08 agosto 2009

Jerusalém, a nova Babel


O zum-zum-zum correu boca-a-boca: o Rei dos Judeus chegaria a Jerusalém logo mais à tarde. A fama de milagreiro chegara muito antes. Ouvíramos falar que ele mostrara arco-íris a cegos, que possibilitara a surdos a ouvirem música e ensinara coxos a pularem como cervos.
Muito ansiosos, esperamos por ele. Precisamos de mudanças, mas acho que exageram um pouco na esperança que a profecia das escritas sagradas se concretize. Dizem que reinará com justiça, será um abrigo contra a tempestade, será como um teto protetor contra a chuva torrencial, será como a água em lugar ressequido e será como a sombra de um alto rochedo em terra árida.
Falam que nasceu pobre, que é gente do povo. Que não usa coroa, nem manto nem jóias. Que seus trajes são iguais aos nossos. Dizem até que fala a nossa linguagem.
Ninguém aguenta mais os pesados impostos, a falta de pão e, principalmente, a humilhação dos poderosos. Precisamos de mudanças.
Todos queriam saudar a chegada do Messias, o salvador. Nos portões da cidade, havia multidões somadas aos costumeiros aleijados, corcundas, leprosos e outros farrapos humanos. A aglomeração e a sujeira naquele local estavam insuportáveis.
Procurei um lugar tranqüilo, menos tumultuado, longe da entrada para ver a chegada do futuro rei. Havia muita gente em toda estrada, da cidade até onde me postei. Estenderam vestes cobrindo o chão para recebê-lo. Resultou muito mais bonito que os tapetes do templo. O caminho estava tão colorido e vivo que lembrava um tapete de flores.
Fazia muito calor. Os ambulantes cobravam fortunas por um copo d’água, por uma vasilha de coalhada ou um punhado de damascos. Apesar de antiecológico, fiz como todo mundo, cortei uma folha de palmeira para me abanar.
Está cada dia mais difícil de morar em Jerusalém. Pessoas vindas de todos os lugares invadiram a cidade. O templo, que foi construído para ser habitado pelo Senhor, agora motiva a peregrinação da Páscoa e abriga as festas de Pentecostes e dos Tabernáculos. Cada evento em uma época diferente do ano para não sobrepor os negócios. O templo transformou-se em mercado. Há tendas com mercadorias e mercadores de todas as nacionalidades. Azeite grego, vinho romano, queijos celtas, nêsperas dos sírios, essências dos gauleses, tapetes persas, cerveja dos bávaros, mulheres da mesopotâmia e até miniaturas de pirâmides dos egípcios.
Se a procedência dos mascates é variada, variadas também são as moedas. Colocam no mesmo saco dracmas, denários e pondios de prata, sestércios de latão, musmis e kutruns de bronze. Assim como necessitamos de cambistas, precisamos dos tradutores. Há um, lá no templo, com uma placa que diz: ab hoc et ab hac – discorrer sobre alguma coisa que não entende. De que adianta? Poucos sabem ler.
A nós, hebreus, cabe conviver nessa nova Babel.
E agora, chega mais um forasteiro diretamente de Nazaré, lá da Galiléia. Este, ao menos é judeu e traz a expectativa de melhores tempos.
Por causa da peregrinação da Páscoa milhares de peregrinos vieram Jerusalém. Os ambulantes montam e desmontam suas barracas num piscar de olhos. Há gente de todo lugar: gregos, fenícios, romanos. Até acredito ter visto um japonês tirando fotos.
A tarde foi passando e enquanto o profeta não vinha fui a uma barraca de um fenício para comer um espetinho de pomba passado na farofa. Fiquei furioso porque, além do carneiro e das pombas, no braseiro havia carne contrabandeada. Carne de porco! Os rabinos proibiram a carne de porco há muito tempo. Eu protestei com o assador, mas ele fez de conta que não entendia nada do que eu dizia. Devolvi a pomba e exigi meus shekels de volta. Preciso anotar isso, estou convicto que um dos cavaleiros do apocalipse trará a gripe suína.
Minutos depois Cristo apareceu na curva. Foi a minha sorte estar com as mãos vazias, peguei a minha folha de palmeira e também abanei o homem que veio trazer a fé por dias melhores.
Quase toquei nele, passou bem pertinho. Pude ver o brilho dos seus olhos. Cavalgava ereto. Usava um manto vermelho desbotado pelo sol e sandálias iguais às minhas. O belíssimo cavalo branco estava com a crina aparada e parecia saber que estava levando alguém importante.
Jesus, a família dele, seguidores, escribas, e o pessoal de uma emissora de tevê, todos acompanharam o mestre. Todos no mesmo caminho, pisando e tropeçando sobre o tapete de vestes.
Em vez de seguir a multidão, resolvi esperar um pouco e comer alguma coisa numa barraca de um compatriota. Eu saboreava um kishke quando um romano, naquele sotaque carregadíssimo, comentou comigo que o rei chegara de jerico.
Ele entendeu tudo errado, distorceu a realidade: Jesus veio de Jericó!
Eu imagino que esse deve ser um daqueles exploradores que têm uma lojinha no templo e se diz tradutor juramentado. Depois dizem que eu não capto a importância daquilo que passa na frente do meu nariz.

