28 junho 2009

Homem-árvore assalta banco


Para alguns a tarefa de cronista é penosa, para outros é prazerosa. Jogo no segundo time. De manhã, enquanto sigo o meu trajeto diário até a redação, fico antenado procurando captar alguma coisa que chacoalhe a alma. Na maioria dos dias, presto atenção no trânsito. As luzes verdes para a escrita só acontecem quando abro e leio pequenas notícias espalhadas no jornal.

Esta foi uma semana farta de fatos extraordinários: baleias entraram em greve de sexo; traficantes colombianos fizeram carnaval com o Natal; espanhol disparou torpedo contra Evo Morales; serpente bígama teve caso com mulher e hamster; homem enfartado no coração de NY é reconhecido graças à coleira do cachorro; médicos franceses esquecem guimba em cirurgia encefálica. O jornal de hoje traz uma pequena nota internacional que sacode meus sentidos: um homem, para não ser identificado, disfarçou-se de árvore para roubar um banco. A notícia mesmo sendo curtíssima, informou também que, apesar da camuflagem, o homem foi preso. Só. Só isso, mais nada. A nota acabou por aí.

Resolvo desvendar o curioso assalto passo a passo. Meu editor não vai pagar passagens nem hospedagem. Devo viajar na minha criatividade. Mentalmente, entrevisto todas as testemunhas e reescrevo a nota tal qual deveria ter sido escrita desde o início.

A esposa, aborrecida com a vida sedentária e vegetativa do marido, imaginou-o trabalhando em uma profissão digna e incentivou-o a trazer dinheiro para casa.

O marido, sempre acomodado, resolveu que o mais fácil seria assaltar um banco. A escolha recaiu num da mesma rua em que morava, o que facilitaria muito sua vida, pois poderia ir e voltar a pé do trabalho.

O maridão era acomodado, mas não bobo. Planejou algo simples e infalível: entraria, apontaria a arma, pegaria o dinheiro e voltaria para casa. Faltava o detalhamento. Foi até a agência fazer um reconhecimento. Anotou horários, contou o número de guichês, verificou que o café oferecido estava frio e que várias câmaras monitoravam os clientes.

Pensando em escapar da identificação teria que criar um disfarce. Na loja de fantasias, experimentou de cowboy, tigre do sucrilhos, Mickey Mouse, astronauta e Bob Esponja. Aluguéis caríssimos. Voltou para casa e encontrou a solução no jardim. Iria disfarçado de árvore. Na mesma hora cortou vários galhos e costurou uma roupa. Resolveu que faria o assalto no dia seguinte, antes da fantasia murchar.

Logo cedo, fincou raízes na calçada em frente do banco. Para sua alegria, nenhum dos pedestres fez qualquer pergunta ou olhou com desconfiança. Apesar do frio e desconforto, ganhou mais confiança quando um cachorro levantou a perna para regar-lhe o tronco. O tempo passou. Vários clientes se aglomeraram na entrada esperando a abertura da agência. A porta abriu e um velho cegueta apagou o cigarro nos seus pés. Todos entraram rapidamente, exceto ele, pois árvores com os pés queimados, não costumam se locomover com rapidez.

Entrou na fila destinada a idosos, grávidas, deficientes físicos e mentais. Embora fosse um banco americano, a fila, por demorada, era brasileira.

Esperou calmamente. Na sua vez, apontou a arma:

— Isto é um assalto!

O caixa, assustado, olhou de baixo para cima.

— Não pode ser. Árvores não falam. Não pode ser um assalto, talvez uma fábula!

— Sem gracinhas! Ponha a grana na cestinha! Rápido.

Depois de esvaziar as gavetas dos três caixas retirou-se.

A polícia só chegou depois de quinze minutos, quando o homem-árvore já havia sumido.

Os investigadores começaram o trabalho imediatamente. No interrogatório às testemunhas, descobriram que o homem-árvore, nem grande nem frondoso, estava muito mais para homem-arbusto. Logo chegaram à conclusão que era um sujeito muito bem mandado, sem opinião e que era podado pela mulher. De acordo com as fichas de assaltantes de bancos, os suspeitos naturais seriam: João Oliveira, Pedro Carvalho e José da Mata. Porém, tratava-se de uma casa bancária americana e por isso os suspeitos, John Oliver, Peter Oak e Jo Forest, estavam em outra lista.

Para evitar nova onda de roubos a bancos, o FBI contratou o melhor detetive de todos os tempos e, já no dia seguinte, a polícia cercou o domicílio do perigoso meliante. Um helicóptero e pelo menos cinqüenta carros entraram em ação. Atiradores de elite foram posicionados na frente e nos fundos da residência. O pessoal da tevê espalhou-se na frente, fundos, laterais da casa e em outros quatro helicópteros.

Quando todas as câmaras estavam ajustadas, o xerife cuspiu o chiclete e gritou no megafone para o bandido sair sem reagir, senão ia dar galho — mocinhos de filmes americanos sempre fazem trocadilhos idiotas nos momentos mais tensos.

Treeman saiu de braços erguidos e perguntou como encontraram o seu esconderijo.

O famoso detetive deu uma tragada profunda no cachimbo e ergueu uma das sobrancelhas.

— Elementar, meu caro Watson. Nós estamos no outono. Nesta época, as árvores perdem as folhas. Bastou seguir o rastro das folhas até a sua casa.

Agora, cá entre nós, o bobo, o idiota, o preguiçoso, o culpado de tudo, foi o estagiário de jornalista que não soube colher os frutos da deliciosa matéria.


