23 maio 2017

Elas batem um bolão



No gramado, debaixo do meu prédio, vi uma menina jogar bola, futebol. Isso não me espanta mais. As mulheres estão ocupando todos os espaços que eram de exclusividade masculina. Eu nunca dediquei meu tempo para observar a habilidade das mulheres no trato com a bola. Mas aquela garota merecia um olhar de admiração pela beleza e suavidade. Já a conhecia de alguns encontros dentro do elevador.
Sou do tempo em que futebol era jogo de homem. Jogo duro, muito corpo a corpo. Muita brutalidade. A bola de couro era mais pesada que hoje. Para cabecear bola molhada tinha que ser macho. Coisa comum eram as brigas em campo. As mocinhas somente iam ver alguma partida ou pelada quando havia algum namorado que estivesse jogando. Nenhum interesse no jogo. Esporte absolutamente masculino.
Observo lá embaixo: os adolescentes estão misturados, meninos e meninas estão jogando juntos! A primeira coisa que me chamou a atenção foi que, da mesma forma como os garotos, ela usava um calção grande e deselegante. Naquela brincadeira de fazer gol por entre as árvores, observei que ela chutava com os dois pés e igualmente bem. Qualidade rara até entre os profissionais da bola.
Quando algum garoto chutava a bola longe do gol e a bola rolava indo parar debaixo do carro estacionado, nenhum dos rapazes se prontificava, num gesto cavalheiro, a buscar a bola. Mudança de tempos.
Fiquei boquiaberto quando em determinado momento ela pegou a bola e começou a fazer embaixadas. Eu não contei, foram mais de cinqüenta. Bola no , no joelho, de calcanhar, de cabeça, matada no peito. Essa menina leva jeito! Sabe tudo.
A brincadeira continuava e a vi dividindo a bola como homem. E para meu espanto, xingando como homem. É, essas mulheres definitivamente estão tomando nosso lugar, até no futebol. Pensei que tivesse visto tudo, mas não, ela cuspiu – raichputcomo um bom moleque cospe.

Agora falta as mulheres aprenderem a coçar o saco como nós. 

16 maio 2017

Tainha recheada de recordações

Nesta semana conversei com o meu passado duas vezes.
Férias na praia paulista. Outro século.
Tempo em que a energia falhava e não havia asfalto nem telefone.
A praia ainda era dos pescadores.

A imagem do pescador com a agulha é de André Klotz.