05 agosto 2009

Tomates educativos


Não. Não. Não! É preciso dizer não. Deveria ser obrigatório negar. Deveria ser imperativo proibir. Dizer não é ensinar, é educar.

Ontem fui ao supermercado para comprar frutas e legumes. Quando cheguei à gôndola dos tomates, uma senhora gorda e sem modos ocupava todos os espaços em movimentos rápidos e loucos, atirando os tomates rejeitados em todas as direções, impedindo que qualquer outro cliente se aproximasse. Totalmente à vontade, sem a menor consideração, a mulher jogava frutos nas pessoas e no chão. Ao redor, havia pelo menos cinco incrédulos consumidores que, num misto de espanto e riso nervoso, reprovavam a atitude silenciosamente. Pasmado, juntei-me a eles.

Um garoto de uns dez anos se aproximou, tentou pegar um tomate e quase levou um bofetão. Na mesma hora, sem pestanejar, pegou um dos tomates lançados ao chão e atirou na testa da balofa senhora.

Todos aplaudiram a atitude do menino. Só aí a gorda parou com os gestos agressivos, egoístas e desrespeitosos. Fez um muxoxo de desprezo e virou-nos as costas como se ela é que fosse a grande vítima do episódio.

A platéia recolheu os frutos do piso, recolocou na gôndola e, de forma civilizada, cada um escolheu aqueles que considerava os melhores. Depois o mundo voltou a ser aquilo que sempre fora.

Será?

O meu carrinho já estava pela metade. Detergente, lustra móveis, sabão. Desodorante, pasta dental, algodão. Açúcar, óleo de soja, feijão. Laranja, abacaxi, melão e tomate.

Os tomates tiraram meu ritmo.

A partir daquele momento, só pensei no nosso caos de cada dia. Ainda há pouco, vi duas pessoas disputando a mesma vaga no enorme estacionamento. Adiante, uma zelosa mãe pegou uma maçã, esfregou na própria roupa e ofereceu ao filhinho choramingão. Depois, observei um moço retirando um bombom de um pacote fechado. Ele ainda me perguntou, de boca cheia, se eu também queria um, antes de jogar o papel no chão. Ninguém é advertido, ninguém é punido, ninguém passa constrangimento. Tudo é feito à vista, sem nenhum acanhamento.

Estes pequenos delitos, faltas e desvios, na verdade, grandes absurdos, parecem ser bem absorvidos pela nossa sociedade. Eles são terríveis quando praticados pelos outros. Teoricamente, nós podemos, nossos filhos podem. Nada proibimos aos nossos. Este é o nosso problema: a impunidade.

Falta educação! Precisamos educar a nossa sociedade como um todo. O sistema está podre na base. Pai e mãe por precisarem trabalhar o dia todo, estão ausentes na educação dos filhos. No pouco tempo de convívio, preferem ser amáveis e gentis a serem duros e rigorosos nos valores éticos e morais. Relaxam a guarda e são totalmente permissivos em todos os atos dos filhos. Os filhos crescem e já não há mais como retomar alguma autoridade. Por necessidade, repassam a educação dos filhos para a escola. Infelizmente os professores estão despreparados para educar e lhes é negada a autoridade para isso. Cabe aos professores apenas a obrigação de ensinar as matérias curriculares. Aos alunos não são colocados limites. A garotada tudo pode.

O problema é mais grave porque não me refiro apenas à atual geração. Isto já acontece há muito tempo. Temos toda uma sociedade permissiva. Ninguém proíbe. Quando há proibição, não há punição, logo, há desobediência.

As autoridades não servem como exemplo.

Marginais, políticos e bandidos de colarinho branco têm a certeza da impunidade.

Hoje, com o menino do supermercado, aprendi uma grande lição. Não ficarei mudo e omisso frente à impunidade. Eu, ao menos, farei justiça com as próprias mãos.

A partir de agora, sempre terei uma sacola cheia de tomates maduros. Estarei pronto para acertar a testa dos incautos que atravessarem um sinal vermelho, que estacionarem em fila dupla, que fumarem dentro do elevador. Também haverá tomates para artistas que atrasarem espetáculos, para os responsáveis pelos buracos da rua, para os responsáveis pelo mau atendimento médico, para o cambista na porta do estádio, para os jornalistas omissos, políticos corruptos e empresários corruptores.

Acredito que este esporte pode até ser divertido e virar mania nacional. Pisou no tomate? Leva tomatada! O mundo vai ficar vermelho.

Quando acabarem com os tomates, será a vez das berinjelas, pepinos, jilós e repolhos. Até consigo imaginar o repórter do jornal televisivo ameaçando com um maço de aipo na mão.

Começarei amanhã mesmo. Irei munido ao banco. Sabe o que pode acontecer se eu for atendido após 15 minutos de espera?

Começarei amanhã mesmo. Irei munido ao banco. Sabe o que pode acontecer se eu for atendido após 15 minutos de espera?

Em represália, todos da fila e funcionários também jogarão tomates em mim.


 
Search Engine Optimisation
Search Engine Optimisation