15 setembro 2015

A reunião


A/C: Dr. von Silva
Prezado Sr.
Assunto: reunião
Pauta:
•  Aprovação das contas do primeiro semestre;
•  Medidas visando melhorar atendimento ao público;
•  Contenção de custos: restrições no uso do telefone;
•  Reforma dos banheiros;
•  Assuntos gerais.
Local e horário:  sala 223, sexta-feira, às 16h
                                                                A Chefia


Sempre era assim. Assim é sempre. Assim sempre será. Diabos! Reunião de manhã. Reunião à tarde. Reunião para discutir a pauta da próxima reunião. Reunião para reunir. Reunião para definir data para outra reunião.
           
Pontualmente, às dezesseis e quarenta, o encontro é iniciado com uma reprimenda a um dos convocados.

— Doutor Nestor, poderia explicar o motivo do atraso?

— Eu estava em reunião no quarto andar, tratando dos interesses coletivos.

— Que reunião foi essa? Porque não me chamaram? Penso que estão me boicotando!

 
Discutimos as novas cores para os crachás.

— E qual a conclusão?

— Ainda estamos na definição sobre a cor do cordão para prender o crachá.

Claudinha mostrou-se interessada na questão.

— Qual é a cor que está predominando para a escolha dos crachás? Eu prefiro verde, combina com meus olhos...  — suspirou.

O chefe interrompeu a conversa.

— Eu penso sinceramente que hoje é sexta-feira e devemos agilizar esta reunião para sairmos daqui antes da meia-noite.  E eu penso em pegar um cineminha...

— Qual é o filme que você vai ver?  — perguntou Claudinha.

Com um olhar de desaprovação, começou.

— Senhores, o primeiro item é a aprovação das contas da repartição referentes ao primeiro semestre...

— Chefe, temos que adiar este ponto, pois esqueci de pedir que os convocados trouxessem suas calculadoras...

Aliviado, o chefe passou para o segundo item.

— Bem, em relação ao atendimento ao público, penso que eles não devem interromper nossas reuniões. Fora isso, penso que são muito bem atendidos. Podemos dar sequência: a contenção no uso dos telefones.

— Chefinho, eu já tomei as providências. Inclusive vai atender também à sua vontade de ser menos interrompido nas reuniões, externou Claudinha.

— Como assim?

— Eu já mandei tirar os telefones da portaria. Assim eles não podem perguntar se as pessoas podem subir. E conforme suas ordens, só podem subir as pessoas autorizadas.

— Muito bem, Claudinha. Aproveitando o próximo assunto, da reforma dos banheiros, penso em fazer uma pausa para visita ao local. Volto já.

— O cafezinho ainda não chegou? — perguntou Chico.
           

O chefe retornou com as mãos ainda úmidas, disposto a encerrar a agenda do final de sexta-feira.

— Eu penso que faltam vinte minutos para as seis horas. Alguém ainda tem alguma pergunta?

— Chefe, o ar-condicionado está mal regulado. Na reunião em que foi definida a temperatura, nem todos os parâmetros foram devidamente analisados.

— Como assim, von Silva? Penso que foi você quem mais fortemente argumentou que teríamos que baixar a temperatura por causa do gradiente térmico do sol poente nas janelas. Qual parâmetro não foi analisado?

— Paulinha.

— Continuo sem entender...

— É que ela está se agasalhando demais e escondendo o decote.

— Penso que segunda-feira poderemos discutir isso. Vamos descer?

— Ainda temos uma rápida reunião com Chico. Bom fim de semana!

— Até segunda!

Apenas o chefe saiu.

— E aí, Chico, quem acertou o bolão? — perguntou Nestor.

— Foi o von Silva, ele cravou dezoito vezes! O chefe repetiu ‘penso’ dezoito vezes.