TAINHA RECHEADA DE RECORDAÇÕES

Jantar de gala no hotel cinco estrelas à beira-mar. Duzentos dólares por cabeça, fora a bebida. Eles de gravata, elas de salto alto. Comemoram sessenta anos de idade do banqueiro, Dr. Valter Junqueira.
Após variados drinques e canapés os garçons com suas luvas brancas começaram a servir um peixe recheado.
O Dr. Otávio Portobello, diretor financeiro, proferiu quinze minutos de elogiosas palavras ao homenageado. Explicou que a tainha era um dos peixes mais nobres do litoral brasileiro e, para finalizar, levantou a taça de vinho branco, brindou e praticamente coagiu o aniversariante a se manifestar. O Dr. Junqueira olhou agradecendo um a um os convidados e com leve gesto de cabeça convidou-os a apreciar a iguaria.
Como em todos os jantares, houve breve silêncio para a prova daquela vistosa e cheirosa carne branca.
Dr. Valter Junqueira delicadamente, com os talheres de prata, separou um naco de peixe e segurou-o entre o indicador e o polegar e levou-o à boca. Fechou os olhos para acionar todos os outros sentidos: paladar, olfato, audição, tato e memória. Fechou os olhos e abriu a memória.
Valtinho adorava conversar e aprender com mestre Benedito.
Mestre Benedito tinha uma casa na faixa de areia onde o rio desembocava no mar. Casa ampla, de tábuas e piso vermelho. Fogão de lenha e uma enorme mesa sob um frondoso chapéu-de-sol. Pescador respeitado por todos e que, além da generosa barriga, era dono da maior rede da praia.
Era ali, debaixo do chapéu-de-sol, que mestre Benedito, com a agulha e a régua, fechava os buracos nas malhas da rede. Os bagres, além de feios, só serviam para sopa e estragos na rede.
Teve uma vez que seu Benedito abriu a rede em toda sua extensão na praia. Era para uma verificação mais detalhada. Percorri com ele, quando ele repôs algumas chumbadas do fundo emparelhando com o mesmo tanto de cortiças na parte de cima. Eram uns anéis gordos, bem maiores que o tamanho do meu pulso, que faziam a rede flutuar. Até hoje ainda me lembro de que fui correndo para casa para dizer para a minha mãe que contei quatrocentos e doze passos. Era muita rede, toda de barbante.
Foi com paciência que ele me ensinou a fazer um puçá, uma pequena rede de malha fina em forma de saco. Depois costurou-o num aro de arame.
            De peso, amarrou a pedra que escolhi e esticou uma corda mais grossa no aro, de um lado ao outro, para prender a isca. Depois laçou mais três cordinhas no arco e juntou as pontas, dali saiu a corda maior, pra gente puxar o puçá para fora d’água.
            Com ele, fui pescar siri. Lá na curva do rio havia uma árvore caída onde a gente sentava. De cima podíamos ver o fundo do rio quando algum caranguejo mordiscava o chamariz. Aí, era só puxar e pronto! Pronto nada!  Eu não tinha coragem de tirá-lo do puçá. Seu Benedito pegava o siri por trás, com a mão rápida, e jogava no balaio. Ele dizia que não deveríamos pegar mais de dez. Era o número certo que a gente dava conta de comer. Eu levava para casa, pedia para a dona Olga ferver e no fim de tarde levava tudo para a casa do mestre Benedito. Era uma festa.
Muitas vezes o caranguejo só abria o apetite.
– Seu Benedito vamos puxar picaré?
– Vá perguntar ao seu pai, vê se ele deixa.
Eu ia para casa e invariavelmente ouvia que mais tarde chegaria alguma visita importante ou que ele iria jantar com a mamãe na casa de algum amigo, lá na cidade. Mas, que eu poderia ir e deveria levar o lampião. Era o máximo.
Eu ainda era pequeno e fracote, no linguajar deles, por isso procurava outro adulto para puxar o picaré com o seu Benedito. Era preciso força para puxar o cabo de madeira do tamanho de um homem. Eu normalmente suplicava para o seu Agenor, marido da dona Olga ajudar. Dona Olga o incentivava prometendo fritar os peixinhos assim que nós voltássemos. Inocente, eu dizia que não havia nada para eles fazerem à noite. Nem tinham tevê.
O seu Benedito arrastava o varão além da arrebentação. Seu Agenor ficava no raso, com a água na cintura. A rede presa entre os dois paus verticais formava um enorme saco. Seu Benedito às vezes gritava:
– Agenô, cê tá rastando o pau na areia? Como se seu Agenor não soubesse que a rede precisava ficar bem coladinha no fundo para os peixes não escaparem por baixo. Somente anos mais tarde entendi a graça da fala.
Com a rede já fora da água a minha tarefa consistia em segurar o balaio para os peixes e com a outra mão alumiar a rede para os dois pescadores. As corvinas iam para a frigideira da Dona Olga e os linguados iam para a casa do mestre Benedito. Eu gostava do baiacu. Não era para comer, era para fazer cosquinha na barriga e ver inchar até fazer uma enorme bola branca. Uma farra.