12 junho 2009

Fernando Morais





É comum ler algum livro e ficar impactado. Para mim, o livro que fez a diferença foi Chatô, o rei do Brasil de autoria de Fernando Morais. Sempre evitei biografias ou livros grossos. O livro empoeirou na estante antes que eu aceitasse o desafio. Seguramente foi o livro que mais me impressionou em toda vida. Pela figura carismática, polêmica, empreendedora e nada ética de Chateaubriand e também pela forma com que o livro foi escrito. Considero o livro uma fantástica aula de história por proporcionar ao leitor o cenário de cada episódio. O resultado das pesquisas é maravilhoso. Fernando Morais conseguiu fazer com que eu acompanhasse a vida de Chateaubriand como se eu estivesse sentado ao lado da figura ao longo de toda a sua vida.

Tive a honra e o privilégio de conversar com o autor na noite de 4 de junho no T-Bone, pouco antes da palestra sobre o livro O mago, biografia de Paulo Coelho. No evento dediquei uma cópia do meu livro Pepino e farofa e entreguei uma cópia de um e-mail enviado em 2006.

Enviado em: terça-feira, 28 de novembro de 2006 23:13

Prezado Fernando,

Foi uma alegria enorme ouvir sua conversa no Sempre um Papo. Tentei enviar um e-mail há dois anos, após outra apresentação sua aqui em Brasília. Os entregadores do correio eletrônico simplesmente carimbaram: devolver ao remetente, endereço não localizado. O envelope amarelou um pouco, mas faço questão de entregar o conteúdo intacto.
Já estou curioso para percorrer as páginas de Montenegro. Meu pai foi piloto da FAB na segunda guerra, tirou brevê em aeroclube fundado por Chatô; meu irmão estudou no ITA. Há identificação novamente, como em Chatô. Aliás conversei longamente com uma tia cujo pai foi adido diplomático em Londres à época do Embaixador Chateubriand e com outra tia cujo marido doou, à revelia, avião para o aeroclube de Poços de Caldas.
Quero saber quem vai escrever a biografia de Fernando Morais.

Abraços,
Roberto Klotz

Enviado em: sexta-feira , 26 de março de 2004

Prezado Fernando,

Há duas semanas soube que você estaria no Sempre um Papo. Quem é Fernando Morais? No site do Sempre um Papo havia a referência aos Olga, Ilha e Chatô. Fui conferir minha estante e lá estava Olga. Chatô estava pertinho. O primeiro livro, lembro ter devorado vorazmente em pouco dias. O segundo, pelo assustador tamanho, estava entre as preciosidades que “ainda vou ler um dia”. Essa era a hora. Ler rapidamente para conhecer um pouco do autor antes da sua presença em Brasília. Não deu tempo, é lógico. Só agora estou pela metade.
Sempre tive muita curiosidade em saber dos mistérios de poder do Velho Capitão. Na memória um registro dele trajando elegante fraque encimado por brilhante cartola. Como paulistano passei na frente da Casa Amarela várias vezes, parei para ver os colibris confinados naquela enorme gaiola. Tive a oportunidade de vê-lo uma vez. O que mais aguçava minha curiosidade, foi ter visto no MASP, ainda na Rua 7 de Abril, uma obra de Renoir com uma nota de agradecimento à família Lundgren pela doação. Os Lundgren são parentes e meu pai teve convívio bastante próximo na década de 50. Ainda menino, elogiei o desprendimento na doação desta magnífica obra. Meu pai apenas mencionou que não se tratara de benemerência e sim de resultado de chantagem. E que teria sido desta forma que Chateubriand teria montado o maior museu do hemisfério sul. Um dia eu precisava tirar isso a limpo.

Que aula de história! Chateubriand consegue estar presente em todos bastidores dos momentos importantes e fazer o mundo girar na velocidade e sentido que lhe interessam. Além da fantástica biografia, chamaram-me à atenção em seu livro o volume da pesquisa, a quantidade de entrevistas e a profusão de colaboradores. Seu senso de organização, trabalho e acima de tudo contatos são destaque. Trabalho dos mais complexos sem dúvida é motivar uma equipe tão grande e multidisciplinar em diversos cantos. Destaque genial e divertido é o vocabulário léxico do polêmico Chateubriand. Nauseabundo, poltrão, sacripanta, celerado, torvo, flibusteiro, bufarinheiro e frascário foram alguns dos adjetivos nada delicados aplicados pelo protagonista.

Sou apenas mais um entre centenas de seus leitores, mas com certeza li com muito interesse, entusiasmo e admiração o seu fantástico e equilibrado trabalho. Parabéns!

No Sempre um Papo ainda pude extrair um incentivo da sua parte. Você comentou que visitava uma livraria nos Estados Unidos e que havia todo um andar de biografias e não apenas uma estante, ao contrário da sua expectativa brasileira. Que havia duas dezenas de biografias de Jaqueline Kennedy enquanto não temos sequer de todos os ex-presidentes.
Não sou escritor nem jornalista embora tenha prazer em escrever crônicas para consumo próprio. Sempre tive muito orgulho do trabalho dos meus dois avós, o paterno era engenheiro e construiu estradas de ferro e o materno era pintor acadêmico, e jamais encontrei nada nos livros à respeito deles. Você sinalizou e incentivou. Obrigado pela dica e pela força.

Abraços,
Roberto Klotz

04 junho 2009

Baixaria



A polícia subiu o morro,
Por ameaças ou rabo preso,
Ninguém sabe ninguém revela.
Foi no senado, não na favela.
 
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