Extraído de Cara de crachá de Roberto Klotz

08 setembro 2015

Quanto mais alto, pior

A editora do jornal não se interessou

“Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem.” ― Brecht

Há anos estou incomodado com a existência de uma imobiliária e de uma lanchonete no Eixinho Norte. Estão na EQN 208/209 desde 2001. Aos poucos, discretamente, a imobiliária edifica mais um show room mordendo nacos da área destinada a um clube vizinhança.
Não acredito, ou melhor, duvido que o comércio e os outdoors nas margens dos Eixinhos estivessem nos projetos de Lúcio Costa.
Lenta e silenciosa, mas arrasadora, a sanha das construtoras derruba os padrões estabelecidos originalmente para a cidade.
Exemplificando, na EQS 212/213 foi erguido um gigantesco templo da igreja Universal. Certamente a legislação foi modificada para atender os interesses da igreja. A mesma instituição que driblou a lei para a construção do mega Templo de Salomão em São Paulo.
Outro exemplo é a edificação erguida e alugada para a Secretaria de Comércio Exterior – Secex – pertencente ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Foi instalada no início de 2013 em moderno prédio construído na EQN 102/103. Sem dúvidas a legislação também foi modificada para atender interesses não comunitários.
Não acabou.
Preciso exercer a minha indignação. Sem nenhuma oposição ou constrangimento, constrói-se um prédio de seis andares na EQN 204/205. A edificação que extrapola a altura originalmente permitida para as entrequadras será ocupada por órgão público sem fins comunitários.


Isto é um atentado à cidadania! Está lá nos parâmetros urbanísticos e de preservação: “As Entrequadras são caracterizadas por edificações de baixa altura, dispostas isoladamente no lote.”
Parece que o brasileiro perdeu a sensibilidade para o absurdo.
O que fazer?
Acredito que o jornal tem poder para mobilizar a população. Deve alertar visando modificar e corrigir atitudes de políticos e administradores da cidade, nesta e em outras situações.
Um jornal existe para servir, antes de tudo, ao conjunto de valores mais ou menos consensuais que orientam o aperfeiçoamento da sociedade.
É mais cômodo e barato ficar na redação a procurar a verdade, a ser muito provavelmente perturbado pelos ricos e poderosos. Esta matéria não é como um release que está digitado e pronto para ser diagramado. Os ricos e poderosos não têm interesse na publicação. Mas os que se identificam como cidadãos têm. E o jornal deve se posicionar ao lado dos interesses dos cidadãos, seus leitores.
O brasileiro e o brasiliense, em especial, procura um líder para modificar o status quo. O Correio pode e deve ocupar esse espaço.
Não são apenas puxadinhos, o precedente das edificações ilegais ou “legalizadas” está aberto. O Correio Braziliense não pode rejeitar a investigação e a reportagem. Precisamos reverter a tendência.
Qual é o caminho?
São palavras do Superintendente do IPHAN, Carlos Madson, publicadas no CB de hoje (25/07/15): “Brasília quer ser moderna? Então faça as coisas de forma moderna. Discuta com a sociedade. As cidades que melhor estão resolvendo os problemas urbanos são as mais democráticas.”
Além de levantar a questão e apenas criticar, sugiro que o jornal promova uma mobilização da comunidade candanga para a ocupação saudável da EQN208/209.
Que tal promover a construção de um parque calendário?
Seria plantada uma fileira de árvores da mesma espécie que floresça em janeiro/fevereiro. Na fileira seguinte seria plantada outra espécie que floresça em março/abril. Na sequência outra fileira com espécie diferente que floresça exuberância.
Uma das características de Brasília são árvores floridas proporcionadas por estações do ano bem definidas. Outra característica é o planejamento da cidade. Seria uma ótima oportunidade de unir características e interesses com o incentivo do jornal.
O processo de crescimento da árvore é lento. Imaginem nossos filhos e netos fotografando linhas de flamboyants, ipês, quaresmeiras, sapucaias, sibipirunas, manacás, espatódeas, paineiras, acácias, jacarandás...
Um paisagista desenvolveria o projeto e a comunidade mobilizada arrecadaria as mudas. Seria encantador ver crianças plantando as arvorezinhas.
A proteção da cidade é o respeito da cidadania, é a defesa da qualidade de vida orgulhando-nos de sermos brasilienses.
O brasiliense está cansado de ser atropelado pelo desrespeito.
                A população quer saber qual é o órgão responsável pela mudança do gabarito. Quer saber qual é o órgão fiscalizador. Desejamos opinar sobre a ocupação dos espaços. Não queremos praças de alimentação, shopping centers ou prédios públicos porque interferem no trânsito, produzem barulho e atraem insegurança.
O que a população, numa enquete, desejaria para estas áreas? Quadras poliesportivas? Parque? Clube vizinhança? Escola pública? Gramado?
Por favor, estimulem o brasilense a encontrar uma solução.

Atenciosamente,

Roberto Klotz

27 agosto 2015

Literatura desalojada

A comunidade literária brasiliense está em estado de choque!

O Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados coordenado pelo Prof. Marco Antunes foi desalojado. Foi colocado na sarjeta. Foi escorraçado como um cachorro sarnento.

O Núcleo teve início nem 2003 com oficinas literárias gratuitas. De lá até os dias de hoje, com absoluta regularidade, foram ministradas oficinas literárias com uma grade de 15 horas semanais de aulas todas elas preparadas e ministradas por Marco Antunes.

Graças à persistência e doação de Marco Antunes mais de 20 alunos escreveram e publicaram livros, transformando-se em autores. Inúmeros servidores da casa, incluindo deputados, tiveram aulas de retórica, milhares (milhares mesmo) de pessoas aplaudiram os quase 70 saraus produzidos. Também inovou ao criar uma oficina virtual chamada Desafio dos Escritores onde autores de todo Brasil (e ainda de Portugal e do Japão) participaram. Todos os eventos, saraus e Desafios tiveram o apoio da Câmara dos Deputados, gesto sempre muito elogiado.

Agora, por uma necessidade de agradar a liderança de um partido nanico, o Núcleo foi despejado sem receber outro lugar para dar continuidade ao trabalho.

Marco Antunes jamais cobiçou qualquer cargo. A única ambição foi e continua sendo: “tornar a literatura uma atividade permanente na Câmara dos Deputados, auxiliar na formação do servidor e promover eventos que divulguem a literatura, em especial a brasileira.”

Há dois anos, por reconhecimento e serviços prestados, o Núcleo de Literatura foi oficializado no organograma dentro do Centro Cultural da Câmara dos Deputados.

Agora, apesar do esforço contrário da Diretora do Centro Cultural, Isabel de Flecha de Lima, o Núcleo é sem teto.

Roberto Klotz
Aluno das oficinas

22 de agosto de 2015 

25 agosto 2015

Limonada suíça

Ontem fui a uma reunião na casa de um amigo. Gente finíssima. Casal muito amável e receptivo, daqueles que não seguem moda, fazem moda. Apartamento nobremente decorado. Poltronas de couro, quadros assinados e artesanato exclusivo.

Para eles, nada é simples. Tudo tem valor agregado. Sem demagogia, sem modéstia, com esnobismo e com muito miserê.

Chamou-me a atenção a grande mesa decorada com originalidade. Abóboras, rabanetes e alface espalhada.

Logo fiquei sabendo que a abóbora não era abóbora. Era uma abóbora premiada. Que os rabanetes não eram rabanetes, eram rabanetes melhorados geneticamente. Fiquei imaginando que a alface não era alface, era alface crespa alisada com chapinha.

Devíamos ser umas dez pessoas. A conversa transcorria com naturalidade. O casal sempre agregando uma história para valorizar suas diferenças.

Ele pitava um cigarro de palha em vez de cigarro, cachimbo ou charuto. E aquela palha havia sido trazida da Síria na última viagem que fizeram ao Oriente.

Até o pão do sanduíche havia sido, conforme o casal, produzido especialmente para aquele evento: sem nenhum aditivo químico. A sobremesa foi queijo minas com goiabada cascão. A goiabada foi fervida em tachos de cobre pela avó do prefeito numa vila do nordeste mineiro.

O que mais me impressionou foi quando, ainda antes do sanduíche, a sede apertou. Uísque? Nem pensar. Imaginei a cerveja glacial descendo e aplacando desejos sedentos. Não me perguntaram o que eu queria beber. Apenas anunciaram que a bebida já estava na mesa.

Fui seco à jarra de cristal. Julguei maravilhosa caipirinha abrindo caminho para a cerveja.

Servi um copo grande, imaginando batida comunitária.

Provei.

Impossível disfarçar minha desagradável surpresa. Além de amarga, sem açúcar.

dona de casa logo agregou:

Limonada. Limonada suíça. Limonada suíça diet.





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Se Deus lhe der um limão, faça uma caipirinha.



Extraído de Pepino e farofa – primeiro livro de Roberto Klotz



14 agosto 2015

COMO SUPORTAR JABS


COMO SUPORTAR JABS NO BAÇO E ENCARAR NOCAUTES

Vlado Lima

Editora Patuá

108 páginas

R$ 35,



Se você está no ar condicionado acomodado num sofá tomando Veuve Clicquot, se você for politicamente correto, se a bebida mais maléfica que você já tomou na vida foi uma coca quente sem gás e se nunca gargalhou por causa de um peido que soltou no meio dos amigos então definitivamente este livro não é para você.