O seu Messias era o homem do tempo. Era capaz de predizer chuvas e ventos. Calmaria e sol. Uma vez ele me mostrou como as formigas estavam agitadas aumentando a altura do formigueiro para a água não entrar: era sinal de chuva. E choveu. Outra vez ele me mostrou a lua e disse que a mudança da lua somada com o vento sul traria mar bravo. No outro dia o mar se agitou em ondas de ressaca. Mais de uma vez ele percebeu tempestades debaixo de calmarias e sol forte:
– Fale para seu pai tirar a lancha da água. Vai ter temporal daqui a pouco.
 Seu Messias acertava sempre.
Enquanto a temporada das tainhas não chegava, mestre Benedito saia com a canoa para deitar a rede de espera ou armar o espinhel.
Meu pai dizia que fartura de tainha, para os pescadores, significava poupança para o resto do ano.
As tainhas chegavam junto com a corrente de água fria do sul em julho, mês de férias.
Nesta época a canoa ficava de prontidão na areia aguardando o aviso. Quatro remos grandes, duas latas para tirar água, muita corda e a rede cuidadosamente dobrada para ser lançada aos poucos na velocidade da canoa.
A capela ficava próxima à canoa. Curioso, entrei algumas vezes. Havia um pequeno altar com uma santa coroada, um ramo de planta na mão e uma taça na outra. Alguns tocos de velas. Às vezes alguma vela acessa invocando proteção. Eu ouvia as orações dos irmãos Flávio e Hélio:
“Santa Bárbara, que sois mais forte que as torres das fortalezas e a violência dos furacões, fazei que os raios não me atinjam, fazei que os trovões não me assustem, fazei que o troar dos canhões não me abalem a coragem e a bravura.”
“Santa Bárbara, rogai por nós.”
Seu Maneco, um preto velho manquitolava por ali com a muleta. Faltava-lhe uma parte da perna. Contava que a perdeu numa luta com um tubarão. Nunca duvidei. Homem respeitado. Já não podia remar. Era olheiro. Passava o dia no costão com a mão sobre os olhos para enxergar melhor. Era o responsável por captar a presença do cardume e avisar a vila. Diziam que tinha olhos de albatroz. Melhor que qualquer outro, descobria a agitação do mar, a mancha avermelhada, a esperança da fartura. Além dos olhos, seo Maneco era bom de sopro. Visualizava o cardume e soprava o berrante. Os sinos chamam os homens para a fé. O berrante chama os pescadores para a esperança.
Um a um, homens fortes largavam o que estivessem fazendo e corriam para o barco. Serafim, Benedito, Aristides e Cristino normalmente eram os primeiros a chegar. Moravam mais perto. Tiravam a lona da canoa e colocavam os roletes para descer o barco até o mar. Faziam o sinal da cruz, pediam proteção à Santa Bárbara e remavam determinados contra a quebração. Na praia ficavam os roletes e uma ponta da corda.
Três pescadores remavam enquanto que o quarto, na popa, soltava a corda no ritmo dos remadores.
Da praia o seu Maneco orientava o rumo do barco e pedia para soprarem o berrante mais uma vez. Espertamente começavam a largar a rede e contornando o cardume. A sorte estava lançada.
A vila ouvira o berrante. Homens, mulheres e crianças surgiam de todos os lados.  Metade se juntava próxima à ponta da corda deixada pelos canoeiros enquanto outra metade aguardava a canoa chegar com a outra extremidade da corda.
Depois de duas horas a canoa voltava à praia e era novamente colocada sobre roletes onde todos ajudavam a levá-la sobre os roletes até a origem.
O povo começa a puxar as cordas. Um a um, as pessoas vão ao mar agarram a corda e a arrastam até um ponto longe da beira. Largam a corda e voltam para pegar noutro ponto dentro d’água. Homens ou mulheres, ninguém se importa em molhar as roupas na água salgada. Eu e as crianças gostávamos de mergulhar para pegar a corda mais no fundo. Era mais uma brincadeira.
No movimento contínuo a rede surgia. Sempre se preocupavam em fazer a chumbada se arrastar na areia do fundo para não deixar os peixes escaparem por baixo. Era mais desconfortável puxar a corda junto com a rede, em compensação víamos os peixes se brilhando.
Os pescadores retiravam os peixes da rede conforme surgiam. Sacodia daqui sacodia de lá e a tainha se desprendia. As pilhas se formavam. Havia também cações, ventos-leste e, com sorte, linguados. À criançada cabia fazer a limpeza da rede repleta de sargaços, caramujos e estrelas.
Naquele dia a rede veio farta. Centenas de tainhas, talvez mais de um milhar.
Ainda me lembro do mestre Benedito separando os montes. Uma parcela para o dono da rede, uma parcela para o dono da canoa, outra parcela para os remadores e o restante para os que ajudaram a puxar a rede. Todos felizes. Homens com duas ou três tainhas, mulheres com uma ou duas. Até eu ganhei uma tainha. Foi a primeira vez que ganhei um peixe. Uma tainha.
Saí correndo para casa e pedi para dona Olga prepará-la.
À noite com a família reunida tivemos tainha recheada. Papai fez uma oração de agradecimento e permitiu que começássemos a comer.
Houve breve silêncio para a prova daquela vistosa e cheirosa carne branca. Com um garfo separei um naco de peixe e segurei-o entre o indicador e o polegar e levei-o à boca. Fechei os olhos, mastiguei e me engasguei.

