28 março 2017

Apito do trem


Há gente que se debruça na janela e observa a grama crescer. Antigamente era assim comigo e eu nem percebia.

Da minha janela sempre pude me ver.

Em um dia de chuva, brinquei com os meus irmãos no playground. A tia da escola desenhou comigo a primeira letra do meu nome. O professor escreveu em inglês no quadro negro. No cinema, ganhei um beijo de língua. Colei na prova de cálculo de estruturas metálicas. Emoldurei a foto da a primeira casa que construí.

Um dia abri a janela e a aliança refletiu o sol. Contra a luz vi a ecografia com uma criancinha minúscula. Pisquei os olhos e vi um sorriso banguela. Esfreguei os olhos para enxergar direito e Carolina estava embarcando para Disney com as colegas debutantes. Carol estava grávida quando nos despedimos do meu pai no cemitério.

Fiquei surpreso ao constatar que os postes, as árvores, as casas e as pessoas passavam mais rápidos pela janela.

Acima da vidraça sempre havia uma cordinha para avisar ao motorista quando a gente queria descer. Nem sei se quero descer. Não há cordinha, nem ônibus, nem motorista, nem maquinista neste trem.

Pouco importa, se curva ou reta, sol ou chuva, a velocidade aumenta.

Da janela foi possível enxergar o médico receitando um comprimido diário de atorvastatina para combater o colesterol. Depois outras cápsulas para o diabetes e pressão alta. Antes uma cápsula, agora três. O reumatismo acena...

Ouço o apito.


Pela janela, confirmo que o vidro de remédios se esvazia na velocidade do trem.

21 março 2017

Antologia


Sentado num barzinho, fui fulminado com uma pergunta.

— Ó, Klotz, o que é antologia?

Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo não faria essa pergunta. Se eu fosse o Raimundo que amava Maria que amava Joaquim, eu também não saberia a resposta. O meu nome é Klotz, não tenho outro de pia.

Se eu estivesse na repartição seria normal esse tipo de pergunta. Estou longe de qualquer dicionário, porque hoje é sábado. Essa Rosa radioativa estúpida e inválida não deveria ter feito esse questionamento.

Perdido, sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos, procuro uma resposta. Desejei me esconder, desejei ir para Minas. Minas não há mais. Quis morrer no mar, mas o mar secou. Vou-me embora pra Pasárgada, sou amigo do rei. Volto para a minha terra que tem palmeiras onde canta o sabiá, que tem cadeiras onde posso sentar e procurar um desmancha-dúvidas.

Meu reino por um dicionário!

Deus, ó Deus, onde estás que não respondes? Preciso urgente de um pai dos burros.

Queixo-me da Rosa, mas a Rosa não fala, simplesmente perguntou o que é antologia.

Para todas as coisas: dicionário. Para que fiquem prontas: paciência. Rosa não tem paciência. Quer resposta. Tem uma pedra no meio do caminho! Cadê o maldito tira-teimas?

Toda pedra no caminho você pode retirar. De repente, não mais que de repente, surge o salvador, senta-se ao meu lado e consulto-o.

Coleção ou seleção de trechos em prosa e/ou em verso.”

— Obrigado, Aurélio!

Aurélio, garoto esperto, informa também que intertextualidade é a superposição de um texto a outro.

Mais uma vez, obrigado, Aurélio!

                                                                      Publicado em “Cara de crachá”

Pesquisa para o texto Antologia
“Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução.” — O gauche — Carlos Drummond de Andrade
João que amava Tereza, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili.” — Quadrilha — Carlos Drummond de Andrade
“O meu nome é Severino. Não tenho outro de pia.” — Morte e vida severina — João Cabral de Melo Neto
Porque hoje é sábado.” — O dia da criação — Vinícius de Moraes
“A rosa hereditária. A rosa radioativa estúpida e inválida.” — A rosa de Hiroshima — Vinícius de Moraes
Sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos.” — Alegria, alegria — Caetano Veloso
“Quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais.” — E agora, José? — Carlos Drummond de Andrade
“Vou-me embora pra Pasárgada, sou amigo do rei.” — Vou-me embora pra Pasárgada — Manuel Bandeira
Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como .” — Canção do exílio — Gonçalves Dias
Meu reino por um cavalo!” — exclamou Ricardo III na Guerra das Duas Rosas, conforme William Shakespeare
Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?” — Vozes d'África — Castro Alves
“Queixo-me às rosas, mas que bobagem, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti, ai.” — As rosas não falamCartola
"Para todas as coisas: dicionário. Para que fiquem prontas: paciência." — Diariamente — Nando Reis
“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.” — No meio do caminho — Carlos Drummond de Andrade
Toda pedra no caminho você pode retirar.” — É preciso saber viver — Roberto Carlos e Erasmo Carlos
“De repente, não mais que de repente, fez-se de triste o que se fez amante.” — Soneto da separação — Vinícius de Moraes

“Se você rouba de um autor, é plágio, se de vários, é pesquisa.” — Wilson Mizner

07 março 2017

Crônica da mitologia


— Por favor, Eustáquio. Conte-me tudo sobre o Francisco Duarte.