Este livro ri, debocha ou morde. Sacaneia aquilo que está à nossa frente, mas que a sociedade de falsos pudores ignora ou finge ignorar.

O livro, de acordo com a ficha catalográfica, é de poesia. Esteticamente, são poemas. Na minha ignorância eu diria que são tiradas inteligentes, mordazes, bem-humoradas com ritmo, cadência e sonoridade. Foram escritas para ser interpretadas e aplaudidas em voz alta.

Eu conheci as sacadas do autor em Pop para-choque, livro emprestado em que não pude sublinhar, riscar nem dobrar orelhas. Este, adquiri no site da Patuá. É meu. Posso profanar, posso sacrilejar, posso tudo. Posso até elogiar: esse cara enxerga o mundo com originalidade. Conferi 20 orelhas dobradas. Uma orelha para cada poema gostado.

Em vez de continuar enchendo o autor de elogios, copei três poemas:

Conselho de mãe
o buraco do mundo é fundo!
disse minha mãe no dia em que saí d casa
costurou um beijo quente em minha testa
me deu um abraço de Kraken
7 cuecas novas
4 conselhos
e uma certeza:
não roube
não mate
respeite os mais velhos
e cuidado com puta
viado
preto
ateu
maconheiro
e comunista
(...)
essa gente não presta!

anos depois
no dia das minhas 26 luas
(com a casa cheia de amigos
cheiros
risadas
carnavais
e cores de Lautrec)
a velha me ligou pra dar os parabéns
alô, mãe! eu gritei
(entre os agudos & graves e um Led Zeppelin no talo)
lembra daquela galera que a senhora falou pra eu tomar cuidado?
tá toda aqui em casa!


Rodrigueanas no 4 –Almas gêmeas
5o anos de casados
4 filhos
7 netos
3 bisnetos
e brigas
muitas brigas
maiúsculas
insignificantes
homéricas

ela não apagou a luz
ele mijou fora da privada
ela queimou o feijão
ele não levou o cachorro pra cagar no quintal do vizinho

a última cizânia
foi por causa de um cemitério
queriam ser enterrados juntos
ela preferia aquele-um lá da Vila Galvão
ele, aquele-outro do Parque Continental
combinaram: quem morrer primeiro escolhe
não deu outra
só para atanzanar a coitada
ele bateu a caçoleta primeiro

no velório
ela (feito uma uva melancólica)
 sentada inconsolável ao lado direito do caixão
dizia aos prantos: eu queria que o meu velho estivesse aqui
eu queria que o meu velho estivesse aqui
só para ver o cemiteriozinho de merda que ele escolheu.

Se eu soubesse que você viria

Se Eu soubesse que você viria
eu teria feito um
bolo

Eu
não teria secado o meu estoque
de Red Label paraguaio
nem teria empalado carneirinhos de celulose
nas minhas madrugadas sem sono

Eu
não teria pendurado
essa bandeira negra na janela
nem teria quebrado a minha coleção
de LPs do Roberto

Eu
não teria sintonizado em UHF
meus cornos para-raios
nem teria vagado pelas noites da Rua Augusta
como um chihuahua-zumbi sem dono

Eu
não teia afogado na privada o teu ursinho lionella
nem teria deixado o desintegrador de ameba
assim
tão perto

se Eu soubesse que você viria
Eu teria feito um

bolo

10 agosto 2015

Paris


Minha tarefa diária de apontar todos os lápis é das mais importantes. Apesar do moderno apontador, faço questão de mostrar a arte, esculpindo as pontas com meu canivete vermelho. Os lápis têm a majestosa função de escrever petições, redigir ofícios, anotar depoimentos, rascunhar despachos e limpar orelhas.

Minha segunda tarefa é colocar o jornal sobre a escrivaninha do chefe.

Os jornais devem chegar donzelos. Intactos. Responsável que sou, sempre chego antes do chefe pelo menos umas duas ou três horas para dar conta dos meus árduos e rotineiros deveres. Nesta quarta-feira, li, pelo menos, a manchete do jornal. E mais um pouquinho. Estava tão cedo. Política, internacional, esportes, cultura. Lá no caderno de turismo anunciavam passagens para Paris. Mon Diê. Doze vezes, e ainda assim tá caro!