– Dr. Valter, está passando bem? Foi um espinha?

– Não se preocupe, estou ótimo. Foi uma pérola.

09 maio 2017

As imagens da nutricionista



                Há um ano a minha mulher enche meus ouvidos com: — Você está gordo! Precisa se cuidar!
Engano.
Já fazem dois ou até três anos.
—Precisa fazer exercícios! — Procure uma academia! — Porque parou de nadar? — Foi ao cardiologista? — Outra cerveja?
— Argh!
Eu acho que faz parte do departamento feminino alertar, como faz parte do departamento masculino ignorar avisos.
— Pois é! Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.
Fui à academia durante vinte dias. Em menos de três semanas desloquei o braço direito e contundi a perna esquerda.
Troquei a academia por um fisioterapeuta.
Após algumas sessões eu já pude estender o braço direito para cumprimentar a nutricionista apresentada pelo funileiro muscular.
Apesar da troca de amabilidades, creio que ambos pensavam: “Você está gordo!”
Ela me atendeu super bem. A consulta demorou mais de hora. Pesou-me. Mediu minha circunferência barrigal, solicitou uma batelada de exames de sangue, perguntou a minha rotina e meus hábitos alimentares, o que eu gostava e desgostava de comer. Perguntou mais que a minha mulher. Perguntou, imagine só, a minha frequência na emissão de gases. — Eu hein!
Depois de três dias, enviou-me um e-mail com mil recomendações, um livro de receitas, reassumiu o compromisso de perda de 10 kg em um mês contanto que houvesse rigidez no cumprimento das recomendações.
Havia uma recomendação curiosa: comprovar as atividades com imagens diárias.
Obediente, tirei uma selfie caminhando.
Pouco depois fui cobrado para fotografar o carrinho de compras do supermercado.
Após retirar as cervejas da geladeira enviei uma imagem recheada de filés de peixe, cenouras, brócolis, aipo, chicória, couve-flor, couve-de-bruxelas, alho-porró, alfafa, broto de feijão.
Depois do elogio resolvi também fotografar o almoço.
Pilotei o fogão com determinação.
Consegui um resultado de beleza estética e funcional digno de figurar na Ana Braga, Bela Gil e Rita Lobo.
Orgulhoso, tirei a fotografia e enviei a imagem do filé de peixe acompanhado de arroz colorido.
Depois de cinco minutos a nutricionista telefona dando a maior bronca. Ainda pensei: “Tudo isso por causa de um copinho de cerveja?”
Não. Não foi por isso.

Na hora de enviar a foto do almoço em vez de clicar a imagem do almoço, cliquei a sobremesa: um pratinho com um quarto de pudim de leite condensado.

28 abril 2017

Greve do cão


A nota do jornal dizia “Lambidas de cachorro podem parecer carinho, mas na verdade são apenas uma forma que os animais têm de identificar por onde o dono andou, diz a pesquisa norte-americaana. Como são animais com muita sensibilidade a cheiros e sabores, os cães fazem a festa, experimentando novas sensações quando seus donos voltam da rua.”
Cronista que sou, embaladao pelo clima de hoje, imaginei a cena abaixo:

