piadinha manjada querendo gargalhadas. Invente!
Só teletube repete a mesma bobagem
vinte mil vezes e, mesmo assim, para bebês que não conseguem mudar o canal.
Pedro, mais uma vez bombardeado por José Geraldo, procura por um aliado
na conversa, olha na minha direção, interrompe minha leitura concentrada.
— E aí von Silva, o que você me diz? Concorda que está faltando mulher
na vida do Jotagê?
— Sei lá! Não sei e não estou preocupado com os problemas dos outros.
Sei apenas que daqui a pouco o chefe vai entrar por aquela porta e perguntar o
que a gente tá fazendo.
— E o que você, von Silva, está fazendo de tão importante?
— Estou cuidando do meu humor. Lendo e apreciando as imagens de um
tratado sobre a saúde, manutenção e desenvolvimento do bom humor. São minhas
pílulas contra o mau humor.
— Tudo o que o carrancudo Jotagê precisa na vida. O que é?
Para o meu azar, levantei a Playboy,
aberta na página central, exatamente na hora em que o chefe pisou na sala.
31 outubro 2017
Exercícios literários
1 – Poderia
dizer janelas, mas a falta de dentes aos 40 anos não era poesia.
2 – A camisa no chão estava suja de infidelidade.
3 – Ia trazer flores quando me lembrei de que seu vaso já
estava enfeitado.
4 – Rotineiramente acendia velas e virava o Santo Antônio, no
entanto chegara o inverno.
5 – Nasceu meu neto. Seria rei de todos, se um cometa
soubesse.
6 – Todos no enterro queriam discursar elogios e valeu o meu
silêncio.
7 – Todos festejavam o casamento. Eu já ia longe e só.
8 – Silêncio sobre a mesa. Um copo com
gotas de cianeto sorria mudo.
9 – Quantas alegrias na fronteira, mas sem passaporte voltava
para a depressão.
10 – A louca gritava na esquina da esperança, mas a luz do
poste avivava a morte.
A - Os ponteiros do relógio do alto da
igreja indicavam sempre as mesmas quatro horas e vinte minutos. Pássaros mudos
desaprenderam a voar. Os cachorros congelados continuam no mesmo lugar apesar
da sombra ter desaparecido. O vento estava amordaçado. Crianças gritam para
dentro. Ninguém quer sobreviver a este fim de tarde.
B - A mulher chegou à cozinha com ímpetos
de assassina. Esbravejou pelo presunto cortado em cubinhos em vez de tirinhas.
Excomungou o uso de ervilhas frescas. Ajeitou o chapéu de chef de cuisine,
provou uma garfada. Foi transportada para a primeira fila do Moulin Rouge, recebeu
um sorriso da Monalisa, ouviu La vie em rose e, para disfarçar, fez caretas ao
dizer que a omelete saiu razoável.
C - Nunca será segunda-feira. Trago
cerveja, faço carinho. Danço zumba três vezes por semana, emagrecei 32 quilos e
o Zé Luiz não dá a mínima. Agora aplaudir com entusiasmo as bundas na Dança das
famosas é demais. Nosso amor termina com a música do Fantástico.
27 outubro 2017
Bullying político
Bullying
é um termo importado do inglês. Bull significa touro. Bully sugere valentia. Em
inglês, bullying designa formas de violência verbal, física ou psicológica
intencional e repetitiva praticada por um indivíduo ou por um conjunto de
indivíduos. A agressão é provocada numa relação desigual de poder. A
intimidação, o deboche, o ataque causam dor, angústia sem possibilidade de
defesa. Destroem a autoestima da vítima.
Os
praticantes do bullying sistematicamente negam que o praticam e minimizam seus
atos de brutalidades.
Se
você pensa que isso só acontece nas escolas e locais de trabalho, enganou-se.
Você,
eu e todos os brasileiros estamos sofrendo o bullying e não nos damos conta.
Chama-se
bullying político.
Diariamente
você é chamado de bobo, idiota, pamonha, tolinho, panaca, babaca. Os políticos
sugerem que você é mais insignificante que filhote de lombriga.
Todos
se dizem inocentes e inventam mentiras e desculpas que nem meu neto
recém-nascido acredita.
"Eu
sou inocente e vou provar minha inocência. Não existe nenhuma prova contra mim.
As acusações são inconsistentes."
"Nunca
tratei de doações eleitorais. Esse depoimento, realizado em processo de delação
premiada, causa profunda estranheza. Ressalto que todas as doações que o
partido recebe são feitas na forma da lei e declaradas à Justiça."
"Pessoalmente,
gostaria de transmitir, a bem da verdade, que os ‘fatos’ apontados jamais
ocorreram. Jamais conheci esse senhor que mente para aliviar sua pena.”
“Meu
nome foi incluído nessa falsa lista por contrariar os interesses.”
“O
Ministério Público, poderia ter evitado equívocos me ouvindo preliminarmente.”
“Nego haver razões objetivas para que eu seja
impedido de atuar nesses casos.”
“Se
tem uma coisa que eu me orgulho, neste País, é que não tem uma viva alma mais
honesta do que eu. Nem dentro da Polícia Federal, nem dentro do Ministério
Público, nem dentro da igreja católica, nem dentro da igreja evangélica. Pode
ter igual, mas eu duvido.”
Quando
dizem: “Farei de tudo para provar minha inocência.” Parece que dizem em coro:
Indicarei nomes para compor CPIs, colocarei verbas nos projetos de deputados e
senadores, atrapalharei investigações, pagarei os melhores advogados, mudarei a
lei, comprarei juízes e trabalharei mais duro ainda para destruir essa
conspiração que deseja sujar meu nome.
Os
políticos com espertos advogados e dinheiro, desmontam peças jurídicas sem
desmentir o conteúdo.
E o
bullying político insiste.
“Sou,
vítima de uma ardilosa armação, uma criminosa armação perpetrada por
empresários inescrupulosos que se enriqueceram às custas do dinheiro público e
não tiveram qualquer constrangimento em acusar pessoas de bem na busca dos
benefícios de uma inaceitável delação.”
“O
pessoal da Lava Jato contaram mentiras a meu respeito, a Polícia Federal da
Lava Jato mentiu, o Ministério Público mentiu e o juiz aceitou as mentiras e tá
me condenando por coisas que ele próprio diz que eu não fiz. Então são eles que
estão com problemas de explicar para a opinião pública, sabe que eu não cometi
o crime que eles gostariam que eu tivesse cometido. Tá, eu já provei a minha
inocência. Agora cabe a eles terem coragem de pedir desculpas pra mim.”
Você
está cansado de ouvir e de ler, mas o bullying persiste.
“O
PSDB reafirma seu compromisso contra a impunidade, defendendo a ampla
investigação de toda e qualquer denúncia devidamente fundamentada contra quem
quer que seja, inclusive membros do partido.”
Não temos
autoridade para dizer: “Vossa Excelência está na mídia destruindo a
credibilidade do Judiciário brasileiro” ou “Por qué no te callas?”.
Enquanto
isso: “Dinheiro continua circulando em malas anos depois do início da
Lava-Jato. Regras são gestadas no Congresso Nacional para beneficiar políticos.
Ministros do Supremo soltam e ressoltam corruptos poderosos.”
O
povo brasileiro sofre bullying político em silêncio.
Até
quando?
Em
1789 os franceses tomaram a Bastilha.
Em
1969 os militares fecharam o Congresso brasileiro.
Em
2013 os black bloc’s brasileiros manifestaram a fúria questionando a ordem
vigente.
Em
2018 ...
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