Paris é como uma virgem na flor da idade. Sonho passear por todos os seus cantos. Cheirar suas flores, atravessar suas pontes, caminhar nos seus jardins, sentir as bolhas do champanha no céu da boca. Se existe algum lugar com classe, esse lugar tem nome: Paris.  É desnecessário subir na Torre Eiffel para ficar junto das nuvens e sonhar.

Mona Lisa? Tenho hora marcada com você. Seu sorriso é minha alegria. 

Saímos juntos para um café na calçada coberta com as folhas douradas. Crepe Suzete, baguete, Lafayette, cotonete. Ah, o som, magnífico som: camembér, trotoá, voalá, peti puá, croassã, chantili, rende vu.

Mais um pouco de açúcar, Mona?

Na mesa vizinha, Voltaire, Sartre, um cavalo branco e Bonaparte. À direita, Jacques Cousteau, Débussy, Asterix e Brigitte Bardot. 

Bonsuá! 

Saio de braços dados. Todos me cumprimentam. Não é por mim, é por minha encantadora companhia que seduz com olhar emblemático e sorriso enigmático. 

Ela ajeita o véu, empunha a sombrinha e entramos na charrete. Sem nenhuma palavra margeamos o Sena. O chofer aumenta a música do rádio: La vie en rose. Na música seguinte ela olha para mim e canta em dueto com Piaf: Ne me quitte pas. Não me deixes. 

Nesse exato momento os sinos da catedral de Notre Dame badalam dez vezes.

O chefe entrou na sala.

— Bonjour!


— Que droga, von Silva! Quantas vezes preciso te dizer que odeio quando mexem ou dormem no meu jornal?!


Texto publicado no livro "Cara de crachá"

Prêmio edição da crônica “Dia e noite, Paris é um sonho” no Prêmio UFF de Literatura, promovido pela Universidade Federal Fluminense, Niterói – RJ.

04 agosto 2015

O amuleto de prata

Nevara na noite anterior. Apesar do sol mostrando os dentes, fazia frio. Muito frio. Andar na calçada congelada era dançar equilibrismo. Só muita necessidade ou ignorância faria alguém andar no comércio da Heimatstrasse naquela manhã. Maurício com joelhos e fundilhos molhados só não engatinhava para não perder a dignidade de vez.

Levantando-se mais uma vez, percebeu que era observado através do vidro da vitrine. Abanou sem graça para as mulheres que formavam uma plateia do lado de dentro da janelona. Arrastou-se mais três minutos até chegar ao trinco da porta da loja. Sentiu-se um náufrago alcançando uma boia flutuante.

Ao pisar no capacho recompôs a postura, ajeitou a mochila e abriu a porta. Interrompendo uma aula de tricô entrou na loja de armarinhos deixando um rastro de pegadas no carpete.

Uma senhora que parecia ser a dona da loja tomou a frente:

– Fühlen sie sich wohl? – O senhor está se sentindo bem?

Maurício ergueu os ombros, inclinou a cabeça para o lado e abriu as mãos espalmadas numa interrogação mímica. Ele não falava alemão. Nem francês nem inglês.

A mulher apontou para uma porta.

 – Möchten sie einen Handtuch? – O senhor quer uma toalha?

Ele repetiu o gesto. Estava constrangido. Era turista. Escolheu a época errada para viajar. Não falava a língua. De calças tão molhadas, parecia mijado. Sentia frio. Estava sem dinheiro num ambiente requintado e repleto de senhoras. O que fazia ali?

Maurício era de Araçatuba, interior de São Paulo. Desde que ganhara a moeda de prata sentia-se o maior felizardo do mundo. Faturou uma grana na loteria. Mais do que comprar um carro, catou a namorada e saiu para viajar o mundo. Inglaterra, França, Espanha, Itália, Alemanha. Até que foi assaltado. Sobrou apenas a mochila.

Na manhã seguinte, antes do café, foi expulso do hotel e a namorada o trocou por um indiano. Precisa registrar a queixa e tentava caminhar até o consulado brasileiro quando recobrou o equilíbrio na loja de armarinhos fazendo o papel de um animal exótico num jardim zoológico.

Uma mulher curvilínea foi até ele com uma enorme toalha aberta num abraço.

Aconchegando-se na toalha e braços murmurou obrigado.

A mulher respondeu “bitte schön” – de nada – numa voz masculina.

Maurício teve certeza. A sorte o abandonara.


Com a mão no bolso procurou o amuleto. Em pagamento, ofereceu a moeda de prata.