Todos estavam tensos. Nervosos. Temiam a presença de espiões entre eles. Ao entrarem no austero prédio foram vasculhados minunciosamente e sequer uma pulga foi encontrada.
Civilizadamente caminharam sobre o piso de granito de Assuã – o mesmo das pirâmidas egípcias – admirando as pinturas dos mestres Boticelli e Donatello do renascimento florentino, para se acomodarem na mesa de jacarandá doada por Rui Barbosa. Estava reunida em Haia, na Holanda, a cúpula dos cães farejadores do planeta.
O artigo publicado nos jornais mundo afora encimava a pauta da reunião extraordinária.
A mesa redonda distribui o poder de forma equilibrada entre os presentes. O pastor alemão Lutero representa os farejadores de palavrões nos livros escolares. O labrador golden retriver Strongnose é o diretor de operaçãoe especias nos aeroportos da costa oeste dos Estados Unidos. É capaz de identificar a cidade de origem de qualquer americano pelo cheiro do chiclete. Batalão, é um premiado vira-latas da Rocinha: localizou um torcedor do América em dia de Maracanã lotado. Talmud é policial reformado do exército. Se aposentou antes de encontrar a paz no terrítório israelense. O mastiff Eticus, nascido em Roma, é especialista em fungar políticos. Em doze anos de serviço foi capaz de localizar dois honestos.
Com o austrero cenário descrito, alguns personagens apresentados e o microfone do tradutor simultâneo desligado para evitar gravações, deu-se início à reunião.    
Todos rosnaram simultaneamente.
– É um absurdo o que fazem conosco. Temos que dar um basta nesta situação abusiva.
– Exigimos o máximo de oito horas de trabalhos diárias.
– Precisamos de descanso semanal.
– Chega de ração. Exigimos comida decente.
– Também temos direito à sobremesa.
– Chega de banhos em quartos de empregada. Reinvindicamos banheiras com hidromassagem.
Apenas o sindicalista Arnoldo estava quieto no seu lugar. No momento certo latiu mais alto, silenciou todos. O pitbull conhecido por seu temperamento agressivo e apelido de Exterminador afirmou que precisavam de uma proposta única. Consequentemente todas as reinvindicações foram anotadas e por unanimidade foi votada e aprovada que iriam exigir o direito de lamber e cheirar bifes de filé mignon.
E agora sim, Arnoldo, com sua larga experiência apresentou a grande arma secreta, o único meio de persuadir os homens a terem boa vontade. Uma greve.
– Todos, até o cachorro do cafezinho latiram em coro: Unidos unidos jamais seremos vencidos; unidos unidos jamais seremos vencidos.
Foi deflagrada a greve por tempo indeterminado. A partir do dia seguinte todos os cães da face da terra deixariam de abanar o rabo.

18 abril 2017

Quando eu morri

Quando eu morri


Levei três tiros antes mesmo do amanhecer. O primeiro, por trás, na nuca, base do pescoço.
Uma rosa de sangue sujou meu colarinho. Procurei olhar no espelho, mas não enxerguei nada. Eu me sentia bem, anotei o endereço peguei o carro e fui para a casa. Desconhecidos me vestiram um pijama e pediram que eu fosse para a varanda. Mandaram que eu me deitasse no chão. Levei os outros dois tiros. Foram nas costas. Entre as costelas, na altura dos pulmões.
O sangue do pescoço já estava escuro e um enorme e pavoroso hematoma assinalava a violência sofrida. Agora o sangue saía também por dois buracos do meu pijama. O líquido, que imaginei ser quente, escorria gelado pelas costas manchando o piso empoeirado.
A varanda era enorme, talvez uns trezentos metros quadrados. Churrasqueira, bar.  Os banheiros masculino e feminino serviam também de apoio para a piscina e para a sauna. A varanda era o cenário perfeito para grandes festas com políticos, jogadores de futebol, modelos e colunistas sociais disputarem espaços e champanhes. Deduzi que a mesa espelhada fosse o suporte para fileiras do pó da alegria. Ao lado da varanda havia um enorme jardim assinado por um paisagista renomado. Observei que, apesar do sol já estar no alto, as luzes do gramado permaneciam acesas.
É muito desconfortável morrer num chão duro e sob um sol escaldante.
A ambulância estacionou no meio do jardim. O carro da perícia também parou no gramado da casa desenhando trilhas de pneus na grama japonesa. As luzes estroboscópicas em cima da viatura anunciavam o fim da festa. Em vez de DJ, o rádio berrava palavrões do delegado.
Os policiais e os paramédicos não deram a mínima importância. Ninguém veio verificar meu pulso.
Minha mulher também levou três tiros e agora, ao invés da cama, dividia o mesmo granito quente e empoeirado. Estava a um metro e meio de mim. O rosto inchado pela bala estampada na têmpora direita a deixava pavorosamente irreconhecível. Os olhos azuis contrastavam com o violeta da pele. Os cabelos loiros e cheirosos estavam empapados de sangue endurecido. Mesmo estirada, ela continuava sensual naquela camisola de seda branca maculada de púrpura brutal. Parecia lançar moda de horror.
O nosso filho estava junto de nós, eterno egoísta, tinha sua própria poça de sangue, resultado de três tiros no peito e um na testa. Nossa família, sempre unida, estava agora, sujando um pequeno espaço do piso da varanda.
Ficar naquela posição defunta era muito desconfortável.
Perguntei para minha esposa se ela estava pronta para ser colocada no saco preto e ser lacrada com um zíper. Como sempre, não respondeu.
Minha posição, deitado de lado, não permitia um bom ângulo de visão. Além disso, não sabia onde foram parar meus óculos. No máximo, via os sapatos daqueles que nos rodeavam. Muitos sapatos diferentes.
O sol de meio-dia esturricava nossa pele. O suor se misturou ao sangue. Estávamos sem protetor solar.
Um moço de tênis cotelê verde providenciou três guarda-sóis. O alívio foi imediato. Desejei que aquele moço fosse um eunuco e então providenciasse ventinho com um enorme abano de plumas.
Meus sentidos estavam prejudicados. Mesmo assim pude ouvir um sabiá assobiando docemente numa amoreira no fundo do jardim. Aprendi que a morte é lírica e acompanhada de canto de passarinhos.
Apareceu uma sandália havaiana. A dona se abaixou e perguntou se eu queria uma água de coco.
Respondi, irônico, que naquela posição só poderia tomar água de coco se me arrumasse um canudinho. A sandália não voltou mais.
Dizem que o sangue é doce. E eu acreditei. As formigas começaram a fazer fila indiana nas minhas costas.
Um par de sapatos pretos com solado grosso se aproximou e começou a me fotografar. Os flashes pipocavam e minhas pupilas acusavam o incômodo.
— Puxa, quando será vão me deixar em paz? – resmunguei baixinho.
Atrás de mim ouvi um diálogo:
— São só esses três?
— Não. Tem mais um ali, na ambulância.
Eu reconheci aquelas vozes: Selton Mello e Carlos Alberto Riccelli.
Então a morte é lírica com canto de passarinhos e vozes de atores globais. Concluo que morrer pode ser interessante.
O par de sapatos pretos com solado grosso retornou e voltou a pipocar flashes. As vozes de Selton e Riccelli repetiram o mesmo diálogo mais umas três vezes.
— São só esses três?
— Não. Tem mais um ali, na ambulância.

