Vou ficar rico. Vou ficar muito rico. Descobri a fórmula para fazer chover. É infalível. Descobri através de uma teoria que eu desenvolvi por conta da observação e prática graças à minha larga vivência. Em primeiro lugar vou oferecer meus préstimos ao nordeste, particularmente à zona do agreste. Depois que todos os açudes estiverem a ponto de sangrar oferecerei meu amparo à região árida da África. Naquelas bandas muita gente também sofre com as agruras da seca. Uma vez atendidas as regiões carentes passarei a cobrar meus serviços. Em euros. Portugal, França, Itália e Grécia também sofrem muito com as secas. Dos americanos, lá da Califórnia, também cobrarei em euros. Valem mais que dólar. Difícil vai ser transportar meu carro para todos estes lugares. Não abro mão. Preciso estar sempre com o meu carro. Aqui em Brasília já estávamos com clima arrasadoramente seco. A umidade chegou a 14%. Gramados esturricados e lábios rachando. Vocês sabem o que fiz?– Lavei meu carro. O que aconteceu? – Choveu e sujou meu carro de novo. – E daí? Daí que lavei o carro de novo. E choveu de novo. Este método é infalível.
Chego emcasadepois de maisum estafante dia de trabalho e a confusão está instalada: madame chora na frente do fogão.
Sempre a tratei muitobem. Quasenãolhefaltanada. Hoje, como nos últimos 35 anos, acordei-a comumdelicadobeijo na testa, preparei o café e misturei colherinha e meia de açúcar. Beijei-a na saída. Melhor dizendo, beijei-a na boca, ao sair. Senti saudades e retornei direto do trabalho para casa ao fim do dia.
Vejo que há uma série de xícaras espalhadas pela mesa da cozinha, um pacote de massa para bolo, um termômetro, a calculadora, alguns ovos de codorna, várias colheres de tamanhos diferentes, a jarra de leite, o pote de margarina derretida e o velho despertador barulhento.
Tomo-a emmeusbraços e pergunto o que foi que aconteceu.
Soluçando, responde que desejava preparar uma festinha só para nós dois, mas a receita do pacote estava por demais complicada:
BOLO DE CHOCOLATE
Ingredientes:
1
pacote de massa de bolo de chocolate
¾
de xícara de leite
3
ovos
2
colheres de margarina à temperatura ambiente
Misture tudo até formar massa homogênea; Unte e enfarinhe uma forma redonda com furo no meio; preaqueça o forno em temperatura média por quinze minutos; Não abra o forno antes de 30 minutos; após esfriar por 15 minutos, desenforme e sirva.
– Veja só quantas xícaras diferentes nós temos aqui: a do seu café, aquela outra de plástico, a do jogo de porcelana que ganhamos no nosso casamento... e todas têm tamanhos diferentes, – Ovos podem ser de codorna, de pata, de galinha caipira, brancos, de páscoa e... Enxugando as lágrimas. Qual dessas colheres? Uso a do diário ou devo usar a do faqueiro de prata?
Segurei-a pelamão, arrastando-a até a sala. Acomodei-a no sofá. E fui buscardoiscálices. Enquanto servia umporto, protestei:
– A culpa é da impunidade! Neste país as pessoas fazem o que querem e ninguém é responsabilizado pornada. Passam nossinaisvermelhos, assaltam, não fecham as pastas de dentes... Todosessescalhordas deveriam serexemplarmente punidos! Paraque serve o InstitutoNacional de Pesos e Medidas? Vou entrarcommedida cautelar, seja lá o queisso queira dizer!
Irado, continuo meuprotesto:
– Cientistas do mundointeiro se reúnem, estudam e definem quequilograma é a massa do protótipointernacional constituído porumcilindro de platina e 10% de irídio depositado no BureauInternacional de Pesos e Medidas, e ainda que o metro é igual ao comprimento do trajeto percorrido pelaluz no vácuoduranteumintervalo de tempo de 1/299 792 458 de segundo e...que diabos!