14 julho 2015



09 julho 2015

Estreia na calçada


Puxa, como está frio nesta esquina. Eu poderia ter colocado a minha calça azul. Esta saia chama mais a atenção dos homens. Ou devo chamá-los de clientes? Sinto falta do cachecol. Preciso destacar meus peitos e um cachecol poderia servir para me estrangular. Xô, pensamento ruim! Será que algum carro vai parar? Será que vai demorar? Será que meu primeiro cliente vai ser gostoso ou velho e barrigudo? Lá vem um carro devagarinho. Botou farol alto para me examinar. Fiquei cega, seu filho da puta.

Dois rapazotes! Quero não. É fria. Vai. Vai embora, vai.

Será que eles queriam um programa ou só olhar? Bem que a Zeca disse que muitos caras só querem olhar. Nem sei se quero ser olhada. Nem sei se quero programa. Preciso de grana. Tô com fome. Um mês de gororoba. A Zeca quebrou a minha essa semana. Maçã e chocolate. Vidão. Disse que podia passar fome, mas jamais sem tomar a pílula. Meu Deus, obrigado pela cartelinha. Outro carro. É melhor ficar debaixo da luz. Detesto farol alto.

Babaca, nem olhou.

E se me reconhecerem? Hahaha, sem chance. Isso aqui é bairro de rico. Minha turma fica a duas horas de ônibus daqui. Só o Rubão tem carro. Mato esse filho da puta se ele passar por aqui.

Os carros passam rápidos. Fingem que não me veem, que não existo. Que não sou gente. Que não valho nada. Que sou lixo. Que sou puta. Sou não. Meu baixinho vai comer hoje. Os rapidinhos me desprezam. Os devagarinho querem me comer. Tô sabendo. Neguim passa devagarinho junto do meio fio e me come com os olhos.

Vem aqui, gostoso. Para o carro. Pergunta quanto é o michê, safado!

Quanto eu cobro? 100? 200? E se ele disser que só tem 50?

Passou reto. Desgraçado!

E se parasse? E aí gatinha? Qual seu nome? Que vou dizer? Shirleide? Nunca. Leide nem pensar. Se papai fosse vivo ia me encher de porrada. Preciso inventar um rápido. Keila? Charlene? Chaiane? Diabos. Será que preciso ser outra pessoa? Gosto de Leide, que nem a princesa. Papai sempre me chamou de princesinha. Minha Cinderela.

Porra, meus pés estão doendo. Merda de salto alto. Eu devia saber. Melhor colocar um tênis e voltar pro balcão da papelaria. Salário de merda. Chefe de merda. Mas meu baixinho comia.

Vem mais um. De mansinho.


E se esse carro preto parar e abrir a porta? Entro nessa vida?

25 junho 2015

Ilhas, veredas e buritis



Ilhas, veredas e buritis

Eliane Lage

Editora Brasiliense

350 páginas


R$ 27,00 num sebo virtual


Que surpresa boa!

Nesta autobiografia Eliane Lage nos convidou para sentar, ao final de tarde, numa roda de prosa em uma varanda de fazenda. O clima de aconchego do pé descalço, do boi mugindo à distância e do café recém-coado soam um clichê que você só encontra nas palavras acima. Apesar de estreia, a escrita madura, quase poética resulta da leitura de centenas de livros.

Eliane foi uma atriz famosa. Protagonizou os primeiros filmes quando a Companhia Vera Cruz iniciou o cinema no Brasil em 1950. Por isso mesmo imaginei-a, como a caricatura de uma estrela – mulher de origem humilde colecionadora de galãs, vaidosa ao extremo, pródiga e atriz em escândalos amorosos envolvendo sexo e bebidas. Ledo engano. Exatamente o oposto. Ela não é clichê muito menos caricatura.

A família riquíssima e poderosa gostaria que ela se enquadrasse nos padrões da aristocracia, mas ainda adolescente começou a trabalhar com crianças na favela Dona Marta no Rio de Janeiro. Ciente da falta de conhecimentos estudou na Inglaterra. Aplicou muito mais do que aprendeu num retiro de crianças da Grécia logo após a Segunda Guerra. Voltou ao Brasil determinada a trabalhar com menores carentes, entretanto num jantar patrocinado pela família conheceu e se apaixonou por um diretor de cinema. Ele a convidou para ser protagonista de um filme. Casam-se no ano seguinte contrariando a família que desejavam um marido de posses e não um artista de carreira incerta.