Morrer pode ser interessante, mas muito repetitivo.
Agora apareceu um sapato marrom. O dono do sapato se abaixou e com uma fita crepe marcou no chão a minha posição. Quando os contornos estavam assinalados ordenou:
— Preste bem atenção para retomar sua posição depois. Agora os atores vão descansar e depois retomaremos a filmagem no mesmo ponto. E cuidado para não melar a casa com a gelatina vermelha.


● Resultado da minúscula participação no filme “O Federal”                                                                                           

● Premiado no concurso de contos de São João da Boa Vista - 2009

11 abril 2017

Prezado Sr. J. L. Borges,

Recanto das Emas – DF, 3 de abril de 2017

Estou escrevendo esta carta porque a professora mandou. Disse que se a gente nunca ouviu falar no seu nome, era pra gente pesquisar.
O Borges que eu conheço é o cara do açougue perto de casa. Sei lá se é J. L. Borges, R. M. Borges ou T. T. Borges. Sei que a balança dele é delirante e a carne é fantástica.
Por sorte, a Leninha, maior nerd da turma, na mesma hora falou que já tinha lido seus livros O Zahir e O Aleph. Disse também que tu é o bonzão da literatura argentina.
Ela me deu todas as informações que eu precisava. Incluindo a principal. Tu morreu. Tá morto. E aí está a questão. Eu não levo um lero com o meu cachorro. Acho bizarro trocar ideias com plantinhas. Num falo sozinho. Agora a professora quer que eu escreva prum morto? Eu nem sei escrever argentino. Tá maluca.
Seria maneiro digitar para um morto-vivo como aquele personagem do Machado de Assis, que eu não me lembro o nome.
       Mas não, ela quer que eu escreva para J. L. Borges. Uma carta e não um Whatsapp. No hospital te deram alta celestial. Cê está longe, do outro lado da nuvem.
       Eu tou na bad, precisando de nota. Se eu digitar em vez de escrever posso levar chumbo. Minha letra é feia como um ET. Espero que ela leia e não rabisque antes de levar a carta pessoalmente.
       Hahaha, ela diz que sou maldoso.
       Por via das dúvidas, vou escrever a carta. Mas vou colocar num envelope e colar. Acho que ela num vai poder abrir porque seria violar direitos. Pelo menos entendi que o prof Leandro disse que o sigilo da correspondência é inviolentável. Vai ser comédia.
       Então agora, J. L. Borges, o papo é nós dois.
       A Leninha disse que tu acharia massa saber que ainda falam de você, depois de tanto tempo na cova. Ela disse que você manja dos paranauê fantásticos. Que você saca das coisas dos monstros do bem e dos monstros do mal. Sabe tudo de leão com asa, de mulher com cobra na cabeça, de pássaro de fogo que morre e vive, morre e vive, morre e vive. Isso é demais! Quem sabe tu me ajuda para criar uns mangá da hora. Eu queria um herói que não dá mole. Um cara que aguenta o fogo, porrada e até tranco da namorada.
        Vou fechando por aqui. Eu só precisava escrever uma página.
Se for responder, responda quando eu estiver acordado. Ok?