Virei o cálice de vinhoparalubrificar a garganta e continuei:
– Estes fazedores de receitas culinárias estão nos cozinhando! Como vamos definir o que é uma pitada? Quantas gramas? Uma colher rasa de farinha? Então, além das colheres de chá, sopa e sobremesa, ainda podem ser cheias, bem cheias e rasas? Aí, ainda tem a história de meia xícara, três quartos de xícara ao invés de dizerem que se trata de tantos mililitros. Tenham a santa paciência! Forno à temperatura média. Estes escritores de receita deveriam cumprir pena com trabalhos forçados.
Sirvo-me de outra tacinha de porto, viro de umsógole e continuo no meudiscurso:
– A falta de uniformização das medidas é umretrocessopara a nossanação. Sucrilhos, macarrãoinstantâneo, molho de tomate, geléia, coco ralado, sapatos... Nada está padronizado. Estamos a léguas de distância dos povosdesenvolvidos!
Resolvi respirar e dar umdedo de prosa:
– Querida, vocêsempre soube prepararcomidas maravilhosas. Jamais precisou de enciclopédias para preparar um simples bolo de chocolate. O que foi que houve? De verdade?
– Bom, eu só tinha ovos de codorna. Então quis saber quantos ovos de codorna seriam equivalentes a um de galinha. E, principalmente queria saber onde você havia escondido a garrafa de vinho do porto.
– Ó, von Silva, o que é antologia? Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo não faria essa pergunta. Se eu fosse o Raimundo que amava Maria que amava Joaquim, eu também não saberia a resposta. O meu nome é von Silva, não tenho outro de pia. Se eu estivesse na repartição seria normal este tipo de pergunta. Estou longe de qualquer dicionário porque hoje é sábado. Essa Rosa radioativa estúpida e inválida não deveria ter feito esse questionamento. Perdido, sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos, procuro uma resposta. Desejei me esconder, desejei ir para Minas, Minas não há mais, quis morrer no mar, mas o mar secou. Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei. Volto para a minha terra que tem palmeiras onde canta o sabiá, que tem cadeiras onde posso sentá e procurar um desmancha-dúvidas. Meu reino por um dicionário! Deus, ó Deus, onde estás que não respondes? Preciso urgente de um pai-dos-burros. Queixo-me da Rosa, mas a Rosa não fala, simplesmente perguntou o significado de antologia. Para todas as coisas: dicionário, para que fiquem prontas: paciência. Rosa não tem paciência. Quer resposta. Tem uma pedra no meio do caminho, cadê o maldito tira-teimas? Toda pedra no caminho você pode retirar. De repente, não mais que de repente surge o salvador e consulto o verbete: “Coleção de trechos em prosa e/ou em verso.” – Obrigado, Aurélio! Aurélio, garoto esperto, informa também que intertextualidade é a superposição de um texto a outro. – Mais uma vez, obrigado, Aurélio!
Pesquisa para o texto Antologia
“Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução.” – O gauche – Carlos Drummond de Andrade “João que amava Tereza, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili.” – Quadrilha – Carlos Drummond de Andrade “O meu nome é Severino. Não tenho outro de pia.” –Morte e vida severina – João Cabral de Melo Neto “Porque hoje é sábado.” – O dia da criação – Vinícius de Moraes “A rosa hereditária. A rosa radioativa estúpida e inválida.” – A Rosa de Hiroshima – Vinícius de Moraes “Sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos.” – Alegria, alegria – Caetano Veloso “Quero ir para Minas, Minas não há mais, quer morrer no mar, mas o mar secou.” – E agora, José? – Carlos Drummond de Andrade “Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei.” – Vou-me embora pra Pasárgada – Manuel Bandeira “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá.” – Canção do exílio – Gonçalves Dias “Meu reino por um cavalo!” – exclamou Ricardo III na Guerra das Duas Rosas, conforme William Shakespeare “Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?” – Vozes d'África – Castro Alves “Queixo-me às rosas, mas que bobagem, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti, ai.” – As rosas – Cartola "Para todas as coisas: dicionário, para que fiquem prontas: paciência." – Diariamente – Nando Reis “No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.” – No meio do caminho – Carlos Drummond de Andrade “Toda pedra no caminho você pode retirar.” – É preciso saber viver – Roberto Carlos e Erasmo Carlos “De repente, não mais que de repente, fez-se de triste o que se fez amante.” – Soneto da separação – Vinícius de Moraes “Se você rouba de um autor, é plágio, se de vários, é pesquisa.” – Wilson Mizner
Há sete meses, diariamente beijo a foto do meu filho. A última vez que o vi foi no dia 1 de junho de 1944. Subia a rampa de embarque do General Mann, ancorado no reflexo do Pão de Açúcar. Acenou com a mão direita enquanto a esquerda segurava um saco com coturnos, agasalhos e outro uniforme verde oliva. Faz tempo que não recebo uma carta. Aperto no peito este envelope com o timbre do exército. As dele, não tinham timbre. Não quero abrir, quero ficar com a esperança.