Apesar do glamour do cinema procuraram uma vida diferenciada e mais próxima do campo. Em 1956, quando a Vera Cruz faliu mudaram-se para o Guarujá, cidadezinha do litoral de São Paulo e refúgio dos abastados nas férias de verão. A dupla, marido e mulher, montou um antiquário. Ele construiu e vendeu várias casas.

Antes de prosseguir é importante ressaltar o adjetivo riquíssima empregado algumas linhas acima. O tio Henrique Lage foi dono de cinco ilhas na Baía da Guanabara. Morava em uma enquanto noutra construíra o maior estaleiro brasileiro. Comandava a Companhia Costeira de Navegação (aquela dos itas da música), possuía salinas no Nordeste e minas de carvão em Santa Catarina. O parque Lage também era propriedade da família. Tudo foi confiscado pelo governo Getúlio Vargas antes da Segunda Grande Guerra. O que não significa que ficaram pobres.

Mais do que escrever um livro, a intenção de Eliane era deixar um registro da vida e da família para as gerações seguintes. Assim a primeira metade do livro é dedicada à genealogia e às lembranças familiares enquanto na outra metade relata sua irrequieta e interessante vida.

Eliana é da mesma geração dos meus pais, então reconheci algumas passagens ou fatos paulistas que somei a alguns pontos que marcaram a minha leitura:

A avó decidiu viajar para a Europa e levar Eliane. Saíram para fazer o passaporte no Rio. À página 73:

Era um prédio lúgubre no centro da cidade, sob um calor de 40 graus. Perambularam de seção em seção, de negativa em negativa, até chegarem, exaustas, à sala do chefe. O homem calvo e mal-encarado foi logo dizendo, seco: “Uma criança de 8 anos só viaja com o consentimento, por escrito, do pai ou da mãe”. E seguiu-se um diálogo no mínimo estranho: “Mas o pai e a mãe já estão na Europa. Eu vou justamente levá-la para eles”. “Então volte aqui com consentimento por escrito e a menina viaja.” “Não dá tempo. Já comprei as passagens e o navio sai daqui a dois dias. Não tenho com quem deixá-la“. “Não posso fazer nada.” “Pode, sim. O senhor fica com a menina. E eu viajo depois de amanhã.”

Virou as costas decidida e saiu porta afora.

Na cabeça do homem as ideias se atropelavam. Ficar com a menina? Essa estrangeira, que nem falar sabe, é capaz de sumir no mundo. Essas coisas acontecem. Com louco não se brinca. E de um pulo, já no corredor, gritou: “Ei, dona madame! Espera aí! Eu dou um jeito... “ E deu.

Elisabeth saiu triunfante, com o passaporte na bolsa e a neta pela mão.

“A vida é como um jogo de pôquer”, monologava, o olhar de aço vagando janela do táxi afora, “Há ganhadores e perdedores. Ganha o que souber encarar o adversário, descobrir o seu ponto fraco e, na hora certa, blefar.”

Rejeitada pela mãe e com um pai playboy irresponsável estudou em internatos mundo afora. Sentia-se um estorvo, “um problema para os adultos à sua volta”. Conheceu a mãe só aos 11 anos, recebida, sem abraços num frio comprimento. Nas férias seguintes foi convidada a passar um fim de semana na casa da mãe. Com medo de outra decepção: “Só de pensar sentia um frio na barriga, como se tivesse engolido centenas de borboletas esvoaçantes.”

É singular – pág. 236 – a competência com que a autora resumiu a decadência da Vera Cruz e do cinema brasileiro:

Todos os circuitos de cinemas do Brasil afora eram ligados por contratos de exclusividade às grandes companhias produtoras americanas, que se encarregavam da distribuição. Qualquer cinema que quebrasse esse contrato, lançando um filme nacional independente, sofreria um boicote dessas distribuidoras. As companhias cinematográficas nacionais, por sua vez, produziam poucos filmes por ano. Apesar de já conquistarem a preferência do público, além de prêmios no exterior, tinham que, para verem seus filmes exibidos aqui, vender os direitos aos gigantes da indústria cinematográfica americana, que ficavam responsáveis pela distribuição. Era uma batalha inglória. O filme da vera Cruz tornava-se propriedade da Columbia Pictures, que o repassava aos cinemas de todo o Brasil, fazendo parte de um pacote obrigatório de dez filmes americanos classe C e D, enfim, os piores! Então, apesar das filas na frente dos cinemas dobrarem as esquinas, o lucro não ia nem para os donos dos cinemas nem para a Vera Cruz.