Assinado: Washyngton



04 abril 2017

Indigestão

Chamam-me verme.

Tenho orgulho em ser verme. Ofendido ficaria se me chamassem homem.

Sou feliz. O destino colocou-me num sebo, no paraíso. Farto-me com livros antigos. A minha dieta são livros saudáveis, produzidas com celulose importada. Evito os atuais que têm gosto de petróleo plastificado.
 
Nessa semana mudei de prateleira. Delicio-me com O Cruzeiro, revista semanal ilustrada. Comecei roendo uma moça de batom vermelho e cabelos encaracolados na altura dos ombros. Fiz um furinho no quepe da enfermeira. A capa da revista era macia como a cútis da moça.

Em seguida encontrei o cardápio que percorri na diagonal. Apenas o número da página e o nome do prato ou matéria, como os homens dizem, eram insuficientes. Resolvi mordiscar diversas páginas como se fosse rodízio de antepasto.

Desprezei a página que informava que em 1942 os submarinos alemães torpedearam 24 navios mercantes na costa brasileira e que 767 homens morreram.

Poupei o bebê ensaboado com Eucalol.

Adiante uma imagem de um homem me chocou. Deveria estar triste por causa da guerra. Mas, não. A legenda dizia que era o desalento pelo estado de inércia carnavalesca. Nos anos anteriores os pré-festejos se alastravam desde o centro até à orla. por causa da guerra, deram lugar ao desânimo carnavalesco.

Eu queria provocar o paladar. Não apenas uma escolha bonita. Por isso não dei bola para o sabor fútil do desfile de modas no Copacabana Palace.

Sei que a gente não deve falar de boca cheia. Fiz pior. Chorei com um desenho num cenário de exposição. Uma senhora segura um vaso e comenta que fora feito há 75 anos. Ao lado, metido num summer branco, o Amigo da Onça pergunta se foi ela que fez.

Depois roí as cordas do violão do Tonico ou do Tinoco. Não me lembro! Recordo que a dupla de sucesso era formada pelo fotógrafo Jean Mazon e pelo jornalista David Nasser. Na imagem em preto e branco, um homem de bigodinho fino, camisa listrada dentro das calças folgadas e de chapéu de palha, segurava um instrumento próximo de uma fogueira. A legenda completava: “Nesta cena, os tamborins de pele de gato sendo retesados. Os gatos do morro do Rio de Janeiro viviam alarmados com a incessante busca.”

Evitei mastigar a página venenosa com um homem empunhando uma bombinha Flit assassinando baratas e mosquitos.

A minha sobremesa foram as frutas do chapéu da Carmem Miranda. Eu preferiria que as frutas estivessem com as cores vibrantes, tropicais, exuberantes. As frutas estavam um pouco amareladas, como o sorriso da atriz por causa do contrato com o estúdio que a forçava a aparecer em eventos com seus figurinos extravagantes.


Depois de tudo preciso de um licor, um digestivo.

28 março 2017

Apito do trem


Há gente que se debruça na janela e observa a grama crescer. Antigamente era assim comigo e eu nem percebia.

Da minha janela sempre pude me ver.

Em um dia de chuva, brinquei com os meus irmãos no playground. A tia da escola desenhou comigo a primeira letra do meu nome. O professor escreveu em inglês no quadro negro. No cinema, ganhei um beijo de língua. Colei na prova de cálculo de estruturas metálicas. Emoldurei a foto da a primeira casa que construí.

Um dia abri a janela e a aliança refletiu o sol. Contra a luz vi a ecografia com uma criancinha minúscula. Pisquei os olhos e vi um sorriso banguela. Esfreguei os olhos para enxergar direito e Carolina estava embarcando para Disney com as colegas debutantes. Carol estava grávida quando nos despedimos do meu pai no cemitério.