Os vidros são claros: nada tenho a esconder. Tem ar condicionado: não preciso de desculpa para ventilar perfumes diferentes do seu. A cadeirinha da nenê mostra meu orgulho de ser pai. O crucifixo pendurado no espelho indica que meu carro é um local sagrado.
Quanto ao brinco encontrado, tenho certeza que você o colocou aí só para testar a minha fidelidade.
Já conversei com uma viúva. Anteontem faleceu uma amiga de amiga. A gripe suína está entre nós. O governo não está preparado e não tem plano contra a gripe. O Brasil rico que empresta dinheiro para o FMI não tem grana para adquirir as vacinas e está economizando. Deveriam imunizar os pacientes suspeitos na primeira consulta. Brigar contra a gripe. Atacar os focos em vez de permanecer na defensiva, poupando vacinas e esperando a gripe atingir toda a população. Que esqueçam o sonho do Présal e cuidem da realidade. Há motivos para alarme, sim. Esta também não é nenhuma marolinha. Se não há vacinas, agora, para os poucos pacientes, teremos o caos instalado muito breve quando os pacientes contagiados se multiplicarem feito moscas. Apodreceremos nas calçadas e o governo não terá de quem cobrar impostos
Pepino e farofa são crônicas bem humoradas resultantes de 50 anos de inexperiência no comando de um fogão onde a comida é o prato principal.
No divã do psicanalista convence que o milho afasta a depressão e a solidão. Uma formiga em cima da bancada é motivo para uma fábula. Explica como um violão pode influenciar na preparação do almoço.
Só foi possível escrever o livro graças à minha mãe que, na infância, incentivou-me a brincar de carrinho em vez de comidinhas e panelinhas.
160 páginas ao preço de R$ 28,00
Quase pisei!é um livro de crônicas com temática andante. Os mortais caminham, Klotz viaja na criatividade. Com escrita na primeira pessoa do singular, convence os leitores de que tudo é verdade e que aconteceu com ele. Também nos dá a impressão que o mundo só começa a acontecer quando calça o tênis e sai para a rua. Seu olhar de cronista sempre está atento através de lentes irônicas, bem humoradas e às vezes poéticas, quando coloca os óculos líricos. O entusiasmo e a alegria do autor são contagiantes.
160 páginas ao preço de R$ 28,00
Quer um livro(s)? Por favor, envie seu endereço para r-klotz@uol.com.br. A dedicatória é para você?
A postagem é por minha conta. Acrescento centavos para identificar o depositante.
Depósito no Banco do Brasil Ag: 2873-8 CC: 602925-6
Roberto Klotz é um engenheiro que saltou do topo do prédio recém-construído e estilhaçou-se em parágrafos. Nasceu no século passado. Bem-humorado, crítico, vacinado, analfabeto, irônico, paulistanamente candango. Suas histórias muitas vezes têm finais surpreendentes. Enquanto aprendia a cozinhar, escreveu Pepino e farofa, um livro de aventuras culinárias, engordou de tantas pizzas encomendadas. Para perder peso, o médico recomendou que caminhasse. Durante as caminhadas encontrou elefante, lâmpada mágica, cão bravo, pegadas de onça, muito cocô e 45 motivos para exercitar o bom humor em Quase pisei!