Em outra passagem, à página 266, menciona que em 1954 quando nasceu a filha Vivien, mudaram-se para um sobradinho conjugado na Avenida Lavandisca no bairro de Moema em São Paulo. Curiosamente meus pais moraram na mesma Lavandisca em 1952 quando eu nasci. Na mesma época só havia carros importados e caros. Compraram uma exceção, como meus pais: uma caminhonete alemã Hansa Borgward. Mas a frase que mais chamou à minha atenção veio à página 281:

“De volta à praia do Tombo notamos uma certa efervescência. Era a campanha política de Jânio Quadros. O prefeito nos procurou e pediu que o ajudasse me candidatado a vereadora. Tom ( o marido) achou boa ideia, amarrou uma vassoura no jipe, símbolo do Jânio, e eu passei a escrever discursos e a falar de cima de caminhões.” Provocou as minhas lembranças porque esse jipe, cor de laranja, havia sido do meu tio onde passávamos as férias na praia da Enseada, Guarujá.

Há inúmeras deliciosas histórias de cinema, como foram inúmeros os endereços de Eliane, mas ela queria a fertilidade da terra, o bem-estar e o ar puro do campo. Então em 1977, aos 50 anos mudou-se para Pirenópolis no Centro-Oeste goiano onde reside ativa e lúcida até hoje.

         E, felicidade adicional, pós leitura, é que terei a oportunidade de conhecê-la na próxima reunião do nosso clube de leitura.

08 junho 2015

Um dia na vida de um carteiro


Quando prestei concurso para carteiro imaginei que fosse distribuir cartas em bairro de rico. Não neste bairro de ruas enlameadas, repleta de cachorros sujos e barracos sem número. 

Não há caixas de correio. Odeio bater palmas e gritar para entregar os envelopes.

A próxima casa vai ser mais fácil. A porta está entreaberta.

- Ó, de casa. – Bato com os nós dos dedos na porta.

- Ó, de casa – chamo três vezes e abro lentamente a porta.

Não vejo ninguém e avanço uns passos. 

Chama-me à atenção a mesinha na frente do sofá. O tampo é mistura de balcão e cemitério. Quatro pratos empilhados com restos de arroz e ossos de frango. Uma mamadeira caída com leite derramado ressecado. Uma chapinha desgastada.  Um joy stick. Um controle remoto.  O cinzeiro transbordando guimbas está ao lado de três latas vazias de cerveja bem defronte do lado direito do sofá que está mais afundado e onde também há marcas de queimaduras de cigarro. Do lado esquerdo do sofá há um travesseiro indicando que é cama de um dos moradores.

Acima do sofá, na parede há um recorte de página central de revista com o time do Botafogo, campeão estadual de 2006. No prego, logo acima, há um boné provocativo com o escudo do Flamengo.

Dei mais um passo para largar a correspondência sobre a mesinha quando reparei rastros de pneu de bicicleta perto de um par de havaianas destroçadas e um cachorro morto.

Saí correndo.


02 junho 2015

Teoria da conspiração


Não acredite em tudo o que lê, vê e ouve. Quantas vezes nós já ouvimos essa frase?

Talvez uma centena.

Hoje, com a tecnologia acessível, sabemos que tudo pode ser alterado de acordo com as conveniências. Até em filmes caseiros, produzidos por adolescentes cheios de espinhas, os homens voam, tiranossauros são ressuscitados e tsunamis são cenários possíveis.

Antigamente só as grandes potências dispunham de tecnologia de ponta, equipamento sofisticado e pessoal especializado para manipular cenas em grande escala como a chegada do homem à Lua. Aposto que você também acreditou nas pegadas do Neil Armstrong.

Talvez a maior fraude produzida pelos estúdios da CIA sejam as imagens repetidas à exaustão em que o presidente americano é baleado quando acenava para população.

O relatório Warren, agora inteiramente disponível na Internet, comprova detalhadamente que John Fitzgerald Kennedy estava de saco cheio de Fidel, de Khrushchev e de Jackie. Resolveu sumir no mundo. Montou numa Harley Davidson e rumou para uma ilha no sul da Flórida.  


Hoje, de dia passeia na praia com seu cachorro e de mãos dadas com Marylin. À noite joga pôquer com Onassis, Charles Lindberg, Elvis Presley e um assassino de nome Oswald.
 
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