Fiquei surpreso ao constatar que os postes, as árvores, as casas e as pessoas passavam mais rápidos pela janela.

Acima da vidraça sempre havia uma cordinha para avisar ao motorista quando a gente queria descer. Nem sei se quero descer. Não há cordinha, nem ônibus, nem motorista, nem maquinista neste trem.

Pouco importa, se curva ou reta, sol ou chuva, a velocidade aumenta.

Da janela foi possível enxergar o médico receitando um comprimido diário de atorvastatina para combater o colesterol. Depois outras cápsulas para o diabetes e pressão alta. Antes uma cápsula, agora três. O reumatismo acena...

Ouço o apito.


Pela janela, confirmo que o vidro de remédios se esvazia na velocidade do trem.

21 março 2017

Antologia


Sentado num barzinho, fui fulminado com uma pergunta.

— Ó, Klotz, o que é antologia?

Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo não faria essa pergunta. Se eu fosse o Raimundo que amava Maria que amava Joaquim, eu também não saberia a resposta. O meu nome é Klotz, não tenho outro de pia.

Se eu estivesse na repartição seria normal esse tipo de pergunta. Estou longe de qualquer dicionário, porque hoje é sábado. Essa Rosa radioativa estúpida e inválida não deveria ter feito esse questionamento.

Perdido, sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos, procuro uma resposta. Desejei me esconder, desejei ir para Minas. Minas não há mais. Quis morrer no mar, mas o mar secou. Vou-me embora pra Pasárgada, sou amigo do rei. Volto para a minha terra que tem palmeiras onde canta o sabiá, que tem cadeiras onde posso sentar e procurar um desmancha-dúvidas.

Meu reino por um dicionário!

Deus, ó Deus, onde estás que não respondes? Preciso urgente de um pai dos burros.

Queixo-me da Rosa, mas a Rosa não fala, simplesmente perguntou o que é antologia.

Para todas as coisas: dicionário. Para que fiquem prontas: paciência. Rosa não tem paciência. Quer resposta. Tem uma pedra no meio do caminho! Cadê o maldito tira-teimas?

Toda pedra no caminho você pode retirar. De repente, não mais que de repente, surge o salvador, senta-se ao meu lado e consulto-o.

Coleção ou seleção de trechos em prosa e/ou em verso.”

— Obrigado, Aurélio!

Aurélio, garoto esperto, informa também que intertextualidade é a superposição de um texto a outro.

Mais uma vez, obrigado, Aurélio!

                                                                      Publicado em “Cara de crachá”

Pesquisa para o texto Antologia
“Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução.” — O gauche — Carlos Drummond de Andrade
João que amava Tereza, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili.” — Quadrilha — Carlos Drummond de Andrade
“O meu nome é Severino. Não tenho outro de pia.” — Morte e vida severina — João Cabral de Melo Neto
Porque hoje é sábado.” — O dia da criação — Vinícius de Moraes
“A rosa hereditária. A rosa radioativa estúpida e inválida.” — A rosa de Hiroshima — Vinícius de Moraes
Sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos.” — Alegria, alegria — Caetano Veloso
“Quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais.” — E agora, José? — Carlos Drummond de Andrade
“Vou-me embora pra Pasárgada, sou amigo do rei.” — Vou-me embora pra Pasárgada — Manuel Bandeira
Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como .” — Canção do exílio — Gonçalves Dias
Meu reino por um cavalo!” — exclamou Ricardo III na Guerra das Duas Rosas, conforme William Shakespeare
Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?” — Vozes d'África — Castro Alves
“Queixo-me às rosas, mas que bobagem, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti, ai.” — As rosas não falamCartola
"Para todas as coisas: dicionário. Para que fiquem prontas: paciência." — Diariamente — Nando Reis
“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.” — No meio do caminho — Carlos Drummond de Andrade
Toda pedra no caminho você pode retirar.” — É preciso saber viver — Roberto Carlos e Erasmo Carlos
“De repente, não mais que de repente, fez-se de triste o que se fez amante.” — Soneto da separação — Vinícius de Moraes

“Se você rouba de um autor, é plágio, se de vários, é pesquisa.” — Wilson Mizner
 
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