— Ele, o Chico, dizia trabalhar no jornal havia sete anos. Que graças ao ótimo desempenho como estagiário conseguira, logo de cara, um lugar na editoria de política. Cobrira vários ministérios: Trabalho, Transportes, Fazenda e especialmente o da Justiça. Por conhecimento jurídico passara a acompanhar o trabalho do Supremo Tribunal Federal, o que lhe rendera dois prêmios internacionais de jornalismo. Estava sendo sondado para trabalhar na Globo News.

Eustáquio, sentindo-se desconfortável, tomou um gole de água.

— Da noite para o dia puxaram-lhe o tapete. Estava arrasado. Dizia que suas matérias transformaram-se em papel higiênico. Alegava que o novo editor-chefe, o Azedo, um sujeito ranzinza, não fora com a cara dele. Dizia que o editor alucinava dizendo que ele tivera um caso com a mulher dele. Aí ele completava: — Bobagem, aquele bagulho não merecia.

— Teve um caso ou não teve?

— Nem sei se a conhecia. Eu só jogava bola com ele e tomava umas cervejas. Sei que ele reclamava que o editor fazia questão de ser chamado, apenas por ele, de doutor Azevedo. Que o perseguia sem dó nem piedade. Até mudou-lhe as atribuições. O Chico sentia-se um lixo.

— Continue, por favor.

— Não posso confirmar, mas dizia que passou a ser responsável pelo obituário, por atualizar a programação de cinema, verificar a temperatura do café e eventualmente escrever alguma matéria onde o Azedo procurava diminui-lo.

— É mesmo?

— Disse-me que anteontem, o chefe, em clima carnavalesco, ordenara que escrevesse sobre a festa em Nova Orleans. Queria uma crônica. O chefe jamais justificava, mas Chico sabia que o cronista faltara. Ficara felicíssimo. Era a oportunidade de viajar e esquecer a marcação cerrada do editor.

— Acabou aí?

— Não. Chico perguntou se pegava as passagens com dona Neide e o doutor teria respondido “Vai viajar no Google, meu camaradinha! E aí, o Chico fazendo uma cara de nojo imitou o doutor Azevedo:

— Nada de florear com as comidinhas, a arquitetura ou a música — finalizou com um sorriso sádico — ah, e antes que eu me esqueça, sabichão, quero que inclua a mitologia grega na crônica.

— O Chico, quase chorava, reclamando do assédio moral, mesmo assim falou que não daria o braço a torcer. Pesquisou loucamente. Descobriu que o sambódromo deles acontece na Avenida Clair Borne e que no Mardi Gras, ou Terça Gorda, sempre há um desfile contínuo de carros alegóricos com música altíssima. Que de cima dos carros distribuem ou jogam milhares de beads - colares de bolinhas plásticas brilhantes. Sempre verdes, amarelas ou roxas, simbolizando fé, poder e justiça. E que a graça, além da bebedeira, estava em encher o pescoço de colares coloridos. Quanto mais colares mais poder. Mas para receber colares havia uma contrapartida, as mulheres precisam levantar a blusa e mostrar os seios ao carro alegórico.


O Eustáquio levantou a camisa cinco centímetros.

— Aí, o Chico disse-me que foi interrompido com um telefonema do doutor: “A matéria deverá estar pronto até as dezoito horas se não quiser perder a cabeça”.

Eustáquio gesticulou com o indicador cortando o pescoço da esquerda para a direita.

— O meu amigo era um baita profissional. Alucinadamente pesquisou deuses e deusas: Poseidon, Zeus e Dionísio, Afrodite, Medusa e Pandora. Resolveu criar uma crônica carnavalesca silenciosa. Incendiou o teclado com fúria e entregou o texto a tempo de salvar o pescoço.

Fez uma pausa. Abaixou a cabeça.

— Não adiantou, né. Foi morto com um tiro no coração.

— O senhor, leu a crônica?

— Não por quê?

— O seu amigo escreveu que Atena era a deusa da festa. Era a que tinha mais colares.

— E daí, inspetor?

— Daí que Atena é o nome da esposa do doutor Azevedo.
 
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